Capitulo 11: Saudades
— Lista de coisas que precisamos fazer... Primeiro: Dar o troco no professor Slughorn; Segundo: cumprir detenções da quimera; Terceiro: pedir desculpas pro Hagrid por termos dedurado sua quimera; Quarto: ganhar o jogo de hoje; Quinto: pesquisar mais sobre Marca Negra e afins; Sexto: inventar algo bem malvado para fazer com o Seboso; Sétimo: implorar para o professor de DCAT reconsiderar nosso zero; Oitavo: arranjar uma maneira de fazer a bonequinha ficar feliz.— Sirius suspirou para retomar seu fôlego— E depois dizem que nós somos vagais!
Tiago ouviu a contagem atentamente para quem estava morto de fome e sonolento. Estava prestes a comentar sobre a lista quando, sem querer, seus olhos distraídos captaram a mesa de Lufa-lufa. Não havia nada de interessante ali a não ser a massa de cabelos vermelhos de Lily Evans, que estava estranhamente nervosa conversando com um rapaz estranhamente atraente. O rapaz aproximou os óculos do nariz e espremeu os olhos, sem notar que apertava o garfo em suas mãos. Como se já não bastasse toda a pressão com o início do esperado Campeonato de Quadribol, Tiago agora ia ter que lidar com a concorrência masculina da escola!
Sirius notou o talher retorcido nas mãos do amigo. Seguiu a direção de seu olhar e foi tomado por compreensão.
— É o Diggori. — explicou, dando um nome para o mais novo inimigo de Pontas.
—Hunf. — o apanhador deu de ombros, fingindo desinteresse. Seus olhos castanho-esverdeados se desviaram para os ovos mexidos em seu prato. Ele bufou. — Preciso de outro garfo...
Naquele momento Remo se aproximou dos amigos, mas não se sentou à mesa. Pedro, muito pelo contrário, decidiu repetir a dose e se empanturrar com um segundo café da manhã.
—Que cara, Aluado!—Sirius ergueu seus olhos penetrantes para o apático companheiro — Você e o Tiago estão acabando com meu bom humor matinal!
— Você sabe que devia ser um crime ter "bom humor matinal". — comentou Lupin erguendo uma sobrancelha para ele. Sirius devolveu com um meio sorriso. Remo suspirou— É a Julie... Ela... foi ficar com os parentes.
— Fabe quando ela folta?! — mastigou Pettigrew, a boca cheia de pão e pedaços de bacon. Sirius lhe tascou um tabefe no pescoço gorducho:
— Faz o favor de engolir, cara!
Conforme terminavam o café da manhã toda a multidão de estudantes foi se dirigindo animadamente para o campo de Quadribol. O jogo de abertura seria Grifinória versus Lufa-lufa. Euforia e muita agitação acompanharam todos do castelo até os jardins. Bandeiras bronze e pretas, vermelhas e douradas se confundiam entre a multidão, assim como estandartes com desenhos de leões e texugos. Os Sonserinos, como sempre, torciam contra Grifinória e os Corvinais a favor.
Passando pelas portas de carvalho da entrada estavam Lilian, Daynna, Berta, Alice e Amélia Bones. O grupo parecia triste e preocupado, apesar de toda a euforia à sua volta. O motivo é claro, era o luto e respeito por Julie e seus pais.
— Tadinha...só espero que ela volte antes do Halloween, pelo menos conformada.— suspirou a única lufa-lufa do grupo.
— Ela nem dormiu ontem, e logo hoje de manhã já pediu autorização para ir. Não acho que vai se recuperar tão fácil, virar órfã do dia pro outro deve ser uma dor tão... irreparável.—Daynna tinha até lágrima nos olhos quando pensava na amiga— Porque é que as coisas são tão injustas? Os Cabbot nunca fizeram nada a ninguém!
—Pelo menos são poucos os que sabem e não virou fofoca ainda... — comentou Berta.
—Ah gente, e o pior é que não podemos fazer nada!— disse Lilian enquanto recebia os primeiros raios de sol de outono em seus cabelos. Ela não queria se privar da sua felicidade, mas cada vez que ria ou conversava sentia uma pontada de arrependimento. Enquanto ela estava lá, fazendo pouco caso, uma pessoa que gostava estava em prantos e completamente desolada. A ruiva quase se esbofeteou por ter pensado em Diggori numa hora daquelas— E hoje deveria ser um dia feliz, para todos nós.
—Mas vai ser Lily.— corrigiu Alice— Não podemos nos torturar. Aconteceu, e é só. Quando a Julie voltar nós estaremos prontas para acolhê-la.
—É, acho que sim...
—Ahnn...— fez Amélia Bones, aproveitando a deixa— Eu vi você e o menino mais cobiçado da minha casa, Amus Digori, conversando no café da manhã... Vai nos contar alguma coisa ou vamos ter que descobrir?
—Ah, estamos apenas começando a nos conhecer...— Lily corou levemente— Vamos dar tempo ao tempo, né?
As amigas já tinham agora atravessado uma boa parte do gramado, e logo o som excitante dos torcedores que se acomodavam nas arquibancadas ficava mais intenso. Folhas secas caiam suavemente de cada ramo, forrando o gramado com um tapete alaranjado . O sol que batia nas árvores deixava-as com a falsa impressão de estarem em brasa, mas a beleza do outono mal estava sendo apreciada pelos alunos. O era de pura energia, atmosfera única das pré-partidas de Quadribol.
No vestiário, Tiago Potter zanzava de um lado para o outro. Estava nervoso, como sempre, e o resto do time bem sabia disso. Seguiam o impaciente capitão com o olhar, mas em silêncio, aguardando alguma resposta ou conselhos de última hora. Frank Longbotton, Sirius Black, Katherin Manchester, Ania Patil, Helen Brown e Michael Finnigan constituíam todo o time (e apoio) com que o capitão contava no momento.
— Tiago, pare com isso, por favor, estou começando a ficar tonto!— pediu Frank por fim— Acalme-se, você nos treinou bem. Estamos preparados, e afinal de contas são apenas Lufa-lufas!
— Nunca subestime o adversário, Frank. — devolveu Tiago, ainda marchando. Sirius decidiu agir:
— Pontas, nós vamos vencer. Você está sofrendo por nada.
—Eu sei, eu sei...
—Sabe, é? Não parece...
—Mas que droga, eu tenho o direito de ficar impaciente!— por fim o capitão parou, agora com um tom de urgência na voz, encarando seus companheiros— Vocês não foram bem preparados! Eu sou um péssimo capitão...eu me estressei em todos os treinos, vocês deviam me linchar!
