Capítulo XI
Harry levou Pansy para sua casa, na Grimmauld Place nº 12. Era o único lugar que ele imaginou poder ficar sem ser incomodado. Eles aparataram na sala de estar.
– Onde estamos? – Pansy perguntou temerosa. Harry Potter a intimidava.
– No meu apartamento.
– Oh!
– Sente-se, por favor! – Ele indicou um sofá.
– Obrigada! – Disse Pansy sentando-se.
– Você quer beber alguma coisa?
– Água, por favor!
Harry saiu para pegar água e Pansy olhou ao redor. A casa parecia ser era antiga e ampla, a julgar pelo tamanho da sala, pelos móveis e pela decoração. Pansy podia ver que as paredes claras foram pintadas recentemente e algumas coisas pareciam diferentes de tudo ali, incluindo uma televisão.
Harry voltou e entregou a água para ela.
– Sua casa é... Antiga.
– É bem velha mesmo e eu estou tentando deixá-la mais habitável. Ainda não pude dedicar-me a reforma-la completamente, mas alguns cômodos já estão modernizados. – Harry acrescentou.
O silencio caiu sobre eles e a atmosfera tensa era quase palpável. Pansy bebia a água encarando os pés de Harry. Ele sentou-se no sofá em frente a ela.
– Diga-me como isso aconteceu!
– Não sei o que quer que eu diga, você estava lá, sabe tanto quando eu... Apesar de eu não ter recordações muito claras.
– Entendo. E o que você está planejando fazer sobre o bebê?
As palavras dele caíram como pedras de gelo batendo no fundo de um copo.
– Não quero abortar, se é o que você está perguntando. Decidi que vou tê-lo. – Pansy respondeu corajosa.
– Entendo.
Harry na verdade não entendia. Não sabia o que Pansy queria com aquela história e nem sabia mesmo se acreditava nela. Seria possível que ela estivesse esperando um filho dele?
– E o que você espera que eu faça?
Ela detestou continuar, mas suas próximas palavras tinham que ser ditas.
– Eu pensei em uma solução. Eu preciso de proteção contra as pessoas que fizeram mal aos meus pais, pelo que entendi, e também preciso de alguma ajuda financeira. Preciso que você arrume um lugar seguro para eu ficar e onde ninguém me encontre. Também preciso que me dê algum dinheiro para eu me manter. Não precisarei de muito e lhe devolverei tudo tão assim que minha herança for liberada. Então irei embora e tudo estará resolvido.
– Não – interrompeu ele, calmamente levantando-se.
– Não? – sussurrou ela, espantada que ele pudesse ser tão insensível. O que ela faria? Lágrimas inundaram seus olhos. – Eu preciso...
Sua visão ficou completamente ofuscada com as próximas palavras de Harry.
– O que você realmente quer Parkinson? Essa história toda é muito estranha e eu nem sei se está dizendo a verdade. Essa criança pode nem ser minha.
– Ela é. – Pansy disse num murmúrio.
– Você esteve até uns dias antes de nos encontrarmos com Blaise Zabini e depois passou algumas semanas com Draco Malfoy. Essa criança poderia ser de um deles, mais provavelmente do Malfoy, e como ele é casado e não pode assumir a paternidade, talvez tenha pensado que poderia me enganar.
– Eu não faria isso...
– Não! Um slytherin jamais faria algo assim, jamais agiria como uma cobra. Não posso acreditar em você. Quase destruiu meu casamento uma vez e agora aparece novamente. O que você pretende? Quais são suas reais intenções?
– Eu já lhe disse! – Respondeu Pansy exasperada – Não sou uma cobra! Eu só preciso de um lugar para ficar enquanto minha fortuna não retorna as minhas mãos. Depois que isso acontecer eu lhe darei o que você achar necessário para pagar por me ajudar e então vou desaparecer.
– Assim facilmente?
– Sim. Não tenho intenção nenhuma de viver neste mundo de vocês. Quero ir para algum bom lugar onde eu possa viver minha vida sem medo e sem esse negócio de magia.
– Você é uma bruxa!
– Deixei de ser e você sabe disso. Não tenho nenhuma magia desde que acordei ao lado de Blaise e Daphne. Você ouviu minha história no tribunal.
– Então você é uma vítima?
– Não sei. Só sei que tive uma vida da qual não lembro, mas já nem quero lembrar. Quero receber o que me pertence e ter uma nova vida bem longe daqui e de tudo isso. Você nunca mais terá notícias minhas e nem dessa criança.
Harry empalideceu. Se fosse seu filho, isso significava que nunca veria a criança crescer.
– Malfoy não sabe que você está aqui?
– Não!
– E ele sabe de sua gravidez?
– Ainda não. Direi a ele apenas que estou grávida, mas não direi quem é o pai.
– E se ele quiser que você continue com ele.
