Uma terrível e triste notícia alvoroçou a comunidade bruxa nos idos do mês de junho: apesar da segurança extremamente reforçada em Hogwarts este ano, Comensais da Morte conseguiram invadir o castelo, e assassinaram ninguém menos do que o diretor Alvo Dumbledore.

Com toda essa desgraça acontecendo – alunos e professores de Hogwarts duelando contra Comensais da Morte, Dumbledore morto, o prof. Snape foragido, acusado de ser ele o assassino – qualquer sentimento de raiva ou de mágoa que Penny estivesse sentindo em relação ao seu pai por conta do Voto Perpétuo simplesmente desapareceu. Tudo o que importava era saber se ele e Ben estavam vivos, e quando estariam de volta, de preferência sãos e salvos, ao lar em Godric's Hollow.

Depois do que pareceu ser uma longa espera, o correio coruja finalmente apareceu trazendo a carta que ela vinha aguardando ansiosamente desde a notícia da morte de Dumbledore.

- Até que enfim, uma resposta do meu pai – ela disse segurando o pergaminho, sentada ao lado da janela aberta da sala de estar, de onde uma coruja bege e vistosa tinha acabado de sair sobrevoando o céu crepuscular. – Ele diz que as aulas em Hogwarts foram suspensas e os exames adiados, e parece que estão querendo fechar a escola no próximo ano. Mas o meu pai e o Ben só vão voltar para casa amanhã, depois de prestarem as últimas homenagens a Dumbledore.

- E como vamos contar a ele? – indagou Gustavo. – Como vamos fazer para contar a ele sobre a minha licantropia?

- Não precisamos contar. Que diferença isso vai fazer quando nos mudarmos daqui?

- Temos que contar, Penny, não temos escolha; amanhã será noite de lua cheia e eu não posso sair daqui enquanto ele não chegar.

- Como assim, Gustavo? – perguntou Penny se aprumando na cadeira. – Por que não me contou antes?

- E como eu ia saber que eles iriam voltar mais cedo? Mas nós precisávamos contar de um jeito ou de outro; não podemos mais continuar escondendo a verdade.

Penny não sabia o que pensar. Fazia tempo que ela vinha adiando fazer o que sabia que cedo ou tarde teria que fazer, mas, mesmo assim, sentia medo só de imaginar o que aconteceria quando o sr. Clearwater descobrisse que Gustavo era um lobisomem.

- Vamos fazer melhor – disse ela por fim. – Vamos fazer o que sempre fazemos: você vai passar a noite no porão e ele nem vai perceber. Falaremos com ele depois de amanhã; ele vai acabar se convencendo de que você nunca me ofereceu perigo.

O dia seguinte foi angustiante; o sr. Clearwater não chegava com Ben e as horas pareciam passar mais rápido do que o normal. Como já não trabalhava mais para o Profeta Diário, restou a Gustavo permanecer em casa, até que começou a escurecer e ele foi para o porão.

Torcendo para que o sr. Clearwater não reparasse na ausência do rapaz, Penny ficou esperando pela chegada do pai e do irmão, que só chegaram tarde da noite, quando ela já tinha desistido de esperar e ido se recolher.

Ela acordou de repente com o som de uma discussão entre o sr. Clearwater e Ben no meio da sala de estar.

- Eu não aceito isso dentro da minha casa – o sr. Clearwater disse compassadamente. – Não quero nada que venha daquela mulher aqui dentro, está entendendo?

- Pois caso o senhor não saiba, eu vim daquela mulher – rebateu Ben. – Se não quiser a guitarra, vai ter que se livrar de mim também.

Penny sacudiu a cabeça e esfregou os olhos, sem entender direito o que estava acontecendo. Depois de quase morrerem em Hogwarts havia poucos dias, era difícil aceitar que aqueles dois ainda tivessem a capacidade de discutir um com o outro por qualquer motivo que fosse.

- Aliás, ela me disse que sempre me mandava cartas, por que eu nunca recebi nada?

- Eu rasguei! – trovejou o sr. Clearwater. – Rasguei aquele lixo todo, cuidei para que fossem destruídas antes que chegassem aqui! – e Penny prendeu a respiração, paralisada: ela tinha pensado em descer as escadas para tentar acalmar os ânimos, mas de repente achou que era melhor não interferir. – Ela não tinha o direito de encher a sua cabeça com um bando de lorotas; você era apenas uma criança!

- As cartas eram minhas! Você não tinha o direito de fazer isso!

Os dois pararam de gritar e se encararam, ofegantes; Penny permaneceu no alto da escada, de onde eles não podiam vê-la, e ficou observando-os, incapaz de voltar para o seu quarto.

- O que tanto ela queria com você, afinal? – questionou o sr. Clearwater.

- Ela... ela só queria me dizer que... que me ama, e que só quer o meu bem...

- É mentira! – vociferou o sr. Clearwater enfurecido, socando a mesa com tanta força que derrubou o jarro de flores que havia no centro. – Ela só quer mais um aliado para o covil de Voldemort!

- Eu tenho o direito de ser amado, sabia?

- Aquela louca não ama ninguém! Você vai mesmo acreditar na palavra de uma assassina?

- Eu... eu tenho sentimentos controversos em relação a ela – respondeu Ben, relutante.

- Você é um filho muito ingrato – pestanejou o sr. Clearwater com desprezo. – Tudo o que eu fiz, todo o sacrifício que eu tive para criar você, só porque Dumbledore acreditava que assim você se tornaria uma pessoa decente... Ele estava enganado! Mas quer saber? Agora que ele morreu, eu não devo mais nada a ele!