—E nós vamos se você não parar com isso!— ameaçou Patil de maneira nada assustadora, terminando de fazer suas unhas jeitosamente. Helen, sua melhor amiga, guardou a lixa de unha cuidadosamente quando Patil lhe devolveu— Nós vamos ganhar essa partida. Você bem sabe que leões devoram texugos, Potter!
— E muita autoconfiança também faz mal, Ania...— falou Finnigan antes de acompanhar os outros para fora do vestiário.
"Grifinória está novamente com a posse da goles. Michael Finnigan lança para Helen Brown... Oh, um balaço lançado por Lufa-lufa quase acerta Helen! Sorte que Sirius Black estava por perto para fazer a defesa! Grifinória continua com o ataque..."
Tiago assistia ao desempenho de seu time com o peito estufado de orgulho. Pelo menos uma coisa boa estava acontecendo naquele dia... Será que Lilian Evans estava vendo isso?
"E um deslize de Mcmillan no gol:PONTO PARA GRIFINÓRIA!".
A área da arquibancada que se encontrava forrada de vermelho e dourado tremeu. Os alunos fizeram tamanha algazarra que a voz do locutor corvinal, David, morreu como um sopro no ar. Minerva bateu palmas fervorosamente, pois afinal de contas era o quinto ponto de Grifinória contra um do adversário. O jogo já tinha vinte minutos de duração e todo o time vermelho e dourado parecia pedir mais...
Inconformados, os Lufa-lufa arrancaram com um ataque potente. Amus Diggori, apanhador, alçou voou o mais alto que pôde, rastreando o pomo como um radar. Mas mesmo com essa revolta adversária o time de Grifinória continuou com sua tática e o jogo começou a esquentar. Tiago seguiu Amus a torto e a direito, atrapalhando seu campo de visão teimosamente.
— Bem Potter, acho que vou ter que usar artilharia pesada. —sorriu Digori quase como se falasse com um amigo, porém sem deixar de manter o sarcasmo.
— Estou pronto.— sorriu Tiago em resposta. Diggori, na mesma hora, disparou como um foguete tentando se livrar do grifinório, mas este o seguiu como um imã.
Enquanto um duelo silencioso acontecia entre os apanhadores, Sirius e Frank Longbottom atiravam balaços a torto e a direito, tentando impedir, de todas as maneiras possíveis, o ataque impiedoso do time de amarelo. Eles estavam perigosamente perto do gol, até que...
"E a goleira grifinória, Katherin Manchester, faz uma excelente defesa! É isso aí garota! E agora será que você aceita sair comigo de uma vez?"
—David!— ralhou Binns, diretor de Corvinal (grande proeza para um fantasma), ao que o aluno respondeu com um dar de ombros.
Lilian estava obviamente torcendo para sua casa, mas nem por um segundo desgrudou os olhos de Amus. Ele era muito atraente, sem dúvida, mas o que mais encantava a garota eram sua sensibilidade e extrema cortesia para com ela. Era muito cavalheiro, e parecia ser um bom amigo. Era lindo o modo como ele se equilibrava naquela vassoura, como o vento brincava com seus cabelos e como sorria brilhantemente...
Foi nesse momento, porém, de devaneios a cerca de Diggori, que uma explosão de urros por parte de seus amigos grifinórios a trouxe de volta ao jogo:
"Parece que os apanhadores avistaram os pomos! Ambos mergulharam em disparada, está uma disputa acirrada! Mas...oh, balaço!"
Sirius mirou o melhor que pôde na cabeça de Diggori, mas o apanhador de Lufa-lufa abaixou a cabeça por um triz, arrancando suspiros de alívio de toda a sua torcida. Frank Longbottom tentou novamente, mas seu balaço foi desviado por uma batedora de Lufa-lufa, que mirou para o outro extremo do campo...para a goleira Manchester.
"Mas o que é isso? Manchester foi atingida! Parece que Grifinória está com meia goleira depois dessa... ui! Doeu em mim!".
Katherin massageou o braço tentando amenizar a dor, mas era quase insuportável. Aproveitando esse deslize, os atacantes de amarelo tomaram posse da goles, sem nenhuma intervenção, pois todo o resto do time prestava atenção em seus apanhadores...
—Helen!— se esganiçou Anie quando se deu conta da burrada — Deixe o Tiago e vamos recuperar aquela goles! Michael!
Mas era tarde demais. Um, dois, três toques...logo um arremesso e era ponto de Lufa-lufa.
"E nossos texugos parecem estar querendo revirar o jogo!"— urros de aprovação por parte da arquibancada onde se encontrava tal torcida. Amélia Bones mandou beijos para seu irmão, que fizera o ponto. Lily e as outras fizeram caretas desaprovando. Pedro e Remo se entreolharam desapontados, enquanto Mundungo e Alice vaiavam.
E para piorar estava óbvio que Tiago e Amus haviam perdido o pomo de vista.
Retomando com coragem, Michael avançou para arrancar a goles do garoto Bones, mas Abbot, capitão do time e também atacante, recolheu a bola de seu companheiro antes que o grifinório conseguisse roubá-la. Katherin observou o avanço dos texugos cheia de exaustão, torcendo para que seu braço ressuscitasse de sua morte prematura. O balaço parecia ter destroçado seus ossos.
"Os atacantes de Lufa-lufa avançam rápido...Katherin está imobilizada e é PONTO DE LUFA-LUFA!"agora, mas baixinho, David comentou" Está começando a me desapontar, gatinha..."
—David Boot!— ralhou dessa vez McGonagall —Narre o jogo apenas, e deixe a goleira em paz!
—Tá bom, tá bom...
Tiago estava furioso consigo mesmo. Ele espremia os olhos e até mesmo o Cérbero, mas aquele maldito pomo parecia ter se tornado invisível. Nunca em toda a história de Hogwarts um jogo contra Lufa-lufa fora tão longo! Indignado, Tiago cobriu os olhos com uma das mãos tentando protegê-los do sol inebriante. Um vento gelado de outono brincou com seus fios de cabelo negros e bagunçados naturalmente. Ao seu lado, Amus ziguezagueava impaciente, esperando que Tiago fizesse o trabalho árduo de encontrar a bolinha dourada. E o apanhador encontrou.
Brilhando ao lado da torcida de Sonserina, próxima à orelha de um azedo e desinteressado Severo Snape, o pomo de ouro se balançava alegremente. O grifinório foi invadido por tamanha surpresa e felicidade que quase caiu da vassoura e desembestou para alcançá-lo, mas ele notou que Diggori estava à espreita, observando cada um de seus movimentos. Enquanto isso o jogo continuava...
"Falta em Helen Brown!" — anunciou o corvinal ao som do apito nervoso da juíza. Isso significava nenhum movimento até que a falta fosse cobrada...
"Brown passa para Patil... uf! Mas que balaço, onde estavam os batedores? Bem, a posse é novamente de Lufa-lufa. Abbot com a posse da goles..."
