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5 anos atrás...

O céu estava nublado, sem nenhum resquício de sol. E não havia muita claridade para usar óculos escuros, mas talvez Scorpius só estivesse com eles no rosto pálido de luto e tristeza para ocultar qualquer expressão na frente de seus familiares e amigos de seus familiares. O caixão estava sendo enterrado e a avó de Scorpius tampava o nariz com um lenço branco, tentando abafar seus choros, seus lamentos. Seu marido, avô de Scorpius, pai de Draco, tinha morrido naquela madrugada e estava sendo enterrado de manhã.

Eu assistia apenas de longe, encostada ao meu carro no outro lado da rua. Segurava um guarda-chuva para me proteger das gotículas de chuva. Eu queria ficar ao lado de Scorpius, mas sabia que minha presença não seria confortável, por nossas famílias nunca se bicarem. Scorpius estava tenso, imóvel, até tudo terminar.

O silêncio era indescritível. Eu não suportava situações assim, mas sabia que Scorpius precisaria de todo o apoio possível naquele momento, então eu apenas esperei, ainda observando o quão diferente e fria a família dele era.

Inacreditavelmente, Scorpius e Draco estavam iguais. Ambos não falaram com ninguém, apenas receberam palavras de confortos, sem dizer nada em troca. Por fim, a mãe dele, Astoria, naquela época ainda casada com Draco, abraçou os dois, demorando em Scorpius.

Eu assistia a tudo e percebi que minha testa estava franzida. Ele não sabe que eu estou aqui... ainda não me viu.

Não queria chamar atenção. Talvez ele precisasse ficar apenas sozinho agora. Então, com um suspiro, eu abri a porta do carro, dei mais uma espiada no cemitério, sem esperanças de que ele me visse, e estava pronta para voltar para casa. Mas Scorpius me viu justamente na última vez que decidi olhar para a direção dele.

Sendo assim ele desvencilhou-se da família e, sem guarda-chuva, com as mãos no bolso, atravessou a rua, chegando até mim.

Não sorrimos.

"Ele não aguentou muito tempo", Scorpius disse. "Estava muito doente."

"Sinto muito" eu sussurrei.

"Não imaginava que viria" ele disse, encostando-se a porta fechada do carro, ao meu lado... com as mãos nos bolsos da calça preta. "Por isso não contei nada."

"Eu vi no jornal. Mas você devia ter me contado."

"Você ia se achar na obrigação de vir aqui e fazer essa expressão preocupada que me faz sentir importante ou algo assim." Scorpius olhou para o céu. Uma gota da chuva fraca caiu na base de seu nariz e escorregou até a ponta. Quando ele olhou para mim, a gotinha caiu. Isso quase me fez sorrir.

"Se achava que eu ia querer me livrar da tarefa de me preocupar com você... então está plenamente enganado, Scorpius."

Mesmo sério, ele soou como se estivesse sorrindo por dentro:

"Obrigado. Você é uma boa amiga, Rosie."

"Tento ser" dei de ombros. "Principalmente quando você parece precisar tanto de um abraço agora."

Ele me deu um empurrãozinho com o ombro e eu soquei seu braço. Antes que ele revidasse com outro ataque inofensivo, eu envolvi meus braços ao redor do corpo dele e, com a cabeça perto do seu pescoço, eu sussurrei no momento em que senti o aperto dele corresponder o meu:

"Ei, eu vou estar aqui para o que precisar... se quiser desabafar. Eu não vou sair do seu lado, ok?"

Ele não disse nada, mas sua mão roçava minhas costas e eu senti a cabeça dele afirmar que sim. Quando nos afastamos, eu sorri para ele, mostrando que, se as coisas não ficassem boas, ainda teríamos um ao outro. Eu aproximei meus dedos para tirar os óculos de seu rosto. Os olhos dele estavam mais cinzas do que nunca.

Ao em vez de retribuir meu olhar, aquelas íris se abaixaram na direção dos meus lábios. Naqueles segundos, Scorpius tentou se aproximar mais. Mas fingi que não dei atenção a isso e me afastei. Ele também fingiu que não ia fazer nada, porque eu me esquivei perguntando o que ele iria fazer naquela tarde.

