Espero que não estejam bravos comigo pela demora do capítulo. Sem mais, boa leitura.


Capítulo 11 – Yours Ever

Radamanthys levou Ikki ainda desacordado para o subsolo da casa e quando voltou para a sala, Pandora o esperava. Ela tinha uma expressão preocupada.

- Tudo correu bem, senhorita. – disse Radamanthys.

Pandora abriu um sorriso de gratidão. Seus olhos esbarraram em manchas escuras na calça de seu homem de confiança. Sangue.

- Você está ferido! – aproximou-se do inglês e o fez se sentar em uma poltrona. Segurou sua perna e examinou o ferimento. – Devia ter me contado que levou um tiro, Radamanthys.

- Não foi nada... – disse Radamanthys observando o perfil delicado da bruxa. – Seu feitiço de proteção me salvou e eu não queria preocupar a senhora...

- Não queria me preocupar, sempre essa desculpa. – resmungou Pandora. – Fique aqui. Vou buscar curativos.

- Senhora Pandora, posso cuidar disso...

- Não, Radamanthys! – disse Pandora, firmemente. – Eu mesma vou cuidar desse ferimento.

Pandora já havia dado as costas quando Radamanthys assentiu obediente. Permaneceu em silêncio durante todo o tratamento. Pandora cortou a calça de seu ajudante com uma tesoura e depois desinfetou a pequena ferida com bastante álcool. Radamanthys de vez em quando observava seu semblante compenetrado. Aqueles momentos que ela cuidava dele eram tão raros.

- Realmente, se não fosse o feitiço de proteção você poderia ter sangrado até a morte, Radamanthys. – disse a bruxa baixinho.

Levantou a cabeça e observou o corpo avantajado sentado na poltrona, em seguida os olhos cinzentos sempre calmos para ela, ameaçadores para o resto do mundo. Sir. Radamanthys Wyvern era o melhor dos cães de guarda. Não era a primeira vez que sangrava por ela, e sempre fazia isso com aquela serenidade inabalável. Ela queria dizer o quanto se sentia agradecida pela proteção desde a infância, mas de repente sentiu uma vergonha dolorosa e tornou a baixar a cabeça. Redobrou a atenção no curativo.

###

A sensação de sufocamento veio dois segundos após abrir os olhos. Parecia que havia um saco de cimento sobre seu peito. Sabia que tinha levado um tiro. Mú se arrastou para o acostamento da rua com muita dificuldade e de lá para o Impala. Deixava um rastro de sangue pela estrada. Teve que parar para descansar uma vez, precisava ir com calma, entrar em pânico pioraria tudo.

Sentou na grama ofegante e cada vez que puxava o ar sentia o peito doer mais, como se fosse se abrir a qualquer momento. Tentou levantar o braço para abrir a porta do carro e ficou chocado ao perceber que não sentia mais o braço direito. Fechou os olhos, lutando contra o nervosismo. Pensava no filho Kiki o tempo todo. Não queria deixá-lo sozinho, não queria morrer ali. O tiro não o matara, então ele havia vencido a primeira batalha, e preferia continuar vencendo.

Reunindo suas últimas forças, o vidente forçou o corpo para levantar o outro braço para abrir a porta do carro. Em seguida, pegou o celular no porta luvas gemendo bastante. Estava tonto e agora sentia todo o corpo formigar. Por milagre acertou o número que queria discar.

Fechou os olhos ao ouvir uma voz masculina dizer 'alo'.

- Kanon... Estou gravemente ferido.

- Onde você está?

- Estrada... – sentia que estava perdendo a sensibilidade em todo o lado direito do corpo. – Estrada 107, Km 34, Salem.

- Estou a caminho, Mú. Aguente firme. – falou Kanon com segurança.

Mú deixou cair o aparelho. Olhou para o céu onde estrelas despontavam opacas. Agora só precisava esperar o amigo e lidar com aquela dor. Pensava em Ikki também. Se ele não estava por perto, significava que fora levado pelo grandão que parecia não sentir dor. A imagem dele o atacando depois de levar um tiro lhe veio à lembrança. Aquele sujeito não era normal. Segundos depois perdeu os sentidos.

###

Ikki partiu para as grades assim que acordou. Chacoalhou as barras com toda sua força querendo abri-las.