Agora era a hora. "Me livro de Diggori no meio do caminho", decidiu o capitão de Grifinória. Assim, ele e sua Shooting Star zuniram de repente cortando o ar, velozes, ágeis, trabalhando juntos para tentar ganhar o jogo. E logo atrás dele, como um cãozinho adestrado, vinha Amus Diggori.
—Sirius!— berrou Tiago quando passou pelo batedor, voando desesperado. O amigo se virou para atender ao chamado, mas logo outro vulto passou por ele: um borrão amarelo, indicando o Lufa-lufa que também avistara o pomo. Sirius entendeu de imediato o que devia fazer.
"Abbot toca para Mcmillan... ponto para Lufa-lufa!"
Sirius voou para a direção de um balaço sem rumo. Juntou todas as forças que tinha em seus braços e desferiu uma porrada na bola negra, que foi direto zarpar para as costas de Amus Diggori, que perseguia Tiago avidamente.
O tiro foi certeiro, e seu alvo sentiu o impacto. Atordoado, dolorido e zonzo o apanhador de Lufa-lufa vacilou um pouco, sentindo que a bola deveria ter feito uma cratera em suas costas. Ele se agarrou firme na vassoura e parou no ar, sendo acudido por uma garota de seu time.
—Ahá!— berrou Sirius estufando o peito— Ninguém é páreo para o papai aqui! Bem na mosca!
"E parece que Tiago Potter avistou o pomo de ouro, minha gente!" finalmente David se deu conta do que se passava, tirando a atenção de todos os espectadores (e jogadores) das balizas e de seus atacantes. Alarmados, ambos os batedores de Lufa-lufa providenciaram uma chuva de balaços na direção de Tiago, mas ele foi muito bem defendido por Frank e Sirius.
Amus não conseguia mais nem se mexer de dor... Os dedos de Tiago já sentiam a bolinha vitaminada ceder...
"Ele pegou! Tiago Potter pegou o pomo!"— ecoou a voz do corvinal "Fim de jogo!".
O apito soou estridente, quase em seguida:
— Grifinória venceu!
Tudo aconteceu rápido demais para que a torcida revestida de negro e amarelo se desse conta. Tiago pousou rasante no gramado, ainda segurando o pomo firmemente. Ah!Aquela sensação de vitória era tudo o que ele precisava!Com certeza tinha nascido para o Quadribol.
A torcida de Grifinória explodiu em urros e palmas, coros entoados e muita festa. Pedro e Remo pulavam de alegria, abraçados, se esquecendo por alguns momentos de todos os seus problemas e decepções. Até mesmo Lily estava feliz com a vitória de sua casa, mesmo que aquilo significasse agradecer ao exibido e prepotente Tiago Potter. Em poucos minutos o campo foi invadido por duas sensações: euforia e decepção.
Amélia Bones se espremeu tentando alcançar o gramado e o time desapontado que se retirava para o chuveiro. Lilian aproveitou a chance para correr para lá também e cumprimentar um dos jogadores. Suas amigas não conseguiram acompanhar, ficando para trás espremidas entre a multidão.
— Muito bom!— sorriu o capitão de Grifinória quando viu todo o seu time pousado no gramado— Katherin, e seu braço?
—Estou indo para a enfermaria Tiago, obrigada!— ela respondeu amavelmente, a adrenalina do jogo mascarando a dor.
— Valeu pessoal. — continuou o orgulhoso capitão. Ao fundo de sua fala eufórica a torcida ainda vibrava— Todos vocês foram incríveis! Vai ter festa hoje no Salão Comunal!
E assim, satisfeitos, o time se uniu à multidão.
—Hei, Pontas... — cutucou Sirius— Não olhe agora, mas a Evans está se aproximando...
—O que?
Embasbacado, o apanhador se virou para se certificar do absurdo daquela fase. E era absurdo, mas era verdade. Lilian Evans vinha de encontro a ele, caminhando lindamente, os olhos verdes cintilando. Seu gingado era realmente sedutor, e o sol de outono refletia seus cabelos como a luz do pôr do sol reflete o mar, criando mil tonalidades de vermelho e laranja. Ela se aproximava como em câmera lenta. Arrepiando os cabelos imediatamente, o apanhador se preparou para recebê-la...mas sua musa passou reto, como se nem o tivesse visto.
— Perdeu, hein?— ele ouviu ela sussurrar amavelmente para Amus, alguns passos distante dele e do batedor grifinório.
— Puts. Mal.— reconfortou Almofadinhas, dando tapinhas nas costas de Tiago, que fechava os punhos.
—A CERVEJA AMANTEIGADA É POR MINHA CONTA! — berrou ele em seguida, recompondo-se.
Newcastle, estado ao norte da Inglaterra, localizado próximo ao mar. Um bom lugar para se morar; pacífico, belo, misterioso e sempre com baixas temperaturas. Não era um lugar muito turístico, mas talvez fosse por esta razão que os Cabbot haviam escolhido Newcastle como seu lar por quase dezessete anos.
Com raízes francesas, a família se espalhou pela Europa. Christopher decidiu se mudar definitivamente para a Inglaterra ao conhecer uma mulher encantadora, Amélia, que viria a ser sua esposa e mãe de Julie. A inglesa logo aprendeu todos os costumes da família francesa de seu marido, e assim formou-se um laço cultural entre o casal. Os avós paternos de Julie permaneceram na França, assim como primos e tios. Já de sua mãe não sobrara muita coisa a não ser uma jovem tia, Margaret, mulher casada e sem filhos que passou a morar em Edimburgo. No geral, a família estava concentrada na França, onde toda a herança da jovem também se encontrava.
Mas bastou um triste e avassalador evento para que toda a família se visse reunida novamente.
A morte de Christopher e Amélia foi algo inexplicável para todos os trouxas que circundavam o povoado de casas onde eles moravam. Foi algo simplesmente anormal, algo que a ciência trouxa não poderia nem conseguia explicar. Mesmo após a autópsia nada fora descoberto, nada fora registrado, nenhuma causa de morte foi confirmada. Nada.
Não havia testemunhas muito menos provas. Nem mesmo na declaração de óbito, ao fazerem o registro do casal assassinado, os dados estavam completos. Eles gozavam de boa saúde, a não ser o fato de estarem mortos. A família ficou desorientada e abalada, mas não havia mais o que fazer. O mistério seria enterrado e tudo ficaria por isso mesmo.
— Julie, querida...— chamou Margaret docemente, enfiando a cabeça no quarto da garota—Não quer descer e comer alguma coisa?
—Não, obrigada tia.— murmurou baixinho.
— Nem um suquinho?
—Não.
