CAPÍTULO DEZ

Sesshoumaru suspirou com alívio. Não poderia pressioná-la se Rin realmente não quisesse compartilhar a cama, além disso, não tinha idéia de como lidar com rejeição.

Não se importou em acender a luz. Queria que aqueles momentos dos dois fossem fundamentais... Sem distrações.

Mas não poderia ser vagaroso desta vez. O desejo era grande demais. Removendo-lhe a roupa, ele tocou cada uma das curvas suaves com desejo voraz para induzi-la a render-se completamente. Rin incitava-o com gemidos delicados que aumentavam o próprio ardor a proporções assustadoras.

Ele roçou os pêlos úmidos entre as coxas dela.

— Eu a quero, Rin.

Ela abriu as pernas, dando-lhe acesso ao seu ponto quente. Sesshoumaru acariciou o pequeno botão intumescido que sabia causar-lhe prazer extremo.

Arqueando em direção à mão dele, Rin arquejou e gemeu. Contorceu-se movendo as pernas com desassossego enquanto ele provocava-lhe a feminilidade com o polegar.

— Eu quero você também.

— O suficiente para me aceitar durante uma vida inteira?

— Não me provoque!

Ele estava tentando tocar no assunto, ganhar-lhe a aquiescência para a proposta por qualquer meio, justo ou violando regras, mas, no final, não tinha mais controle do que Rin. Ele a queria.

Rolou na cama e ficou de costas, puxando-a consigo.

— Se você me quer, me possua.

Queria ao menos a satisfação de saber que a sedução era mútua.

Rin não hesitou. Montou-o, abrindo-se sobre a masculinidade rígida e se inclinando para frente até que o envolveu completamente. Sesshoumaru gemeu e movimentou os quadris, segurando-lhe as coxas com firmeza.

Rin inclinou a cabeça para trás e os cabelos longos cascatearam pelas costas. Ele não podia ver a expressão dela na semi-escuridão do quarto, mas a postura era a de uma mulher em pleno abandono sexual.

— Sinto-me tão maravilhosamente bem dentro de você. É como se não mais fôssemos duas pessoas.

Ela podia ouvir o que ele estava dizendo? Precisava perceber que pertenciam um ao outro. E então todo pensamento consciente desapareceu da cabeça de Sesshoumaru quando Rin o levou a um prazer ilimitado e a um clímax que fez o corpo inteiro estremecer.

Ela caiu sobre o peito dele, os próprios gritos de prazer incontidos.

Rin não sabia quanto tempo ficou inerte sobre o peito de Sesshoumaru, mas finalmente tentou se erguer.

Ele se recusou a deixá-la sair e puxou-a contra si, aprisionando-a com braços fortes ao seu redor.

Ela aninhou-se ao lado dele, sentindo-se plena e fisicamente satisfeita. Mas não era somente isso.

Sentia um bem-estar emocional que pensou jamais ser capaz de sentir com ele novamente.

— Sesshoumaru?

— Hum? — As mãos másculas passeavam preguiçosamente pelas costas de Rin.

— Como pode estar certo para você fazer amor comigo nessa viagem à Sicília, sendo que na última vez em que estive aqui, se tivesse me seduzido, teria sido uma desonra para a minha família? — A mão dele aquietou-se. — É porque não estou hospedada na casa de meu pai? — Aquilo ajudaria a explicar a indocilidade dele sobre o assunto. Ela ficou surpresa quando ele meneou a cabeça. — Então é porque você disse ao meu pai que pretendia se casar comigo?

— Não.

Ela não pensava assim. De algum modo, não podia se convencer de que seu pai fosse tão moderno a ponto de considerar certo a filha ficar na casa de um pretendente.

— Então por quê?

— Porque, amore, na minha cabeça, você tem sido minha esposa desde a noite que me contou sobre o bebê.

— Você está brincando. — O cérebro de Rin pareceu congelar diante daquela declaração espantosa.

— Casamento não é assunto para brincadeira.

— Se está falando sério, então imagino que você não será um bom marido.

Ela estava apenas brincando um pouco.

Sesshoumaru a posicionou de costas e subiu sobre ela, de maneira dominadora, mas ela não se sentiu dominada.

Ele nunca a feriria fisicamente e estava começando a ver que as feridas emocionais que lhe infligira doíam na consciência de Sesshoumaru tanto quanto no coração dela.

