Capítulo 11 - The Shadow of your Smile

Frida abriu os olhos espreguiçando-se com gosto. Deixou-se ficar deitada na cama por mais alguns minutos, observando cada detalhe do quarto. Se fechasse os olhos, saberia dizer exatamente qual a disposição de cada quadro, foto ou móvel do recinto. Nos últimos dias, passara muito mais noites ali que no próprio quarto em seu pequeno apartamento no centro de Londres.

A loira girou corpo, deixando-se quedar de bruços no lado da cama outrora ocupado por Aldebaran. O travesseiro exalava o perfume dele, um aroma almiscarado e pungente. Frida sorriu de leve. Ela gostava daquele cheiro. Era algo marcante e forte como o dono, e, paradoxalmente, suave. A espiã tinha que admitir que também gostava do toque do auror, do modo carinhoso e ao mesmo tempo quase desesperado como ele a conduzia sob os lençóis. Ela não se lembrava de ter se sentido tão confortável com outra pessoa como se sentia com Aldo. Não precisava fingir prazer quando estava nos braços dele...

Aquela não era a primeira vez que Frida se prestava àquele tipo de estratégia para cumprir seu trabalho de espiã para a horda das Trevas. Aliás, a primeira vez que compartilhara o leito com alguém fora exatamente em uma missão...E não fora uma das experiências mais agradáveis da vida da polonesa...Talvez pudesse ser descrita como próxima de...traumática. Mas, ela não chorara naquela noite, muitos anos atrás. Como muitas e muitas vezes desde a morte do pai, ela reprimiu as lágrimas e enxotou seus sentimentos e pensamentos para os abismos que guardava dentro de si. Ela tinha um propósito a cumprir. Uma promessa que fizera a si mesma e aos pais de que reergueria o nome dos Grygiel ao patamar de honra e glória do passado. Todos aqueles que viraram as costas para a família dela em seu momento de infortúnio iriam se arrepender amargamente.

E a cada dia que passava, Frida se encontrava mais próxima de seu intento. Estava ascendendo nas tropas do Lord das Trevas, e, o êxito em sua missão de espionar o Ministério Inglês através de Aldebaran Black-Thorne era o passo primordial para tudo o que ela almejava.

As coisas estavam indo maravilhosamente bem. Estava se assentando de uma maneira até mais rápida do que ela supusera ser possível. Aldebaran era um homem prático e sem meias medidas. Desde que aceitara a polonesa como parte de sua vida, já a apresentara em caráter quase oficial aos amigos, à irmã, e, também, ao primo dele, Kamus Ivory. Quase todos a acolheram com uma receptividade que chegou a surpreende-la, menos Ivory...Ele não dissera nada expressivo ou mesmo direto, guardara para si o que quer que estivesse pensando no momento, contudo a moça conseguira discernir uma certa reticência por parte do auror mais jovem. Em todo o caso, por enquanto, não precisava se preocupar com o russo. Lidaria com ele mais tarde, caso houvesse necessidade.

Infelizmente, apesar do conforto daquela cama macia, ela precisava se levantar. Tinha um emprego para ir, uma fachada para manter. Afastou os lençóis, sentido um leve arrepio perpassar pelo corpo semi-nu. Pegou a camisa do pijama de Aldebaran, que estava pousada aos pés da cama e a vestiu. Sendo ele muito mais alto que ela, a blusa cobriu seu corpo por completo até metade das coxas.

Pé ante pé, ela desceu as escadas que davam para o andar inferior. A casa do auror não era muito maior que o apartamento dela apesar de ter dois andares. Possuía dois quartos, um banheiro no segundo piso; uma saleta e a cozinha no térreo. Era mais que suficiente para o conforto de um homem solteiro ou de um casal sem filhos.

Um aroma doce capturou a atenção da moça, enquanto um leve crepitar podia ser ouvido vindo da cozinha. Assim, seguindo a passos silenciosos, a polonesa adentrou o lugar. Voltado para o fogão estava Aldebaran, vestindo apenas as calças do pijama que faziam conjunto com a camisa que Frida vestia. Ao lado dele, na pia, uma pilha de panquecas se destacava em um grande prato de cerâmica.

