CAPÍTULO X
Era difícil Bella ficar sem palavras, mas trinta milionários de todas as nacionalidades, chefes de empresas fabulosas, permaneciam educadamente à espera de seu discurso, sentados em volta da mesa de reuniões.
Quando descobrira falhas nas regras do Atlantis, jamais pensara que poderia magoar Edward, então compreendeu que essa fora a maneira que ele encontrara para assustá-la. Fazer com que expusesse suas ideias na frente de todas aquelas pessoas importantes!
Nada melhor do que atirá-la para os leões e ficar sentado, observando-a tentar se salvar, pensou Bella, sentindo um estremecimento percorrer-lhe o corpo.
Mas só havia uma coisa a fazer. Expor seu caso da maneira mais profissional possível. Detestaria envergonhar o marido, porém quando saísse da sala de reuniões a primeira coisa que faria seria a mala e providenciar um voo que a levasse para o aeroporto mais próximo. Dali rumaria para Lead, Dakota do Sul.
Edward não estava em condições de se divorciar, preocupado com o início das viagens do Atlantis, então apenas iria embora. Ele poderia dizer a todos que sua mãe estava doente, e que a esposa precisara se ausentar.
Infelizmente teria que deixar para Edward o problema de Emily, mas no momento nada podia fazer.
Tomou fôlego, e começou:
— Bom dia, senhores. Fui pega de surpresa, porque meu marido pediu que falasse sobre temas que discutimos em particular.
Todos riram, e já que estava de costas para Edward, foi mais fácil prosseguir:
— Como sou uma recém-casada, sonho com uma família grande e animais de estimação. Porém soube das regras do Atlantis, e da restrição às crianças pequenas. Isso me deixou triste.
Dezenas de olhos a fitaram de modo intenso, e Bella engoliu em seco, rezando para dizer as palavras certas.
— O que disse a meu marido foi que, se quiséssemos comprar uma unidade de um dos fabulosos condomínios residenciais do Atlantis, desistiria por causa dessas restrições. É óbvio que, quando planejaram as regras, não tinham em mente casais como nós, entretanto a minha opinião é que, se suspenderem certas proibições, todos os apartamentos serão vendidos bem depressa, tenho certeza.
Fez uma pausa e, como o silêncio imperasse na sala, passeou o olhar pelos presentes.
— Disse o que pensava, mas espero não tê-los ofendido. — Colocou a mão sobre o ombro do marido. — Vejo-o mais tarde, querido.
O silêncio a acompanhou quando deixou a sala.
A reunião de diretoria terminou às cinco horas da tarde, e Edward rumou para casa.
— Bella? — chamou ao entrar.
Porém ela não estava no apartamento. Frustrado, pensou que fora ao hospital. Se bem conhecia a esposa, teria ficado a tarde toda admirando o bebê. Entretanto, para sua surpresa, as enfermeiras disseram que não a tinham visto por lá.
Talvez estivesse no seu escritório, ocupada com a decoração. Mas ao chegar lá, Edward o viu vazio, e uma terrível sensação de perda o possuiu. Rumou para a sala de Sam Uley.
O rapaz levantou-se assim que o viu.
— Sr. Cullen?
— Procuro minha esposa. Por acaso a viu?
— Não. Na verdade fui até seu escritório algumas vezes para saber se precisava de ajuda, mas não a encontrei. Já tentou o hospital? A Sra. Cullen estava preocupada com a moça que teve o bebê.
— Obrigado pela sugestão — rosnou Edward entre os dentes cerrados.
Bella podia estar em dezenas de lugares diferentes no enorme navio. Só havia uma coisa a fazer. Enviar uma mensagem pelos alto-falantes.
Em questão de minutos isso foi feito, mas mesmo assim Bella não entrou em contato com o marido. Só restava a Edward voltar para casa e esperar. Quando estava para entrar no elevador, seu celular tocou.
— Bella?
— Lamento, Sr. Cullen. Aqui fala Les Cramer, do heliporto. Sua esposa voou para terra ao meio-dia.
O coração de Edward quase parou.
— Com este tempo?
— O helicóptero foi para El Cerita. Dependendo do tempo, continuará até Guayaquil, ou irá esperar.
— Entre em contato com o piloto já, e me deixe falar com ele!
— Sim, senhor.
A recente experiência do desastre no mar fazia Edward tremer da cabeça aos pés. Se algo acontecesse a Bella...
— Sr. Cullen? Entrei em contato com Jim Nash, o piloto. Pode falar.
— Jim?
— Sim, Sr. Cullen.
A voz do piloto parecia vir de longe, e havia muita estática.
— Ainda está em La Cerita?
— Sim, senhor. Decidi esperar até amanhã. Sua esposa pegou um táxi para o Hotel Flores.
— Graças a Deus! Fiquem aí até receber novas ordens.
