OBS: Música utilizada: IF TOMORROW NEVER COMES, de Garth Books e Kent Blazy, regravada por Renato Russo em seu cd solo THE STONEWALL CELEBRATION CONCERT, aliás, linda regravação do Renato, esta música indubitavelmente homossexual, ficou maravilhosa em sua voz esplêndida.
Quero agradecer também a todos que estão acompanhando esta fanfic. Agradecer pelo imenso carinho, pela força e, claro, pelos rewiews maravilhosos que recebo a cada capítulo! Este é o penúltimo capítulo! Ainda vou matá-los do coração deixando-os a esperar do último! OO
Grandes beijos a todos e até o próximo e último capítulo!
Força sempre!
o.O.o
"And i give up forever to touch you coz i know that you feel me somehow..."
o.O.o
SOMETIMES LATE AT NIGHT
Ás vezes, tarde da noite
O LIE AWAKE AND WATCH HIM SLEEPING
Eu fico deitado, desperto, observando-o dormir
HE'S LOST IN PEACEFUL DREAMS
Ele está perdido em sonhos tranqüilos
SO I TURN OUT THE LIGHTS NA LAY THERE IN THE DARK
Então eu apago as luzes e fico lá, no escuro
AND THE THROUGHT CROSSES MY MIND:
E o pensamento atravessa mina mente:
IF I NEVER WAKE UP IN THE MORNING
Se eu não mais acordar pela manhã
WOULD HE EVER DOUBT THE WAY I FEEL
Ele duvidaria, algum dia, do modo como eu me sintia
ABOUT HIM IN MY HEART?
A seu respeito em meu coração?
Os dias tornavam-se, gradativamente, chuvosos, com granizo e fortes ventanias. Talvez um castigo pelos dias gloriosos de sol que haviam tido no começo do mês. Num livro velho que trouxera consigo para a humilde, porém confortável casa de campo ao norte de Calais, surrupiado da velha coleção da biblioteca particular de seu amante, ele encontrara, bem na altura do contorno da Ática, uma lista mimeografa que alguma mão começara a escrever, evidentemente os nomes de seus amigos de turma na universidade de Athenas, antes de ser tranferido. Tratava-se de um poema que ele já sabia de cor.
Kratides, Athina
Stix, Angelos
Salonikus, Peleos
Domothynopoulos, Miro
Zanopoulos, Tália
Olimpiakus, Helena
Melamporos, Dioniso
Quão estranho e quão maravilhoso era descobrir esse "Domothynopoulos, Miro", (ele!), no meio daquele emaranhado de nomes, ladeado por espectros, um principe de contos de fada entre seus serviçais. Camus tentou analisar o calafrio de prazer que lhe percorreu a espinha quando viu esse nome em meio a tantos outros. O que será que o emocionava quase às lágrimas? As lágrimas quentes, grossas e opalascentes que os poetas e os amantes derramavam? O que será?
Será por causa do encanto que sempre existe no mistério translúcido, no diáfano véu libertino através do qual a carne e o olhar, que só a você foi dado o privilégio de conhecer, sorriem ao passar? Lá estava ele, perdido entre os amigos, mordendo o lápis, detestado pelos professores, os olhos de todas as garotas fixados em seus cabelos e em seu pescoço. O garoto devasso!
- Miro...
Seu coração começou a bater forte. A vergonha retrospectiva fazia com que ele se contorcesse e ficasse gemendo baixinho.
..x.. Flashback ..x..
A voz melodiosa de Marie o trouxe à realidade. Enquanto seus pequenos pés subiam as escadas, Jean Luc, que estivera a brincar ao pé do pai, levantou-se avidamente e abalou-se, como uma flecha, para o seu quarto. Camus, desorientado, procurava o que fazer para dissipar a tensão palpável do seu semblante. A jovem esposa apareceu na entrada do escritório no momento exato em que o filho batia a porta do quarto. O marido encarou-a, sem graça.
- O Jean o atrapalhava? – perguntou ela, entrando na sala.
- Não! – ele tentou sorrir – De modo algum! – virou-se para recebê-la melhor.
- Se o estiver, pode me falar! Vejo que não está muito bem, peço-lhe que brinque pelos jardins! Está cheio de crianças!
- Não se preocupe, Marie! A presença dele só me faz bem! – ele a olhou de modo terno.
