Uma Nova Vida, Um Novo Princípio

Capítulo 11 - Ligações Familiares

«Abusive no more, no more,

Abusive no more, no more»

(Abusivo nunca mais, nunca mais,

Abusivo nunca mais, nunca mais)

O sorriso desvaneceu-se-lhe da face quando se lembrou da mentira que ela tinha arquitectado. Quebra de tensão uma ova. Era algo mais. Mas ele ia descobrir. Ah, se ia.

"Mestre Malfoy?"

A voz de Snoket acordou-o novamente do seu transe. Já se vinha a tornar um hábito.

"Sim?"

Não esperou que o elfo retorquisse para fechar a porta e protegê-la de ouvido alheios (leia-se Freeda).

"Senhor Mestre Draco... ela fugiu!" O elfo não esperou a reacção de Draco e lançou-se em pranto contra a secretária.

Draco nem teve reacção para o parar.

Ela tinha fugido.


"Vou andando, Ron." Hermione olhou uma vez mais para a sua mala verificando de passagem o seu conteúdo para ver se não lhe faltava nada essencial. "Ron?" Chamou uma vez mais.

"Estou a ir!" Foi a resposta abafada do seu marido que apareceu nem um minuto após o seu anúncio. "Desculpa! Estava a preparar-te uma surpresa!"

Os olhos de Hermione arregalaram-se e seguiram as mãos de Ron que estavam escondidas atrás das costas. "Surpresa?" Murmurou enquanto os seus olhos brilhavam de contentamento.

"É." Ron forçou um sorriso malandro e aproximou-se, beijando a sua mulher carinhosamente. "Não é nada de especial..." Comentou enquanto coçava a cabeça, meio embaraçado. "É só algo para te lembrares de mim enquanto estiveres fora." Sorriu nervosamente e estendeu-lhe uma fotografia.

"Oh, eu lembro-me disto!" Era uma foto do primeiro encontro oficial dos dois. Uma saída no mundo Muggle a uma feira de diversões. Tinham andado em todos os carrosséis e provado um pouco de tudo o que os carrinhos de snacks e guloseimas podiam oferecer. Hermione tinha adorado!

A foto mantinha-se quieta pois ambos se tinham esquecido de levar máquinas fotográficas, pelo que tiveram de comprar uma máquina descartável e contentarem-se com recordações imóveis, mas cheias de memórias.

Vistos bem os factos, agora até calhava bem! Já que ia para casa da sua tia (Muggle) e as suas primas iriam, com toda a certeza, bisbilhotar tudo o que Hermione levava, por isso não se podia dar ao luxo de ter uma fotografia na mesinha de cabeceira que se mexia.

"Oh Ron! Que surpresa maravilhosa!"

Ron sorriu de orelha a orelha. Estava receoso que a sua pequena surpresa fosse pequena demais para a Hermione. Mas não, qualquer sinal de afecto era motivo de imensa satisfação por parte da sua mulher.

Hermione continuou a sorrir e abraçou o seu marido enquanto lhe plantava um beijo carinhoso nos lábios. "Está na hora." Suspirou. "Vou tentar não ficar muito tempo por lá, 'tá?"

Ron largou-a e suspirou. "Sim. Despacha-te. Não sei o que fazer sem ti..."

Hermione sorriu ternamente e estava prestes a envolver de novo o seu marido nos braços quando Ron voltou a abrir a boca.

"Sabes que nunca me safei muito bem a cozinhar! Vai ser um martírio estes dias sozinho... acho que vou encomendar pizzas todos os dias. Não queres que eu te destrua a cozinha, pois não?"

Hermione parou de içar os braços, cerrou os dentes e franziu as sobrancelhas. Ron nunca iria perder a sua falta de tacto que lhe é tão característica...

"Claro que não querido..." Hermione vociferou a palavra querido com uma certa dose de desdenha. "Já basta teres explodido o ministério, não achas?"

Ron levantou as mãos em jeito de defesa. Pelo tom de Hermione sabia perfeitamente que tinha feito asneira (de novo) e dito algo que não devia, apesar de não saber precisar ao certo o quê... Talvez devesse desenterrar do sótão o livro "12 Maneiras Infalíveis de Encantar Bruxas". Merlin sabe o jeito que lhe tinha dado há anos...

Suspirou. "Hermione, querida, eu não explodi o Ministério... foi só um departamento!"

Hermione tentou conter o sorriso e encolheu os ombros. "Esquece, Ron. Tens sorte que eu sou a melhor mulher do mundo e preparei-te refeições suficientes para uma semana. Só tens de as descongelar. A de hoje e amanhã está no frigorífico, só tens de aquecer." Sorriu com ar malandro. "Acho que ISSO consegues fazer!"

Ron fez-lhe uma careta enquanto na sua mente revia o processo que aquecer e descongelar alimentos. Devia safar-se bem... senão, sempre tinha a Toca como refúgio alimentar!

"Bem, eu volto depressa." Hermione pegou na sua mala e guardou a foto no bolso das calças. "Ainda tenho de apanhar um táxi quando chegar à estação para que a minha tia não suspeite de nada. E já está mesmo na hora de o comboio lá chegar. Vou apressar-me." Beijou o seu marido nos lábios demoradamente. "Adeus, Ron. Eu depois logo telefono."

Levantou uma sobrancelha quando viu Ron a coçar a cabeça com um ar quase desesperado. "Ainda sabes como se mexe no telefone, não sabes?"

Ron gaguejou qualquer coisa imperceptível e Hermione suspirou. "Só tens de atender, ou seja, levantar o auscultador. Mais nada."

Ron continuou a olhá-la como se a sua mulher tivesse mudado de dialecto de um instante para o outro. Hermione fechou os olhos enquanto pedia silenciosamente a Merlin que lhe desse forças.

"O auscultador. Aquela coisa onde se encosta o ouvido." Imitou o gesto de falar ao telefone. "Oh, francamente, Ron. Tu não és burro! Entende-te!"