— Sim, senhor.
— Les?
— Estou aqui.
— Quero o melhor piloto para voar até o aeroporto mais próximo do Atlantis.
— Deixe-me ver... Pode ir até San Cristobal.
— Ótimo! De lá irei de carro até La Cerita. Diga ao piloto para se preparar.
— Sim, senhor.
O piloto Jim Nash informara Bella que La Cerita era um vilarejo com trinta mil habitantes, e fez reservas no hotel que costumava receber turistas norte-americanos.
Por causa do mau tempo, Jim recusara-se a continuar o voo, embora Bella tivesse implorado.
Jantara sozinha no restaurante do hotel, e depois fora para o quarto preparar-se para dormir. Imaginava que o piloto só entraria em contato na manhã seguinte.
Por sorte conseguira sair do Atlantis. Depois da terrível experiência na sala de conferências não conseguira enfrentar Edward de novo.
Assim que chegasse em Lead, tomaria as providências para anular o casamento. Seu relacionamento com Edward Cullen fora um encontro fugaz, uma brincadeira do destino. Por um curto espaço de tempo houvera uma conexão mística entre os dois, criaturas que procuravam conforto mútuo depois de experiências traumáticas.
Porém essa afinidade não durara. Edward tinha seus sonhos e ela não podia arruiná-los com suas ideias. Observou a aliança que trazia no dedo. Deixara os outros anéis que Edward lhe dera sobre a cômoda do quarto de hóspedes no condomínio, e era assim que precisava agir.
Decidiu ligar para Ângela, mas nesse momento alguém bateu na porta do quarto.
— Jim?
— Não. Sou eu, Edward. Abra, Bella. Ela ficou estática.. Não podia ser! Após um breve silêncio, o marido disse:
— Devo chamar o gerente para abrir essa porta?
— Não! Já vou.
Com mãos trêmulas, Bella se aproximou, e abriu com dificuldade. Edward entrou como um raio, fazendo-a pensar que não conhecia aquele homem de olhar irado, que tremia de emoção, ódio, ou fosse lá o quê.
Respirava com dificuldade, e seu rosto estava contorcido em uma expressão estranha, os cabelos despenteados.
Sem saber o que dizia, Bella murmurou:
— Jim achou perigoso continuar o voo.
— Como pode ver, consegui chegar até aqui.
Com gesto rápido, ele a puxou para si, fitando-a, e Bella reteve a respiração.
Era o mesmo olhar do hospital, dolorido e ansioso, que a fizera tocar sua alma em uma afinidade instantânea. Isso também acontecia nesse instante.
— O que foi? — gritou, agoniada.
— Por que abandonou o navio?
Era a hora da verdade. Melhor pôr tudo para fora e terminar com o pesadelo, refletiu Bella.
Com lágrimas nos olhos, murmurou:
— Porque compreendi que estou sendo um estorvo em sua vida.
Um gemido doloroso partiu da garganta de Edward.
— De onde tirou essa ideia, pelo amor de Deus?
— Fui atirada aos lobos esta manhã, e com razão! Depois do modo como o magoei expondo minhas ideias, a única coisa que poderia fazer era sumir da sua vida.
— E como acha que me magoou? Diga! — rosnou Edward, apertando-lhe os braços com mãos de ferro.
— Na nossa noite de núpcias ridicularizei seu sonho. Recebi tudo de você e...
O choro não a deixou prosseguir, e Edward a apertou de encontro ao peito.
— Só disse o que sempre pensei, desde que comecei a idealizar o Atlantis quando era um menino de escola. Mas quando seu sonho precisa de outros para apoiá-lo, é preciso fazer concessões. Tentei me iludir pensando que as regras que os outros impuseram eram boas, mas no íntimo sabia que não era assim. Sua coragem apaixonada me deu forças para lutar também pelo que é melhor.
Bella fungou, limpando as lágrimas com as costas da mão.
— Então... no fundo compartilhava minhas ideias?
— Transformou minha vida, Bella. Assim que soube que era divorciada, ainda deitado no hospital, dei graças a Deus. Porque me apaixonei por você à primeira vista.
— Verdade?
— Sim, meu amor. E me senti culpado por amar uma mulher que tentava desesperadamente encontrar o ex-marido. No momento em que lhe dei o anel de noivado, o Atlantis poderia zarpar sem minha presença, que não me importaria. Só quero ficar ao seu lado.
— Meu querido! — exclamou Bella, enlaçando-o pelo pescoço. — Amei-o desde o primeiro instante em que fitei seus olhos sob as bandagens! Queria amenizar seu sofrimento, e apertá-lo nos braços. E nem sabia se tinha mulher e filhos! Amo-o mais que tudo.
Edward inclinou a cabeça e beijou-a com fúria. Os braços fortes a carregaram para a cama.
