RIP Cory... sempre vou te amar e continuo dedicando a você tudo que eu escrevo, afinal eu voltei a ter sonhos graças a essa brincadeira de escrever fics Finchel.
Rachel estacionou o Maybach Landaulet novíssimo e branquíssimo, que tinha feito questão de dirigir, em sua vaga privativa no estacionamento da mansão na qual funcionava o clube BDSM, entre o Karmanguia vermelho de colecionador de Harmony e o Range Rover preto de Kitty. Saltou do carro e, apesar de tudo, conseguiu sorrir, observando o quanto os modelos dos automóveis refletiam bem as personalidades que suas melhores amigas e ela assumiam ao visitar aquele lugar.
A mansão era enorme e gritava luxo, tanto quando vista pelo lado de fora quanto em cada de seus cômodos abertos aos sócios. No andar mais alto, havia quartos com tratamento acústico onde podia ser praticada a dominação sexual, mas dentro do imóvel existiam também bares, restaurante, salas privativas para conversar em grupo, salas de jogos, saunas e piscinas aquecidas, como em um clube de luxo comum. Era, enfim, um espaço de interação, para pessoas que tinham algo peculiar em comum pudessem se conhecer ou, simplesmente, falar sobre as suas inusitadas preferências, o que normalmente só podiam fazer umas com as outras.
A Srta. Berry caminhou até uma das salas privativas, que já tinha sido reservada, mais cedo, para que ela pudesse conversar com Kitty e Harmony, uma vez que este era o objetivo de sua visita, e não conhecer alguém ou participar de qualquer jogo erótico. Ela precisava de Kitty, que era dominadora como ela, e também tinha ingressado naquele mundo por causa de traumas do passado, para entender o que estava acontecendo com seus sentimentos, e de Harmony, que era submissa no sexo, para tentar compreender o que Finn deveria estar sentindo.
É claro que qualquer mulher na situação dela recorreria a amigas ao passar por um impasse em seu relacionamento, mas, no caso dela, era fundamental que suas melhores amigas fizessem parte do clube, porque o relacionamento conturbado não era do tipo convencional e ela imaginava que os conselhos convencionais não se aplicariam. Nunca fora tão grata por ter conhecido as duas logo em sua primeira visita ao clube, quando levada por um rapaz com quem tinha iniciado um relacionamento e que, diferentemente de todos os outros, que apenas se afastavam, tinha percebido que ela só sentia prazer quando ficava no controle, e decidira apresentar-lhe o lugar certo, onde encontraria as pessoas certas.
Ao chegar à iluminada sala, decorada com sofás e poltronas de camurça marfim e mesas de mogno bem escuro com tampos em mármore rosado, encontrou Kitty, com seus cabelos loiros presos em um rabo de cavalo alto, os olhos destacados por uma maquiagem escura e os lábios propositalmente pálidos, o corpo desenhado por um macacão de couro todo justo, com estampa de cobra e um scarpin preto bastante alto nos pés. Cumprimentou a garota com um abraço e se dirigiu a Harmony, que contrastava com a amiga em tudo, a começar pelos cabelos muito escuros, que estava soltos e arrumados em ondas, passando pela maquiagem, cujo destaque maior era o do batom vermelho, e terminando na roupa, que completava o visual no estilo pin-up: um tomara que caia branco com bolinhas pretas de saia godê, com um cinto amarelo de verniz marcando a cintura, e um par de peep toes com as três cores nos pés.
Se Kitty e Rachel tinham convivido desde muito cedo com a tirania masculina e, por essa razão, tinham acabado se encontrando ao assumir posições de dominadoras em suas relações, Harmony, por sua vez, buscara se colocar na posição de submissa e acessar o seu lado mais feminino possível por meio do clube, porque assumira muito jovem uma posição que lhe exigia uma postura um tanto masculina, ao entrar para o exército dos Estados Unidos da América. Quando não estava vestida com uniformes escuros ou camuflados, e dirigindo jipes, fazia questão de se embonecar ao máximo e dirigia até o clube em seu carrinho vermelho de estofado em couro branco, para tomar drinques doces, coloridos e enfeitados e ter certeza de que ainda era uma dama.
"Então, qual era a emergência?" Foi a própria Harmony quem perguntou, após os cumprimentos.
