Para Lílian Evans

Por Ayame N. Yukane


Capítulo 11

Sem Programa em Hosmeade

Lílian juntou suas coisas e foi à torre da Grifinória guardá-las. Depois disso, ainda pensando em como faria para "limpar seu nome" foi até o salão tomar seu café da manhã.

"Vejamos...", pensou ela enquanto comia um pedaço de torta de laranja e bebia seu suco de abóbora. "O primeiro passo é descobrir o que eu fiz ou falei, e pra quem... Mas eu não posso simplesmente chegar pra Mel e pedir pra ela me contar, se não vamos acabar que nem no ano retrasado".

Lílian fechou o rosto como um trasgo lesado, e então se lembrou da cena: começo do quinto ano, as duas rolando pelo chão entre tapas, chutes e socos na plataforma 9¾, por causa do Edgar Bones, que roubara um beijo de Mel sem a menor explicação. Lílian foi tirar satisfação, e acabou se descontrolando quando recebeu o primeiro tapa de Mel. Somente a partir daí as duas tornaram-se amigas, e o Edgar acabou dançando...

- Cristiane! – Pensou ela em voz baixa em uma fração de segundo.

Claro, elas haviam combinado de descobrir o que estava acontecendo, e a essa altura do campeonato, Cristiane já devia saber de tudo.

Lílian tomou o último gole do seu suco e foi em direção à mesa da Corvinal, na qual se encontrava a amiga, ao lado do namorado: Maurício Patil. Aí Lílian se recordou que ele não "visitaria" simplesmente Cris. Ele estava sendo transferido para Hogwarts.

- Oi, Cris, tudo bom? Será que eu posso falar com você?

Cristiane olhou nos olhos de Lílian e respondeu secamente:

- Não.

- Não?

- Lily, você sabe que eu gosto muito de você, mais não dá, Lílian, não dá.

- Não dá o que, Cris?

- Isso é o que não dá. Não dá pra olhar na sua cara enquanto eu falo com você e saber que tudo que você fez não significou nada, que você não está nem aí para o que os seus amigos sentem. Que você sacrificaria qualquer um por causa de uma brincadeirinha boba e de muito mau gosto, e no fundo, quem se deu mal foi você mesma.

- Mas eu não fiz nada, Cris, eu juro.

- Bom, se seus amigos não significam nada pra você, então não fala mais com esse nada aqui, tá legal?

Lílian ficou exatamente da cor de um tomate, saiu de lá soltando fogo pelas ventas. Agora até Cristiane se recusava a conversar com ela.

Mas, afinal... Por que alguém gostaria de vê-la se dar mal? Lílian não se lembrava de ter feito nada contra ninguém para chegar a esse ponto, ela sabia que muita gente não gostava dela, mas, por que isso? Por quê, Merlin? Por quê?

Lílian seguiu pelo Saguão de Entrada com a intenção de caminhar pelos jardins para ver se a raiva passava.

Puxa, será que ninguém percebia que ela não fizera nada para magoar os amigos? Ninguém via que ela estava completamente confusa? Será que eles achavam mesmo que ela deixaria todas as amizades por causa de uma brincadeira? Ela era a única que teria perdido fazendo isso. No fim, ela perdera mesmo sem ter feito nada.

Tiago Potter estava sentado no último degrau da entrada do castelo, parecia distraído e distante.

"Como se já não bastasse a minha vida ser um inferno tendo que aturar esse garoto no meu pé, agora meus amigos ficam me ignorando? Eu devo ter feito algo realmente terrível em outra vida pra merecer isso! Olha só, ele mais parece um chiclete-de-baba-e-bola alterado, que gruda e não larga mais!", lastimava-se ela, aproximando-se do garoto.

Ele devia estar mesmo numa viagem à Marte, pois nem reparou quando Lílian parou ao seu lado.

- Potter? – Chamou-o assim que pigarreou.

Tiago se virou subitamente, levantou-se e ficou de frente para Lílian, esperando que ela dissesse algo. Lílian estranhou um pouco que ele não tivesse dito "Oi, Lily, minha flor do campo!" ou algo do gênero.

- Então, vamos? – Já que ele não tomava nenhuma atitude, ela foi direto ao ponto. Quanto mais cedo aquilo acabasse melhor.

- Vamos aonde? – Perguntou ele com um tom de voz frio que Lílian nunca o ouvira usar até aquele momento.

- A Hogsmeade – respondeu ela impaciente e, ao mesmo tempo, confusa. Queria ter dito "Por acaso foi atacado por um obliviador do Ministério?".

