11. Pelo resto de sua vida

All the same take me away, we're dead to the world.
-Nightwish


Já era perto de meia-noite quando Sirius saiu do St. Mungus e aparatou em Cotswolds. Seguiu pelas ruas silenciosas na direção sul, acompanhando o canal. A temperatura estava lá pelos cinco graus e ele não sentia a menor vontade de aparatar em casa quando a brisa fresca lambia com o máximo de reverência seu pescoço.

Num semáforo próximo a Harbor Towers, o motor de um carro zumbiu alegremente ao seu lado enquanto ele andava pela calçada. Duas jovens charmosas passaram em sua frente, indo na direção contrária à dele. Elas pareciam trabalhar em escritório trouxa: ambas usavam saias justas mas de cor neutra e blusas sob capas de chuva amassadas. Suas meia-calças escuras desapareciam na altura dos tornozelos, escondendo-se em tênis idênticos. Elas caminhavam um tanto inseguras como se o pavimento fosse esponjoso, e o riso rápido da ruiva pareceu a Sirius um tanto exagerado.

O olhar dele cruzou com o da morena, e ele sorriu o sorriso inocente de um ser humano reconhecendo outro numa noite suave e tranqüila num vilarejo cidade quase sempre morto.

Ela retribuiu o sorriso, sua amiga soluçou ruidosamente e, quando chegaram à esquina, caíram nos braços uma da outra, morrendo de rir.

Sirius atravessou o sinal, entrou na rua principal, a silhueta negra das casas avultando pelo canto de seus olhos, e ele se pegou pensando em como devia ser um sujeito bem estranho, já que o sorriso de uma moça bêbada ainda conseguia levantar seu astral com tanta facilidade.

Mas aquele era um mundo estranho, em geral povoado por bruxos como Tom Riddle, Mulciber, Mulkern, e uma mulher sobre a qual Sirius lera num jornal trouxa daquele dia, que deixou os três filhos sozinhos no apartamento e saiu para uma farra de quatro dias com seu mais novo namorado. Quando os assistentes sociais entraram no apartamento, tiveram de arrancar uma das crianças do colchão, no qual ficara grudada pelas feridas devidas à longa permanência na cama. Talvez parecesse que, num mundo como aquele – dois mundos, e era difícil decidir qual era menos triste – , um sorriso de mulher não pudesse ter nenhuma importância. Mas teve.

E, se seu sorriso levantou o astral de Sirius, aquilo não foi nada em comparação com o que ele sentiu quando, ao entrar no beco vazio que levava até sua casa, viu Dorcas Meadowes sentada nos degraus da escada. Ela estava com um casaco verde-oliva, cinco ou seis números maior que seu manequim, por cima de uma camiseta escura, saia e meia calça preta terminando em botas de cadarço. Podia haver poucas coisas boas naquele mundo, mas mostrassem a Sirius um sujeito que tivesse algo a dizer contra as meia-calças e Sirius os mostraria um lunático.

Normalmente as mechas de seus cabelos curtos, castanho-avermelhados, caíam-lhe no rosto, mas com certeza ela ficara passando a mão neles durante as últimas trinta horas na Ordem, e seu rosto estava marcado pela falta de sono e pelas xícaras de café que tomara sob a luz hipnotizante da sala da sede, raciocinando sofregamente sobre a morte dos McKinnon, a mais nova façanha de Riddle e seus amiguinhos invisíveis.

E, apesar disso, ela ainda era uma das mulheres mais bonitas que Sirius já vira.

Enquanto ele se aproximava, ela se levantou com um meio sorriso brincando nos lábios e um brilho malicioso nos olhos claros. Quando Sirius chegou às escadas, ela estendeu os braços e se inclinou para frente.

"Me pegue," ela fechou os olhos e se deixou cair.

A pressão de seu corpo contra o de Sirius foi tão doce que quase doeu. Ela o beijou, prendeu a cintura dele com as coxas e cruzou os tornozelos por trás das pernas dele. Ele sentiu o cheiro de sua pele, o calor de sua carne e o pulsar sincrônico de cada um dos órgãos deles, músculos e artérias. A boca dela afastou-se da dele e seus lábios roçaram em sua orelha.

"Senti sua falta," sussurrou ela.

"Deu pra notar," Sirius beijou seu pescoço. "Como conseguiu escapar?"

Ela soltou um gemido. "As coisas acabaram por se acalmar."

"Faz tempo que está esperando?"

Ela fez que não com a cabeça, mordiscou a garganta dele e em seguida suas pernas deslizaram da cintura de Sirius, ela ficou de pé na frente dele, as frontes coladas uma na outra.

"Onde estão os outros?" perguntou ele.

"Em suas casas. Dormindo."

"E você?" ele deslizou a mão pela coluna dela. "Está precisando dormir?"

Ela gemeu novamente, fez que sim com a cabeça e sua testa bateu na de Sirius.

"Ai," fez ele.

Ela sorriu devagar. "Desculpe."

"Você está exausta."

Ela o olhou nos olhos. "Totalmente. Mas, mais que sono, preciso de você," ela passou a língua pelo lábio inferior dele. "Preciso sentir você em mim, no mais fundo de mim. Você acha que pode me fazer esse favor, senhor Black?"

"Sou uma pessoa muito prestativa, senhorita Meadowes."

"Foi o que ouvi falar. Você vai subir comigo ou vai querer dar um show para os vizinhos?"

"Bem..."

A mão dela passou no abdômen de Sirius, um pouco acima do umbigo. "Onde está doendo?"

"Um pouco mais embaixo," respondeu ele.