Há cinco anos, Scorpius tentou me beijar e eu fingi que não reparei nisso porque sabia que, se eu deixasse, viríamos com a desculpa que Scorpius estava vulnerável pela perda do avô e buscou consolo de um jeito estranho, porque sua mente estava estranha. Eu não deixei isso acontecer, porque haveria uma desculpa. E prometi a mim mesma que nunca me lembraria daquele dia como o dia em que Scorpius tentou me beijar, mas agora era inevitável.

Eu prometi a mim mesma que, se tivesse que beijar Scorpius, nunca deveria ter uma desculpa. E, durante algumas semanas, essa desculpa não existia.

Até Scorpius dizer que ia embora.

Agora havia desculpas por ter acontecido todas aquelas noites.

Ele ia embora.

Não tinha resposta para isso, tinha?

– Rose – a voz suave de Alice me fez despertar dos meus pensamentos sobre o futuro. Ela segurou levemente meu braço, chamando-me a atenção. Eu estava sentada no balcão do Três Vassouras, movendo o canudinho pelo líquido do copo distraidamente. – Nós já estamos voltando pra casa.

– Eu vou ficar um pouco – falei baixinho. – Amanhã eu te ligo.

Ela sorriu, mas foi aquele sorriso "eu-sinto-muito-por-Scorpius-estar-indo-embora-e-eu-gostaria-de-dizer-coisas-para-você-se-sentir-melhor".

– Se servir de consolo, Rose – disse James –, eu acho que Scorpius está sendo idiota. Podemos dar um jeito de fazê-lo perder o vôo.

Não deixei de rir.

– Isso não vai impedi-lo.

– Tem razão. Mas não quer dizer que ainda não exista tempo de fazê-lo mudar de ideia. É o mês que vem ainda, certo?

Não era questão de mudar de ideia, mas do dever que Scorpius foi designado pela família dele. Quando ele me contou há uma semana que ia embora no final do mês, ele disse que também não queria e que, se tivesse escolhas, ele não hesitaria em desistir dessa ideia.

Mas era uma questão de princípios. Scorpius estudou e trabalhou para esse momento, muito embora não comentasse nada sobre sair do país. Talvez tivesse saído da boca dele uma ou duas vezes durante aqueles últimos anos, mas nunca insistimos no assunto porque esse tempo, naquela época, parecia distante.

O que ficava na minha cabeça e não queria sair era o pensamento de que só transamos todas aquelas noites porque Scorpius sabia que um dia íamos viver nossa vida longe um do outro.

Então era por isso? Por isso que Scorpius resolveu mostrar algum desejo por mim? Por isso nós transamos todas aquelas vezes? Ele fez isso porque talvez, se fosse embora, seria uma última chance.

Idiota, xinguei com raiva. Era melhor ele nunca ter tentado nada.

Nós dois precisávamos ser maduros quanto a isso. Mas no Três Vassouras, quando Scorpius começou a contar sobre as propostas de seu trabalho em outro país e nossos amigos ficavam cada vez mais confusos com a menção de que ele ia morar fora... eu não consegui me estender na mesa e tive que sair dali, pelo menos para respirar e não ter que sentir raiva dele por isso.

Agora o bar já estava ficando vazio e Eric se aproximou de mim no outro lado do balcão, com a testa franzida.

– Rose... nós já precisamos fechar.

– Claro – eu me despertei lentamente, pegando minha bolsa. Peguei meu cartão e paguei o que havia consumido. Antes que Eric perguntasse alguma coisa sobre o motivo da minha distração, eu saí depressa. Como o bar ficava ao lado da rua do meu prédio, eu fui embora andando.

No corredor do meu apartamento, eu peguei minhas chaves e acho que bebi um pouquinho demais porque estava enxergando tudo embaçado quando tentei abrir a porta. Mas então eu notei que eram lágrimas. Malditas lágrimas.

Enxuguei-as com as costas da mão, exatamente no momento que Scorpius disse atrás de mim:

– Você está me evitando.