Mas Tiago não foi nada cortês, muito menos amigável. Desviou o olhar dela, levantou-se e desceu as escadas, sem olhar para trás. Lílian pode vê-lo cumprimentar uma garota mais adiante, a chinesa chamada Kate Lee. E os dois saíram juntos em direção aos portões de Hogwarts.

Demorou quase cinco minutos para que Lílian desse conta de ainda estava parada no meio da escadaria de entrada com a boca entreaberta, esperando uma resposta de Tiago. Naquele momento ele já devia estar muito longe dali e certamente ocupado demais para pensar nela.

"Então ele só queria me fazer de boba! Ele só queria me humilhar!", enfureceu-se a ruiva.

Lílian deu ainda alguns passos atordoada e quase tropeçou num enorme cachorro preto pra chegar até o portão de entrada do castelo, chegou a ver Tiago e Kate desfilarem de mãos dadas pelo caminho que chegava a Hogsmeade.

- Ah, você ainda me paga, Tiago Potter! Pode apostar! – Murmurou ela vingativa.

- Falando sozinha, Evans?

Ela se virou. Era Bartolomeu Crouch Júnior.

- O é que você quer? – Perguntou ela gratuitamente.

- Que é que eu poderia querer com uma sangue-ruim?

Lílian estava quase tremendo de raiva. Naquele momento, tal a sua raiva, seria capaz de socar aquela cara dele, só pra entortar mais ainda aquele seu nariz, mas lhe faltou coragem.

- Acho bom tomar cuidado com o que fala, Crouch!

- Por quê? O que você vai fazer? Colocar-me em detenção? – Riu-se ele sarcasticamente.

Lílian não entendia o que ele ia ganhar fazendo aquilo. Não tinha ninguém da turminha dele pra rir de suas brincadeiras. Ele estava sozinho.

Se por um lado era bom que não havia outros sonserinos para tirar com a cara dela, por outro, não era nada confortável se ver ali no meio do nada com ele.

- Eu posso muito bem fazer de uma detenção um inferno, se você não sabe – interpôs ela só pra meter medo.

- Você não sabe nada sobre o inferno, Evans! Mas pode chegar bem perto se continuar a empinar esse narizinho! - Disse Crouch ameaçador.

- O que você quer dizer com isso?

- Ora, ora, então a monitorazinha sangue-ruim não sabe? – Perguntou ele com desdém.

- Só sei dizer que você é o ser mais repugnante que eu já vi!

O rapaz riu. Não era uma risada calorosa, era fria e mal intencionada. Em seguida ele a segurou pelo pulso, imobilizando a mão que segurava a varinha.

- Me solta, Crouch!

- Por que eu deveria?

- O que você quer? – Disse ela entre os dentes.

- Mas não é óbvio? – Ele se fingiu de inocente. – Que eu saiba os trouxas e gente da sua laia só servem pra uma coisa: diversão! Já ouviu falar nisso?

Lílian viu através dos olhos dele que boa coisa não era. Seus olhos eram fundos e escuros como um túnel, ela sentiu um arrepio e reagiu sem pensar. Da ponta de sua varinha saiu uma fagulha amarela e Crouch logo se apressou em esconder o que antes era seu nariz.

No lugar do nariz torto havia um tentáculo roxo se contorcendo. A garota teria rido se não soubesse da gravidade da situação. Correu assim que Crouch a soltou e antes que pudesse lhe lançar uma azaração.

- Agoga focê vai se ver, Effans! – Ela ouviu Crouch gritar fanho e furioso ao longe.

E ele tinha razão. Nada justificava aquilo. Sem falar que ela não teria como provar que ele a estava ameaçando, já que não havia mais ninguém por perto, exceto o grande cachorro preto que se precipitara rosnando para Crouch, enquanto a ruiva corria.

Ela só não sabia porque Sirius subitamente aparecera em seus pensamentos quando vira o cão negro. Bobagem. Ele não poderia ser o cão, e ele também estava bravo com ela, não estava?

Lílian só conseguiu respirar novamente e se recompor quando estava bem longe. Entrou no Três Vassouras e se sentou numa mesa escondida a um canto sozinha.

Quando a jovem Madame Rosmerta apareceu para fazer o pedido, Lílian não pediu o de sempre – cerveja amanteigada - mas, sim, um pequeno cálice de Uísque de Fogo. Madame Rosmerta deu-lhe um olhar severo antes de anotar o pedido, mas Lílian era maior de idade e podia pedir o que bem entendesse.

