Até agora: Harry ainda está furioso com Draco por causa do beijo roubado por este durante a detenção dos dois, Draco está deprimido e não sabe como encarar Harry, tendo em Chikage um amigo no qual está se apoiando. Já Hermione finalmente aceita começar a estudar com japonês.

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SERPENTES E LEÕES

Estava frio. Muito. Por isso, mesmo com o pesado casaco que usava, andava abraçado a si mesmo. As botas afundavam nos vários centímetros de neve fofa e os cabelos voavam a sua frente, quase cobrindo sua visão. Sentia o rosto arder, fruto de se enfrentar uma tempestade de neve a céu aberto.

– Um típico clima natalino, não, Chiaki? – disse ao chegar na colina, com a voz meio tremida. Mantendo um braço ao seu redor, e ainda tremendo, levou a mão direita até a lápide de pedra, limpando a neve que cobria o nome ali gravado, o frio chegando a sua pele através da grossa luva – Feliz Natal, nii-san.

O vento, parecendo responder, soprou mais forte e Chikage se ajoelhou na neve, os lábios agora num tom azulado, enquanto ele ignorava o frio e continuava ali, contando a seu nii-san as novidades e passando aquela manhã gelada a seu lado.

Capítulo 11 – Medos da alma

Draco acordou sem nem lembrar de ter dormido.

Sentia o corpo pesado e esfregou os olhos antes de abri-los, a vista ainda meio embaçada. Onde estava? Aquela não era a sua cama. Ergueu-se lentamente olhando ao redor, ainda um pouco sonolento. Piscou um pouco, tentando enxergar algo na escuridão. A janela estava fechada, as cortinas da cama abertas, tudo deserto. Aquele não era o seu dormitório. Passou a mão pelos cabelos percebendo que já estava completamente vestido e isso deixava a situação ainda mais desconjuntada. Ele não dormia de jeans e casaco, nem com as cortinas abertas, nem em camas que não fossem sua.

Esfregou a face com força esperando com isso acordar de vez. Nos seus pés um grosso cobertor se embolava, o que explicava porque ele não sentia frio, no chão, ao lado da cama, as botas que costumava usar.

Fechou os olhos, tentando trazer de volta as lembranças perdidas.

Mas a memória recente parecia querer sumir e assim dar lugar a memórias passadas, memórias insistentes que não possuíam mais que duas semanas, mas que mesmo assim teimavam em ocupar sua mente como se fossem de horas atrás. Memórias envolvendo Harry e o fatídico passeio a Hogsmeade. E agora que as férias de inverno tinham começado e a maioria dos alunos já deixara o castelo, ficara ainda mais fácil para ele se perder em atos passados, por mais que quisesse que Harry os esquecesse. Sorte que o Castelo era grande e eles pouco se viam nesses dias, mesmo com a neve que se recusava a cessar era impossível aos poucos estudantes restantes sair. Assim, Draco passara os últimos dias evitando a todo custo encontrar com Harry. Com esse mesmo propósito ele também adotasse a estratégia "faltar em todas as aulas conjuntas com a Grifinória". O que fora uma decisão acertada, pois Harry, por usa vez, continuava com ódio e tinha profundos acessos de mal-humor quando passava por qualquer lugar que lhe lembrasse do loiro (ou seja, todo lugar com exceção do seu Salão Comunal) e no Salão Principal, sempre sentava de costas para a entrada ou para a mesa da Sonserina. Mesmo assim, sua mente não conseguira não assimilar o fato que desde a detenção de ambos, não havia visto Draco sem a companhia de Chikage em nenhum momento. Parecia que o japonês havia se convergido na sua sombra!

Ao perceber o rumo de seus pensamentos, Draco balançou a cabeça numa leve negativa, tentando voltar ao presente e como chegara ali. Recordou-se que acordara cedo, cedo demais, coisa que não lhe era habitual.

Também não andava sentindo fome e na maioria das vezes só brincava com a comida.

Como seu quarto estava frio e escuro e ele, cansado de ficar rolando na cama todo dia em busca de um sono que não vinha, resolvera levantar e buscar algo para fazer. Foi só na escadaria que lembrara. Era Natal! Época de acordar tarde, abrir presentes, comer panetone no café da manhã, usar um ridículo gorro vermelho na cabeça, ouvir músicas ridiculamente felizes e fazer guerra de bolas de neve enquanto os pais conversavam sentados próximos a uma grande árvore enfeitada!

No entanto, neste ano não haveria guerra de bolas de neve (a menos que alguém fosse louco o suficiente de se arriscar a brincar do lado de fora mesmo diante da nevasca que castigava o jardim), nem canções felizes, nem seus pais do seu lado.

"Quero ir para casa." – pensou – "Sinto saudades, papai." – mas mesmo ainda havendo uma casa para a qual retornar, Draco não sentia mais como se fosse a sua casa. E mesmo que voltasse, não haveria pais felizes, sorrisos cúmplices, voos ao entardecer com seu pai, árvore enfeitada, músicas felizes, mãos gentis que lhe abraçavam. Não haveria nada. Nada além de lágrimas e frio, permeados pelos risos loucos de sua tia.

