Capítulo X – Feridas



Miroku e Sango entraram correndo. Foram direto ao corredor que daria para o quarto de Kagome. Não pediram informação. Afinal, os dois melhores hackers encontrados em Tókio nunca pediam informações. Entraram no quarto onde ela estava instalada. Já saíra da UTI, apesar de continuar em coma. Sua vida já não corria perigo.

Com lágrimas nos olhos, Sango se aproximou da cama, e pegou a mão gelada da colega.

-Ka-chan... O que você foi fazer? –sussurrou. Sentiu as mãos de Miroku envolverem seus ombros, e agarrou-se com força naqueles ombros fortes. Precisava de algum apoio, no meio daquela turbulência. Miroku era seu ponto firme.

Tinham saído do parque direto para a casa de Sango. Aparentemente, Kei e Maki haviam se dado conta de ter deixado dois adolescentes presos na roda gigante no meio da madrugada.

Pela manhã, o jornal noticiara a tentativa de suicídio de Kagome, sem muita ênfase. Estava no fim do caderno de notícias. Assim que vira a foto da amiga, Sango procurara a localização precisa dela, e arrastara Miroku junto.

E ali estavam os dois, olhando tristemente para o rosto pálido de Kagome. Ela estava, de fato, branca como os lençóis que a cobriam. Seus olhos antes tão brilhantes estavam fechados. Os braços não estavam cobertos daquela vez. Nada impediu que os dois vissem a enorme atadura que cobria o pulso esquerdo da garota.

-Meu Deus... –disse Miroku, observando as ataduras brancas, coloridas de um vermelho fraco no local onde o sangue escorrera antes de coagular. –Por quê?

Nenhum dos dois saberia dizer. Apenas Kagome sabia o que se passava. E ela não podia dizer.

Do lado de fora, A senhora Higurashi, avó de Kagome, olhava os adolescentes junto de sua neta. Segurava firmemente um pedaço de papel entre os dedos. O garoto de olhos violetas não era InuYasha, ela ouvira a garota chamá-lo pelo nome de Miroku.

A pessoa que se chamava InuYasha, a pessoa que mais tinha a ver com aquilo tudo, não estava ali. Ela sabia que a culpa era do hanyou. Os nomes eram parecidos demais. InuYasha, InuTaishou. Ela achara os papéis do hanyou. Ele ensinara sua neta a libertar youkais. Ele causara, mesmo que indiretamente, a quase morte de sua amada Kagome. E, por aquele motivo, A Senhora Higurashi decidiu-se por odiar aquele a quem sua neta dera adeus. Por aquele único motivo, ela decidiu que ele jamais chegaria perto dela novamente.

***

InuYasha caminhou rapidamente pelo corredor branco, as mãos tremendo, o coração apertado. Seus olhos dourados procuravam o nada, na esperança de encontrar ali a face de Kagome. Queria vê-la de pé. Queria vê-la sorrindo.

Queria vê-la viva.

Ele passou por todas as portas sem olhar para os lados, até chegar à última delas. Pôs a mão na maçaneta, hesitou. O que veria ao abrir a porta?

-Saia daqui.

A voz de uma mulher o tirou dos devaneios. Ele se virou e deu de frente com a avó de Kagome.

-Você é InuYasha, não é? –perguntou a senhora, com olhos cheios de dor e ódio. –É culpa sua o que aconteceu. Eu sei. E quero que saia daqui. Agora.

Ele viu nos olhos dela a mesma dor que sentia, e aquilo o fez sentir-se culpado. Era culpado por aquela dor. Mas mesmo assim não podia desistir de ver kagome. Não conseguia.

-Vim ver Kagome.

-Não chegará perto da minha neta. Nunca mais. –A voz dela era firme como uma rocha. Os olhos ficaram frios. –Nunca mais vai machucá-la.
-Vim ver Kagome. –repetiu ele, encarando-a.

-Já disse o que deve fazer. Saia daqui.

Ele girou a maçaneta. Do lado de dentro, o movimento na porta chamou a atenção de Miroku e Sango. Os dois, porém, decidiram ficar ali, esperando.

A avó de Kagome segurou o pulso do hanyou, com uma mão que não tremia ou hesitava. Jogou o punho de InuYasha para o lado.

-Saia antes que se machuque.

-O que vai fazer? –disse ele, o ódio finalmente chegando à borda. –Me selar, como fez com meu pai?

Aquilo acertou a senhora. No meio da face, e com toda a força.

-Não fale de coisas que não conhece, criança. –disse ela.

-Não me mande fazer coisas como se fosse minha dona. –retrucou ele. O gênio forte começava a ferver. –Vou entrar, vou ver sua neta. Por cima de você, se for preciso.

-Você não sabe o que diz. –falou ela.

-Eu sei que você acabou com a minha vida. –lançou ele. –Sei que você e seu maldito grupo de egocêntricos mandou meu pai para o meio do inferno, tamanha a necessidade de sentir que tinham poder sobre alguma coisa. Mas as coisas não deram certo, não é? Deixe-me dizer uma coisa, senhora. Não me importo com você ou com eles. Não mais. Tenho meu pai de volta. Mas, vendo o preço que estou pagando, não sei se valeu a pena. Quero que saiba que não pedi à Kagome que fizesse isso. E que não a deixaria fazer se soubesse o que pretendia. Eu a amo. Agora saia da minha frente.

