CAPÍTULO X
Melany Black se levantou do banco assim que viu Liliam entrar no parque.
- O que houve, Lily? Quase morri de preocupação quando marcou este encontro.
- Desculpe tê-la envolvido nessa história, Mel. Mas precisava lhe falar pessoalmente sobre James. Sei que o que fiz com você foi errado.
- Não, não foi - Melany retrucou. - Eu gostaria que visse seu marido. Dá pena ver sua tristeza.
- Mas você não lhe deu meu recado?
- Dei, acha que ele ficou feliz em saber que você quer o divórcio?
Liliam enrubesceu ao comentário.
- Será melhor para todos. Você se lembrou de avisá-lo que poderá ver o bebê sempre que quiser?
- Sim, eu avisei, mas não creio que a mensagem tenha servido de consolo. O bebê, afinal, ainda levará seis meses para nascer.
- Ele ainda está em Paris? - Liliam perguntou.
- Não. De acordo com Sirius, James passou esta semana inteira a sua procura. Quando o viu em um bar, Sirius o levou para nossa casa. Ele estava péssimo. Disse que não dormia desde que acordou aquela manhã e encontrou seu bilhete.
- Eu não sabia que ele havia desistido da viagem. Saí de casa naquela mesma noite.
Após a discussão, Liliam havia colocado algumas roupas em uma valise e saído. Não teria forças para uma nova confrontação. Estava exausta. Tudo que lhe restava era seu orgulho e só conseguiria mantê-lo se fosse para longe.
- Não esperava que ele fosse continuar com sua rotina normal como se nada houvesse acontecido, não é?
Liliam suspirou.
- Você está do lado dele porque o conhece melhor do que a mim. Se pudesse entender...
- Confesso que jamais esperei hospedar James em minha casa por ele ter bebido por causa do uma mulher - Melany disse com franqueza.
- Ele não tem o hábito de beber - Liliam murmurou.
- Não. Está bebendo porque ficou desesperado com seu sumiço. Por que fez isso, Lily? Por que não lhe deu uma chance?
- Eu o avisei que iria embora.
- Ele não acreditou que estivesse falando sério!
- Eu não pude continuar...
Melany balançou a cabeça.
- Você soube interpretar bem o papel de uma recém-casada feliz. Eu pensei que fosse louca por James quando a vi no dia de seu casamento. Depois, quando almoçamos juntas, uma semana após sua viagem de lua-de-mel, eu tive certeza.
- Eu sou louca pelo James - Liliam confessou.
Melany arregalou os olhos.
- Então por que está fazendo isso com ele?
- James deveria ter contado tudo a você. Mel. Vocês são amigos. Se ele prefere fazer segredo do motivo de nossa separação, não serei eu a revelá-lo.
Depois que Melany se despediu, Liliam ainda quis ficar sentada no banco do parque, tentando ordenar os pensamentos.
Quando viu James se aproximando, seu coração quase parou.
- Eu não teria marcado um encontro com Melany se soubesse que ela iria lhe contar - Liliam murmurou.
- Até os criminosos têm o direito de se defenderem - James respondeu.
Liliam baixou os olhos. Se James continuasse olhando para eles, descobriria como estava se sentindo.
Em meio ao tráfego, ela pensou que James havia perdido peso naquelas duas semanas e meia. Não parecia que eles eram casados e que haviam sido felizes alguns dias. Um imenso abismo os separava naquele momento.
- Onde está hospedada? - ele quis saber por fim.
- Em uma pensão no subúrbio.
- Não lhe ocorreu que eu ficaria preocupado?
- Não precisaria ter ficado. Você sabe que eu sempre me virei sozinha. Não sou do tipo dependente.
Fez-se silêncio por mais um longo tempo.
- Mas eu sou! – James tornou a falar
- Você se preocupou à toa. Eu não pretendia desaparecer para sempre. Nunca tive a intenção de cometer uma tolice. Deixei isso bem claro no bilhete.