Ron anuiu. "Acho que já sei o que é! Não te preocupes, Hermione. Eu cá me arranjo. Essas coisas Muggles são inúteis, mas..." Suspirou. "Eu entendo-me!"

Hermione sorriu e anuiu. "Muito bem. Vou andando então." Beijou-o novamente, pegou nas malas e saiu porta fora. Olhou demoradamente para o seu marido e deu um rodopio enquanto se concentrava no seu destino.

Quando aterrou olhou em volta. Estava num beco por detrás da estação dos comboios, exactamente o local onde tinha planeado 'aterrar'. Suspirou, arranjou os cabelos desalinhados e seguiu em direcção aos táxis que esperavam do outro lado da rua.


"Olá pequenas!"

"Primaaaaaaaa!" As elevadas vozes das suas primas muitíssimo excitadas arrepiaram-lhe os pelinhos do pescoço mas, mesmo assim, conseguiu sorrir.

"Como estão, suas pestes?" Margaret e Caroline eram crianças de oito anos com pele clara e olhos castanhos. Os seus cabelos lisinhos, tão diferentes dos de Hermione, chegavam-lhes aos ombros e encontravam-se apanhados em dois carrapitos desajeitados. Um último facto interessante: eram gémeas.

"Oh, muito bem prima! Estávamos mesmo a acabar os trabalhos de casa!" Disse Caroline entusiasmadamente. "Sim! A nossa vizinha, a senhora Flannigan estava a ajudar a mãe a tomar conta de nós." Rematou a sua irmã.

"Mas nós já somos crescidas!"

"É! Não precisamos que tomem conta de nós!"

Ambas protestavam incessantemente fazendo Hermione sorrir e, inconscientemente, pousar uma mão na sua barriga. As gémeas, ainda sem se calarem, empurraram a morena para dentro de casa.

"Mas como és tu que vais tomar conta de nós, nós até nos vamos portar bem!"

"Sim, vamos ser perfeitos anjinhos! Nem vais dar por nós!"

Hermione ergueu as sobrancelhas duvidando seriamente das declarações das pequenas.

"Oh, senhora Hermione! Graças a Deus que apareceu!" Uma senhora baixa e robusta de cabelos grisalhos aproximou-se de Hermione enquanto lhe pegava nas mãos. Aparentava ter uns 70 anos.

"Não consigo controlar esses demoniozinhos nem por um minuto que seja! Sempre a correr e a saltitar! Sempre a desarrumar e a fazer barulho! Sempre a trocar as coisas de lugar ou a fazer com que elas desapareçam! Crianças do Demo!"

Hermione atrapalhou-se um pouco com as palavras pois nem sabia bem o que dizer. Sabia que as suas primas eram irrequietas e até barulhentas, mas dai até serem crianças do Demo... bem, alguém precisava urgentemente de actualizar a medicação...

Hermione estendeu-lhe a mão num cumprimento amigável. "Você deve ser a Senhora Flannigan, certo? Muito prazer, Hermione Weasley."

A velha senhora deu-lhe um leve aperto de mão e murmurou um consentimento atabalhoado. Procurava desesperadamente o seu casaco e parecia querer sair dali o mais depressa possível.

"É como eu digo," resmungava enquanto levantava as almofadas do sofá. "As coisas desaparecem do nada!" Agarrou num cobertor e sacudiu-o violentamente. "Eu tinha o casaco mesmo aqui e agora desapareceu!" Ajoelhou-se com algum custo e procurou debaixo da mesa de centro. "Parece magia!".

Hermione mordeu a língua. "Ora, senhora Flannigan, as coisas não desaparecem do nada! Quer ajuda a procurar? Talvez esteja por aqui..."

E virou-se para um dos sofás que estava encostado à parede enquanto tirava a varinha de surra e verificava que as suas primas estavam entretidas a ver os Feiticeiros de Waverly Place.

"Não garota, aí não está. Ele estava mesmo aqui."

Hermione não lhe respondeu mas murmurou "Accio casaco" enquanto agitava a varinha tentando não fazer grande alarido. Um casaco preto coberto de borbotos saltou-lhe para a mão vindo do meio do assento do sofá para onda ela estava a olhar.

A morena soltou o ar que não sabia estar a segurar. Isto podia ter-lhe corrido mesmo mal se o casaco não estivesse mesmo ali. Respirou fundo e virou-se com um grande sorriso nos lábios.

"Oh! Aqui está senhora Flannigan! Devem ter sido as miúdas, desculpe."

Hermione estendeu o braço entregando-lhe o casaco completamente amarrotado. A velha senhora puxou-o das suas mãos sem qualquer cerimónia e estendeu-o nas costas.

"Ainda bem que o achou. Estava mesmo para o deixar cá! Só me quero ir embora daqui." Enquanto falava ia avançando em direcção à porta. Hermione não sentiu qualquer tipo de simpatia pela senhora Flannigan, mas de qualquer maneira agradeceu-lhe a ajuda.

"Bem, obrigada senhora Flannigan, foi muito amável. Até uma próxima vez!" Ela resmungou e afastou-se enquanto murmurava algo que soava vagamente a: "Nunca mais cá volto a pôr os pés enquanto for viva" mas que Hermione escolheu ignorar.

Suspirou e puxou a sua mala para dentro de casa e fechou a porta enquanto respirava fundo. Olhou por cima do ombro enquanto voltava a atar o cabelo.

"Meninas, o que estão a ver?"

"Os Feiticeiros de Waverly Place!" Responderam em uníssono.

"É tão giro! Também quero fazer magia com uma varinha!" Caroline sorria enquanto usava o comando da televisão como se fosse uma varinha.

"Sim!" Margaret pulava excitadamente em cima do sofá. "Quero fazer as coisas voar e quero transformar-te num sapo!" Gritou enquanto apontava para a sua irmã.

Hermione abanou a cabeça e sorriu. Oh, o pouco que elas sabiam sobre magia... e que pena ela não lhes poder mostrar.

"Bem, eu vou cumprimentar a vossa mãe e dizer-lhe que já cheguei e tenho as pestes sobre controlo." Piscou o olho às gémeas que não ficaram nem um pouco indignadas. "Prometem portarem-se bem?"

