Capítulo XI
Draco estacou em frente à porta do quarto de Pansy. A criada lhe dissera que em breve ela sairia para tomar o des jejum. A dor na cabeça, resultado da grande quantidade de vinho que tomara enquanto aguardava que ela voltasse do passeio com Brendon, fazia-lhe latejar as têmporas.
Ensaiara um discurso que lhe serviria como pedido de desculpa uma centena de vezes, pois acreditava que lhe dera um mau exem plo. Como podia criticá-la quando ele próprio agira de maneira tão inapropriada? Sentia-se como um idiota, mas ainda estava em tempo de consertar a situação.
A porta se abriu de repente e uma corrente de ar vinda do quarto de Pansy inundou o corredor.
- Que sorte encontrá-lo aqui nesse momento - disse ela, surpresa. - Esperava falar-lhe antes que partisse para seus com promissos.
Draco foi tomado de assalto não só pelas palavras mas também pela visão deslumbrante daquela dama. Ela trajava um vestido de musselina bordada e um xale de lã azul marinho que combinava com perfeição.
Por trás dela, a brisa suave de abril fazia ondular as cortinas.
- Sua Juliela está aberta.
Foi tudo que conseguiu dizer a despeito de todos seus pensamentos.
Pansy olhou para trás e deu de ombros.
- Eu sei. Deixei-a assim para apreciar melhor a paisagem. O dia não está lindo?
- De fato está esplêndido - concordou Draco com os olhos fixos nela. Quando Pansy se virou para encará-lo, ele se em pertigou, adotando uma postura formal. - Gostaria de me des culpar pela maneira inóspita com que me comportei a noite pas sada. Sei que não há justificativa para uma embriaguez, mas es pero que...
Pansy sorriu, colocando um dedo enluvado sobre os lábios dele.
- Oh, Draco! Está soando tão solene. Peço que não fale de maneira tão pomposa comigo, ainda mais quando estou em jejum: Além disso, não pode imaginar como me diverti com seu sofrimento. A melhor parte foi quando rolou do sofá e deu com o rosto no chão. Só lamento não estar com minha aquarela para registrar aquele momento para a eternidade.
- Até as pinturas são perecíveis ao tempo - retrucou ele em tom sarcástico, contraindo a mandíbula.
- Não precisa ficar tão constrangido pelo ocorrido. Ou supõe que nunca o vi bêbado antes?
- Viu? - questionou Draco, franzindo o cenho.
- Mais de uma vez - declarou ela com firmeza. - Lembro que em uma delas, enquanto você e seus amigos eram repreendi dos, aproveitei para colocar rãs nos urinóis dos quartos. Nunca vi tantos cavalheiros gritando ao mesmo tempo.
Draco sorriu, relembrando o episódio.
- Felton pensou que estava sendo atacado. Pegou sua pistola e com um tiro certeiro partiu o urinol ao meio.
- As rãs conseguiram escapar por milagre - acrescentou Pansy. - Mas no dia seguinte tive de enfrentar a sua fúria. Lembra-se de ter me trancado do lado de fora da casa durante todo o dia?
- Eu estava assim tão zangado?
- Na verdade, furioso. Temos sido bons adversários todos es ses anos, portanto não é necessária tanta formalidade comigo.
De certa forma, Draco sentia-se aliviado. Ao se referir ao pas sado, Pansy lembrou-lhe a jovem rebelde que sempre vivera como um garoto selvagem. A despeito dos esforços de suas tias para criar uma dama refinada a partir da matéria bruta que ela era, a natureza indisciplinada insistia em se rebelar. Uma vez no con trole de suas emoções, ofereceu-se para acompanhá-la no café da manhã.
No entanto, algum tempo depois, quando o sr. Francis veio buscá-la para um passeio a Kensington Gardens, Draco desco briu-se espiando pela Juliela de seu escritório para assistir à partida do casal. Com a cortina semicerrada, era possível observar o amigo ajudá-la a subir em seu novo coche, cheio de segundas intenções. Olney parecia ridículo com um crisântemo de proporções mons truosas na lapela do casaco. E por que lhe beijara os dedos antes de auxiliá-la a subir? Esperava que ela tivesse o bom senso de recusá-lo como marido. O rapaz era um bom amigo e um excelente parceiro de turfe, mas não era indicado para o caráter forte e a maneira direta de falar de Pansy.