A mulher ficou estática por alguns instantes. Recompôs-se rapidamente, e falou, em tom alto e claro:

-Já disse. Você não sabe o que fala. As Rosas Negras nunca baniram um único youkai que não merecesse. Existem motivos para cada uma de nossas ações, motivos que um garoto como você nunca entenderia, e que eu não perderia tempo explicando. Você pode não ter pedido nada à minha neta, mas ela fez o que fez por sua causa. Vi os papéis. Então, não tente dizer que não pretendia matá-la para ter de volta seu querido papai.- ela lançou toda a raiva que tinha em cima dele, sem pensar ou medir palavras. –Você se aproximou dela por interesse, fingiu-se de amigo e companheiro. Mentiu para ela, iludiu-a. -a tanto, e tão fundo, que ela acabou não agüentando a dor, e preferindo a morte. Você é o culpado do que aconteceu. Eu não teria nada contra você, como humano ou youkai, se nada tivesse feito à minha família. Mas você o fez. Por esse motivo, eu o odeio. E, por esse motivo, você não vai passar por essa porta.

InuYasha encarou os olhos frios e firmes da senhora. Ela não cederia. Preparou-se para usar de força para tirá-la da frente, mas a porta se abriu antes. Sango saiu de dentro do quarto, os olhos preocupados se fixando nos seus.

-Vamos embora, InuYasha. –disse ela, em tom contido e sério.

Ele seguiu-a, praticamente arrastado, a raiva ainda pulsando. Sua amiga provava estar do lado da velha, afinal. Ele sentiu o coração pulsar mais forte, os sentimentos aflorando com toda a força. Sacudiu o ombro com força, forçando a mão de Sango a sair dali.

-Você está do lado dela? –perguntou ele, olhando-a furioso. –Também vai me afastar da Kagome?

-Você não sabe o que diz. –disse Sango, ainda calma.

-Estou cansado das pessoas me dizendo o que não sei! –atirou ele, nervoso. –Tudo o que quero é vê-la, e não vou sair daqui enquanto não fizer isso!

-A janela do quarto dela tem um vaso de tulipas amarelas. –disse Sango. –É a única que tem. Vou voltar ao quarto. Direi à senhora Higurashi que o mandei embora.

Depois de dizer aquilo, Sango foi embora. InuYasha ficou parado durante algum tempo, pensando no que ela dissera. Logo depois, saiu do hospital. Olhou para os lados, Ninguém. Começou a escalar o prédio.

Pouco depois chegava ao quarto com tulipas amarelas na janela. Ela foi aberta por Miroku, que olhou-o com seriedade.
-Até que enfim. Sango deve estar chegando.

InuYasha não ouviu. Seu olhar se voltou para a cama, onde Kagome estava deitada, lívida, inconsciente. Ele sentou-se ao lado da cama e segurou a mão da garota, como que procurando um ponto de apoio. Ficou em silêncio.

Quando Sango chegou, Miroku fez sinal para ela e os dois se foram.

Durante as horas que se seguiram, InuYasha foi a única companhia da garota na cama. Velando o sono dela, com o coração pesado, o hanyou adormeceu.

***

Izayoi entrou na casa sentindo o corpo pesar. Jogou a bolsa no sofá, junto do casaco. O mundo parecia apagado, pensava. Parecia escuro, sem vida. Sem ele, era assim que as coisas ficavam. Sem cor. Sem brilho.

Foi ao quarto e se trocou. Quando se virou para a cama, levou um susto.

Ali, num embrulho maravilhoso, estavam dúzias de tulipas brancas.

E, ao lado delas, estava InuTaishou.

-Izayoi... –sussurrou ele. O coração dela falhou. Seu marido. Estava ali, vivo. Estava ali, com ela. Uma lágrima surgiu, e depois outra. Ela caiu, e ele a segurou.

-Como...? –perguntou ela, confusa.

-Não sei. –disse ele. –Importa agora?

Não. Não importava. Ela o abraçou, deixando as mãos percorrerem o pescoço, o rosto, os cabelos. Tudo tão igual, tudo tão diferente. Ela o beijou, sentindo o alívio brotar nos lábios e invadir o corpo. Era como renascer. As mãos dele também percorreram o corpo dela, procurando cada mudança, cada novidade. Era como se eles tentassem se fundir. O amor voltou, a intensidade imensa e inigualável.

Izayoi se afastou por tempo suficiente para olhar no fundo dos olhos dourados do marido. E sorriu.

Ela o abraçou novamente, e ele a pegou no colo. As tulipas ficaram esquecidas quando os corpos caíram juntos no colchão.

InuTaishou amou-a como sonhara durante anos, e deixou que ela o tomasse para si como se fosse a última vez. Mas não era.

Depois de muito tempo, aquela não seria a última vez. Seria a primeira.

Sorrindo, ela o abraçou com força, sentindo cada músculo, cada suspiro.

E, enfim, seu mundo voltou a brilhar.