– Impressão sua – murmurei, tentando enfiar a chave na fechadura, mas estava pegando a errada toda hora.

Eu o senti se aproximar quando xinguei a chave. Suavemente, ele pegou a chave da minha mão e abriu a porta com a calma que só ele tinha.

– Não precisa chorar porque não consegue abrir uma porta, Rose – brincou.

Eu não agradeci, mas deixei a porta aberta para ele entrar também. Joguei minha bolsa sobre a mesa da cozinha e fui ao banheiro. Passei água em meu rosto e Scorpius disse, encostado a porta com os braços cruzados:

– Acho que precisamos conversar. Melhor. Sozinhos. Sem você me evitar.

Olhei para ele, engolindo um suspiro.

– Scorpius...

– Eu sei que dei mancada em te contar somente um mês antes de... arrumar as malas – é o que ele chamava. – Eu sei que isso vai parecer que eu fiquei com você todas as noites só porque eu sabia que eu iria acabar precisando me mudar. Mas não é por isso. Certo, talvez um pouco, mas devia acontecer, não devia? Você e eu. De alguma forma eu não pensei nisso depois de descobrir que eu ia me mudar para a Alemanha. Eu pensei muito antes. Eu penso nisso muito antes, o tempo todo, eu penso em nós dois há mais tempo do que você pode acreditar e...

– Não, Scorpius, não diga nada. – Apertei o peito dele com a palma da minha mão ao que ele se aproximou agitado. Fiquei observando por um tempo sua camiseta até erguer o olhar e dizer baixinho. – Não piore.

– O que menos quero é piorar as coisas, mas... deixe-me apenas dizer. Eu não estou indo embora para fugir disso, de nós dois. Se eu pudesse escolher, na verdade, eu não sairia do seu lado. E nem do de ninguém. Escute, você vai dizer que não podemos mais ficar juntos já que preciso me mudar. Mas ainda temos algumas semanas e eu quero continuar com isso até o limite.

Pensei sobre o que ele disse. Pensei mesmo. Mas para mim não iria adiantar, então eu murmurei:

– Desculpe, eu não consigo.

– Então... realmente não quer mais? Acabou tudo?

– Era só sexo, certo?

– Aparentemente – ele concordou me olhando de uma forma estranha. – Uma fase.

– Bem, acho que... então... a fase terminou.

Cruzei os braços e olhei para meus pés. Essa mentira era a pior de todas.

– Isso não é só uma fase – ele percebeu. Senti todo seu olhar sobre mim. – Eu estou magoando você.

– Como um amigo – eu respondi friamente. – Como melhor amigo que vai viver os próximos dias longe daqui, como o melhor amigo que eu vou precisar me despedir. Que eu vou precisar ver pegar um avião para um país que ele nem mesmo sabe falar o idioma. Eu tenho o direito de me magoar.

– Somente se eu disser que não vou mais para a Alemanha fará você sorrir do jeito que só você faz?

– É um começo. Mas nem vou perder meu tempo implorando. Eu entendo que isso é importante para a sua família e para o seu futuro profissional. Sei que, mesmo reclamando disso, você se importa com as duas coisas.

– É – ele se silenciou. – É algo que eu preciso fazer. E... se eu não for... será bem capaz de eu ser deserdado ou algo assim.

Absorvi lentamente as palavras de Scorpius, tentando entender o significado desse rumo que a vida dele ia tomar. Ele estava esperando que eu dissesse mais alguma coisa. Eu apenas levantei o rosto mais alto e franzi a testa, certa de que estava começando a ficar com dor de cabeça.

– Acho melhor você ir – eu disse. – Eu preciso acordar cedo amanhã.

Ele escondeu a expressão e suspirou.

– Eu te vejo no Três Vassouras a noite.

Não foi uma pergunta.

– Como sempre.

E havia dúvidas. Mas não por muito tempo.

Eu abri a porta para ele passar, mas Scorpius resolveu me dar um beijo de boa noite no rosto. Foi suave e equilibrado, mas com a capacidade de desequilibrar qualquer pensamento. Os lábios dele pararam na minha bochecha, próximo ao canto dos meus lábios. Acabou que, quando ele foi se afastar, ele não se afastou. E eu permiti que ele me beijasse e que houvesse uma desculpa para esse beijo.

