Scott estacionou diante da casa de Stiles no mesmo instante em que o rapaz trancava a porta da frente.
- Opa, pensei que ia ter que te esperar. – disse ao ver o amigo se aproximando da porta do carona.
- Ah... – ele pareceu embaraçado – Me esperar pra que?
- Pro aniversário do Derek, cara! A gente vai pegar a Alisson e ir pra floresta, apenas pra curtir. Um lual sem lua.
- Oh merda, era hoje? Eu esqueci.
- Esqueceu do aniversário do Derek e tá todo arrumado assim pra que? – Scott ergueu uma sobrancelha, curioso.
- Bom, eu tenho um encontro. Não faça essa cara, não é grande coisa.
- Com quem? – Scott ás vezes tinha a curiosidade de uma menina.
- Você não conhece. É uma pessoa que eu conheci na internet. – Stiles enfatizou bem a palavra pessoa, não podia contar para o melhor amigo que sairia com um homem de 26 anos.
- Ok. E onde vocês vão se encontrar?
- No Starbucks.
- Legal, se chegar lá e perceber que ela é uma velha feia, vesga e banguela, aparece por lá que vai estar bem divertido.
- Eu duvido muito que ela seja isso, mas combinado! Agradeço a preocupação.
Ele riu, acenou para Scott que já arrancava com o carro e pegou o jipe para ir até o outro lado da cidade.
Entrou no estabelecimento e ficou sentado junto ao balcão, tamborilando os dedos sem parar e vigiando a porta como um cão de guarda. Em seu único momento de distração, quando checou as horas no celular, uma pessoa entrou no local, fazendo todos os presentes ficarem em silêncio.
Stiles notou que o burburinho característico tinha cessado e levantou a cabeça, olhando um Derek Hale visivelmente deslocado no local.
Era só o que lhe faltava que Derek viesse pessoalmente encher o saco porque ele não estava na festa. Guardou o celular no bolso e foi até o alfa, num arroubo de coragem que não sabia exatamente de onde vinha.
- Oi Derek. Meus parabéns, muitos anos de vida, blá-blá-blá e agora pode ir.
O lobisomem virou a cabeça na direção do rapaz, olhos bastante confusos.
- O que?
- Pode voltar para sua festa. Eu sei que você gosta dessa ideia de dominar e mandar, pra mostrar que é o alfa, mas acontece que eu não sou da sua espécie e portanto não faço parte do seu bando e eu não vou na sua festa de aniversário.
- Festa de... Ah, aquela porcaria que o Peter inventou? Eu também não vou na minha festa de aniversário.
- Então, o que está fazendo num lugar sociável como este? Não me diga que tem outra criatura estranha por aqui, porque desta vez...
- Nada de criatura estranha. Vim apenas encontrar uma pessoa.
- Ah, ok, bom encontro.
Stiles sorriu, mas Derek não lhe retribuiu a expressão. Andou alguns passos para frente e Stiles pensou que o lobisomem iria mesmo encontrar alguém especial. Só isso poderia explicar o cabelo bem aparado, o perfume, a calça jeans clara, a camiseta preta do Soundgarden e...
E o rapaz parou de reparar naquele momento. A camiseta preta do Soundgarden. A porcaria da camiseta preta do Soundgarden. Mas que porra Derek estava fazendo usando uma camiseta do Soundgarden?
Ele cambaleou para trás, esbarrando no copo que tinha deixado sobre o balcão, fazendo-o cair no chão e se estilhaçar.
- Merda. Merda. Merda. Cacete. Não pode... Fodeu tudo. – ele falava sem parar enquanto ia sentindo a respiração ficar mais difícil.
Alguém próximo a Derek reparou que o rapaz estava passando mal e comentou com o amigo, fazendo o lupino ouvir e olhar para trás. Atravessou a distância que o separava do garoto, o puxou pelos ombros, sacudindo com uma força desnecessária.
- Stiles – ordenou – olhe para mim. O que está acontecendo?
- Eu não, eu estou só... Cacete! – ele respirava rápido, como se nenhum ar chegasse a seus pulmões – Eu to hiperventilando.