— Você quer que eu encoste a porta, meu bem?
—Sim...
Assim que o som da maçaneta girando cessou, e os passos leves do outro lado reboaram escada abaixo, Julie desatou novamente a chorar, abraçada com força em seu travesseiro.
Tinha chegado a Newcastle há apenas três dias. Foi recepcionada muito bem pelos avós paternos, a tia e seu marido, os irmãos de seu pai, primos e até mesmo seus vizinhos. Mas ninguém tinha forças para dar um sorriso. Os Cabbot estavam feridos com uma marca profunda que demoraria a cicatrizar. Julie sentia-se vazia. Era como se uma parte dela tivesse sido arrancada à força, amputada sem que ela fosse avisada disso. A dor era tanta que parecia que seu coração se espremia pelas costelas, e cada soluço angustiado trazia uma nova lembrança dos pais.
No primeiro dia de chegada, tudo o que Julie conseguiu fazer foi chorar. Não queria ver os corpos inertes dos pais, e nem sequer queria saber como a coisa tinha acontecido (até porque ninguém sabia). Apenas ficou mergulhada em prantos dolorosos até adormecer, exausta, na cama do casal, no travesseiro de sua mãe. Ninguém tirou a garota órfã de lá.
No dia anterior, ela gastou todo o seu tempo remoendo antigas lembranças em todos os milhares álbuns de fotografia. Deitada na cama de Christopher e Amélia, a única filha dos falecidos trouxas chorava e ria sozinha. Cada foto da família era acariciada por seus dedos trêmulos e cada palavra antiga de carinho agora não passava de um sussurro. Ela devorou com voracidade cada foto de sua infância ao lado dos pais, cada livro infantil que tantas vezes era lido pelo senhor Cabbot, cada história e conselho contados apaixonadamente pela sua mãe. Julie já estava com medo de esquecê-los, e queria fazer aqueles momentos serem eternos.
Ela percorreu com os olhos cada pedacinho do quarto, intocado. A cabeceira sempre forrada de livros, a paixão de seu pai. O meigo vaso de flores que sua mãe, Amélia, insistia em deixar no parapeito da janela, cuidando sempre com tanta dedicação e carinho. Sua mãe amava flores. Até mesmo o dicionário de francês Julie foi capaz de encontrar, e riu entre lágrimas ao se lembrar do esforço contínuo de sua mãe inglesa em aprender a língua, e de como seu pai se divertia caçoando de seu sotaque.
Até mesmo o estojo de maquiagem sobre a pia do banheiro fez a grifinória se recordar da primeira vez que tentou se sentir adulta, e concordou que deixar uma caixa de maquiagem nas mãos de uma criança de sete anos é sempre um perigo. Ela se lembrava, agora com saudades, da bronca de sua mãe, que chegou no momento exato em que a filha se intoxicava de pó de arroz. Sua mãe era linda e muito vaidosa, lembrou-se Julie. Como era gostoso quando ela mandava-a se sentar e começava a desembaraçar seus cachos...
Quando Julie não estava em Hogwarts, passava alguns dos melhores momentos de sua vida com a família. No natal, os Cabbot sentavam-se de frente para a lareira, aconchegantes, e cantavam músicas natalinas. Depois faziam uma maravilhosa ceia (com direito a peru, frutas cristalizadas e panetone) e pela manhã, milagrosamente, a árvore de natal estava repleta de presentes. Julie se lembrava perfeitamente que exatamente à meia noite seu pai desaparecia do recinto e magicamente surgia o papai-noel mais magro que ela já vira. A cena sempre lhe trouxe boas risadas. Seu pai era mesmo muito dedicado, e ela se lembrava de aos oito anos puxar a barba do fajuto bom velhinho e descobrir toda a verdade, deixando o pobre Christopher muito constrangido.
Finalmente no terceiro dia de estada em sua casa (que agora parecia um lugar antigo e triste), Julie teve que deixar o quarto do casal. Cada parte da casa era uma lembrança, cada objeto tinha uma história, e cada um deles fazia a jovem desatar num choro sem fim. Os pais de Christopher tentavam consolar a neta, mas compreendiam o luto que ela sentia e não a privavam de passar por isso. Julie não tinha mais avós maternos, o que deixava sua família ainda menor. Os primos eram mais velhos: Bernard e Bianca, filhos da irmã de seu pai, Vivian, e de seu marido, Thomas. Além deles, Julie podia contar apenas com Margaret, irmã de sua mãe, e seu tio por casamento, Leonor. E era só. Esta era a família Cabbot, constituída por sangue inglês e francês, além do sangue mágico que se infiltrara ali sorrateiramente.
Todos eram trouxas, o que fez o nascimento da bruxinha de cabelos cacheados ser um grande evento. Ela foi aceita facilmente, é claro, porque para a família aquilo não a tornava diferente ou intolerável. Aquilo fazia ela ser especial.
Bem, o que Julie estava prestes a descobrir, porém, é que ela não era o único membro da família Cabbot que merecia o título de especial.
— Filhotinha, posso entrar?— pediu gentilmente a voz sempre tão acolhedora de seu avô.
Ela não tinha forças para responder, porque no momento sufocava-se numa lembrança triste. Apertava contra o peito o último presente de aniversário que havia recebido dos pais: um diário que ela sequer levou para Hogwarts, cheirando ainda a novo, de capa dura, acompanhado de uma bela caneta, um molho de chaves e um cadeado. Na contra capa havia uma dedicatória:
"Flor do dia!" — sua mãe lhe chamava assim. Sua paixão por flores era quase uma obsessão—"Plantamos a semente, agora é só cultivá-la. Cresça feliz minha querida, e não se esqueça que crescer feliz é crescer sonhando. Sonhe bastante, escreva bastante, solte suas emoções. Guarde esse diário como seu confidente mais fiel.
Com carinho,
Mamãe"
Logo em seguida vinha a letra corrida, mas muito elegante de seu pai:
"Minha garotinha está crescendo, mas nunca vai deixar de ser minha pequena bonequinha, por mais que o tempo passe. Conte a este diário tudo o que você não conta para seu papai (o que devia fazer), e guarde suas lembranças e sentimentos em cada página. Afinal a vida é como um livro: sempre acaba num final feliz.
Te amo muito,
Papai".
Um sentimento de culpa explodiu em seu peito ao se lembrar de que, quando ganhou o diário, não havia considerado aquele um bom presente. Na verdade o considerou infantil, e após um sorriso forçado para os pais Julie enterrou o presente na primeira gaveta que encontrou. Agora era a primeira vez que ela o abria. Lágrimas grossas começaram a molhar a capa de veludo vermelha, onde estava bordado com uma fina linha dourada a letra "J", a inicial de seu nome.