Estava muito ocupada pensando no que Crouch dissera para observar o bar. Havia muita gente estranha por ali. Mesmo que quisesse, Lílian não teria reconhecido sequer uma pessoa que pudesse ser auror, mas sabia que devia haver muitos deles no povoado. Ocorria um burburinho esquisito e a garota aproveitou a oportunidade de perguntar à Madame Rosmerta quando esta lhe trouxe a bebida.

- Ah, querida, são tempos difíceis. O Ministério aprovou hoje uma lei que permite o uso das Maldições Imperdoáveis pelos aurores que encontrarem Você-Sabe-Quem ou qualquer um de seus seguidores.

- Mas como pode? Se são ilegais, como é que eles permitiram? – Perguntou Lílian imóvel, erguendo as sobrancelhas.

- Nem eu entendo... Deve ser obra de Bartolomeu Crouch, imagino. Ele anda pegando pesado pra obter resultados! – Disse ela e, vendo um cliente chamá-la, saiu.

Como se já não bastasse o Crouch Júnior fazendo-a passar por uma experiência traumatizante, ainda tinha de ouvir o nome do pai enquanto tentava esquecê-lo.

Todo aquele alvoroço parecia não ter fim. Lílian se sentiu egoísta ao pensar que enquanto pessoas morriam e famílias eram destruídas, ela se preocupava com intrigas mínimas de adolescente. Mas também não podia deixar de viver a vida dela para se preocupar com o mundo lá fora; o que estava passando naquele momento seria importante para que se tornasse auror e pudesse, finalmente, fazer alguma coisa. Por enquanto, era apenas um peso, uma sangue-ruim.

"É para isso que os aurores são treinados. Para protegerem o mundo bruxo, impedirem a força das trevas... Não para viverem suas vidas!".

Ela já não tinha certeza se queria sacrificar a sua vida pessoal para buscar um futuro decente. Mel já dizia: "Se continuar desse jeito, Lílian, vai ficar velha cedo!", e talvez estivesse certa.

Só que pensar em Mel não era saudável. Que vida pessoal ela sacrificaria? Seus amigos não estavam mais lá, se afastaram de sua vida. Ela não tinha ninguém! Claro que tinha, tinha sua família... Seu pai, sua mãe e – por mais irônico que pareça – Petúnia.

Mas pensar nisso não era suficiente. Se antes Lílian já se sentia só, incompleta, como se algo ainda faltasse, aquilo não se comparava com o que sentia agora. Era fácil dizer que tudo passa, mas ela não queria ser consolada por uma frase barata e vazia, queria saber quando é que tudo terminaria.

Houve um tempo, quando apresentaram o mundo de magia à Lílian, em que ela acreditava que tudo poderia se resolver com um passe de mágica. Mas há muito ela deixara de ser criança, e doía saber que algumas coisas não se resolveriam num piscar de olhos. Eram essas coisas que não se resolviam nunca, que sempre queremos que acabe logo.

A ruiva foi interrompida em seus devaneios por alguém que se sentara em sua mesa. William Sith e trazia um canecão de cerveja amanteigada. Era um momento em que Lílian preferia ficar sozinha, mas se sentiu grata por ele vir lhe falar, já que na maioria do tempo se sentia invisível e ignorada por todos.

- Oi – cumprimentou ela.

O olhar dele pousou no cálice intocado de Uísque de Fogo e depois tornou a fitar a garota.

- Dia ruim?

- Todo mundo tem, não é?

- É. Mas pelo menos não tem uma aula do Binns pra piorar a situação, hein?

Ela fingiu um sorriso. William podia não ser um humorista muito bom, mas estava sempre lá pra ajudar, era um grande amigo e, naquele momento, o único que não lhe virara a cara. Sirius podia dizer o que quisesse sobre as intenções dele, mas Lílian tinha certeza que poderia contar com ele sempre que precisasse.

William tomou um gole de cerveja e olhou para o lado. Lílian virou para ver o que ele olhava. Uma mesa não muito longe dali com três pessoas – Fábio Prewett, Gilderoy Lockhart e Rita Skeeter.

"Coitado do Fábio, ele não tem muita sorte. Esse Lockhart é um sanguessuga e a Skeeter tem uma boca felina. É amigo demais do William pra deixar ele na mão...", pensava ela. Certamente William vinha daquela mesa. Prova disso era loirinha com um vestido rosa-choque olhando para Lílian, provavelmente pra ver com os próprios olhos se rolava alguma coisa.