- Isso é óbvio.
- Essa, essa sua camisa... – o lobisomem franziu a testa sem entender nada – Foi a Laura, né? Que te deu, seu último presente...
Derek arregalou os olhos, ficando irritado pelo rapaz saber daquele detalhe.
- Quem te disse? – ele falou em tom de voz ameaçador.
- Cacete!
- Fala, Stiles.
- Fala você. Qual a cor da minha camiseta, Derek?
- O que?
- Anda, só me fala, por favor.
O alfa deu dois passos para trás, olhou o rapaz, se aproximou de novo e disse:
- Sua camiseta é vermelha, Stiles. Satisfeito?
- Preste atenção nos detalhes e diga de novo.
Ele bufou, mas fez o que Stiles pedia.
- Sua camiseta é vermelha, com duas listras brancas na vertical do lado... – e a cor foi sumindo do rosto do lobisomem enquanto seu queixo caía lentamente. – Você.. Você é... É você?
- Eu preciso sair daqui. – Stiles não respondeu a pergunta do lobisomem, apenas saiu do Starbucks, esqueceu do carro e andou meio perdido pela rua.
Derek ainda pensou em correr atrás dele e chegou até a porta do Starbucks, mas se deteve. Correria atrás dele e faria o que depois disso? Sentiu-se impotente, irritado. Também dispensou seu carro e correu, na direção oposta a que Stiles havia tomado.
Stiles ainda tentava entender que brincadeira de mau gosto era aquela. Como o destino podia ser tão sacana com ele? Ele andava sem enxergar os caminhos que tomava e quando percebeu já estava no meio do parque municipal.
Sentia-se ridículo. Humilhado. Exposto. Derek agora sabia mais dele do que qualquer outro de seus amigos, Derek agora sabia de sentimentos que Stiles nunca imaginou ser capaz de sentir. E que agora, quando ele se sentia capaz, de nada serviam.
Notou o rosto úmido e quente das lágrimas que escorriam teimosas de seus olhos. Lágrimas de raiva, de tristeza, de solidão novamente já que toda aquela história entre Triskalia e moonHalo havia acabado na entrada do Starbucks.
Deixou o corpo pesar e ajoelhou-se na grama, contendo uma vontade de gritar de ódio. Não de Derek. Ele parecia tão assustado quanto o próprio Stiles estava. Tinha ódio de si mesmo. De sua burrice. De ter ficado tão encantado com a possibilidade de conhecer alguém legal que foi incapaz de juntar as peças do quebra-cabeça.
- Eles fazem aniversário no mesmo dia. E tem um tio que deveria ser procurado pelo FBI. E seus alunos se machucam muito, mas se recuperam fácil. E a tal aluna bonita e barulhenta? Só podia ser a Érica. Que burro eu fui! E como vai ser agora? Por que não conviver com ele não é uma opção.
Stiles falava sozinho e de um jeito particularmente rápido, tentando colocar seus sentimentos no lugar. Um buraco surgia aos poucos dentro dele, o lugar que antes era preenchido por Derek, ou melhor, por moonHalo começava a ficar novamente vago.
E não era o que ele queria que acontecesse. Na verdade, ele não se importava de ser Derek. Isso só facilitaria as coisas, afinal, como Danny diria, Derek Hale era obviamente bonito. Mais que bonito. E era inteligente. E sensível e divertido, como havia demonstrado nos últimos meses.
O único problema era que Derek Hale era Derek Hale. O lobisomem solitário, amargo, violento que jamais admitiria que teve uma história com um adolescente hiperativo feito Stiles. Com tantas possibilidades mais interessantes, pra que perder seu tempo com alguém como ele, não é?
E ele percebeu que todas as maneiras que ele já havia se machucado por causa de Derek, aquela era a pior delas. Soluçou sentido, mordendo os lábios para não fazer muito barulho.
Ficou ali tanto tempo que sentiu as pernas começarem a adormecer, mas estava tão imerso em seus sentimentos que não quis mudar de posição e sequer ouviu o barulho de passos sorrateiros se aproximando.