A loira aproximou-se do ruivo, abraçando-o pelas costas, sem não antes estranhar a própria reação. Aquele movimento não fora calculado ou pensado, como muitas de suas encenações na arte de seduzir e enganar. Ela apenas sentira uma necessidade quase inexplicável de sentir o calor do corpo dele próximo ao dela. Fechou os olhos enquanto, encostava o rosto nas costas nuas do auror, deixando-se levar pelo deleite daquela sensação por alguns segundos. Talvez apenas estivesse levando a sério demais o papel de amante apaixonada...Já acontecera algumas vezes antes, embora não com aquela intensidade.

Foi resgatada de suas dúvidas pela voz grave de Aldebaran:

-Bom dia. Estou terminando nosso café da manhã.

Ela levantou o rosto, ainda abraçada a ele, respondendo:

-Achei que hoje era o meu dia de fazer o desjejum.

-Eu não vi necessidade em te acordar para isso, uma vez que eu já tinha me levantado - retrucou Aldo enquanto retirava a última panqueca da frigideira.

Desligando o fogão, ele se virou para Frida, abraçando-a pelos ombros. Colocou uma mecha de cabelo da moça atrás da orelha. Sentia-se feliz por tê-la ali. Aliás, sentia-se feliz como nunca antes em sua vida, apesar de não demonstrar isso de maneira esfuziante. Aquele era o jeito dele, calado e contido. Mas o anjo que tinha em seus braços parecia já ter compreendido isso.

-Seu mês de aluguel termina hoje, não? - perguntou ele.

A loira assentiu.

-Tem certeza disso, Aldo? - perguntou a espiã, fingindo certa reserva sobre a proposta que ele havia lhe feito dias antes. Embora fosse exatamente o que mais desejava para poder realizar sua tarefa de modo mais eficiente, não queria parecer ansiosa demais, ou aquilo poderia ser prejudicial para os seus planos. Ela precisava se ater aos movimentos certos de cada jogada caso quisesse manter o controle da situação.

-Quando eu tomo uma decisão, Frida, é porque eu realmente estou certo daquilo que quero. Se te chamei para morar comigo, é porque te quero aqui.

A polonesa apenas sorriu em resposta, inclinando-se para frente e deixando-se erguer pelas pontas dos pés. Enquanto depositava um beijo suave nos lábios de Aldebaran, sentiu um fremir de entusiasmo dentro de si. O dia em que todos os seus sonhos de triunfo, poder e vingança iriam se concretizar se aproximava.


A mocinha loira encarava o próprio reflexo na colher que supostamente deveria estar usando para tomar enorme sundae de chocolate que pedira ao garçom. Ela não devia ter mais que quinze ou dezesseis anos de idade. Seus cabelos eram crespos e curtos, seu rosto coberto de sardas, e uma pequena fenda não era despercebida quando se focalizava seus dentes da frente. Definitivamente ela não gostava da própria aparência. Sentado à sua frente, um rapaz moreno, de cabelos escuros, óculos de grau escondendo seus olhos castanhos, a fitava em divertida curiosidade, enquanto brincava de modo quase displicente com o canudinho de seu milk-shake.

-Qual o problema, Bella? - disse o rapaz, em um tom provocativo para a moça - Escolhi com tanto carinho essa carapaça para você...Quem iria notar dois adolescentes gastando a tarde despreocupadamente? Além disso, a idéia de nos encontramos aqui nesta lanchonete trouxa tão próxima do Ministério Bruxo foi sua.

-E por isso você me presenteia com uma aparência tão repugnante, Ludo? Por um acaso é alguma daquelas suas piadas sádicas? - retrucou a garota, um tanto irritada.

O rapaz soltou uma gargalhada alta que soou levemente estranha aos ouvidos de Bellatrix, pois, ao invés do costumeiro tom grave e até mesmo pomposo, era aguda e nasalada. Ainda assim, aquele gesto era inconfundivelmente característico de Ludovic Black-Thorne.

-Quem sabe, priminha? Quem sabe eu realmente não esteja me divertindo às suas custas? Mas, acho que você deveria ser menos exigente com sua "casca". A mocinha que serviu de base para a poção polissuco que você usa era bastante interessante, sabia? Engraçada até...

A loirinha inclinou-se na mesa, apoiando o rosto nas mãos sobrepostas uma sobre a outra. Nos lábios um sorriso malicioso de curiosidade e interesse se formou.

-Então você a matou? - perguntou, quase em êxtase.

