Estou agora triste. Há nesta vida
Páginas torvas que se não apagam (...)
Álvares de Azevedo
Já era a terceira vez que Ronald Weasley ouvia-a respirar fundo. A sala dos monitores estava deserta àquela hora da manhã. E tinham passado o restante daquela noite turbulenta ali, apenas os dois e seus segredos.
Os cabelos volumosos de Hermione Granger espalhavam-se sobre o pergaminho bastante rabiscado. As idéias e a razão lhe tinham abandonado. Que estava fazendo? Poderia por tudo a perder... E os olhos dele lhe culpavam por aquilo tudo, lhe lembravam das futuras conseqüências.
– Não temos outra alternativa – ela levantou o rosto determinada.
O garoto não respondeu. Pressionou os lábios ligeiramente amedrontado; estava sempre com medo do futuro, o que não impedia-lhe de ver que ela estava certa.
– Será a última edição e Harry... Harry irá nos entender – ela levantou a voz para que a frase pudesse ser ouvida por ela mesma. Precisava acreditar.
Ela balançou a varinha sobre o pergaminho e o rabiscos que pareciam todos descoordenados foram se agrupando em palavras, depois em frases. Um texto completo. As linhas mais verdadeiras que já haviam escrito em suas vidas – com algumas pequenas omissões que não tiravam sua qualidade literária embora ofuscassem os dons jornalísticos.
– Mione...
– Por favor, Rony, não...
– Eu... eu não acho...
Ela se levantou da cadeira, o olhar devastador posto no colega que mexia nervosamente no cabelo sem corte.
– Não me diga que mudou de idéia agora, Ronald Weasley. Nós dois sabíamos muito bem os resultados... Se você hesitar, eu não...
– Mione... – ele franziu a testa. – Eu... eu só...
– Só o que? – o nervosismo começava a lhe provocar rompantes. Se ele não era forte, ela seria pelos dois.
– Eu... eu só não acho que tenha que ser o último... – ele baixou a cabeça, parecendo completamente infeliz.
Hermione piscou os olhos. O pergaminho escorregou de suas mãos e a boca teimava em não deixar as palavras saírem. Ele não estava arrependido. Queria seguir em frente.
– Você...
– Eu sei que você acha perigoso e que poderia causar nossa expulsão caso descobrissem, mas, sabe, pela primeira vez... Bom, a verdade é que eu ouvi dois caras da Corvinal falando sobre o meu artigo de quadribol. E, bem, eles realmente gostaram, entende? E, sei lá, é bom ter como colocar pra fora tudo o que eu acho do Malfoy sem correr o risco da Grifinória perder pontos por isso. Mesmo quando você corta metade do texto por achar que há algo comprometedor, eu...
Um sorriso se abriu no rosto da menina. As palavras continuavam entaladas na garganta, mas isso não importava. Ela apenas acenou com a cabeça e ele entendeu que ela também queria continuar.
– Estou com ótimas idéias para o próximo número! – ele comentou enquanto pegava o pergaminho no chão.
Bastou um aceno de varinha e um pergaminho transformou-se em quatrocentos. Mais calma e feliz, Hermione tentou certificar-se de que estavam fazendo a coisa certa:
– Isso vai causar confusão, não vai?
Rony passou o braço pelos ombros da garota que era quase um palmo mais baixa que ele.
– Uma a mais, uma a menos. Harry já passou por bocados muito piores do que esse e está inteiro, não está?
– Harry... Ron, e se acharem que foi ele?
– Eu também pensei nisso. Seria a reação mais provável. Ele resolveu defender Sirius abertamente. Todos vão pensar que foi ele – Rony pareceu levemente irritado com aquela suposição. – Entretanto...
– ... ninguém terá provas – Hermione concluiu.
– Não foi isso que eu pensei.
– Então...
– Entretanto, existe uma outra provável autora de tudo isso.
– Eu... eu não tinha pensado... Você prestou atenção na mãe dela?
– Muito parecidas mesmo e, bem, se ela for filha do Sirius...
Hermione olhou uma última vez para Rony.
– Vamos! Temos que chegar ao corujal antes que haja gente perambulando pelos corredores.
– Mione, e quem é que vai acordar cedo numa manhã de sábado?
– Vocês dois estão acordados, não estão?
Rony apertou a resma de folhas junto ao peito. Da entrada da sala dos Monitores, a voz arrastada e os olhos de gelo confirmavam que Malfoy estava ali.
– Gina, me devolve isso! Gina, volta aqui!
Os gritos despertaram Neville de um sono confuso. O que afinal ele estava fazendo na Sala Comunal? E o que exatamente era aquilo vindo em sua direção?
– Gi... Ooops!
Ele teria pago para não descobrir. Quando seus olhos finalmente puderam focar alguma coisa, vira o par de tênis de Colin Crevey entrar diretamente em seu estomago.
– Crevey! Por Merlim, o que você fez? – Gina agachou-se perto o colega de casa: – Neville, você está bem?
– Bom... dia? – Harry acabava de descer as escadas, ainda de pijamas, acreditando que apenas uma ou duas pessoas estariam acordadas àquela hora da manhã num sábado, de preferência Rony e Hermione. – O que está havendo aqui?
Gina levantou-se de súbito, ligeiramente encabulada e escondendo algo atrás de si. Colin Crevey continuava embolado com Neville no chão, uma das pernas presas debaixo do corpo do colega.
– Nada! – a ruivinha acenou um tchau e, como já estava adequadamente vestida, desapareceu por trás do retrato da mulher gorda antes que Harry pudesse fazer outra pergunta.
– Colin? – Harry franziu a testa, vendo os dois garotos finalmente se colocarem de pé.
– Oi, Harry, – garoto sorria como de costume. – Você deve estar querendo saber o que houve, né? Eu adoraria explicar, mesmo, mas eu realmente preciso pegar de volta algo que está com a Gina... – e saiu correndo pelo mesmo lugar que a menina.
– Estão todos loucos ou sou eu que ainda não acordei?
– Ele me chutou no estômago – Neville fez cara de dor.
Harry pensou que ainda deveria estar dormindo.
– Dormiu aqui mesmo? – Harry reparou no amarrotado das roupas do colega, as mesmas que ele estivera usando na noite anterior.
Neville fez que sim com a cabeça e se sentou no mesmo sofazinho de onde Colin o tinha derrubado.
– Eles não voltaram? – Harry, que não havia dormido um minuto sequer, não demonstrava sinais de sono.
Neville balançou novamente a cabeça, dessa vez negando. Harry bufou em desagrado. O que seus amigos estavam escondendo dessa vez? Pediu a si mesmo para se controlar quando os visse. Havia prometido respeitar os segredos de Rony e Hermione e não iria quebrar a promessa por mais que estivesse inquieto.
O outro garoto finalmente se espreguiçou e, suspeitando da cara amassada, subiu os degraus que o levariam ao dormitório. Neville não conseguiria dormir por alguns dias ainda, mas precisava fingir que tudo continuava normal em sua vida.
Sem nada para fazer ou para conversar, em pleno sábado de manhã, Harry resolveu dar voltas pelo castelo. Às oito horas, no frio de dezembro, eram poucos os que se arriscavam a tomar o café-da-manhã; muito melhor ficar debaixo das cobertas. Gina e Colin pareciam ter entrado num acordo, pois conversavam aos cochichos na mesa da Grifinória, bastante distraídos. Como de costume, Harry, desviou a atenção para a mesa da Corvinal. O time de quadribol estava completo. Certamente teriam treino naquela manhã gelada. Cho não olhou para ele e o rapazinho sentiu um aperto no coração. Ela era a única pessoa que conseguia desviar seus pensamentos para algo bom.
– Oi!
A vozinha aguda irritou Harry, que não respondeu. Não era aquela corvinal que ele queria ali.
– Hum... Aposto que leu e praticou um pouco de Wiccyoga. Você parece bem mais calmo agora.
– Eu não estou calmo – Harry puxou uma maçã.
Aquela menina lhe relembrara todos os acontecimentos daquela noite em claro. Voltou a olhar para a mesa da Corvinal. Ela percebeu.
– Eles não vão treinar hoje... – falou em tom sério.
– Por que então trouxeram as vassouras? – Harry estava contente em mudar de assunto.
– Porque eles acham que vão treinar...
– Como assim eles acham? – Harry estava decidido que aquela era a garota mais estranha que já conhecera. Mas a resposta de Luna Lovegood foi bastante lógica daquela vez.
– Olhe para a entrada do refeitório...
Harry obedeceu e viu o time completo da Sonserina já em seus trajes e vassouras. Quer dizer, completo com a exceção de Draco Malfoy.
– Oi, Luna! Harry, se importa?
A caçula dos Weasley roubou a maçã intacta da mão de Harry. Este levou um susto quando Gina sentou-se a seu lado, exibindo um sorriso eufórico.
– Não sabia que vocês se conheciam... – a ruiva comentou.
– Nós não nos conhecemos – a loira respondeu contente.
O garoto hesitou em corrigi-la. Em verdade, a única vez que conversara com ela fora na noite anterior, quando ouvira diversas maluquices da boca da menina. Naquela manhã, porém ela parecia bastante sensata.
– Luna tem aulas de poções comigo, Harry! – Gina esclareceu, sem estranhar nem um pouco a resposta da corvinal. – Parece que hoje vai ter briga logo cedo...
Os três passaram a observar o comportamento das duas equipes de quadribol. Estranhamente, os sonserinos estavam inquietos e menos confiantes que de costume.
– Se eles não estiverem com o time completo vão ter que ceder o campo... – Harry comentou torcendo pelo time de sua paixão platônica.
– Não vão, não. – Luna retorquiu.
– Vão, sim, Luna – Gina insistiu. – Pelo visto o idiota do Malfoy esqueceu de acordar.
– Não esqueceu, não. Eu o vi entrar hoje cedo na Sala dos Monitores. Daqui a pouco ele deve estar aqui.
– Você disse sala dos monitores? – de repente uma luz se acendeu na cabeça de Harry. – Tchau pra vocês! Eu estou atrasado pra aula!
Ele sequer chegou a ouvir Gina retrucar:
– Que aula, Harry? Hoje é sábado!
Para alguns alunos, sábados eram sim sinônimo de aulas. As turmas do último ano da Sonserina e da Lufa-lufa tinham de padecer desse terrível mal todos os finais de semana. Enquanto seus colegas aproveitavam o calor de suas camas, Terencio Higgs preparava um vaso especialmente grande com adubo e terra fofa.
De minuto em minuto tentava ver algo além da neve branca fora da estufa. O que teria acontecido com Cathy? E justamente quando pensava nisso pela milionésima vez, Catherine Silver entrou tranqüilamente pela estufa número cinco.
– Com licença, Prof. Sprout. Eu estava na enfermaria e Madame Pomfrey só me liberou agora...
A professora mandou a garota entrar com um gesto e continuou as explicações sobre os possíveis tópicos do NIEMs daquele ano em Herbologia. Cathy andou diretamente até o seu único amigo naquela sala. Higgs, ao contrário, tinha fechado a cara:
– Você tinha que dizer que passou a noite na enfermaria? A B vai pensar...