- Que merda de lugar é esse?! Pandora! – berrou enfurecido. – Pandora! Bruxa maldita, gigante loiro maldito. – rosnou afastando-se das grades e andando pela cela.

Matutou observando o lugar. Estava numa espécie de calabouço. Havia correntes penduradas nas paredes. As grades da cela, que mais parecia uma gaiola velha era de ferro puro. Símbolos estranhos enfeitavam as paredes, o teto e o chão. O cheiro de mofo e o calor excessivo lhe disseram que estava em baixo da terra, subsolo.

Voltou para as grades e colou o rosto entre as barras, esticando os olhos para o corredor escuro à direita.

- Pandora! Se encostar um dedo no meu irmão, seu capanga anabolizado não vai ser capaz de te proteger! Está ouvindo, bruxa?!

Esmurrou as grades as fazendo tremer. A raiva era tanta que não se deu conta do sangue que escorria de sua cabeça rachada, fruto de quando fora arremessado contra a cerca de madeira. Perguntou-se onde estaria Mú naquele momento, depois seu pensamento se fixou no gigante loiro que não caíra com seu soco e que parecia não sentir dor alguma.

Ele estava em algum lugar em cima daquela cela. Ikki sentia que ele desceria para vê-lo a qualquer momento. Afinal ainda estava vivo, então era algum tipo de prisioneiro valioso. Assim como seu irmão Shun. Esperaria ele descer e trataria de bater mais forte.

###

Kanon cochilava na cadeira ao lado da cama de Mú quando ouviu um gemido. Levantou imediatamente e foi até o leito. Vagarosamente, o vidente movimentou a cabeça até seus olhos se esbarrarem.

- Acabou de pular uma fogueira, meu amigo. – disse Kanon com um sorriso amistoso.

Mú balançou a cabeça de olhos fechados. Respirar estava muito mais fácil, graças ao tudo de oxigênio em seu nariz, e toda a pressão no peito sumira, recuperara a sensação nos dois braços também. Estava vivo e muito aliviado.

- O médico disse que o tiro não atingiu nenhum órgão vital e que você teria chegado lúcido ao hospital se não tivesse perdido tanto sangue.

- Obrigado, Kanon. – sussurrou.

- Não tem de quê. Acho que consegui quitar os favores que te devo, heim? – Mú tentou sorrir. – Se você morresse os outros caçadores viriam atrás da minha cabeça. Meu irmão ficaria mais louco. Milo nem se fala. Você já salvou a pele de muitos de nós por essas bandas, vidente. Então eu dirigi feito um louco quando recebi sua ligação e cheguei ao local uns sete minutos depois. Já estava na cidade, na verdade. – aproximou-se da cama. – Precisava falar com você, sobre aquilo que me pediu informação, acabei encontrando coisas bastante preocupantes. – parou de falar quando viu o vidente levantar uma das mãos. – O que foi? Está sentindo dor?

- Preciso do seu celular.

Kanon entregou o aparelho a Mú sem entender nada. Quando o vidente falou o nome do filho com lágrimas nos olhos, a ficha caiu.

- Como estão as coisas por ai, amigão? Espero que não esteja aprontando na casa do Shiryu. – Mú deu uma risada cansada. – Que bom que está bem... Eu? Estou apenas um pouco cansado, mas estou bem. Está tudo bem. Agora está. Kiki, continue falando, quero ouvir a sua voz...

Então saiu do quarto para dar privacidade ao pai que só queria falar com o filho pequeno depois de quase morrer.

Voltou minutos depois. Mú ainda estava com os olhos vermelhos. Devolveu o celular ao dono.

- Agora eu vou ficar te devendo. – disse Mú. Kanon fez um gesto de 'deixa disso'. – O que você descobriu sobre o senhor dos mortos?

O semblante de Kanon tornou-se sério.

- Ele precisa de um receptáculo para caminhar livremente por esse mundo. Esse receptáculo é um corpo. Hades sempre escolhe o ser humano mais puro da Terra. Ele é um deus muito poderoso, capaz de comandar o mundo inferior e todas as criaturas que de lá são provenientes. Espectros, vampiros, lobisomens, espíritos vingadores, bruxas, a lista é enorme. Hades controla todas as criaturas que combatemos. A mitologia também diz que seu principal objetivo é tomar o mundo dos homens, transformar a Terra numa parte do mundo inferior.