Notou que, ao partir, Olney fustigara os cavalos com muita força. A carruagem deu um solavanco antes de seguir, mas Pansy segurou-se firme, aparentemente preparada para a falta de experiência dele. Cerrou as cortinas e voltou a atenção às anotações que seu administrador lhe enviara aquela manhã. Sentia-se ente diado não só pelo fato de, até que Pansy casasse, ter de discutir todas as suas decisões com Jennings como também pela necessi dade de alertá-la para o erro que cometeria se aceitasse o pedido de casamento de Olney.
Consultou o relógio, mesmo sabendo que não os veria pelas próximas três horas e, em seguida, voltou ao trabalho.
Para sua surpresa, passados cinqüenta minutos, ouviu um tropel aproximando-se. Apurou os ouvidos, intrigado. Olney não poderia estar de volta tão cedo. Além disso, o som indicava o trote de apenas um cavalo. Alguns instantes depois ouviu a porta da frente se abrir.
Ergueu-se num impulso e precipitou-se em direção ao hall de entrada.
Lá, com o chapéu um tanto amassado, estava Pansy.
- O que está fazendo aqui tão cedo? E o que aconteceu com seu chapéu?
Ela tocou na peça confeccionada em pelica verde e soltou uma gargalhada.
- Devo estar parecendo um espantalho - disse por fim, reti rando as luvas. - Temo que seu amigo nunca me perdoe. Mas como eu poderia imaginar que o sr. Francis era um açoitador tão eloqüente? Deveria ter me avisado - pousou as luvas sobre a rnesa próxima à porta ,e começou a desatar as fitas do chapéu.
Draco não conseguiu conter o riso. Recostou-se à porta, cru zando os braços sobre o peito.
- O que você fez?
- Bem, a culpa não foi toda minha - redargüiu, reticente. - Ele não parava de gabar-se de seu novo coche e de seus animais, embora qualquer idiota pudesse ver que os cavalos, além de ma gros, eram arredios. Ainda assim, acho que agi de maneira errada.
- Diga-me de uma vez o que aconteceu.
- Olney insistia em jactar-se de sua destreza com as rédeas e então sugeri que caçássemos esquilos.
- Onde?
- Lá mesmo. Em Hyde Park.
- Santo Deus! - exclamou ele, mas após alguns instantes não conteve o riso. Podia visualizar a cena em sua mente. Olney era um tanto arrogante e não primava pelo bom senso. Além disso, possuía mãos pesadas que arruinavam a boca de qualquer cavalo que montasse. Ele mesmo já o proibira de usar seus animais. Tanto em Londres quanto em Barton.
Ela revirou os olhos, num gesto de impaciência.
- Ele enganchou a roda do coche nas rodas do primeiro trole que encontrou e em seguida tombamos por terra. Os cavalos fica ram bastante agitados.
Só então Draco se deu conta de que o chapéu amassado não fora a única conseqüência do acidente. Havia sangue na manga do vestido dela.
- Você se machucou! - exclamou, apressando-se em direção a Pansy.
- Não foi nada sério. Apenas um pequeno corte. Olney ficou bem mais machucado, mas eu consegui tomar as rédeas e os ca valos se acalmaram de imediato.
- Estou certo de que conseguiu controlar a situação. Lidar com os animais é sua especialidade - dizendo isso, afastou o tecido do vestido de modo delicado e notou que ela havia garroteado o braço com uma tira de musselina de sua roupa de baixo.
- Um simples arranhão, é? Venha.
Guiou-a até a cozinha onde a co zinheira, em poucos minutos, aplicou um curativo no ferimento.
Em seguida, Draco a acompanhou até as escadas. Pansy voltou-lhe o olhar, sorrindo, marota.
- Suponho que seu amigo não ousará me pedir em casamento depois do que aconteceu.
Pansy logo descobriu que seu prognóstico estava errado. Embora tivesse encarado sua atitude durante o acidente como algo corriqueiro, ao que tudo indicava, o sr. Francis, não. Na noite seguinte, durante o sarau na casa de lady Sedgwick, descobriu-se rodeada de cavalheiros e damas ansiosos por congratulá-la pela coragem e astúcia não só em salvar a vida dos cavalos mas também a de Olney.
