Título: A Máscara
Dourada
Autora: Kwannom
Censura: M
Gênero:
Ação/Aventura/Romance
Betas: Winsome Elf
(capítulos 1 - 6), Rainien (capítulos 7 - 15 - ?) e
Wenont (capítulo 16 - ?)
AVISOS: Violência e
sexo explícitos
Disclaimer: Eu não sou
proprietária de nada do Senhor dos Anéis. Todos os
personagens e nomes de lugares mencionados pertencem a JRR Tolkien.
Eu não pretendo, nem estou tendo qualquer ganho financeiro com
a criação dessa história. Apesar disso, os
personagens originais - Haleth, Siward, Wilrog, Seyton e outros - são
meus e ninguém tasca :D
Linha temporal: Ano 3429 da
Segunda era, um ano antes da Última Aliança. Universo
Alternativo. Seguindo, principalmente, o livro, mas tem um pouco de
filme também.
Sumário: Sauron está em
posse do Um Anel e a Terra Média está em guerra. Elfos
e Homens decidem formar uma aliança contra o Senhor do Escuro
e estão procurando por grandes guerreiros provindos das duas
raças para liderar seus exércitos. Estes guerreiros são
Os Escolhidos. Haldir é então enviado para vigiar um
guerreiro humano chamado Máscara Dourada e provar que o Homem
pode ser um desses líderes. Nesse meio tempo, Haldir tem que
se preparar para a batalha de sua vida e lidar com a descoberta de
algo que vai mudar o futuro.
NOTA DA AUTORA
Olá gente! O capítulo 10 fez com que as pessoas se perguntassem por que eu disse que amava Wilrog se ele era tão mau. Bem, eu sempre tive uma quedinha por vilões. Eu gosto de Wilrog como personagem, porque ele não é perfeito, é um bom exercício para a minha criatividade e porque é o personagem que parece ser o mais realista dentre os outros que eu criei. Sim, muitos por quês lol. Ele está tentando fazer as coisas certas, mas só faz do jeito errado e agora está perdido. De qualquer forma, depois de tanta tristeza no último capítulo, eu dou a vocês uma pequena dose de descanso neste aqui, mas só no finalzinho, porque eu sou muito má! Bwahahahah Espero que gostem!
Agradecimentos a:
Minha beta Rainien por agüentar minhas loucuras nerds.
Regina: Minha leitora esperta, você está descobrindo várias coisas que eu deixo no ar sobre os personagens, mas que só dá pra saber lendo as entrelinhas ;) Aliás, você foi uma das poucas pessoas que perceberam esses detalhes. É mesmo, a família da moça é complicada... E só tende a piorar, coitada, você vai ver. E nem é culpa minha, eu tento escrever de um jeito, mas a história se escreve de outro...
Myri: Eu te perdôo pela demora nas reviews, mas só porque você estava dodói hehehe. Bem, se passaram quase 10 dias de convivência entre Haldir e Haleth, e como as coisas na Terra Média são do tipo "rápidas e caceteiras", uma paixonite aguda já podia tê-la feito quase esquecer de Wilrog nesse período de tempo tão curto. Veja só o exemplo de Éowyn! Num dia, ia morrer porque Aragorn não a queria. No outro, já estava jurando amor eterno a Faramir... Pois é, chove não molha... Quem sabe as coisas mudam? Haldir e Haleth também são meio lesinhos no amor, né? Eu também não gostei da piada em português tanto quanto dela em inglês. Mas o que se pode fazer... Tadinha! Desculpe por fazer você ficar deprê por causa do capítulo 10, mas pelo menos foi só por um dia. Eu sofri durante uns quinze!
Sadie: Obrigada pelo apoio moral no capítulo anterior! Realmente, nem sempre a gente escreve o que o leitor gosta de ler, o que é um desafio. Vira um "ame-o ou deixe-o". Espero que ninguém, no meu caso, diga aquela frase adorada e infame "o último que sair apague a luz" e nunca mais volte a ler minha fic. Eu ia ficar muito triste :(
De volta à história...
ESCOLHAS
Haldir e Haleth impeliram suas montarias a ganhar uma velocidade maior, percebendo que seus inimigos tinham sido lançados sobre eles, mas Dernhelm e Arthung ainda não estavam na velocidade máxima. Haldir soltou as rédeas de Arthung e colocou uma flecha no arco, seus ferozes olhos azuis brilhando de ódio. Nós nos demoramos demais, se repreendeu ele.
Estava escuro entre as árvores e de vez em quando ele podia ver um relance de movimento. Era difícil enxergar até mesmo para os seus olhos Élficos, provavelmente o resultado de uma magia negra trabalhando sobre eles, mas seus ouvidos aguçados captaram o som de cascos pesados. O maxilar de Haldir estava tenso e seus músculos também, espelhando a tensão da corda do arco e esperando pelo ataque iminente.
Por um rápido momento os seus olhos ficaram fixos nos da mulher que estava cavalgando a alguns passos de distância do seu lado esquerdo. Antes que Haleth tivesse tempo de preparar seu arco, o chão tremeu e gritos horríveis cortaram o ar quando os monstruosos animais emergiram de dentro das árvores. Ela sentiu o sangue congelar nas veias quando os dois Orcs montados em Wargs cercaram-na de ambos os lados e mais três feras avançaram na direção de Haldir.
O Elfo soltou suas flechas com uma precisão mortífera; dois dos monstros estavam mortos e agora apenas um restava, se protegendo entre os troncos de árvores. O bastardo está evitando as minhas flechas! Haldir pensou divertido, impelindo Arthung para a frente. A emoção da caçada inundava o seu ser e ele não deixaria que a sua presa escapasse. Entretanto, diferentemente das outras vezes, sua mente estava parcialmente em outro lugar, o impedindo de correr atrás de seu alvo sem pensar duas vezes. Haldir estancou Arthung e olhou para trás, uma expressão preocupada no seu rosto perfeito. Tudo o que seus olhos azuis viram foi escuridão e árvores e Haldir sentiu um aperto no estômago. Não havia nenhum sinal dela. Haleth!
Haleth tinha sido retardada pelos animais que estavam correndo ao lado dela. Seu coração ficou acelerado quando ela viu as três criaturas perseguirem Haldir, mas sabia que as feras iriam encontrar a morte certa nas mãos do guerreiro Élfico. Ele irá esmagá-las como se fossem simples moscas. Apesar de sua confiança nele, a boca de Haleth ficou seca quando o pensamento da morte dele a atingiu. Se ele morresse, seria por culpa dela, porque ela tinha sido aquela que o havia levado até ali.
O rugido de um dos Wargs a trouxe de volta para o mundo real. Haleth olhou para eles com nojo. As criaturas eram horrendas. Um fedor pútrido emanava deles, os cascos pesados destruíam tudo no caminho e de suas mandíbulas pingava um líquido viscoso que queimava como ácido.