- Vim avisá-lo que alguns de seus amigos do escritório, em Paris, acabaram de chegar!
- Merci! – agradeceu ele – Vou em um instante!
Marie esboçou um sorriso desconcertado e sem dizer palavra encaminhou-se de volta a sala, onde o barulho de vozes preenchia tudo com o espírito embriagante do natal. Camus, após apagar o cigarro no cinzeiro, suspirou de má vontade e ergueu-se, aprumando-se para enfrentar a cortesia social que tanto o irritava. Dir-se-ia embargado por alguma coisa que, desde cedo, lhe sobrecarregava, pesadamente, o coração. Antes de alcançar a porta, porém, o grito agudo do telefone, que fez vibrar cada fibra de seu ser, atroou pelo ambiente com uma nota ainda mais nefasta. Estacou alguns momentos, entre a porta e a escrivaninha, se si decidir a atendê-lo.
Camus sequer dormira naquela noite. Passara-a, inteira, sentado, com os olhos muito abertos, fixos, na maior parte das vezes, nas sombras que invadiam o seu quarto. Nunca sua serenidade lhe parecera tão desconcertante, a sua altivez mais abominável. Se em algum momento demonstrara indiferença, não fora pelo fato de achar que tocara o coração do jovem pintor grego, mas simplesmente porque o sentimento que sentia por ele enchia-o de felicidade e orgulho. Encaminhou-se até o aparelho e tirou-o do gancho.
- Oui?
- J'aimerais parler avec Camus Dousseau! (Gostaria de falar com Camus Dousseau!)
Uma voz grave, pausada e formal lhe respondeu do outro lado da linha.
- Ces't moi!
Que resultaria de tudo aquilo? Não sabia! Mas sentia que toda sua força dispersa até então, tendiam para um único fim maravilhoso. Vê-lo, ouvi-lo, viver junto dele, a vida para Camus já não tinha outro sentido. Enquanto pensava em Miro, sem conseguir entender porque seus pensamentos, de súbito, se haviam convergido para sua pessoa, as imagens desse futuro acolhedor se iam formando no seu espírito, quase a lhe paralisar o coração.
- Savez-vous Miro Domothynopoulos? (O senhor conhece Miro Domothinopoulos?)
- Oui, je sais...
IF TOMORROW NEVER COMES
Se o amanhã nunca chegar
WILL HE KNOW HOW MUCH I LOVED HIM?
Ele saberá o quanto eu o amei?
DID I TRY IN EVERY WAY TO SHOW HIM EVERY DAY
Que eu tentei de todas as maneiras, mostrar-lhe todos os dias
THAT HE'S MY ONLY ONE?
Que ele é o único para mim?
AND IF MY TIME ON EARTH WERE THROUGH
E se meu tempo na terra estiver terminado
AND HE MUST FACE THIS WORLD WITHOUT ME
E ele tiver que enfrentar o mundo sem mim
IS THE LOVE I GAVE HIM IN THE PAST
O amor que eu lhe dei no passado
GONNA BE ENOUGH TO LAST
Será suficiente para durar
IF TOMORROW NEVER COMES?
Se o amanhã nunca chegar?
..x..
A noite iluminada resplandecia no céu. O brilho espectral das luzes da rua cruzavam a avenida de ponta a ponta, misturando-se aos faróis dos carros, no longo engarrafamente que se formara. Esses raios entrecruzados rompiam a escuridão a estrada e revelavam a seguinte situação.
Enfiado num de seus casacos de couro, bastante afeito ao clima frio da França, Miro estava deitada de lado, no meio da pista, com as costas voltadas para ele. O corpo diafanamente coberto por uma fina coberta e as pernas escondidas pelas calças de um jeans mais escuro. Haviam posto o travesseiro improvisado com um sobretudo sob sua cabeça desgrenhada e um filete de luz pálida cruzava seus ombros.
Camus saiu do carro num misto de confusão e desespero, batendo a porta com força. Alguns policiais que ali estavam para controlar a inusitada situação, barraram-lhe o caminho que tentou vencer a distância que o separava do jovem acidentado.
- É parente da vítima? – interrogou-lhe um dos soldados.
- Sou amigo! – respondeu, bastante sério – O único que possui na França!