Elas olharam uma para a outra, sorriram matreiramente e voltaram a encarar Hermione. "SIM!"

Uma resposta tão evidente e professada em uníssono nunca era bom sinal. Mas Hermione teria de confiar na sorte e deixa-las sozinhas por uns momentos.

"Tia?" Chamou enquanto subia os degraus. "Tia, é a Hermione."

"Entra querida." Ouviu a voz rouca e anasalada da sua tia a gritar-lhe do quarto. Aproximou-se da porta, abriu-a mas não entrou.

"Cheguei tia." A sua tia estava deitada numa cama de casal cheia de cobertores. Metade da cama estava a abarrotar de lenços usados enquanto a mesinha de cabeceira, por sua vez, estava atulhada de chávenas de chá vazias ou meio cheias e caixas de comprimidos para a gripe e vitaminas.

Hermione suspirou. A vida dos feiticeiros era bastante mais facilitada em diversos aspectos. Como seria fácil se fosse a sua mãe que estivesse doente. Ela sabia que Hermione era uma bruxa. Agora a sua tia... Depois sorriu um pouco enquanto se lembrava da pequena 'ajudinha' que trazia dentro da mala.

"Então tia, como se sente?"

A tia de Hermione sorriu, fungou e abraçou-a durante um segundo.

"Péssima. Agora chega-te para lá e não me toques mais. Não quero que apanhes esta maldita gripe."

Hermione sorriu e fez o que a sua tia lhe disse.

"Já não vejo as tuas primas há dois dias." Continuou ela. "Tenho medo de lhes pegar este vírus." Espirrou alto e assoou-se enquanto Hermione se sentava no fundo da cama e murmurava: "Saúde".

"Começou por ser uma simples constipação. Depois julguei que fosse alergia, mas afinal era só uma gripe dos diabos."

Hermione sorriu e pousou a mão no pé da sua tia que se encontrava enterrado em cobertores.

"O médico diz que vai demorar pelo menos duas semanas a sarar, mas espero conseguir ser capaz de tomar conta das tuas primas já no fim desta semana." Suspirou. "Só que preciso de repouso absoluto."

Hermione anuiu. "Não se preocupe tia, tenho dias de férias para tirar, por isso posso ficar o tempo que for necessário." Levantou-se. "Vou pôr as malas no quarto de visitas e mudar de roupa."

A sua tia sorriu. "Claro, querida. Põe-te à vontade. Afinal deves estar exausta da viagem."

Hermione tossiu levemente. "Nem por isso. Posso só usar o telefone, tia? Quero avisar o Ron que cheguei bem."

"Claro! Fala o tempo que quiseres. Tens um telefone no quarto."

Hermione agradeceu-lhe e virou costas prometendo voltar mais logo com uma caneca de chá bem quentinha (e umas gotas de poção...). Entrou no quarto de visitas ao fundo do corredor e tirou o casaco e mala. Depois sentou-se na cama, colocou a fotografia que Ron lhe tinha dado na mesinha de cabeceira e marcou o número de sua casa no telefone.

"Ron?" Ele tinha atendido ao terceiro toque. "Ron?"

Do outro lado ouvia sons abafados. Suspirou lentamente. "Ron vira o auscultador! Vira!" Continuou a falar alto até que Ron finalmente se apercebeu do que estava a fazer mal.

"Coisa Muggle estúpida, idiota e inútil. Ah! Já te ouço Hermione!"

Hermione suspirou e levou a mão à testa. "Ronald, não precisas gritar. Eu ouço-te perfeitamente, querido." Fez uma pausa e depois acrescentou. "O telefone não é uma coisa estúpida, idiota e inútil. Acredita que dá muito jeito e-..."

"Então, chegaste bem querida? Como está a tua tia?" Ron mudou subtilmente de assunto.

Hermione sorriu para o telefone. "Sim, cheguei. Ela está muito atacada. Mas," baixou a voz para um sussurro, "com a poção que trouxe deve ficar boa em dois dias ou três."

Ron concordou do outro lado da linha e continuou a conversa animadamente dizendo que já tinha estado a fazer uma lista de vários clubes de Quidditch onde poderia fazer provas, incluindo o clube do Harry e o seu rival.

Hermione abriu a boca para responder quando começou a ouvir as suas primas a discutir nas escadas e um barulho de algo pesado a ser arrastado.

"Ron, desculpa mas tenho de desligar. É uma urgência. Logo ligo-te. Amo-te." Nem esperou pela resposta do seu marido para desligar o telefone e abrir a porta.

"Oh não! Meninas pousem isso. É muito pesado. Eu ajudo!"

As suas primas tentavam arrastar uma das malas de Hermione escadas acima, não se importando se batia em todos os degraus e contra todos os móveis. O pior: era a mala que continha a poção que iria curar a sua tia.

"Oh, tenham cuidado! Tenho aí coisas que se podem partir." Mas as suas primas nem lhe ligaram e continuaram a subir mais escadas. Avançou para as suas primas de modo a evitar um desastre que se demonstrava eminente, mas...

"Oh, escorregou!" Margaret largou a asa da mala de um momento para o outro.

Hermione sentiu o tempo passar em câmara lenta enquanto corria em direcção às suas primas e gritava palavras de aflição atabalhoadas e sem qualquer nexo. O que também não importava muito, pois ao mesmo tempo que pisava o terceiro degrau da escada, a mala embateu no chão e rebolou os restantes degraus fazendo um barulho estridente de vidro a estilhaçar.

"Oh não... por favor não..."

As gémeas olhavam escandalizadas ora para Hermione, ora para a mala que jazia aberta no fundo das escadas.

"Desculpa tia! Não foi por mal. Só queríamos ajudar..."

"Acho que partimos o teu perfume..."

"Podes usar o nosso!"