E quando se sentiu puxado para trás, uma dor lancinante cortando-lhe os ombros, seguida de outro rasgo que destruiu sua camiseta enquanto lhe dilacerava parte do abdômen, ele só conseguiu pensar que ser assassinado era um final muito clichê para o dia que devia ser o mais feliz de sua vida.
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Derek caminhou pela cidade por quase três horas, tomando caminhos e ruas que ele nem sequer sabia que existiam. Estava perdido, real e metaforicamente. Completamente sem noção do que faria a seguir ou para onde deveria ir. Todos os caminhos pareciam escuros e incapazes de levá-lo ao local correto, talvez porque seu lobo interior estava tão confuso quanto ele.
Os acontecimentos da noite provaram uma verdade que Derek conhecia muito bem: coisas boas não acontecem em sua vida sem um motivo perverso por detrás. Mas pela primeira vez ele sentia que não merecia isso, porque ele tinha se exposto de uma maneira tão sincera e profunda para o rapaz, ele tinha superado tantos dos seus próprios medos que parecia errado que tudo fosse terminar da mesma forma: com tudo aquilo que ele se importava sendo tirado tão abruptamente dele.
Todas aquelas coisas que ele tinha dito, sem nenhuma exceção, foram difíceis de admitir. Dividir dores que ele recusava a reconhecer por si próprio com alguém, dividir risadas que ele nem sabia que ainda conseguia proferir, oferecer seus sentimentos tão sinceramente. Tudo isso foi mais do que ele já tinha feito com qualquer um em sua vida, mais do que com Laura, mais do que com Kate. Ele não queria que as coisas acabassem dessa forma.
Ele não queria que as coisas acabassem.
Ele estava cansado de só conhecer finais trágicos, de ser traído... Não que Triskalia... Stiles... Não que Stiles o tivesse traído, porque o garoto parecia ainda pior ao ter descoberto a verdade. E ele tinha razão em sua reação desgostosa e exagerada.
Derek era um problema na vida do rapaz e na vida de todos com quem já tinha cruzado. Ele tinha arriscado a vida de Stiles tantas vezes - e algumas delas intencionalmente! -, machucando-o fisicamente, causando-lhe dor real e posto o rapaz para enfrentar situações que ele achava que nenhum garoto humano deveria enfrentar.
Ele confiava que Stiles nunca iria contar nenhuma das coisas que ele tinha lhe contado como moonHalo, esse não era o Stiles (talvez, se fosse Jackson...). Mas ele sabia que aquilo era o fim de tudo que Triskalia e moonHalo haviam construído. Porque Stiles nunca mais iria querer vê-lo ou conversar com ele novamente. Ele não iria querer alguém tão quebrado como ele.
Ele não merecia Triskalia. E merecia menos ainda Stiles, o único beta de um bando que não era um lobisomem. Stiles, que já havia salvado sua vida tantas vezes quantas ele o colocou em real perigo. Stiles, o melhor amigo de Scott. Stiles, o filho do xerife.
Agora ele não tinha dúvidas quanto a ir para a cadeia. E ele merecia, não é mesmo? Criou tantas expectativas para o garoto de que poderia haver algo mais entre eles e, no fim, roubou tudo isso ao mostrar sua verdadeira identidade.
E quando conheceu Triskalia ele buscava exatamente por alguém que estivesse fora do alcance do imã de problemas que ele era. Procurava por alguém longe da sua vida durante a lua cheia, longe de qualquer risco de que alguém se machucasse por culpa dele.
E agora? Como lidar com a culpa de que mais uma vez ele tinha colocado em perigo a vida de uma pessoa que amava e se importava? Como saber que ele, Stiles, tinha se colocado em perigo tantas vezes simplesmente para ajudar? Como fingir que eles não sabiam coisas tão íntimas um sobre o outro da próxima vez que tivessem de se ver?
Derek andou por quase três horas. Andou, correu, se transformou, correu de novo, uivou. E só quando se sentiu menos desolado, voltou para seu carro e dirigiu de volta à mansão. Estava tão magoado, tão absorto em todos os últimos acontecimentos, que se esqueceu completamente da festa que estava acontecendo nos fundos da mansão. Estacionou o carro e foi atraído pelo ruído das risadas. Quando seus pupilos notaram sua presença, vieram lhe parabenizar, mas ele apenas fez um gesto com a mão indicando que não queria cumprimentos.