- Excelente! – tornou – Talvez nos possa dar informações a seu respeito! – volveu-lhe o policial – Não há documentação com ele!
Camus remoeu-se cuidadosamente quando o rapaz virou a cabeça e olhou na sua direção através das sombras, para logo voltar a pousá-la sobre os panos que o amparavam por baixo. Um suspiro de alívio se desprendeu de seus lábios, uma vez que a útima farse do comissário lhe havia feito errar uma batida. Ele esperou alguns segundos, o corpo tenso diante do abismo, enquanto o chefe do distrito de Lyon liberava sua passagem. Porém, a respiração rasa já tinha, novamente, o ritmo do desespero.
- O que houve? – indagou, a medo.
- Ele vinha na contramão! – explicou-lhe o soldado – Um carro o imprensou contra um bonde que, por sua vez, quase o esmagou contra o muro do cemitério!
- Mon Dieu! – Camus exasperou-se.
- Lugar adequado, não!? – ironizou o chefe, fazendo o francês encará-lo – Ao lado do cemitério!
Camus o fitou com bastante desagrado, mas deixando-o de lado, alcançou a faixa amarela que separava o pequeno amontoado de transeuntes da cena do acidente. Pensando estar fora de perigo, ele resolveu chegar um pouco mais perto daquele reflexo adorável e enlouquecedor, mas mal atingira suas cálidas cercanias, a respiração interrompeu-se.
- Vá embora, Camus!
A menos de dez centímetros de seu corpo dolorido estava o difuso escritor. Após um longo minuto de imobilidade, a mão de Camus moveu-se em direção a ele e, dessa vez, o toque não o desagradou. Camus conseguiu trazer seu corpo para perto, de tal forma que sentiu a aura das ensangüentadas feridas, profundamente abertas, como um sopro gélido em seu mais íntimo âmago.
- Que fizeste, Miro? – perguntou. – Ficaste louco?
- Eu estou morrendo e tu me passas um sermão?
Aquelas palavras não vieram com o seu já tão conhecido sarcasmo, mas com pesar, que de pronto fizeram Camus anuviar-se. Não poderia ser! Miro à morte? Não o podia crer! Não estria lhe falando a sério! Iria à um hospital e ficaria de novo curado, saltitando como antes!
Agitando-se naquela corrente abundante de desespero, o braço de Miro bateu contra o rosto dele. Camus o segurou por alguns segundos. O rapaz, porém, se liberto da sombra de seu abraço e ofereceu—lhe as costas encurvadas, enquanto ele incendiava de aflição. A pista bem asfaltada e encharcada pela chuva, estava cheia de raios lunares, frouxamente apagados. Repentinamente, Miro o encarou e com voz firme, proferiu:
- Estou com sede!
Camus pegou do copo que um dos tiras lhe passara e passou a ele, que engoliu com gratidão o seu conteúdo, a cabeça amparada pelo braço robusto do francês. Depois, num gesto infantil, que tinha mais encanto que qualquer carícia lúbrica, mesmo naquela hora nefasta, o garoto enxugou seus lábios no ombro do amante, caindo de volta ao travesseiro e fechando os olhos instantaneamente.
- Miro! – Camus o chamou – Não durma!
- Deixe-me em paz! – o jovem quis afastá-lo com os braços.
- Olhe para mim! – o francês chamava-o a si – Olhe para mim, por favor!
Ele não se pertencia mais! E sabia, sim, ele sabia...fora Miro quem o seduzira! Ao fixar seu olhar no dele, Miro simulou um sorriso entediado, cínico. Havia qualquer coisa de irreal neles, tão pálido quanto uma estátua, olhava-o por cima de toda sua altivez. Simplesmente, não sabia o que fazer. Ao final de alguns segundos, sorriu-lhe e tocou-lhe o rosto, seus cabelos mornos e azuis acariciando as clavículas masculinas. Ficaram quietos por alguns segundos.
- O que fazia andando de bicicleta na noite de natal? – indagou Camus.
- Nada! Esperava!
- O que esperava?
Miro não respondeu. Não poderia dizer-lhe que era por ele que esperava. Seus olhos, ligeiramente oblíquos, bem talhados, muito azuis, eram sombreados estavam cílios longos e espessos. Camus só pôde comparar seu olhar com o do animal selvagem. A audácia e a timidez estavam presentes ao mesmo tempo e desse ponto de vista, os olhos de Miro revelavam muito bem a sua personalidade: astucioso, insolente, mas naturalmente temente ao destino.