Hermione procurava forças dentro dela para tentar ser compreensiva com as meninas... afinal elas só queriam ajudar... mas ao mesmo tempo os seus olhos fitavam a poça de líquido que se estava a formar sobre o seu top favorito e a compreensão depressa se transformava em desespero. Cruzou os dedos e fechou os olhos. Esperava solenemente que o líquido fosse apenas o seu perfume...

Forçou um sorriso. "Não faz mal meninas... eu sei que não foi de propósito... vocês só queriam ajudar..." sorriu de novo. A sua tia até podia recuperar depressa... talvez nem precisasse da poção! E talvez fosse só perfume. "Agora subam para o vosso quarto que eu limpo isto num instantinho. Está bem?"

As gémeas sorriram tão largamente que Hermione pensou que fosse Natal. "Obrigada prima Hermione! És a melhor prima do mundo!" E correram escada acima batendo com a porta do quarto quando entraram. Hermione esperou um segundo para ter a certeza que nenhuma delas volataria para trás e, quando achou que estava segura, tirou a varinha do bolso e desceu as escadas.

Ajoelhou-se ao pé da mala e tentou examinar o seu conteúdo o melhor que pôde, dadas as circunstâncias. Era perfume sim senhor, já que o frasco tinha um leve tom laranja do seu perfume de Verão favorito. Mas não era só perfume... e o pior era que o líquido da poção tinha-se misturado com o líquido do perfume. O que tornava impossível o uso do feitiço que Hermione tinha em mente para extrair a poção e coloca-la de novo no frasco. Suspirou. Bem, teria de ajudar a sua tia sem recurso a meios mágicos, já que o preparo da poção levava dois dias, já para não falar dos ingredientes necessários aos quais não tinha acesso de momento.

"Evanesco." Pronunciou enquanto apontava a varinha para a junção dos líquidos que depressa se evaporaram no ar. Enfiou o resto das roupas dentro da mala e fechou-a. Suspirou de novo enquanto pedia a Merlin que a gripe da sua tia fosse apenas passageira, já que não tinha bem a certeza se conseguiria aturar os terrorismos das suas primas durante muito tempo...


"Nott, tiveste alguma sorte?" Draco sentou-se pesadamente no seu sofá enquanto aceitava uma chávena de café das mãos trémulas do seu elfo.

O seu amigo suspirou enquanto se sentava e pedia ao elfo uma chávena mais cheia e com algo bem mais forte do que café. Algo com mais de 30% de volume seria bem-vindo. O elfo anuiu gentilmente e desapareceu.

"Não Malfoy, não tive sorte. Ninguém a viu na Diagon-Al nem nos arredores. "Esboçou um meio sorriso. Na verdade isso é que é ter sorte. Azar seria se a tivessem visto, não é verdade?"

Draco, apesar de angustiado, não podia discordar da lógica do amigo. Era de facto sorte que ninguém a tivesse visto pois isso evitava uma panóplia de explicações, mas era também um azar pois ainda nāo sabiam do seu paradeiro.

"Não sei mais onde procurar, Nott... esgotei as minhas opções..." Levou as mãos à cabeça e suspirou pesadamente. "Não sei mesmo... resta-me esperar que ela volte para casa ou que alguém a encontre..."

Nott anuiu e levantou-se. "Boa sorte, Malfoy. Ficarei atento a qualquer pista e, assim que souber de algo mando-te uma coruja, combinado?"

Draco deu por si a anuir levemente enquanto levava o seu amigo à porta e lhe agradecia a ajuda prestada. depois voltou a enterrar-se no sofá até que o elfo apareceu com a bebida de Nott na mão e que Draco bebeu de um trago, ignorando o café já frio.

"Onde raio estarás tu...?"

Apertou os olhos com força com os seus dedos finos e enumerou mentalmente todos os lugares possíveis para ela estar. De repente soltou uma gargalhada incrédula. "Não... não pode ser... já me teriam contactado..."

Olhou em frente enquanto os seus olhos fitavam a tapeçaria com os membros da família que se encontrava pendurada na parede com mais destaque da sala. "Se calhar até me contactaram..." levantou-se de rompante e agarrou no casaco. "Snoket, vou sair!" O elfo olhou-o esperançoso.

"Sabe onde ela está senhor mestre Malfoy?"

Draco olhou para ele com um sorriso sincero nos lábios e pousou-lhe a mão na cabeça. "Acho que sei... acho que sei..."


"Tia, como se sente? Acabei agora de dar o jantar às meninas. Estão a ver um pouco de televisão na sala e depois vou enfiá-las na cama e contar-lhes uma história com princesas e dragões!" Sorriu enquanto se sentava ao pé da sua tia.

"Oh, minha querida. Como consegues fazer tudo isso? Eu demoro horas até conseguir que elas comam tudo o que têm no prato!"

Hermione sorriu. "Bem, elas devem-me uma! Partiram-me um perfume enquanto tentavam carregar a minha mala escadas acima. Disse-lhes que era o meu perfume favorito mas que estavam perdoadas desde que se portassem bem. Desde esse momento têm sido perfeitos anjos!"

A sua tia gargalhou enquanto era assolada por um ataque de espirros. "Bem, parece que as tens debaixo de controlo pelo resto da visita. Que sortuda!"

Hermione sorriu. "Sim. Mas agora o importante, como se sente, tia? Está melhor desde há pouco?" Olhou a sua tia com atenção enquanto tentava avaliar o 'estrago' da gripe.

A sua tia inspirou profundamente enquanto se assoava a um lenço já ranhoso. "Parece-me que ainda estou pior... isto é que é uma gripe desgraçada..." pôs a sua mão por cima da de Hermione. "Mas querida, quando tiveres de ir à tua vida, vai! Não te sintas presa só por minha causa. Eu posso sempre pedir ajuda à vizinha!"

Hermione soltou uma gargalhada involuntariamente. "Duvido mesmo muito que a senhora Flannigan volte a pôr os pés nesta casa, tia. Aliás, pergunto-me se não irá mudar de casa só para se distanciar destas pestinhas que aqui habitam."