- Isso eu já sabia, o que mais?

- Tudo converge para essa cidade. O principal local de culto ao senhor dos mortos era aqui em Salem. Os Heinstein's iniciaram tudo. – Kanon fez uma pausa – Se Hades despertar nesse mundo pode convocar um exército de monstros. Todos os caçadores do país não vão dar conta. Não somos se quer numerosos.

- Entendi. Você fez bem em vir me procurar. – disse Mú. – Entrei em contato com você porque sabia que ficaria intrigado e investigaria por conta própria... Precisamos de toda ajuda possível para resolver esse caso. – tentou ficar sentado e acabou sentindo uma fisgada no peito. Gemeu alto. – Hades já tem um receptáculo. Uma remanescente do clã de bruxos Heinstein, Pandora, vai trazê-lo de volta. Trazer Hades a vida é o grande plano, o grande plano que Dohko mencionou...

- Você não pode fazer esforço, Mú. – advertiu Kanon. – Diga-me como parar a bruxa e o grande plano...

- Não, você não pode ir sozinho. – segurou o braço do grego e usou como apoio para levantar da cama. O soro preso ao seu braço estremeceu. – O irmão de um amigo meu está envolvido, ele é o receptáculo de Hades. Estávamos perseguindo o capanga da bruxa quando fomos atacados. Ikki deve ter sido capturado também. Pandora o trouxe para cá, e fez um ritual na cripta que mencionei antes. Ela foi vista aqui, ela ainda está aqui. Essa cidade é o local do culto a Hades e do feitiço final. Nós precisamos saber onde ela está...

- Como?

- Os espíritos vão me dizer, mas para isso eu preciso sair dessa cidade. – disse Mú com dificuldade. Já se dirigia a porta do quarto sendo amparado por Kanon. Caminhava obstinado, apesar das dores. Parecia um velho de oitenta e nove anos cheio de reumatismo. – Você vai me levar para os limites de Salem, para longe da interferência de Hades e Pandora.

Uma enfermeira correu para impedir Mú de avançar.

- Senhor, não pode deixar o leito. Acabou de fazer uma cirurgia... – disse a mulher aflita.

- Eu assino o que for preciso! – exclamou Mú – Traga logo os papeis. Preciso sair deste hospital o quanto antes.

A enfermeira olhou para Mú, depois para Kanon. "Só podem ser dois malucos", ela pensou. Saiu para falar com o médico que operou o paciente. Ele ia decidir, não ela.

- Mú, você tem certeza? – questionou Kanon, segurando firme o braço do vidente.

- Tenho. Não se preocupe, não vou morrer tão cedo. Esqueceu que tenho um filho para criar?

###

Na mansão, Pandora pediu a Radamanthys que tirasse Shun do quarto e o levasse para a sala especial onde seria realizado o último ritual para trazer a alma de Hades ao mundo terreno. Observou o inglês colocar o jovem deitado no centro de um pentagrama talhado no chão de pedra. Radamanthys se afastou e Pandora ajoelhou-se ao lado de Shun. Fez um carinho nos cabelos suados do jovem. Ele estava com febre e parecia sofrer muito.

- Ikki... Ikki... – chamava pelo irmão o tempo todo.

Estava quase na hora. Pandora esperava por aquele momento a mais de vinte anos, o dia em que realizaria o feitiço final. Os passos começaram com o feitiço que dizimou centenas em Salem. Fora um chamado. O patriarca Heinstein realizou o grande feitiço pessoalmente, diante da família.

Pandora lembrava aquela noite com amargura. Tinha seis anos e não sabia que era parte do ritual. Uma criança de grande poder teria que ser dada em sacrifício. Ela. Quando estava prestes a ser atirada ao fogo, Radamanthys, na época com dezesseis anos, um empregado da casa, a tirou dos braços do pai. Derrubou o altar mor do feitiço e berrou que não permitiria que a vida da menina fosse tirada. A menina que protegia desde bebê, por ordem da família, mas também por amor verdadeiro.