Cada vez que o sr. Francis falava com alguém, tentando mostrar a coragem e a boa atitude de Pansy, ela sentia-se mais cons trangida. Teve ímpetos de desferir-lhe um soco para que ele cessasse com aquela prosopopéia.
A certa altura, tentou objetar, minimizando seu feito, mas aquilo pareceu piorar a situação. Ele segurou firme em seu braço, guiando-a de grupo em grupo e a proclamando sua salvadora. E para sua surpresa, durante o jantar o sr. Francis lhe revelou suas intenções:
- Nunca estive tão apaixonado -sussurrou, em tom ardente.
Pansy limitou-se a fitá-lo por um longo instante, findo o qual só restou ao rapaz desfazer a expressão de embevecimento que trazia no rosto e voltar a atenção ao seu prato. Ela se desculpou, afastando-se dele e teria pedido a Draco que a levasse para casa, não fosse sua insistência em dançar.
Aquilo fora o suficiente para aliviá-la da tensão daquela noite. Ao final da dança já havia recobrado o humor.
Nos dias que se seguiram, uma certa angústia foi tomando con ta de Pansy. Não só pelo sempre presente Olney ou o sereno Brendon, mas pelo fato de que o dia primeiro de fevereiro estava se aproximando com uma rapidez alucinante. Draco lhe dissera que eram necessários três dias para obter uma licença especial para o casamento e para tratar os serviços de um padre. O que significava que tinha até vinte e sete de Julieiro para encontrar um marido.
Quando Olney lhe fez a proposta formal, ela recusou com vee mência, deixando o orgulho do rapaz em frangalhos. Ele havia se convencido de que estava profundamente apaixonado e que Pansy era a mulher que redimiria todos os seus defeitos.
Ao informar Draco sobre o pedido de Olney, notou surpresa que ele suspirara aliviado.
- Não me acha digna dele? - perguntou, imaginando o porquê daquela reação.
Ele a fitou, pensativo.
- Acho-a perfeita para ele. Você que não o agüentaria. O ateliê do alfaiate de Olney é a sua segunda casa, enquanto você, como vive repetindo, prefere vestir farrapos confortáveis a costumes finos e dispendiosos.
Pansy soltou uma gargalhada.
- Tem razão. Ainda bem que sua resposta foi amável. Por um momento pensei que não queria me ver casada com nenhum de seus diletos amigos.
Draco sentiu uma inquietação interior ao fitar os brilhantes olhos castanhos. O que ela dissera era a mais pura verdade. Mas não pelas razões que ele um dia imaginara.
A partir do momento que chegaram a Londres, esperava que Pansy conhecesse alguém fora do seu círculo de amizades. Sempre acreditara que ela não se adequava em nenhum aspecto do papel de esposa de um cavalheiro. Mas, naquele momento, tinha de admitir que temia tal possibilidade. Detestaria vê-la envolvida em um romance com qualquer um de seus amigos, apesar de desconhecer a razão pela qual pensava daquela maneira.
- O que foi? - a voz distante de Pansy arrancou-o de seus pensamentos.
- Brendon já lhe fez uma proposta formal? - perguntou soando áspero até aos próprios ouvidos.
- Ainda não - redargüiu ela, franzindo a testa. - A idéia não parece agradá-lo. Estou certa? Essa união o desagradaria tanto assim? Devo parar de encorajá-lo?
Draco não encontrava resposta para nenhuma daquelas perguntas. Não podia lhe dizer que a razão pela qual queria que dispensasse Brendon era por não poder suportar a idéia de vê-la nos braços de seu amigo, beijando-o e dividindo a mesma cama com ele.
Lutou para ser mais racional. Brendon seria um excelente marido para ela.
- Deve seguir os desígnios de seu coração - respondeu por fim.
- O quê? - questionou atônita. - Enlouqueceu? Sabe muito bem que o que meu coração deseja é comprar um navio e ancorar em todos os portos do mundo.
- Está sendo ridícula - disparou, sem saber o que dizer.
- Pode ser. Mas até o momento não me deu uma boa razão para que eu rejeite Brendon. Sinto-me inclinada a incentivar-lhe a corte. Ainda mais com meu prazo se esgotando - dizendo isso, girou nos calcanhares e precipitou-se pela porta com a graça de uma dama londrina. Talvez ela tivesse mudando de fato, pensou Draco. Ainda assim o pensamento de Pansy se transformando numa das damas que conhecia provocava-lhe um gosto amargo na garganta.