Quando Sirius fechou a porta do apartamento atrás de si, Dorcas o encostou na parede e enfiou a língua em sua boca. A mão esquerda agarrava sua cabeça por trás, pelos cabelos da nuca, mas a mão direita percorria o corpo dele como um animal faminto. Sirius contraiu o abdômen e riu quando as unhas dela roçaram a pele naquela região.

"Pelo visto, a dama resolveu assumir o comando esta noite."

Ela desabotoou o jeans dele e desceu as mãos pelas costas de Sirius até que desaparecessem por dentro do cós da calça. "A dama está com tanto fogo," disse ela, tirando-lhe a camisa, "Que vai ser preciso usar a mangueira de incêndio."

"Este cavalheiro terá o prazer em servi-la."

Ela deu um passo para trás e olhou para ele, a língua traiçoeira na ponta de um canino superior, enquanto tirava o casaco, jogando-o em seguida em algum canto da sala. Dorcas não era lá muito organizada. Depois beijou Sirius quase brutalmente, deu meia volta e entrou no corredor.

"Aonde você está indo?" a voz de Sirius estava um pouquinho rouca.

"Tomar um banho."

Ela tirou a camiseta quando chegou à porta do banheiro. Um pequeno raio de luz, vindo do exterior, incidiu sobre os músculos rijos de suas costas. Ela pendurou a camiseta na maçaneta e voltou-se para olhar para ele, braços cruzados sobre os seios nus.

"Você não vai se mexer?" disse ela.

"Estou apreciando a vista" ele respondeu.

Ela descruzou os braços e passou as mãos pelos cabelos, inclinando-se um pouco para trás, as costelas aparecendo sob a pele. Seus olhos cruzaram com os de Sirius novamente, enquanto ela se desvencilhava das botas e das meias. Ela passou as mãos pelos quadris e desceu a saia. Esta caiu até seus tornozelos, e Dorcas também a descartou.

"Está começando a recuperar os sentidos?" disse ela.

"Ah, sim."

Ela se encostou no batente da porta e enfiou os dedos na tira de elástico de sua calcinha preta. Quando Sirius caminhou em sua direção ela arqueou uma sobrancelha, dando um sorrisinho diabólico.

"O senhor faria o obséquio de me ajudar a tirar isso?"

Sirius ajudou. E como ajudou.

De repente, quando fazia amor com ela sob o chuveiro, ocorreu a Sirius que ela sempre o fazia pensar em água. Eles se conheceram durante a semana mais úmida de um outono frio e chuvoso; seus olhos verdes eram tão claros que o lembravam a chuva de inverno, e a primeira vez que fizeram amor foi com a chuva da noite caindo em seus corpos.

Depois do banho, se deitaram na cama ainda molhados, os cabelos castanho-avermelhados dela parecendo mais escuros contra o peito de Sirius, e o eco de seus gemidos ainda ecoando nos ouvidos dele.

Ela tinha uma cicatriz do tamanho de uma tachinha na clavícula , o preço que pagara, quando criança, por brincar no celeiro de seu tio, onde havia pregos expostos. Sirius inclinou-se e beijou a cicatriz.

"Humm," gemeu ela. "Faça de novo."

Sirius passou a língua na cicatriz.

Ela passou a perna por cima dele, roçou o lado do pé no tornozelo dele. "Você acha que uma cicatriz pode ser excitante?"

"Acho que tudo pode ser excitante."

Sua mão tépida tocou o abdômen dele, deslizou pelo tecido cicatricial ao lado direito do ventre dele. "E esta aqui?"

"Nessa aí não há nada de excitante, Dorcas."

"Você sempre desconversa quando tento falar disso."

Ela sorriu. Passou a mão entre as coxas dele, os olhos brilhando de uma forma ingênua.

Sirius tentou sorrir, mas duvidou que o resultado tivesse sido satisfatório. Não compreendia porque precisava ficar lembrando de coisas tristes nos momentos mais indevidos. Foi por causa da maldita cicatriz e do olhar de Dorcas naquele momento, cheio de uma felicidade honesta e simples, como os olhos de Jamie costumavam ser quando eram adolescentes.

"Não precisamos falar disso, se você não quiser," disse Dorcas.

Sirius levantou a mão esquerda, afastou uma mecha de cabelo que caia na fronte dela com a costa dos dedos e deixou que eles deslizassem molemente pelo rosto dela, pela suave pele do pescoço, depois pela curva suave e firme de seu seio direito. Tocou de leve o mamilo, girou a mão, erguendo-a novamente para o rosto, e então puxou Dorcas para cima dele. Abraçou-a com tanta força que por um instante ouviu os corações de ambos batendo um contra o peito do outro como granizo caindo num balde de água.

"Ela gostava de ver o pôr-do-sol. Íamos para um lugar alto em Hogsmeade e ficávamos lá conversando, até anoitecer. Depois voltávamos para Hogwarts."

"Vocês tinham quantos anos?"

"Dezesseis."

Ele fechou os olhos. Por favor, Dorcas, não pergunte. Por Deus, não me faça lembrar daquela noite, dela...

"Ela foi seu primeiro amor?"

"Não," disse ele, abrindo os olhos. "Jamie disse, no final daquele ano, que era apaixonada por mim desde o começo. Que tremia e suava quando ouvia minha voz nos corredores na época em que Tiago e eu ainda éramos rivais."

"Acho que ela nunca deixou de tremer," disse Dorcas.

E o que ele lhe dera em troca? Nada. Ele não se lembrava de vez alguma em que tivesse pensado nela com carinho. Ele sequer pensava nela. Depois que ela morreu sim, ele pensava nela quase todos os dias. Pensava em sua carne queimando, em suas lágrimas, em seu sangue e em sua dor exalando de seu corpo jovem, fresco e perfeito, e isso doía. Jamie doía.