- O que faz aqui? – retrucou o grego – Não deveria estar com sua família?
- Eles não me importam! – Camus lhe falou – Não mais! Não como tu! Fique comigo, Miro!
Toda sua pessoa, em particular, tinha uma expressão ao mesmo tempo voluptuosa e selvagem que jamais ele tornara a encontrar em um homem humano. Se um homem não conhecesse de seus semelhantes, para definir aquele bem poderia estudar o olhar do lobo ao espreitar uma gazela. Camus a afagou, suavemente, os fios embaraçados e pela primeira vez, beijaram-se ternamente. Camus afastou-se, fitando-o, para tomar, vorazmente, os lábios masculinos mais uma vez.
Miro parecia espreitá-lo por todos os lados, sem se decidir a dar o golpe final. Aquele ser prodigioso, que diziam possuir as chaves de Nostradamus, era um homem lúgubre envolto numa aura triste, com um olhar nefasto que parecia conhecer todas as coisas.
- Eu sempre estive, Camus, antes mesmo de nos conhecer! – respondeu-lhe o rapaz por fim.
Camus, em um relance, entendeu seus próprios sentimentos. Tudo fora um lampejo, um tremor, um choque de apaixonado reconhecimento. Durante o breve momento em que seus olhos deslizaram pelo jovem a sua frente, o vácuo de sua alma conseguiu aspirar cada detalhe de sua radiosa beleza. De que tela havia surgido, todo feito de luz e carne? Aqueles orbes acendiam a fagulha da paixão, da febre e da saudade. E percebeu que tudo que vivera até ali não havia passado de um tatear no escuro, uma série de erros crassos e de falsas alegrias.
- Não sei o que o que vais fazer...- Camus sentiu-se estremecer -...Mas eu pretendo comunicar a má qualidade das estradas de Lyon!
- Eu estou com frio, Camus!
Os orbes muito azuis, muito vivos, justificavam o que se falavam do tom misterioso, alternativamente melancólico e alegre dos olhos dos deuses. Eles moviam-se sob longas pestanas pendentes, que lhe emprestavam uma expressão quase melancólica e era somente visto quando os cílios se elevavam. Se é que se pode chamar de olhar àquilo que eram uns olhos estranhos, espantados, como nenhum outro no mundo. Camus o encarou.
- Os médicos estão demorando a chegar porque esta é uma parte afastada da cidade...
- Encaremos a realidade, francês! – Miro lhe sorriu – Sempre foste tão duro, o que se passa contigo agora, que precisas mais do que nunca, de sua força de espírito e eu sei que a tens!
- Não entendo onde queres chegar com estas palavras! – Camus engoliu em seco.
- Você ainda tem muito a fazer, Camus!
O escritor o encarava, intrigado. O nariz retilíneo, os lábios móveis e delgados, o olhar direto e significativo dos olhos azuis que pareciam feri-lo em um ponto oculto e vital, infalivelmente.
- Sinto muito!
- Não fale assim, Miro! – disse, bastante sério – Tudo dará certo!
- Não se preocupe! Há sempre uma perda! – o jovem desviou o olhar para o chão.
- Sairás daqui! – Camus prosseguiu – Pintarás teus quadros e será um grande sucesso em janeiro! Não o deixarei ir agora, esta noite, neste lugar, dessa maneira...
Havia nos olhos de Miro, naquele momento, qualquer coisa de inquieto, de mobilidade, que se tornava singularmente penetrante, quando fixado sobre um ponto preciso. A maneira pela qual a luz se repartia dentro desse brilhante olhar, associada à aspiração de transportar-se de dentro para fora para apoderar-se do objeto de desejo que seu olhar refletia, não pôde deixar de cativar a Camus. Parecia quase que, inconscientemente, se imprimia um não sei quê vindo da eternidade, que lhe abriu uma percepção do mais além.
Um abismo para ele insondável. Pelas dimensões de sua superfície luminosa, pelo ardor do seu brilho, o olhar de Miro permitia supor a paixão contida, porém, intensa, que une à ternura a crueldade, que dá, simultaneamente, liberdade ao curso do amor e do ódio, unido à doçura, a selvageria. Todo um mundo se refugiava nos olhos azuis daquele grego.