— O que você quer dizer com isso? — exigiu ele.

— Bem, se está mentalmente casado comigo pelo último ano, isso faz de você um marido infiel, certo?

Rin quis ser irreverente, mas as palavras saíram muito sérias e vulneráveis.

A idéia de Sesshoumaru fazendo amor com outra mulher, provavelmente com alguém mais sofisticada e experiente do que ela, lhe causava uma dor aguda no coração.

— Por que você diz isso?

— Oh, por favor. Você não faz exatamente o tipo celibatário, Sesshoumaru. — E o pensamento de que ele tinha passado um ano inteiro sem sexo era risível.

— Contudo, fui celibatário. — O tom de voz não era convincente e Rin maneou a cabeça, incapaz de dizer algo. — Sim. Tive desejo por somente uma mulher e ela me evitou com incrível profissionalismo.

Era inacreditável. Impossível. Sesshoumaru não tinha tido ninguém por um ano inteiro?

— Esta é a verdade?

— Nunca mentirei para você.

Ela o estudou, tentando ler a expressão naqueles olhos dourados. Mesmo a escuridão não podia esconder a sinceridade contida ali. Rin acreditou nele.

— O que você teria feito se eu tivesse encontrado outra pessoa?

— Você não encontraria. Pertencia a mim mesmo quando queria negar isso.

— Mas e se eu tivesse encontrado?

— Isso não aconteceu. — Ele virou a cabeça e a luz vindo através da porta expôs uma centelha de dor que Rin não suportava ver.

Sentia um bem-estar emocional que pensou jamais ser capaz de sentir com ele novamente.

— Sesshoumaru?

— Hum? — As mãos másculas passeavam preguiçosamente pelas costas de Rin.

Ela pegou-lhe o rosto.

— Não. Isso não aconteceu. Eu não quis que acontecesse.

Ele assentiu.

— Está vendo? No fundo, você sempre soube que pertencíamos um ao outro.

Ele não a amava, não tinha pedido desculpas por isso, mas tal descrição do relacionamento deles não era algo a ser zombado.

— Então eu acho que você está muito decepcionada com a espécie de mulher que fui durante o ano passado. — Parte de Rin ainda precisava fazer uma piada da declaração incrível dele.

Sesshoumaru não riu. Nem sequer sorriu.

— Você sofreu, sei disso. Eu queria melhorar a situação, mas não sabia como.

— Ajuda saber que acredita em mim sobre nosso bebê, que você sofreu a morte dele tanto quanto eu.

As palavras soaram mais como uma pergunta do que como uma declaração do fato.

Ele beijou-lhe a testa, os lábios ternos o bastante para fazê-la sorrir a despeito do sofrimento lembrado.

— Eu realmente acredito em você e também sofri muito. Este sofrimento é outra coisa que nos une, algo que compartilhamos e da qual ninguém mais faz parte.

Rin considerou aquilo, assim como as palavras do médico de que um novo bebê poderia ser benéfico para sua saúde mental.

— Você fez amor comigo novamente sem proteção.

— Não fiz.

Sentindo a umidade extra entre as pernas, ela meneou a cabeça.

— Há evidência física disso.

— Foi você quem fez amor comigo desta vez. Lembrando-se da cavalgada selvagem e de como tinha se regozijado em levar ambos ao clímax, ela corou.

— Então desta vez a culpa é minha?

— É mútua. Sempre foi mútua. — Era a vez de Sesshoumaru parecer como se precisasse de confirmação naquele fato.

Prometera não mentir para ela. Rin não podia lhe dar nada menos do que a verdade.

— Sim.

— Diga que se casará comigo.

— Porque você se sente culpado pela perda do nosso bebê? — Ela não podia evitar sentir que aquilo era ainda uma grande parte do desejo dele de casar-se.

— Porque eu realmente não quero encarar um futuro sem você.

Novamente o tom de voz de Sesshoumaru desafiava uma negação. Ela não queria negar. Queria acreditar nele. Talvez não a amasse, mas a desejava com desespero... Assim como Rin o desejava. Estivera apenas parcialmente viva durante o ano anterior.

— Sim.

As batidas do coração sob a mão dele aceleraram e Sesshoumaru estendeu o braço á fim de acender o abajur ao lado da cama.

Rin piscou contra a iluminação inesperada.