A partir daquele dia, Pansy permitiu que Brendon a acom panhasse em todos os eventos.
O fato acabou chamando a atenção da corte. Rumores que a herdeira teria encontrado um par se espalhavam pelas rodas da realeza. Ela, no entanto, não estava tão certa disso. Imaginava se deveria dar o sinal que ele esperava para pedi-la em casamento.
Na noite de quinta-feira, de braços dados com seu par constante, Pansy atravessou o pátio da propriedade dos Dalcham que fi cava localizada às margens do rio Tâmisa. A residência era de estilo campestre e o clima dos últimos dias fora tão ameno que a idéia de um sarau nos jardins realizado sob uma grande tenda pa receu-lhe bastante atraente. Lanternas chinesas haviam sido dis postas ao longo do caminho, emprestando uma atmosfera exótica ao ambiente.
Lorde Brendon tomou-lhe uma das mãos.
- Está com frio?
- De forma alguma.
Ela trajava um xale de seda fina e estampada sobre um vestido de cetim lilás. Suas sandálias resvalavam no orvalho que cobria a grama, mais ainda assim sentia-se confortável.
- Mesmo correndo o risco de falar de uma maneira que Bella julga inapropriada para uma dama, devo lembrá-lo que costumo cavalgar pelos pastos gelados do interior, trajando apenas meu costume de montaria de verão.
O rapaz sorriu, divertido, e Pansy sentiu-se feliz por ser com preendida por ele. Fitou-o por alguns instantes, satisfeita por estar em sua companhia. Mais uma vez conjeturou se Brendon não seria uma boa opção como marido.
O lorde apontou para uma estrela que se destacava no céu.
- Eu apelidaria aquela estrela de Olney, que de todos os nossos amigos é o que mais nos ofusca pela largura de suas lapelas. - Em seguida, deslizou a mão, indicando uma constelação próxima. - Aquela seria Felton, por seus discursos inflamados e a mais brilhante de todas seria Draco.
Pansy deu de ombros, perscrutando o firmamento até achar o que estava procurando.
- Veja - indicou duas estrelas próximas uma da outra. - Eu as batizaria de Brendon. Uma pela firmeza de caráter e outra por seu bom senso.
Emocionado, o lorde pousou um beijo demorado na ponta dos dedos enluvados.
- Que gentil de sua parte. Temia que me achasse um tanto prosaico.
- Ao contrário. - Pansy apressou-se em responder. - Dou mais valor ao caráter e ao bom senso do que pode imaginar. Ainda mais quando minha fortuna dependerá de meu marido pos suir tais qualidades.
Quando chegaram ao fim do pátio, ele lhe segurou ambas as mãos. Naquele ponto, estavam quase sozinhos e Pansy não se surpreendeu quando Brendon aproveitou o ensejo para se insinuar. - Espero uma palavra sua, srta. Parkinson. Tenho me regozijado com os momentos que desfruto de sua agradável companhia. É a mais espontânea e virtuosa dama que conheço. Seja qual for a opinião de lady Black sobre sua franqueza e espontaneidade, acho essas qualidades bastante atraentes.
A sinceridade e o calor das palavras do lorde lhe tocaram o coração. Sentiu-se tentada a encorajá-lo. Fazê-lo ciente de que era sua escolha. Ainda mais com o curto prazo que se estendia à sua frente. Entreabriu os lábios, mas as palavras ficaram presas na garganta.
- Pansy! - uma voz familiar gritou atrás deles.
Ela se desvencilhou das mãos de Brendon.
- É Draco. Parece um tanto transtornado. - Precipitou-se ao encontro dele, atravessando o gramado úmido, enquanto ele fazia o mesmo.
- O que foi? - gritou, arfando.
- Você me prometeu a primeira valsa - respondeu Draco ao longe.
Constrangida, voltou-se para fitar Brendon, que caminhava al guns passos atrás dela.
- Posso levá-la ao Hyde Park amanhã? - sussurrou o lorde.
- Claro. Adoraria.
- Draco parece ansioso pela dança.