Haleth odiava os Wargs mais do que qualquer outro monstro imundo que Sauron tivesse em seu exército, porque tinha sido uma daquelas feras que havia tirado a vida do pai dela. A lembrança do corpo imponente de Hamá sendo dilacerado, da expressão de horror no rosto dele, fez com que o coração de Haleth doesse no peito. Os Orcs sentiram a perturbação dela e gargalharam, seus chicotes dançando e estalando no ar.
O riso das feras fez a raiva acender nas entranhas de Haleth e ela desembainhou suas adoradas espadas. Tuo e Maranwë brilharam sob a luz da lua em toda a sua poderosa glória. Vamos ver quem vai rir agora! Os risos morreram no ar e foram trocados por gritos de ódio que quebraram o silêncio da noite. Haleth estancou Dernhelm com uma palavra de comando e assistiu quando os Orcs a ultrapassaram correndo para depois pararem suas montarias a alguns passos de distância dela.
A respiração dos monstros criara uma névoa repugnante no ar frio e as odiosas criaturas olhavam para Haleth com uma expressão ameaçadora em suas faces distorcidas. Todo o som parecia ter cessado na floresta. Haleth podia escutar apenas a batida do próprio coração em seus ouvidos, a respiração das bestas e um rosnado ocasional. Um sorriso arrogante cresceu na face coberta de Haleth enquanto ela girava as Gêmeas nas mãos, o som metálico vibrando no ar, misturando-se à cacofonia de silêncio.
Se acalme... Respire... E eles estarão mortos antes do que você pensa. Com elegância e precisão, ela desmontou, deixando Dernhelm ir, e posicionou o corpo numa posição de batalha, preparada para a luta. Haleth dobrou os joelhos um pouco, as pernas um pouco afastadas. Ela segurava Tuo paralela ao chão e acima da cabeça; seu braço levemente flexionado fazia com que o final da lâmina ficasse apontada diretamente para as terríveis criaturas. Maranwë estava mantida lateralmente na frente do corpo quase na altura de seus ombros, a lâmina afiada bloqueando seu peito contra qualquer tipo de ataque. As armas pareciam ser uma extensão de seu corpo e Haleth e suas Gêmeas formavam uma união perfeita. Apenas respire...
Haleth sorriu de leve quando percebeu a falta de técnica de batalha de seus oponentes. "Vocês vão ficar rugindo para mim o dia todo? Eu poderia morrer de tédio."
As feras rosnaram diante das palavras zombeteiras de Haleth e a calma enganadora que tinha reinado na floresta até então foi feita em pedaços. Haleth segurou suas espadas com mais força, sem nunca sair de sua posição. Ela podia sentir cada músculo se contrair firmemente, uma preparação para a batalha que estava por vir. Sua concentração era tão poderosa que não havia outro pensamento em sua mente a não ser a luta à frente. Quando os Orcs atacaram, os olhos delas cintilaram com um perigo castanho e quente. Apenas respire...
O primeiro chicote estalou perigosamente próximo ao corpo de Haleth, mas ela fez com que ele se enroscasse em volta da lâmina de sua espada e com um puxão forte, o Orc foi jogado no chão com um berro doloroso e uma perna quebrada. Sem seu cavaleiro, o Warg avançou na direção de Haleth. Não é você quem ataca, mas seu inimigo que ataca a si mesmo, pensou Haleth, lembrando-se de um dos ensinamentos do Senhor Glorfindel.
O gigantesco Warg rugiu e abriu sua boca enorme para dilacerar a mulher que estava na sua frente. Sem hesitar, Haleth enterrou Tuo até o cabo dentro da mandíbula repulsiva enquanto Maranwë rasgava o ventre fétido. A fera foi ao chão, morta. Haleth então se virou para encarar o outro Orc, seus olhos marrons faiscando de fúria. Ela caminhou ameaçadoramente até ele, as Gêmeas encharcadas de sangue, o líquido negro deixando uma trilha de morte no chão.
O Orc olhou para o corpo morto do Warg e seu próprio corpo se estremeceu de medo quando escutou o grito de dor do companheiro que se contorcia no chão. Seu rosto distorcido se voltou para a guerreira humana que se aproximava dele e sentindo a promessa de uma morte dolorosa escrita nos olhos castanhos de Haleth, o Orc esporeou sua montaria e fugiu de medo.
O sorriso arrogante de Haleth aumentou. Ela limpou as Gêmeas com sua túnica e então as embainhou bem devagar enquanto via o Orc correr. Com um movimento calculado, ela tirou a máscara, pegou o arco e posicionou uma flecha na corda. Somente quando sentiu o contato suave das penas da flecha contra o seu rosto é que Haleth disparou. A flecha assobiou, acertando o alvo e o Orc caiu de sua montaria, morto. O Warg correu na direção de Haleth. Ela preparou uma outra flecha pacientemente e a soltou.
A flecha se enterrou no coração do Warg e a fera foi ao chão, sob o olhar atento de Haleth, com um gemido gorgolejante. Apesar de saber que seus inimigos estavam mortos ou seriamente feridos, Haleth sabia que algo estava estranho no ar. Seu corpo ficou tenso e ela baixou o arco. Com um suspiro profundo Haleth fechou os olhos e escutou os sons da floresta intensamente. As batidas de seu coração aumentaram o ritmo quando o tempo passou e sua ansiedade aumentou.
Então, um hálito morno e repugnante fez cócegas em sua orelha e os olhos de Haleth se abriram.
Porcaria!
Tão rápido quanto suas habilidades humanas permitiam, ela preparou outra flecha e mirou no Orc que estava de pé na frente dela. Haleth quase ficou sem reação quando entendeu o que estava acontecendo. Oh Valar, se o monstro está vivo, isso significa que Haldir está... Morto! Haleth sentiu um nó se formar em sua garganta enquanto seu coração batia dolorosamente dentro do peito. Ah não! Não! Isso não pode ser verdade! Seus olhos castanhos brilharam com lágrimas não derramadas. Haleth não conseguia acreditar que o Elfo não existia mais.
O ser orgulhoso e imortal tinha sido aniquilado. Ela nunca mais iria escutar a voz musical de Haldir, nem lutar com ele, nem sentar num silêncio confortável ao seu lado junto ao fogo e sentir como se não tivesse preocupação nenhuma; ela não poderia mostrar o mundo dela para ele nem saberia mais sobre aquela criatura intrigante que tinha aparecido na vida dela pelas graças dos Valar e que tinha lhe tirado o chão. Haleth engoliu em seco e seu belo rosto se contorceu de raiva.
Você vai pagar por isso com a vida, Orc! Pensou ela quando a madeira do arco estalava com a tensão e ela deixava a flecha mortífera voar. Entretanto, antes que o dardo pudesse atingir o seu destino, uma mancha dourada passou assoviando por seu rosto e se empalou na carne maligna, fazendo o Orc cair morto aos pés de Haleth. Uma segunda flecha dourada logo foi disparada na direção do Warg que permanecia nas sombras da floresta e o monstro se juntou ao seu cavaleiro, morto, alguns momentos depois.