– Que você mentiu? – ela completou ríspida como sempre. – O que temos que fazer?
Herbologia não era uma das matérias que Cathy mais gostava, mas ao menos considerava-a tolerável. Isto quando as aulas não eram num sábado pela manhã.
– Droga! – ela resmungou pegando a pá para iniciar o trabalho.
– Onde você estava? – esquecendo-se da birra, Higgs resolveu esclarecer alguns pontos. – Que cachorro era aquele? Eu... eu fiquei preocupado...
– Tão preocupado que entrou na aula em vez de ir me procurar, né? – ela zombou.
– Ei, eu não sabia o que fazer – ele tentou se defender.
– Deixa pra lá, Higgs. Não aconteceu nada...
– Como assim não aconteceu nada? O cachorro arrastou você...
– A professora Sprout nos mandou formar trios – Betelgeuse Lestrange enterrou sua pá no vaso de Higgs. O resto de seu material flutuava logo atrás da menina.
– Eu não estou vendo ninguém formar trios.
– Ou você me deixa ficar aqui, ou a Prof. Sprout vai saber que saiu da enfermaria há mais de uma hora!
– Ela não estava na enfermaria! – Higgs tentava sustentar a mentira.
Betelgeuse revirou os olhos:
– Acho que eu me enganei mesmo. Ela disse duplas. Some daqui, Higgs! – a garota simplesmente ordenou.
– Não! A minha dupla é a Cathy.
– Some daqui, Higgs. – a baixinha completou, deixando o rapaz incrédulo e a outra garota triunfante.
Aproveitando-se de um momento de distração de Betelgeuse, Cathy mexeu os lábios dizendo "Te explico depois" sem emitir qualquer som. Talvez Higgs não entendera o recado, eu talvez tivesse entendido perfeitamente e saíra de perto das garotas resmungando apenas para não dar motivos para a ex-namorada desconfiar. Cathy desejou que fosse a segunda opção: não queria brigar com o único aliado que tinha naquela escola.
– Manda... – ela se rendeu ao olhar da colega de quarto, remexendo a terra displicentemente.
– Catharina Silver... ou eu deveria dizer Black? Ambos os nomes são fardos, não é verdade?
– Acho que já discutimos isso antes – Cathy respondeu rispidamente.
– Por que você acha tão difícil ser minha amiga? – a sonserina falou de uma vez.
– Como é que é?
– Por Merlim, nós temos tanto em comum... Inclusive o fato de não nos misturarmos com essa gentinha.
Betelgeuse olhou um a um dos colegas de classe, com ar de nojo. Catharina lembrou da tia da menina, Narcisa. Mas ao contrário de sua arquiinimiga de vinte anos atrás, a sobrinha não era assim tão popular.
– Bem, uma vez que você acha que o Higgs faz parte da gentinha, então eu convivo com ela, sim. – e voltou a revolver a terra impaciente.
A outra arregalou os olhos fingindo espanto e finalmente começou a executar o trabalho que a professora havia ordenado. Displicentemente, continuou a falar:
– Mas é lógico que não. Se achasse isso, eu nunca teria me envolvido com ele, não acha?
Indignada, Catharina fincou a pá na terra úmida.
– Você deu um pé na bunda dele só porque ele saiu do time!
O tom de voz saiu um pouco mais alto de que a garota desejava. Os outros alunos e a professora advertiram-na com olhares duros, exceto Higgs que, adivinhando o teor da conversa, parecia envergonhado.
– Não foi por isso... – B suspirou e olhou de relance para o ex-namorado. – Não diga nada a ele, mas, bem, – e concluiu num murmúrio – estou sendo vigiada.
As risadas foram ainda mais altas que o berro anterior. Dessa vez era Betelgeuse quem parecia envergonhada quando a professora Sprout interrompeu a aula para chamar a atenção das duas garotas. As outras duplas cochichavam e lançavam olhares furtivos. Cathy não estava embaraçada.
– Eu sei que você não acredita, mas, bem, você sabe quem é meu primo. Aliás, nosso. Draco tem ordens de minha tia Narcisa para me controlar.
– Por favor, não me faça rir mais, Betty – ela debochou.
– Não me chame de Betty... É vulgar.
– Por Merlim, você é uma cópia de Narcisa...
– Você conhece minha tia? – a falha não passou despercebida por Betelgeuse.
– Ahn, minha mãe já falou dela algumas vezes.
– Não. Você a conhece. O jeito que você falou...
– Vê, é por isso que não podemos ser amigas! – Cathy tentou mudar o rumo da conversa, sem sucesso.
– Você a conhece, mas ela não te conhece...
Betelgeuse raciocinava alto, a pá movendo-se ligeiramente sobre a terra, ajudando-a colocar os pensamentos em ordem. Enquanto isso, Cathy procurava uma desculpa freneticamente. Fora burra. Betelgeuse estava sempre esperando um deslize, e ela lhe presenteara com um grande. Se Narcisa a visse, tudo iria por água abaixo, afinal, todos aqueles que a tinham conhecido quando jovem a tinham reconhecido. Sirius, Snape, Remo, aqueles que não tinham certeza de que era Helen, haviam desconfiado disso desde o primeiro instante. E foi pensando numa desculpa que ela finalmente percebeu:
– Você é quem anda me vigiando! Mas é lógico! A mando de Narcisa... Ela nunca ouviu falar que Helen Silver tivesse uma filha da minha idade... E se fosse uma filha de Sirius... Porque ela sabe que Sirius é inocente e se eu fosse filha de Sirius, minha mãe também saberia disso. Mas minha mãe simplesmente desapareceu, o que significaria que ela pode estar com Sirius, tramando para atacar quem eles tem certeza que são comensais. Logicamente não seus pais, que ainda estão presos em Azkaban, mas... Lucio Malfoy! Sirius está louco, não é isso que dizem? Certamente faria isso, porque sabe que Rabicho... – e se calou outra vez.
Não daria ainda mais informações. Talvez Sirius ainda estivesse em Hogwarts e ela precisava sair dali imediatamente. Sem pensar duas vezes, lançou um feitiço explosivo em seu próprio vaso. Não levou sequer dois minutos para que a prof. Sprout a mandasse visitar a sala do diretor, e a menina não hesitou em obedecer. Largando o material de aula pra trás, Catharina Silver passou a correr pelo descampado escorregadio pela neve. Não sabia muito bem como, mas sabia que Sirius era a única pessoa que poderia ajudá-la.
Entretanto, Betelgeuse não era facilmente largada para trás e, aproveitando-se de uma alergia verdadeira ao pólen de uma das que estudavam, pediu licença para ir è enfermaria. Agora bastava seguir as pegadas.
– Malfoy! – Hermione disse como se o nome do rapaz fosse um feitiço de desaparecimento.
O monitor da Sonserina encarava os grifinórios com desconfiança. Ainda não tinha notado o calhamaço que Rony apertava com força junto ao peito.
– Malfoy – Hermione repetiu, agora iniciando uma risada nervosa.
– Acho que já sabemos que sou eu. Que droga é essa, Weasel?
O rosto de Rony foi invadido pelo pânico. Sem saber o que fazer, apenas interpelou Hermione, que respondeu prontamente:
– Relatórios da monitoria. – ela finalmente se acalmou. Tinha pensado na desculpa perfeita: – Os irmãos de Rony andaram aprontando mais que de costume.
– E o que isso tem a ver com o corujal? – os olhos frios e cinzentos fitavam os pergaminhos insistentemente.
Rony tremia os lábios; as mãos suadas começavam a deixar marcas nas folhas de trás. Hermione mantinha-se calma e fria feito uma pedra de gelo.
– Não íamos levar isso para o corujal, seu idiota! – ela desdenhou convincentemente. – Íamos deixar antes da sala de Dumbledore. E o que eu e Rony íamos fazer no corujal, certamente não é da sua conta.
O ruivinho respirou aliviado.
– Levando-se em conta que eu sou monitor e que a atitude de vocês é suspeita, eu tenho o direito...
– Eu e a Mione também somos monitores e nós não estamos achando nada de suspeito um no outro. – Rony se inspirou na atitude da garota para enfrentar o rival.
– Accio! – Malfoy berrou a plenos pulmões apontando para o peito de Rony.
As folhas saíram em disparada pela sala dos Monitores, uma revoada de pergaminhos enlouquecidos trombavam em móveis, livros e velas. Tentando conter um incêndio, Hermione disparava jatos d'agua num foco e outro de fogo.
Rony Weasley parecia perdido. Seriam expulsos; Draco Malfoy não deixaria barato as ofensas que tinham escrito sobre ele nos últimos meses. O sonserino já tinha um dos exemplares na mão. Já estavam enrascados, então...
– Estupefaça!
O jato prateado empurrou Malfoy contra parede e deixou-o desacordado, mas Rony ainda não tinha acabado. Desviou de um sofá e aproximou-se de mansinho do sonserino, e deslizou os dedos sobre a própria varinha:
– Desta vez eu não vou te dar o gostinho de arruinar tudo, BABACA! OBLIVIATE!
Com um sorriso de satisfação nos lábios, o rapaz ruivo virou-se para a garota. Hermione já havia recolhido todos os folhetins em bom estado e acabado de destruir os demais.
– Acho que isso vai nos causar uma detenção. Snape com certeza vai querer reavivar a memória do Malfoy – ele comentou meio constrangido. Sabia o quanto Hermione prezava a boa conduta.
– Os últimos momentos são irreversíveis. Ele não vai lembrar do conteúdo do jornal – ela retrucou, enquanto analisava uma das folhas em particular.
– Você... você não está brava? – Rony se aproximou.
– Brava eu estaria se todo esse trabalho tivesse sido em vão, Rony. Você foi perfeito!
O ruivinho abriu um sorriso sem graça. O coração saltava dentro do peito. Ela achava que ele tinha sido perfeito. Ela queria continuar fazendo o jornal com ele. Ela...
– Mas nosso trabalho ainda não terminou. Temos que despachar a correspondência e fazer com que todos leiam isso ainda de manhã! Estou endereçando alguns exemplares para o Profeta Diário e...
– Mione, você está de acordo que nós estamos encrencados? – Rony deu uma nova olhada para Malfoy caído num canto.
– Não vamos ser expulsos... Talvez perderemos os distintivo, mas... – ela olhou triste para o broche com a letra M, procurando se convencer de que tudo aquilo valia a pena.
– Bem, já que nós estamos ferrados, então eu mereço mais uns minutinhos de prazer.
Alcançou uma das mesinhas de escritório em poucos segundos e pegou pena e tinteiro. Agachou-se perto de Malfoy e chamou Hermione.
– Sempre tive vontade de fazer isso, sabia.
Não se importou com a tinta impregnando nas unhas. Sob o riso contido de Mione, Rony Weasley usou sua melhor letra para escrever BABACA na testa do monitor sonserino.
– Isso são patins?
No dormitório quente e bagunçado do primeiro ano da Corvinal, Lyra respirou fundo antes de responder pela décima vez a mesma pergunta:
– São.
– Patins? – Emily olhou para o teto esperando pela providência divina.