"Parece ser sério!" Kitty disse, sem disfarçar que estava olhando a amiga de cima a baixo e estranhando seu pouco preparo para visitar o clube.
Rachel normalmente usaria vestidos sensuais e sofisticados, com grandes decotes e fendas, ou transparências que sugeriam mais do que mostravam. Se fosse o caso de ter um encontro privado com um sub, traria as fantasias em uma bolsa, mantendo o ar requintado nos ambientes públicos do local. Naquela noite, no entanto, estava usando uma calça jeans escura justa no corpo, com uma camiseta preta de seda e ankle boots. Ainda estava mais sexy, linda e elegante do que a maior parte das mulheres que Kitty conhecia, mas estava casual, como se elas estivessem em um bar convencional ou em alguma das muitas viagens que tinham feito, para praticar esportes radicais ao redor do mundo.
"É sério." Suspirou, se jogando em uma poltrona. "É bem sério!"
"Fala! Você tá me deixando preocupada." Pediu Harm e Kitty concordou, balançando a cabeça.
"Meu sub me deixou e isso me abalou... e isso nunca tinha acontecido antes."
"Como assim abalou?" Foi a vez de Kitty questionar.
"Abalou... de verdade. Mexeu comigo!" As amigas continuavam com um semblante questionador. "Eu... sinto falta dele." Respirou pesadamente. "Eu até chorei." Acrescentou, realmente baixo, enterrando o rosto entre as mãos.
"O que?" Ouviu uma delas perguntar, não por espanto, mas por não ter mesmo escutado.
"EU CHOREI, DROGA!" Gritou. "Eu simplesmente comecei a chorar, que nem uma louca, descontrolada, quando ele foi embora." As duas amigas se entreolharam, enquanto Rachel mantinha os olhos grudados no chão acarpetado.
"Você tá apaixonada." Harmony disse, com cuidado.
"O QUE?" Berry gritou de novo. "Não, eu não posso!" Sacudiu a cabeça, negando, nervosamente. "Eu não posso. Eu NÃO Posso!" Continuou a negar e se levantou, caminhando de um lado para o outro. "Eu fiz tudo certo! Eu não deixei ele me beijar... eu... não deixei ele me chamar pelo meu nome... eu não dormi com ele... eu não sei quase nada sobre ele." Então, ela parou e olhou para Kitty. "Eu fiz tudo que a gente aprendeu aqui... eu juro!"
"Rachel, você não precisa jurar nada pra gente... eu acredito que você tenha seguido as regras." A loira assegurou. "E, mesmo que não tivesse seguido, você não tem esse tipo de obrigação e eu jamais te criticaria!"
"Mas eu segui!"
"Eu sei, amiga." A outra levantou-se e a pegou pelas mãos, levando-a até a poltrona, para que pudesse sentar-se novamente. "Eu acredito em você, porque sei o quanto era importante pra você se manter no controle." Continuou. "Só que todas essas regrinhas... de não beijar, evitar carinhos, conversas e tudo mais... são pra tentar manter o submisso e o dominador cada um na sua posição, TENTAR evitar um envolvimento, porque os sentimentos podem fazer com que os papéis deixem de ser assim tão bem determinados."
"E eu segui todas elas, justamente porque eu preciso que os nossos papéis estejam muito bem determinados." Reforçou, aflita.
"Sim, mas você não me ouviu? Eu falei TENTAR!" Afirmou e Rachel a olhou, confusa. "Rachel, nós somos seres humanos! Mesmo que você siga um monte de regras e tente se proteger, você sempre pode gostar de alguém... se apaixonar por alguém."
"Isso não podia ter acontecido." Disse, não negando mais. Sentiu um nó na garganta e as lágrimas querendo cair de seus olhos.
"Por que ele foi embora, Rach?" Harmony perguntou, se aproximando e segurando as mãos dela, com carinho. "Você disse pra ele que estava gostando dele..."
"Não!" Interrompeu, antes que a outra pudesse sequer concluir. "Não, muito pelo contrário. Ele me beijou e..."
Então Rachel contou todos os detalhes sobre Finn, sobre como tinha convidado um rapaz que nunca tinha sido submisso para sê-lo, sobre quanto ele tinha mudado ao longo do tempo, sobre tudo que ele havia falado antes de deixar sua casa, sobre o pedido de demissão dele e, enfim, sobre como estava se sentindo mal por não tê-lo mais como submisso, depois de passar os melhores meses de toda a sua vida, sem ter se dado conta.