Haldir! Haleth não podia acreditar nos próprios olhos. Um sorriso nasceu em seu rosto enquanto ela se sentia como se um peso tivesse sido retirado de seus ombros. Ele ainda estava muito distante dela, mas o brilho da pele dele era inconfundível no escuro da floresta. Haldir cavalgou até ela como um Deus enfurecido. E furioso ele estava, porque, mesmo daquela distância, Haleth conseguia sentir aquela emoção crua emanando dele apesar do rosto de Haldir continuar sem demonstrar nenhuma emoção.
Haldir estava realmente furioso. Ele havia tentado manter suas emoções sob controle enquanto fazia o caminho de volta até Haleth, o mais rápido que podia. A onda de temor pela vida dela que tinha lavado o seu ser o pegara desprevenido. Ele sabia que ela era uma guerreira capaz, mas não conseguia suportar a idéia dela ser ferida, ou até mesmo morta. Por que? Amaldiçoados sejam você, mulher, e o que você faz comigo.
Ele tomou consciência da cena à sua frente enquanto se aproximava, as entranhas dos Wargs expostas e exalando um fedor terrível, os Orcs mortos, um deixado vivo berrando de dor. Mesmo que ele não tivesse retornado a tempo de atirar no último Orc que não tinha sido ferido, Haldir tinha certeza de que ela mesma teria matado a fera. Haleth era letal, como ele mesmo podia ver. O que Haldir não entendia era o motivo para ela ter hesitado, mesmo por um segundo, em matar o último Orc. Tola... pensou ele secamente. Quando finalmente chegou até a humana, Haldir desmontou elegantemente, arco ainda firmemente seguro na mão esquerda.
Ele caminhou ameaçadoramente até Haleth, seus olhos azuis brilhando numa mistura de fúria e preocupação. 'O que passou pela sua cabeça para fazer com que você se distraísse daquele jeito, sua tola!' Disse ele por entre os dentes cerrados 'Esse comportamento não pode ser tolerado em uma guerreira experiente como você!'
Os olhos de Haldir estavam fixos intensamente nela e detinham um poder de intimidação tal, que teriam acovardado qualquer criatura em Arda. Entretanto, Haleth não era uma criatura qualquer. Ela ficou ali parada, alta, orgulhosa e nobre, sustentando o olhar dele com uma igual intensidade.
'Você me perdoe, Haldir, se eu pensei por um instante que você pudesse estar morto!' ela gritou com ele, os olhos faiscando com uma fúria castanha.
É claro que ele está vivo, ele é um Elfo, pelo amor dos Valar... pensou Haleth, com raiva dela mesma por sequer ter pensado que Haldir não seria capaz de lidar com alguns Orcs e Wargs... É claro que ele poderia se cuidar... provavelmente até bem melhor do que ela.
A dor que ela havia sentido quando pensou que ele estava morto, todavia, era inconfundível. Haleth já tinha se sentido daquele jeito antes, quando Wilrog estivera sumido por um ano e fora dado como morto. Que os Valar me ajudem, rezou ela enquanto fixava os olhos no ser magnífico que estava na frente dela. Aquela criatura imortal tinha entrado em sua vida tão drástica e rapidamente e agora ela se preocupava tanto com ele que isso a assustava. Ele a estava olhando com curiosidade no olhar, claramente sem entender o comportamento silencioso de Haleth.
Haldir a observou atentamente. A raiva contida nas palavras dela o fez perceber que ela estava transtornada pela idéia dele ser morto. Ele nunca tinha notado o quanto aquela jovem mulher se preocupava com ele. Isto fez com que seu peito se inchasse de orgulho e um tipo desconhecido de felicidade aqueceu seu coração. Haldir jogou o arco sobre o ombro e depois de um momento de hesitação, cobriu a distância entre os dois e abraçou a mulher com ternura.
'Shh, Belegaer. Está tudo terminado agora. Nós dois não fomos feridos.'
Com um braço ao redor da pequena cintura de Haleth e outro em volta do pescoço dela, Haldir a segurou bem junto de si enquanto sentia a tensão do corpo dela - que havia se formado diante daquele gesto inesperado - ir embora e os braços da mulher alta puxarem sua forte figura imortal para mais perto dela.
Haleth inspirou o cheiro de florestas que era característico de Haldir e se deliciou no surpreendente pulsar do forte coração dele contra o seu corpo. 'Quando eu vi o Orc,' começou ela, sussurrando no ouvido dele, 'Eu pensei que você tivesse sido morto... Sinto muito, Haldir. Eu não pude suportar a idéia de sua morte e perdi a minha concentração.'
'E você deve se desculpar mesmo,' Haldir provocou, se embriagando na sensação da forma quente de Haleth em seus braços. 'Você acha que eu sou um guerreiro tão incompetente assim, Belegaer? Eu poderia ter matado todos os cinco monstros com meus olhos fechados.'
Ela sorriu de leve. 'Eu sei que você é competente. Eu só fiquei... preocupada.' Haleth fechou os olhos quando sentiu Haldir trazê-la para ainda mais junto de seu corpo. Vários fios do cabelo dourado do Elfo dançavam ao toque do vento, acariciando o rosto de Haleth. 'Estou feliz que esteja vivo, Espião. Estou feliz mesmo.'
Como os mortais eram esquisitos para Haldir. Parecia que devido ao fato de a vida deles ser tão curta, eles aproveitavam cada momento dela apaixonadamente. E algumas vezes faziam coisas muito impróprias por causa dessa paixão. Quantas ellith teriam temido pela vida dele daquele jeito? Mulher insana. Eu gosto muito disso.
Haldir beijou o topo da cabeça de Haleth, absorvendo com cuidado a familiar fragrância de flores, antes de soltá-la quase relutantemente. Os lábios dele se curvaram na sombra de um sorriso quando o pensamento de que ela era o único humano que ele conhecia e que tomava banho diariamente – a razão para o delicioso cheiro que vinha dela – cruzou sua mente. Ele então se afastou, já preparando uma flecha para matar o único Orc que tinha sido deixado vivo. Entretanto, as mãos enluvadas de Haleth pousaram em seu ombro, o impedindo de fazer isso.
'Não mate o Orc . Eu ainda não interroguei a fera.'
Haldir assentiu com a cabeça e observou a mulher colocar de volta a sua máscara e se agachar ao lado do Orc caído. A fera se contorceu de dor e a xingou dos mais terríveis insultos quando ela agarrou sua perna ferida de forma dolorosa. Haleth odiava ter que torturar alguém, até mesmo Orcs. Por isso ela se escondia atrás de sua máscara enquanto tinha que fazê-lo.
"Quais são as suas ordens?" perguntou Haleth sem nenhum traço de emoção na voz.
A fera rosnou. "Eu não vou te contar nada, prostituta."
Haleth apertou a perna quebrada do Orc e a fera uivou de dor.
"De novo. Quais são as suas ordens?"