Seu avô entrou silencioso no quarto, encostando a porta atrás de si. Ainda como uma tímida ovelhinha, ele caminhou lentamente em direção à cama da neta, sentando-se na borda. O colchão se mexeu, trazendo a mente de Julie de volta para o momento presente. Seus olhos amendoados se ergueram para encarar o avô.
— Eu sei que sente falta deles, filha.— murmurou o velho —Mas meu filho e sua mãe nunca vão deixar você. Eles sempre estarão te observando, lá de longe. E enquanto você se lembrar deles com carinho, eles também permanecerão aí dentro, imortais...— ele apontou para o peito arfante dela.
—Ah...vovô!
Como uma garotinha indefesa a adolescente veio engatinhando pelo colchão até alcançar o colo do avô para se enterrar lá dentro. Ele a abraçou firmemente, e acalorados um pelo o outro, avô e neta permaneceram assim por um bom tempo. Julie sentia a mão velha acalentar seus cabelos, enquanto o senhor Cabbot tinha plena consciência de que seu sobretudo já devia estar encharcado por lágrimas.
—Então quando vai voltar para Hogwarts, minha querida?— a voz idosa e desgastada finalmente perguntou.
De início ela ficou surpresa com a pergunta, mas logo se lembrou de que toda a família tomava conhecimento de seu segredo mágico. Talvez fosse o excesso de depressão que lhe causou uma rápida amnésia, mas logo ela respondeu com a voz quase inaudível:
— Não sei quando vou estar preparada para voltar, vovô. Meu lugar é aqui, com vocês...
Ela ouviu seu avô ronronar como um gato. Deveria ser por causa da asma, mas logo que levantou os olhos Julie se deparou com um semblante sério, assustado, rígido. Era simplesmente uma expressão incomum e constrangida.
— Eu...preciso lhe contar uma coisa...—murmurou ele desprendendo-a do abraço. Sentados eles ficavam praticamente da mesma altura, de modo que ambos os pares de olhos podiam se fitar profundamente. Um deles estava molhado, o outro brilhante e angustiado—Vai ser uma longa história, mas...
—Me conte, vovô.— implorou ela sentindo a curiosidade aflorar— O que é?
O velho Cabbot respirou profundamente antes de começar.
Não adiantava; por mais que ele procurasse, Lilian Evans não se encontrava em lugar algum do Salão Comunal grifinório. Ela não estava participando da festa de comemoração, e Tiago bem sabia o porquê:
— Aquele metido do Diggori!— bufou enquanto tragava sua terceira garrafa de cerveja amanteigada— Ele perde o jogo e se porta como um rei...humpt!Ainda por cima tem a audácia de convidar a Lily pra dar um passeio por aí..!
— Mas Tiago, ela não é nada sua, se minha memória não me falha. — lembrou Pedro se servindo de mais um sanduíche de atum providenciado por Mundungo. No console da lareira uma imensa faixa tinha os dizeres "Parabéns Grifinória!" coloridos em vermelho. A festa de comemoração parecia estar realmente animada, a não ser pelo ânimo de coveiro do capitão do time.
— O que ele tem que eu não tenho, afinal?— resmungou Tiago batendo com força sua garrafa na mesa. Daynna, que ouvia a conversa como quem não quer nada, respondeu:
— Eu preciso numerar de um a cem ou você quer apenas um exemplo?
Tiago lhe lançou um olhar reprovador, mas Pedro riu divertido. A loira não se intimidou:
— Bem, o Amus é sensível, romântico, cavalheiro, sexy, divertido, cabeça no lugar...
—Hei! Eu tenho a cabeça no lugar!— protestou o apanhador. Daynna arregalou os olhos com o comentário, mas Rabicho acabou quase engasgado com o sanduíche.— É sério!
— Potter, por favor!— a baixinha retrucou— Você é um machista, egoísta, arrogante, prepotente, metido...
—Eu não sou machista!
—É sim senhor! O Amus é um doce de rapaz, e pronto!— ela bateu o pé, indignada.
—Então porque não funda um fã-clube pra ele?— perguntou Tiago sarcasticamente— Se ele é tão endeusado assim?
— Aí! Boa idéia!— replicou ela se afastando furiosa.
Para mimar seu time de Quadribol, seus torcedores não mediram esforços. As poltronas, mesas e almofadas haviam sido afastadas e encostadas ao redor do Salão Comunal, deixando assim um centro vazio para mais pessoas circularem. Nas mesas estava servido todo o tipo de comida que os elfos conseguiram providenciar para os alunos, e não havia um só pedaço de parede que não tivesse um leão ou um brasão dourado e vermelho. Alguém providenciara música, que algumas garotas já um pouco bêbadas se atreviam a dançar.
Sirius estava sendo inspecionada por algumas de suas fãs, que apalpavam seu braço:
— Ah Black, sem você como batedor o time afundaria!— suspirou uma garota de quarto ano.
—Tem razão, Lucy.— respondeu ele, instantaneamente acrescentando— Quer me encontrar hoje às onze aqui mesmo, para uma conversa em particular sobre meus músculos?
A quartanista ruboresceu furiosamente. Encantada, ela murmurou um trêmulo "sim". Sirius piscou antes de se afastar, deixando para trás o resto de seu fã-clube se ardendo em ciúmes.
O moreno se dirigiu a um canto particular onde o monitor de Grifinória, em companhia de Mary Johnson, inspecionava a festa de longe. Ambos pareciam um pouco entediados, e Sirius calculou que eles precisavam de algum incentivo especial:
— E vocês? Até agora nenhum amasso, não?
Os dois monitores lançaram para Almofadinhas os olhares mais gelados que olhos humanos eram capazes de refletir. Sirius pareceu até um pouco constrangido.
—Ok, entendi...tava só brincando.
Nem Mary nem Remo responderam. Ao em vez disso ambos voltaram sua atenção para o comportamento de seus companheiros, vigiando atentamente, vez ou outra ralhando com um ou simplesmente lançando mensagens subliminares com olhares firmes. Monitores deviam ter todas essas habilidades.
Finalmente um garoto de terceiro ano passou do limite quando ameaçou arrebentar uma garrafa na cabeça de seu colega, e Mary se levantou para tomar satisfações pessoalmente. Sirius conseguiu ficar sozinho com o amigo para perguntar:
— Pensando na bonequinha?
— É...
— Porque não manda uma carta perguntando se está tudo bem?
—Não tenho coragem.
Sirius deu de ombros. Por alguns segundos ele observou Johnson agarrando as orelhas do garotinho até deixá-las inchadas enquanto, irada, dava um sermão digno de padre. Remo baixou os olhos para fitar sem interesse o tapete que forrava o assoalho do salão. Sirius respeitou esse silêncio apenas por alguns segundos:
— Porque você não fica com a Mary? Ela até que é atraente...