Ela não queria dar o braço a torcer e concordar com Sirius, mas depois de algum tempo ficou difícil, quando William veio com uma conversa fiada que não condizia nem um pouco com o que normalmente dizia.

- Notei que você ta sozinha esses dias... Você sabe que pode contar comigo. – E colocou sua mão sobre a dela.

William nunca foi de ficar se metendo em sua vida.

- O que você quer beber? Podemos pedir mais alguma coisa e depois nos divertimos no povoado. – Disse com um brilho estranho nos olhos.

Lílian se assustou por um momento e tirou sua mão debaixo da dele, levantando-se da cadeira:

- Ahn... Sabe, William, o Fábio está lá sozinho, deve ter acontecido algo entre ele e a Kate... – começou Lílian inventando uma desculpa.

- Ela foi comprar um vestido e vão se encontrar mais tarde – explicou tentando fazê-la voltar a sentar.

- É verdade! O vestido! – Exclamou encontrando a desculpa perfeita para sair dali. - Eu preciso ir numa loja pra encomendar um vestido e... E eu não quero voltar tarde pro castelo. Preciso estudar mais um pouco, tenho que aproveitar que a Sala Comunal está vazia pra me concentrar...

- Ah, claro – concordou ele, mas era óbvio que ele não queria concordar.

Lílian acenou se despedindo dele e deixando o cálice cheio sobre a mesa. Pagou pela bebida e saiu do bar.

Teria de lembrar de agradecer à Alice pela desculpa de comprar o vestido. Mas era mesmo verdade que Lílian nem pensara no assunto ainda; seria madrinha e precisava de um vestido exclusivo. Caminhou pelas ruelas de pedra, até avistar a loja que procurava – Trapobelo Moda Mágica.

Entrou na loja, que estava toda enfeitada para o Dia das Bruxas que se aproximava. Havia vários modelos de trajes a rigor na vitrine. Lílian se dirigiu ao fundo da loja, onde uma bruxa magricela lhe atendeu. Lílian lhe disse o que queria, seguindo-a por um outro corredor. Havia uma sala que era usada para a medição pessoal, quando alguém queria um traje específico.

Quando chegou, Lílian mal acreditou, Kate também estava rodeada de fitas métricas que voavam de um lado a outro contando os centímetros – do pé à cabeça, do cotovelo às orelhas, do joelho ao queixo...

A ruiva subiu num banquinho para que outras fitas se enrolassem nela e pegassem todas as medidas. Kate ficou muda.

A bruxa magricela, Giselda Greengrass, saíra da sala. As duas estavam sozinhas. Mas as fitas pararam de medir Kate e ela se dirigia à porta para sair da sala e lá se ia sua oportunidade. Lílian não quis saber, pulou do banquinho, largando as fitas medindo sua sombra.

- Kate, espera, eu preciso falar com você!

- Não tenho nada pra falar – disse a outra sem nem se virar. Porém, a ruiva correu até ultrapassá-la e postou-se na sua frente.

- Ah, não, desta vez você vai me escutar! Isso está errado! Vocês não estão vendo? – Falou Lílian balançando veementemente as mãos.

- Você faz a burrada e a gente que está errado? – Perguntou a morena de braços cruzados.

- Não! Olha, eu nem sei por que é que vocês tão me ignorando!

- Aaaah, não sabe? – Perguntou a outra debochando.

- Não, não sei! – Confirmou a ruiva em voz alta. – E vocês ficam aí nesse clima me encarando como se eu fosse uma louca que pode atacar vocês a qualquer momento... Uma hora eu estou com vocês conversando e na outra... Ué, cadê os meus amigos? Não é nem um pouco legal, se você quer saber!

- Legal? Você quer saber o que não é legal? – Bradou Kate indignada. - Sabe, tudo bem se você gostava do Remo, Lily! Mas você não precisava beijá-lo na frente do Tiago, que, se você não percebeu, GOSTAVA MESMO DE VOCÊ!

Ela empurrou Lílian e saiu da loja, antes mesmo que a outra pudesse murmurar confusa pra si mesma:

- Eu fiz o quê?


C.O.N.T.I.N.U.A.

N/A: Olá!!

Quero agradecer a todos os que leram, que estão lendo e aos que me apoiaram. Tanto como estímulo para continuar tanto na história do plágio... ¬¬'' Simplesmente vergonhoso.

Muito obrigada a todos! Espero reviews!

Beijinhos!!

AyaNayru