— Faz ideia do quanto é linda? De como ansiei por fazer amor com você?
Depois de tanta paixão reprimida as palavras não conseguiam dizer tudo, e Bella precisava mostrar o quanto o desejava.
Ante o toque das mãos fortes, seu corpo explodiu de sensualidade. Enlaçando as pernas e braços, ambos deixaram que um fogo intenso os consumisse.
O tempo parara, e não sabiam onde estavam. Só o amor importava e a satisfação de um desejo que parecia extravasar de cada poro dos corpos apaixonados.
Quando o telefone tocou, Bella gemeu, aborrecida. Após uma noite gloriosa de amor, adormecera nos braços do marido, e não desejava que perturbassem seus momentos.
Mas o telefone continuava tocando.
Percebeu que Edward suspirava, irritado, antes de erguer a mão para o fone. Atendeu com voz gutural, enquanto ela acariciava seus cabelos com paixão.
Após um minuto ele resmungou:
— Tudo bem.
Desligou, voltou-se, e beijou-a com carinho, fazendo-a corresponder de modo impetuoso, sem timidez, porque depois da noite anterior, ambos conheciam cada detalhe de seus corpos, e ansiavam por desfrutar de mais.
Em breve suspiravam de prazer, um nos braços do outro, quando de súbito Edward se afastou e sentou na cama.
— Querido, o que foi? É o ombro?
— Não. Foi Jim quem telefonou, mas em seguida esqueci de tudo quando a vi ao meu lado. Disse que temos chance de voltar para o navio se sairmos logo. Senão precisaremos esperar mais vinte e quatro horas.
— Onde está o seu piloto?
— Em San Cristobal.
— Oh, Edward! Estou sempre lhe causando problemas! Ele a fez calar com um beijo.
— É melhor não fazermos Jim esperar.
Com grande esforço, Bella se desprendeu dos braços amados e correu para tomar um banho. Edward a seguiu, fechando-se no banheiro com a esposa.
Bella corou.
— Se ficar aqui, temo que não sairemos a tempo. Ele sorriu de modo malicioso.
— Já se cansou de seu velho marido?
— Sabe que não.
Por mais que desejasse ficar naquele quarto simples de hotel, tendo por fim seu primeiro dia de lua de mel, Bella sabia que o Atlantis estava no início de sua primeira viagem, e que todos esperavam por Edward a bordo.
— Diga uma palavra, e falarei para Jim que decidimos ficar aqui mais um pouco.
Bella segurou o rosto másculo entre as mãos.
— Poderemos continuar a lua de mel no Atlantis. Os olhos de Edward brilharam.
— Promete?
— Ainda não descobriu que sou louca por você?
— A ponto de ter um bebê comigo? Posso tê-la engravidado na noite passada, sabia?
— Espero que sim, porém só para garantir vamos logo para casa. Temos muito tempo perdido para recuperar.
Ele a beijou com intenso desejo.
— Vou deixá-la a sós para se preparar. Mas aviso-a que quando retornarmos ao apartamento no condomínio, não quero saber de quartos separados.
— Promete? — brincou Bella. Para sua surpresa, Edward ficou sério. — O que foi, querido?
— Tenho algo para lhe dizer.
— O quê?
— Não quero que as coisas mudem entre nós agora.
Um arrepio de alarme percorreu o corpo de Bella.
— E por que mudariam?
— Não é uma mulher comum, Bella.
Ela piscou diversas vezes, sem saber se entendera bem.
— Há algo em mim que não o agrada?
Edward fechou os olhos por um instante, e logo os reabriu.
— Não, querida. É que você se atira em tudo que faz com muita paixão.
— Sei disso. É meu maior defeito.
— Não! É um dom que possui. E tão poderoso, que conseguiu convencer os diretores do Atlantis a não serem tão rigorosos e apressados em algumas de suas decisões. Em poucas palavras, fez com que percebessem a realidade. — Suspirou fundo. — Votaram pela suspensão da proibição às crianças pequenas e animais de estimação. Agora você é responsável pela instalação de uma creche e escola elementar. Querem que elabore uma nova brochura para apresentação na próxima reunião.
— Edward! — exclamou Bella, maravilhada e feliz.
— Eu sabia.
— O quê?
— Vejo o brilho em seu olhar.
— Que brilho?
— O que adquire quando se interessa por algum projeto. Ela tentou compreender.
— E o que essa conversa tem a ver com nada mudar em nosso casamento?
Ele mordeu o lábio, e pareceu pensar por um minuto.
— Sou muito possessivo, e descobri que não gosto de compartilhar sua atenção com mais ninguém. Na outra noite quando cheguei em casa e vi que preparara o jantar, pensei que tinha morrido e ido para o Céu.
— E isso não mudará. Em primeiro lugar sou sua esposa.
— Diz isso agora...