- Quando me perguntarem do que eu mais gostava...- Miro o encarou com todo o seu amor refletido -...Direi era de você!
A vida só era vivida uma vez, como um ator que entrasse em cena sem nunca haver ensaiado. Mas o que a faz tão valiosa, uma vez que o ensaio da vida já é a própria vida? Isso fazia com que a vida lhe parecesse um esboço. Esta palavra, porém, não seria certa de se empregar, já que um "esboço" é sempre um projeto de alguma coisa, de um quadro, por exemplo, ao passo que o esboço da vida não é o esboço de coisa alguma, é um esboço sem quadro. Não poder viver senão uma vida era como não viver nunca.
- Eu não acredito nestas coisas, Miro!
- Não importa! – ele lhe sorriu – Elas simplesmente existem, você crendo nelas ou não! Por que veio aqui, francês?
- Você quem me chamou!
- Mas não era para ter vindo! – Miro fez ar de deboche.
- Eu precisava vê-lo, eu...- Camus falava com dificuldade crescente.
- Você é sempre bem articulado assim?! – um filete de sangue assomou, naquele momento, aos seus finos lábios. – Leve-me para casa, Camus!
Eram lágrimas! Camus trouxe-o para si, sentando-se sobre o asfalto e o acolhendo em seu regaço. Miro fechara os olhos, aceitando o calor reconfortante do corpo do companheiro. Assemelhava-se a uma criança posta numa cesta e abandonada ao sabor das correntes.
Como ele, Camus, poderia deixar derivar para as águas impetuosas de um rio, uma cesta onde se abrigava uma criança? No começo de muitos mitos gregos, havia sempre alguém que salvava uma criança abandonada. Se Pólibo não tivesse recolhido Édipo, Sófocles não teria escrito sua mais bela tragédia!
E ele compreendeu, compreendeu que as metáforas eram perigosas. Não se podia brincar com elas. O amor, como aquele que sentia por Miro, havia nascido de uma simples metáfora: Afrodite, Ares, Adônis...
- Não fale! – pediu.
Com cuidado, pôs a cabeça dele em seu colo. Olhou em torno, desesperado, porém contido, à procura de um milagre. Havia apenas policiais e pedestres cercando as redondezas, de olhos vazios, ignorando deliberadamente o que sucedia, não entendiam, com seus olhares cinzas com os quais já haviam contemplado a morte de tantos outros homens.
O suor brotava da fronte de Miro. O sangue começou a sair mais rápido. Camus podia senti-lo espalhando-se do lado esquerdo de seu peito e o seu calor úmido fluindo-lhe pelas costas, encharcando-lhe as vestes.
- Quando os médicos irão chegar? – esbravejou.
- Já os chamamos, senhor!
Ninguém lhe prestava atenção, ou ao menos assim lhe parecera, com a exceção de um. Seus olhos gelados, quase cor de neve, encontraram-se com os dele e desviaram-se para focalizarem o nada. Camus pensou em todas as vezes que, quando criança, ficara magoado ao sentir que as pessoas se recusavam a fitá-lo. Compreendeu que, na verdade, isso não fora importante naquelas ocasiões. Agora sim.
- Por favor...- controlou a voz -...Faça-os se apressarem!
- Camus...
A voz de Miro enfraquecera-se, tornando-se de tal maneira difícil de se fazer escutar que Camus sentiu a necessidade de colocar seu ouvido próximo de sua boca, para tornar a tarefa mais fácil para ele.
- Eu o amo! – murmurou o rapaz – Sempre quis dizê-lo! Estava esperando o momento certo e creia, não era isso que eu tinha em mente!
Tentou sorrir, mas a luz desaparecia de seus olhos gradativamente.
- Eu soube desde o primeiro instante...- gaguejou -...Quando você entrou no bar...
- Eu também! – sussurrou Camus, relembrando o raio, recordando seu primeiro pensamento – Je t'aime! – murmurou ele, nunca estas palavras lhe saíram tão verdadeiras – Je t'aime, Miro!