– Duvido que isso aconteça, mas mesmo que seja assim, eu não poderia. Draco é casado e sua esposa terá um bebê em breve.
– E eu devo casar em breve também.
– Eu não pretendo atrapalhar isso, se é o que pensa. Posso ficar bem distante e você nem vai saber de mim. Só me leve a um local seguro e então eu ficarei lá e você poderá me esquecer.
– Por que fala tanto em proteção? Do que você tem medo?
– Blaise. Tenho medo que ele me leve e apague minha memória de novo. Ou que machuque meu bebê. É a única coisa que tenho no mundo.
– Você já se recordou de sua vida?
– Não. Mas Draco e Emília me contaram e mostraram muitas coisas naquela bacia com água.
– Penseira.
– Isso.
– Memórias podem ser alteradas. – Harry sentia-se irritado ao ouvi-la falar de Malfoy.
– Acha que eles me enganaram também?
– Não. Malfoy quer que você saiba a verdade. Quer que você fique com ele.
– Eu acredito em tudo o que ele me disse.
O silencio pairou entre eles novamente. Pansy pensando sobre o que faria se Harry Potter decidisse não ajudá-la. Harry sentindo-se confuso. O casamento com Ginny estava próximo e agora acontecia isso. Ele não sabia o que fazer. Seria fácil escondê-la por um tempo e casar com Ginny, mas se a criança fosse sua, ele jamais seria um verdadeiro pai para ela. Romper com Ginny também não era uma possibilidade plausível, ele a amava.
– Você está dificultando tudo. Você só precisa me ajudar, então você vai estar livre, vai se casar e eu vou ter algum dinheiro em breve para reconstruir minha vida. Cada um vai para o seu lado e pronto, tudo acabado.
– Você fala como se tudo fosse simples e fácil. Se isso acontecer, nunca verei essa criança novamente.
– Esquecerá dele quando tiver seus filhos com a mulher que ama. Além do que talvez você nem o veja nascer. Assim que eu receber o dinheiro eu vou partir.
– E para onde você iria?
– Para outro país. Para bem longe, onde ninguém me encontre.
– Ainda estamos procurando Zabini, mas ele bom demais em escapar, pode estar em qualquer lugar.
– Por isso preciso de sua ajuda. Disseram que é o melhor auror do Ministério.
– Exagero. A equipe toda é boa.
– Então talvez outra pessoa possa me ajudar. Não precisa ser você se não quiser, só achei que você não gostaria que as pessoas soubessem dessa situação. Somente eu, você e Daphne estamos cientes.
– Isso não me faz sentir melhor, se é o que você pretende.
– É o correto a se fazer. Você tem uma vida e eu não quero estraga-la. Já basta a minha. Eu só quero desaparecer daqui a um tempo e ter meu filho, viver com ele onde ninguém possa nos ferir. Esconder-me e me deixar partir, continuando com sua vida é o correto a se fazer nessa situação, pois nenhum de nós planejou isso.
Harry a encarou por alguns minutos, ela parecia tão... Desamparada. Pansy sustentou o olhar suplicando que ele concordasse com o ela sugeria.
– Não. – Harry disse de repente – O correto é eu fazer o exame de paternidade e se esse bebê for meu, nos casarmos.
Pansy engasgou.
– Não pode estar falando sério. Eu não quero me casar com você!
Pansy esperara ouvir tudo, menos isso. A ideia era hilariante. Eles nem sequer se conheciam bem. Certamente, ele não estava falando sério.
Ela voltou-se para encará-lo. O queixo de Harry projetava uma linha determinada. Quando ele a olhou, Pansy soube que aquele era um tipo de homem que não brincava.
– Seria a única solução – disse ele. — Não quero meu filho crescendo com o rótulo de bastardo e sem saber que sou seu pai.
O homem que ela subestimara aparentemente tinha padrões de alta moral.
– Mulheres solteiras mantêm seus bebês hoje em dia e ninguém pensa mal delas ou de seus filhos. Tudo o que estou pedindo é um pequeno empréstimo. Se você quiser, pode até mesmo redigir um contrato, eximindo-o de qualquer futura responsabilidade. – Ela sentiu-se muito orgulhosa da maneira como explicou tudo.
– Eu não me importo com o que outras mulheres solteiras fazem. Sei como é viver longe dos pais e não desejo isso para nenhuma criança.
Pansy sentiu que ia desmaiar. A maneira que planejara não estava funcionando e as próximas palavras dele confirmaram seu temor.
– Já tomei minha decisão. Farei o teste de paternidade e nós nos casaremos se for positivo.
Muito bem, ela não queria casar com ele e destruir a vida deles. Precisava se eximir daquela situação desagradável e só havia um meio: mentir. Seus olhos se cruzaram, mas ela não conseguiu manter o olhar e dizer o que pretendia.