Dorcas levantou a cabeça e o olhou. Depois enfiou os dedos no cabelo dele. O beijo que deu então foi vigoroso, quase dolorido, como se estivesse tentando sugar a dor dele.

Fazer amor com ela mais uma vez, alguns minutos depois, foi uma das experiências mais bonitas e desconcertantes da vida de Sirius. Dorcas tinha pouco mais de trinta anos, esse fato já era o bastante para que ele sentisse como se estivesse sendo sempre observado de longe enquanto andava em cima de uma ponte, e a qualquer passo em falso dele, ela apareceria para colocá-lo novamente no caminho certo. As mãos e os braços deles se juntaram e, ao longo de todo o corpo, Sirius sentiu sua carne contra os ossos dela. Então as coxas dela se ergueram até os quadris dele e o puxaram para si, deslizando as pernas pelas costas dele, cruzando os calcanhares atrás dos joelhos dele e fazendo com que Sirius se sentisse completamente envolvido, como se suas carnes e seus sangues tivessem se fundido.

Ela soltou um grito e Sirius sentiu como se ele tivesse saído de suas próprias cordas vocais.

"Dorcas," sussurrou, perdendo-se dentro dela. "Dorcas."

Quase dormindo, os lábios dela roçaram a orelha dele.

"Boa noite," disse ela com voz de sono.

"Boa noite."

Sua língua deslizou pela orelha dele, quente e elétrica.

"Eu te amo," murmurou ela.

Quando Sirius abriu os olhos para fitá-la, ela estava dormindo.

Eram seis horas da manhã quando ele acordou com o barulho do chuveiro. Seus lençóis guardavam a lembrança do perfume dela, da carne dele e um vago odor de neutralizador de charutos; o suor deles e as marcas do amor impregnavam o tecido como se lá estivessem há um milênio.

Sirius foi encontrá-la na porta do banheiro e ela ficou encostada a ele enquanto penteava os cabelos.

A mão dele deslizou por baixo da toalha e recolheu as gotas de água que escorriam pelas coxas dela.

"Nem pense nisso, Sirius," ela o beijou. "Tenho que voltar para a Ordem e estar lá antes que Gideão chegue. Depois da noite passada com você, tenho que agradecer por ainda conseguir ficar de pé. Agora, vá tomar banho."

Sirius tomou banho sozinho, enquanto Dorcas pegava roupas limpas numa gaveta destinada – de comum acordo – a ela, e Sirius se pegou esperando pelo desconforto que sempre sentia depois que uma mulher passava mais de, digamos, uma hora em sua cama. Mas não sentiu.

"Eu te amo," ela dissera antes de dormir.

Que estranho.

Sirius vestiu uma calça jeans preta e uma blusa de manga azul-escura, e quando desceu para a cozinha, ela estava em pé lendo o caderno de anotações de Beijo. Aproximou-se de Dorcas por trás quando ela estava virando uma folha.

"Sirius, se tocar em mim eu mato você," disse ela com calma.

Ele retirou as mãos imediatamente.

Ela sorriu enquanto jogava o caderno na mesa. Sirius passou os braços por cima dos ombros dela e abriu o armário, lançando um olhar ao relógio de parede e desejando que ele estivesse quebrado. Ele beijou as pálpebras dela e depois se afastou, abrindo a embalagem de chocolate com a boca. Então alguma coisa estalou e a voz de Tiago veio da sala.

"Sirius?"

Sirius entrou na sala. "Sim, senhor."

"Adivinhe onde estamos."

Sirius abaixou-se em frente à lareira e tentou ver alguma coisa atrás da cabeça de Tiago, sem sucesso. Balançou a cabeça. "A uma hora dessas, imagino que num motel."

"Oi, Tiago," disse Dorcas ao passar atrás de Sirius.

Ele acenou com a cabeça, depois tornou a olhar para Sirius, agora ligeiramente confuso. "Nós" começou ele, lançando mais um olhar a Dorcas. "Bem, nós achamos o esconderijo deles."

Sirius parou de sentir os passos de Dorcas no chão. "Vocês acharam eles?"

"Está vazio, Sirius. Eles não estão aqui."

"Como vocês...?" Dorcas principiou.

"Achamos o esconderijo?" disse Tiago. "Resolvemos dar uma passadinha na Mansão Riddle."

É lógico. Era tão lógico que ninguém tivera essa idéia antes.

"Quem está aí com você?"

"Lupin, Pedro, Gideão, Dumbledore, Aberforth, Beijo, Hagrid, Moody... Metade da Ordem."

Dorcas sentou-se no sofá e tomou um gole da xícara de café enquanto cruzava as pernas, uma coisa que Sirius jamais a vira fazer, mas achou que ela ficava bem assim.

"Estamos revistando tudo. Eles brincam com as vítimas antes de matá-las," disse Tiago. Seus olhos geralmente leves estavam retesados e possuíam um brilho triste e desolado que Sirius imaginava fazer parte do plano dos Comensais. Deus sabe que tipo de coisas ele não estava vendo naquele esconderijo. "Eles tem umas quinhentas fotos aqui... os McKinnon, Anne, Jamie, um monte, e ainda tem um filme que estamos revelando agora."

"Certo," disse Sirius devagar. "Pontas, voltem pra casa, Dorcas e eu cuidaremos disso."

"Não," disse Tiago.

"Há quanto tempo vocês estão aí?" perguntou Dorcas do sofá.

Tiago respondeu sem pensar. "Duas horas."

"Achei que você devia ver isso," alguém disse do outro lado.

"Só um minuto," disse Tiago, e virou o rosto para o lado, inclinando-o um pouquinho para baixo. Pelo jeito que ele estava observando o que lhe mostravam, devia ser mais uma foto.