Com um sorriso triunfante, ele subiu em cima dela.

— Diga isso novamente.

— Sim. Eu me casarei com você.

Rin lhe admirou o sorriso de felicidade apenas por um segundo antes que seus lábios fossem cobertos num beijo apaixonado, e então Sesshoumaru a levou numa jornada sensual que ultrapassou qualquer coisa que já tivesse experimentado com ele.

Os dias seguintes transcorreram num rodopio de atividades. Não somente Rin precisava terminar os planos para o leilão, mas agora também tinha a madrasta telefonando a cada quinze minutos com sugestões para o casamento iminente.

Therese havia ficado desapontada por saber que o evento estava programado para dentro de duas semanas, dizendo que um casamento apropriado não podia ser planejado sem uma antecedência de pelo menos seis meses.

Francesco argumentara que queria dar à filha um casamento tradicional siciliano, mas tanto Rin como Sesshoumaru tinham permanecido inflexíveis.

Rin não estava certa por que Sesshoumaru sentia a necessidade de realizar o evento tão rapidamente, mas sabia dos próprios motivos.

Não podia deixar de sentir que tinham feito um bebê naquela primeira noite do reencontro. Enquanto Sesshoumaru podia considerá-los já marido e mulher, ela queria os laços legais, como se estivesse carregando o bebê dele novamente.

Desta vez, tudo iria sair certo. Então, embora tivesse de lidar com um casamento e um leilão ao mesmo tempo, não se queixava.

— Como Shawna recebeu as novidades de nosso casamento iminente?

Rin tirou os olhos da lista de convidados para o leilão.

Sesshoumaru lhe dera uma biblioteca para trabalhar, trazendo todo o equipamento que ela requeria para terminar de organizar o leilão. Uma máquina de fax, um computador com serviço de banda larga, um telefone com duas linhas... Tudo que Rin queria estava lá.

Sorriu para o homem que agia como se nada fosse suficientemente bom para ela.

— Minha mãe não é apegada à instituição do casamento, você sabe. — Ele assentiu, o brilho de satisfação que mantinha desde a concordância dela em tornar-se sua esposa não diminuindo nunca. A falta da aprovação de Shawna significava muito pouco para Sesshoumaru. — Ela desejou-me felicidades e disse que talvez casamento fosse a melhor maneira de aproveitar esta fase da minha vida.

Ela também dissera que uma mulher nunca atingia sua independência até depois dos 40 anos quando Rin podia reavaliar a vida e tomar novas decisões.

Compartilhar este sentimento com Sesshoumaru não estava na agenda, especialmente porque não tinha tal intenção.

Aquele casamento era para uma vida inteira e, se pensasse que Sesshoumaru se sentia diferente sobre isso, jamais teria aceitado o pedido.

— Ela virá para a cerimônia?

— Não. Está trabalhando e não pode desperdiçar seu tempo.

Estranhamente, aquilo não havia amolado Rin.

Finalmente aceitara que a falta de afeição da mãe não era culpa dela, mas uma deficiência na constituição emocional materna.

Sesshoumaru colocou a mão no ombro de Rin.

— Você está bem com isso?

— Estou bem. Shawna não nasceu para ser mãe.

— Posso apenas ser grato que ela não percebeu isso até você nascer, cara.

O coração de Rin encheu-se de alegria e ela inclinou-se contra ele.

— Estou quase terminando a lista de convidados para o leilão.

— Preciso dela para verificar o tipo de pessoas que estarão presentes.

— Sr. di Adamo não tem condições de bancar esse nível de segurança.

Sesshoumaru a olhou como se ela tivesse perdido a cabeça.

— Não importa o que ele não tem condições. O que importa é a sua segurança, e disso não abro mão.

— Em outras palavras, você não cobrará nada dele.

— Você é minha e protejo o que me pertence.

— Você já imaginou se tivesse nascido no milênio certo? É muito antiquado no que se refere a relacionamentos.

Uma expressão inescrutável surgiu nos olhos dele.

— Certamente, isso não é tão mau assim?

Ele realmente parecia preocupado, então Rin o tranqüilizou.

— Não, não é. Se eu achasse que você estava me dominando, eu o informaria.

— É verdade. Você não é tímida para expressar sua opinião.

Rin sorriu do tom irritado na voz dele.

