A DOR DE UMA TRAIÇÃO

CAPÍTULO 11 – CONFIANÇA

Penélope agradeceu interiormente por nunca ter gastado o dinheiro que herdou do pai com futilidades. Deu pra adquirir as dívidas de Ikki Manuel com uma certa facilidade. Shaka, o Virgem, ria com uma satisfação maldosa ao efetuar a transação.

Nunca pensei que você gostasse tanto de dinheiro, chefe.

Gosto tanto como qualquer outra pessoa, Miro Roberto. Mas minha satisfação está além do material. É ver Penélope Maria desabrochando dessa forma. Queria ser uma mosquinha pra ver a cara daquele Melendez Rodrigues quando descobrir que agora está nas mãos da "quase freira". Com certeza, esse casamento já foi pro brejo...

Será que ela não quis pagar as dívidas do noivo pra livra-lo da gente?

Com aquele olhar? Não, parceiro. Eu conheço aquele olhar. Já vi Pipe Magdalena dar inúmeros olhares daqueles para quem merecia a morte lenta e dolorosa.

Miro Roberto sentiu um frio na espinha mas ficou calado. Abriu a porta do carro para seu chefe um tantinho psicopata e dirigiu pra casa. Penélope enquanto isso ia pra casa, pensando em como contaria para o Ikki Manuel que agora era sua única credora. O pensamento de ficar com o Haras a fez lembrar que poderia outra pessoa, que não tinha nada a ver com sua vingança: Shun Daniel. Seu coração acelerou à visão daqueles olhos verdes, mesmo que em pensamento...

Ah, Shun Daniel, deve estar pensando que eu sou uma vagabunda qualquer. Porque você tinha que ser irmão justamente daquele cafajeste?

O cafajeste em questão andava de um lado pra outro no escritório do Haras, pensando no tempo para pagar as dívidas que se escoava e no seu casamento com Penélope. Porque Pipe Magdalena não havia ainda cancelado o noivado? Contado à filha ela não tinha ainda, com certeza. Mas porque? Vingança tardia ou...

Talvez ela tenha gostado do tratamento que eu dei nela e esteja esperando uma segunda dose... Eu sei como amansar uma gata brava mesmo... – se gabou, cofiando o bigode.

Foi quando o carteiro chegou e no meio da correspondência estava um envelope em branco. Ikki Manuel estranhou e abriu. Apenas uma frase datilografada no meio de uma folha dobrada:

"SEU TEMPO ESTÁ SE ESGOTANDO"

Nem precisava mais nada. Trêmulo de raiva e desgosto, Ikki rasgou a folha em pedacinhos e resolveu que precisava de um plano e bem rápido. Enquanto isso, na mansão, Penélope escutava uma conversa no jardim, sem querer. Estava atrás de Shura, para lhe perguntar algo, quando ouviu uma voz feminina irritada junto a ele:

Já estava com a faca e o queijo na mão. Tanto o seu alvo inicial quanto a donzela estão paradões na sua. Por que recuar agora?

Porque yo no quiero encrencas com su madre, señorita.

Que tipo de encrenca? Só se você se envolver a sério com o ai-jesus dela... Não acredito... Você só tinha que seduzir o veado de brincadeira, Shura. Não se apaixonar por ele...

"Ah, então teve dedo da minha irmã nessa história do Ikki Manuel no quarto da Mamma... O Shura deve ter topado para fazer ciúmes na Shina Regina. Mas e o Ikki? Porque a Mamma e não eu? Tara pela sogra ou..."

E Penélope Maria se afastou para pensar no assunto... Shura, enquanto isso, tentava se defender:

Yo soy un hombre, señorita Nielle Lucrecia! Não me apaixonei pelo Afrodite Guillermo. Mas não gostaria que ELE se apaixonasse por mim. Isso sim, seria encrenca com su madre.

Sim, sim – riu Nielle, dispensando o mordomo. – Melhor parar, antes que fique sério e minha mãe te faça casar com a biba cinderela.

Ao sair de casa para pegar o carro, Ikki Manuel encontrou outro bilhete anônimo, dessa vez na janela do veículo:

Arre, que hoje é dia! O que será agora?

"NÃO TE PESA O CHAPÉU DE TOURO QUE TUA NOIVA ESTÁ TE PONDO, TROUXA?"

Ikki Manuel rasgou essa folha às gargalhadas. Que piada de mau gosto, quem seria o retardado que faria uma coisa dessas?

Imagine, minha noiva, a quase freira, me traindo. Com quem, Santo Deus? Aquela não tem nem imaginação nem coragem de fazer isso...

E no outro lado da cidade, Salvador Hyoga encontrava um envelope em branco jogado em sua sala de estar, mas este além do bilhete datilografado continha um xerox de um exame médico:

"DEIXA DE SER PATO E CONFIRME AQUI QUE O FILHO DA SUA NOIVA PODE SER DE QUALQUER UM, MENOS SEU."