O rapaz deu os ombros.

-O que você acha? Serviço completo, minha querida...Como há tempos eu não me permitia fazer...Você precisava escutar os gritos dela implorando para que eu não a machucasse...Apesar da expressão batida, te garanto que foi como música para meus ouvidos...

O sorriso no rosto de Bellatrix ampliou-se de satisfação. Era por essas atitudes que verdadeiramente gostava de seu primo comensal. Apesar disso, não iria deixar tão barata a brincadeirinha dele. Ludovic sabia o quanto ela tinha apreço por sua beleza e aparência. Seus cabelos negros e olhos azuis eram marcas do orgulho de ser uma legítima Black para serem conspurcados por uma aparência desprovida de qualquer graça como aquela que travestia.

-Se a sua musa comensal misteriosa escutar você falando assim, certamente sentiria ciúmes por toda essa paixão que demonstra pela "coitadinha" que você matou. - provocou.

-Uma coisa não exclui a outra. São tipos de amor diferentes... - respondeu ele, sem deixar se abater, na verdade, se divertindo naquele joguinho tanto quanto Bellatrix estava.

-E você não vai mesmo me falar o nome dessa musa?

-Ordens do mestre...Além disso, eu não quero que você envenene a minha futura esposa contra mim...Conheço a sua língua peçonhenta, Bella.

A moça revirou os olhos de forma quase teatral, jogando a cabeça para trás. Mãos sobre o peito, dissimulando indignação.

-Eu não acredito que você tem a ousadia de lançar uma ofensa tão grave sobre mim. Justo eu que te convidei aqui para te dar um presente muito especial. Tudo bem que a sugestão foi do lorde...Já que ele acha você tem os talentos necessários para "tomar conta" do presente em questão...Além de ser, obviamente, uma solução para seu atual problema de moradia, já que como comensal fugitivo, é difícil arrumar um lugar decente para você se assentar, não?

Ludovic ajeito os óculos que escorregavam pela ponta do nariz, fitando Bellatrix sem compreender as palavras dela.

-O que exatamente você está planejando?

A comensal sorriu, postando a mão sobre a de Ludovic.

-Paciência, caro primo. Se olhar atentamente para a entrada, creio que pelo meus cálculos está quase na hora do seu presente aparecer.

O assassino estreitou os olhos em silêncio, fitando a entrada do estabelecimento. O que quer que fosse que Bellatrix estivesse planejando, pelo menos tinha a certeza que seria algo bastante divertido para ele.

Poucos minutos depois, a porta da lanchonete se abriu. Uma ruiva de olhos tão verdes quanto os verdadeiros olhos de Ludovic Black-Thorne chegou ao estabelecimento. Ao seu lado uma mocinha, talvez apenas um ano mais velha que as "cascas" que o comensal e a prima ostentavam, a acompanhava. Era morena, de cabelos castanhos escuros e lisos, na altura dos ombros. Mas Ludovic não prestou atenção alguma à ela, seus olhos não se despregavam da moça de cachos carmesim.

Ele não se surpreendera em encontrar a irmã caçula ali, afinal, como dissera anteriormente à Bellatrix, aquela lanchonete era perigosamente próxima do Ministério e consequentemente do Quartel General dos Aurores, não que isso o preocupasse. A verdade é que, intimamente, desejara que pudesse vislumbrar Elizabeth mais uma vez. O último encontro que tiveram, em meio uma batalha entre comensais e aurores, fora particularmente atribulado. Ele deixou-se sorrir. Sentia falta da caçula dos Black-Thorne.

Acompanhando o movimento dela, viu que Elizabeth se aproximava de uma mesa onde um rapaz de cabelos castanhos estava sentado sozinho. Ela puxou a outra moça que timidamente cumprimentou o homem. O comensal focalizou bem o rosto do desconhecido. Não se lembrava de tê-lo visto antes. E ele sempre, sempre prestara atenção nas companhias da irmã, mesmo aquelas que não lhe agradavam. Aquele rapaz era novidade para ele, não se lembrava tampouco de tê-lo visto nos usuais círculos bruxos. Contudo, Ludovic não estava preparado para a cena seguinte. Betsy inclinou-se e beijou o desconhecido nos lábios. Nos lábios!