— Também não estou em perigo. Contratamos um leiloeiro famoso e dois dos seus seguranças ficarão responsáveis pela exposição das jóias da coroa. Meu papel será de segundo plano de todas as maneiras. Qualquer coisa, o sr. di Adamo ficará em evidência, não eu.

Sesshoumaru apenas a olhou, o rosto parecia ter sido esculpido em granito.

— Ótimo. Eu lhe darei a lista — disse ela. — Nem mesmo sei por que me incomodo em discutir.

Sesshoumaru havia lhe dado completo domínio no que dizia respeito aos planos para o leilão, mas desde então, vinha sendo intratável em relação à segurança dela.

— A Joalheria Adamo está pronta para os negócios novamente? — perguntou Rin.

— Sim. Seu chefe está feliz com a nova segurança.

— Tenho certeza de que está.

Rin havia conversado com ele e o chefe estava muito animado sobre o fluxo de capital que o leilão traria para a loja.

Ela riscou um nome na lista e ergueu o olhar novamente.

— Sesshoumaru?

— Sim.

— Milão é muito longe para eu ir trabalhar? A expressão dele tornou-se séria.

— Com certeza.

— Não gosto da idéia de deixar meu chefe em apuros. Ele dependeu muito de mim nos últimos anos. Eu ficaria de coração partido se o sr. di Adamo perdesse a loja depois de tudo isso, porque não tem a energia para tocá-la.

Rin não ouviu uma resposta. Sesshoumaru não podia transferir seu escritório de Milão. Ela não estava certa se queria continuar trabalhando depois que o bebê nascesse. Queria ser mãe primeiro, e em tempo integral.

A paixão por pedras preciosas era algo secundário, por enquanto.

Mas pensar que o sr. di Adamo dependia dela e que não poderia mais ajudá-lo a deixava muito triste.

O silêncio de Sesshoumaru indicava que algo não estava certo.

Rin examinou-lhe o rosto. A seriedade estava mais evidente nos olhos dourados, mas a boca formava uma linha severa... Como se estivesse preparado para alguma espécie de discussão.

— Qual é o problema?

— Não há problema.

Ela franziu o cenho, tentando interpretar as nuances da expressão e tom de voz dele.

— O que você não está me contando?

Ele empertigou-se e a expressão ficou ainda mais pétrea.

— Eu procurei uma nova assistente para o sr. di Adamo.

— Você o quê? — Perplexa, Rin o encarou. — Quando?

Parecendo desconfortável, Sesshoumaru deu um leve dar de ombros.

— Comecei a procurar por candidatos no dia em que retornamos à Sicília.

Talvez ela devesse ficar zangada, mas conhecia aquele homem muito bem para ficar verdadeiramente chocada pelo que ele tinha feito. Havia sido sua intenção o tempo todo casar-se com ela e Sesshoumaru sabia que o dilema do chefe pesaria na balança de Rin. Estava apenas afastando todos os obstáculos possíveis do caminho, a fim de conseguir o que queria.

— O sr. di Adamo não disse nada sobre isso.

— Eu pedi a ele que não comentasse — disse Sesshoumaru, com o ar de um homem que pretendia confessar tudo.

— Entendo.

Ela olhou de volta para a papelada e anotou uma pergunta que queria fazer ao organizador do bufê.

— Você não pode trabalhar na Joalheria Adamo e morar em Milão.

— Verdade. — Ela clicou na caixa de entrada no computador para baixar e-mails.

Respondeu três e-mails antes de ler uma mensagem de Therese referente às flores para o casamento.

— Seria uma situação impossível. Certamente você precisa ver isso — acrescentou ele.

— Situação impossível. Sim. — Rin não estava prestando muita atenção porque, de repente, percebeu que queria um vestido de noiva tradicional de grife e não sabia se poderia obter um em tão pouco tempo. — Aposto que Shawna conheceria alguém — murmurou ela enquanto procurava o nome da mãe na agenda de endereços virtual.

Ligaria para a secretária de Shawna. A mãe conhecia todos os estilistas em Nova York e os chamava pelo primeiro nome.

— Você não tem razão de estar zangada comigo — disse ele.

— Zangada? — Rin pegou o telefone para discar para a secretária, mas então percebeu que o momento era errado e colocou o aparelho de volta na base.

Fazendo uma anotação para ligar mais tarde, voltou ao trabalho.