– Meu Deus! Quantas vezes mais eu terei que responder a mesma coisa? São PATINS! P-A-T-I-N-S! Patins!
– Dã! Isso eu entendi!
– Então pára de fazer a mesma pergunta – Lyra retrucou, enfiando o cadarço pelo último buraco da botinha de pé esquerdo.
– Eu... Eu só estou surpresa.
Lyra levantou-se após dar um nó entre os cadarços dos dois pés do acessório e jogá-los atrás do pescoço. O sol pálido iluminava o quarto, que àquela hora já estava abafado pelas vidraças fechadas e embaçadas. Emily continuava a observá-la incrédula, sentada na banquetinha da penteadeira.
– Com tantos divertimentos mágicos você vai usar isso aí? – a colega finalmente expôs a dúvida que a atormentava.
Lyra parou de andar e fitou a amiga assombrada. Certamente, Emily nunca tinha andado de patins. Era um artigo genuinamente trouxa... Uma pessoa que nunca andara de patins? Isso, sim, era estranho.
– Você já viu alguém usando?
– Er... Não exatamente. Mas pelo visto coloca-se nos pés, certo?
A russinha sorriu, ainda digerindo a informação de que alguém pudesse não saber o que era um par de patins. Sentindo a ponta de uma das lâminas pressionar contra o ventre, moveu a botinha para o vão entre sua cintura e seu braço esquerdo.
– Vem comigo! Eu deixo você dar uma voltar, ok?
– Não sei se quero dar uma volta nisso... – Emily desdenhou sem se mover de onde estava.
– Não sabe o que está perdendo!
Ela não esperou a amiga se arrepender. Desceu as inúmeras escadas, sempre olhando para fora quando encontrava uma janela. As margens do lago aparentavam estar suficientemente congeladas para permitir que alguém deslizasse sobre o gelo sem riscos. Patinar lembrava-lhe de sua mãe: era a melhor coisa que ela sabia fazer depois de dançar. Talvez fosse justamente por ser bailarina que a Sra. Rasputin tinha a leveza e o equilíbrio necessários àquele esporte.
O sol estava fraco e volta e meia teimava em esconder-se atrás das nuvens baixas. O estômago da menina roncou quando ela passava pelo Salão Principal, avisando-lhe que não seria mal perder alguns minutos para satisfazer sua fome.
Estava feliz como há tempos não ficava. Após a noite turbulenta, fora acordada logo cedo pelo farfalhar de uma coruja bicando uma das vidraças do dormitório. Trazia uma correspondência de urgência, que Lyra leu com grande entusiasmo. Já no envelope reconhecera os garranchos apressados de seu irmão.
Querida Lyra,
Nunca pensei que fosse sentir saudades de você, mas... Bem, eu sinto, sim, a sua falta. E a de mamãe. Não a vejo desde que você se foi para Hogwarts. Ou melhor, não a via, porque nesta noite ela apareceu, Lyra. De uma forma um tanto estranha, e rápida, mas apareceu. Bem, parece que desde que chegamos à Inglaterra tudo é estranho mesmo, então posso dizer que ver mamãe transformada em Eros não é assim tão anormal.
Bem, uma vez que mamãe apareceu, e que papai também a viu, você já pode imaginar o que aconteceu. Mesmo tendo sido rápido... Bem, pra variar, eles brigaram, e como sempre, cabe a nós dois fazer com que eles percebam que estão sendo ridículos! Bem, desta vez mamãe foi mais ridícula. Discutiu com papai porque... bem, porque papai permitiu que um bruxo, que era amigo dela, aliás, me ensinasse alguma coisinha, tipo... hum... voar numa vassoura. Você já voou, Lyra? Nossa, isso é muito bom! A melhor sensação que já tive na minha vida, melhor até que patins e bicicleta. Ouvi dizer que você tem aulas de vôo já no primeiro ano, então imagino que saiba como é bom. Mas essa carta não é pra falar de vassouras, mas de nossos pais.
A casa em que estamos morando é desse bruxo que está me ensinando a voar, e tem muitas coisas bruxas e mágicas por aqui. Muitos livros e tal. E eu li em um que há uma comunidade mágica aí perto de Hogwarts. Então, tudo o que você tem fazer é convencer a vovó de que precisa desesperadamente ver a mamãe e o papai, e já que trouxas não podem entrar em Hogwarts, eles devem marcar o encontro nessa tal de Hogsmead. Não vão ter com quem me deixar, então... Faça um escândalo se for preciso. Precisamos colocá-los juntos outra vez pra resolver as coisas. E, bem, para matarmos as saudades uns dos outros.
Confio em você!
Yuri
Trazer seus pais até Hogwarts. Aquela era a melhor idéia de Yuri desde que nascera e pela primeira vez Lyra teve orgulho de ser irmã de quem era. Os patins lhe pareceram um bom plano. Ela não precisava de muito para aparentar uma rejeição extrema à magia, uma vez que nem seria assim tão fingida. Recusar-se a usar a varinha, envolver-se novamente em atividades trouxas e parecer deslocada eram apenas uma parte do que se passava na cabeça de Lyra. Como Yuri pedira, ela faria um escândalo se fosse preciso. E gelo, laminas e... acidentes eram motivos mais que suficientes para trazer seus pais para perto de si.
Harry vinha como um furacão pelos corredores. Já havia derrubado duas armaduras, estragado uma brincadeira de Pirraça e deixado Madame Nor-r-ra de pêlos eriçados, após chutá-la para a outra ponta do corredor sem a intenção de fazê-lo. A Sala dos Monitores nunca parecera tão longe como agora, especialmente quando as escadas do castelo insistiam em mudar de direção assim que o rapazinho punha seus pés sobre elas.
Mas nada o teria impedido de chegar até Rony e Hermione. Nada, exceto um alguém:
– Que pressa toda é essa, Potter? – Severo Snape lançou um feitiço paralisante no garoto quando este passou ventando por ele. – O dia mal começou e você já está procurando por encrenca.
– Me solte – ele murmurou, tentando ser o mais educado que podia com alguém tão odioso como seu professor de Poções.
– Não vejo por que eu deveria. Está fazendo arruaça nos corredores, Sr. Potter, e isso já é o suficiente para que eu o chame para uma conversinha em particular.
– Tudo bem. Quer me dar uma detenção, vamos! Escolha! Mas rápido, porque, caso não tenha percebido, estou com pressa! – o garoto se irritou.
– Olhe o tom como fala comigo, moleque. E você não vai fazer absolutamente nada além de me acompanhar até minha sala. Seja lá o que for que tenha a fazer, pode esperar. Eu não.
Num estalo, Severo Snape retirou o feitiço e Harry, regido pelas leis da Física, continuou o movimento que fazia antes de ser parado, dando com o nariz no chão. Snape deu um sorriso satisfeito e ergueu o garoto com magia, vislumbrando o rosto profundamente desgostoso do aluno.
– O que quer comigo? – Harry já tinha perdido a esperança e as boas maneiras.
– Apenas me acompanhe, Potter. E é melhor fazer isso quieto.
Se professores não fossem impedidos de jogar feitiços em seus alunos por pura vontade, Snape teria selado os lábios de Harry com um encantamento. Só assim não teria que ouvir os murmúrios incompreensíveis do garoto enquanto seguiam para as masmorras.
Harry seguia a passos duros e contrariados. Quase no meio do caminho, esbarraram em Gina Weasley, que fitou professor e aluno com ares de interrogação. O garoto tentou fazer um sinal pedindo a ela que procurasse pelo irmão e pela amiga, mas ela não parecia ter entendido. Snape fingiu não perceber a comunicação entre os dois e pôs a mão gelada na nuca de Harry, empurrando em frente.
Escadas e mais escadas. Todas pareciam colaborar para que chegassem depressa à masmorra, ao contrário do que Harry experimentara pouco antes, procurando atingir a Sala dos Monitores. Conhecia a sala particular de Snape desde o segundo ano em Hogwarts e não era um local que desejasse visitar freqüentemente.
A primeira visão da sala escura mostrava que nada tinha mudado de ordem ali. Talvez houvesse alguns livros de magia a mais sobre a mesa. Livros de Poções, Harry percebeu assim que se sentou. Snape trancou a porta.
– Antes de mais nada, Potter, quero lhe dizer que eu gostaria de não precisar trazê-lo a esta sala nunca mais...
– Como se eu quisesse voltar – Harry resmungou baixinho.
– ...mas vou precisar da sua... hã... colaboração.
– Achei que você ia me dar uma detenção – Harry desafiou.
– Não será preciso – o professor respondeu de má vontade -, desde que você colabore.
A cadeira era dura, mas o real desconforto de Harry estava em ficar trancado num mesmo lugar que Severo Snape. Ambos sabiam que o ódio que nutriam um pelo outro era mútuo. Um ódio nascido bem antes do próprio Harry.
– Não vejo como posso ser útil – Harry retrucou, com ar de zanga, evitando olhar para qualquer ponto do rosto a sua frente.
Severo fulminou-o com o olhar. Garoto petulante! Mas ele saberia. Era um protegido de Dumbledore, afilhado de Sirius. Ele saberia.
– Quero uma resposta curta, Potter. Curta e objetiva. Vi você cochichando com uma aluna da Sonserina algumas vezes...
Aluna da Sonserina? A única aluna da Sonserina com quem Harry mantinha algum contato, ainda que restrito e secreto era...
– Não faço a menor idéia de quem o senhor está falando. – ele desconversou. Não diria nada que Snape quisesse ouvir. Nada. Mesmo que fosse algo sem importância.
– Não se faça de desentendido, moleque! – Snape se levantou e jogou o corpo para frente, numa postura ameaçadora.
Os olhos verdes de Harry chisparam de raiva. Sem dar-se conta, agarrou a própria cadeira para evitar que suas mãos procurassem a varinha. Sua única vontade naquele exato momento era azará-lo.
– Eu só quero que você confirme. Elas são a mesma pessoa, não são? Ande, responda.
– Se eu souber de quem você está falando, posso pensar se sei a resposta.
Foi a vez de Severo Snape se preocupar em ficar calmo. Maldito moleque. Petulante como o pai, irritante como o padrinho e mimado em demasia para o ego de qualquer pessoa normal.
– Quer que eu seja claro, eu serei, Potter – ele praticamente cuspiu o nome do garoto: – Catharina Silver é na verdade Helen Rasputin, certo?
– Se você diz... – Harry deu de ombros, fingindo estar surpreso. – Tirando a diferença de idade, elas são bem parecidas mesmo... – disse com tom de deboche, contente em provocar frustração em Snape.
O professor procurou a varinha no bolso, mas a consciência lhe impediu de sacá-la contra o garoto no último segundo. Não conseguiria nada de Harry Potter. Não daquele jeito.
– Muito bem. Talvez... talvez possamos trocar figurinha, Potter. Quem sabe, você pára de se fingir de bobo e eu não conto o que sei sobre Sirius Black à toda a imprensa bruxa... Você sabe que se descobrirem que ele é um animago, a busca seria bem facilitada. Talvez eu pudesse dizer até mesmo o paradeiro...