"O que é, Pontas?" perguntou Sirius.

Tiago não respondeu. Seu pomo-de-adão se avolumou quando ele engoliu em seco, e nada em sua expressão mudou senão seus olhos. Antes eles brilhavam suavemente. Agora eles não brilhavam mais.

"Pontas?"

"Vocês identificaram a pessoa nas fotos?" dizia alguém do outro lado.

"Está revelando," responderam. A voz pareceu mais próxima. Sirius a reconheceu como sendo de Lupin. "Consegue identificar o local da foto, Pontas?"

"Sim," disse Tiago. "Na Abadia de Melrose."

Lupin demorou um tempo para responder. Antes que ele dissesse, Sirius já tinha processado a informação. Sentia um gosto azedo subindo pela sua garganta. "Nas ruínas de Melrose? Onde você e Lílian se casaram?"

"A foto é minha ou de Dorcas?" perguntou Sirius.

Tiago franziu a testa. "Lílian," disse ele.

Sirius foi o primeiro a entrar em contato com Lílian. Segundos antes de Tiago desaparecer da lareira, gritando para que todos saíssem dali e fossem para sua casa, Sirius já estava com a cabeça enfiada nas chamas e sentindo os movimentos apressados de Dorcas atrás de si.

"Lílian?"

Ela não apareceu. Ele gritou por ela.

Lílian, Lílian, Lílian...

"Sim?"

"Você está bem?" Sirius escorregou para frente e teve que se segurar nas laterais da lareira para não cair sobre o fogo.

"O quê? Você me acordou. Que horas são?"

"Sete. Desculpe."

Ela passou a mão pelos cabelos e olhou ao redor. Depois tornou a olhar para Sirius. "Podemos falar outra hora?"

"Não. Não. Quero que verifique todas as portas e janelas enquanto espero aqui."

As casas de todos os aurores que trabalhavam na Ordem eram protegidas com feitiços anti-aparatamentos. Mas nenhum deles jamais tinha sido testado, e Sirius tinha a mania de acreditar que nada era impossível, principalmente para Tom Riddle. Dorcas saiu e bateu a porta. O ruído que ela fez ao desaparatar foi o de um carro batendo num poste.

"O quê? Que barulho é esse?"

"Lílian, verifique suas portas e janelas. Veja se estão todas fechadas."

"Sirius, eu..."

"Faça isso agora, Lílian."

Ela saiu da sala. Então ele achou que estava sendo burro, porque se algum Comensal tivesse entrado na casa enquanto ela dormia, ele podia resolver fazer alguma coisa enquanto ela verificava portas e janelas.

"Lílian," chamou Sirius.

Alguns minutos depois ela ressurgiu na sala, ainda mais confusa. "O que está acontecendo, Sirius?"

"Você verificou as portas?"

"Eu estava fazendo isso. A porta da frente está fechada. A que dá para o porão também. Espere que vou verificar a dos fundos."

"Não, não," murmurou Sirius, mas ela já tinha ido.

Onde estavam os outros? Meu Deus, onde eles estavam?

"A porta dos fundos está fechada," disse Lílian do corredor. "Agora vou verificar as janelas."

"Ótimo."

"Você está me assustando."

"Eu sei. Sinto muito. As janelas."

"A do quarto da frente e a da sala estão fechadas. Estou indo para o banheiro."

Sirius esperou.

Lílian disse em voz alta de algum lugar da casa: "Estou na lavanderia. Fechada. Fechada. Aberta."

"Aberta?"

"Sim. Está só um pouquinho aberta."

"Merda."

"Sirius, me diga o que está acontecendo."

"Feche-a, Lílian. Feche-a."

"Já fechei. O que você acha..."

"Volte para cá," disse Sirius. Ele não lembrava da última vez que suara tanto.

Ela voltou. Ele teve vontade de pular da lareira para o outro lado.

"Onde está sua varinha?" perguntou ele.

Mas ela olhou na direção da cozinha, ficando de repente muito branca. "Estão forçando a porta."

Sirius ia dizer para que ela fosse buscar a varinha, mas então ouviu a voz de Tiago e foi como terem lhe jogado água morna nas costas.

Sirius entrou na casa de Lílian e Tiago.

Tiago estava dizendo: "Quero que ela fique protegida por uma tal barreira que nem a NASA consiga localizá-la."

"Eu entendo," respondia Dumbledore.

Mas Gideão o olhava como se ele fosse doido de dar nó. "Isso significa largar as buscas e a Ordem."

Tiago virou-se para ele. Sirius não reconheceu a frieza em seu rosto.

"Significa por tudo a perder..." emendou Gideão.

"Dane-se," berrou Tiago, impassível, e apontou para Lílian parada na porta da cozinha. "Ela é Lílian. Não me porta se vamos perder tudo, não me importa se eles não vão parar de matar as pessoas, a única coisa que me importa é que eles não vão matar Lílian."

Lílian aproximou-se de Sirius. "Que diabos está acontecendo?" ela olhou por sobre o ombro dele enquanto Dorcas gritava ordens para no mínimo trinta aurores lá fora, e seus olhos se arregalaram.

Em toda a rua, lâmpadas se acendiam. Sirius fechou a porta.

"Agora está tudo bem," ele falou.

"A prioridade das prioridades," disse Dumbledore a Lílian, na sala, "é por você em segurança. Há um esquadrão lá fora esperando para escoltar você para Hogwarts."

Lílian balançou a cabeça.

"O quê?" disse Tiago.

"Não," repetiu Lílian. "Não vou." Ela se virou para Tiago. "Acabamos de comprar essa casa, acabamos de casar, não vou largar tudo isso."

"Lílian, sua vida está em perigo," disse Dumbledore com a voz suave.