O monstro fez menção de agarrar o pescoço de Haleth, mas antes que pudesse fazê-lo, sentiu uma faca Élfica atravessar a palma de sua mão e se encravar no chão, o prendendo. Ele urrou de dor, seus gritos ásperos rompendo o silêncio da floresta.
"Ela lhe fez uma pergunta." A voz de Haldir estava seca e fria e a criatura tremeu de medo.
Depois de engasgar em seu sangue negro e maligno, o Orc começou a falar. "Nós fomos enviados para... capturar Haleth viva e matar o Elfo."
Haleth olhou para Haldir com um olhar preocupado, antes de se voltar novamente para a criatura.
"Quem está liderando vocês?"
O Orc grunhiu, num sorriso maligno. "O capitão de Sauron... O Homem chamado Wilrog."
Capitão! Haldir e Haleth trocaram olhares de espanto. A mão de Haleth apertou inconscientemente a perna machucada do Orc diante daquela revelação. A criatura lançou um olhar furioso sobre ela. Haleth nem mesmo piscou, e continuou o interrogatório.
"Onde está o exército de vocês?"
"Indo na direção do Campo de Celebrant enquanto conversamos." A criatura gargalhou, fazendo um som terrível. "Meu Mestre vai matar todos os seus amados soldados. Nós somos oitocentos contra sessenta de vocês."
Haleth soltou o Orc e se levantou. 'Eu ouvi o suficiente,' disse ela, e num movimento rápido, Haldir decepou a cabeça da fera com a sua espada Élfica.
O Elfo tinha notado o desconforto de Haleth com a tortura e matou o Orc. Haldir tinha aprendido ao longo dos dias que havia passado ao lado dela que a mulher não era o tipo de pessoa que mataria um inimigo indefeso. Ela é jovem demais para saber que não se deve demonstrar nenhuma compaixão por um Orc, porque eles não demonstram nenhuma. Realmente, ela era jovem. Algumas vezes Haldir se esquecia de que Haleth ainda era uma criança. Muito embora ele respeitasse as ações dela, porque apenas os maiores guerreiros eram capazes de demonstrar compaixão por seus piores inimigos. Haldir se levantou com elegância e caminhou até Haleth.
'Venha, Belegaer. É hora de você retornar para os seus soldados e dizer a eles o que você sabe.'
Haleth assentiu com a cabeça e Dernhelm se aproximou dela. Wilrog vai desejar ter morrido quando eu o encontrar. Ela e Haldir montaram e incitaram os cavalos de volta ao acampamento.
H&H&H&H
No escuro acampamento dos Orcs que tinha sido montado no Campo de Celebrant, Gorbag caminhava tentando achar seu Comandante. Depois de alguns momentos de procura, ele encontrou Wilrog inspecionando os novos presentes que Sauron tinha pedido a eles para entregar ao garoto quando ele tivesse feito a sua escolha e se tornado General. O Senhor do Escuro sempre soube que Wilrog iria se juntar a ele por causa da sede dele por poder. Ele soube disso desde o primeiro dia que tinha decidido enviar o jovem Homem com seus Orcs atrás de Haleth.
Gorbag olhou para o garoto; ele não se assemelhava em nenhum aspecto à criança assustada de nove dias atrás. Wilrog parecia esplêndido e aterrorizante em sua nova vestimenta negra. Um cavalo negro tinha sido enviado para ele junto com seu novo armamento – um magnífico par de arco e aljava cheio de flechas envenenadas; uma pesada espada. O cabo era incrustado com pérolas negras e o selo maligno de Sauron. Assim foi como Gorbag encontrou Wilrog, olhando em êxtase para suas armas.
O imenso Orc grunhiu para chamar a atenção de seu Mestre. "Eles não tiveram sucesso, como você havia previsto."
Wilrog olhou para Gorbag com um sorriso no rosto. O plano dele estava funcionando. Ele sabia que Haleth sempre deixava um Orc vivo para interrogatório. Como não podia arriscar que ela fosse morta – algo difícil de acontecer – Wilrog enviou seus soldados mais fracos. Então a mulher iria vencer, perguntar e ir direto até ele, procurando por vingança depois do pequeno bilhete que ele havia deixado no corpo da garota. Wilrog lambeu os lábios diante da lembrança. A garota era deliciosa, mas meu corpo anseia pelo de Haleth. E com apenas sessenta Homens contra oitocentos Orcs, ela seria dele novamente, com certeza. A não ser que Haleth o usasse. Não, ela não ousaria... Ela sabe o quanto sofre e Siward, aquele bastardozinho arrogante, não iria permitir. Wilrog sorriu. Tudo estava se saindo extremamente bem.
"Bom. Agora só nos resta esperar." Ele riu de leve diante do bufar impaciente de Gorbag. "Paciência é uma virtude, Gorbag."
Se ao menos Hamá pudesse ver que eu finalmente aprendi a ser paciente, pensou Wilrog enquanto voltava sua atenção novamente para o elmo negro no formato de uma coroa com um renovado sorriso sarcástico brincando em seus lábios.
H&H&H&H
"Merda nenhuma que eu vou deixar você fazer isso!"
"Dobre sua língua, Siward, você está falando com a sua Comandante!"
"Mas que merda é essa que você tem que ser tão nobre? Deixe ele estar, vamos escolher um outro plano. Não o confronte!"
"É minha culpa que ele esteja vivo e matando à vontade. Se tornou minha obrigação acabar com a vida dele antes que ele mate novamente."
"E você tem que fazer isso ao custo de sua vida?"
Mortais... Haldir sacudiu a cabeça em desaprovação. Tinha sido daquele jeito por mais de meia hora. Haleth e Siward haviam se distanciado um pouco do grupo e estavam tendo uma conversa particular baseada em sussurros eloqüentes. Apesar da tentativa deles de serem discretos, os ouvidos Élficos de Haldir estavam escutando cada palavra dita com grande concentração.
Haleth tinha contado a seus soldados que Wilrog os estava esperando e que ela iria encontrá-lo. Quem vem comigo? Tinha perguntado ela, e não foi nenhuma surpresa quando todos os Homens se ofereceram para seguir sua Comandante. Haleth disse que eles estavam em menor número, mas que ela tinha um plano. Um plano perigoso, mas que poderia funcionar. Fora então que o rosto de Siward se tornou sombrio e eles iniciaram sua discussão particular.
Haldir não podia mais continuar sentado ali apenas escutando. Ele atravessou o acampamento na direção da dupla enraivecida e fez com que sua poderosa figura fosse notada.
'Posso saber o que em nome de Ilúvatar está acontecendo aqui?' Haleth e Siward pararam a sua exaltada conversa e se voltaram para encarar o alto Elfo. 'Eu não agüento mais nenhum segundo dessa discussão infantil.'
Merda! Elfos e seus ouvidos aguçados! Siward xingou por entre os dentes cerrados.