– Você não pode. – as linhas do rosto de Harry se contorceram. Não ia ceder a uma chantagem barata: – Dumbledore proibiu todos nós de tocar nesse assunto. Você não vai dizer nada a ninguém.
– Por que não? – o professor desafiou: – Me dê um único bom motivo pra não fazer isso. Definitivamente, eu não tenho nada a perder em ver aquele idiota ganhar o beijo do dementador.
Harry se levantou enfurecido pelas imagens que as palavras de Snape levavam sua mente a imaginar.
– Um motivo... Você quer um motivo? A confiança que Dumbledore deposita em você não é suficiente? Mas você está mostrando quem é, não, Snape? Eu NUNCA acreditaria num ex-comensal da Morte.
Snape engoliu em seco e retrucou:
– Acreditou num no ano passado... – ele revidou: – E, para o resto do mundo mágico, seu padrinho querido ainda é um. Vamos, moleque. Eu só quero que você confirme. Tenho certeza de que ela...
– E por que EU saberia? Pergunte a ela... – ele deu de ombros novamente e procurou pela saída. A chave não estava lá e a porta continuava trancada.
O professor sentiu as palavras como punhaladas. Ele já havia perguntado e ela... ela tinha se esquivado. Ela sempre se esquivava dele. Desde os tempos em que ambos eram estudantes. Desde o tempo em que ele disfarçava a paixão recolhida como amizade incondicional. Ele engoliu o próprio orgulho e insistiu mais uma vez.
– Você saberia porque Sirius sabe. Ela não esconderia isso dele.
Harry ouviu as últimas palavras com atenção e relembrou o primeiro encontro dos três. Helen Rasputin e Sirius Black tinham uma ligação. O padrinho lhe contara que, muito tempo atrás, ela fizera parte de sua vida e da de seus pais. Mas tudo era passado. A mulher já estava casada, tinha filhos, e parecia odiar Sirius com a intensidade de mil sóis.
– Ele nunca me disse nada. Agora me deixe sair. Eu já disse que não tenho a resposta.
A contragosto e arrependido, Snape destrancou a porta com um aceno de varinha. Harry deixou o local já esquecido de procurar Rony e Hermione. A noite fora péssima e o dia começara ainda pior.
O vento gelado deixava as bochechas de Lyra ruborizadas enquanto a menina atravessava o jardim branco e sem flores do castelo àquela época do ano. O chocolate quente e forte que tomara há pouco no Salão Principal já tinha perdido totalmente o efeito. Não fosse o grosso cachecol roxo de estimação, que ganhara aos sete anos de sua avó paterna, teria pegado um forte dor de garganta. Mas ela não se importava. Nem mesmo o ar congelante podia deter seu sorriso naquela manhã gelada. Há tempos não se sentia tão bem.
Seguramente o irmão era o grande responsável por aquele momento de felicidade, mas havia outros detalhes conspirando para que seu dia fosse impecável. Primeiro, era inverno e Lyra sempre preferira o frio ao calor. Talvez por isso fosse tão alva; não tolerava temperaturas altas, ainda que gostasse de sol. Na concepção da menina, manhãs perfeitas eram exatamente como aquela: muito frio, um sol tímido, neve derretendo lentamente e um lago imenso congelado por inteiro.
Antes de calçar o par de patins, ela pisou com cuidado na primeira camada de gelo. Era sólida e resistente, ideal para o esporte. Riu como boba ao constatá-lo e pôs-se a alargar os cadarços das botinhas brancas antes de tirar os tênis e pisar, mesmo que por um breve instante, na terra misturada com neve. Aquele era o segundo motivo de tanta alegria; patinar lembrava-lhe a Rússia e a fazenda comunitária onde moravam seus avós. Lembrava-lhe as tardes de domingo em São Petersburgo, quando dava voltas e mais voltas de mãos dadas à mãe, observada pelo pai e pelo irmão pequeno.
O terceiro motivo não tinha nada a ver com saudades. Limitava-se simplesmente ao prazer de se ver sozinha, quase independente, sem olhares atentos e maldosos a vigiar seus movimentos. Tinha essa sensação desde que chegara à Inglaterra e constantemente, em seus sonhos, associava-a à imagem do cachorro negro que batera à porta de sua avó meses atrás, logo no início das férias. Não importava o que lhe dissessem sobre Sirius Black – e a maioria das coisas não eram boas -, ela simplesmente não gostava dele.
– Cuidado para não cair!
Um instante de surpresa e ela perdeu o equilíbrio. O gelo queimou-lhe parte da coxa exposta entre a barra da saia plissada e a meia três-quartos. Mas o que realmente a tinha chateado era o fato de que não estava assim tão sozinha quanto imaginava. Michael!
– Obrigado. – ela retrucou num tom de voz carrancudo, típico das primeiras vezes em que se falaram, e se levantou novamente, com algum custo. O gelo estava extremamente escorregadio.
– Patins, hum? – ele não se abalou com os resmungos. Ele nunca se abalava. – Vi um desses outro dia na aula de Estudo dos Trouxas. Parecem legais.
Ela cruzou os braços, escorada firmemente sobre as lâminas e as pernas rígidas. Olhou-o de alto a baixo, deixando de se sentir baixinha pela primeira vez desde que entrara naquela escola. Ganhara pelo menos dez centímetros e agora aparentava quase a mesma altura do garoto a sua frente. Michael trazia a vassoura de corrida debaixo do braço e estava vestido com o uniforme de treinos do time de quadribol da Corvinal
– Se não se importa... – ela fez menção de deixá-lo sozinho.
– Eu me importo. O capitão do time da Sonserina está discutindo com o Davies pra ver quem tem o direito de treinar agora pela manhã. Ta um brigueiro lá dentro – ele olhou de relance para o castelo. – Por que você não fica aqui pra gente... hum... conversar?
Ela deslizou de costas, o sorriso de volta ao rosto:
– Por que você não vem pra cá? – desafiou.
Era a primeira vez que via Michael franzir o cenho, analisando a situação. Ele definitivamente não parecia muito atraído à idéia de tentar se equilibrar em duas lâminas afiadas sobre uma placa de gelo. Que diversão havia naquilo?
A leveza de Lyra escorregando de um lado para o outro, dando piruetas e espirrando gelo propositalmente no garoto, por fim convenceram-no a tentar. Chamou a menina, que enrolou um pouco antes de atender ao pedido, e mediu com a varinha as proporções da lâmina para com a bota. Era um bom aluno de transfiguração e um mestre na arte de improvisar. A menina ficou impressionada ao vê-lo acrescentar placas de ferro nas botas de couro de dragão que usava e pensou que ser bruxo não era assim tão mal. A mãe tivera de guardar todas as suas economias por quase um ano para poder presenteá-la com aquele par de patins. Com magia, bastava comprar um par de botas qualquer ou, até mesmo, adicionar lâminas aos seus confortáveis tênis.
Ela ofereceu a mão direta para ajudá-lo a encontrar o equilíbrio. Michael deu alguns passos inseguros, andando ao invés de deslizar, do que a menina fez troça. Não esperava dele grande habilidade, mas ver o seu desconcerto era bastante divertido. Passou a guiá-lo devagar.
– Pense neles como uma extensão das suas pernas e pés – ela dizia. – Isso, já está melhorando. Só não vá muito para o centro do lago... Ali o gelo costuma ser mais fino e pode não agüentar seu peso.
– Tá me chamando de gordo, russinha?
– Bem – Lyra parou bruscamente, fazendo com que ele tropeçasse nos próprios pés e caísse desajeitadamente – magro, magro você não é. Magro é meu irmão... Um palito, aliás.
Michael riu, sem se ofender com as palavras da menina. Então pediu ajuda: não conseguia se levantar sozinho de jeito nenhum e já podia sentir certas partes de seu corpo congelando pelo contato com a superfície.
Nem todo o esforço da garota compensava a falta de jeito naquela situação e não demorou para que, em vez de um, os dois acabassem estatelados sobre o lago petrificado. Ainda que a situação fosse engraçada, Lyra não conseguia rir, atordoada por perceber que Michael não desfizera o elo. Ele continuava a segurar sua mão firmemente, sem disposição para largá-la.
– É, acho que agora temos que esperar nossos corpos congelarem e acordar daqui a algumas vidas, ainda jovens, quando os netos dos nossos amigos estarão freqüentando esta escola...
– Bobo – e ela o soltou, disposta a mostrar que não se renderia tão facilmente.
Foi quando se apoiava na mão esquerda que notou o vulto logo abaixo do gelo opaco de tão grosso.
Er... tem algo se mexendo embaixo de nós, Michael.
– Tem? – ele olhou para baixo, mas não viu nada além de uma mancha escura e disforme. – Deve ser só alguma pedra muito grande, russinha.
– Não sei. Vamos, pare de enrolar e se concentre em levantar. Eu não estou com um bom pressentimento...
E com as últimas palavras, os corvinais ouviram o primeiro estalar do gelo partindo. O garoto tentou se levantar mais uma vez, mas logo desequilibrou-se.
– Segura em mim, Michael. Assim.
Lyra tentava manter a calma, os claques, entretanto aumentavam cada vez mais. A pouco mais de cinco passos das costas do rapazinho, ela viu surgir a primeira rachadura. Puxou-o com toda a força que podia, mas só conseguiu deslocar-lhe o polegar.
– Au! – ele gemeu, ainda tentando se estabilizar sobre as lâminas de ferro.
Uma nova queda. A irritação de Michael e a apreensão de Lyra chegaram ao limite e ambos sacaram as varinhas dispostos a livrar as botas das lâminas. Todavia o resultado foi desastroso. Um feitiço rebateu o outro e abriu uma pequena cratera logo ao lado do garoto. Tiveram apenas o tempo de se olharem uma vez e um dos tentáculos da lula gigante emergiu pela abertura.
– Admirando a vista, Mione?
– É. Nem acredito que finalmente vão ser entregues.
A garota passou as mãos entre os fios emaranhados procurando assentar os cabelos enquanto Rony despachava a última coruja daquela manhã. Nas últimas 24 horas não tinha experimentado uma sensação de paz tão forte e profunda quanto a que sentia agora, olhando o horizonte. O rapaz ruivo se aproximou.
– Dever cumprido?
– Mais que cumprido – ela levantou o rosto e empinou o nariz, orgulhosa.
– Isso quer dizer que eu finalmente estou liberado para tomar o café? – o pedido de Rony era quase uma súplica.
Ela apenas sorriu e balançou a cabeça. Seus olhos ardiam pelo cansaço e pela falta de dormir, mas, por dentro, Hermione continuava elétrica. Tudo o que mais queria agora era ver a reação dos outros alunos, os comentários, o burburinho, as discussões. Aqueles pergaminhos iriam colocar toda Hogwarts – e por que não o mundo mágico? – em polvorosa e ela não conseguia esconder o quão satisfeita estava consigo mesma e com seu melhor amigo.
Amigo? Um frio lhe percorreu a espinha quando Rony descuidadamente, envolvido pelo clima de euforia, passou o braço direito sobre os ombros da menina, conduzindo-a a para a saída. Era a segunda vez que ele fazia isso naquele dia comprido, mas só naquele instante ela se deu conta de que nunca haviam estado tão próximos. Não apenas fisicamente.