Ela balançou a cabeça. "Vocês podem me proteger. Vocês podem me vigiar," ela olhou na direção de Tiago e seus olhos encheram de lágrimas. "Mas não posso abandonar tudo isso. Não agora."

"Minha querida, não posso consentir isso," disse Dumbledore.

Ela sacudiu a cabeça. "Vai ter que consentir, Dumbledore."

"O homem com quem estamos lidando..."

"É perigoso, eu sei. Tiago me disse. E eu estou com medo, Dumbledore, mas não vou abandonar o que lutei tanto para conseguir. Não agora. Por ninguém."

"Ele vai pegar você," falou Tiago, e sua voz era tão fria que a temperatura ambiente caiu uns dez graus.

Todos na sala olharam para ele.

"Não, se..." disse Lílian.

"Não se o quê? Não posso proteger você de todos eles, Lílian."

"Não estou lhe pedindo..."

"Mas eu vou fazer. Se você ficar, eu vou ficar também, e eles vão matar a nós dois."

Dumbledore olhou para Moody e este sacudiu os ombros.

"Não posso obrigá-la a aceitar a custódia..."

"Não," disse Tiago. "Não, não, não, não. Lílian, você não conhece esses sujeitos. Eles vão pegar você. Eles vão matar você. Vão, sim."

Ele atravessou toda a sala e se postou diante dela.

"E daí?" disse ela.

"E daí?" disse ele. "E daí?"

Todos os olhares estavam voltados para ele. Sirius via um Tiago que não conhecia – louco e vingativo, violento, mau, descontrolado - segurando tudo aquilo em seu corpo, mas não conseguindo deter em seus olhos. Eles fuzilavam.

"E daí?" Lílian repetiu.

"Ele vai cortar a porra da sua cabeça," disse ele.

"Pontas," disse Lupin.

Tiago inclinou-se sobre Lílian. "Você entendeu isso? Ele vai cortar sua cabeça. Mas só no final. Primeiro, querida, ele vai torturar você, depois amputar partes de seu corpo, depois enfiar pregos e cravos em suas mãos..."

"Pare com isso," disse ela calmamente.

Mas Tiago não conseguia. Ele achava importante que ela soubesse, Sirius compreendia isso. Ele estava imaginando Belatriz ali, embora fosse impossível que ela corresse esse perigo, mas ele simplesmente imaginava.

"... ele vai estripar você, Lílian. Ele adora fazer isso. Estripar as pessoas para ver as entranhas fumegando. E então talvez ele lhe lance um Imperius e mande você arrancar os próprios olhos enquanto algum cúmplice queima o seu corpo..."

Lílian franziu as sobrancelhas e lhe lançou um olhar de puro ódio.

"Saia da minha frente," disse ela.

"Lílian."

"Agora."

"Lílian," disse Dumbledore. "Gostaria que você enten..."

"Eu vou com vocês."

"Ah..."

Seus olhos verde-elétricos estavam fixos em Tiago. "Aceito a custódia de vocês."

"Escute, Lílian," ele começou.

"Eu achei que tinha mandando você sair da minha frente."

O telefone que Lílian utilizava para falar com a irmã tocou, ela estendeu a mão para atender, os olhos sempre fixos em Tiago. "Alô." Ela franziu o cenho. "Já lhe disse para não tornar a ligar. Se você quiser falar com Sirius..."

"Quem é?" Sirius perguntou.

Ela largou o fone no chão, junto aos pés de Sirius. "Você deu nosso número para aquele seu amigo psicopata, Sirius?"

"Bubba?" ele pegou o telefone enquanto ela passava por Tiago.

"Alô, Sirius."

"Quem é?"

"O que você achou das fotos que tirei dos seus amigos?"

Sirius olhou para Dumbledore e Moody e articulou "Tom Riddle."

Dumbledore saiu correndo enquanto Moody abaixava-se perto da extensão.

"Não fazem meu gênero, Riddle."

"Oh," fez ele. "Lamento ouvir isso. Trabalhei muito para aperfeiçoar a minha técnica, tentando jogar com luz e espaço, respeitar a perspectiva e tudo o mais. Você não acha que estou progredindo em termos artísticos?"

Através da vidraça, Sirius viu um auror escalando o poste telefônico da rua.

"Não sei, Riddle. Não acho que seus trabalhos possam impressionar Annie Leibovitz."

Tom deu uma risada longa e tranqüila. "Mas o seu amigo elas impressionaram, não, Black?"

Moody ergueu com um movimento brusco a varinha no ar, onde se leu: "Mantenha-o na linha por dois minutos."

"Sim. Onde você está, Tom?"

"De olho em vocês."

"É mesmo?" Sirius resistiu à tentação de se virar para as janelas que davam para a rua.

"De olho em vocês, em sua namorada – a outra namorada – , e em todos esses simpáticos aurores em volta da casa."

"Bem, já que você está por perto, por que não dá um pulinho aqui?"

Outra risada. "Prefiro esperar um pouco. Você está muito bonito agora, Black – o telefone colado ao ouvido, o cenho cerrado numa expressão de preocupação, cabelos despenteados por causa da chuva. Belatriz iria gostar de vê-lo assim."

Lílian voltou à sala e deixou cair a valise no soalho, perto da porta.

"Obrigado pelo elogio, Tom."

Lílian piscou quando ouviu o nome e olhou para Tiago.

"De nada," disse Tom.

"Que roupa estou usando?"

"Pode repetir?" disse ele.

"Que roupa eu estou usando?"

"Black, quando conheci Jamie ela..."

"Que roupas estou usando, Tom?"

"... me pareceu ligeiramente..."

"Você não sabe porque não está vendo esta casa, está?"