Camus sabia que sua vida havia mudado completamente por ele. Fora uma decisão fatal sobre um amor fortuito, nascido do acaso, que não teria existido se seu sogro não lhe tivesse jogado à cara o que ele, mais tarde, descobriria ser a verdade. E esse garoto, seu garoto devasso, essa encarnação do acaso absoluto, estava agora deitado em seu colo, respirando com dificuldade.
Era muito tarde, Camus sentiu que começava a desejar os cigarros, como acontecia nos momentos de grande tensão. O resfolegar de Miro mudou uma ou duas vezes para um alquebrado suspiro. Ele o ouvira...escutara suas palavras...conseguira lhe sorrir em resposta...E a luz, então, se apagou!
Camus cerrou os olhos. Não queria mais ver, nem por um segundo, aquelas pálpebras fechadas. Os olhos, diziam, eram as portas da alma e o corpo de Miro, dolente, de olhos fechados, era agora um corpo sem alma. Não! Não iria nunca mais vê-lo...Aquela era, irrevogavelmente, a última vez!
O destino debruçava sobre ele o seu poder. Amava-o, mas ele já estava longe dali, muito longe, em uma outra estação, em outro lugar, num outro universo. Pareceu-lhe que, diante de si, abria-se um imenso espaço vazio, que o destroçava. Amara seu garoto devasso loucamente, cruelmente, como jamais...
- mandas-me seguir em frente...- sussurrou -...Sabes que não posso sem ti!
..x..
'COUSE I'VE LOST LOVED ONES IN MY LIFE
Porque eu perdi pessoas amadas em minha vida
WHO NEVER KNOWS HOW MUCH I LOVED THEM
Que nunca souberam o quanto eu as amava
NOW I LIVE WITH THE REGRET
Agora eu vivo com o remorso
THAT MY TRUE FEELINGS FOR THEM
Que os meus verdadeiros sentimentos por eles
NEVER WERE REVEALED
Nunca foram revelados
SO I MADE A PROMISE TO MAYSELF
Então eu fiz uma promessa para mim mesmo
TO SAY EACH DAY HOW MUCH HE MEANS TO ME
De dizer, a cada dia, o quanto ele significa para mim
AND AVOID THAT CIRCUNSTANCE
E evitar a circunstância
WHERE THERE'S NO SECOND CHANCE TO TELL HIM HOW I FEEL
Onde não haja uma segunda chance de dizer-lhe como eu me sinto
- Prefere continuar amanhã?
O policial, responsável por tomar o depoimento a respeito da vítima, disparou a pergunta ao notar-lhe o ar cabisbaixo, perdido, como se apalpasse, em algum ponto entre as dimensões, a centelha que um dia lhe ardera n'alma. Saga voltou a si, olhando-o:
- Não! – comentou, tentando concentrar-se.
- O senhor não parece bem! – o guarda o examinou – Já escrevemos muito por hoje!
- Eu quero continuar! – insistiu o réu.
- Poderíamos...
- Eu já disse que estou bem!
Prorrompeu, seriamente, o homem, encarando o policial a sua frente. Este desviou seus olhos para a máquina de escrever.
- O enterro está perto e ainda não cheguei a lugar algum! – completou por fim.
- Acha mesmo que ele poderia ter escapado? – indagou o guarda – Foi imprensado por um carro e jogado contra um muro por outro! Ainda penso que viveu demais!
- Tudo só acontece quando tem de acontecer!
- Por que insiste em dizer que foi o senhor quem o matou? Nem estava presente na hora do acidente! Não compreendo!
- Ninguém jamais o fará! – Saga sorriu, desconsolado - Esse não foi o meu maior crime!
Calou-se. Limitou-se a olhar as próprias mãos. Corpo, mente, coração...Tudo lhe doía. As datas começavam a se confundir em sua cabeça. Suspirou:
- Miro...
- O que disse?
- Senhor, por favor...- encarou o policial -...Escreva este nome até preencher toda a página!
Ele não fizera nada além de obedecer a natureza. Foi o mais fiel de seus cães. Por que, então, esse horror do qual ele não consegue se desvencilhar? Será que o realmente matara? Não! Para sua surpresa, ele nem ao menos havia sido o seu executor!
..x..
No dia do funeral Camus, mais uma vez, vestiu-se de preto. Conservaria este hábito até o fim de seus dias. Porém, quando perguntado o motivo, respondia sempre:
- Combina com a cor da minha alma!