A pequena Pandora agarrou-se ao corpo de Radamanthys e chorou. Então quando ouviu seu pai brandindo feitiços contra seu salvador o medo a fez querer revidar. Seu poder emergiu e se levantou exibindo uma fúria avassaladora. Ela só queria que o pai parasse, não queria que as chamas crescessem e engolissem sua família e sua casa, mas foi isso o que aconteceu. A magia guiou seus passos desde então. E a levou até aquele momento.

Sentiu seus olhos se encherem de lágrimas. Depois de um tempo acabou percebendo que a magia sempre esteve por trás de tudo. Ela era só um veículo, a portadora do poder que abriria as portas do mundo para Hades. Fugir de seu destino seria inútil. Acariciou mais uma vez o rosto quente do jovem Shun. O puro e bondoso Shun Amamiya. Ele também era um veículo como ela, escravo de seus dons. Quando a alma de Hades acordasse, ele certamente a entenderia e a perdoaria por suas mentiras e crimes. Pandora sorriu.

Respirou fundo de olhos fechados, buscando concentração. Recitou o feitiço baixinho, palavras incompreensíveis aos ouvidos humanos. Tirou de uma caixa de madeira um colar de prata. O pingente de pentagrama brilhou quando ela colocou no pescoço de Shun. Os lábios de Pandora se fecharam ao proferir as últimas palavras do feitiço final: "Yours Ever".

Estava feito.

Todas as luzes da sala e da casa se apagaram. Por alguns segundos, toda a cidade de Salem ficou as escuras. Quando a luz voltou, Shun estava de olhos abertos gritando, sofrendo com o feitiço que engaçava sua alma e sua mente. Pandora pôs a mão sobre sua cabeça para acalmá-lo.

- Meu amado Imperador, prometo cumprir o meu destino. – olhou para o fiel Radamanthys. – Cuide do irmão agora.

###

Mú pediu que Kanon parasse o carro no acostamento da estrada. Salem ficara para trás. Agora ele sentia o mundo espiritual. Conseguia ouvir os espíritos amigos que sempre o ajudavam claramente. Kanon saiu do carro para não atrapalhar o vidente. Ficou esperando do lado de fora. A comunicação demorou uns vinte minutos. Sorriu aliviado quando Mú saiu do carro. Ele parecia mais cansado.

- Finalmente.

- O mundo espiritual está bem agitado. Eu tive que filtrar muita coisa, por isso demorei. – disse o vidente. – Consegui saber o que queria. O sujeito que atirou em mim é invulnerável por conta de um feitiço poderoso. Ele não pode ser ferido gravemente, nem sente dor. Ikki não sabe disso. Tomara que não tente enfrentá-lo ou terá problemas. Quanto a Pandora, ela está numa propriedade na parte mais alta da cidade, próxima a nascente do rio. Sei como chegar até lá.

- Vamos embora então. – disse Kanon e abriu a porta do carro. Notou que Mú não saíra do lugar. – O que houve?

- Eles disseram que é tarde demais. Não é mais impossível salvar o Shun e impedir que Hades invada este mundo.

Kanon engoliu em seco.

###

Ikki Amamiya levantou do chão quando ouviu alguém se aproximando. Parou no meio da cela. O gigante loiro parou em frente às grades, olhou para ele de cima a baixo e sorriu com o canto da boca.

- Finalmente o serviço de quarto. – debochou Ikki.

- Pandora convida para conhecer a casa. – disse o ajudante da bruxa. – É possível que ela permita que veja seu irmão, se se comportar.

- Eu vou me comportar. – falou Ikki com um sorriso zombeteiro.

Esperou o homem abrir a cela caminhou na frente rígido e controlado. No meio do caminho virou e golpeou o rosto do loiro. O soco explodiu no nariz fazendo sangue jorrar na parede de pedra. Ikki agarrou a gola do adversário e desferiu um gancho usando toda sua força. O capanga deu dois passos para trás e abriu um sorriso.

- Ainda muito fraco para mim.

Radamanthys cuspiu sangue a avançou como um trator. Ikki desviou do primeiro soco e recebeu o seguinte com o braço. Defendeu-se corretamente, mas acabou sendo jogado contra a parede devido à gigantesca força do sujeito. Ele parecia ter um punho de pedra. O próximo ataque fora mais rápido, impossibilitando a defesa de Ikki. Uma joelhada em seu estômago, quase o fez cuspir os pulmões, em seguida viu-se ser erguido com facilidade e arremessado contra uma pilha de lenha.