"Eu estou vendo muito mais do que você pode imaginar."

"Você está blefando, Tom," Sirius começou a rir. "Você tenta se passar por..."

"Não ouse rir de mim."

"... um bruxo poderoso e perigoso que detesta trouxas e outros bruxos que não tenham o sangue puro, mas você usa telefones para nos ameaçar e..."

"Mude esse tom de voz, Black. Imediatamente."

"... visto daqui você parece um pobre coitado."

Moody olhou o relógio e levantou três dedos. Mais trinta segundos.

"Vou cortar Meadowes em sete e mandar para você por corujas."

Sirius voltou a cabeça, viu Dorcas de pé na porta de saída da cozinha, franzido o cenho para o sol que começava a incidir por cima das árvores.

"Não conte com isso, seu lunático. Você pode ter tido essa chance, mas deixou passar."

"Vou acabar com todo mundo que você conhece," sua voz tremia de raiva.

Beijo entrou pela porta da frente e balançou a cabeça.

"Começando por esse seu amigo que acabou de entrar."

"Reze para não cruzarmos com você antes, Tom."

"Você não vai conseguir, Sirius. Ninguém consegue. Até mais."

Outra voz, mais rouca que a de Tom Riddle, entrou na linha. "Até logo, Black."

A linha caiu, e Sirius olhou para Dumbledore.

"Você reconheceu a segunda voz?" disse Dumbledore.

"Não, por causa do sotaque."

"Eles estão no litoral norte."

"Litoral norte?" disse Dorcas.

Moody confirmou com a cabeça. "Nós vamos acuá-los. Mulkern mandou todo o resto do esquadrão para lá."

"Eles se esconderam numa ilha?" perguntou Lupin.

Moody continuou falando. "E também mandamos bloquear a Rede de Flu e há equipes vigiando o céu da ilha. Fudge está providenciando um escudo anti-desaparatamento ao longo da ilha."

"Quer dizer então que estamos todos em segurança?" disse Dorcas.

"Não," falou Sirius.

Ela o ignorou e olhou para Dumbledore.

"Não podemos nos arriscar," disse ele. "Nem você, Lílian. Não podemos pôr sua segurança em risco até pegarmos Tom Riddle e os outros."

Lílian olhou para Tiago. Este estava encostado num canto da cozinha onde a luz não chegava, só o que dava para ver era a silhueta suave de seu rosto. "Certo. Você tem razão."

Dumbledore voltou-se para os outros. "Franco e Alice ficarão aqui, Moody, Dédalo, Emeline, Lupin e Beijo irão comigo para o Ministério. Hagrid, leve Edgar, Carátaco, Elifas e Aberforth para Hogwarts, fale com Minerva, diga que localizamos Tom Riddle. Gideão, Fábio e Pedro, sigam com Lílian junto com os outros aurores."

Sirius olhou para Tiago, e ele balançou a cabeça.

"Os feitiços colocados nas portas da frente e dos fundos são muito eficientes, Pontas."

"Nós podemos nos proteger por algumas horas," disse ele.

Dumbledore pôs a mão em seu ombro. "Confie em mim, Tiago." Ele olhou para Lílian. "Pronta?"

Ela fez que sim e estendeu a mão para Tiago. Tiago a segurou, olhou para a mão dela, o rosto marcado por uma tristeza que não combinava com seu semblante.

"Lílian."

"Não," Lílian disse e sorriu, embora fosse visível que ela não sentia vontade de fazer aquilo. Ela aproximou-se dele e beijou seu rosto de leve. "Eu te amo."

Quando ia anoitecendo, ele e Dorcas foram até o pátio, onde alguns aurores estavam espalhados, escondidos entre árvores, cercas, hidrantes e latas de lixo, prontos para saírem de seus esconderijos se fosse preciso. Apenas um deles não se escondia. Ele estava vestido como um guarda trouxa e acendeu a lanterna duas vezes, apontando-a na direção de Sirius e Dorcas.

Andando com cuidado, ele atravessou a rua para ir ao encontro deles. Era um rapaz esbelto, com um rosto grande e franco sobre um quepe azul-escuro, o rosto de um menino do interior ou de um menino criado pela mãe para ser padre.

Seu quepe estava envolto em plástico para não ficar molhado, e sua pesada capa brilhava sob a chuvinha fina. Ele levou a mão ao boné quando se encontraram nos degraus da entrada.

"Senhor Black, senhorita Meadowes, sou Timothy Dunn. Como vão as coisas?"

"Podiam estar melhores," disse Dorcas.

"Sim senhora, eu ouvi dizer."

"Senhorita," disse Dorcas.

"Como?"

"Por favor, chame-me de senhorita ou de Dorcas. Senhora faz com que eu me sinta velha o bastante para ser sua mãe." Ela o examinou através da chuva. "E não sou, sou?"

Ele sorriu timidamente. "Claro que não, senhorita."

"Quantos anos você tem?"

"Vinte e quatro."

"Puxa!"

"E você?" perguntou ele.

Ela deu um risinho. "Nunca pergunte a uma mulher quanto ela pesa nem sua idade, Dunn."

Ele balançou a cabeça. "De qualquer forma, parece que, nesses dois itens, a providência divina foi muito generosa com você."

Sirius revirou os olhos.

Ela recuou um pouco, examinou-o mais uma vez.

"Você vai longe, Dunn."

"Obrigado, senhorita. As pessoas vivem me dizendo isso."

"Elas têm razão."

Ele olhou para os próprios pés por um instante. Mexeu-se um tanto desajeitado e beliscou o lóbulo da orelha direita de um jeito que Sirius concluiu tratar-se de um tique nervoso.