-Hu-hu - a voz de Bellatrix se fez ouvir, irônica e divertida, ao lado - Parece que além do presente que eu vim te entregar você ganhou um prêmio extra, Ludo. Ou muito me engano, mas me parece que sua querida irmãzinha está namorando um trouxa.

Ludovic não desviou o olhar do casal na mesa próxima. Uma expressão de puro ódio podia ser lida em cada traço do seu rosto. Com uma voz fria e incisiva, respondeu ao comentário da prima:

-Se você tiver razão, Bella, eu juro que eu mesmo vou acabar com esse absurdo...E do jeito que eu sei fazer melhor...


Elizabeth estava tremendamente exausta. O dia no trabalho havia sido duro e extremamente improdutivo. Depois de semanas juntando as mais diversas informações que levariam a uma grande reunião de comensais, no último minuto, tudo acabou se revelando um tremendo fiasco. Realmente haviam encontrado comensais no local indicado. Todos mortos. Provavelmente desertores. Voldemort era inclemente com aqueles que tentavam abandona-lo. Também encontraram vários outros corpos, alguns impossíveis de reconhecer. Um massacre ocorrera ali, e, infelizmente, esse tipo de coisa estava se tornando cada dia mais freqüente. Em momentos assim, Betsy se sentia completamente impotente. Tinha vontade de abandonar tudo, mas sabia que era incapaz de fazer isso. Não apenas por suas responsabilidades como auror, mas também porque não dormiria tranqüila se simplesmente cruzasse os braços e fingisse que não havia uma guerra acontecendo.

Mas, naquela noite, tudo o que a jovem bruxa queria era tomar um longo e reconfortante banho, e dormir. Mal acabara de aparatar no seu quarto, na casa de seus pais, quando percebeu que Marguerith e Péricles a esperavam. Fitando o semblante severo da mãe, pensou consigo mesma que se tivera um dia infernal, a noite prometia ser ainda pior.

-Como pôde fazer isso conosco, Elizabeth? – perguntou Marguerith. A ira em sua voz era quase tangível – Como pôde jogar o nome de nossa família na lama?

Péricles permaneceu em silêncio. O rosto completamente impassível.

-Vocês já sabem, não é? Como? Quem contou? - ela fitou os pais, entre o surpresa e o assustada. Sentia um nó começar a formar no estômago.

-Isso não tem importância! - a mãe cortou a fala dela, quase gritando - Se você queria que não soubéssemos, deveria ter tomado mais cuidado. Vocês foram vistos juntos, sua idiota! Por quanto tempo achou que iria nos fazer de palhaços?

Betsy desviou o rosto do olhar severo da mãe. Todos os seus temores começavam a se tornar realidade.

-Eu não queria enganar ninguém, mãe.- disse, quase em um murmúrio - Mas eu sabia que vocês não iriam entender que eu amo o Nick.

-Isso é repulsivo! - Marguerith não conseguiu esconder da careta de nojo - Como pode dizer que ama um...um...

-Um trouxa, mamãe, um trouxa. - retrucou Elizabeth, erguendo o rosto e encarando a mãe com altivez. Estava com medo, era verdade, mas não deixaria que ninguém, nem mesmo a orgulhosa senhora Black-Thorne ofendesse o homem que Betsy amava.

Marguerith deu um estrondoso tapa no rosto da filha.

-Cale a boca, sua cretina. Você é a desgraça desta família. Sempre foi! Sendo escolhida para a Grifinória, se tornando amiga de trouxas, abandonando alguém como Maxwell. Nunca honrou o sangue e o nome que carrega.

-Você sempre me odiou, não é?- a ruiva retrucou, esfregando o local atingido, com uma das mãos. Fitava a mãe em um olhar de quase desafio. Aquela era, afinal, a hora da verdade, Quando todas as máscaras finalmente cairiam - Cada passo meu sempre foi um erro para você! Eu nunca, nunca consegui te agradar. E se o preço para ter seu amor é me tornar como Ludovic, eu prefiro continuar como sou.

-Eu deveria ter te matado anos atrás. - Marguerith gritou ainda mais alto, completamente histérica - No dia em que você foi selecionada para aquela casa em Hogwarts, eu soube que teríamos sérios problemas.

-Já que eu sou uma decepção tão grande assim na sua vida, por que não me mata agora?

-É o que eu vou fazer. – falou Marguerith, os olhos chispando de ódio. Sacou a varinha de suas roupas e apontou para a filha.

