O bip intercalado e lento daquele aparelhinho trouxa era absolutamente irritante, porém era o que dava a ele a certeza de que sua paciente ainda estava viva. Se é que a situação em que a mulher se encontrava não era aquilo que se poderia chamar de "viva". Um mero vegetal. Encarando o teto sem piscar. Sem fechar os olhos. Sem desviar por um único minuto do ponto desconhecido em que seus olhos se fixaram.

De tempos em tempos, uma enfermeira pingava uma poção em seus olhos, o que evitava a desidratação da retina, o que ocasionaria um dano irreversível. O medi-bruxo lhe aplicava poções para mantê-la viva, ainda havia a esperança de algo fantástico ocorrer e ela simplesmente voltar... Por mais remota e impossível que essa chance estivesse.

Então a deixou sozinha para a noite, como costumeiramente. A enfermeira pingou algumas gotas da poção hidratante em seus olhos e saiu. Ninguém sabia o que havia acontecido de verdade. Não havia nenhuma forma de provar que quem teria atacado a desafortunada senhora teria sido Harry Potter. Nada, nenhuma lembrança havia restado em sua mente, para que pudesse ser útil às investigações. Não havia marcas em seu corpo, em suma ela estava perfeitamente saudável, porém algo a acometera de tal forma que a transformou em um mero vegetal. Sem envenenamento, sem feitiços. Absolutamente nada.

Quando o medi-bruxo fechou a porta atrás de si, um terrível pressentimento se apossou dele, um calafrio lhe percorreu a espinha e ele virou-se desesperado, tentando abrir a porta, inutilmente. "Alorromora!", gritou, apontando a varinha para a fechadura, e novamente provou-se inútil. Correu para a janela que deveria servir para vigiar os pacientes, porém a mais pura escuridão era a única coisa que conseguia ver. Buscou uma cadeira e tentou arremessa-la contra o vidro, porém ela foi repelida com tamanha violência que, não fosse ele estar com a varinha em punho e atento para que algo assim pudesse acontecer, provavelmente agora estaria gravemente ferido.

Enquanto isso, no interior do quarto, naquele exato momento em que o desavisado medi-bruxo fechava a porta, ele igualmente selava o destino da moribunda. Pela janela, um Harry James Potter de olhos avermelhados apenas aguardava pelo momento em que poderia estar completamente à sós com sua nova vítima.

Como se pudesse pressentir a presença de seu algoz, a mulher tremeu. Seus olhos finalmente se moveram de onde focavam o nada, encarando o homem impiedoso que agora estava em seu quarto. Merlin, como ela gostaria de se mover e gritar, fugir, fazer algo para impedir aquilo que, no fundo ela sabia, era absolutamente inevitável.

- Onde está sua segurança, Dolores...? – ele perguntou calmamente, sentando-se diante dela, o assento da cadeira virado para frente.

Uma lágrima desceu pelo rosto dela quando ela ouviu e reconheceu a voz de Harry. A maldição que ele havia lançado sobre ela impedia que ela se movesse. Mas ao contrário do feitiço do Corpo Preso, não havia reversão, a não ser que aquele que amaldiçoou a vítima tivesse compaixão.

- Suponho que seu maior desejo, neste exato momento, seria fugir, não é mesmo? Pena que eu não tenho o mesmo desejo, ou poderíamos entrar em um acordo, não é verdade? – ele girava displicentemente a varinha em sua mão direita.

Ela fechou os olhos apertados, forçando a si própria a acreditar que existiam milagres e que, se naquele momento, alguém impedisse Potter, ela seria capaz de se casar com um Centauro.

- Acho que podemos começar logo com isso... – ele se levantou da cadeira e, com um sorriso sádico, apontou a varinha para ela, que fechou os olhos pela última vez, na esperança de acordar daquele horrível pesadelo.


Draco vinha piorando sua aparência gradativamente. Extremamente magro e mais pálido que o costumeiro, era como se pouco a pouco a vida se esvaísse por seus dedos e ele não fizesse absolutamente nada para que o oposto ocorresse. Ainda assim, ele trabalhava. Apesar de Arthur ter lhe dado licença pela morte de sua mãe, ele se recusou em ficar sem trabalhar, o que resultou em uma terrível discussão entre os dois.

Fora chamado com urgência a comparecer no St. Mungus, em plena madrugada. Aparentemente um novo ataque, creditado a Harry Potter, havia ocorrido há alguns instantes. O medi-bruxo responsável pelo chamado, Zacharias Smith, fumegava de um não-contido ódio. Nunca fora segredo que detestava Harry Potter durante a época da escola, principalmente depois de seus desentendimentos na AD.

- Pode, por favor nos esclarecer exatamente o que houve lá dentro, senhor Smith? – uma bruxa jovem de cabelos claros e encaracolados perguntava, a resposta sendo anotada por uma pena de repetição rápida.

Draco olhava ao redor. Aurores por todos os lados, membros do alto escalão do Ministério indo à loucura, medi-bruxos e enfermeiros apavorados e pacientes confusos. Era a personificação do crescente caos que, pouco a pouco, era instaurado entre as pessoas. Causado por um único e enlouquecido bruxo.