Ele pigarreou. "O sargento Ascar disse que vão mandar reforços logo que todos forem liberados do litoral. Pelo que me disseram, as portas da frente e dos fundos estão equipadas com feitiços, e a parte de trás da casa está protegida."

Dorcas fez que sim.

"Mesmo assim, eu gostaria de dar uma olhada."

"Esteja a vontade."

Ele levou a mão ao quepe novamente e deu uma volta pela lateral da casa, enquanto Sirius e Dorcas permaneciam na entrada ouvindo o ruído de seus passos na grama congelada.

"Onde será que Mulkern arrumou esse menino?" comentou Dorcas. "No jardim de infância?"

Sirius pensou em lembrar-lhe de que ele próprio era tão novo quanto Dunn, mas achou que ela poderia dizer-lhe alguma gracinha também.

"Deve ser um sobrinho," falou.

"De Mulkern?" ela balançou a cabeça. "Impossível."

"Pode crer. Mulkern tem oito irmãs, quatro são trouxas e freiras. As outras quatro se casaram com homens conscientes de que ocupam o segundo lugar na vida de suas esposas: o dinheiro vem sempre antes."

"E como Mulkern escapou desse pool genético?"

"É um mistério, reconheço."

"Esse aí é tão inocente e espontâneo..." disse ela.

"Ele é jovem demais para você."

"Todo menino precisa de uma mulher para corrompê-lo."

"E você é a garota certa para isso."

"Claro! Você viu o movimento daquelas coxas musculosas sob a calça justa?"

Sirius soltou um suspiro.

A luz da lanterna precedeu o ruído dos passos de Timothy na grama quando ele voltou dos fundos da casa.

"Tudo em ordem," disse ele enquanto Sirius e Dorcas desciam os degraus, indo ao seu encontro."

"Obrigada, Dunn."

Seu olhar cruzou com o de Dorcas, suas pupilas dilataram e ele imediatamente desviou os olhos para a direita.

"Tim," disse ele. "Pode me chamar de Tim, senhorita."

"Então me chame de Dorcas. Ele é Sirius."

O rapaz balançou a cabeça e olhou Sirius no rosto com o olhar cheio de culpa.

"Bem..." disse ele.

"Bem..." disse Dorcas.

"Bem, vou ficar por aqui. Se eu precisar me aproximar da casa, faço três sinais com a lanterna, apontando para aquela janela."

Ele apontou para a sala. "E, se vocês estiverem dormindo ou não virem o sinal , toco a campainha. Dois toques rápidos, certo?"

"Tudo bem," disse Sirius.

"Vocês vão sair dessa," disse ele.

Dorcas fez um gesto de concordância. "Obrigada, Tim."

Ele balançou a cabeça sem ousar levantar os olhos para ela, atravessou a rua e sumiu na sombra de uma árvore.

Sirius fez uma careta para Dorcas. "Tim."

"Ora, cale a boca."

"Ela vai superar isso," disse Alice.

Estavam na sala de jantar conversando sobre Lílian. De lá eles podiam ver o mapa da casa de Tiago aberto numa parede da cozinha, com os nomes de Franco e Alice Longbottom, Tiago Potter, Sirius Black e Dorcas Meadowes piscando no espaço da sala. Em vez de dar mais segurança a Sirius, aquilo o lembrava do quanto estavam vulneráveis.

"Não, não vai," disse Tiago.

"Se ela o ama, vai entender que o estresse fez com que você estourasse. Foi só um descontrole."

Ele balançou a cabeça. "Daqui a dez anos ela vai ter esquecido de todas aquelas pessoas invadindo nossa casa. Daqui a dez anos ela não vai mais se lembrar de ter ficado sob custódia do Ministério. Mas nem daqui a cinqüenta anos ela vai esquecer as coisas que eu disse."

Sirius tentou pegar o olhar de Tiago e fazer com que seus olhos fixassem nos dele, mas era como se Tiago estivesse fazendo força para que isso não acontecesse. Ele havia se sentado num canto do sofá, parecendo menor. Um vulto nas sombras.

O telefone não havia parado de tocar o dia inteiro, porque os vizinhos estavam querendo saber o porquê da confusão logo cedo. Dorcas e Alice se revezavam para pedir desculpas pelo transtorno. Tiago lançava olhares assassinos ao telefone toda vez que ele tocava, e Dorcas achou que seria melhor ficar na cozinha, ao lado do aparelho, atendendo logo no primeiro toque para evitar que alguma coisa na casa explodisse.

Ela desligou o telefone quando, o que pareceu ser o último vizinho curioso, perguntou se eles estavam gravando mais um episódio de Encontros e Barrancos naquela manhã, e foi tomar banho. Sirius ficou à mesa empoeirada da sala de jantar, com as velas apagadas e as cortinas fechadas. Franco e Alice tinham se recolhido no escritório e Tiago tinha subido sem dizer palavra, apenas jogando lá de cima uma camiseta a Dorcas quando ela lhe pediu.

Quando ela saiu do banho, usava a camiseta por cima do jeans rasgado e encardido. Seus cabelos estavam molhados como se ela não os tivesse enxugado. Pegou uma lata de refrigerante na geladeira e, ao passar as mãos em seus braços, Sirius imaginou que ela havia aberto o chuveiro na temperatura mais alta possível.

"Vai dar tudo certo," ele falou.

Ela deu de ombros. "Vai."

"Eles vão agarrá-los dessa vez, antes que consigam fazer mal a mais alguém."

Outro sacudir de ombros.

"Dorcas, ele não vai pegar você."

"Foi isso que ele lhe disse, não foi? Até agora, a média de pontos dele está bem alta."

"Somos muito bons no que fazemos, Dorcas. Acho que podemos proteger um ao outro."