- Como eu poderia esquecer? "James, eu sinto muito, mas precisei esvaziar sua carteira. Nosso casamento foi um erro. Entrarei em contato. Não me procure. Não que espere que faça isso."
De repente, Liliam sentiu-se ridícula. Parecia uma nota deixada por uma criança.
- Eu estava nervosa - tentou se defender. - Você não deveria reclamar. Ao menos não fui embora sem avisar.
- Sim. - James suspirou. - Você tem razão sobre isso.
- Não imaginava que você fosse se preocupar... tão cedo.
- Não foi cedo, Lily. Você só telefonou após onze dias.
- Eu precisava de tempo para pensar. - E descobrir uma forma de viver sem ele, de esquecer os momentos que passaram juntos.
- O que tem feito?
- Planos - Liliam respondeu.
E era verdade. Ela não havia conseguido fazer nada além de andar a esmo, de se sentar em algum lugar quando sentia cansaço, de se alimentar por causa do bebê e de esvaziar caixas e caixas de lenços de papel, principalmente à noite.
Desceram da limusine. O gesto foi tão automático que Liliam não notou que não se encontravam diante do prédio onde James morava. Encontravam-se diante da casa em estilo georgiano que visitaram no dia em que ela resolveu deixá-lo.
- O que estamos fazendo aqui?
- Eu comprei a casa. Para nós.
Poderia acreditar nisso? Naquelas duas semanas e meia de afastamento, Liliam havia tentado recordar tudo que James fizera e dissera em um esforço para encontrar motivos suficientes para arrancá-lo definitivamente de seus pensamentos. Uma total perda de tempo. Bastara vê-lo para que seu coração transbordasse de amor e de saudade daquela primeira noite em Chindos.
- O que fez com o resto de minhas coisas? - ela perguntou após um longo silêncio.
- Elas estão aqui.
- Onde?
- Na suíte principal.
- Você não disse aos empregados que eu não iria voltar, disse? – Liliam começou a subir a escada em direção à porta.
- Aonde você vai? - James indagou.
- Vou aproveitar que estou aqui para apanhar ao menos uma parte de minhas roupas.
Ele respirou fundo.
- Lily, sei que me portei como um imbecil...
- Sinto muito, James, mas não quero ouvir lamentos nem justificativas – Liliam declarou e apertou o passo. - Não o culpo pelo que aconteceu. Nós dois erramos. Não deveríamos ter casado só por causa da gravidez.
Quando James entrou no quarto, ela já havia tirado vários vestidos dos cabides. Suas mãos trabalhavam ágeis.
Ele percebeu que precisava fazer algo antes que Liliam desabasse de uma vez, tomada pela crise emocional que se anunciava.
- Eu constatei que Catherine estava por trás daquela publicação.
Liliam parecia ter se transformado em uma estátua.
Ela ergueu os olhos para James. Ele estava abatido, atormentado. Mas continuava maravilhosamente lindo e irresistível...
- Você deve estar se sentindo péssimo. Quando alguém de quem gostamos cai do pedestal onde o colocamos, o choque muitas vezes é irreversível.
A impressão de Liliam era que seu coração estava partido ao meio. Precisava continuar falando. Receava romper em lágrimas se não fizesse isso. A dor estava estampada no rosto de James. Era terrível testemunhar sua infelicidade por causa de outra mulher.
- Eu não gostava dela do modo como você esta pensando...
- Sinto muito. As mulheres se conhecem umas às outras. Qualquer uma seria capaz de reconhecer Catherine à distância por seu tipo. - ela suspirou. — Mas não é reconfortante saber que ela lutou com todas as armas para tê-lo para si?
- Não foi por mim, mas pelo que possuo.
Liliam deu um pequeno sorriso.
- Você também a valorizava por esse aspecto. Sempre se referia a suas origens, a sua classe e a seu traquejo social.