Ikki lutou para ficar de joelhos. A cabeça sangrava abundantemente. Um novo corte no supercílio fora aberto. Mal enxergava o mundo a sua frente. "Esse cara não é normal, essa força não é normal", pensou Amamiya. Ouviu os passos lentos do gigante se aproximando. Ele não tinha pressa. Ikki previu que seria surrado até a morte no mínimo. A dor o atordoava. O pensamento só enxergava uma direção: passar pelo brutamontes, salvar Shun.

Procurou em meio a pilha de madeira algum pedaço que coubesse em sua mão para usar como arma. Achou um perfeito, tinha o cumprimento de um taco de beisebol. Virou-se com tudo, batendo a madeira na cabeça da muralha humana. O taco se quebrou em dois ao atingir a lateral da cabeça do homem. Mais uma vez, ele pareceu não sentir nada. Ikki arregalou os olhos.

Não esperou ele debochar de sua força novamente. Chutou o ponto fraco de todo homem. Sentiu as bolas do sujeito se esmagarem ao serem comprimidas por seu pé. O gigante se dobrou, o rosto contorcido de pânico. Não importava o quanto fosse imune a dor, todo homem sentia aquela pancada.

- Ainda muito fraco? – debochou Ikki.

Rapidamente apanhou uma corrente do chão, montou nas costas do adversário e enrolou em seu pescoço. Apertou até senti-lo desmaiar. O corpo pesado do homem tombou no chão. Ikki o observou bem a fim de saber se ele estava morto ou só desmaiado. Enfim, não havia tempo para esperar alguma reação. Derrubada a muralha, agora podia avançar.

Correu pelo corredor estreito, subiu as primeiras escadas que viu pela frente e abriu uma porta de madeira grossa. Deparou-se com mais escadarias. "merda", ele pensou. Devia estar num buraco mais fundo do que havia o imaginado. A escadaria levou a outra porta. Ikki a abriu com um pontapé. A luz forte da sala ofuscou sua visão por alguns segundos. Havia passado muito tempo na penumbra daquela jaula no subsolo.

Respirou fundo e quando pôs-se a caminhar sentiu o corpo reclamar da luta que havia travado a pouco. A cabeça, as costas e os nós dos dedos doíam infernalmente. Nesse momento, ouviu o som de um órgão tocando em algum lugar. A imagem da bruxa Pandora tilintou em sua mente. Ela estava em algum lugar naquela casa.

Caminhando com cautela e muita atenção, Ikki explorou a casa, sempre seguindo a música. No primeiro andar localizou a fonte, o local onde o órgão era tocado. Parou em frente a uma porta avermelhada. Abriu-a lentamente. Assim que entrou na sala, a música parou. Ao fundo o órgão o esperava em silêncio, parecia que não era tocado há anos. Havia teias de aranha por cima da partitura.

Brasões e escudos medievais com espadas cruzadas decoravam as paredes da enorme sala. Ikki observou o chão de pedra, parecia o mesmo da cripta no cemitério abandonado que visitara dias antes. Sentiu os pelos da nuca se arrepiarem quando avistou as cortinas ao fundo da sala perto do órgão silencioso.

Ikki apanhou uma espada da parede. Sentia que algo ruim estava atrás daquelas cortinas, a bruxa Pandora talvez. Desejava que fosse ela. Por via das dúvidas estava preparado para retalhar qualquer sombra de ameaçava. Já entendera que a música do órgão o atraíra para aquela sala. Era lá que Pandora o queria. Afastou as cortinas empunhando a espada e deparou-se com o irmão mais novo no chão de pedra. Deitado no centro de um pentagrama, um pentagrama parecido ao que vira na cripta.

Sem pensar duas vezes, Ikki correu até Shun, o coração batendo alucinado embebido em tensão e alívio. Segurou o corpo do irmão gentilmente.

- Shun! Shun! – chamou em voz alta, chacoalhou-o algumas vezes. O via respirar, ele estava vivo. – Shun! Estou aqui, meu irmão. Vim salvar você.

Os olhos verdes do mais novo Amamiya se abriram lentamente.