Hyoga franziu a testa e quase rasgou o papel do exame junto com o bilhete anônimo. Mas a curiosidade foi maior e ele correu os olhos pelo documento. Fez as contas e ficou furioso. Pegou a moto e nem sabe como chegou ileso à casa da noiva. Assim que Shura abriu a porta, nem esperou ser anunciado. Já entrou gritando por ela. Nielle apareceu na escada e Salvador foi ao seu encontro, os papéis na mão.

Que gritaria é essa, Hyoga, ficou louco?

Fiquei. Ou melhor, eu estava louco. Louco de amor por você, sua vagabunda.

Que termos são esses?

O mais adequado pra tratar uma mulher vadia feito você, que engravida justamente enquanto eu estou viajando...

Quem te disse essas mentiras?

Por acaso, um bilhete anônimo... anexado ao seu exame de gravidez.

Provas falsas, meu amor. Com certeza de gente invejosa de nossa felicidade e...

Eu tenho sido cego até agora. Quanta gente tentou me avisar e eu não queria acreditar, Nielle Lucrecia. Mas tantas coisas fazem sentido agora... Está tudo acabado entre nós...

Espere, Salvador, me escute... – Ela tentou argumentar, pegando-o pelo braço.

Mas ele retirou o braço num puxão, como se o toque dela fosse alguma coisa asquerosa. Como Nielle não estava preparada para a rejeição, se desequilibrou e rolou a escada, num tombo espetacular. Shina Regina, que acompanhava o barraco de longe, deu um grito e foi correndo chamar Benito Aioros. O motorista achou melhor chamar uma ambulância, já que Nielle tinha perdido os sentidos. Salvador Hyoga entrou em estado de choque, foi levado para o hospital junto não sabe como. E enquanto os médicos atendiam Nielle Lucrecia, ele se afastou andando pelo hospital até entrar na capela. Ajoelhou-se automaticamente e juntou as mãos, mas seus pensamentos não eram coerentes e nenhuma oração saia de seus lábios. Ficou um tempo ali, até que os soluços o sacudiram e as lágrimas começaram a jorrar. Chorava de pena de si mesmo, de indignação, de frustração...

"Perdi tudo... A mulher que eu achei que me amava, não sentia nada por mim. O filho que achei que ia ter, não é meu... Oh, meu Deus, perdi tudo, tudo..."

A freira que ia cuidar da capela naquele dia viu aquele rapaz sofrendo tanto ali, sozinho que foi chamar o padre. Ele veio, sentou-se ao lado de Salvador Hyoga, acalmou-o, ouviu sua confissão, conversou com ele, aconselhou-o a perdoar a agora ex-noiva mesmo não ficando com ela.

Uma das enfermeiras veio atrás dele. Encontrou com a freirinha na porta.

Um rapaz muito bonito, não acha, irmã Tina?

Sim, estava muito chateado até agora. Chamei o padre Leonardo para ajuda-lo. Quando cheguei aqui, estava aos soluços.

Ai, coitado. Como vou contar pra ele que sua noiva perdeu o bebê?

Ele é noivo?

Sim, foi o que o motorista que o trouxe nos disse. Ficou triste? Ah, danadinha, uma freira como você não devia ficar olhando para os rapazes... – provocou a enfermeira.

Eu... eu ainda não sou freira. Sou apenas noviça. Não proferi meus votos ainda...

Por um par de olhos azuis daqueles, você bem que desistiria dos seus votos perpétuos, não?

Quem sabe?

O padre viu a enfermeira e chamou Salvador Hyoga para conversarem com ela. Antes de se afastarem, apresentou-o à noviça.

Hyoga, esta é a irmã Tina. Ela que foi me chamar, preocupada com seu estado.

Muito obrigado pelo seu cuidado, irmã. Se algum dia eu puder retribuir...

De nada, senhor. Só fiz o que estava ao meu alcance, só isso. Espero que sua noiva se recupere...

O olhar azul se entristeceu mais. Ele sussurrou "ex-noiva" e se afastou com a enfermeira. O padre colocou a mão no ombro da noviça, que olhava o rapaz cabisbaixo se afastando:

Esse vai precisar de amigos nesse momento. Agora ele está muito sozinho...

A irmã Tina, que na verdade se chamava Adamantina Heloisa pensou consigo mesma: "adoraria fazer com que ele não se sentisse tão sozinho... Oh, Senhor, me perdoe por estar pecando dessa forma, mas ele é tão bonito..."

N/A: Nhaaa, demorou, mas saiu. Vixe, quantos bilhetes anônimos, não? Vocês imaginam quem mandou o que pra quem, né? Nielle, vai ter bebês com outro, porque novela mexicana que se preza, o povo cai da escada e perde os babes. Calma, Faye, que o Shura não vai mais beijar o Afrodite. Agora que a corda ta se apertando em torno do pescoço do Ikki, o que ele vai fazer? Sua única "aliada" está no hospital, se recuperando do tombo e do aborto. E boas vindas à irmã Tina, a Adamantina Heloisa que na verdade é a Ada. Mais emoções no próximo capitulo de sua novela mexicana... 16/05/05.