Assustada, ela livrou-se dos braços de Rony, provocando desconcerto no garoto. Ele fizera tal ato tão inconscientemente que...
– Acho melhor a gente ir comer, certo? – ele sugeriu, sem olhar para ela, um pouco envergonhado.
– Certo. – ela respondeu e voltou-se mecanicamente para a saída.
– Ah, Mione...
A garota congelou o passo.
– Er... bem... eu tava pensando...
– Pensando... – ela repetiu baixinho para si mesma sem se virar para ele.
– O que nós vamos dizer para o Harry?
– Como? – Hermione reagiu, surpreendida com a pergunta. Imaginara que Rony falaria de OUTRA coisa. Ou talvez só desejasse que isso acontecesse.
– Temos que combinar o que nós vamos dizer para o Harry. – ele confirmou, estranhando o comportamento da amiga.
– Ah, é. Lógico. Mas a gente pode discutir isso no caminho, né? Estou morrendo de tanta fome.
O ruivinho deu de ombros e segui-a. Hermione estava andando depressa demais para quem queria combinar os últimos detalhes durante a caminhada. Entretanto, acertaram que não podiam inventar nada muito complexo, ou acabariam entrando em contradição conforme Harry pedisse detalhes. Precisavam de uma desculpa simples, mas que não fosse tola. Uma desculpa em que a presença deles dois fosse essencial e a de Harry praticamente proibida.
– Essa desculpa simplesmente não existe, Mione – ao chegarem ao primeiro andar sem uma idéia decente, Rony começou a se afligir.
– Existe, lógico que existe. TEM que existir, Rony.
– Mione, ele é nosso melhor amigo. Não existe uma razão suficientemente forte pra excluirmos ele do que quer que seja. A não ser isso que estivemos fazendo, é lógico! Mas não podemos contar isso a ele, pois se contar... Harry está atrás de mim, certo?
Invariavelmente, Rony havia percebido os apelos de Hermione tarde demais. Não era Harry, mas Gina quem ouvira parte da conversa.
– Ah, é você – ele passou a mão pela testa enxugando o suor de nervoso. – Ufa!
– Nossa, tô vendo como você me leva a sério. – a ruivinha fez pouco do irmão.
– Gina, não nos leve a mal. É que estamos...
– Eu ouvi, Hermione, e presumo que, se não querem contar algo pro Harry, pra mim então...
Hermione levantou as sobrancelhas, analisando a idéia despropositada que lhe surgira naquele instante. Contar tudo a Gina? Não, era um absurdo. Quanto menos pessoas soubessem, menor seria o risco. Mas... Gina era uma boa amiga e era esperta. E Rony e Mione definitivamente tinham esgotado seus neurônios de tanto pensar numa desculpa apresentável.
– Hermione, eu PRECISO tomar meu café – Rony reclamou, tentando assim se livrar da irmã caçula, que parecia estar decifrando os pensamentos da colega de casa.
– Vocês vão me contar? – os olhos castanhos ficaram ainda maiores do que já eram.
– Lógico que... Mione, não! Nós já discutimos isso uma centena de vezes... Por Merlim, desde quando eu sou o racional aqui?
– Rony, nós já pensamos todos os absurdos possíveis. E bem, é a Gina, ela não vai contar pra ninguém...
A ruivinha estava cada vez mais intrigada e curiosa:
– É lógico que não!
– Mione, você... você...
– Você consegue achar alguma desculpa para darmos ao Harry, Rony? – ela foi franca.
A contragosto, ele se rendeu:
– Não. Muito bem, Gina, você tem que prometer que não vai contar nada a ninguém.
– Eu prometo – ela disse com ar de pouco caso para o ar dramático do mais novo dos irmãos.
– Mas não aqui – a sensatez voltara a Hermione. – Paredes têm ouvidos. Principalmente em Hogwarts.
Quase dez horas da manhã e só agora tinham um intervalo. Terêncio Higgs nunca gostara das aulas de Herbologia; não passavam de pura perda de tempo. Por que deveriam aprender a cultivar ervas se havia dezenas de lojas em locais como o Beco Diagonal e Hogsmead, que as vendiam embaladas a vácuo e prontas para uso?
As aulas eram costumeiramente lentas e monótonas, e naquele dia, depois de toda a confusão aprontada por duas de suas colegas de casa, sua ansiedade deixava a impressão de que o tempo tinha parado. Lidar sozinho com um vaso fundo cheio de esterco não colaborava para melhorar a situação.
Livre, finalmente livre. Aos menos nos próximos quinze minutos. Era o tempo que tinha para encontrar Catharina. Ou Betelgeuse. A intimidade com que conhecia ambas lhe dava a certeza de que encontraria a outra assim que descobrisse o paradeiro da primeira. Mas onde raios estariam àquela hora da manhã?
Talvez houvesse pegadas. O derretimento da neve ainda não fora capaz de apagar os rastros deixados. O difícil seria descobrir em meio a tantas marcas deixadas por alunos, quais as de suas 'amigas'. Vendo que a maioria tomava o rumo do castelo – o destino natural de qual ser vivo naquele tempo gelado –, ele optou por seguir o caminho inverso. E selecionando as menores pegadas deixadas no solo – Catharina era baixa, assim, devia ter pés pequenos –, traçou sua trajetória pelos terrenos inclinados que cercavam o prédio. Não demorou muito para que restassem poucas marcas pelo chão. Ele podia dizer com certeza que era a quarta pessoa a circular por aquele local. Dois dos rastros, ele deduzira que fossem das sonserinas, mas não fazia idéia de quem poderia ser a outra pessoa a deixar marcas ainda maiores que as suas naquela mesma direção.
Quando finalmente as pegadas pareciam ter se separado – a maior e a menor seguindo adiante, rumo a uma clareira, e a terceira desviando-se para o lado dos arbustos – , ele sentiu uma fisgada no braço, seguida por um puxão.
– Shiiiiiiiiuuu – Betelgeuse colou o dedo indicador em seus lábios impedindo que fizesse algum som. – Sabia que mais hora, menos hora, você poderia aparecer para estragar tudo. Fique quieto e mexa-se o mínimo possível.
Sua voz não era mais alta que um sussurro. Talvez pelo susto, talvez porque sempre fora subserviente à garota, o sonserino manteve-se em silêncio. Viu-a agachar-se numa posição desconfortável, perto de uma falha entre os ramos espinhentos e, por fim, entendeu o objetivo da menina. Vozes. Muito baixas, é verdade, quase murmúrios, mas ainda vozes. E uma delas era inconfundível: Catharina Silver.
– Ela... Ela... Ela tem um... namorado? – ele relembrou as pegadas.
Betelgeuse olhou feio pra ele e fez sinal para que continuasse em silêncio. Depois chamou-o para perto dela:
– Namorado? Não, creio que eles são mais do que isso – procurando manter a voz no tom mais baixo possível. – Reconhece?
Higgs sentiu os arbustos arranhando seu rosto, empurrado pela menina para junto do vão. Os olhos arregalados viram um casal saindo de um abraço apertado e tenso.
– SIRIUS BLACK! – o grito de terror escapou.
– Idiota!
A garota se levantou o mais rápido que pôde e pôs-se a correr como um lince. Em pouco desapareceu. Ele, tendo prendido a capa num arbusto, não foi tão feliz. Do mesmo vão em que observava o casal, surgiu um enorme cachorro negro, de pêlos arrepiados. Primeiro Sirius Black e agora o Sinistro: definitivamente, a morte era seu próximo passo.
Murmurou suas súplicas num dialeto próprio, ditado pelo nervosismo, e só teve coragem de reabrir os olhos quando ouviu a voz esganiçada de sua melhor amiga.
– Ah, não, logo você?
– Cathy! Cathy! Eu juro... eu não queria. Você sabe que eu não estava te espionando, não sabe? Foi ela, é sempre ela! A B me arrastou aqui. Mas eu não ouvi nada. NADA!
– Betelgeuse estava aqui? – ela franziu o cenho, olhando de canto para o cachorro. – Não faça essa cara, eu não vou enfeitiçá-lo.
O cachorro latiu e ameaçou avançar contra a menina.
– Não vou e pronto. Você sabe muito bem que eu posso machucá-lo.
– Você tá falando comigo? – Higgs achou impossível que ela estivesse falando com um cachorro.
– Cala a boca, Higgs – ela retrucou irritada. – Vamos ter que pensar num outro jeito. Ele não me preocupa, mas ela...
– Ah, ele está sob uma capa da invisibilidade, não está? – Higgs achou que finalmente tinha compreendido onde estava Sirius Black.
Cathy revirou os olhos e o cachorro rosnou para o sonserino, que voltou a sentir arrepios de medo.
– Ele definitivamente não precisa ser enfeitiçado...
– Eu... eu não estou entendendo nada – o garoto arriscou.
– Quer saber? É melhor assim. – ela finalmente desvencilhou a capa do amigo do galho que o prendia. – Vocês dois chegaram juntos? Betelgeuse ouviu o mesmo que você?
– Er... bem... eu não cheguei a ouvir nada...
– Higgs, eu não quero saber sobre você, mas sobre ela! Nossa amiga Betty estava aqui antes de você, ou não?
– Ela saiu logo depois de você – ele finalmente respondeu o que a garota (não) queria ouvir. – Acho que ela deve estar aqui há, pelo menos, uma meia hora.
O cachorro latiu novamente e Cathy balançou a cabeça preocupada.
– É, acho que é nossa única alternativa. Higgs, pra que lado ela... – Sirius chamou sua atenção com um latido. – Ah, é, claro, você pode farejar... Eu tinha esquecido. O que é que nós estamos esperando, então?
A garota e o cachorro saíram desabalados pelo mesmo local onde, alguns minutos antes, Betelgeuse desaparecera. Higgs tentava racionalizar tudo aquilo, mas nada parecia fazer sentido, especialmente a parte em que via sua amiga conversar com um cachorro. E Sirius Black havia sumido misteriosamente... Estaria escondido sob uma capa da invisibilidade? Por via das dúvidas, resolveu participar da corrida atrás de Betelgeuse. Ficar sozinho no meio do nada com um assassino escondido não era o que podia chamar de segurança.
– Droga! A esta altura ela já deve ter chegado ao castelo. – Higgs podia ouvir os resmungos de Cathy pouco a sua frente. – Por onde é que você está indo? Afff, não me diga que é mais um de seus atalhos?
Seguiram-se alguns latidos e pouco depois estavam próximos ao grande lago congelado. O rapaz, sendo o último a sair do encarceramento de moitas e árvores, acabou por trombar com o cachorro. Tanto o animal como a menina estavam paralisados. Ao levantar os olhos do chão, Higgs entendeu o motivo: a lula gigante erguia-se majestosa na outra margem do lago, destruindo as pedras de gelo que tentavam barrar seus tentáculos.