A sua tia também sorriu, mas ambos os sorrisos esmoreceram quando ouviram gritos e pulos vindos do andar debaixo. Hermione suspirou enquanto se levantava. "Bem, acho que está na hora de pô-las na cama."

A sua tia concordou prontamente e Hermione desceu as escadas enquanto chamava pelas gémeas. "Meninas, está na hora da cama. Venham, eu leio-vos uma história para adormecerem. Ou melhor, invento uma! Que tal?"

Hermione parou à entrada da porta e olhou as suas primas seriamente. Podia jurar que tinha visto a jarra de flores a levitar... abanou a cabeça. Não podia ter sido isso que tinha visto. Devia ter sido simplesmente uma ilusão.

"Meninas, o que estāo a fazer?" Perguntou inocentemente. "Estamos a ver televisão, tia." Responderam prontamente, o que suscitou ainda mais suspeitas à morena. As suas primas só respondiam assim tão rapidamente e com tamanha inocência quando tinham culpas no cartório... e não eram poucas as vezes em que isso acontecia...

"Ah sim? Pareceu-me que estavam a brincar com a jarra de porcelana da tia..." as gémeas trocaram um olhar cúmplice que pareceu a Hermione repleto de culpa. Elas estavam definitivamente a brincar com a jarra. Muito provavelmente alguma das duas estava com a jarra na mão. Possivelmente a atirá-la ao ar ou algo igualmente desconcertante, mas a levitar no ar? Não podia ser o caso...

"Bem, nāo importa muito... a jarra ainda está inteira por isso estão desculpadas, o que quer que tenham andado a fazer..."

Sorriu quando as gémeas também sorriram largamente. Uma prova prefeita de que tinham andado a fazer traquinices. Mas não importava. "Bem, está na hora de irem para a cama. Olhem só, já são nove e meia da noite!"

As gémeas foram o caminho todo a refilar que não se queriam ir deitar e que ainda era muito cedo, mas Hermione não se importou com tais protestos e relembrou-as que lhe deviam uma pelo perfume caríssimo que elas lhe tinham partido.

"Tudo bem prima, nós vamos para a cama, mas queremos uma história!"

"Sim, uma história muito comprida!"

"Com magia!"

"E feiticeiros e bruxas más!"

"E uma princesa e um príncipe."

Hermione não pode deixar de sorrir perante tais exclamações. Pousou a mão na sua barriga inconscientemente enquanto imaginava a altura em que o seu pequeno filhote iria pedir histórias assim.

Sorriu. "Ok, ok, mas só uma! E não muito grande! Média, pode-... atchim!"

Espirrou fortemente enquanto levava a mão à boca. "Ai, desculpem meninas, devo estar a ficar com alergia."

As suas primas sorriram enquanto concordavam com o tamanho da história. Média seria.


Draco suspirou pesadamente enquanto batia à porta com o punho fechado. Não sabia que recepção teria, nem tão pouco era um encontro que lhe agradasse muito ter. Mas suspeitava que ela se pudesse encontrar neste lugar. Ou pelo menos que tivesse cá passado. Respirou fundo quando ouviu o click do trinco da porta.

"Quem é?"

Draco saiu das sombras enquanto passava a mão pelo cabelo. "Sou eu, tia..." disse fracamente. Andromeda encarou-o apenas. A sua boca pendia ligeiramente aberta enquanto a sua mão segurava a porta com força, como que a suportá-la.

"Tu? O que é que tu queres?"

"Tia, eu sei que não nos falamos há muito tempo, mas é urgente." Draco suspirou pesadamente enquanto tentava formar as palavras na sua cabeça. Abriu a boca e gaguejou algo incompreensível. Andromeda não se tinha mexido um único centímetro.

"Tia... eu... bem... pensei que... sabe...?" As palavras teimavam em não sair e as que saiam não faziam qualquer sentido, o que contribuía imenso para o aumento de frustração do louro.

Andromeda mexeu-se, por fim. Um pequeno passo para a direita, uma respiração profunda e um fechar de olhos pesado. "Ela fugiu outra vez?" Draco anuiu e olhou o chão, envergonhado. "Pensaste que estaria aqui?" O louro anuiu de novo. "Pois desta vez não está." A sua resposta foi seca e ríspida e Draco não se importou. Não esperava realmente um caloroso olá vindo da sua tia, por isso encolheu os ombros e virou costas.

"Pensei que pudesse ter fugido para aqui, como da outra vez... de qualquer maneira obrigada. Tudo de bom para si..."

Andromeda encostou a porta, sem nunca tirar os olhos da nuca do seu sobrinho, até que sentiu um puxão na saia. "Avó 'Dromeda? Quem era aquele senhor louro?" A pergunta de Teddy foi feita com tanta inocência e ternura que Andromeda não conseguiu suprimir a vontade de sorrir ternamente ao olhá-lo.

"Oh, Teddy, um familiar, apenas..." Depois o seu olhar recaiu de novo na figura de Draco que se arrastava ainda perto do portão de entrada, certamente prestes a se desmaterializar. "Draco, espera." Ouviu-se gritar enquanto soltava um olhar de esguelha ao seu neto. "Espera."

Draco voltou para trás e Andromeda viu-se testemunha do olhar mais esperançoso que alguma vez tinha passado pela face do louro. Sorriu levemente quando o seu sobrinho se aproximou.

"Eu sei bem o que é só termos uma única pessoa em quem nos apoiarmos. Termos só uma alma com que podemos contar. Alguém que, por muito pequeno que seja," olhou o pequeno Teddy de soslaio, "ou por muito perdido que esteja," fitou os olhos cinzentos do seu sobrinho com verdadeira afecção, "consegue sempre acalmar-nos, confortar-nos e fazer-nos sentir bem connosco e com o mundo torcido que nos rodeia."

Pousou a mão calejada na mão gelada e fina do seu sobrinho. "Ela não esteve aqui, Draco. Não desta vez. Sei que tivemos as nossas diferenças, a tua família e a minha, mas também sei que o amor fraternal que sentimos uns pelos outros é verdadeiro. Por isso te chamei. Sinto que temos muito que caminhar, e temos de começar com pequenos passos."