- Está agindo de modo estranho, mas de fato lhe ofereci a valsa.
- Acho que está com ciúme.
Quando se aproximaram de Draco, Pansy tomou-lhe o braço, enquanto ele se desculpava com Brendon por buscá-la de modo tão abrupto.
- Desculpe-me, mas era a única forma de avisar que Riddle está aqui - informou aos dois. - E em estado de embriaguez.
- Oh, Deus! - murmurou Pansy.
- Precisa de minha ajuda? - inquiriu Brendon.
- Talvez - retrucou Draco.
Alguns minutos mais tarde, Pansy observava o primo atravessar trôpego o salão de dança, caminhando em sua direção, enquanto esbarrava nos casais à sua volta. Na mão esquerda, segurava uma taça de champanhe que derramou no vestido de uma das damas, fazendo-a gritar. Pansy sentiu o coração disparar. Nunca se sentira tão humilhada em sua vida.
Draco apressou-se em segurá-lo pelo braço, quase o arrastando para fora do recinto.
- Olá, Draco! - cumprimentou, pronunciando mal as pala vras, devido à bebida. Tropeçou mais adiante, mas Brendon o amparou pelo outro braço, no mesmo instante. Pansy se encar regou de tirar a taça das mãos dele. Os cavalheiros o retiraram depressa da tenda, levando-o para o jardim. Ela os seguia alguns passos atrás e assistiu aliviada quando Draco o empurrou para dentro da carruagem e ordenou ao cocheiro que o despachasse para bem longe dali.
Pansy permaneceu parada junto a eles por um longo tempo, observando a estrada.
Nada que pudesse dizer amenizaria o constrangimento que sen tia pelo comportamento abominável do primo.
Felizmente, os dois cavalheiros pareciam entender seu senti mento e a acompanharam de volta à tenda conversando de modo animado e não tocando mais no assunto. Chegando ao salão de danças, arranjaram-lhe todos os pares que ela pudesse imaginar e no fim da noite os pés de Pansy doíam pelo esforço da dança.
No meio da madrugada, depois de ter caído num sono profundo, Pansy acordou com um estrondo. Ergueu-se de um pulo, sen tando na cama e o cheiro de fumaça invadiu-lhe as narinas. Jogou as cobertas para o lado, saiu da cama e correu em direção à porta. Ouviu passos apressados no corredor e no andar de cima e escan carou a porta.
Draco se materializou diante dela, usando apenas um pijama e, em seguida, a segurou pelo braço.
- A sala de música está em chamas.
- Santo Deus! Onde estão Bella e os criados?
- É o que vamos descobrir agora.
Em instantes ela estava sendo guiada pelas escadas em direção à porta de saída onde encontrou sua benfeitora. Observou, surpre sa, os criados da casa, unidos a outros da vizinhança, arrecadarem toda a água que podiam arranjar num verdadeiro mutirão de com bate ao fogo.
Uma hora mais tarde, as chamas, que se espalharam pelas pa redes da sala de música, haviam sido debeladas.
Pansy adentrou o recinto chamuscado, guiando Bella pelos ombros.
- Decorei este ambiente com tanto esmero - lamentou a se nhora com a voz embargada. - Não poderei suportar ver a apa rência dessa sala.
Pansy olhou para cima. As cortinas haviam pegado fogo e as labaredas se espalharam, queimando o teto.
- Estou certa de que foi uma vela que esqueceram acesa.
- Mas Jenkins é sempre tão cuidadoso. Ele não se recolhe sem verificar se está tudo em ordem na casa - argumentou lady Black, acompanhando o olhar de Pansy para observar o estrago que sofrera o teto.
- Seu quarto não fica bem acima desta sala?
Pansy sentiu um tremor perpassar-lhe o corpo.
- Sim - a voz soou como um gemido. Aquele odor lhe era familiar. Memórias de um outro incêndio, há muito enterradas nos recônditos de sua mente, voltaram de imediato, fazendo reviver a dor da perda.
Naquele instante, Draco juntou-se a elas.
- Acho que não deve dormir em seu quarto esta noite. Deixarei alguns criados de vigília para me certificar de que o fogo se ex tinguiu por completo e amanhã providenciarei para que os reparos se iniciem de imediato. Porém, ao olhar para baixo, não pode con ter o riso.
