Rapto
Não adiantava.
Light não podia mais ser encontrado. A sua fuga não havia deixado novos rastros além dos acontecimentos na penitenciária. A única coisa que fora acrescentada ali era o incremento no número de mortos daquela carnificina. Os presos ali também não foram poupados do destino dos outros. Todos ali sucumbiram com ataques cardíacos fulminantes.
Fora isso, nenhuma pista nova do paradeiro de Light. Apenas o sensacionalismo da TV Sakura que, dia após dia, se tornava cada vez mais exacerbado. E chegava ao ponto de se noticiar uma seita intitulada "Os Seguidores de Kira".
- Cada uma... O pessoal da TV Sakura não toma jeito mesmo.
- Vale tudo pela audiência, Matsuda. Desde que surgiu o Kira, a TV Sakura usa isso pra alavancar a audiência.
- Sim, Aizawa. E por causa disso, temos que lidar com essa tal seita. Todo dia tem uma manifestação a favor do Light. Desde o julgamento.
- É verdade. Já faz quantos dias desde que Light fugiu da penitenciária? Uns trinta dias, não é?
- E nenhuma pista dele, enquanto as mortes voltam a rolar soltas.
- Ele só está dando um tempo para preparar um "retorno".
- "Retorno", Ryuuzaki?
- Sim, Matsuda. Se bem conheço o Light, ele está planejando seus próximos passos. E creio que ele deve estar arquitetando algo contra aqueles que o prejudicaram de algum modo.
A espinha de Matsuda logo gelou. E não era pra menos, visto que ele seria vítima em potencial. Tanto ele, como Aizawa e L, poderiam ser vítimas de uma possível vingança de Light.
- Não devemos nos esquecer de que Misa também pode ser uma vítima em potencial. – L prosseguiu. – Ela era aliada do Kira e depois acabou se tornando testemunha de acusação.
- Então, foi por isso que você colocou o Mogi pra se passar como agente da Misa-Misa outra vez, não foi?
- Sim, Matsuda. Devemos ter atenção redobrada com a Misa. Light agora deve considerá-la como traidora, depois de tudo o que aconteceu.
Enquanto bolava seu mais ambicioso plano para retomar suas ações como Kira, Light assistia à TV. Foi quando viu que um comercial de uma linha de cosméticos estava sendo exibido. A garota-propaganda acabou lhe chamando a atenção e fazendo com que o jovem estreitasse seus olhos castanhos.
- Sua traidora... – murmurou. – Sabia que você era idiota, mas não a ponto de me trair.
Sim, Light agora considerava Misa Amane, aquela que já fora seus olhos de shinigami, como uma grande traidora. E das sujas. Aliás, nunca lhe passou pela cabeça que a loirinha tivesse o mínimo de inteligência para virar a casaca e jogar por terra a sua chance de escapar da cadeia.
Subestimara demais aquela garota. Tinha raiva de si mesmo por não ter desconfiado de nada, embora ela tivesse seus méritos por ser boa atriz.
Zapeou para outro canal, a TV Sakura, que transmitia um programa feito por integrantes da seita "Os Seguidores de Kira". Deu seu sorriso de triunfo. Poderia usar aquele bando de "anencéfalos" a seu favor.
- E aí, Light? – Ryuk perguntou. – Tá passando algo engraçado na TV?
- Digamos que seja algo... Como você costuma dizer... Interessante. E isso me deu uma ideia de onde posso começar a agir.
- Hehehe! Como sempre, você surpreende, Light! – Ryuk exclamou.
Enquanto Light e Ryuk estavam na sala, em outro cômodo Mikami estava sentado em sua escrivaninha olhando as informações via internet sobre criminosos procurados e presos. Não era preciso saber o nome. Bastava só olhar a foto, e os movimentos rápidos da caneta riscando o papel liquidavam mais um marginal.
O jovem escrevia freneticamente os nomes de bandidos nas folhas, sob seus próprios murmúrios dizendo "deletar, deletar", como uma espécie de mantra da morte. A cada nome escrito ali, um corpo caía inerte em alguma parte do Japão.
Teru fazia o "trabalho pesado", enquanto o Yagami traçava sua melhor estratégia. Apesar de simplesmente escrever nomes, o jovem de óculos se sentia honrado por estar colaborando. Aquilo, para ele, era como uma tarefa sagrada que deveria ser cumprida com toda a devoção possível.
Para agilizar a "tarefa", Mikami fizera com Ryuk o acordo dos olhos de shinigami. Pouco lhe importava que custasse metade de sua expectativa de vida. O que importava, de fato, era ter seu dever cumprido. Nada mais.
E, misturado com o "deletar, deletar" de Mikami, acabava de ecoar uma gargalhada sinistra.
O autor dessa gargalhada era Light Yagami.
- Ai, Mocchi... Tô tão cansadinha...!
- Bom, pelo menos já acabou, Misa-Misa. – Mogi ainda tinha dificuldades para ser falante, apesar de já ter se passado por agente antes. – Já dá pra ir ao seu apartamento e descansar.
- Tem razão. Vamos?
Mogi se dirigiu ao seu carro, junto com Misa. Durante todo o percurso, não teve como ficar sem conversar com a garota, que não fechava a boca por sequer um segundo. E, para não contrariá-la, resolveu se esforçar pra conseguir soltar o verbo, embora no fim do dia os músculos da sua face ficassem doendo.