Ouviram um grito apavorado e contínuo de garota e os pedidos de socorro de um garoto. O espetáculo visual era tamanho, que o sonserino não sabia como tinha conseguido ouvir alguma coisa. E não fora o único.
– Lyra!
E viu a amiga voltar a correr desabalada, desta vez, rumo ao perigo iminente. O cachorro em seu calcanhar.
– Um encontro?
Harry repetiu a última palavra da enxurrada que Hermione e Rony soltaram logo ao avistá-lo. Depois dos quinze minutos trancafiado com Snape, a fome aumentara e ele acabara retornando ao Salão Principal, onde o tumulto entre sonserinos e corvinais começava a chamar a atenção. Era naquela bagunça, mais especificamente numa jogadora da Corvinal, que seus olhos estavam fixos antes do casal de amigos despertá-lo com uma dezena de frases desconexas.
– Parem. Parem. Eu sequer perguntei onde vocês estavam... – ele fitou Rony e Hermione incrédulo.
O ruivinho ficou paralisado. Idiotas! Era isso que ele e Hermione eram. Idiotas! Podiam ter passado por aquela sem inventar nada. Principalmente aquilo.
– Vocês não tinham pedido pra eu respeitar os segredos de vocês? – Harry levantou as sobrancelhas, com vontade de rir pela primeira vez desde que o dia começara.
– Hum... é! – Hermione assentiu, franzindo o cenho, pensativa. Ambos eram estúpidos. E nada mais. Tinham se complicado à toa.
– Mas isso não quer dizer que eu não esteja interessado – Harry finalmente se animou. – Sentem. Eu estou morrendo de fome, vocês não? Só queria entender uma coisa: vocês marcaram um encontro para as três horas da manhã? Estranho... Mas mais estranho é vocês lembrarem dele depois de tudo o que aconteceu essa noite e tããão de repente. Muito bem. Estão tentando esconder o que de mim? Agora que começaram, desembuchem.
Rony respirou fundo, apavorado e apenas olhou para Hermione. Ela levou alguns segundos para decidir sentar-se com o colega de casa e sorrir, passando geléia numa torrada.
– Bem, tudo aconteceu quando eu vi a revista...
O ruivinho caiu sentado no banco. Ela ia contar tudo.
– Eu já tinha visto aquela revista, sabe, Harry. Não faz muito tempo, a Parvati levou uma cópia para a aula de História da Magia. Nem precisa começar a perguntar. Lógico que eu estava prestando atenção à aula. Vi na saída, quando estávamos guardando o material na mochila e ela me ofereceu. Disse que tinha um teste que eu devia fazer...
Aquela não era a história que Rony estava esperando ouvir.
– O teste "Qual seu par ideal?" É, eu sei que é ridículo – ela revirou os olhos – e só por isso você já devia entender pq eu não quis falar nada. O problema é que eu fiz o teste e, hã, foi quando estava respondendo as perguntas que, bem... hum... que eu me toquei que... bem, que pra responder cada uma delas eu sempre pensava na mesma pessoa.
À medida que novas palavras saíam, mais as bochechas de Hermione ruboresciam. Crédulo de que a menina estava inventando a história, Rony resolveu participar.
– Ei, eu não sabia dessa parte. Quer dizer que foi por isso...
Harry desviara os olhos para Rony, mas o ruivinho não conseguia ir além daquele ponto. Mordeu os lábios e enrugou a testa, pedindo o socorro de Hermione. Ela estava pronta:
– É, foi por isso que inventei a reunião da monitoria à qual mais ninguém apareceu. Lembra, Harry, que na semana passada você estranhou quando eu disse que tinha reunião e você encontrou a Lisa Turpin aqui no Salão? Foi por isso. Eu tinha escolhido aquele dia pra... pra dizer pro Rony... Pra dizer... Ah, vocês sabem o que eu queria dizer.
– Ele já sabe que você gosta dele, Mione. Não precisa ficar roxa!
Harry debochou e foi a vez do rosto de Rony avermelhar-se. Ouvir tal frase lhe dera uma idéia, mas ainda não sabia se conseguiria dizê-la em voz alta.
– Er, e ontem deveria ter sido nosso primeiro encontro. Por isso eu peguei emprestado sua capa. Não queríamos que ninguém visse...
– Mas eu fiquei preocupada com a sua demora – Mione emendou, deixando o ruivo com uma pontinha de ciúmes. – E Rony teve a idéia de fazermos uma ronda pelo castelo para tentar encontrá-lo antes de sair.
– Também tínhamos visto o Snape ir buscar o Neville e você tinha dito que estaria tendo aulas de reforço...
– Nem me lembra do Snape. – Harry sentiu o sangue ferver novamente de lembrar do interrogatório daquela manhã.
– Presumimos que alguma coisa estava errada...
– E acabamos por te encontrar num dos corredores...
– O resto você sabe, não é? Quer dizer, sabe até a parte em que eu vi a revista. Pq, bem, quando eu vi a revista, eu lembrei que o encontro não tinha acontecido e...hum, você sabe sabe como são os... hã... hormônios na nossa idade.
Uma explosão de risadas se seguiu ao discurso da garota que deu uma cotovelada no suposto namorado.
– Ronald Weasley!
Segurando algumas lágrimas, ele se desculpou.
– Foi mal, Mione. Mas é que, ouvir você falar a palavra hormônios...
– ...é hilário. – Harry apoiou o amigo, deixando a menina indignada. – Mas pra você ter falado, é pq realmente tem algo de sério nisso, ainda que seja a história mais sem pé-nem-cabeça que eu ouvi nos últimos tempos.
– Mas é a mais pura verdade – Rony ficou sério de repente.
– É mesmo, maninho?
– Mamãe precisa saber disso, não acha, Fred?
O ruivinho sentiu as orelhas afogueando ao ouvir a voz de seus irmãos mais velhos. Harry viu Gina olhando a cena de longe e segurando o riso. Ela teria armado tudo aquilo?
– Não! Vocês não podem! Não mandem uma coruja para mamãe! Pelas barbas de Merlim, vocês lembram o que aconteceu com o Percy quando ela soube da Penélope Clearwater.
– Não, na verdade eu não to lembrando – Jorge se fez de sonso.
– Será que ela mandaria uma cartinha de recomendações? Oito regras simples para namorar meu filho adolescente.
– Regra número um...
– Quanto vocês querem? – Rony, visivelmente desesperado, agarrou-se à gola das vestes de Jorge. – Eu-eu dou qualquer coisa, mas não contem à mamãe!
Hermione se ressentiu com a atitude do namorado inventado. Tudo bem que não quisesse criar falsas expectativas na família, mas aquilo já era exagero.
– Nossa! Você tem tanta vergonha assim de mim? Além do mais, eu já conheço a Sra. Weasley, não vou ficar impressionada com nada.
– Hermione, eu estou fazendo isso pelo NOSSO bem.
– Nós já temos um preço – Fred falou com um sorriso malicioso nos lábios que Rony sabia que não significava boa coisa.
– O seu distintivo – Jorge estendeu a mão para receber o pagamento.
– O meu distintivo? – Rony olhou para a própria lapela.
– Ele não pode dar o distintivo pra vocês! – Hermione retrucou.
– É melhor não dar palpite ou vamos querer o seu também, Granger.
– Agora você faz parte da família, é bom ir se acostumando. – Fred alertou.
Harry olhou para onde tinha visto Gina inicialmente. Ela continuava lá, agora rindo descontraidamente. Ele só não entendia porque a garota não se aproximava. Certamente ficara sabendo do namoro mais cedo e contara aos gêmeos, mas porque não aproveitaria para tirar uma casquinha?
– Tudo bem – Rony abriu o alfinete dourado com cuidado. – Tomem. Não vou poder usá-lo por muito tempo mais mesmo. Porque não entrega o seu também, Mione, quando descobrirem o que fizemos com o Malfoy...
– Malfoy? – os gêmeos e Harry arregalaram os olhos para o casal.
– É. – Hermione começou a tirar o broche polido com esmero. – Eu não recomendaria que ninguém atrapalhasse um de nossos encontros... hum... amorosos. Poderia causar um sono profundo no intrometido! – e entregou o distintivo a Jorge.
– Isso quer dizer... – os gêmeos viraram para trás e gritaram. – MALFOY NÃO VEM! O CAMPO É DA CORVINAL!
Os gêmeos acenaram para Lino Jordan e se misturaram à bagunça de uniformes verdes e azuis, apenas para provocar mais alvoroço. O capitão Roger Davies já ordenara que todos os jogadores se dirigissem ao campo e, a menos que os sonserinos se apresentassem integralmente, não poderiam barrar o treino nem com uma ordem escrita por Dumbledore. Era preciso time completo para reivindicar o campo quando outra equipe estivesse treinando e Malfoy estava mais de uma hora atrasado.
– Ei, Harry, o jornal ainda não chegou? – Hermione perguntou como quem não quer nada, pegando outra bolacha com geléia.
– Hoje é sábado. As corujas passam um pouco mais tarde – Rony respondeu de boca cheia.
– O que vocês acham de assistirmos ao treino da Corvinal?
Os olhos de Harry voltaram a se fixar na apanhadora de olhos amendoados do time azul. Cho Chang exibia um sorriso radiante de vitória. Os corvinais puseram as vassouras sobre os ombros e começaram a sair. O capitão da Sonserina tentou argumentar que faltava um artilheiro no time da Corvinal, mas Davies devolveu a reposta imediatamente.
– O Turpin está lá fora, escolhendo as melhores bolas!
– Lyra! Lyra, você está bem? – Cathy gritava da margem mais próxima à menina.
Lyra virou-se para o lugar de onde a chamavam e não soube se devia ficar mais assustada com o monstro a sua frente ou com a figura que acompanhava sua suposta irmã. Não via aquele cachorro desde as férias e preferia continuar sem vê-lo. Sentiu um arrepio gelado subir-lhe a espinha e olhou uma vez mais para a aluna da sonserina que tanto se parecia com sua mãe. Agora, com o desespero estampado no rosto, estavam mais semelhantes do que nunca.
– Eu estou bem – ela se sentiu no dever de acalmá-la. – O problema é ele! – e apontou para o alto, onde a lula sustentava Michael Turpin de ponta-cabeça.
– Nós vamos tirá-lo de lá. Venha pra margem, querida.
Lyra fitou o cachorro negro uma última vez e forçou-se a deslizar pelo gelo naquela direção. Parou bruscamente quando um dos tentáculos se colocou em seu caminho. Atrás de si, o gelo começava a estalar; à esquerda, o gelo estava muito fino; à direita, ficava a cratera por onde a lula gigante se erguia e à sua frente havia agora uma barreira. Estava ilhada.
– Eu vou buscá-la – Catharina ficou apreensiva.
– Não – Sirius se destransformou rapidamente impedindo-a de pisar no gelo. – O gelo está fino, veja. Mesmo você, leve como é, correria o risco de ter o chão se abrindo sob seus pés.
– É a minha filha, Sirius! Você quer que eu a deixe virar comida da lula gigante.