- Veja os seus pés - disse ele a Pansy.
Ela obedeceu e soltou uma gargalhada. Lady Black havia calçado as sandálias antes de descer, mas Pansy deixara o quarto descalça. Seus pés estavam pretos de fuligem umedecida pela água.
- Devia ter tido o seu bom senso - disse ela, dirigindo-se a Bella.
A senhora não lhe tornou resposta. Pansy olhou em sua di reção e notou que ela estava soluçando com um lenço encostado aos lábios. Comovida, abraçou-a de maneira carinhosa, guiando-a em direção ao quarto. Pelo caminho, dirigia-lhe palavras de enco rajamento, chamando sua atenção para o fato de toda a vizinhança ter se mobilizado para salvar a residência. Isso demonstrava o quanto era querida.
- Mas veja esses carpetes! - queixava-se Bella, assoando o nariz no lenço.
- Podem ser limpos e repostos em breve.
- E o cheiro de queimado que assola a casa?
- Até parece que não conhece a sra. Lumby. Ela não vai des cansar enquanto a casa não estiver brilhando. Tenho pena dos cria dos que estão sob suas ordens. Terão de trabalhar feito escravos para colocarem as coisas a seu gosto.
Lady Black pareceu se convencer e sorriu divertida, en quanto ambas subiam as escadas.
- É melhor dormir no quarto contíguo ao meu. Fica longe da sala de música, portanto não correrá nenhum risco.
- Ótima idéia. Mas antes vou acompanhá-la até seu quarto.
- É tão boa para mim - afirmou Bella, emocionada. – Como uma filha.
Pansy acomodou-a na cama e sentou-se a seu lado, desfiando um rosário de fofocas que escutara na casa da sra. Dalcham, até que ela adormecesse.
A casa havia imergido num profundo silêncio. Pansy saiu para o corredor, fechando a porta atrás de si e só então percebeu a presença de Draco.
- Você está bem? - perguntou ele, segurando um lampião em uma das mãos.
Ela levou o dedo indicador aos lábios, pedindo silêncio e com um gesto de cabeça indicou que a seguisse até seu quarto.
- Sua tia acabou de adormecer - disse quando se afastaram. - Estava tão transtornada que a última coisa que desejo é que ela acorde. - Voltou-se para encará-lo. - E sim, estou bem.
- Aonde vai dormir?
- Bella acha mais seguro que eu fique no quarto ao lado do dela.
- Concordo.
Ao entrar no quarto, Pansy surpreendeu-se ao ver as paredes próximas à cama chamuscadas.
- Olhe para aquilo - gritou, apontando para as manchas es curas. Ela estremeceu, dando-se conta de que, se o fogo não tivesse sido debelado a tempo, ela e todos que ocupavam os quartos do andar de cima teriam morrido queimados.
- Temia que isso tivesse acontecido - disse Draco, pousando o lampião sobre a cômoda. - Colocarei um criado vigiando este quarto também. O fogo ainda pode estar latente nas paredes. Você está tremendo.
- Não sei o que me deu. Até ver estas paredes estava bastante calma.
Ele a tomou nos braços, aconchegando-a contra si.
- Não há o que temer agora.
- Eu sei. Sinto-me ridícula.
- Não fale bobagens. Apenas tomou um choque como todos nós - Draco comentou.
Pansy sentia-se segura nos braços fortes e calorosos de Draco. Ele tomara conta da situação com tanta destreza. Coor denara a ação dos criados e vizinhos de tal modo que em pouco tempo o fogo fora debelado. Seu coração encheu-se de ternura enquanto aconchegava a cabeça ao peito másculo. Como amava aquele homem.
Aquele pensamento viera de forma tão simples à sua mente que a tomou de surpresa. Amava Draco. E por fim compreendeu que sempre o amara, talvez desde o tempo de adolescente quando pe dira a ele que a beijasse. Em todos aqueles anos, nunca pensara nele como irmão, e sim como um homem o qual atormentara du rante anos a fio, não por desafeto e sim por amor.
Ele acariciou as mechas negras que lhe caíam em cascata sobre os ombros, e Pansy suspirou, maravilhada. Era capaz de desejar que a casa pegasse fogo de novo apenas para viver aquele momento sublime. Estar aconchegada ao homem amado. Queria congelar aquele instante para sempre.