Draco sorriu ternamente enquanto apertava a mão da sua tia. Não a conhecia assim tão bem, mas sabia que ela era uma pessoa bondosa. A sua mãe adorava-a com todas as forças. Isto é, até serem obrigadas a separarem-se quando ela casou com um Muggle...

"Draco, sabes, ela sempre adorou o mar. Sempre gostou do cheiro frio das ondas do mar e da brisa fresca que a arrepiava e desalinhava os seus cabelos perfeitos. Era o seu lugar de eleição para pensar e relaxar. Espero que isto te ajude."

Draco deu por si a abraçar a sua tia com tanta força quanto tinha. Depois de lhe agradecer passou uma mão na cabeça de Teddy e arrepiou caminho. Afinal a sua busca ainda não tinha terminado. Sabia onde ela podia estar.


Hermione estava deitada na sua cama com um livro na mão. Estava a comer uma cenoura crua e a ouvir Mozart no seu pequeno mp3, uma invenção Muggle que ela adorava. Relia a primeira frase do terceiro parágrafo do livro pela quarta vez.

Suspirou com frustração. Não se conseguia concentrar. Estava impaciente mas não sabia porquê. Fechou o livro com força e pousou-o na mesinha de cabeceira. Levantou-se para lavar os dentes e a cara. Olhou-se ao espelho enquanto acariciava carinhosamente a sua barriga, que já se começava a notar, mesmo que fosse só uma ligeira proeminência. Estava cheia de vontade de ligar ao Ron.

Secou a cara com a toalha e voltou a sentar-se na cama, agora com o telefone na mão. Uma parte de si queria muito ligar e ouvir as gargalhadas de alegria de Ron bem como as suas exclamações de espanto. Mas a outra parte reprimia-se e lembrava-a da quebra de confiança que o seu marido tinha sido o protagonista. Sabia que lhe tinha dado outra oportunidade, mas não conseguia reprimir um certo sentimento de desconfiança cada vez que pensava em Ron.

Pousou o telefone com um suspiro pesado e voltou a deitar-se. Não lhe iria ligar. De qualquer maneira não queria dar-lhe as notícias por telefone. Preferia falar-lhe cara a cara e ser testemunha da sua alegria e espanto em primeira mão. Não através de telefone, que ainda por cima, o seu marido mal sabia usar. Suspirou de novo e empurrou os lençóis para trás. Estava com calor.


Draco enfiou a chave na porta e rodou. Estranho, a porta estava destrancada. A senhora da limpeza ainda deveria estar na empresa. Mas já era quase onze horas da noite... encolheu os ombros e entrou pela porta principal da ADAPV.

Dirigiu-se ao seu escritório mas parou quando ouviu um barulho vindo do fundo do corredor. Hesitou. Poderia ser só a senhora da limpeza, mas também poderia ser outra coisa qualquer. E se ela tivesse vindo para aqui? Afinal o seu antigo escritório ficava no fundo deste mesmo corredor.

Respirou fundo, apertou a varinha e encaminhou-se em direcção ao barulho. Estava alguém no escritório de Hermione e o louro conseguiu identificar uma silhueta feminina. Pelo que ele podia ver do sítio onde se encontrava, quem quer que lá estivesse não estava a fazer limpezas, e como Hermione se encontrava fora da cidade, só poderia ser ela.

Draco deu por si a respirar de alívio, embora soubesse que ainda teria de a apanhar e tentar com que ela não se magoasse ou a ele, no processo.

Entrou com todo o cuidado no escritório. A figura estava debruçada sobre uma gaveta de arquivos e parecia procurar algo. Tinha o cabelo curto e escuro e a sua figura era deselegante. Não era ela. Draco rangeu os dentes e encostou a varinha nas costas da intrusa. "Quem és tu e o que pensas que estás a fazer?" Sentiu a intrusa inspirar com a surpresa e teve de reprimir uma exclamação de espanto quando ela se virou. "Pansy?"

A ex-Slytherin inspirou com espanto e gaguejou qualquer coisa incompreensível. Draco continuava a olhá-la como se ela fosse um dos animais de estimação do Hagrid. Quando a morena recuperou finalmente a compostura, afastou-se da ponta da varinha de Draco, que ainda continuava apontada à sua pessoa, e sorriu gentilmente enquanto batia as pestanas com suposto glamour.

"Draquinho! Chegaste finalmente. Pensei que nunca mais aparecias." Draco recuou um pouco e relaxou o seu aperto da varinha. "Estava a morrer de saudadinhas tuas! Nem queiras acreditar na minha semana, tem sido um Inferno!"

Draco continuou a olhá-la como se ela fosse um basilisco bebé que tinha acabado de deslizar para fora da câmara dos segredos pronto a matar todos os Muggles de Hogwarts e assim terminar o trabalho que o seu antepassado tinha deixado inacabado.

"Pansy, disseste bem, não quero saber da tua semana e pouco me importa que tenha sido o mais quente dos infernos." Suspirou enquanto levava a mão esquerda às têmporas. Aquela maldita enxaqueca parecia estar a instalar-se mesmo por cima dos olhos e Draco queria fazer tudo menos aturar a Pansy. "O que querias dizer com 'pensei que nunca mais aparecias'?" Exclamou o louro enquanto fazia sinal de aspas com os dedos de modo a enfatizar a sua questão.

Pansy deu uma gargalhadinha nervosa e recuou mais uns passos, encurralando-se contra a secretária. Draco avançou um passo. "São quase onze da noite, já passa muitas horas do fim do expediente e, desde a última vez que verifiquei, este não era o meu escritório e tu sabes isso melhor que ninguém..." rematou enquanto rolava os olhos.

Pansy mexia mas mãos uma na outra, um tremendo sinal de nervosismo que Draco não ignorou. "Por isso explica-me o que estavas aqui a fazer a estas horas, ou eu chamo as autoridades por invasão de propriedade alheia."