Entrou no quarto onde ocorrera o novo crime e por pouco não segura um berro. Dolores Umbridge, assistente direta do Ministro da Magia, estava pregada ao teto, completamente nua, com horrendas lacerações por todo o corpo e o rosto desfigurado. Ainda gotejava sangue no chão, formando uma poça que, vagarosamente, tomava conta de todo o quarto.

- Aquele... Doente... – na parede do quarto era possível divisar uma frase, escrita com o sangue de Dolores. "Eu não devo mentir!". Draco não compreendeu. Talvez pelo fato de jamais ter sido informado do que se passava na sala de Umbridge, quando Harry Potter cumpria suas detenções, no quinto ano.

Ainda completamente horrorizado com a cena, Draco dá um salto para frente e um grito, ao sentir que alguém tocara seu ombro. O grito fora consideravelmente baixo, porém o suficiente para Daemon perceber o quanto Draco já havia sido afetado pelos crimes de Harry.

- Relaxe, garoto. Potter não vai aparecer entre tantos Aurores. Ele não é estúpido.

- Obrigado pela brilhante informação. – o loiro arrumava suas vestes e se recompunha, ainda olhando para a frase na parede. – Que diabos isso deveria significar, Potter...? Que tipo de jogo sádico é esse?

Um bruxo, não mais velho que 20 anos, entrou na sala e correu até Draco, parecendo afobado.

- Senhor Malfoy, levantamos os dados sobre a estadia de Umbridge em Hogwarts, onze anos atrás. Pelo visto ela torturou Potter com permissão do Ministro Fudge, que queria, a qualquer custo, evitar que a notícia de que "Você-sabe-quem" estava de volta se espalhasse.

- É eu sei. – ele respondeu, distraído, encarando a frase. Fez menção de tocar aqueles escritos, mas temeu que fosse exatamente o que Potter queria, como se suspeitasse de que haveria ali alguma maldição.

Aquilo fez com que suas próprias convicções fossem abaladas. Uma vez dissera que Potter precisaria comer muito arroz com feijão para meter-lhe medo. Porém ainda não tinha visto o quão sádico e diabólico seu rival poderia ser. Pela primeira vez, sentiu as pernas cambalearem. Sim. Estava com medo. E sentia que, de alguma forma, Harry sabia.


Blaise Zabini. O sonserino mais misterioso e temido dos áureos tempos de Hogwarts. Galante, de porte aristocrático, pureblood como mandava o figurino. De família nobre e tradicional do mundo bruxo, trabalhava em altos cargos do Ministério da Magia. E contrariando todas as expectativas, casou-se com a grifinória Parvati Patil. Veio-se saber tempos depois que fora um casamento de conveniências. Os pais de Parvati, apesar de igualmente tradicionalistas e teoricamente ricos, precisavam de dinheiro. Recorrer aos Zabini fora uma tentativa desesperada. E provou-se, com o passar dos anos, o pior erro deles.

Em eventos sociais, Blaise exibia Parvati tal qual um troféu. Linda, aqueles grandes olhos negros, injetados de uma paixão única e aquela pele caramelada, que suscitava os pensamentos mais sórdidos e os olhares cheios de cobiça dos demais. Os cabelos longos, negros, lisos e com permanente perfume de jasmim, Parvati era uma tentação.

Em casa tudo era diferente.

Era a partir do momento em que ele trancava a porta de acesso. Seu semblante, seu olhar, tudo adquiria uma sombra pesada e um olhar injetado de uma dominação e um sentimento de posse tomava conta dele. Parvati deixava o teatro do lado de fora. Os elfos domésticos eram instruídos a jamais dizer uma palavra do que acontecia lá dentro a ninguém, portanto seria impossível que alguém descobrisse.

- Quem falou para você dirigir a palavra ao Nott, Parvati? – a voz dele, grave, pesada, cheia de uma fúria inicialmente contida, porém crescente, se fez ouvir.

A jovem estacou e virou-se para ele, em absoluto pânico. Sabia que não adiantava a resposta que daria, o resultado seria o mesmo.

- Ele... Ele se dirigiu a mim, querido. Seria deselegante manter-me calada. – ela falou, tentando parecer o mais natural possível, mas involuntariamente seus olhos já se enchiam de lágrimas.

- Crucio. – o raio negro cruzou a sala e atingiu Parvati pelas costas, que caiu de joelhos, atravessada pela dor intensa daquela maldição. Por mais vezes que tivesse sido vítima daquele suplício, era como se a cada sessão, as dores se redobrassem e encontrassem uma nova maneira de faze-la sofrer.

Os gritos da jovem eram o único som audível no momento. Até que uma terceira voz se fez ouvir e uma maldição imperdoável pode ser divisada.

- Império. – a voz ordenou. E imediatamente a tortura da jovem ex-grifinória cessou. Parvati não se movia, sentia dores intensas por todo corpo e mal podia respirar. Ouvia a voz, mas não conseguia saber de quem se tratava, até que ela tornou a falar. – Estupefaça. – e a jovem não viu nada mais.