Quando Draco afrouxou o abraço, ela ergueu o rosto para fitá- lo. Estava ciente da impropriedade daquele contato. Ainda mais quando estavam sozinhos num aposento trajando apenas camisola e pijama.
- Draco... - foi tudo que conseguiu dizer.
Não sabia o que ia na mente dele. Draco permaneceu calado, mas a expressão intensa com que a fitava quase lhe roubava o ar. Num impulso, ela lhe envolveu o pescoço com ambas as mãos e beijou-o. Ele a tomou nos braços outra vez, porém com mais in tensidade e retribuiu-lhe o beijo de modo tão profundo como se tivesse medo que ela se desmaterializasse em suas mãos. Era o terceiro beijo que trocavam. Totalmente diferente dos dois que o haviam antecedido. Talvez porque Pansy tivesse enfim admi tido a verdade que jazia em seu coração e quisesse transmití-la a ele por meio daquele contato.
- Pansy, minha querida - sussurrou ele de encontro aos lábios dela. Em seguida aprofundou ainda mais o beijo. A língua explorava cada recanto daquela boca sensual, tomando posse dela de uma vez por todas.
Draco mal podia crer na explosão de paixão que arrebatava a ambos. Nunca beijara uma mulher daquela forma, era como se toda sua felicidade dependesse daquilo. E pensar que se o fogo não tivesse sido extinguido a tempo, todo o presente momento não existiria. O que seria dele se perdesse Pansy? Sentiu a dor fus tigar-lhe o coração. Mas por quê? Quando ela havia se tornado tão preciosa?
Ele se afastou por um breve momento, fitando-a nos olhos. A expressão terna e apaixonada que viu neles o inebriou. Seria aquela a verdadeira Pansy? A jovem rebelde que o importunara toda sua vida? Estaria mudada o suficiente para dominar Barton com graça e dignidade?
Pansy recuou e ele a soltou de imediato. Notou uma expres são diferente em seu olhar. Uma profunda emoção que podia sig nifiçar medo, pensou.
- Não ia querer que eu ficasse em Barton - afirmou, pare cendo ler-lhe os pensamentos.
Ele meneou a cabeça de modo lento e aquilo pareceu oprimi-la. O que ficou evidente no modo como se afastou e sentou-se na cama, fitando o chão.
- Barton nunca foi meu lar - murmurou Pansy.
- Claro que foi. E ainda é. Sempre será.
Ela ergueu o olhar para fitá-lo, soltando uma gargalhada.
- Nunca acreditei nisso. Não percebeu?
Draco teve vontade de sumir dali. Sentia-se aborrecido, mas não sabia explicar por quê.
- O que está falando é absurdo.
- Não devia ter permitido que o beijasse. Por que não o fez?
- Nenhum homem rejeitaria uma mulher trajando apenas uma camisola.
Um rubor intenso tomou conta do rosto delicado.
- Acho que Brendon teria gostado mais de me beijar do que você.
Nenhum homem teria mais prazer em beijá-la do que ele. Não conseguia entender a reação dela, mais uma vez Pansy estava o irritando, como sempre!
- Nunca mudará - disparou Draco, girando nos calcanhares e marchando para fora do aposento.
Quando chegou ao seu quarto teve de lutar contra a vontade de bater a porta com toda a força que possuía. Não compreendia o que acabara de acontecer. Por que a beijara com tanta paixão e no momento seguinte enfurecera-se com ela? Qualquer que fosse o motivo, de uma coisa estava certo. Ela não servia para ocupar o posto que antes pertencera à sua mãe.
Sentou-se na cama, mas os pensamentos lhe povoavam a mente sem cessar. O fato de Pansy não ser qualificada para ser a se nhora de Barton justificava esquecer todos os fortes sentimentos que nutria por ela?
Por certo ela era tudo que uma dama não devia ser. Cavalgava a pêlo com as saias levantadas de modo que até o cavalariço podia ver-lhe as pernas. Falava de maneira inadequada, e podia entre ter-se em tarefas masculinas por horas a fio, esquecendo-se de suas obrigações. Não dava a menor importância ao que as pessoas pen savam dela. Era mal-educada, grosseira e rebelde.
Mas ela havia mudado.
Quanto?