Poderia ser o último.

Uma despedida entre lábios. Já que não íamos mais repetir aquilo.

Começou lento. Eu entreabri os lábios para receber sua língua macia e quente. Ficamos naqueles movimentos interiores por um tempo longo. Ele segurou meu rosto e eu apertei sua camisa. Foi ali, quando ele acariciou levemente minha bochecha, enquanto nos beijávamos com suavidade e calmaria, e eu sentia meu peito estufar e meu coração apertar contra ele de forma desconfortável, que eu percebi que não podia deixar isso se intensificar.

Não pode intensificar.

Eu me afastei subitamente. Ele encostou a testa na minha, sem insistir mais, só que ele tinha a respiração entrecortada.

– Boa noite, Rosie. – Deu-me um beijo na minha testa. – Desculpe.

Quando o vi passar pela porta, eu me senti vazia.


– Rose, posso entrar? – era a voz de Lily. – Você deixou a porta aberta.

Ela estava com a voz mansa, apesar de eu tê-la chamado de vaca há alguns dias.

Era de final de tarde, eu voltara da escola e estava assistindo ao filme na televisão do meu quarto. E tomando sorvete. Pensando se fiz a coisa certa em acabar as coisas com Scorpius. Se isso estava realmente me fazendo bem. Enfim, refletindo coisas sobre relacionamentos.

– Desculpe ter falado aquelas coisas pra você, Lils – eu disse tentando disfarçar meu choro idiota. O filme era triste. – Eu... eu sei que você não é uma vaca, mas...

Lily tirou a distância entre ela e a cama e sentou ao meu lado para compartilharmos o doce. Isso me lembrou os tempos de criança, o que me obrigou a sorrir. Principalmente quando ela disse, encostada a cabeceira da cama:

– Não, você estava certa. Eu quis sentir pena de mim mesma e isso é a coisa mais indigna que alguém pode fazer. Entendo que se eu tivesse o costume de conhecer os caras antes de me entregar fácil para eles... eu não teria ido para cama com um casado. Eu não teria magoado o Hugo também.

Olhei para ela com certo orgulho. Tudo o que queria era dar a ela essa visão de relacionamentos. Percebi que ela precisava de consolo, talvez porque as coisas com Hugo não iam dar certo já que eles eram primos, mas, inevitavelmente, se sentiam atraídos. Eu passei um braço ao redor de seu ombro e ela encostou a cabeça no meu.

– Quando Hugo foi pra Grécia – eu quis saber enquanto a imagem do filme passava na televisão e não prestávamos atenção – como você ficou?

– Arrasada. Mas... era algo que ele queria há tanto tempo, então eu apenas superei.

Alemanha nunca foi algo que Scorpius queria. Ele nem mesmo mencionou isso em nenhuma de nossas conversas.

– Você está pensando em Scorpius, não está?

– O tempo todo, Lils – eu murmurei a confissão. – Deve ter alguma coisa errada comigo.

– Talvez. Os caras geralmente conseguem quebrar você, por mais bonzinhos que sejam. Eles sempre dão um jeito de magoar. Não é a intenção deles, sabe? Mas eles simplesmente magoam. Porque nós, mulheres, somos idiotas e pensamos o tempo todo em estar ao lado deles. Porque precisamos deles. E você precisa do Scorpius, mas não mais do que ele precisa de você. E quando Scorpius perceber isso, ele não vai embora.

– Você parece certa disso.

Ela deu de ombros.

– Eu só acho que você tem um humor melhor quando sua vida sexual está agitada.

Consegui rir.

– Então é por isso que você sempre tenta jogar caras para cima de mim?

– Exatamente. Agora você e Scorpius voltaram para a zona da amizade, mas isso não vai fazer nenhum bem pra vocês.

– Lily, isso não vai dar certo. Eu vou sentir falta dele. E se meu sentimento se intensificar mais... vai doer mais do que normalmente doeria quando ele for embora.