Correu os olhos pelo local e não encontrou Peter entre os presentes.
- Isaac, onde está meu tio?
- Não faço ideia. Quando chegamos tudo estava pronto, mas ele não estava aqui.
Ninguém parecia se importar com o sumiço do mais velho. Mas a intuição de Derek parecia querer cutucar o lobisomem para que fosse checar isso pessoalmente. Até que fogos de artifício pipocaram no céu e Peter Hale apareceu sorridente, os cabelos atrapalhados de quem acabara de correr e a expressão no rosto de quem havia feito a maior das travessuras.
- Quanta amargura nesse rostinho. – ele disse com um sorriso zombeteiro, se aproximando do sobrinho – Vamos alegrar, cantar parabéns e soprar as velinhas de uma vez ou vocês preferem um joguinho saudável?
- Do que está falando? – Derek indagou, ainda mais mal humorado.
- Uma brincadeirinha que você adorava quando criança, lembra? Todo seu aniversário, nós escondíamos algumas coisas para que você farejasse e a cada uma que você encontrava podia abrir um dos presentes.
Sim, Derek se lembrava de cada uma das pequenas tradições de sua família. Inclusive esta de caça ao tesouro.
- Mas desta vez eu fiz diferente. Para todos poderem jogar. Escondi um pequeno tesouro de cada um na floresta. Podem procurar em seus pertences.
Todos os lobisomens presentes reviraram seus bolsos e bolsas e notaram, assustados, que pequenas coisas haviam sumido. A chave do carro de Scott, a foto da mãe que Isaac levava na carteira, o colar de Érica, o relógio de pulso que Boyd ganhou do avô.
- 100 dólares para cada pertence encontrado. Independente do dono. Podem ir.
Os adolescentes ficaram eufóricos. Eram raras as ocasiões em que podiam usar seus dons lupinos para brincadeiras, e a possibilidade era divertida. Afinal, eles mereciam uma folga de vez em quando.
Saíram apressados pela mata, rindo e uivando. Peter sorria a seu canto e Derek mantinha a cara fechada, observando o tio. Quando todos se afastaram, ele tomou o caminho para dentro de casa, mas Peter barrou a porta com agilidade, sorriu para ele de um jeito bem amistoso e se aproximou, falando o mais baixo que conseguiu:
- Também peguei um tesouro seu. – ele colocou um pedaço de pano na mão do sobrinho – Seu precioso Triskalia.
Os olhos de Derek brilharam vermelhos e ele notou, horrorizado, o pedaço da camiseta que Stiles vestia mais cedo. Cheirou o tecido e constatou que havia sangue ali. Conhecia o cheiro do sangue de Stiles muito bem.
- O que fez com ele? – perguntou controlando ao máximo sua raiva, embora sentisse a necessidade de transformar seu tio em pó.
- Oh, por enquanto nada. – respondeu fingindo ar de inocente, depois deu de ombros e imitou um gesto clássico de rendição – Tudo bem, eu admito que ele está um pouquinho machucado. E sujo. E com certeza com frio, porque a camiseta dele, bem, foi reduzida a este pedacinho que eu lhe trouxe de presente de aniversário. Ah, e com certeza ele está com dor. Muita dor, porque ficar amarrado e ajoelhado por tanto tempo é muito cruel, não é mesmo?
Derek sentia sua pulsação aumentar. Mais uma vez havia colocado Stiles em perigo.
- Você tem até o amanhecer para encontra-lo, sobrinho. Se não conseguir, eu vou até onde ele está, e vou mordê-lo. E sabe-se lá se com aquela pele tão branquinha, eu posso me contentar apenas com uma mordida. – ele piscou, com um sorriso malicioso e Derek rosnou, empurrando-o com tanta força que o lançou uns três metros adiante.
Peter gemeu com a pancada, mas levantou rindo ao ver Derek praticamente voar floresta a dentro em busca de seu frágil Stiles.