Marie, bastante enternecida, aproximou-se quando o caixão já havia baixado na vala. O tempo estava límpido e durante toda a cerimônia caíra uma chuva miúda, mas agora o céu voltara a clarear.
Em pé, no fundo do cemitério, entre os velhos ciprestes cujas folhas balouçavam ao vento, Camus recordava os acontecimentos dos últimos dias, ouvindo o incessante ruído de folhas sob as impressões que se iam formando. Considerava, agora, a situação de uma forma muito diferente. Já nem sequer a idéia da morte lhe parecia tão terrível após ter passado aqueles últimos dois dias, antes do enterro, como louco, fazendo Marie recear que cometesse uma loucura. Estivera prostrado, não comia, não falava, não vivia...
- Como você está? – indagou ela.
- Morto! A vida para mim já não tem valor algum!
- Quantas coisas não parecem odiosas e incompreensíveis e depois, de repente, descobrimos o significado oculto por trás delas! – ela esboçou um sorriso reconfortante.
- Perdoe-me, Marie...- ele a fitou, sério -...Mas você é a última pessoa que eu gostaria de ver neste momento!
- Imaginei que não estivesse com disposição para me falar, mas quis dar meus sentimentos! – ela engoliu em seco – Acho que uma companhia lhe faria bem!
- Só se fosse uma que nos fizesse melhor do que somos! – comentou sorrindo malgrado, enquanto conservava nos olhos a mesma expressão de dolorosa tristeza.
- Você é um grande homem, Camus! De verdade!
- Meu único mérito está em que a vida, para mim, nada mais significa! Não preciso mais dela, se me tornou odiosa...
Acrescentou com um movimento de impaciência dos lábios trêmulos.
- Vai renascer para uma nova vida! – Marie o olhou com ternura – Eu espero que consiga recuperar a paz de espírito de que tanto precisa!
- Como homem eu estou uma ruína...
Ele calou-se, de repente, os olhos maquinalmente fitos nas rodas de uma bicicleta, conduzida por um jovem, que cruzava, naquele momento, a avenida, rente ao portão da parte do cemitério onde estavam. Ela deslizava suavemente sobre o asfalto negro. E de súbito, um mal estar fez Camus esquecer de tudo. A bicicleta e a pista fizeram-lhe recordar a ele, isto é, o que restara dele quando chegou, desesperado, enervado como um louco, na Rue Chanson. No meio dos pedestres, entre filas de carro, impudicamente estendido, o corpo ensangüentado, ainda cheio de vida.
Camus buscou balançou a cabeça, buscou lembrar-se dele tal como era, como o havia encontrado pela primeira vez naquele bar: misterioso, encantador, afetuoso, sarcástico, procurando e distribuindo felicidade. Tentou evocar os melhores momentos que haviam passado juntos, mas sentiu que estavam envenenados. De repente, o cemitério desapareceu e os soluços contraíram-lhe o rosto. Marie desviou seus orbes para o chão. Afastou-se alguns passos dali e esperou. Quando Camus conseguiu dominar-se, dirigiu-se, tranqüilamente, até ela.
- Pretende passar o ano novo aqui?
Marie não o respondeu. Olho em seus olhos. Estavam escuros e largamente fendidos. Era impossível descrevê-los. O brilho de outrora se havia apagado. Estavam inquietos, penetrantes quando fixos, móveis, constantemente espionando. Refletia, ao mesmo tempo, a dor e a aflição, uma imensa revolta e uma crueldade sem limite. Não havia outro caminho para ele a não ser esperar. Esperar pela vida, esperar pela morte ou por uma absolvição, que jamais viria.
Os olhos de Camus estavam fugidios, como jamais estiveram, fixando-se aqui e acolá. Um olhar triste, duro, seco...Um olhar ainda cheio de paixão, mas de uma paixão contida, retida sob as pálpebras, que deixavam passar, agora, um estilhaço metálico que machucava, saltando dos olhos paradoxalmente enevoados, velados, coalhados...
Como mortos!
SO TELL THAT SOMEONE THAT YOU LOVE
Então diga para aquele alguém que você ama
JUST WHAT YOU'RE THINKING OF
Exatamente o que você está pensando
'CAUSE THE TOMORRO CAN NEVER COMES
Porque o amanhã pode nunca chegar
o.O.o Continua o.O.o