— Eu não gosto dela.
— E precisa gostar?— indagou Almofadinhas, perplexo com tamanha inocência. Lupin revirou os olhos, fatigado:
— Ah Sirius, eu não sou como você...
— Óbvio que não é.— sorriu o moreno estufando o peito. — Mas...
De repente algo estrondoso começou a rir de uma mesa próxima a eles. Ambos viraram a cabeça para se deparar com Tiago e sua décima taça de álcool, mergulhados juntos numa risada já meio desengonçada. Pedro também não parecia muito sóbrio, porque escorregava da cadeira vez por outra, além de estar soluçando constantemente. Remo e Sirius se entreolharam antes de se aproximarem da dupla pinguça e cambaleante.
— Maxxx sabe cara...— balbuciou Tiago entre um gole sufocado de bebida— a Evanx nem é taum bonita assim!
— É verdura, camarada Pontaxxx...— os olhos vesgos de Petigrew fitaram o outro brevemente— Homem felix é aquele que cuida do seu prróprio narix!
— Sábias palavrax!— comentou Tiago completamente fora de seu estado normal, algum tempo antes de cair numa risada estridente, acompanhada de murros fortes na mesa.— Do seu próprio narix! HUAHUAHUAHUA!
Sirius arqueou uma sobrancelha, um sorriso gozador surgindo no rosto. Remo bateu a mão na testa:
— Que cena deprimente, se a Evans vê isso as chances dele vão se reduzir de zero para menos um milhão!
— Hei vocêix quatro!— chamou Pedro levantando a cabeça para Sirius e Lupin— Sentem—se conoxxxco!
—É meixxmo, junta aí!— Tiago lançou uma cadeira para Sirius, mas usou mais força do que devia e acabando por atirá-la no chão.
Remo olhou para a cena com um ar exasperado, e logo tratou de agir. Retirou o copo da mão capenga do amigo e ralhou:
— Já chega Tiago Potter!
—Uhhh, lobenho está bravo!— balbuciou o embargado rapaz, escorregando para fora da cadeira. Sirius foi ampará-lo dando gargalhadas.
— Isto é humilhante, se embebedar pela Evans!
Tiago passou um braço ao redor do pescoço de Sirius, despejando ali todo o seu peso. Almofadinhas o sustentou com certa dificuldade, desviando o rosto do bafo de álcool do amigo, que balbuciava:
— Puts, eu te amo pra cacete Almofadas... e você! – agora também puxou Lupin pelo pescoço, quase o enforcando— Amo vocês dois, caras!
— Ok Pontas, controle-se!— Sirius desprendeu-se do colega com facilidade, ainda achando graça.
—Rabicho, pode parar você também!— repreendeu Remo, com um braço de Tiago ainda em seu pescoço. Pedro agora lambia uma caneca vazia, virando-se tanto apara trás que acabou caindo de costas no chão, junto com a cadeira.
— Bem Julie, há algo sobre mim que todos vocês desconhecem. Algo que nunca contei a ninguém, pelo simples fato de que não achei necessário. —falava o sábio Cabbot serenamente. Julie sugava cada palavra com o máximo de atenção que podia—Eu sou um bruxo, assim como você.
Ela engoliu em seco, perplexa. Olhava nos cinzentos olhos de seu avô com uma expressão confusa, enquanto em troca ele lhe devolvia a mais pura sinceridade. Ainda assim ela estava louca por mais explicações:
—Como assim nunca contou pra ninguém?— o mero fato dele "não ter visto necessidade" era uma explicação claramente muito vaga.
— Bem... deixe-me explicar a história do início. — ele limpou a garganta— Eu nasci aqui na Inglaterra, mais precisamente em Manchester. Vim de uma família completamente bruxa, quero dizer, puro-sangue. — as sobrancelhas de Julie voaram em sua testa— Ora essa, de onde você acha que veio seu dom mágico? Dos céus?— ele zombou ao ver a surpresa de sua neta aumentar gradualmente— Bem...onde eu estava? Ah sim, Manchester. Aos onze anos recebi a carta de Hogwarts, é claro. Adivinhe para qual casa fui sorteado?
– Gr...grifinória?— ela perguntou esperançosa. A resposta foi negativa.
– Corvinal?— ela tentou novamente. Ele continuou sem nenhuma reação positiva. Só restavam duas agora, então a garota iria dizer a única descente, e é claro que era:
– Lufa-lufa?
Seu avô riu. Não era possível...
— Sonserina.— respondeu por fim. Julie arregalou os olhos, como se estivesse escutado um dos maiores absurdos da sua vida — E qual é o preconceito?
— Ah vovô...só bruxos "não tão legais" vão para lá...— ela se explicou timidamente, com medo de ferir os sentimentos do ex- seguidor da casa de Siltherin. O senhor Cabbot compreendeu perfeitamente, apesar de tudo:
— É eu sei, mas é por isso que fui para lá. Eu não era, na época, um bruxo "muito legal".
Ouvir isso dos lábios do seu próprio avô, John Cabbot, era algo inexplicavelmente estranho. Só o fato de ele ser bruxo já era encantador e ao mesmo tempo misterioso, mas ser um bruxo ruim era ainda menos tolerável do que qualquer coisa que pudesse ter descoberto naqueles últimos dias. Mesmo assim a garota permaneceu calada.
— Tudo bem, não preciso entrar em detalhes sobre minha estadia em Hogwarts. Você deve saber como são os alunos de Sonserina...
Ela fez uma careta como resposta, amargurada. "Uma típica Grifinória" pensou silencioso o vovô de Julie.
— Quando saí da escola eu estava com problemas no Ministério da Magia. Queriam que eu depusesse a respeito de certas... hum...magias não permitidas que eu havia praticado, se é que me entende.
— O senhor teve que fugir pra não ser preso?
— Algo do gênero.
— O senhor iria parar em Azkaban?
— Havia essa possibilidade.
Ele respondia com naturalidade. Ela perguntava com incredulidade. Mas a história era tão chocante quanto longa e ainda não tinha terminado. Não era aquele tipo de histórias sobre a infância que os avôs costumam contar pacificamente para seus netinhos em uma noite de outono, por mais que se assemelhasse a um conto de fadas:
— Bem, o fato é que eu me mudei para a França, onde conheci Marrie (pronunciasse "Marrí", nome típico francês), sua avó. Eu me apaixonei tão perdidamente que até mesmo o fato de ela ser uma trouxa era pra mim irrelevante. Eu seria capaz de largar tudo, toda a magia, todo o meu sangue bruxo para ficar com ela. E foi isso que eu fiz. Larguei tudo e me tornei um trouxa comum, casado com uma francesa. Bem, é óbvio que tive que me naturalizar francês, e logo aprendi a língua, e com dificuldade, o modo de vida trouxa.