- Ikki... – ele sussurrou, uma voz débil que parecia de um drogado. – Ikki... Ela está aqui. Fuja.

Sem entender porque, Ikki olhou para trás e viu Pandora. Usava um longo vestido preto decotado que arrastava no chão. Parecia estar ali parada há muito tempo, observando o reencontro dos irmãos.

- Você não devia estar aqui. Não devia estar vivo. – disse a bruxa.

- Pois é, o seu lacaio anabolizado que o diga. – retrucou Ikki. Em seguida deitou o irmão. – Não se mexa, assim que acabar com ela tiro a gente daqui.

Shun não teve forças para responder ao irmão, apenas fechou os olhos. Ikki apanhou novamente a espada e foi até Pandora. A bruxa recuou, seus olhos violeta brilhavam assustados.

- Não há mais nada que você possa fazer, Ikki Amamiya!

- Transformar você em um fantasma de verdade é uma boa opção.

O som de uma fortíssima descarga elétrica fez Ikki para seu avanço. Raios saiam dos dedos da bruxa e se propagavam por toda a sala. Os olhos dela eram dois caldeirões violeta. As cortinas pegaram fogo, os escudos e brasões medievais despencaram das paredes. O som do caos era ensurdecedor. Pandora esticou um dedo e lançou um raio na direção de Ikki. Ele jogou-se para o lado em tempo.

Exibindo seu poder, a bruxa repetiu o ataque. Lançou diversos raios na direção do rapaz que conseguia se esquivar de todos. Ela era poderosa, mas não era tão rápida quanto Radamanthys. Ikki se aproximou facilmente.

- Não! Fique longe de mim! – gritou Pandora ao ver a espada apontada para seu pescoço.

O pesadelo se tornara realidade. Tremendo dos pés a cabeça ainda teve ímpeto para lançar um último feitiço. Travou todo o corpo de Ikki com seu poder. Fez-lo ficar de joelhos diante dela. Lançou raios a testa de Ikki, com o objetivo de fritar seu cérebro. Ikki gritava em agonia. A bruxa sorriu satisfeita ao ver que tinha conseguido dominar seu oponente.

- Vou tira você do nosso caminho, Ikki Amamiya!

Ikki berrou de dor. O calor em sua cabeça era insuportável. Já não conseguia ver, ouvir ou sentir mais nada além da dor. Antes que perdesse todas as forças e a espada em sua mão caísse, deu um último golpe. Afundou a espada logo abaixo dos seios da bruxa que gritou de espanto ao sentir a lâmina perfurar seu corpo.

Todo o poder dela desapareceu. Ikki despencou e a viu dar alguns passos com a espada cravada no corpo, gritando enlouquecida, sangue escorria de sua boca. Até que tombou no chão de pedra. Ikki viu o sangue da bruxa manchar as linhas que formavam o pentagrama. Os olhos violeta o fitaram sem vida.

Ele não tivera escolha. Era ela ou ele.

Com o corpo dolorido e sentindo uma horrível vontade de vomitar, Ikki levantou e foi até Shun. Quando chegou perto o viu arquear as costas, gritava seu nome em desespero.

- Estou aqui, Shun. – disse segurando o pescoço do irmão. – O que está acontecendo? O que está sentindo?

- Minha cabeça... Vai explodir! – respondeu Shun entre um grito e outro. – Ikki, me ajude irmão, por favor.

Ikki notou que o pentagrama em volta deles brilhava intensamente. Segurou firme o rosto de Shun.

- Shun! Escute-me. – falou firme. – Você tem que agüentar. Aguente firme, irmão!

- Eu não consigo, Ikki! Não consigo controlar isso. – chorou Shun. – Ela colocou alguma coisa dentro de mim que está devorando a minha alma... Não vou aguentar por muito tempo. Ikki, me perdoa, me perdoa. Eu devia ter ouvido você, devia ter me afastado do fantasma... Tudo isso é minha culpa. – olhava para o rosto do irmão com uma expressão transtornada, insana

O coração de Ikki congelou com as palavras de Shun. Ele estava desistindo. Depois de tudo o que passou, de todas as lutas que travou para chegar até ali, estava vendo Shun jogar a toalha. Lembranças de bons momentos da infância invadiram sua lembrança. Shun e Esmeralda sorrindo em volta dele. Não, não permitiria. Segurou o rosto de Shun com força e aproximou o olhar do dele. As testas quase se tocavam.