'Eu ouvi isso, Siward.' Haldir falou firmemente e repreendeu os dois mortais que estavam na frente dele, observando Siward bufar diante de seu comentário e Haleth cruzar os braços na frente do peito num sinal de desafio. O rosto dela estava corado de raiva e os olhos faiscavam. 'Bem, eu estou esperando por uma explicação.'
Como ele ousa falar assim comigo? Elfo arrogante! Haleth pensou, mas não disse nada. Ela engoliu a raiva e passou por Haldir, parando a alguns passos de distância com as costas viradas para ele e Siward. Haleth estava a ponto de explodir. Ela não podia deixar Wilrog escapar dessa vez e matar novamente, porque ele era sua responsabilidade. E se tivesse que arriscar a vida para acabar com a dele, ela o faria.
Contudo, não havia palavras que pudessem descrever o quanto Haleth estava com medo de sua própria decisão. Ela teria que enfrentar seu marido. Ela teria que usar seus poderes. Ela provavelmente morreria. Aquela tinha sido uma decisão muito difícil de ser tomada e Siward, ao invés de apoiar a escolha dela, começou a agir com o coração, e não com a cabeça. Homem estúpido... Haleth suspirou profundamente. Não havia outro jeito de fazer aquilo sem usar o seu poder. Eles estavam em menor número e se ela não fosse atrás de Wilrog, ele os seguiria e mataria todos os homens dela. Haleth não poderia deixá-lo fazer isso. De jeito nenhum. Siward tinha pensado em buscar reforços, mas não havia Homens naquela região onde estavam agora, somente nas planícies de Calernadhon.
Mesmo assim, o uso do poder dela era um risco. Elrond a tinha alertado que se ela o liberasse mais uma vez, seria o último momento de sua vida. Haleth morreria e talvez mataria todos que estivessem próximos dela antes de cair, porque ela não conseguia fazer a diferença entre um amigo e um inimigo naquele estado. Na melhor das hipóteses, Elrond tinha dito que ela iria perder a sanidade. Papai, eu queria que você estivesse aqui comigo agora. Você sempre sabia o que fazer. Haleth sentiu o medo crescer dentro do estômago e se sentiu dolorosamente sozinha.
Somando a isto, Haleth não tinha certeza se contaria aquilo tudo a Haldir, seu Espião particular. Entretanto, quando ela escutou a voz rude de Siward cortar o ar, soube que não teria que se preocupar mais com aquilo.
Siward olhou por sobre o ombro para a mulher enraivada e coçou a parte de trás da cabeça com a mão. Quando sentiu que ela não iria interrompê-lo, começou a falar.
'Haleth arranjou um plano, como você mesmo já sabe.'
Haldir assentiu com sua cabeça loura.
'Mas você não sabe que tipo de plano é esse.' Siward fez uma pausa, juntando coragem para continuar. Ele não estava certo se estava falando demais, pois não podia prever como o Elfo iria reagir quando soubesse de tudo. Mas Siward confiava em Haldir e sua confiança o fez continuar. 'Bem, ela vai se encontrar sozinha com Wilrog, no Campo de Celebrant, enquanto nós estaremos escondidos dentro da floresta que cerca o local na margem Sul. Então ela matará a maior parte do exército dele e forçar os Orcs restantes a correrem em nossa direção. Nós estaríamos esperando com uma rajada de flechas; você e eu no comando dos arqueiros. Com certeza, os monstros encontrariam a morte certa.'
Siward observou as reações de Haldir diante do início de suas revelações. Os olhos do Elfo se apertaram. Pelo menos ele estava demostrando alguma emoção para variar.
'Como uma pessoa sozinha seria capaz de fazer tal coisa? perguntou Haldir calmamente. Ela nem mesmo sabe a localização correta deles para criar um plano desses sem probabilidades de falhas.'
Siward levou um tempo para continuar, tentando encontrar o melhor jeito para contar a Haldir o que sabia. Não vou contar tudo, apenas metade do que sei. É o bastante por agora.
'Haleth não precisa saber a posição deles, ela pode guiá-los para qualquer direção que quiser. Na nossa direção, por exemplo.' Siward encarou a expressão impassível de Haldir. 'Há algo que você não sabe sobre Haleth, Haldir,' ele finalmente falou, acessando a reação do Elfo com os olhos.
Haldir olhou para ele com um leve franzir de cenho no seu belo rosto. 'É mesmo?'
O comportamento distante de Haldir e a maneira como ele falava friamente tinham atiçado a raiva dentro de Siward. Isso é irritante! Pensou ele, mas manteve a opinião para si mesmo e continuou falando, as palavras saindo de sua boca numa rápida sucessão antes que perdesse a coragem para fazê-lo.
'Haleth nasceu com uma força estranha dentro dela, algo mais forte do qualquer coisa que os mais sábios pudessem imaginar, algo que poderia matar um exército inteiro e que poderia matá-la também se Haleth a usasse.'
Haldir escutou as palavras de Siward com grande atenção. Seus olhos azuis brilharam quando se lembrou da conversa entre Haleth e Varin que ele havia escutado. Então era sobre isso que eles estavam falando. 'Que tipo de poder?'
Siward engoliu em seco, seu rosto ficando perigosamente pálido quando as imagens de sangue e destruição que ele tinha testemunhado, há muito tempo atrás, retornaram a sua mente. Ele quase podia sentir o gosto amargo do medo em sua língua.
'Eu não posso dizer, Haldir. A simples lembrança desse poder faz com que meu sangue gele nas veias. Não desejo falar sobre isso.'
O olhar de Haldir pousou na figura imóvel da mulher que estava em pé, em silêncio, de costas para ele. Como isso pode ser verdade? Tanta destruição escondida dentro de uma simples mulher? Ele tinha que saber.
'Então você poderia me explicar, Siward,' começou ele, num tom duro e direto, 'como uma mulher mortal pode ter dentro dela este poder que você me contou? Você me disse uma vez que o pai dela a enviou para viver em Imladris. O Senhor Elrond não aceita um convidado humano sem um propósito, todos os Elfos sabem disso. Ele sabia sobre o poder dela?'
Siward não falou. Em seu lugar a voz macia de Haleth se ergueu no ar. A raiva dela tinha aumentado até o ponto de fazer com que seus olhos brilhassem num castanho quase dourado. Ela odiava ter seu segredo revelado e a descrença de Haldir a encheu com uma fúria súbita. Como se o fato de que ela fosse uma mortal e uma mulher fizesse com que aquela situação parecesse impossível para ele.
'Sim, o Senhor Elrond sabia. Foi por isso que ele convenceu meu pai a me deixar viver lá em Imladris, sob os olhares sempre atentos dos Elfos.' Ela caminhou calmamente na direção de Haldir e Siward, seus olhos, agora apenas castanhos, duelando com o olhar azul do Elfo. 'Entretanto, o quanto Elrond sabe sobre a minha condição, me é desconhecido. Ele me disse que eu era humana, mas que meus poderes vinham de um tempo quando os Deuses caminhavam entre a sua raça e a minha. Como isso aconteceu, eu também não sei. Talvez eu soubesse se vocês, Elfos, parassem de falar através de enigmas. Isso é informação suficiente para você, Haldir?'