Ela tomou um gole do refrigerante, saiu do alcance dele e se sentou. Sirius fez o mesmo e pôs sua mão em cima da dela. "Não sabíamos com quem estávamos lidando antes. Agora sabemos."

"Sirius, ele matou os McKinnon com a maior facilidade. Eles eram aurores, uma família de aurores, e todos foram achados como marionetes desengonçados no chão."

Naquele momento, ele não estava preparado para refletir sobre aquilo, mas disse: "A casa dos McKinnon não estava guardada por cinqüenta..."

As mãos dela giraram sob as dele, de modo que suas palmas se tocaram, e ela apertou os dedos em volta do punho de Sirius. "Ele é totalmente insano," disse ela. "Nunca lidamos com uma coisa assim. Ele não é uma pessoa, é uma força e acho que, se está decidido a nos pegar, vai conseguir."

"Não vai..."

"Psit," fez ela retirando as mãos das dele. Colocou a lata de refrigerante sobre a mesa e pigarreou. "Não quero parecer covarde, nem uma mulherzinha patética, mas preciso apertar alguém em meus braços agora e..."

Ele afastou a cadeira e ajoelhou-se entre as pernas dela. Dorcas o abraçou, ele apertou o rosto contra o dela e ela pressionou os dedos em suas costas.

Sua voz era um cálido murmúrio nos ouvidos dele. "Se ele me matar, Sirius..."

"Eu não..."

"Se ele o fizer, você vai me prometer uma coisa."

Sirius esperou, sentindo o terror que fazia seu peito palpitar e lhe inundava os poros.

"Prometa-me," disse ela, "que vai ficar vivo tempo o bastante para matá- lo. Bem devagar. Durante dias, se você conseguir."

"E se ele me matar antes?" perguntou ele.

"Se ele pegar você antes de mim," disse ela inclinando-se um pouco para trás para que seus olhos pudessem fitar os dele, "Vou pintar a casa dele com seu sangue. Até o último centímetro."

A perna direita de Dorcas se afastou da de Sirius quando o telefone tocou, e ele sentiu uma brusca sensação de frio.

"Por favor, Phil," disse ela. "São quase duas da manhã."

Ela apoiou um cotovelo na mesa e passou a mão que não segurava o fone pelos cabelos.

"Estou feliz por você ter conseguido," disse ela. "Mas por favor, Phil, não podemos conversar amanhã de manhã?"

O marido trouxa de Dorcas. O Bundão. Sirius riu de forma amarga e olhou ao redor. As folhas roçavam a janela, projetando sombras embaraçadas neles, nas paredes e no teto.

A mão de Dorcas agora acariciava distraidamente a barriga dele. A certa altura ela se voltou, olhou para Sirius e revirou os olhos, como quem diz: "Você acredita numa coisa dessas?". De repente ela apertou com força a curva da cintura dele, onde ela dizia haver pneuzinhos, e mordeu lábio inferior com força tentando controlar o riso. Não conseguiu.

"Phil, você andou bebendo, não foi?"

Sirius olhou pela janela, mas as folhas já tinham se afastado, batidas pelo vento noturno.

"Sei disso, Phillip," disse ela com tristeza. "Eu sei. E estou tentando." Sua mão se afastou de Sirius, ela se voltou para o telefone e se levantou da mesa. "Não, eu não odeio você."

Ela apoiou um joelho na cadeira, ficou olhando pela janela, o fio do telefone enroscando-lhe ao redor das costelas enquanto ela tentava acertar a lata de refrigerante na lixeira.

Sirius se levantou também e vestiu o casaco. A casa se tornara fria sem o contato com um corpo quente, e ele não estava com a menor vontade de ir para o sofá dormir enquanto Dorcas tagarelava com Phil.

"Não estou julgando," disse ela. "Mas se Riddle resolver atacar você esta noite... porque você é trouxa, Phil. É melhor que você esteja bem sóbrio, não acha?"

Um raio de luz branca passou pelo ombro dela; por três vezes, ele iluminou a parede branca na frente de Dorcas. Ela estava de cabeça baixa e não notou, mas Sirius instintivamente olhou para o mapa da casa colado à parede oposta e o reflexo da luz causou distorções em sua vista. Ele se aproximou e na verdade não havia reflexo nenhum. Ele leu no mapa:

Dorcas, Sirius, Tiago, Franco, Alice, Avery, Jugson, Evan, Travers, Crabbe, Rabastan, Rodolfo, Mulciber, Macnair, Lúcio, Dolohov...

Um enxame de nomes piscando alucinadamente dentro da casa. Sirius abriu a porta e olhou para a rua. Os aurores estavam todos lá, caídos no chão como folhas secas no inverno. Pela calçada vinha Timothy Dunn, correndo em direção a eles.

"O que está havendo?" perguntou Sirius.

Ele estava de cabeça baixa para se proteger das gotas que caíam das árvores, e Sirius notou que ele tremia e bufava de frio. Houve um chiado na lareira da sala, um breve estalo, como se alguém fosse aparecer ali, mas ninguém apareceu.

"Está com frio?" disse Dunn beliscando o lóbulo da orelha.

"Sim. Vamos, entre," disse Sirius. "Feche a porta."

Sirius entrou na sala e viu a cabeça de Moody na lareira. Ela ficou ali apenas os segundos necessários para poder dizer: "Sirius, Tiago, saiam já daí. Tom nos passou a perna. Ele nos enganou. Ele não está no litoral norte."

No meio do corredor, Sirius se voltou no momento em que Dunn levantou a capa e o rosto rijo de um homem apareceu sob a aba do quepe. Olhos em forma de fendas brilhantes como fios de prata.

"Tom não está no litoral, Black. Ele está aqui. Pelo resto de sua vida."