- Shun Amamiya, nem pense em fazer isso. – falou autoritário. – Você prometeu me ajudar a achar a Esmeralda. Eu preciso de sua bondade e da sua inteligência. Sou um péssimo caçador e ser humano sem você. Eu preciso de você, Shun! Portanto, não se atreva a desistir, não se atreva a morrer. Está entendendo?! Estou aqui. Eu voltei para te salvar e vou voltar sempre. Estou aqui, Shun. Nunca vou te deixar sozinho. Lute meu irmão! – abraçou-o apertado, lágrimas começaram a descer pelo seu rosto misturando-se ao sangue. – Seja o que for que aquela maldita bruxa colocou dentro de você, precisa lutar. Faça isso por mim.

Shun liberou um último grito de agonia. Um brilho azulado emergiu de seus olhos. Então seu corpo amoleceu nos braços do irmão mais velho. Num primeiro momento achou que a cabeça nunca mais fosse parar de girar, até que finalmente conseguiu abrir os olhos. Ainda ouvia Ikki sussurrar em seu ouvido 'lute meu irmão, lute'.

Separam-se desconfiados. Shun já conseguia ficar sentado, não sentia dor alguma. Estava bem. Não entendia como todo o horror havia sumido de seu corpo. Observou as mãos. O feitiço de Pandora parecia ter perdido a força. Era espantoso. Como se tivesse voltado do mundo dos mortos.

- Você conseguiu, Shun. – falou Ikki batendo em seu ombro. Não conseguia parar de sorrir.

- É, parece que sim. Mas eu não entendo. Achei que a coisa dentro de mim fosse me matar.

- A merda mágica que Pandora colocou dentro de você deve ter morrido junto com ela.

Shun concordou, em seguida ficou de pé.

- Ikki eu preciso...

- Não há o que perdoar, Shun. – cortou Ikki. – Pandora causou tudo isso. Ela manipulou você. Ela é a verdadeira culpada. Mas não conseguiu o que queria. – e olhou para o corpo sem vida da bruxa.

Shun acompanhou o olhar do irmão sentindo uma profunda melancolia. Pandora estava morta. No fundo, não conseguia se sentir aliviado ainda. Algo estava errado, mas ele não era capaz de dizer o que.

Percebeu que Ikki estava ferido e sangrava na cabeça e em várias partes do corpo. Ajudou-o a ficar de pé. Os irmãos deixaram a sala do pentagrama apoiados um no outro. Ikki mancava. Relatou a luta com o gigante que não sentia dor. Shun lhe contou que o nome do gigante era Radamanthys e que havia uma explicação médica para aquilo. Quando Shun começou a explicar, ouviram pessoas entrarem correndo na casa.

Shun colocou Ikki sentado em uma cadeira e esgueirou-se no corredor para ver quem era. Com um olho só viu Mú atravessar o salão de entrada ao lado de outro cara de longos cabelos azuis. Correu até a escada e chamou pelo vidente.

- Mú, estamos aqui!

- Shun! Graças a deus. – Mú abriu um largo sorriso. Shun viu o homem ao lado dele guardar a arma que segurava. – Você está bem, Shun?

Eles não haviam chegado tarde. Os espíritos se enganaram. Ou talvez não. De qualquer forma, ele apuraria isso depois. Ver Shun Amamiya vivo e bem era um alívio enorme.

- Eu acho que sim. – respondeu Shun - Mú, precisa ajudar o Ikki, ele está muito ferido.

Kanon subiu para ajudar a descer Ikki. No térreo, o vidente apresentou o grego aos irmãos Amamiya.

- Kanon Sotiropoulos. Um caçador como nós. – disse o vidente. – Eu mandei um e-mail para ele no hotel, lembra Ikki?

O mais velho Amamiya fez que sim com a cabeça. Um de seus olhos estava muito inchado impossibilitando que fosse aberto. Kanon sorriu.

- Mú me contou tudo sobre vocês. – disse o grego. – E a bruxa?

- Morta. – respondeu Ikki após um gemido. – Acabou.