– E se o bebê não for seu? Ou talvez, eu não esteja realmente grávida.
– Você fez um teste de gravidez?
– Bem, sim, mas não consultei um médico. Essas coisas podem falhar.
– Foi um teste trouxa ou bruxo?
– Bruxo imagino, Emília trouxe para mim.
– E o teste deu positivo?
Ele certamente não estava facilitando as coisas.
– Sim, mas...
– Poderia alguém mais ser o pai da criança?
Pansy enrubesceu. Abriu a boca, mas as palavras não saíram. Seus olhares se cruzaram novamente. Ela precisava mentir, não queria casar com ele, não queria estar presa a alguém que não amasse ou que a amasse, queria apenas que ele lhe ajudasse.
– Você sabe que sim. Na verdade, é realmente de Draco.
Harry encarou-a, aquela mulher era exasperante. Uma hora dizia que o filho era dele e depois dizia que era do Malfoy. Talvez nem mesmo ela soubesse, mas Harry não poderia conviver com a dúvida.
– Muito bem. Faremos o teste mesmo assim e se o resultado for positivo, nos casaremos. Se não for, ajudarei você até que seu dinheiro seja liberado e então você pode ir para onde quiser, se assim o desejar. – murmurou ele com um sorriso de satisfação!
Ele achava que tinha todas as respostas. Era a hora de aprender que ela não obedecia a ordens de ninguém.
– Não vai ser positivo. E mesmo que fosse eu não me casaria com você. Só preciso de alguma ajuda.
– Você se casaria sim – afirmou ele.
– Não, não me casaria. Você não entende? Não quero mudar nossas vidas.
– Você devia ter pensado nisso antes de ter vindo aqui e dizer que espera um filho meu.
– Se eu soubesse que seria assim, jamais teria vindo, teria simplesmente fugido de Draco.
– Bem, agora é tarde. Você se casará comigo e essa criança terá meu nome se for minha. E quer que eu lhe diga como sei disso? Tenho dinheiro e influências. Posso lhe dizer o primeiro nome de todos os juízes do mundo bruxo e o nome de suas esposas. Não seria difícil convencer um deles de que você não seria uma mãe capacitada. Então se você quiser fazer parte da vida deste bebê depois que ele nascer, fará o que estou dizendo.
– Você... Você tomaria ela de mim?
– Sim.
– É minha única família... – Disse Pansy, as lágrimas formando-se nos olhos dela.
Harry sabia que estava sendo duro demais, mas ela tinha que ver que aquela era a única solução se o bebê fosse dele. Ele não tinha culpa por ela ter acabado na sua cama, mas era, pelo menos, parcial mente culpado da gravidez dela.
– Qual é a sua resposta? – perguntou ele.
– Se o teste for positivo, eu me casarei com você – respondeu ela sem olhá-lo, sabendo que seria positivo.
– Então está combinado. Faremos o exame de sangue hoje.
– Tão rápido? – Ela o encarou assustada.
– Quanto mais cedo melhor. Meu casamento está marcado para daqui a uma semana.
Ele não podia evitar ter pena de Pansy. Eles podiam ter o bebê juntos, mas eram ainda dois estranhos. Ele nem queria pensar em Ginny. No final das contas, todos sofreriam com aquilo.
– Por quê? – sussurrou ela.
– Por quê o quê?
– Por quê você se incomoda com o que acontece com o bebê?
Que espécie de homem ela pensava que ele era?
– Você não deve ter uma opinião muito elevada de mim, Parkinson.
– Na verdade, não tenho opinião alguma sobre você, isso é um problema. Apenas nunca pensei que quereria assumir a responsabilidade de um filho estando prestes a se casar com a mulher da sua vida.
– É uma decisão difícil. Alguns homens podem se sentir dessa maneira, mas eu assumo a responsabilidade do que me pertence.
Os olhos dela ficaram tristes. Ele quis puxá-la para os seus braços, deixá-la descansar a cabeça no seu ombro, e dizer-lhe que não se preocupasse, que tudo correria da melhor maneira. Pansy Parkinson era tão bonita! A pele de porcelana com aqueles cabelos negros eram muito atraentes. Ele gostaria de pôr a mão nas mechas sedosas de seus cabelos, sentir o corpo delicado contra o seu.
Merlin! Quando seus pensamentos mudaram de direção?
– Eu não quero me casar com você.
Levou apenas alguns segundos para que as palavras dela atingis sem o cérebro de Harry.
– E eu não quero me casar com você – replicou ele.
Por um momento, ele achou que viu um traço de dor, mas aquilo era ridículo. Por que Pansy Parkinson se importaria que ele não quisesse se casar com ela?