E meteu um soco na boca do filho, que cambaleou, pingando sangue pelo chão. Penny boquiabriu-se horrorizada; ela chegou a pensar, por um instante, que Ben fosse voltar a gritar com o pai, mas aconteceu uma coisa muito pior: o garoto sacudiu a cabeça, toda a agressividade abandonou-o, e ele disse:

- Eu vou embora. Não precisa nem me expulsar de casa; sei reconhecer quando não sou querido em um lugar. Amanhã mesmo vou procurar um lugar para mim; só me deixe guardar a guitarra hoje, nem que seja no porão...

- Não! – berrou Penny, descendo as escadas apressadamente; o sr. Clearwater e Ben olharam para ela, sem entender. – Por favor, não entre aí!

- Qual o problema com o porão? – quis saber o sr. Clearwater.

O corpo de Penny todo tremia, e ela suava frio da cabeça aos pés; a hora de contar a verdade havia chegado.

- É que... é que o Gustavo teve que ir dormir aí...

- No porão? – questionou o sr. Clearwater, o rosto contraído. – Eu não autorizei ninguém a entrar no porão; o que ele está fazendo aí?

- Bom, é que... – Penny estava tão aflita que quase não conseguia respirar. – Bom, vocês iam chegar, e nós imaginamos que o quarto do Ben estaria ocupado, então não tinha onde ele dormir – ela desconversou com uma voz esganiçada.

- Você acha que eu nasci ontem? – questionou o sr. Clearwater, fazendo uma careta como se estivesse sentindo um cheiro horrível embaixo do nariz. – Pensa que eu não sei que ele dorme com você?

Ela abaixou a cabeça, esforçando-se para reprimir as lágrimas; queria muito que o seu pai e irmão voltassem a discutir por causa das cartas e da guitarra, mas não foi isso o que aconteceu...

- É que hoje... hoje é noite de lua cheia – ela murmurou, num sussurro quase inaudível.

- Preciso ver o que está acontecendo – decretou o sr. Clearwater.

Ele se dirigiu à parede cheia de livros e apontou a varinha para a entrada do porão. Penny correu para a frente do pai, colocando-se exatamente entre a varinha e a estante.

- Pai... por favor, não... – ela suplicou.

- Saia do caminho! – ordenou o sr. Clearwater, empurrando a filha com tanta força que ela caiu no chão, bem ao lado da entrada, aos prantos.


Gustavo procurou acordar o mais cedo que pôde na manhã seguinte. Embora conservasse as faculdades mentais quando se transformava, não conseguia se lembrar de nada do que havia acontecido na noite anterior. Percebeu que havia algo errado quando abriu a porta do porão para a sala de estar, e deparou-se com o sr. Clearwater e Penny sentados, distantes um do outro, cabisbaixos.

O sr. Clearwater se levantou quando o viu, colocou as mãos nos bolsos, contraiu os lábios e soltou um suspiro pesado.

- Vocês me apunhalaram pelas costas – disse ele.

Penny, que estava com os olhos vermelhos e inchados, assoou o nariz num lenço e soluçou.

- Nós queríamos ter falado antes, pai – disse ela chorosa. – Mas o senhor nunca nos deu chance...

- Tiveram muito tempo para me falar – rebateu o sr. Clearwater. – Podiam ter me falado desde o começo.

- O senhor ia nos proibir de ficar juntos! – defendeu-se Penny.

- Mas é claro que ia! Por isso decidiram se juntar e me enganar? O que tem a me dizer sobre isso, rapaz?

- Onde está o Ben? – questionou Gustavo, preocupado pela ausência do garoto.

Àquela altura, ele já tinha plena consciência do que havia acontecido. Fora descoberto; não precisava mais se preocupar em contar ao sr. Clearwater que era um lobisomem; ele já sabia de tudo. Provavelmente havia descoberto da pior maneira possível, e lhe doía no fundo da alma imaginar que Ben estivesse a essa hora internado no St. Mungus, coberto de ferimentos malditos, causados pela mordida que ele mesmo havia jurado a Penny que jamais deixaria acontecer...

Ninguém respondeu a sua pergunta.

- Pai... o senhor também escondeu de nós um segredo durante anos...

- Eu não coloquei em risco a vida de ninguém!

- Colocou a do Gustavo! Quando nos obrigou a fazer aquele Voto Perpétuo; ele quase morreu!

- Por favor – Gustavo pediu agoniado –, onde está o Ben? Eu preciso saber...

- Você não pode mais ficar aqui – decretou o sr. Clearwater. – Não é digno da minha confiança.

- Mas pai... Se ele sair daqui ele vai morrer...

- Está bem sr. Clearwater, eu vou embora – disse Gustavo. – Eu fiz tudo errado; eu não devia ter me envolvido tanto com a Penny, não devia ter ocultado a verdade... Não tem problema se eu morrer, só preciso que alguém me diga, pelo amor de tudo o que é mais sagrado, onde é que está o Ben?

- Vocês me obrigam a fazer o que eu não quero – respondeu o sr. Clearwater mirando-o por um instante, o rosto enfurecido como se estivesse sentindo uma dor desumana contorcê-lo por dentro. – Ele não mora mais nesta casa, e você também não. Saia daqui agora e não volte nunca mais!

E ele golpeou o ar: Gustavo sentiu uma espécie de chicotada em brasa atingi-lo no rosto e ele foi atirado no chão, batendo em cheio na parede cheia de livros, que desabaram por cima dele com um grande estrépito.