Ao chegar ao estacionamento, desceu do carro e foi até o outro lado desembarcar sua passageira.
- Obrigada, Mocchi. – ela deu um sorriso.
Logo que se afastaram alguns passos do carro, Mogi escutou um som estranho. Ficou mais alerta, olhando para todos os lados enquanto acompanhava a garota. De repente, sentiu uma dor aguda, como se algo penetrasse a grande velocidade em seu ombro. Deixou escapar um "Uh!" e levou sua mão ao local da dor. Sentiu algo lambuzar a sua mão e, quando foi ver o que era, deu de cara com sangue.
- Mocchi, o que aconteceu?
- Misa-Misa... Eu poderia pedir pra você fugir, mas é perigoso demais... Então não saia de perto de mim!
Mogi sacou o revólver e percorreu, com os olhos, o local meio escuro ao seu redor. Não descobriu ninguém ali. E o tiro que levara no ombro não fora ouvido. Evidentemente, a arma que disparou contra ele possuía silencioso.
O ferimento começava a doer mais, à medida que o tempo passava. Mogi tentava manter seu estado de alerta, apontando seu revólver para todas as direções. Aqueles instantes de tensão só o deixavam ainda mais apreensivo.
Mordeu o lábio inferior, sob o efeito da adrenalina e da ansiedade. A loira estava assustada, até porque o paletó marrom de Mogi estava manchado de sangue e parecia que essa mancha aumentava cada vez mais.
O policial levou outra vez a mão ao ombro ferido. A dor era cada vez maior e, por mais que permanecesse alerta, não conseguia se concentrar direito.
- Não saia de perto de mim, Misa. – ele ordenou, enquanto pegava o celular. – Eu vou te proteger até que os reforços cheguem.
Mogi ligou para um número aleatório, após apertar o botão da fivela do cinto. Porém, enquanto o telefone era atendido, outro tiro foi sentido, agora na perna. Inevitavelmente, acabou caindo, deixando Misa vulnerável.
- M-Matsuda... – ele disse. – Chame reforços! Fui atacado e a Misa está sendo raptada!
- Me solta! Me solta! – Misa protestou, enquanto era levada à força por pessoas vestidas de preto e encapuçadas.
Eram quatro pessoas que dominavam a garota, que logo foi amordaçada. Não conseguia mais espernear, nem gritar. Estava completamente inofensiva.
Touta Matsuda estava saindo do QG quando ouviu o telefone tocar. Quando Mogi lhe disse o que acontecia, o jovem, acompanhado por Aizawa, não pestanejou: entrou no seu carro e afundou o pé no acelerador, indo rumo ao local do ocorrido. Enquanto isso, Aizawa travava contato com L falando sobre o que acontecera a Mogi.
L logo entrou em contato com Soichiro Yagami, que já havia ido para casa. Este se pôs a caminho do QG logo que desligou o telefone.
Matsuda parou o carro e, acompanhado de Aizawa, encontrou Mogi sentado no chão, com dois ferimentos de tiros – um no ombro esquerdo e outro na perna direita. Apesar de ferido, estava frustrado após contar sobre o rapto de Misa:
- Eu podia ter feito diferente pra evitar que isso acontecesse. Não sei como nos descobriram, já que sempre procurei dirigir por caminhos diferentes pra despistar qualquer pessoa que tivesse essa pretensão. Ainda não entendo como conseguiram nos seguir.
- Acho que aí tem pelo menos um dedo do Light. – L disse, através do viva-voz do telefone de Mogi. – Ele deve ter analisado todos os possíveis roteiros de vocês e, usando a lógica, acabou descobrindo o caminho a ser tomado hoje.
- Pode ser mesmo, Ryuuzaki. – Aizawa concordou. – Mas, de toda forma, o Mogi acabou perdendo Misa de vista.
Nisso, o celular de Matsuda tocou, e o jovem detetive logo atendeu:
- Alô? Aqui é o Matsuda.
- Há quanto tempo, Matsuda! – uma voz irônica e conhecida o saudou, fazendo gelar a espinha do policial, que rapidamente colocou a conversa em viva-voz.
- L-Light...? É você...?
- Sim, sou eu. Aquele que você ajudou a ser trancafiado numa cela de penitenciária!
- Eu estava cumprindo meu dever!
- Não sabia que idiotas inúteis eram capazes de cumprir deveres!
A expressão de medo desapareceu do rosto de Matsuda. A raiva ante a petulância de Light começou a tomá-lo. Aizawa logo percebeu que algo poderia dar errado e tratou de ajudar o colega a contornar a situação.
- Pergunta o que ele quer, Matsuda!
O jovem respirou fundo e reassumiu sua postura de policial.
- Ok, Light. – disse por telefone. – O que você quer?
- O L está com vocês?
- Não, não está.
- Você deve saber que a Misa foi raptada, não?
- Suponho que você esteja metido nisso até o pescoço, não é mesmo?
- Supôs bem. E pretendo fazer uma troca.
- Que tipo de troca? – Touta tentava manter o sangue-frio.
- Misa Amane pelo Death Note.