Pansy engoliu em seco e, passado alguns segundos, pareceu recuperar a confiança. "Ora, Draquinho, que tolice! Já te disse que vim até aqui para me encontrar contigo. Tu trabalhas até mais tarde imensas vezes nos dias a seguir aos escândalos escabrosos que saem nos jornais." Sorriu maliciosamente e avançou uns passos de encontro ao louro.

"Sabes perfeitamente que esta não é a primeira vez que venho até aqui ter contigo..." avançou o resto da distância e pousou a mão no peito de Draco. "Das outras vezes não te queixaste."

Draco recuou, visivelmente perturbado pela proximidade não desejada. "Tens razão no que dizes. Já trabalhei muitas vezes até tarde, e não é a primeira vez que vens ter comigo depois do horário de expediente." Era verdade. Não era um facto do qual o Draco se orgulhasse, mas havia vezes em que a necessidade era soberana e sobrepunha-se ao asco e à irritação que agora nutria pela sua ex-colega de escola.

"Mas é a primeira vez que vens ter comigo fora de horas sem eu te chamar e nunca te enganaste no escritório." Avançou e empurrou-a com brutalidade contra a secretária enquanto levantava a varinha até ao nível dos olhos de Pansy. "Por isso podes deixar-te de balelas baratas e começar a desbobinar. O que é que estás aqui a fazer?"

Pansy mexeu novamente as mãos com nervosismo e ansiedade. "Ora Draco, eu fui a tua casa primeiro. Queria mesmo ver-te, sabes? Mas o teu elfo abriu-me a porta e disse que tinhas vindo para o escritório com alguma pressa, por isso apressei-me, a ver se conseguia chegar antes de ti." Tossiu e clareou a garganta. "Como te queria surpreender, não acendi nenhuma luz, nem sequer a varinha, e subi pé ante pé, sem fazer qualquer barulho. Pelos vistos enganei-me no escritório."

Cruzou os braços e tentou fazer um ar magoado. "Até parece que isso não podia acontecer a qualquer um, ora essa! Não é como se eu viesse aqui muitas vezes, não achas?" Aproximou-se e tocou-lhe no peito novamente. "É claro que podíamos tratar de corrigir esse pequeno pormenor, não é verdade?"

Draco suspirou, visivelmente irritado. Agora não era definitivamente altura para tolices deste tamanho. Tinha assuntos mais sérios com que se preocupar. "Vou ignorar o facto de que o meu elfo não fazia ideia para onde eu vim, por isso essa tua treta de ires a minha casa não passa um monte de mentiras descaradas e mal elaboradas; nem sequer vou tocar no facto de teres entrado aqui sem chave e vou passar directamente ao facto de estares a bisbilhotar num arquivo privado da MINHA empresa."

Pansy encolheu-se novamente. Não tinha qualquer saída, tinha sido completamente encurralada. Abriu a boca para gaguejar uma qualquer espécie de desculpa, mas o louro deu-lhe novamente um empurrão para a encurralar. "EXIJO saber o que raio estavas aqui a fazer quando não tinhas motivo nenhum para-..." Draco interrompeu o seu discurso quando o seu olhar recaiu numa carta por abrir em cima da secretária de Hermione.

Ignorou os tremores e arrepios de Pansy e esticou o braço para agarrar a carta. Abriu-a com um movimento rápido e leu o seu conteúdo:

Senhora Hermione Granger,

Envio-lhe esta carta com algum receio e preocupação. Já tentei contactar o senhor Malfoy com todos os meios que possuo e através de todos os contactos que conheço. Já enviei, inclusive, várias corujas e recados via Pó de Floo para a ADAPV dirigidos a ele, mas receio que ele não se encontre disponível. Como este é o único contacto que tenho da associação sem ser o do Senhor Malfoy, peço-lhe que o contacte assim que puder, por favor.

Tenho notícias urgentes para lhe reportar. Está alguém no orfanato que lhe é do máximo interesse. Por favor transmita-lhe essa mensagem assim que puder.

A sua extremamente agradecida,

Ariel Wellington

Draco releu a carta uma segunda vez, desta vez um pouco na diagonal. Orfanato? "Draco, sabes, ela sempre adorou o mar." O louro arregalou os olhos quando juntou um mais um na sua cabeça. O mar perto do orfanato. Era para lá que ela tinha fugido! Fazia todo o sentido já que os seus ataques de loucura passaram de controláveis e escassos a incontroláveis e extremamente frequentes na altura em que Draco e ela planeavam a construção do orfanato.

Uma pequena parte do seu cérebro perguntou-se porque é que a Senhora Ariel teria mandado esta carta a Hermione. Sabia que ela tinha andado a bisbilhotar as contas e orçamentos, mas teria ela entrado em contacto com a Senhora Ariel? Abanou a cabeça e olhou para a carta uma vez mais. Esse assunto teria de ser abordado numa outra altura.

Lançou um esgar de desdenha e fúria a Pansy. "Não penses que isto fica por aqui. Trato de ti depois, agora quero-te fora da minha empresa imediatamente ou vou já chamar as autoridades. Ou melhor," esboçou o seu mais característico sorriso de escárnio, "trato eu mesmo do assunto. E garanto-te que essa é a pior opção."

Pansy escancarou a boca, meio assustada, meio aliviada, e anuiu levemente, mas as suas pernas não lhe obedeciam e ela permaneceu no mesmo local encostada à secretária com um ar de criança perdida espelhado no rosto. Draco encolheu os ombros.

"De que é que estás à espera? Isto não era um convite, era uma ordem. Põe-te na alheta!"

Pansy guinchou e saiu do escritório o mais rápido que pôde. Draco seguiu-a até ao topo das escadas e esperou que ela batesse com a porta à saída para trancar a porta magicamente. Depois respirou fundo e caminhou apressadamente até ao seu escritório. Assim que entrou conseguiu identificar uma pilha de pergaminhos e cartas que não se encontravam lá quando ele tinha saído à pressa. Aproximou-se e leu-os na diagonal.