— E foi isso? Assim do nada? Não foi difícil esquecer todo o mundo mágico?— perguntou a incrédula Julie, que não se lembrava de ter se sentindo tão interessada por uma história de seu avô. — O senhor conseguiu esconder isso por todo esse tempo? Ninguém veio te procurar?
— Uma pergunta de cada vez!— sorriu o velho bondosamente — Sim, sim, deixe-me terminar. Pois bem, largando a vida bruxa eu largava também toda aquela ambição pelo poder, todos aqueles meus preconceitos, tudo. O simples fato de ter o amor de sua avó já me fazia um homem completo, e foi com esse pensamento que eu consegui mudar de vida radicalmente: de um bruxo cruel e mesquinho para um singelo trouxa francês apaixonado. Mas é claro que meus antigos "comparsas" não deixaram isso barato...
Julie engoliu em seco, como quem assiste a um filme de suspense e teme pelo final possivelmente trágico do protagonista.
— Anos depois, um antigo conhecido meu me encontrou lá na França. Não sei como ele me reconheceu, mas me lembro até hoje do que o maldito me disse. Coisas como traidor e amante de sangues ruins; me ameaçou, disse que eu iria pagar caro por ter dado as costas a tudo em que acreditava e por tê-los abandonado.
—Que horror!— exclamou ela.
—É sim. —concordou John Cabbot— Nunca mais tornei a ver o infeliz nem a ter notícias dele, até a morte de meu filho e sua mulher...
—Então foram eles! Seus antigos companheiros querendo vingança...
—Sim. — o velho enxugou uma lágrima amarga— Eu paguei caro pelo que fiz. Não se pode fugir do passado para sempre... ele sempre parece arranjar um meio de nos alcançar. — balançou a cabeça, exasperado— Ninguém pode negar ser o que é. E foi isso que eu fiz. Eu traí aqueles a quem jurei lealdade e me uni aos meus inimigos, por assim dizer. E no mundo da magia tudo se paga com a mesma moeda. Bem, eles mataram meu filho, seu pai, lhe deixando órfã.
Julie soluçou de pavor e correu para os braços do avô, que silenciosamente também chorava.
— Na noite em que eles foram mortos... — continuou John com pesar— Eu recebi uma coruja. A carta que ela trouxe dizia somente "Feliz dia das bruxas"... Patifes!
— E a carta não tinha remetente?
— Apenas o carimbo de um crânio. Um crânio verde de onde uma cobra saía no lugar da língua... — fungou o senhor Cabbot soltando-se do abraço da neta vagarosamente. — Eles chamavam de Marca Negra. A nossa nova marca do terror. Sei disso— e com braços trêmulos o homem levantou a barra da camisa, revelando uma tatuagem retorcida na pele cheia de veias. A imagem estava desgastada, mas ainda visível, e Julie conteve um gritinho de horror— Já estive daquele lado... E agora pago pelos meus pecados.
Julie tinha o coração acelerado. Estava simplesmente exausta com tanta informação repentina carregando sua mente, que parecia querer explodir.
— É por isso que ninguém sabe como seus pais morreram. — continuou o avô de Julie com um semblante sério. Uma sombra pairava sobre ele, que estava carregado de tristeza e rancor— Porque foi por magia. Eles dois foram alvos de uma forte magia negra, um feitiço recém-ressuscitado pelos praticantes das Artes das Trevas... Afinal são boas cobaias, porque não passam de trouxas.
—Mas vovô... — Julie o interrompeu— Se você é bruxo, porque meu pai é trouxa?
—Porque ele puxou sua avó. — veio a resposta facilmente. — Às vezes a magia pula uma geração e se manifesta na próxima. — ele estendeu uma de suas mão enrugadas para acariciar o rosto da neta. E finalizou— Depois do funeral querida, volte para Hogwarts. Lá é o seu lugar.
Minerva McGonagall fez o favor de acabar com a farra de Grifinória. Remo e Mary delataram alguns que tinham passado da conta, o que resultou em algumas detenções. O Salão Comunal foi arrumado e limpo por alguns elfos domésticos, mas somente à meia noite tudo estava novamente no lugar. Até mesmo o cartaz "Parabéns Grifinória" foi retirado e muito bem guardado para a próxima vitória, que os alunos aguardavam com sorrisos otimistas.
Os marotos subiram para os quartos em meio a tropeços. Tiago e Pedro colidiram com suas camas, e Sirius foi rápido o suficiente para providenciar dois baldes antes que os companheiros vomitassem pelo quarto. O rapaz de coração partido ainda tentou cambalear para o banheiro, mas precisou da ajuda de Lupin quando sentiu um refluxo e atirou a cabeça no vaso sanitário. Almofadinhas berrava com Pettigrew, que parecia ter errado a mira do balde, enquanto Remo retornava para o quarto para providenciar uma nova muda de roupas a Tiago.
— Só me faltava essa! — resmungava Sirius enquanto apontava o feitiço Limpar para a sujeira de Rabicho— Ficar servindo de babá de marmanjo!
— Vou atirar o Tiago dentro do chuveiro, quer trocar de lugar comigo? — devolveu Lupin, uma toalha pendendo em seus ombros.
— Dar banho nele? Eu? Há-há, que piada medonha!
Havia um dormitório feminino, não muito longe do quarto dos marotos, que ainda não estava completo:
— Ai minha santa Edwiges!— ganiu Alice enquanto girava de um lado para o outro — A Lily ainda não deu as caras nem no Salão Comunal! Aquele Diggori é tapado? Eles podem ser pegos!
—Ela nunca foi de fazer isso.— comentou Daynna enquanto se despia— Sempre tão certinha, não é?
Mas as duas garotas não conseguiram terminar com as suposições e comentários angustiados, pois logo a porta do dormitório rangeu revelando a aluna que faltava. Lilian tinha um ar alegre e muito satisfeito, olhos brilhantes e uma boca anormalmente avermelhada. Até mesmo sua pele alva parecia levemente mais corada, e enquanto entrava a garota vinha ajeitando uma mecha dos cabelos ruivos, cantarolando baixinho.
As amigas, pasmadas com tanto bom humor, trataram logo de descarregar uma chuva de perguntas:
—O que aconteceu?
—Você está com uma cara...
—Onde esteve?
Lilian se sentou calmamente em sua cama, tirando os sapatos e sorrindo abobalhada. Só depois de alguns segundos misteriosos ela tratou de responder uma coisa de cada vez, sempre falando de maneira controlada e baixa:
—Ai, ai...Eu fiquei com o Amus. Sim, ele beija bem. Estivemos nos jardins.
—E não foram pegos?— perguntou Alice ainda desconfiada.