James fechou os olhos.
- Não irá me perdoar por ter duvidado de você, não é?
- Não posso. Entendo que esteja se sentindo mal por ter duvidado de mim e se recusado a ver que Catherine não era quem você pensava que fosse. A propósito, como descobriu a verdade?
- Um jornalista me contou que ela encomendou uma investigação sobre você.
- Eu lhe teria dito isso, se tivesse me perguntado.
Foi impossível continuar retendo as lágrimas. Elas deslizavam pelo rosto de Liliam enquanto ela voltava a tirar as roupas dos cabides.
- Você viu a entrevista que dei a seu respeito?
Ela se deteve por um instante.
- Não.
- Pensei em tirá-la de seu esconderijo com ela. Eu sabia de seu encontro com Melany. Tentei convencê-la a me ajudar, mas ela disse que não faria nada que pudesse magoá-la. - James balançou a cabeça. - Quando procurei Catherine para esclarecer essa história de uma vez, ela negou tudo. Só percebeu que estava perdida quando eu mencionei Melany e seu testemunho no dia de nosso casamento.
A voz de Liliam soou impregnada de amargura
- Você acreditou em tudo e em todos, menos em mim.
- Eu jamais poderia imaginar que Catherine fosse capaz de um comportamento tão abominável - ele tentou mais uma vez se justificar. - Até que eu a procurei duas semanas atrás e ela percebeu que havia perdido.
- Ela não perdeu, James. Ela ganhou sempre - Liliam retrucou. - Nós não tínhamos muito quando ela iniciou o ataque. E não tínhamos nada quando ela terminou. Mas não a considero a maior culpada.
- Eu sei. O maior culpado fui eu. Eu a decepcionei. Você me detesta agora.
- Sim, neste momento, eu te detesto! - Liliam exclamou, subitamente furiosa. — Eu estava realmente assustada naquele dia. Catherine me ameaçou e me insultou. Recorreu a todos os argumentos para me convencer a tirar o bebê. E quando eu pedi seu apoio, você não quis nem sequer me ouvir!
James deu um passo à frente.
- Lily, eu...
- Eu te amo - ela declarou. - Por que Catherine não poderia te amar também? Ela te conhece desde criança.
Ao ouvir a confissão singela, James sentiu uma onda de alívio e de emoção inundá-lo.
- Minha querida Lily, se eu fosse pobre, Catherine não me dirigiria um segundo olhar. O sonho dela é casar com um homem rico e poderoso, digno de sua árvore genealógica. Ela nunca se importou com o amor. Garantiu, com todas as letras, que não se importaria se eu continuasse com você como minha amante.
- Como amante...
- Eu respondi que te amava demais para isso. James afastou uma mecha de cabelos do rosto de Liliam com tanto carinho que ela finalmente acreditou em suas palavras. - Quando tornei a encontrá-la, duas semanas atrás, ela foi mais direta. Contou-me que já teria casado muito tempo antes se tivesse encontrado um partido melhor.
- Prefiro que Catherine tenha ficado com raiva de você em vez de mágoa.
- Depois de tudo que ela fez? - James indagou, incrédulo.
Liliam ergueu os braços e afrouxou a gravata de uma forma íntima e possessiva.
- Posso ser muito generosa quando estou feliz.
James abraçou-a com força e beijou-a longamente.
-Nunca pensei que ouvir a declaração de amor de uma mulher um dia fosse significar tanto para mim.
- Quanto tempo perdido! Se tivesse declarado seu amor por mim a mim, e não a Catherine, eu nunca o teria deixado!
- Nunca mais me abandone! - James implorou.
- Nunca - Liliam prometeu.
Ele a deitou na cama e se inclinou para beijá-la mais uma vez.
- Eu te adoro.
Liliam enlaçou-o pelo pescoço.
- Beije-me.
E James a atendeu.
N/A: O amor não é mesmo lindo?! XD