Haldir fez que sim com a cabeça, seu cenho franzido suavemente diante das súbitas palavras duras de Haleth. 'É o bastante... Por agora.' Então ele se calou, tentando entender o que tinha acabado de acontecer. Por que ela está com tanta raiva de mim assim? Ele se perguntou. Haldir podia sentir o sarcasmo na voz dela, o ódio nos olhos castanhos e a fúria envolvendo o corpo de Haleth como um manto. Contudo, ele ainda não compreendia o comportamento dela. Sem pensar, meramente por hábito, Haldir lançou um olhar cheio de arrogância e distanciamento na direção de Haleth, aumentando ainda mais a fúria da mulher.
Como ele ousa? Haleth se perguntou. Ela permanecia de pé, alta e quase tão arrogante quanto Haldir, tentando igualar a conduta irritante dele. 'Ótimo. Então você pode deixar a mim e a Siward sozinhos. Da próxima vez que você se intrometer em nossa conversa e me tratar como se eu fosse um de seus guardiões, eu vou mandar lhe prender pelo resto da viagem. Você pode ser o Guardião dos Galadhrim na Floresta Dourada, mas aqui você é um soldado sob as minhas ordens e eu exijo respeito.'
Os olhos de Siward se arregalaram de espanto. Ele não esperava por aquela explosão de raiva sem motivo vinda de Haleth, que era quase sempre tão calma. O Homem olhou para o destinatário daquela reprimenda com preocupação nos olhos. O Elfo estava irradiando um brilho interno que parecia aumentar com a raiva.
Haldir se aproximou de Haleth e Siward o observou com atenção, temendo pelo bem estar de sua comandante. 'Entendo o motivo para a sua explosão de raiva temperamental. Isso é comum entre vocês, Homens, que não conseguem controlar sua raiva.'
Haleth cerrou os punhos em fúria, se sentindo completamente ofendida. 'Então este é o comportamento de um mortal?' Ela perguntou, os olhos faiscando de raiva. 'Se eu me lembro bem, Haldir, foi Fëanor quem tirou seu povo de Valinor, matou a própria raça, trouxe a fúria dos Valar sobre eles e amaldiçoou os Elfos só porque Morgoth tinha roubado suas estúpidas silmarils! Quem é temperamental agora?'
Como ela se atreve? Os lábios de Haldir se abriram um pouco, como se ele fosse dizer alguma coisa, mas se fecharam novamente. O brilho de raiva que iluminou seus olhos fez Siward se encolher. O Homem decidiu interferir, antes que o guerreiro Élfico matasse sua amada comandante.
'O problema continua o mesmo: ela morrerá se usá-lo.'
Siward olhou do Elfo para a mulher, cheio de preocupação. A raiva deles era quase palpável nos olhares fixos um no outro e parecia esquentar o frio ar noturno. Haleth então desviou seu olhar de Haldir e voltou sua atenção para Siward.
'Não há problema nenhum, Siward. Os Elfos foram feitos para viver para sempre. Eles têm medo da vida? Não. Os Homens foram feitos para morrer um dia. Eu estou com medo da morte? Eu não deveria estar, mas estou. Eu já vi as Praias Brancas mais vezes do que eu posso contar, meu amigo. Eu sou uma guerreira. Mesmo assim estou aterrorizada! É claro que eu não quero morrer, mas se eu tiver que fazer isso, como é o caso agora, me deixe fazê-lo e pare de ficar tentando me convencer do contrário. Isso já é difícil demais para mim sem ter você me dizendo que eu não devo morrer merda nenhuma! Como se eu fosse alguma tipo de lunática! Eu não quero mais ouvir falar disso. Nós partimos amanhã ao amanhecer. Por agora, eu estarei no lago se você precisar de mim.'
Com aquelas palavras ela passou pelos dois sem olhar duas vezes para os seus rostos chocados.
Siward olhou consternado para Haleth, que ia se retirando. 'Mas a água está fria demais, quase congelando!' Ele gritou para ela.
Sem olhar para trás, ela gritou de volta. 'Eu não ligo a mínima para isso agora, Siward!' E desapareceu entre as árvores.
H&H&H&H
Haleth caminhou por entre as árvores, seu corpo tremendo de frio e raiva. Quando finalmente alcançou o lago, ela se sentou na margem, puxando os joelhos para perto do peito. Haleth admirou a bela vista à sua frente. A água calma refletia as estrelas e a lua no céu, formando um espelho celestial. Era uma vista tão diferente do tumulto dentro dela... Haleth recostou o queixo nos joelhos, sentindo o peito doer. Havia um nó em sua garganta e os cantos dos olhos dela queimavam, querendo desprender as lágrimas, mas ela não deixaria nenhuma delas cair. Já tinha sido humilhante demais contar a eles sobre os seus medos e Haleth não queria chorar.
Ela sentia tanta falta do pai agora. Sentia-se confusa e solitária. Hamá não estava mais com ela, para apoiá-la e encorajá-la em suas decisões. Para mostrar a ela os caminhos certos que deveria tomar e aqueles que não deveria seguir. E agora, quando Haleth tinha que decidir sacrificar a própria vida, ela não poderia pedir os conselhos dele. Siward era um bom amigo, mas quase sempre usava o coração ao invés da cabeça quando o assunto em discussão era a própria segurança dela. Haleth não podia contar com a opinião dele nisso, porque ele não era uma fonte confiável.
A decisão dela tinha sido correta? Ela não sabia. E Haldir, em quem ela pensava que poderia confiar que iria usar seu intelecto superior, estava mais preocupado com o poder divino dela do que com o fato de que ela poderia morrer. Talvez este seja o motivo para ele estar aqui; para ficar de olho no monstro e relatar tudo para seus superiores.
Uma brisa gelada fez Haleth se arrepiar de frio. Quanto tempo ela havia estado sentada ali, ela não sabia. Talvez horas. Haleth tirou as luvas e tocou a água da lagoa escura. O toque fez com que a superfície se eriçasse, embaçando o reflexo do céu. Se isso não é estar frio, eu não sei o que é, ela pensou sarcasticamente. Apesar de seu desgosto em ficar sem se lavar, ela não poderia se arriscar a tomar um banho, ou morreria antes do planejado. Quando a superfície voltou a ficar imperturbável, o reflexo de Haldir surgiu atrás dela no espelho natural e a assustou. Mas que... Ela não tinha sentido ele se aproximar, tão perdida estava em pensamentos. Haleth ficou de pé num salto e se virou para encará-lo.
'O que você está fazendo aqui?'