Elizabeth fechou os olhos, esperando o ataque da mãe. Pôde ouvir a voz de Marguerith começando a dizer: Avada...

Contudo, a bruxa mais velha não conseguiu completar o feitiço. Deixou-se cair, sem forças, no chão do quarto da filha.

Péricles, que se mantivera afastado da discussão até o momento, levantou-se da poltrona onde estava sentado e caminhou com dificuldade até à esposa, apoiado em uma bengala ricamente ornamentada com esmeraldas de vários tamanhos. O velho Sr. Thorne postou a mão no ombro da esposa. Encarou a filha. Seus olhos eram frios e não transmitiam nenhuma emoção. Com uma voz destituída de qualquer sentimento, disse:

-Saia desta casa agora.

-Pai... – falou Elizabeth, com a voz trêmula e os olhos marejados de lágrimas.

-Não me chame de pai nunca mais. Minha filha morreu no dia que decidiu se envolver com alguém inferior, um animal sujo que não merece o título de humano. Quero que saia daqui imediatamente e nunca mais volte.

Betsy não sabia o que fazer ou como reagir, se sentia massacrada e desamparada. A atitude do pai foi o golpe final. Até aquele momento, a jovem bruxa ainda nutrira uma leve esperança de que pelo menos o pai a perdoasse e compreendesse.

Desesperada, Elizabeth aparatou para longe dali.

Chovia torrencialmente em Londres. A noite já corria alta e Nicholas já estava se preparando para dormir, quando ouviu estrondosas batidas na porta de sua casa. Desceu as escadas para ver quem poderia estar chamando àquela hora da noite. Ao abrir a porta deu de cara com Elizabeth completamente ensopada, cabelos desgrenhados e um olhar totalmente perdido.

Nick assustou-se ao ver a namorada assim, pois acostumara a vê-la sempre alegre e sorridente.Algo realmente grave deveria ter acontecido. Nicholas puxou a jovem para dentro de casa e a abraçou. Ela não esboçou nenhuma reação, o que fez que ele ficasse ainda mais preocupado. Levou-a até o sofá e fez com que ela se sentasse.

-Fique aqui, vou pegar um chá quente e uma toalha pra você, e depois, se quiser, podemos conversar.

Betsy olhava fixamente para xícara de chá fumegante que segurava. Sorveu um grande gole, esperando que o calor do líquido escuro a reconfortasse. Nick estava sentado diante dela, fitando-a pacientemente com seus límpidos olhos castanhos.

A jovem olhou para o namorado. Não podia continuar em silêncio. Reunindo toda a coragem que ainda lhe restara, começou a falar:

-Nick, eu preciso te dizer uma coisa...É muito difícil te contar tudo agora. Queria estar mais preparada, mas... Bem, você deve estar se perguntando por que eu apareci aqui desse modo... Meus pais me expulsaram de casa.

-Te expulsaram de casa? Por quê? – perguntou o rapaz, horrorizado.

-Porque eles descobriram que nós estamos namorando.- disse Betsy, despejando a verdade em um único fôlego.

O escritor a encarou com uma expressão confusa. Por mais que compreendesse que os pais de sua namorada fossem ricos e esnobes, não acreditava que o fato de ela namorar alguém destituído de posses fosse razão forte o suficiente para enxotar a filha de casa.

-Eu não entendo, qual é o problema? - perguntou

-Você é um trouxa, Nick. - respondeu a jovem feiticeira em meio a um suspiro, antevendo o quão dura poderia ser aquela conversa.

-Um trouxa? Como assim? - retrucou Nicholas, ainda mais confuso.

-Trouxa é como nós chamamos as pessoas que não possuem a capacidade de fazer mágica. - a moça respondeu, com uma voz neutra. Tentava se controlar, segurar o medo sobre qual seria a reação do namorado depois de saber toda a verdade - Eu sou uma bruxa. Meus pais não aceitam que pessoas como eu se misturem com pessoas como você. Eu sei que deveria ter te contado tempos atrás, quando começamos a namorar, mas eu fiquei com medo de que você se assustasse...

Nicholas arregalou os olhos, verdadeiramente preocupado. A namorada perdera a razão, enlouquecera com a atitude dos pais, e ele não sabia o que fazer para ajuda-la. Aquela sensação de impotência e desamparo doía-lhe mais que tudo.