— Uma mulher grávida não deveria trabalhar em um ambiente tão perigoso. Pode ser baleada.

A urgência na voz de Sesshoumaru finalmente fez com que ela lhe desse maior atenção.

— O quê?

Os olhos cor de ouro brilharam com determinação.

— É para seu bem.

— O que é para meu bem? — Teria ela perdido parte da conversa?

— Que o sr. di Adamo tenha um novo assistente.

— Por acaso eu disse que não era?

— Você não poderia continuar depois do nosso casamento. Não seria prático.

Em vez de tranqüilizá-lo, a concordância de Rin parecia estimulá-lo a argumentar mais em favor do que tinha feito.

— Você está, sem dúvida alguma, grávida do meu filho. Suponha que levasse um tiro. O estresse seria demais para você.

— Você está realmente preocupado com o estresse e meu estado de gravidez, não está?

— Não deixa de ser preocupante, sim.

— Sesshoumaru, de alguma maneira eu me rebelei contra seu esforço em encontrar alguém para me substituir na Joalheria Adamo?

— Não, mas você é independente demais e com certeza vê isso como um excesso e intromissão de minha parte.

— Eu não disse isso, disse?

— Não.

— Você fez isso porque sabia que iria se casar comigo, não fez?

— Sim.

— Nunca lhe ocorreu que eu poderia permanecer firme na minha recusa?

A mera confiança de Sesshoumaru a espantou, apesar de ter achado aquilo confortante de alguma maneira.

— Não. E você provavelmente achou isso arrogante da minha parte.

— Bem, sim, mas não me importo.

— Não se importa?

— Não.

— Não está aborrecida por causa do assistente?

Ele disse isso como uma declaração, mas, de qualquer modo, Rin respondeu.

— Não. Você quis que eu ficasse confortável deixando o sr. di Adamo e apreciei sua atitude.

— Verdade? — Ele parecia chocado. Ela riu.

— Não sou tão independente assim.

— Desculpe-me, mas você é.

Rindo novamente, Rin meneou a cabeça.

— Talvez eu esteja mudando.

Ela queria os laços de família e aquilo significava permitir certa quantidade de interdependência. Não que tivesse esperança de permanecer independente de Sesshoumaru. Precisava dele num nível tão fundamental que a fazia mais vulnerável do que jamais fora, mesmo com os pais. Isso a amedrontava um pouco, mas estava aprendendo a aceitar os sentimentos que ele lhe evocava.

— E essa mudança permite-lhe se apoiar em mim?

— U-hum.

Ele inclinou-se e a beijou profunda e vagarosamente.

— Gosto desta mudança — disse quando o beijo terminou.

Rin estava tocada demais pelo beijo para responder.

Annemarie voltou para casa mais cedo da viagem a fim de ajudar nos preparativos do casamento. As três mulheres estavam falando em volta da mesa da sala de jantar, o que mais parecia uma conferência de guerra, quando Sesshoumaru e Francesco entraram, duas noites depois.

Sesshoumaru inclinou-se e beijou-a com ardor, fazendo Therese sorrir e Annemarie corar.

— Tudo está arranjado para a segurança do leilão — disse ele.

— Não sei por que Rin precisa comparecer. Tudo parece já estar pronto — disse Francesco.

Ela cerrou os dentes. Tinha desejado aquele relacionamento mais íntimo, mas estava aprendendo que era uma faca de dois gumes.

— Estou responsável pelo leilão. Não posso decepcionar o sr. di Adamo.

— Ele tem um novo assistente.

— Que não sabe nada sobre um evento dessa magnitude. — Rin tinha assimilado alguma coisa sendo filha de Shawna Tyler. — Estarei bem. Sesshoumaru estará lá me vigiando.

Francesco voltou-se para o futuro genro.

— Por que você não diz algo de bom senso a essa minha filha?

— Tentei — confessou Sesshoumaru —, e falhei.

— Papai, você acha que vou passar a minha vida inteira de casada deixando Sesshoumaru me dar ordens?

— Isto realmente eu não posso imaginar — observou Therese com um sorriso.

— Você é tão forte, tão auto-suficiente. — A expressão de Annemarie dizia que ela não estava certa se aquilo era uma coisa boa ou má.

Rin fechou o laptop e colocou a caneta no bolso.