"Eu não sei o que fazer sem ele." Afirmou, enfim. "Mas também não sei lidar com gostar de alguém! Eu nunca quis isso pra minha vida... isso me apavora!"
"Rachel, o Finn não é o seu padrasto... e, por tudo que você contou sobre ele, ele não é nem um pouco do tipo do seu padrasto." Harmony comentou.
"Desculpe, Harm, eu sei que você quer ajudar, mas... pra você é diferente! Você foi criada por pais amorosos, que são casados até hoje... sua mãe e seu pai sempre cuidaram de tudo juntos... os dois trabalhando fora, os dois presentes na vida dos filhos. Seu pai apoiou sua ida pro exército... ele é quase um feminista." Riu, mas logo em seguida retomou o tom sério. "Você é tão bem resolvida com isso que você vem pra cá pra brincar de ser objeto sexual."
Harmony não ficou chateada com Rachel e até entendeu. Realmente, para ela, era mais uma questão de ter um lugar para ser feminina, de ter homens que a vissem como mulher, e não como uma superior cujas ordens obedeciam ou como uma subordinada a quem dar ordens, de poder ficar bonita, usar maquiagem, roupas alegres. Os jogos sexuais eram muito legais, mas apenas isso, pois não representavam nenhum refúgio. Ela era realmente bem resolvida, tanto que, ao contrário das amigas, que sempre foram somente dominadoras, ela já tinha brincado nas duas posições, entre quatro paredes. Talvez estivesse mesmo subestimando o problema de Rachel, então preferiu apenas segurar ainda mais forte e fazer carinho nas costas das mãos dela.
"Pois eu concordo com a Harm." Foi a vez de Kitty falar. "O Finn não é nenhum daqueles machistas idiotas e perigosos que passaram pelas nossas vidas. Se você se apaixonou por ele, e ele também tá apaixonado por você, talvez tenha chegado a hora de você deixar de se esconder aqui, Rach."
"E fazer o que? Ter uma relação com ele? Namorar?" Questionou, como se estivesse falando de algo extremamente absurdo.
"E por que não, amiga? Talvez a vida esteja te apresentando uma chance única."
"Você tá me dizendo isso porque não é com você." Indignou-se.
"Não." Contrariou, séria. "Na verdade, eu to te dizendo isso porque eu QUERIA que fosse comigo." Ela encarou os olhos arregalados da morena. "Eu não quero mais essa vida, Rachel. Eu gosto dos brinquedos sexuais e acho que eu sempre vou gostar de me vestir assim, de vez em quando." Riu. "Mas não quero mais uma relação onde eu mando em alguém... aliás, tem tempo que eu não quero."
"Como?"
"Eu me apaixonei por um sub também, mas eu não tive a mesma sorte que você e... ele não se apaixonou por mim." Deu de ombros."Foi aí que eu vi que, enquanto eu investir nesse tipo de relação, eu vou estar investindo em não me envolver e... eu quero amar, ter uma família um dia."
"Em tese em concordo, mas... eu tenho MEDO! Os homens me dão medo." Respirou com dificuldade.
"Rach, eu também tive medo durante muito tempo! Eu entendo você. Mas a terapia e o convívio com amigos me mostraram que nem todo homem é que nem o Bob." Disse, se referindo ao irmão de uma colega de escola que havia abusado dela sexualmente, quando estava entrando na adolescência.
"Você tem uma escolha a fazer, amiga." Harmony ousou voltar a participar da conversa. "Você é a única que pode decidir entre enfrentar o medo e... perder o Finn e continuar vivendo uma vida superficial."
"É... porque tá claro que ele quer você." Kitty concordou. "Mas ele quer você inteira... e não só uma pequena parte."
O que as amigas disseram fez Rachel ficar pensativa pelo resto da noite, enquanto elas tomavam alguns drinques e falavam de outros assuntos, como a recente promoção de Harmony a coronel e o exame que Kitty tinha feito em um leão, na semana anterior, o que só fez Rachel pensar ainda mais em Finn e na jaula nova, que eles tinham planejado usar juntos muitas vezes e agora parecia condenada a ficar obsoleta.