Sirius encarou-a com profundo desgosto e então retrucou irritado, segurando-a pelos braços:
– Eu sei que você está aflita, Helen, mas, por Merlim, tente agir racionalmente. Em primeiro lugar, como ótima aluna de Trato das Criaturas Mágicas que você sempre foi, você sabe que a lula é vegetariana. Ela pode machucá-los, sim, estrangulá-los, mas não pra comer...
– Nossa, você me deixou aliviada agora... – ela ironizou, enquanto experimentava a espessura do gelo com a ponta do pé direto. Um pouco de força e a placa trincou.
– O que eu estou querendo dizer é que o risco é maior se ela sair de lá, Helen! A lula, apesar de tudo, está querendo brincar, mas se ela cair na água, a essa temperatura...
Ela sentiu duas lágrimas congelarem junto ao rosto frio. Tinha que tirar a filha dali, de qualquer jeito.
– Onde está o garoto?
– Higgs? Ou aquele ali de cima?
– O seu amigo, Helen! Eu não sei o nome dele!
Percebendo que falavam dele, Higgs se mostrou. Estivera observando tudo detrás de uma pedra. Sirius Black era um animago e chamava a filha pelo nome da mãe. Agora entendia o que Betelgeuse vira de tão fascinante naquela história.
– Vá até o castelo pedir ajuda. Vamos precisar de vassouras pra tirar o garoto do alto. E quanto a Lyra, não se preocupe... – e transformando-se num cachorro novamente, Sirius avançou para dentro do lago.
Ainda que fosse mais leve que um humano adulto, era um cachorro grande e pesado. Ouviu alguns estalares enquanto deslizava desequilibrado sobre o gelo, as patas queimadas pelo contato com o frio excessivo. A lula continuava a virar Michael de um lado para o outro, e os berros roucos do garoto demonstravam que não estava gostando nem um pouco de ser o brinquedo da vez.
Ao perceber o animal negro se movendo sobre a superfície branca, o mais conhecido habitante do lago deixou um de seus tentáculos descer com força, destruindo gelo, para, em seguida, agarrar o cachorro com o mesmo membro antes adormecido diante da aluna do primeiro ano da Corvinal.
– SIRIUS! – o grito de Catharina ecoou pelo local. A aflição dobrara.
Ao menos Lyra não se fez de rogada. Tão logo a passagem ficou livre, colocou toda a força que tinha nos pés e escorregou para a margem mais próxima. Prestava atenção ao gelo, para não pisar num lugar inadequado. Os pensamentos agora destinados apenas a salvar a própria pele. "Egoísta!", viu-se pensando. E num momento de remorso, deixou de fitar o gelo para olhar o alto. Michael e o cachorro debatiam-se e uivavam. Como poderia tirá-los dali...
Uma pequena distração e ouviu um estalar alto. Freou os patins com força e viu abrir, entre ela e a margem onde sua irmã a esperava, uma grande falha. Debaixo do pé direito, o gelo cedeu e Lyra sentiu corpo e pensamentos adormecerem instantaneamente ao cair dentro da água gelada.
Higgs não esperou segunda ordem de Sirius para sair em disparada em direção ao castelo. Contrariar bruxos declaradamente loucos (ainda que este lhe parecesse bastante lúcido) podia ter resultados catastróficos. Não tinha ainda se afastado muito da margem do lago quando enxergou o bando de uniforme azul e mais alguns alunos seguindo em direção ao campo de treinos. Sirius pedira vassouras... Existia algo mais conveniente que um time inteiro de jogadores de quadribol devidamente equipados para voar?
Correu o mais rápido que pôde para junto do grupo e viu o rosto do capitão da Corvinal se contrair em desagrado. Antes que ele conseguisse expor o acontecido, Roger Davies disparou:
– Não vamos aceitar substitutos. Se Draco Malfoy não pode participar do treino, azar da Sonserina. Nós tínhamos reservado o campo primeiro e...
– Malfoy! – o sonserino franziu o cenho. – Eu to me lixando pro Malfoy. Quero mais é que ele se exploda, junto com o time inteiro. Mas... isso não interessa. Eu preciso de uma vassoura. E rápido.
– Como é que é? – Cho Chang, a apanhadora, foi a única a expressar a surpresa e ironia em palavras. – Quer que umd e nós empreste uma vassoura pra VOCÊ?
– Olhem pro lago! O artilheiro de vocês é o pontinho azul que a lula gigante tá balançando de um lado pro outro... – ele cruzou os braços, mal-humorado.
– Meu irmão! – Lisa Turpin, que acompanhava o grupo, foi a primeira a cruzar os jardins do castelo rumo ao lago.
Harry, Rony e Hermione, que tinham decidido assistir ao treino daquela manhã apenas para passar o tempo, seguiram com o bando de corvinais inquietos. Conforme se aproximavam, a cena ficava mais aterradora. Harry sentiu uma pontada no peito ao reconhecer o padrinho sendo jogado pelos ares e reprimiu o grito do coração aflito. Ao bater junto a uma grande pedra da margem, o cachorro readquiriu formas humanas, deixando o grupo de estudantes ainda mais atônito do que já estava.
– Nós ainda temos que salvar o Turpin! – Harry tomou a vassoura de um dos jogadores e subiu ao céu, tentando desviar a atenção sobre seu padrinho.
Higgs olhou para margem e viu a primeiro-anista da Corvinal vindo em direção aos braços da irmã. Ou seria mãe? Ele já não sabia e também não se importava. Ela estava segura.
– Vão ficar olhando para o Black? – ele reagiu ante ao burburinho que se seguiu a identificação do homem desacordado. – Ao menos ele tentou fazer alguma coisa pra salvar o colega de vocês.
E dando com uma vassoura no chão – a vassoura de Michael -, ele acompanhou Harry Potter. Ambos desviavam dos tentáculos da lula com agilidade, mas não conseguiam aproximar-se de Michael Turpin.
– Ei, vocês não ouviram, não? – o rosto de Rony avermelhou-se, como em todas as vezes que ficava irritado. – Vão ficar aí parados? Voem logo de uma vez! Se não perceberam, a única maneira de salvar o Turpin é deixar a lula confusa! Assim o Harry vai poder chegar perto dele!
Hermione sorriu, orgulhosa do raciocínio de Rony. Não que ela não tivesse pensado a mesma coisa assim que avistara a situação, mas estavam junto aos alunos mais inteligentes de Hogwarts e eles pareciam não ter chegado a tal conclusão. Fred e Jorge tomaram a vassoura de outros dois corvinais e, aqueles que ainda as mantinham consigo, levantaram vôo sob as ordens do capitão Roger Davies. Os outros tiveram a atenção tomada por um novo barulho:
– Splash! – próximo à margem do lago, alguém tinha afundado.
A bruxa levou as mãos à boca ao ver sua filha afundar. Tinha que fazer alguma coisa, tinha que pensar em alguma coisa. Entretanto, o único pensamento que tinha era a morte. Ela não poderia salvar sua filha... Que tipo de mãe era ela? Nunca devia ter deixado que viesse para Hogwarts, nunca.
Então o cotovelo roçou a cintura e ela sentiu a ponta do bastão de madeira. Nunca fora tão decidida na intenção de usar a varinha. Era agora ou nunca. Apontou para a água gelada. Dez metros. Se congelasse dez metros poderia chegar à braço trêmulo de sua filha, que ainda tentava pedir por socorro com as energias restantes. Um jato azulado escapou e retumbou na terra, congelando apenas a porção líquida mais próxima. Além disso, era uma camada fina demais...
– Precisa de ajuda? – ela viu uma cabeleira enrolada surgir ao seu lado esquerdo.
– Dez metros. Dez metros de gelo – ela pediu desesperada e Hermione não se demorou a atender o pedido.
Do outro lado da estudante da Sonserina, Ronald Weasley seguia o mesmo procedimento, procurando aumentar a espessura da crosta de gelo que Hermione ia criando. Enquanto os dois grifinórios prosseguiam na tarefa, Cathy atirou-se sobre o gelo, deslizando sem controle. Foi parada por nova magia de Hermione, a poucos centímetros do fim da placa. A mãozinha de Lyra rendeu-se antes que a agarrasse.
Inconformada, Catharina jogou-se sobre a beirada do bloco e enfiou o braço no líquido congelante. Mal sentia os próprios dedos, mas percebeu que tinha enroscado-os em fios. Fios do cabelo longo e escuro de Lyra. Puxou-os com força, piedosa da dor que a menina sentiria, e viu a testa pálida emergir. Tomando o máximo de cuidado, usou o braço em que antes se apoiava para tatear novamente dentro d'água, por fim encontrando o ombro da menina. O borbulhar da respiração, mostrava que Lyra tinha readquirindo a consciência, e em segundos, as mãos se encontraram.
Cathy ergueu-a com dificuldade para em seguida vê-la escorregar de suas mãos, arrancando junto o anel de pedra negra. Enfiou novamente os braços dentro d'água e, usando de uma firmeza que não sabia que tinha, trouxe a filha de novo à tona, envolvendo-a imediatamente com a própria capa, quase seca. Apesar do rosto azulado, Lyra ainda respirava.
Gina aproveitou a solidão do salão principal para tirar do bolso a foto que roubara de Colin Creevey. Na foto, a menina loura de olhos azuis distraídos ainda não tinha se dado conta de que estava sendo observada, e fitava os limites do papel ligeiramente desconfiada. A ruiva acordara com o espírito de cupido naquela manhã.
Passara três anos consecutivos suspirando pelos cantos por conta de Harry Potter e, era fato, ainda não superara totalmente a 'paixonite aguda'. Mas, depois de tanto lamentar que ele não a enxergasse, reparou que vários outros casais sofriam do mesmo mal. Essa idéia tinha se tornado clara naquela manhã quando vira o colega de casa com os olhos perdidos naquela foto de uma aluna da Corvinal. Colin Creevy estava apaixonado por Luna Lovegood.
De início achara a idéia cômica. Era um bom motivo para atazanar o garoto, dizendo que ia entregar a foto à menina com uma declaração de amor atrás, apenas para fazer birrinha. Talvez realmente devesse fazer isso, ao menos assim Luna poderia concretizar aquele amor platônico.
Depois, como que por obra do destino, encontrou o irmão mais novo e sua melhor amiga discutindo pelos corredores. Como sempre faziam, aliás. Ora, não era de hoje que ela achava que fariam um bonito par, mas o caso de ambos era ainda mais difícil que o dela ou o de Colin, pois eles simplesmente não admitiam sentir nada um pelo outro. Menos ainda que esse sentimento era mútuo. Uma nova flecha e, bem, de uma forma ou de outra, agora Ronald Weasley e Hermione Granger eram namorados.
– Com licença...
Gina deu um pulo para trás, assustada. Conhecia aquela voz...
– Escuta aqui, nem pense que... – ela virou-se e antes de conseguir soltar todos os desaforos que queria, explodiu em risadas.
Draco Malfoy estava parado, a sua frente, com cara de interrogação, e a palavra 'babaca' brilhando na testa alva. Ele pareceu desconcertado e olhou para os lados, tentando entender o motivo do riso da menina. Sem consegui-lo, voltou a fitá-la e tentar conversar.
– Desculpe se estou atrapalhando alguma coisa, mas é que... hã... eu... eu não sei onde estou.