— Não acredito que o intelecto ou bom senso de uma mulher é inferior ao de um homem, e ponto final.

Francesco deu a volta na mesa e bateu no ombro de Annemarie.

— Você é meu gatinho siciliano e sua irmã minha tigresa americana. Cada uma de vocês tem uma beleza própria, embora sejam muito diferentes. Um pai não poderia pedir por filhas melhores do que as minhas.

Ambas coraram ao mesmo tempo.

— Não sou exatamente uma tigresa.

Os olhos de Sesshoumaru se iluminaram com as lembranças de como eles passavam as noites.

— Tem certeza de que não é, cara?

Ela não podia responder à mensagem na expressão dele diante do pai, e olhou de modo penetrante por fazê-la ter pensamentos impróprios que a fizeram enrubescer tão violentamente quanto a irmã tímida.

Francesco não perdeu o jogo paralelo e bateu na coxa, rindo à socapa.

— Rin é uma boa parelha para você, não é, Sesshoumaru? A insolência verbal dela ferve no sangue, não? — Ele piscou para o futuro genro, então voltou a atenção para Therese. — Você pode imaginar que um ano atrás este homem acreditou que seria feliz casado com nossa gatinha siciliana? Ele a teria dominado em uma semana da corte que lhe fez, mas minha Rin... Não pode ser dominada.

Francesco riu da própria piada enquanto Therese ria também e Annemarie corava, mas Rin estava confusa.

— Ele quis se casar com Annemarie? — Ela olhou para a irmã caçula, que deu de ombros, parecendo muito desconfortável em ser o centro da conversa.

— Foi algo que considerei na ocasião. Nada mais que isso. — A expressão de Sesshoumaru não revelava nada de seus pensamentos.

— Sim — disse Francesco. — Ele falou sobre isso comigo durante sua visita aqui no verão passado.

Era positivamente enigmático o que o pai estava insinuando, que discutira com ele o casamento entre Sesshoumaru e Annemarie sem o conhecimento de Rin.

— Enquanto eu estive aqui no verão passado? — Aquilo significava que Sesshoumaru havia considerado se casar com a irmã perfeita e virgem enquanto flertava para seduzir a que acreditava ser uma meretriz.

— Eu sentia uma harmonia entre vocês dois que me fez imaginar sobre sua escolha das minhas filhas, mas não disse nada. Um homem não interfere num amor jovem.

— Amor não tem nada a ver com isso — disse ela, uma dor profunda a assolando.

— É claro, os sentimentos vêm com o tempo, mas mesmo assim eu estava certo. A atração entre vocês dois deu fruto.

Mais fruto do que o pai jamais saberia.

Um bebê que tinha sido perdido e uma relação que nunca seria a mesma.

Rin virou-se para Sesshoumaru com o coração apertado.

— Você falou com meu pai sobre casar-se com Annemarie no verão passado?

Ela precisava de confirmação, ouvir dos lábios dele que havia pensando em se casar com a irmã enquanto a seduzia com seu charme.

— Sim, mas isso não significou nada.

Rin questionou como ele definia nada. Para ela, tal revelação era algo poderoso, algo triste. Não acreditava que Sesshoumaru podia ser tão soberbo sobre isso, como se aquilo não importasse. O que eles tinham compartilhado antes não significara nada para ele? Se ela não tivesse ficado grávida de um filho dele, Sesshoumaru teria rompido o relacionamento e casado com sua irmã.

Ela teve de fazer um grande esforço para segurar o grito de dor que aquele pensamento evocava.

Sesshoumaru não estava mais sorrindo.

— Como seu pai disse, aquilo não resultou em nada.

— Sim. Eu sabia que nada aconteceria, e estava certo — disse o pai.

Annemarie continuava a parecer envergonhada e Rin controlou-se.

Aquilo não era algo que quisesse fazer. Ser o assunto de discussão de uma família.

— Obviamente — suspirou Therese, mas sorriu. — Não precisa exultar-se sobre isso. Todos podemos ver o quanto você estava certo.

Rin forçou-se em rir junto com os demais e conseguiu não se desviar quando Sesshoumaru a tocou para ajudá-la a se levantar da cadeira e conduzi-la para o pátio a fim de tomarem os drinques antes do jantar. E, de algum modo, manteve a máscara de noiva feliz pelo resto da noite, o coração morrendo.