Ainda está furiosa, essa mulher teimosa! Haldir pensou quando sentiu as ondas de raiva que vinham de Haleth. Ele tinha passado a maior parte da noite se perguntando se deveria ir falar com ela. Quando sua ira arrefeceu e ele julgou as reações dela usando sua mente racional, Haldir aprendeu que Haleth o tinha atacado, porque se sentia encurralada e assustada. Ele se recriminou a noite toda por sua falta de consideração em relação a ela, e decidiu que precisava tomar uma atitude.
Foi por causa disso que ele foi atrás da mulher guerreira. Uma mulher que tinha demonstrado se importar tão profundamente com ele ao ponto de perder a concentração em batalha e que era corajosa o suficiente para encarar os próprios medos e fazer o que tinha que fazer, merecia suas desculpas. E ele iria se desculpar. Embora somente se o seu ser arrogante permitisse.
'Você não deveria testar minha paciência, humana. Depois do que você me disse, eu adoraria te jogar sobre os meus joelhos e te dar uma surra que a deixasse sem poder se sentar por uma semana.' Os olhos de Haldir reluziram na noite com uma luz fria diante daquele pensamento, seu corpo brilhando na escuridão. O olhar dele era feroz e ele estava espantado pelo fato de Haleth ser capaz de suportá-lo sem se virar.
'Só isso?' Replicou ela enquanto o imitava, levantando a sobrancelha. 'Pensei que você ia querer me matar. Estou desapontada.'
'Eu acho que essa tarefa pertence a Wilrog.'
Os dois se calaram diante das palavras duras dele. Haldir se amaldiçoou por falar sem pensar. Ele olhou para o rosto ofendido de Haleth e pela primeira vez percebeu pela cor dos lábios dela que ela estava com frio. Completamente esquecido de seu comentário rude, Haldir tirou sua capa Élfica e a colocou sobre Haleth, prendendo o fecho. Seu cuidado com a mulher mortal era como uma mão morna acariciando seu coração endurecido e fazia com que sua arrogância desaparecesse tão rápido quanto tinha aparecido.
'Eu não quero que você morra de frio, nem nas mãos daquele pirralho. Tem que haver outro jeito.'
Haleth franziu o cenho, chocada pelas ações de Haldir. Elas não faziam sentido depois de todo o distanciamento que ele havia endereçado a ela momentos antes.
'Você não escutou o que Siward disse?' perguntou Haleth asperamente. 'Não há outro jeito. E o que isso importa para você? Espiões não devem fazer amizade com quem têm que espionar. Especialmente quando o alvo da espionagem é um monstro.' Haleth deu um tom sarcástico à palavra monstro o que deixou Haldir mortificado.
Ele olhou para ela, surpreso por aquela escolha de palavras. Então aquilo era o que ela pensava ser a opinião dele sobre ela? Que ela era um monstro?
Haldir suspirou. 'Um enigma, sim. Um monstro... Não, Belegaer.' Ele disse a ela docemente, sua voz musical viajando pelo ar.
'Então por que você está aqui se não é para vigiar o monstro e prevenir que ele faça algo estúpido?'
Haldir se aproximou ainda mais da mulher alta à sua frente, colocando as mãos sobre os ombros dela. Haleth ainda estava tremendo de frio e ele acariciou os braços dela numa tentativa de aquecê-la.
'Eu nunca soube que você era... diferente, até hoje. Este não é o motivo para eu estar aqui, Belegaer.'
Haleth balançou a cabeça em negativa e então encarou aqueles olhos azuis penetrantes que estavam tão perto dela. O movimento das mãos dele estava enviando um tipo de calor sensual ao seu corpo e Haleth se sentiu levemente tonta. Ela olhou para baixo, tentando manter sua mente em foco. Quando pensou que tinha controle suficiente sobre ela mesma, olhou para o belo rosto de Haldir mais uma vez. Como ele me afeta tanto? Ela se perguntou.
'Se você não sabia sobre a minha condição, então por que está aqui?' Haleth perguntou de novo calmamente.
'Espiões não podem contar seus segredos, Belegaer, mas eu juro a você que minha estada aqui no seu exército é por um bom, e não um mau motivo.' Haldir olhou direto nos olhos dela, absorvendo a visão da magnífica mulher. 'Entretanto, temo que se você ainda decidir lutar contra Wilrog, em alguns dias não terei mais nenhum motivo para permanecer aqui. E eu teria que retornar a Lothlórien com um coração mais pesado.'
Haldir percebeu o quanto ele estava perto daquela mulher, mas não recuou. Enquanto acariciava o rosto de Haleth com a mão, traçando os belos contornos daquela face feminina com os dedos, ele observou as imperfeições que a tornavam única. Pela primeira vez Haldir percebeu a cicatriz esmaecida na face dela, provavelmente feita pela lâmina de uma espada, e ele desejou ter estado lá para parar o atacante que ousara machucar a pele de Haleth.
Sim, pare, eu preciso parar, ele se repreendeu, mas não conseguiu. Nem quis tentar. Aquela mulher exercia um fascínio tão forte sobre ele que Haldir não conseguia entender. A inteligência, coragem e mente voluntariosa de Haleth encantavam Haldir mais do que ele podia acreditar. Os seus dedos longos traçaram os contornos da testa dela, das faces e pousaram nos lábios cheios. Pare! Haleth sorriu docemente diante do toque de sua mão e aquilo foi o que desfez Haldir.
'Belegaer...' ele sussurrou antes que seus lábios descessem sobre os dela num beijo exigente.
Quando Haleth percebeu que a boca de Haldir estava cobrindo a dela, ela se esqueceu completamente de quem era, de suas obrigações, de seus medos... Ela só conseguia sentir a língua dele separando seus lábios procurando pela sua. Ah Deuses... Haleth não conseguia pensar. Seus braços esguios, mas levemente musculosos, se entrelaçaram ao redor do pescoço de Haldir num ato reflexo, retornando o beijo dele com ardor. O forte coração dele estava ribombando contra o seu peito e ela sentiu seu corpo se moldar aos braços dele.
Um leve gemido escapou de seus lábios e ela sentiu Haldir sorrir arrogantemente contra ela, ainda o Elfo cheio de desdém. Tão poderoso, tão forte, tão real... pensou ela. O fato de que ele era um Eldar, entretanto, nem sequer passou pela mente de Haleth; ela estava embriagada demais pelo cheiro inebriante que vinha dele para considerar a raça de Haldir ou qualquer outra coisa. Então, ela apenas deixou se perder. Na força dele, no toque suave dos lábios, na sensação do corpo dele se movendo contra o dela.
Valar, Haleth, você tem um gosto tão bom... Haldir estava ali para oferecer conforto, não para tocar; para oferecer conselho, não para desejar; para oferecer o apoio de um amigo, e não o beijo de um amante. Entretanto, ele não conseguia impedir os seus atos. Ali estava ela, Comandante Haleth, a Máscara Dourada, a líder dos Homens, derretendo em seus braços, e se ele não a estivesse segurando, Haldir tinha certeza de que ela iria cair no chão. O beijo dele era profundo, explorador e de tirar o fôlego, mas a mente dele ainda tentava colocar um freio em seus atos... Por apenas um instante.