Enquanto deixavam a mansão, Mú observou atentamente Shun Amamiya. Não conseguia para de pensar no que os espíritos lhe disseram antes, que era tarde demais.

###

No meio da noite o corpo de Pandora fora erguido do chão por braços fortes repletos de pelos loiros. Radamanthys a colocou na cama. Tomou cuidado para retirar a espada de seu corpo sem fazer estragos. Observou o rosto sem vida por um tempo. Pandora estava mais linda do que nunca.

Abriu as grandes janelas do quarto e deixou a noite entrar. Minutos depois o sangue parou de minar do corpo da bruxa. Seu peito chacoalhou em seguida começou a subir e descer no ritmo de respiração natural. Os olhos violeta readquiriram brilho, e era um brilho sinistro que não sinalizava que ela havia voltado à vida. Não era o caso.

Pandora perdeu sua humanidade e agora era um espectro. Levantou e tocou o próprio rosto pálido, seus dedos terminaram nos lábios entreabertos. Radamanthys a observava fascinado. Estava diante de uma ressurreição, um milagre causado pelo poder do grande Hades.

- Conseguimos, Radamanthys. – disse Pandora sorrindo. – Completamos o grande plano. O imperador Hades tomou seu receptáculo e me trouxe de volta a vida. Conseguimos, Radamanthys!

Ela pulou da cama e abraçou o ajudante amorosamente. Respirou aliviada com a cabeça apoiado em seu peito largo.

- A senhorita agora é um...

- Um espectro. A serviço e glória de nosso Imperador. Ele me devolveu a vida como era previsto. Ikki Amamiya cumpriu o seu papel. – acariciou o rosto sério do inglês. – Ele fez o que você não tinha coragem de fazer, meu fiel Radamanthys. "Quando o sangue da última bruxa for derramado sobre o símbolo sagrado, o último selo que prende a alma do imperador será rompido." A profecia se cumpriu, a prova é que me tornei um espectro depois de morrer.

Radamanthys ficou pensativo.

- Onde está nosso Imperador? – quis saber Pandora.

- Vi quando deixou esta casa junto com o irmão, o vidente e outro homem. Infelizmente o vidente sobreviveu e achou este lugar.

- Não importa. Eu sei que Shun acabará voltando para liderar seus seguidores. Ou talvez o Imperador Hades esteja observando nosso inimigo secretamente, por isso se mantém quieto dentro do corpo do jovem Shun. Ikki Amamiya é muito poderoso. – deslizou a mão pelos botões da camisa do homem enquanto aproximava os lábios dos dele. – Eu me sinto tão mais poderosa. A energia flui através e meu corpo. Você consegue sentir? Consegue ver, Radamanthys...? – os lábios se tocaram timidamente.

Pandora sentia uma vontade louca de beijar a boca do inglês, fazer o que sempre teve vontade de fazer sob a grama do jardim, tendo como testemunhas a lua e as estrelas. A noite a chamava e a impelia a fazer tudo o que seus instintos mais selvagens desejavam secretamente. Ela sentia que ele queria o mesmo dela, que queria isso há muito tempo. O desejo dele impregnava o ar.

Observaram-se em silêncio por um tempo. Até que Radamanthys puxou o rosto da bruxa e tomou seus lábios. O beijo fora intenso e demorado. Quando se separaram Pandora estava ofegante.

- Minha nossa, Radamanthys... – disse lasciva. Reparou que ele tinha uma expressão confusa na face. – O que foi?

- Seu corpo, seus lábios senhorita... Estão frios.

Ela também tinha a pele mortalmente pálida e os olhos sinistramente brilhantes. Não era mais humana. Isso assustava Radamanthys. Pandora sorriu provocadora e jogou-se na cama. Quando caiu, o vestido havia subido, deixando suas coxas à mostra.

- Sou um espectro de Hades, Radamanthys. Você me teme?

O inglês pensou antes de responder.

- Não. Eu a amaria de qualquer jeito, senhorita Pandora.

A bruxa gargalhou. Recebeu-o na cama. Beijaram-se mais uma vez intensamente. Pandora inverteu as posições ficando sentada em cima dele.

- Primeiro vou cuidar de seus ferimentos. – disse passando a unha pelo abdômen peludo. – Depois vamos tomar banho juntos, em seguida aproveitaremos a noite.