— E sempre! — interrompeu Bella, estupefata com a vulnerabilidade que o homem forte e decidido com quem se casara demonstrava sem pudor. — Acha que gosto de ficar longe de você? Tenho uma ideia que resolverá esse problema. Que tal se o Departamento de Turismo for no mesmo andar de seu próprio escritório? Trabalharemos juntos. — O rosto de Bella se iluminou de alegria. — Assim poderemos coordenar as horas, e fazer intervalos ao mesmo tempo para o almoço ou um café. E sairemos juntos do trabalho.
Ele voltou a tomá-la nos braços.
— Se isso significa que estaremos sempre perto um do outro, concordo plenamente. Eu te amo, Bella.
O telefone voltou a tocar, lembrando-os de que era hora de regressar ao lar.
Gênova, Itália
Edward consultou o relógio de pulso. Passava das cinco horas da tarde. Abandonou a caneta e levantou-se. Deixou o escritório, e rumou para o condomínio.
Durante duas horas esperara ver Bella entrar em sua sala, e contar, animada, sobre as compras que fizera.
No início do dia fora para terra firme na companhia de Emily, para comprar mais algumas coisas para a creche que a jovem mãe dirigia com duas profissionais.
Segundo Bella, os brinquedos italianos eram lindos, e resolvera tirar a amiga da pequena Rosita, sua filha, por algumas horas.
Com todas as unidades e todos os condomínios já vendidos, a creche e o jardim de infância fervilhavam de crianças.
Mas Edward detestava ficar separado da esposa, mesmo que por algumas horas. Era ridículo, porém sentia uma falta enorme de sua presença. Tudo ficava sem graça quando não via o rosto adorado da esposa, e ela prometera se ausentar apenas pela manhã.
Por certo perdera a noção do tempo em meio ao comércio deslumbrante de Gênova, ponderou. Porém o que o surpreendia é que não tivesse telefonado.
Pretendia levá-la também a Florença e Veneza, para uma segunda parte da lua de mel em terra firme. No dia seguinte fariam quatro meses de casados.
Tomariam o café da manhã a bordo, e depois desceriam do navio. Um carro alugado estaria à espera, e iriam para uma pensão charmosa nas colinas da Toscana, a fim de se esconderem do mundo por vários dias e noites. Poderiam sair um pouco para ver a paisagem, mas isso seria tudo. O resto do tempo permaneceriam entre os lençóis, nos braços um do outro.
Edward não sabia se um dia teriam filhos, mas o importante era o amor que dedicavam um ao outro. Quando julgassem que chegara a hora, poderiam conversar sobre ter um bebê. Sorriu ao lembrar que já tinham comprado um cachorrinho.
— Bella! — chamou, ao entrar no apartamento.
Mas ninguém respondeu, então Edward rumou para o banheiro a fim de se preparar para o jantar. Estacou em frente da porta do quarto, ao ver um bilhete pendurado.
"Pare! Vá para o quarto de hóspedes. Encontrará roupas sobre a cama. Quando estiver pronto, bata nesta porta três vezes."
Edward queria rir, mas a excitação e curiosidade falaram mais alto, e tratou de obedecer. Tomou banho no banheiro de hóspedes, e vestiu o roupão novo que encontrou sobre a cama. Era de seda com motivos egípcios, e um imenso desejo físico principiou a dominá-lo. Aquilo parecia um ritual erótico.
Quando por fim bateu três vezes na porta da suíte principal, Bella respondeu com fingida voz solene:
— Se não for o Deus do Amor, pode ir embora! Só receberei a ele esta noite em que celebro o milagre da vida.
Ante essas palavras, Edward sentiu um estremecimento, e resolveu entrar na brincadeira.
— Aqui é o Deus do Amor.
— Então pode entrar.
Mas nada o preparara para a surpresa que teve ao ver o quarto cheio de flores e Bella deitada na cama com um roupão idêntico, mais bela do que nunca.
Quando ele se deitou ao lado e tentou abraçá-la, a esposa mostrou-lhe uma pequena caixa.
— Abra.
Edward levou alguns segundos para perceber que se tratava de um teste de gravidez e, pela cor, era positivo.
— Querida! Tomarei conta de você! Nada de mau acontecerá ao bebê.
— Já estou no terceiro mês de gravidez, meu bem, e a pior fase passou.
— Bella! Manteve isso em segredo por tanto tempo assim?
— Por favor, não se zangue.
— Não estou zangado, mas muito feliz, e surpreso.
— Não notou certas mudanças? Ele sorriu com malícia.
— Sim, notei que ganhou alguns quilinhos nos lugares certos.
— Aliás, logo a campainha irá tocar para trazerem nosso jantar.
— Mas... logo. Quero aproveitar que estamos aqui juntos, na cama...
— Não há pressa, querido. Temos a vida toda pela frente.
Fim.