Qualquer tipo de pensamento racional que ainda existia dentro dele, e que implorava para que ele parasse, foi quase inteiramente esquecido quando os dedos de Haleth tocaram de leve a parte de trás de seu pescoço. Um arrepio correu por sua espinha e Haldir quase gemeu dentro da boca de Haleth. Você será o meu fim, mulher... Ele aumentou o aperto de seu abraço ao redor da cintura dela e a trouxe para ainda mais perto de si. Suas mãos estavam enroscadas nos cachos selvagens do cabelo de Haleth, não dando a ela nenhuma chance para escapar.
Como se Haleth quisesse isso.
Perdido na sobrecarga de sensações, Haldir parou de pensar completamente. Ele apenas sentiu, algo que nunca tinha feito antes. Os apelos de sua mente para que ele parasse morreram quando outras partes de seu corpo foram controladas por seu estado excitado e ele engasgou, como alguém que se afoga e finalmente encontra ar para respirar. Os hálitos de Haldir e de Haleth, quentes contra o ar frio, se mesclaram numa fumaça rala quando o Elfo encostou sua testa contra a dela.
Haldir abriu os olhos devagar, escuros de desejo, e encontrou dois lagos negros olhando para ele. Ele não queria deixar aquele momento passar. As suas órbitas azuis estavam completamente fixas na mulher que respirava com dificuldade em seus braços e ele soube, enquanto a abraçava, que não a deixaria morrer. Nunca, se eu tivesse poder para isso.
O sol começou a se erguer no horizonte e Haldir percebeu que a luta matinal deles durante a aurora tinha sido completamente esquecida. Naquele dia tinha sido trocada por um tipo diferente de duelo. Não consigo decidir de qual dos dois eu gosto mais, Haldir pensou divertido. Depois de um momento em silêncio, Haldir beijou Haleth mais uma vez, um leve roçar de lábios, e então se afastou dela. Ele pegou a capa de volta e a prendeu em volta do pescoço. Agora ela tem o seu cheiro, minha adorada mortal. Haldir tomou a mão de Haleth na sua e a beijou.
'Eu queria que você soubesse, Belegaer, que você não está sozinha nisso.' Haldir sorriu para ela enquanto escutava o som pesado de passos se aproximando. 'E eu não estou falando apenas por mim.'
Com aquelas palavras ele se foi, deixando Haleth em pé sozinha junto ao lago, ainda sem fôlego e corada, com os primeiros raios de sol iluminando a sua alta silhueta. Haleth não conseguia colocar os pensamentos em ordem, nem queria. Ela apenas sabia que de alguma maneira se sentia mais forte e confiante do que antes.
"Hal, você ainda está aí?"
O grito de Siward assustou Haleth. Quando se virou na direção da voz dele, ela já encontrou o amigo a alguns passos de distância dela, segurando uma panela de água fumegante.
Haleth sorriu. "O que é isso?"
"Um banho quente!" disse Seyton enquanto surgia de dentro das árvores carregando dois outros potes de água quente.
Siward colocou seu fardo no chão e tomou a mão de Haleth nas suas.
"Eu lhe devo uma desculpa pela noite passada e esta foi a melhor coisa que eu pude pensar em fazer como forma de me desculpar," Siward informou a ela com um sorriso tímido no rosto. "Você aceita?"
Você é tão leal, meu amigo, que dói. Haleth tocou o rosto de Siward gentilmente, torcendo para que ele não notasse o rubor que as faces de seu rosto ainda exibiam. "É claro que eu aceito suas desculpas, Siward."
Siward sorriu largamente. "Então se sente, para que eu possa lavar o seu cabelo. Deixarei que você termine de se banhar quando eu tiver acabado."
Haleth fez o que lhe foi mandado e suspirou de contentamento diante da massagem cuidadosa que Siward estava fazendo no seu couro cabeludo. De vez em quando ela olhava sorrateiramente na direção da floresta, em busca do Elfo. Os beijos dele ainda estavam frescos em sua mente por causa da maneira súbita como tinham acontecido. A força do desejo de Haldir por ela tinha assustado Haleth, mas agora ela estava preocupada com uma coisa mais trivial: ele teria feito aquilo apenas porque sentia pena dela? Ela esperava que não, porque Haleth tinha se sentido a mulher mais poderosa e estimada em Arda naquele breve momento de paixão, sentimentos que não tinham nada a ver com pena.
H&H&H&H
Depois de tomar seu banho, Haleth comeu um pouco de carne seca com água fria e voltou para o acampamento, seus olhos procurando instantaneamente por Haldir. As tendas tinham sido desmontadas, os Homens estavam realizando suas tarefas, mas o Elfo não estava em nenhum lugar que pudesse ser visto. Haleth olhou para os rostos dos soldados que estavam à sua frente.
Alguns eram tão jovens quanto ela, enquanto outros já tinham visto muitos invernos. Mas não importava que idade eles tinham; os homens a respeitavam e a honravam sem se importar com o fato dela ser mulher. Eles confiam em mim, e eu não posso falhar com eles, pensou Haleth. Ela subiu nas costas de Dernhelm, Tuo e Maranwë presas firmemente no cinto. O olhar poderoso de Haleth ainda estava fixo naqueles rostos cheios de expectativa quando falou.
"Soldados de Gondor, hoje nós cavalgamos para a batalha!" a voz dela era limpa e cheia de uma determinação natural. "Nós vamos para o Campo de Celebrant, e nosso alvo é o exército de Wilrog. Já é hora de nós colocarmos um ponto final nos horrores que eles têm desencadeado sobre o nosso povo!" Todos os homens gritaram em assentimento diante das palavras dela. O rosto de Haleth ficou sombrio. "Uma vez eu o chamei de marido, mas hoje eu o chamo de traidor e de escravo dos desejos de Sauron! Agora, meus ferozes guerreiros, nós cavalgamos até que encontremos o exército dele e nós não pararemos até que tenhamos feito nossas espadas se refestelarem no sangue negro deles! Para o Campo e para a condenação de Wilrog!" Haleth ergueu Tuo acima da cabeça e todos os soldados dela fizeram o mesmo, gritando de alegria. A emoção deles era esmagadora e Haleth sentiu o peito estufar com aquela sensação. Ela colocou a máscara que brilhou dourada na luz do sol.
Quando deu sinal para que todos os soldados montassem, Haleth sentiu a presença forte de Haldir ao lado de Siward, os olhos azuis dele fixos ferozmente nela. Então aí está você, Espião... Ela sorriu gentilmente para ele sob a máscara e inclinou a cabeça, um gesto que foi recompensado pelo rosto sem emoção de Haldir, mas também por um olhar brilhante nos olhos do Elfo.
Flanqueada por seus amigos mais queridos, Haleth, coração batendo acelerado dentro do peito, partiu na direção da única coisa que ela não queria encontrar: sua morte pelas mãos de Wilrog.
H&H&H&H
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