-Betsy, pára! Isso que você está me dizendo não tem sentido algum. Você deve estar com febre, está delirando.

A feiticeira sabia que seria difícil fazer com que o namorado acreditasse nela. Pegou então a varinha que estava guardada em seu bolso e conjurou:

-Wingardium leviosa!

A xícara de chá que Nicholas também trouxera para si começou a levitar, para o espanto do escritor.

-Eu...eu...não posso acreditar - disse ele. Levantando-se abruptamente.- É demais para a minha cabeça.

-Eu sabia que você não ia aceitar bem a situação.É melhor eu ir embora. – Elizabeth levantou-se, preparando-se para aparatar. Não queria que ele a visse chorar.

Nicholas segurou a mão da namorada.

-Não, espera. Eu não quero que você vá. - começou ele, de modo cuidadoso, porém firme. - Desculpe a minha reação agora a pouco. Entenda, é tudo tão novo e estranho. Como se o mundo inteiro tivesse virado do avesso na minha cabeça. Mas uma coisa continua a mesma: Eu te amo, Elizabeth. Não me importa que você seja uma bruxa. Desde que meus pais morreram, eu sempre me senti vazio, incompleto. Por mais que meu irmão mais velho tentasse suprir a falta deles, nunca foi o suficiente. Mas, depois que eu te conheci, eu me senti inteiro. Foi você quem me completou...

-Nick, eu...

-Shhh, você não precisa dizer nada. Só quero que saiba que eu sempre vou estar aqui.

Abraçaram-se silenciosamente. Até que Nicholas falou:

-Amor, quando a gente brincava que a sua mãe era um ogro, era só brincadeira mesmo, não é? Ela não é um ogro... de verdade?

-Não, Nick, mamãe não é um ogro.

Elizabeth riu, para depois se debulhar completamente em lágrimas. Nicholas a abraçou mais forte, e, naquele momento, o escritor prometeu a si mesmo que nunca deixaria Betsy sozinha, o que estivesse ao seu alcance, faria para que ela se sentisse protegida e feliz.


Os raios de sol entraram, tímidos, no quarto. A semipenumbra dava um aspecto quase onírico ao recinto. Nicholas já estava acordado fazia algum tempo. Observava Elizabeth, que dormia suavemente. Seus longos cabelos castanho avermelhados caiam displicentes nas costas nuas da jovem, envolvida apenas por um fino lençol branco que quase se confundia com a palidez de sua pele. Um ligeira pontada de culpa perpassou pelo interior do escritor. Era a primeira vez que estavam juntos, daquele modo. E pelo que notara, era também a primeira vez que Elizabeth se entregava a alguém. Talvez ele devesse ter sido mais cauteloso, ela estava frágil e desamparada na noite anterior. Não queria que ela pensasse que ele tinha se aproveitado da situação. Contudo, ao mesmo tempo, não poderia estar mais feliz. Tê-la em seus braços era tudo o que ele mais desejou até aquele momento. Ele a amava, e aquela verdade era o suficiente para ele.

Nick beijou delicadamente o pescoço da namorada. Betsy deu um gemido baixinho, se revirou na cama, abrindo os olhos. Fitou Nicholas, piscando algumas vezes.

-Bom dia, minha dorminhoca. Você está bem?

-Eu estou ótima!! – respondeu ela, se espreguiçando. E sorrindo para ele de modo radiante completou - Nunca estive melhor em toda a minha vida!

- Isso é muito bom! - respondeu ele, contente e aliviado por ela não ter se arrependido pelo que aconteceu, por ela estar verdadeiramente feliz. - E eu acho que você vai ficar ainda melhor, pois tomei uma decisão muito importante e queria compartilhar com você.

Elizabeth se sentou na cama, enrolando-se no lençol. Tinha uma expressão bastante séria no rosto. Conhecia Nicholas o suficiente para imaginar o que passava pela mente do escritor, e não queria que ele se precipitasse sem entender exatamente com que estava lidando.

-Se você for me perguntar o que eu estou pensando, a resposta é não. Eu não vou me casar com você, até esclarecermos as coisas. Ontem eu estava transtornada e angustiada, é verdade, mas não me arrependo do que fizemos, e também não estou cobrando nada de você. Agora minha mente está mais clara e não quero que você tome uma decisão desse porte ignorando certos fatos de minha vida ou da conjectura atual do mundo bruxo.

