Ficlet feita para a I Ship War - fórum Ledo Engano.
Tema: choro.
Fuja
por Luna Fortunato
A floresta é sombria, com as copas das árvores lá em cima, quase alcançando as estrelas, e seus caules grossos e antigos, com tantas marcas que quase parecia o rosto do Olho-Tonto Moody. As estrelas lá em cima prenunciam o desastre prestes a acontecer, graças a algum alinhamento estúpido que Saturno fizera com Marte e então uma combinação entre Escorpião, Áries e Câncer acabou acontecendo e, de alguma forma que Harry não entendia, não era no sentido positivo da coisa.
Mas não precisava entender as estrelas para entender o que acontecia aqui embaixo.
Estava fugindo.
(não precisa fugir de mim)
Sua mente transformara-se em algodão e isso era a metáfora que Harry conseguia pensar, com os pensamentos enevoados e macios, misturando músicas conhecidas da rádio e frases soltas ditas por Tom. Agora a voz dele estava na sua cabeça, lhe fazendo pensar e repensar e duvidar de tudo que via naquela floresta.
Provavelmente Tom comprara a lealdade da floresta toda.
(eu não vou lhe fazer mal)
A noite silenciosa não lhe fazia mal. As árvores que pareciam sussurrar segredos igualmente não lhe faziam mal. Nem mesmo centauros ou lobisomens lhe incomodavam nesse momento, dando-lhe privacidade para sua fuga solitária.
(eu vou cuidar de você)
Harry ofegou. Doía-lhe o corpo, sentia sede e fome, não sabia mais onde estava. Então sentou-se junto à uma árvore, encarou o céu. Cada uma daquelas estrelas a lhe observar insolente, com seu ar desafiador de prevemos isso antes de você nascer, meu querido, e então Harry as odiou. Seus olhos verdes percorreram cada uma daquelas constelações, seu peito subindo e descendo de tanto ódio.
Como é que chegara àquele ponto?
(você não consegue ir muito longe)
As lágrimas percorreram seu rosto antes que se desse conta, umedecendo seus lábios, teimosas e atrevidas, cheias de sal e amargura. Odiou ver as estrelas e as árvores, odiou a insolência de cada uma das coisas que se atrevia a existir, apenas existir e lhe assistir assim, desesperado, em busca de água, comida e abrigo.
Um abrigo que não fosse Tom Riddle.
(meu querido, não fuja)
Foge. Foge enquanto dá. Foge enquanto suas pernas resistirem e seu corpo aguentar. Foge que ainda dá tempo. Foge que ele ainda dorme e foge agora pra ganhar tempo. Mas não conseguia. As pernas doíam e o cansaço vencia. Harry adormeceu, caído aos pés de uma árvore, debaixo da constelação de Capricórnio.
Meu querido.
Abriu os olhos. Viu primeiro os sapatos e veio o pânico. As pernas só confirmaram que o pânico fazia sentido e veio as mãos longas e curvilíneas, a camisa branca, a gravata verde-garrafa, o seu sorriso delicado e os olhos recheados de brilho assassino.
Por que está aqui, Potter?
E Harry percebeu que poderia correr até o Alasca e ainda assim não conseguiria fugir de Tom e dos seus olhos negros que o absorviam inteiramente. Não conseguiria porque ainda que gritasse e exigisse que Tom saísse da sua vida, seria ele a querê-lo novamente para si. Não conseguiria porque o amava. E não conseguiria porque Tom era a razão de suas lágrimas e era igualmente a razão do fim delas.