– O que é mais um pouco de dor? Na minha opinião, vocês deviam continuar. Ficar assim, nessa frieza entre os dois, nesse desconforto, até o dia em que ele arrumar as malas, não é uma boa ideia.

– Eu estava pensando nisso.

Nós continuamos caladas, juntas assistindo a um filme que acabamos chorando como loucas. Lily e eu costumávamos ter TPM no mesmo período.

Nos dias seguintes, tive distrações na escola com as apresentações que eu organizava para os meus alunos apresentarem para os pais em um festival. E em casa eu organizava minhas idéias para escrever mais uma coluna na revista Aprenda e Compreenda.

Foi uma semana monótona, pelo menos até o fim dela. Com a vida agitada e as coisas que ele deveria ajeitar para se mudar na próxima semana, Scorpius parecia tão sem tempo para passar o tempo. Mas na sexta-feira eu não aguentei e disquei o número do telefone dele.

Ele atendeu no primeiro toque.

– Rose, ei, oi. O que houve?

– Eu estava sem vontade de fazer o jantar hoje. Está tão silencioso aqui no apartamento. Acreditaria se eu dissesse que até sinto falta da Stephanie?

Ouvi sua risada fraquinha, mas ele não disse nada, então eu suspirei e mordi os lábios.

– Então... acabei pedindo uma pizza, mas acho que... não vou conseguir comê-la sozinha.

– Oh. A Lily não poderia...

– Scorpius – olhei para a sacada do meu apartamento e saí para cheirar o ar. A brisa era deliciosa. E a imagem da rua de Londres por ela me lembrava que eu não podia apreciá-la sem Scorpius ao meu lado. Não era a mesma coisa. – Você entendeu.

– Mas você disse...

– Eu sei o que eu disse. Mas estou confusa – acrescentei baixinho.

– Rose – ele parecia hesitante. – Eu estou ocupado, não vou conseguir sair daqui agora... tenho um monte de coisas para empacotar.

– Tudo bem – fechei os olhos. Ele aceitou. Ele aceitou tão fácil que não podemos continuar. – Tudo bem, eu-

– Você poderia vir aqui.

Abri os olhos. Eu percebi que estava sorrindo quando respondi:

– Não vou te atrapalhar?

– Você nunca me atrapalha.

– Eu estou indo, então.

– Te vejo em meia hora.

E, então, meia hora depois ele estava abrindo a porta para mim.

Seu apartamento quase me deixou deprimida, porque estava vazio. As caixas de papelões encostadas em um canto perto da sala. A televisão ligada apenas passando clipes musicais. Enquanto eu observava isso, essa imagem triste, Scorpius andou até o balcão da cozinha, que por um acaso não tinha sido esvaziada ainda, por causa das garrafas de bebidas. Scorpius preparou um drinque para nós dois.

Eu tomei tudo de uma vez, o que deixou Scorpius um pouco preocupado e assustado. Mas ele abriu um sorriso incrédulo.

– Se é assim.

E me imitou.

Eu senti minha garganta arder, mas foi de um jeito bom.

Nós dois rimos.

– Sabe o que nunca fizemos? – indaguei.

– Sexo em pé.

– É – eu percebi, franzindo a testa. – Mas não, não era isso o que eu estava pensando. – Olhei para ele ali, com sua camiseta preta do pijama, calça de moletom e sem sapatos nos pés. Pensei que nenhuma mulher já o vira assim antes. Nenhuma mulher passou tanto tempo com ele antes. – Eu estava pensando que nunca ficamos bêbados juntos.

– Ah, isso seria perigoso.

– Por que iríamos acabar transando?

– Mais ou menos. Bem – ele refletiu. – Agora não seria muito estranho se acontecesse. Você tem certeza disso?

– Vamos voltar para a faculdade – estiquei o copo para ele, sorrindo.

Scorpius não demorou e nós dois, a cada bebida, a cada gole, a cada drinque, perdíamos a noção da razão.