– Como? – ela engasgou na própria risada.
– Você me conhece? – ele a interpelou, os olhos cinzas bastante apreensivos.
– É, podemos dizer que sim – ela brincou com a correntinha, analisando-o.
Seria mais alguma brincadeira de Draco Malfoy? Ela ouvira Hermione comentar qualquer coisa de que ele atrapalhara a ela e Rony mais cedo. Mas Hermione não seria capaz de apagar a mente do garoto, seria? – Lembra do seu nome.
O garoto piscou os olhos algumas vezes, com ares de pura dúvida. Por fim respondeu:
– Duas pessoas me chamaram de Draco num dos corredores... Também saíram rindo como você. Tem algo de errado comigo? – ele suspeitou.
– Não. Nada – Gina foi firme. Não deixaria ele limpar o rosto antes que pelo menos metade da escola o visse daquela maneira. Mas o que quer que o tivesse atingido, fizera um belo estrago.– É Draco mesmo. Draco Malfoy.
– Malfoy... Malfoy – ele repetiu para si mesmo, tentando memorizar aquele nome nada familiar. – Ei, corujas! E tem cartas para mim!
Gina riu de vê-lo se admirar com algo tão costumeiro. Vendo-o abrir imediatamente o maior dos pergaminhos, tomou-o rápido das mãos do garoto. Pelo tamanho ela adivinhara do que se tratara. Há cerca de alguns meses, dera com a primeira edição daquele folhetim. Sabia que era obra de alunos da escola, mas ninguém sabia de quem. E ela se lembrava que, no último número, Harry e Rony riram deveras com o artigo 'Como identificar um sonserino à distância – e azará-lo com eficácia', que trazia como ilustração uma foto de Malfoy pregada no centro de um alvo para flechas. Isso podia desencadear a recuperação da memória de Draco e Gina já estava se afeiçoando àquele garoto com amnésia. Era certamente muito mais simpático e educado que a versão original.
Entretanto, em vez das matérias costumeiras, a ruiva encontrou um artigo pra lá de sério e revelador. A história que conhecera nas férias, pela boa de seus pais, estava escrita ali, para quem quisesse ler e acreditar. Sirius Black é inocente! E Então ela reparou que outras vozes começarama surgir, vindas da entrada do salão, dos pequenos grupos espalhados por mesas diversas. Todos eles com pleo menos um jornalzinho na mão.
– Vem comigo, Draco. Precisamos encontrar o Harry. Não sei onde ele estava na cabeça pra fazer isso... – e puxou o garoto para fora do salão.
– Quem é Harry? Aliás, quem é você?
– Eu sou a Gina, Draco, Gina Weasley. E o Harry... – ela pensou um pouco em como poderia tirar proveito da situação. – Harry é o seu melhor amigo.
Resgates feitos, era hora de cuidados dos feridos. Terencio Higgs conseguira salvar Michael Turpin sem um único arranhão, logicamente ajudado pelas inúmeras vassouras voadoras que finalmente a lula gigante. Ainda assim, a irmã achou por bem levá-lo para que Madame Pomfrey o avaliasse, sob os protestos do garoto que dizia estar bem. Entretanto mudou de idéia assim que soube que Fred levara Lyra de vassoura até a enfermaria. Quanto antes a menina chegasse lá, menos riscos correria por causa da hipotermia.
Os demais observavam Helen e Harry atender Sirius ali mesmo. Com a queda, o bruxo quebrara uma costela e sentia dificuldade para respirar. Era difícil saber o que causava mais espanto. Ali, bem em frente àquele grupo de alunos, estava Sirius Black. Ao mesmo tempo, uma garota da Sonserina, tinha se transformado instantaneamente numa mulher cerca de 20 anos mais velha.
– O que aconteceu com ela? – Cho Chang se arriscou a perguntar para Hermione.
– Pra dizer bem a verdade, eu também não entendi. Pelo visto a tal da Catharina não existe.
– Então essa é a tal da Helen Silver, de quem a Skeeter falou no Profeta? – um dos artilheiros da Corvinal questionou.
– É o que parece, não? – Higgs ainda não tinha digerido bem a história.
– Bem que a Skeeter disse que os dois estavam juntos e enfiados em Hogwarts tramando contra os alunos – outro garoto continuou.
– Querem fazer o favor de calar a boca todos vocês! – Harry parou o que estava fazendo para acabar de uma vez com o burburinho. – Se não podem ajudar, não atrapalhem. Se ainda não perceberam, eles acabaram de arriscar as próprias vidas para salvar dois de nós.
– A idéia das vassouras foi do Black – Higgs arremedou.
– Mas ele matou 12... e ela... – Roger Davies tentou argumentar.
– Sumam todos daqui – Helen finalmente falou. – Contem a história que quiserem, mas sumam daqui. Ou eu vou começar a fazer o que a Skeeter disse que eu faria.
Os corvinais, assustados, correram para o castelo. Hermione, Rony, Jorge, Higgs e Harry continuaram ali. Helen fitava Sirius com uma expressão de dor profunda no rosto abatido. A franja crescera até a altura do queixo e grudava-se no rosto molhado pela água do lago e pelo choro.
– Será que podemos ajudar em mais alguma coisa? – a única menina restante no grupo indagou.
– Vamos levá-lo para a cabana do Hagrid – Harry levantou-se decidido.
Jorge apontou a varinha para Sirius e este passou a flutuar segundos depois. Antes que a comitiva avançasse, Helen murmurou no ouvido dele, que ainda controlava a respiração.
– Fique bom logo, meu amor. – e tomou o caminho do castelo. Tinha uma filha para cuidar.
– Ei, Gina... É Gina, né? Eu, eu ainda não sei onde nós estamos!
A ruiva parou a poucos metros da entrada. Por que diabos tinha arrastado Draco Malfoy consigo? Seus irmãos e Harry deixaram o salão com o intuito de assistir ao treino da Corvinal, então era para o campo de treinos que ela deveria seguir. Tinha duas opções para chegar até lá: o caminho do lago e o contorno da Floresta Proibida. Resolveu tomar o segundo, que era mais longo, porém mais reservado. Sabe-se lá o que pensariam de vê-la puxando Malfoy pelo braço.
– Srta. Gina, será que... – o sonserino não calava a boca por um único instante e a menina decidiu que o melhor remédio era ignorá-lo.
De súbito a garota retrocedeu e empurrou o garoto para o meio das árvores, escondendo-se também em seguida. Uma pequena mas imponente comitiva atravessava aquele trecho dos campos de Hogwarts. Dois homens, uma aluna da Sonserina e uma mulher em particular, que Gina conhecera no ano anterior durante a Copa de Quadribol. A mãe de Draco Malfoy estava visitando Hogwarts.
– Quem são? – o garoto perguntou em tom baixo, percebendo que a garota não queria chamar atenção.
– Você não sabe? – ela se compadeceu. – Quer saber de uma coisa, eu procuro o Harry mais tarde. Se foi ele quem escreveu isso, não vou trazer nenhuma novidade. É melhor levar você pra enfermaria. Mas antes...
Gina revirou os bolsos a procura de um lenço. Na falta de um, desfez o laço da própria gravata e, com um jato d'água saído da própria varinha, umedeceu-o.
– O que você vai fazer? – ele se afastou mecanicamente quando ela aproximou o tecido de seu rosto.
– Confie em mim – ela sorriu ternamente e limpou a tinta da testa do rapazinho.
Malfoy parecia um cachorrinho indefeso e Gina se pegou desejando que o feitiço fosse irreversível. Ou pelo menos 'meio' irreversível, para que pudesse se lembrar que tinha uma família.
– Próxima parada: Ala Hospitalar – e ofereceu a mão direita ao garoto.
– Só me diga que ela vai ficar bem.
– Já lhe disse isso pelo menos umas dez vezes, Sra. Rasputin – Madame Pomfrey já estava cansada da bruxa em seu calcanhar. – Já dei a medicação, ela só precisa repousar. Estará nova em folha dentro de duas horas. Agora, se me permite, tenho outros pacientes para cuidar.
– Hã... er... Talvez a senhora devesse visitar também a cabana de Hagrid – ela soltou em meia voz.
– Como? – a enfermeira se admirou.
– Temos um ferido lá. E uma poção remenda-ossos seria bastante bem-vinda...
– Por que não o trouxeram para cá? – Madame Pomfrey ralhou.
– Vá até lá e a senhora entenderá. – Helen murmurou e sentou-se ao lado da filha desacordada. – Ah, avise Anne. Até onde sei, ele é paciente dela...
Duas macas ao lado, Michael Turpin procurava algum rasgo na cortina de separação para espiar a colega de casa, sob os olhares incomodados da irmã.
– Quer parar de ser tão intrometido?
– Não é intromissão, Lisa. Só estou preocupado. Ela virou literalmente um picolé humano! – ele retrucou sem parar o que estava fazendo.
A monitora da Corvinal sentou-se na cadeira ao lado da maca. Teriam que aguardar ainda cerca de meia hora, conforme instruções da enfermeira. A menina se revirou no assento, sentindo-se desconfortável em qualquer posição. Por fim notou a cesta de jornais e revistas logo ao lado e puxou um dos pergaminhos.
– Ora, ora. Eu achava que só as salas comunais recebiam cópias do 'Nome do Jornal'. E é de hoje... E, meu Merlim!
– Que houve, Lisa? – o tom assustado da irmã chamou a atenção do garoto.
Ela apenas lhe mostrou o pergaminho aberto, sem fotos, mas com um nome famoso em letras garrafais como manchete.
– É, parece que Sirius Black está em evidência... – ele levantou as sobrancelhas preocupado. – O que diz aí?
Lisa Turpin digeria velozmente cada palavra do artigo que ocupava a página inteira. Michael via a testa de sua irmã franzir, os olhos se arregalarem, pra logo em seguida ouvir um suspiro de concordância ou entendimento. Tentado a tomar o pergaminho das mãos delas após alguns minutos de silêncio, ele se deteve ao ver os olhos azuis da irmã elevarem-se do pergaminho. Seus lábios emitiram a sentença definitiva:
– Resumindo, aqui diz que ele é inocente! – e enrolou o papel rapidamente com mãos ágeis e acostumadas ao serviço.
– Você acredita nisso? – ele indagou, franzindo o cenho, hesitante.
– Bom, tudo o que está escrito aqui faz sentido. E, bem, não podemos esquecer que ele tentou te salvar, né? E o Harry também acredita nele, não é mesmo? O Harry não ficaria do lado de Você-Sabe...
A conversa dos dois irmãos foi interrompida por um forte baque. Lisa espiou pela cortina e Michael desceu da maca, contrariando as recomendações de Madame Pomfrey, para fazer o mesmo. Nenhum dos dois pôde reconhecer aqueles estranhos, com exceção da jovem de cabelos negros e uniforme com emblema da Sonserina. Em seguida, uma voz rouca de homem pronunciou em alto e bom som.
– Sra. Helen Catharina Silver-Rasputin, considere-se detida por ordem do Ministro da Magia. Acusação: falsidade ideológica.