—Não, além de apanhador ele é monitor de Lufa-lufa...— esclareceu a ruiva. Ela nunca se imaginou descumprindo regras, mas também nunca passou pela sua cabeça que cometer pequenos delitos pudesse ser tão prazeroso.
— O Potter ficou morrendo de ciúmes de você. — contou Daynna alegremente— Ficou bêbado feito uma toupeira!
—Ah é?— sorriu Lilian vitoriosa. Ela tinha conseguido sua revanche. Bem, ele a provocou primeiro ficando com aquela corvinal Penny. —Eu paguei na mesma moeda, e foi só.
Outubro passou tão veloz quanto começou, e conforme o inverno se aproximava o frio se intensificava em toda a Inglaterra, mais especificamente nas áreas rurais. Os terrenos da escola de magia estavam quase desabitados durante os intervalos e mesmo nos finais de semana, já que nenhum aluno suportava por muito tempo ter sua pele cortada pelo vento congelante.
Ao final de uma tarde de quinta-feira, um pequeno conflito acontecia em Sonserina. Mais precisamente em um dormitório feminino:
— Eu não vou falar com ele Narcisa, e está decidido!— protestou Bellatrix enfurecida, enquanto retirava suas luvas cinzentas, que havia sujado no jantar.
— Então pronto!— bufou a loira— Nenhuma de nós vai, e então eu quero ver o que vai acontecer! Vamos ficar aqui feito duas palhaças, e acabou!
—É isso mesmo.
Segundos de silêncio. A namorada de Lestrange começou a fitar algo inexiste nas unhas, enquanto a loira platinada começou a inspecionar uma mecha de cabelo entre a ponta dos dedos, até o silêncio ser cortado:
— Está certo então, vai ser por sorteio!
— Não seja ridícula, nós podemos resolver isso como duas adultas!
—Tem certeza?— a resposta da morena foi afirmativa. A futura Malfoy não teve outra escolha— Muito bem, vai você!
—Nem pensar!
— Viu?
—Faça como quiser! — Bela concordou relutante, sempre tão teimosa quanto todos de seu sangue Black.
Narcisa, aparentemente, escreveu as inicias de seu próprio nome e do da irmã em diferentes pedacinhos de pergaminhos. Dobrou cuidadosamente:
—Escolhe...
Belatrix pensou em usar magia para descobrir qual deveria escolher, mas não conhecia nenhuma suficientemente boa. Decidiu ir pela sorte mesmo, mas infelizmente o azar estava sempre tropeçando em seus calcanhares. Não deu outra:
—Ah não! — gemeu ao ler a letra "B" no pedaço de pergaminho.
Um amontoado de cascas de um lado. Do outro uma pilha de batatas frescas. No meio de tudo isso quatro garotos com aventais. Calados.
Remo desferia tanta força na faca em sua mão, e descascava as batatas com tanta ênfase, que era de se admirar elas saírem inteiras. Suas sobrancelhas juntas e a ruga na testa delatavam o que ele realmente sentia enquanto cumpria o humilhante trabalho.
—Ah, não é tão ruim assim, né?— comentou Pedro enquanto comia uma de suas batatas.
"Ridículo" murmurou Remo, atirando emburrado mais um item para o montinho já com quase um metro de altura.
— Olha aqui, pode parar de resmungar baixinho que eu to ouvindo!— explodiu Sirius se pondo de pé— Se você aceitou participar da droga da captura da quimera então fica quieto! Nós sabíamos que a chance de levar detenção era muito alta!
— Ah, então vai me dizer que você gosta disso?— retrucou Remo largando sua faquinha melada com cascas secas de batata— Ou que você sabia que iríamos tirar um zero, mas mesmo assim não se importou porque oh, afinal é Sirius Black, o sabichão que não precisa estudar!
—Porque não se manda daqui, Remo?! Ninguém tá te impedindo! — Sirius desintegrou uma batata enquanto rosnava.
— Eu só acho que vocês deveriam me ouvir de vez em quando, mas isso acontece de vez em nunca!— ralhou Remo. Não houve resposta de nenhum dos outros três.
Por alguns minutos o único som que encheu a cozinha foi o das batatas sendo descascadas e consequentemente atiradas para o crescente montinho. Ao redor dos condenados marotos, elfos domésticos corriam desesperados de um lado para o outro, guinchando ou se punindo. Estavam ocupados demais em limpar pratos do último jantar ou em preparar o café da manhã. Estavam tão ocupados, na verdade, que não se importaram em ceder uma área da cozinha para a detenção imposta aos quatro adolescentes.
Por ordem de Minerva, os elfos não poderiam se oferecer para servir nenhum dos garotos (por maior que fosse a tentação). A professora enquanto isso mantinha as quatro varinhas sob vigilância em seu escritório, tornando assim, de modo geral, aquela uma das piores detenções em conjunto que eles se lembravam de ter cumprido.
Tiago se encontrava sentado sobre uma cesta de palha muito bem trançada, descascando como um prisioneiro condenado. Seus óculos estavam um pouco sujos, seu avental imundo, seus cabelos rebeldes e sua paciência no limite:
— Se descobrem que eu fiquei uma hora descascando batatas na cozinha minha reputação vai pro lixo!
— E se as garotas ficam sabendo disso?— ganiu Sirius— Eu to ferrado!
— Parem de resmungar, porque a culpa é exclusivamente de vocês!— retorquiu Lupin jogando mais uma de suas obras e pegando outra.
— Eu to me segurando pra não te dar um soco, cara! — ameaçou Sirius entre dentes, ainda assim não muito ameaçador— Porque está incrivelmente chato hoje?
—Ele quase sempre é assim... — disse Pedro com a boca cheia de algo que ele deveria estar descascando, não comendo. Seus amigos logo notaram tal delito:
— Rabicho, seu glutão!— Tiago apontou sua deplorável faquinha para as bochechas inchadas do maroto— Tira isso da boca, foi um trabalhão descascar!
— Não testa minha paciência, rato! — Sirius arrancou, com ódio, uma batata das mãos do gordinho e a atirou na pilha que haviam formado— E ainda por cima fui em quem preparou aquela!
— Bem Almofadinhas... Você não sabe fazer direito... Olha só pra essa sua batata! — disse Remo mordendo um riso. Conviver com seus amigos tinha seus altos e baixos, e ele teria que se acostumar com isso. — Você praticamente desmembrou ela! Olha como se faz...
— E eu lá quero aprender? — retrucou Sirius completamente indignado— Meus talentos estão sendo desperdiçados nessa cozinha!
— Quais talentos, Almofadinhas? — alfinetou Tiago enquanto limpava a testa com as costas das mãos. Sirius ergueu uma sobrancelha para ele:
— Todos.