Mas, para a minha surpresa bêbada, não nos apressamos em tirar a roupa, mas ficamos rindo sem parar com as lembranças da nossa amizade, das merdas e das coisas que já aprontamos, fizemos e queríamos ter feito. Não ficamos extremamente bêbados, a ponto de esquecermos tudo no dia seguinte, porque não deu tempo. Acho que teve um momento que esquecemos do álcool e só ficamos conversando.

Nós nos beijamos muito. Meus lábios ficaram até cansados. Bem, não tanto. Começou com provocação, daquele jeito que ele sabia fazer muito bem. Com a calça que ele usava a ereção ficava indiscreta e visivelmente elevada. Eu estava ao lado dele no sofá, com as pernas sobre seu colo. Eu me inclinei, beijei o pescoço dele suavemente e sorri.

– Isso é porque bebemos demais ou porque eu te faço sentir assim?

– Vou te contar um segredo, Rose – ele sussurrou. – Uma vez, quando a gente tinha quinze anos. Lembra do acampamento com a turma da nossa sala?

– Vai dizer que perdeu a virgindade naqueles dias? – ergui uma sobrancelha.

– Não – ele negou com a cabeça. – Eu mentiria se dissesse que nunca me masturbei pensando em você. Naquela idade.

– Scorpius! – eu exclamei, dando um tapa no braço dele. – Mas acho que eu posso levar isso como um elogio?

– Não era como se eu quisesse... você aparecia de vez em quando na minha cabeça, e um dia aconteceu de ter aparecido justamente quando eu estava duro.

– E o que o acampamento tem a ver com isso? – ergui uma sobrancelha bem alto.

– Foi a primeira vez que eu te vi usando um biquíni. A imagem ficou. E eu mentiria se dissesse que nunca pensei em ficar com você naquela época.

– Por que não tentou? Ainda não éramos tão amigo assim.

– Ah, eu já tentei – ele riu alto, como se as lembranças fossem desastrosas. – Várias vezes. Você nunca percebeu.

– Impossível. Eu definitivamente iria ter percebido!

– Você era meio ingênua, Rose.

– Ok, então. Fale um momento quando estudávamos juntos que você tentou ficar comigo.

– Na festa de debutante da Sabrina.

– A festa que você agarrou a Sabrina.

– Você tinha dado um fora em mim. E naquela excursão para o zoológico – lembrou. – Nós sentamos juntos no ônibus.

– Hã. Scorpius, nós estávamos na quarta série.

– E você acha que eu pensava o quê naquela época? Olha – ele abanou a cabeça. – Eu confesso que não fui um bom amigo por pensar essas coisas, mas eu sou homem. Eu não sei como essa amizade sobreviveu tanto e eu odiaria perder isso, mesmo longe daqui, Rose – ele disse virando seus olhos bonitos para mim. – A forma como você era ingênua, mas nada boba, a forma como você não era exagerada e não gostava de chamar atenção... você ganhou meu total respeito pelo seu jeito. Eu já tive minhas tentativas e você as ignorou muitas vezes, mas porque eu fiz por merecer. Eu nunca tratei as mulheres do jeito que elas merecem... mas isso porque elas nunca fizeram nada para merecer meu respeito. Já você... eu não consigo te ignorar. Mesmo que você não sinta o mesmo por mim, eu ainda quero ter você da forma que achar melhor...

– Você vai me ter aqui em Londres – eu sussurrei sentando em seu colo e segurando o rosto dele. – Não continue empacotando suas coisas, Scorpius. Só de ver isso... dói pensar nos dias sem você.

– Eu vou voltar mais rápido do que pensa – ele prometeu.

– Promete? – exigi.

– Prometo – ele disse. – E podemos sempre conversar. Estamos num mundo globalizado.

– Eu não vou sentir falta só das nossas conversas.

Ao ouvir isso ele capturou meus lábios e tirou minha blusa. Eu fiz o mesmo com a camiseta dele, beijando seu peito e mordendo seu mamilo. Lambi a região subindo até o pescoço. Ele me agarrou ainda mais, prendendo-se entre minhas pernas de modo que eu podia sentir a dureza do seu membro por baixo da calça contra a minha calcinha. Sem perceber, eu estava me esfregando nele, desesperadamente, molhada e excitada.