Eram todos da Senhora Ariel e continham todos mais ou menos o mesmo discurso que ele tinha lido na carta dirigida a Hermione. Draco suspirou enquanto relia a última frase do último pergaminho:

Ela está calma e serena, mas tem um olhar ausente espelhado na face. Temo que algo possa acontecer aos miúdos... por favor Senhor Malfoy, apresse-se!

Draco engoliu em seco e deixou-se cair com força na sua cadeira fofa. Deixou a sua cabeça pender para a frente enquanto suspirava longamente. Depois pegou num pedaço de pergaminho e e molhou a pena no tinteiro.

Nott,

Já a encontrei. Obrigada pela ajuda mas podes cessar as tuas buscas. Vejo-te em breve.

Malfoy

Assinou com um floreado e dirigiu-se à sala dos correios, pegou na coruja mais rápida e lançou-a pela janela depois de lhe atar o pergaminho à pata.

Fechou os olhos, deu por si a suspirar pela milionésima vez e rodou no mesmo lugar. Para o orfanato.


Hermione acordou sobressaltada. Estava a tremer como varas verdes. Nem tinha dado por ter adormecido e o livro aberto a seu lado confirmava isso. Fechou o livro tendo o cuidado de desdobrar a página que tinha ficado dobrada quando o livro caiu das suas mãos e tapou-se até ao queixo.

Não conseguia parar de tremer. Sentiu uma comichão repentina no nariz e espirrou violentamente. Levou a mão à testa e fechou os olhos pesadamente.

"Oh não... por favor, não..."

Espirrou novamente e depois suspirou. Levantou-se, dirigiu-se à casa de banho e procurou o termómetro no armário dos medicamentos. Colocou-o debaixo do braço e suspirou enquanto remexia o seu nécessaire com a mão desocupada. Quando finalmente encontrou o comprido que procurava, olhou o relógio e esperou que o restante minuto passasse.

Retirou o termómetro. 38,5 graus... suspirou. Oh não... estava com gripe, tal como suspeitava. Suspirou enquanto agarrava no copo de água que tinha na mesinha de cabeceira e desfazia a aspirina, pensando na florzinha de estufa que realmente era para ter apanhado uma gripe em menos de quatro horas...

O que iria ela dizer à sua tia? As duas doentes não conseguiriam tomar conta das duas gémeas do Demo! Mordeu o lábio enquanto tentava magicar uma solução. Talvez a Ginny tivesse alguma poção para as curar de reserva. Valia a pena tentar. Teria era de lhe dizer para enviar a coruja à noite, não fosse a sua tia ou as suas primas (ou a rua inteira) suspeitar de alguma coisa. Anuiu efusivamente pela sua ideia brilhante e, depois de espirrar, escrevinhou uma pequena nota a Ginny. Amanhã trataria de a enviar.

Tapou-se até ao queixo, tendo o cuidado de puxar o cobertor para trás e ficar tapada só com o lençol (por mais frio que tivesse), de modo a não aumentar a sua temperatura mais do que aquilo que já estava. Fechou os olhos e tentou parar com os tremeliques para que pudesse adormecer. De manhã tomaria umas vitaminas e mais uma aspirina e, de certeza que estaria como nova. Talvez nem fosse preciso pedir a Ginny a tal poção.

Fechou os olhos e sentiu o sono chegar.


"Onde é que ela está?" Draco tinha acabado de se materializar à entrada do orfanato e Ariel já vinha a correr, tendo sido avisada por um dos guardas.

"Senhor Malfoy, oh graças a Merlin!" A velha senhora parecia afogueada e Draco estava já a temer o pior. "Venha, siga-me. Eu levo-o até ela." Draco e Ariel seguiram para fora do quarto com um passo apressado.

"Está sentada no mesmo sítio desde que chegou. Ainda bem que nenhum dos miúdos a viu, e agora estão todos a dormir, estava com medo que algo pudesse acontecer."

Draco anuiu e viu que estava a ser levado até ao jardim. "Já não sabia o que fazer! Contactei-o há imensas horas, contactei até a senhora Hermione, mas ninguém me respondeu! Estava prestes a ir ter consigo quando o guarda deu o sinal que alguém tinha chegado." Ariel sorriu ternamente. "Sabia que tinha de ser o senhor Malfoy. Venha, venha."

Ariel puxou-o para um recanto do jardim meio escondido que tinha uma vista fantástica para o mar, que se encontrava negro como breu, tal como a noite sem estrelas que os banhava de cima.

Havia um pequeno banco de jardim mesmo na ponta de um miradouro. Ao seu lado estavam duas estátuas de crianças a sorrir e um pequeno jardim de ervas aromáticas. Draco distinguiu o cheiro da lavanda no meio delas e teve a certeza que ela também o distinguia. Era uma das suas plantas favoritas.

Ela estava de costas mas o seu longo cabelo louro, agora algo desgrenhado, mas que sempre fora brilhante e cuidado, caia-lhe em cataratas pelas costas magras. Era ela. Sem dúvida alguma.

Draco teve de reprimir um soluço e um arfar de alívio. Era mesmo ela. Ariel olhou para ele com apreensão.

"Mas... senhor Malfoy... eu... bem eu pensava que ela estava... sabe... morta! Veio no jornal e-..."

Draco suspirou enquanto pegava na mão da Senhora Ariel. "Obrigada por me ter chamado." Depois, sem qualquer explicação, aproximou-se do banco calmamente, tentando ao mesmo tempo fazer algum barulho para não a surpreender, mas também ser um pouco silencioso para não a assustar. Colocou a mão no seu ombro com a maior suavidade que conseguiu e sorriu quando os olhos dela encontraram os seus.

Estava mais lúcida do que alguma vez estivera nestes últimos dois anos. Draco sentou-se e apertou-a com força contra si. "Mãe... graças a Merlin que está bem. Estava tão preocupado."

Narcissa sorriu.


Notas de Autora: Wiii um capítulo onde o Draco tem quase tanto "tempo de antena" como a Hermione! O que acharam? Já agora, peço desculpa (mais uma vez) pela demora neste capítulo, mas tive um ataque súbito de falta de inspiração... espero que gostem! :D