-Mas, Betsy...

-Nick, me deixa falar, por favor. A história é grande e complicada. Se depois de tudo o que eu te contar, você ainda quiser ficar comigo, eu serei muito feliz em me tornar a Sra. Johnson.

Nicholas encarou os profundos olhos verdes de Elizabeth, e, percebendo que talvez aquela fosse a conversa mais importante de toda a sua vida, permaneceu em silêncio, tentando prestar atenção a cada mínimo detalhe dito pela namorada.

Betsy iniciou sua história, falando sobre os princípios básicos da vida de um bruxo. Sobre sua família. Sobre a Guerra Bruxa deflagrada por Voldemort e seus comensais. Sobre seu trabalho como auror para o Ministério da Magia. Não escondeu nem mesmo que seu irmão Ludovic e seu primo Rigel eram perigosos seguidores do Lord das Trevas.

-Você entende, Nick, que se ficarmos juntos você vai correr perigo de vida? - perguntou ela, séria - Que nunca as coisas vão ser fáceis?

-É claro que eu entendo, perfeitamente. - respondeu ele no mesmo tom de Betsy. Ele escutara o que ela dissera, talvez o quadro geral ainda lhe fosse confuso, mas a gravidade da situação não poderia lhe ser mais cristalina.

-E ainda assim você quer se casar comigo?

-Mais do que nunca, Betsy.- o escritor respondeu, mais do que nunca resoluto em sua decisão.

A ruiva virou o rosto. Não queria que Nicholas se sentisse obrigado a casar com ela por tudo que a moça passara com os pais na noite anterior. Ela escolhera desde o começo ficar com ele sabendo das possíveis conseqüências do fato de ele ser um trouxa. Fora uma decisão única e exclusiva dela. Se não fosse pela razão certa, mas por pena, ela não queria ter Nick ao seu lado, mesmo que isso destroçasse ainda mais seu coração.

-Você não precisa se casar comigo por se sentir culpado por eu ter sido expulsa de casa. Eu ainda tenho o Aldebaran.

Nicholas segurou delicadamente o queixo da namorada, fazendo que as orbes esmeraldinas dela fitassem diretamente seus rosto. Um sorriso sereno se destacava no rosto do escritor.

-Deixa de ser boba. Quando é que você vai colocar nessa sua cabecinha dura que você é a coisa mais importante da minha vida e que eu te amo?

Elizabeth sorriu em retorno, abraçando Nicholas.

-Só tem uma coisa que realmente me preocupa, amor. – disse Nick, se desvencilhando da namorada e olhando-a com muita seriedade. – O terno do casamento! Você sabe que eu odeio usar ternos!

Betsy riu, pegando o travesseiro próximo e acertando levemente na cabeça do namorado.

-Como é que eu posso te levar a sério?

-E precisa? Que graça teria a vida se tudo sempre fosse tão certinho? Preciso descer e preparar nosso café da manhã. Não sou o melhor cozinheiro do mundo, mas acho que consigo ajeitar alguma coisa para a gente. – falou Nick, beijando rapidamente os lábios da jovem em despedida.

Elizabeth se deixou cair de volta na cama, mergulhada em uma sensação de alivio e completa felicidade. Parecia-lhe que a tempestade estava começando a passar.


Nota da Autora

Oi novamente a todos!

Espero que tenham gostado do capítulo...

Bem, as notas da autora desse capitulo vai ser bem curtinha...

Acho que as coisas começaram a se delinear de verdade neste capítulo. Muito em breve teremos um casamento muito esperado, que acabou levando ao nascimento de uma certa ruivinha...

Bem, vamos à referência:

Título: retirado de uma música do Frank Sinatra, um dos maiores cantores norte-americanos de todos os tempo, conhecido como "A Voz". Paixão incondicional da Régis (Raven) e da Luci ( Mina/Silverghost), então, aproveitando o ensejo, dedico o capítulo a elas. O título é referência ao estado de espírito de Betsy logo após ser expulsa de casa.

Bem, dessa vez é só isso mesmo!

Espero que tenham se divertindo com o que leram tanto quanto eu me diverti escrevendo. Não deixem de comentar

Abraços, Meridiana (Ana)