Ele me levantou, eu enrolei minhas pernas ao redor da cintura, enquanto ele me levava até...

Epa, ele não me levou até o quarto.

Ele me jogou em cima do balcão da cozinha. Talvez porque estava mais perto e ele não queria enrolar para tirar minha calça, minha última peça de roupa. Beijou minha intimidade e brincou com a língua pela umidade, depois beliscou com os lábios o meu clitóris fazendo-me gritar e gemer alto. Eu estava sentada no balcão, o que parecia algo extremamente erótico, mas delicioso.

Foi rápido e preciso. Eu retribuí os beijos e os chupões naquela extensão maravilhosa de seu órgão quando me agachei para tal coisa. Scorpius movia o quadril no ritmo, puxando meu cabelo, gemendo alguns palavrões aqui e ali, como sempre fazia quando estava enlouquecido pelo sexo oral. A calça estava na metade do quadril e eu a tirei dali para apertar suas nádegas que se movimentavam. Eu me afastei quando tive necessidade de tomar fôlego. Scorpius me beijou mais um pouco, de um jeito maravilhoso. Foi só isso o que prevaleceu antes dele alargar meu sexo com o preenchimento do dele.

Não demorou e ele se movia contra mim com força e rapidez. Sentir a pele de Scorpius esfregando para trás e para frente dentro de mim era uma sensação melhor do que eu podia imaginar. Eu gritei e agarrei seu pescoço, abrindo mais as pernas e pedindo por mais, implorando por mais.

Ele já estava suando quando afastou lentamente. Achei que ele já ia gozar fora de mim, mas apenas me virou, apertando minhas nádegas com as duas mãos, penetrando-me naquela posição. Eu segurei o balcão com força, gemendo o nome dele. Eu tive que gritar quando ele penetrou mais fundo e moveu-se rapidamente por muito tempo.

Nós estávamos enlouquecidos. E nós dois não paramos ali. No começo da noite, foi realmente só sexo. Sexo e sexo de todas as formas. Mas quando Scorpius já parecia cansado de inovar e me mostrar como isso era perfeito, ele, molhado de suor dos pés a cabeça, apenas me levou para a cama dele. Ficamos deitados, juntos, com ele em cima de mim. Minhas pernas estavam erguidas e flexionadas, o corpo dele entre elas. Era possível ouvir o barulho dos nossos corpos se chocando, mas estavam leves e lentos e suaves. Eu diria... romântico. Ele beijava meu pescoço, depois olhava para mim e sorria. Eu o beijei de novo, e de novo. E gemia. Gemia. Eu queria gemer com ele para sempre.

Sim, para sempre.

Mas isso seria impossível.

Scorpius estava concentrado em me fazer gozar, então apenas ouvi seus arquejos. Eu gemi mais. Com algumas últimas estocadas, ele terminou, apertando o corpo sobre o meu. Eu o abracei e ficamos assim por um tempo longo, até ele cair para o outro lado.

Fechei lentamente meus olhos, percebendo que precisava dormir. Nós não conversamos mais, apenas pegamos no sono e dormimos juntos. O corpo dele estava encostado ao meu... devíamos ter nos movido muito durante aquela noite enquanto dormíamos, porque de manhã eu acordei com metade do meu corpo apoiado em suas costas. Scorpius estava de bruços.

A dor de cabeça mandou um oi quando abri meus olhos. O sol estava batendo nas janelas de vidro transparente e fazia reflexo. O sábado estava maravilhoso, eu sentia isso, mas acordar ao lado de Scorpius como se fossemos namorados... e depois saber que ele ainda teria que voltar a arrumar suas malas... era uma contradição de sentimentos bons e ruins. Porque era isso o que eu queria... mas agora tinha um prazo. E muito pequeno.


Olá pessoal. Eu precisei terminar o capítulo, embora esse não tenha sido exatamente o final do capítulo, pois não quero demorar para postar. Quero comentários e muito combustível para os próximos acontecimentos. Será que Scorpius deve ir embora? Palpitem, opiniões são importantes.