Hermione abriu os olhos e, ao constatar que Severus não dormia ao seu lado, suspirou. Desde a última discussão, há quase uma semana, não tinha notícias do marido, a não ser cartas de Dumbledore, dizendo que ele estava bem e que só precisava de algum tempo para reorganizar os pensamentos. Tinha certeza de que ainda o amava e que era recíproco, porém ainda se sentia vulnerável ao olhar intenso e à sedução de Harry Potter.

Levantou-se a muito custo e se dirigiu até a cozinha. Iria fazer o café, sem açúcar, amargo como ela merecia. Comer torradas, secas, sem geléia ou manteiga. Tudo para que ela se lembrasse daquele erro atroz, daquele momento em que deixou a coragem e o orgulho de lado para permitir que seu coração abrisse o espaço necessário para que Harry Potter, o novo inimigo público número 1 se aproveitasse e fizesse dela um fantoche.

Mas ao chegar na cozinha o viu. Suas roupas formais, o cabelo displicente jogado ao rosto, de costas para ela. Passando o café. Com açúcar. Na mesa, torradas, potes de geléia de vários sabores, que só ele sabia preparar, como um autêntico professor de Poções. O cheiro de ovos e bacon, que estavam sendo fritos para ela. E não pôde evitar que seus olhos ficassem marejados. Sorrindo levemente, se aproximou sem dizer palavra alguma. Tocou seu ombro.

Por sua vez, ele fechou os olhos, sentindo aquele toque que tanto apreciava, desejava e sentia falta. Não poderia se afastar dela. Seria fatal para ambos. Ele não sabia mais viver sem aqueles cabelos loiros. Sem as roupas irritantemente entupidas de pêlos ruivos de seu gato, Bichento, sem aqueles cabelos castanhos volumosos, cacheados, que emolduravam a face mais perfeita que tivera a oportunidade de vislumbrar.

Virou-se para ela e a enlaçou pela cintura, puxando-a para si, enquanto com a outra mão tirava algumas mechas de cabelo que cobriam seu rosto.

- Como eu pude duvidar, por um segundo, do que você sente por mim...? – ele falou, sorrindo, olhando fundo em seus olhos. Ela sorriu, algumas lágrimas se desprendendo de seus olhos. Ele limpou seu rosto com as costas das mãos e deu-lhe um beijo.

E naquele momento ela percebeu a principal diferença que existia entre o beijo de Severus e o beijo de Harry. O beijo de Harry era contido de desejo, luxúria, volúpia, era praticamente uma obscenidade. Já o de Severus... Era amor. Cálido, com a pitada exata de lascívia. Intenso sem se perder na vulgaridade. Era o certo. Era o que ela queria.

Mas saberia lutar na hora certa ou cairia novamente na armadilha de Potter? "Que se dane", pensou. "Por hoje, me darei o direito de ser feliz, sem pensar no resto".


A madrugada ia alta. Era véspera de lua cheia e Remus dormira cedo, preparando o corpo para o que o aguardava a partir da próxima noite. No quarto ao lado, agora decorado com motivos infantis de menina, a pequena Clair dormia profundamente.

Porém, em contrapartida, o sono de Remus era agitado. Virava na cama, enquanto, em seus sonhos, via imagens terríveis, profanas. Sua filha, Helena, sendo estuprada e agredida de todas as formas possíveis. Humilhações terríveis, enquanto ela olhava em seus olhos e lhe implorava por alguma ajuda. E ele tentava ajudar, porém se via atado a correntes de ferro presas a uma parede maciça. E como se não bastasse, ao lado via os Comensais atacando e assassinando brutalmente seu filho e deixando Nymphadora inválida para sempre. Ele queria berrar por socorro e tentava faze-lo, porém era como se, ao sair, sua voz se tornasse um novo algoz de seus familiares. Forçava as mãos para se livrar e se via mais atado à parede. Chorava, tentava despertar daquele maldito pesadelo, e via-se incapacitado. Arranhava o próprio rosto, arrancando sangue, talhando a pele e a carne de forma selvagem. Até que finalmente via-se transformado em lobisomem, mesmo sem a lua cheia para transforma-lo. E sem fazer uso da poção Mata-cachorro, via-se uma criatura incontrolável. O que lhe restava de consciência tentava detê-lo, porém o instinto animal falava mais alto e ele se via como o próprio assassino de Helena e do filho.

Acordou sobressaltado. Levou a mão ao rosto e percebeu algo molhado, mas aliviou-se ao constatar ser apenas suor. Respirava pesadamente e olhava ao redor. Já não recordava desde quando tinha aqueles pesadelos. Parecia que era uma eternidade, porém forçou-se a lembrar.

E lembrou.

Tudo começou desde o dia em que Dumbledore levou Clair Parkinson para morar com ele...

Agora compreendia. Ela não era uma garota comum. Harry e Voldemort a tinham devolvido com algo maligno dentro dela. E sabendo se tratar de uma criança indefesa, seria impossível fazer algo contra ela.

Malditos...