– Ouça, o casamento durará somente até o bebê nascer. Depois nós nos divorciaremos tranquilamente e estabeleceremos um acordo de custódia que seja bom para ambos. O bebê terá um pai e uma mãe e você não precisará ir embora do mundo bruxo se não quiser realmente.
– Emília me disse que o divórcio não é aceito...
– Em famílias tradicionais não, mas a minha não é tradicional, meus pais não eram puro-sangues.
– Os meus sim.
– Mas estão mortos agora, assim como os meus. Suponho que não tenhamos famílias a se preocuparem.
– Mas as pessoas vão falar...
– Nunca me importei com isso Parkinson. Espero que você faça o mesmo.
Ela não pareceu satisfeita com o plano, mas ele não sabia o que mais dizer.
– Nenhum de nós dois tem escolha.
– Seu casamento...
– Falarei com Ginny. Direi a verdade a ela.
– Pensa que ela vai aceitar ou esperar por você?
– Gostaria que sim, mas não posso culpá-la se ela desistir de tudo o que temos.
– Soube que vocês se amam de verdade.
– Sim. Nós nos amamos.
– Não precisa ser assim. – Disse Pansy tristemente.
– Isso logo veremos. Quero que me espere aqui enquanto vou ao Saint Mungus me informar sobre o teste de paternidade. Estarei de volta em alguns minutos.
Harry saiu e Pansy ficou sozinha na casa. Ela decidiu que morreria se ficasse ali esperando e resolveu caminhar pelo local. Lentamente ela andou pelos corredores e abriu algumas portas, visualizando diversos cômodos. A casa era realmente grande e muito sombria. Precisava mesmo de uma boa reforma para ficar alegre e moderna. Seria ali que ela viveria até seu filho nascer?
Depois de sua breve exploração ela decidiu deitar um pouco no sofá, sentia-se repentinamente muito cansada. Em instantes ela adormeceu.
Harry voltou meia hora depois. Estava muito frustrado pelas notícias que se recebera. Procurou por Pansy e a viu deitada no sofá adormecida. Ela era a plácida imagem de um anjo, a mão sobre o ventre. Seria dele o bebê ou não? Em qual das vezes ela dissera a verdade? Não saberia até que ela tivesse o tempo de gravidez necessário e isso seria depois da data prevista para seu casamento. O que faria agora?
– Pansy! – Ele murmurou suavemente.
Nenhum sinal.
– Pansy! – Ele murmurou novamente.
Ela lentamente abriu os olhos.
– Você já voltou? Oh me desculpe, eu acabei... – Ela disse erguendo-se.
– Tudo bem. Pode ficar deitada.
– Não. Já descansei o bastante. Vamos fazer o exame agora?
– Infelizmente, o exame só pode ser realizado a partir do quarto mês de gravidez.
– Oh! – Ela ficou surpresa.
– Teremos que esperar.
– Mas você vai se casar em uma semana.
– Creio que terei que adiar meu casamento.
Naquele momento uma coruja piou do lado de fora de uma das janelas da sala e Harry correu para deixá-la entrar. Era Errol, a velha coruja dos Weasleys. A carta saltou das mãos de Harry e tomou forma de lábios transmitindo a mensagem oralmente.
"Harry querido! Ginny sofreu um acidente no jogo de hoje. Disseram que um balaço a atingiu e ela caiu ao solo de uma grande altura. Ninguém conseguiu apará-la porque quem tentava era atingido também. Acreditamos que o balaço estava enfeitiçado e que o ataque foi de propósito. Ginny quebrou vários ossos e não vai se recuperar até o casamento. Já enviei as cartas e notas cancelando o casamento e avisando que uma nova data será marcada quando ela melhorar. Neste momento está sendo transferida para o Saint Mungus. Esperamos você! "
Então a carta se desfez e Harry pensou que aquilo era uma coisa de Merlin. O acidente de Ginny faria com que o casamento fosse adiado e assim ele teria tempo para fazer o teste de paternidade e resolver sua situação.
– Creio que isso resolve tudo.
– Sinto muito por ela.
– Vou ver como ela está, mas antes vou deixa-la na mansão.
Pansy não ousou perguntar o que fariam, mas como se lesse seus pensamentos, Harry respondeu as suas dúvidas.
– Você vai voltar para o Malfoy e dar suas explicações para deixá-lo. Diga que veio me ver e pedir outro lugar para ficar, e que eu irei arrumá-lo no serviço de proteção secreta. Assim que estiver pronta basta por este anel no dedo e aparatará aqui. Se eu não estiver aqui, me aguarde. – Disse Harry tirando do bolso um anel de rubi e entregando a Pansy. – Vejo você em breve.
Em seguida eles aparataram na Mansão Malfoy em que Pansy estava, Emília a aguardava sentada em uma cadeira no Hall. Harry despediu-se das duas mulheres e partiu para o Saint Mungus. Pansy suspirou encarando Emília.