Eram mais ou menos onze e meia quando elas saíram do clube e não passava de meia noite e dez quando Rachel chegou a um edifício baixo e antigo, localizado em um dos poucos bairros totalmente residenciais da Filadélfia. Era bem diferente do arranha-céu onde morava, localizado mais perto da Market Street, onde ficavam os escritórios da empresa. Lembrava a ela o lugar onde tinha crescido, mas especialmente chamava atenção por ter o mesmo charme despretensioso da pessoa que ela tinha ido ver ali.
Não fora tão difícil conseguir o endereço, a não ser que consideremos difícil acordar o rapaz que trabalha há algum tempo como motorista e segurança da pessoa, e fazê-lo ir até o carro, estacionado vários andares abaixo, para procurar um registro no GPS. Fora mais fácil ainda chegar até lá, tendo um automóvel com o dela, também com sistema de posicionamento global disponível. Complicada, provavelmente, iria ser a conversa que ela teria com o morador do apartamento 202.
Finn demorou para atender o interfone porque achou até que estava delirando ou que alguém tinha tocado por engano. Diante da insistência, no entanto, caminhou até o aparelho, esfregando os olhos e bocejando. Tinha acabado de pegar no sono e já estava xingando pelo menos as três próximas gerações de quem quer que estivesse ligando para seu apartamento, porque tinha sido uma tarefa muito difícil adormecer e, depois que ele falasse, previa que horas de insônia pensando em Rachel viriam, mais uma vez, como na noite anterior.
O rapaz, a princípio, duvidou dos próprios ouvidos quando a pessoa que tocara se identificou, dizendo ser Rachel, mas apertou o botão que abria o portão do edifício, porque a voz era, sem dúvida, dela, e ele, então, passou de confuso e sonolento a preocupado. Por que ela teria ido até aquele ponto da cidade, ainda mais àquela hora da noite, para falar com ele? O que poderia ser tão urgente?
"Rachel, o que houve? O que você tá fazendo aqui?" Perguntou, sem hesitar, quando ela finalmente apareceu em frente à sua porta já aberta.
"Será que eu posso entrar?" Pediu, muito mais humildemente do que de costume.
"É... claro! Me desculpa." Chegou para o lado e apontou com um dos braços para dentro.
"O que é isso aqui, Finn?" Questionou, retoricamente, mostrando-lhe a carta de demissão que ele enviara ao RH, depois que ele fechou a porta e se virou em sua direção. "Por que isso? Você não precisa..."
"É claro que eu preciso!" Ele foi rápido em afirmar. "Você nunca vai entender que eu preciso ficar longe de você?" Enervou-se.
"Eu não aceito isso, Finn!" Retorquiu, séria. "Eu NÃO aceito seu pedido de demissão."
"Não aceita?" Riu, irônico. "Você sabia que pedido é só uma maneira de dizer, né? Que essa carta é um aviso e... eu tenho todo o direito de não trabalhar pra alguém com quem eu não quero trabalhar, certo?"
"Errado!" Teimou. "Completamente errado! Você é um ótimo funcionário e vai continuar trabalhando na minha empresa." Desafiou, se aproximando perigosamente dele, que não estava entendendo nada! Será que ela estava achando que poderia seduzi-lo e fazer com que ele continuasse sendo seu funcionário na empresa e também seu sub? Se era disso que se tratava a ida dela à casa dele, ela estava enganada e perdendo tempo! Ele havia demorado a tomar uma decisão, mas, agora que o tinha feito, não voltaria atrás.
"Eu já disse, Rach." Sequer sentiu o apelido escapar, ao sentir as mãos dela repousarem com leveza em seu peito e os olhos dela encararem os seus, com um brilho diferente daquele cheio de malícia que ela costumava lhe lançar. "Eu já expliquei que preciso ficar longe de você."
"Isso é outra coisa que eu..." Respirou fundo e se encheu de uma coragem que não sabia ter. "Eu não consigo aceitar, Finn." Declarou, ficando nas pontas dos pés o mais alto que pode, e puxando o pescoço dele, para colar seus lábios mais uma vez.
Dessa vez, os dois viveram juntos os segundos mais longos de suas vidas. Ele, porque não sabia exatamente o que aquela iniciativa de Rachel significava, e ela, por não ter a menor ideia de que tipo de reação poderia esperar dele, depois de tudo.