Ao terminar de descer as escadas que levavam ao Salão Comunal, parou na entrada deste e ergueu uma sobrancelha em sinal de estranheza ao ver vazia a poltrona na qual costumava encontrar Chikage toda manhã, sentado próximo a lareira. Estranho. Sabia que era muito cedo, mas o oriental tinha por hábito sempre acordar cedo demais. Deu meia volta e subiu as escadas novamente, indo dessa vez para o quarto do japonês. Apesar de sempre madrugar (como ele podia dormir tão pouco!), às vezes acontecia do amigo perder a hora devido as poções que tomava.

Abriu a porta do dormitório vizinho ao seu, sem bater antes. Com a partida de Nott, Medina, Brianc e Jolie, só havia Chikage ali. Ou assim deveria ser, mas o quarto estava escuro e vazio.

- Chikage? – chamou, para o caso do outro estar enfiado em algum canto, mania estranha que ele tinha – Você está aqui? – Silêncio. Caramba, onde ele estava? Onde alguém ia antes das 6h da manhã duma manhã de Natal?

Entrou no quarto e fechou a porta, caminhando rumo a cama do oriental. Ele não estaria embaixo da cama querendo pregar-lhe um susto, estaria? Claro que não! Voltou a olhar para os lados, mas tudo estava no seu mais perfeito lugar. Teria Chikage dado um pulo na cozinha? Isso não seria nada atípico. Lembrava do amigo mencionar que vez por outra sofria do que os trouxas denominavam de "fome noturna", mas que ele própria definia como "impossibilidade de dormir com o estômago vazio". Era impressionante o tanto que o japonês comia em comparação a sua estrutura pequena e esbelta. E o quanto ele assaltava a cozinha. Já conhecia todos os elfos pelo nome! Sentou então na cama, decidido a esperar meia-hora e se ele não voltasse nesse tempo iria começar a procurá-lo (apesar de não fazer ideia de por onde começar a procurar alguém que tinha o dom de sumir).

E isso era a última coisa da qual lembrava. Seria possível que dormira? Nem lembrava de ter deitado! Mas pelo visto fora isso mesmo que acontecera e, apesar de tudo, dormira bem. Atualmente remexia-se tanto na cama que parecia estar brigando com esta, quando não acordava assustado, com o coração aos pulos e o corpo quente, fruto dos malditos sonhos que há tanto tempo povoavam suas noites. A diferença era que agora, muitos deles continham um olhar repleto de ódio e nojo.

Com o ódio ele sabia que conseguia lidar.

Com o nojo ele já não tinha muita certeza.

Tudo isso vinha lhe causando uma tremenda insônia! E ele que odiava acordar cedo via-se desperto antes mesmo do raiar do dia.

O que um coração ferido não é capaz de fazer com alguém.

O irritante é que bruxos já tinham inventado de tudo! Feitiços e Maldições que iam desde feitiços fatais, de dor, de manipulação, poções do amor, do desejo, do sono, da verdade, tanta coisa já havia sido desenvolvida e parecia que ninguém ainda tivera a brilhante ideia de criar algo que tirasse a dor de uma rejeição!

Será que Chikage conheceria algo do gênero? Ele parecia uma caixinha de feitiços uteis! Imaginava quanta coisa ele não teria aprendido vendo seu tio testar os diversos feitiços que criava. O que tinha suas vantagens e óbvias desvantagens, sabia das mortes terríveis que eles podiam ocasionar e que muitos bruxos acabavam vítimas de suas próprias invenções (se não se enganava, a mãe de suas colegas havia morrido desse jeito...). Com certeza, não era uma profissão muito segura. Teria Chikage visto a morte do tio adotivo? Ele apenas dissera que ele havia morrido por causa de "um feitiço que deu errado", mas não mencionara se estava por perto ou não.

E falando em Chikage, onde ele estava?

Girou a cabeça, vasculhando o quarto com o olhar, mas ele estava do mesmo jeito de quando entrara. Vazio, frio e escuro. Voltou a esfregar o rosto, tentando espantar os resquícios de sono, quando percebeu os embrulhos no pé da cama. Presentes de Natal.

"Dormi tanto a ponto dos presentes já estarem aqui?" – pensou, lembrando que os elfos normalmente os colocavam na cama por volta das 8 horas.

Colocou os pés para fora da cama, tencionando levantar-se, mas parou ao reconhecer o embrulho roxo do presente que comprara para Chikage. Inclinando um pouco o corpo, percebeu que além do dele, havia outros pacotes menores. De quem seriam? Curioso, Draco pegou um dos pacotes. Pansy. Por que isso não lhe surpreendia? O outro era de Emilie. Klein, Austen, Rosier, Zabini. Todos sonserinos, todos aqueles com quem ele mais tinha contato, todos de meninas, com exceção dele e Zabini.

E se todos eram de sonserinos, onde estavam os presentes dos seus amigos? Contou todos mais uma vez. Não, nada, nem sequer um cartão de alguém. Estranho, Chikage era tão dado com todo mundo, com certeza tinha amigos! Tinha, não? Não podia simplesmente não haver ninguém do lado de fora! Ele não falava nada sobre Zefir ou o Japão, mas tinha que ter alguém ali, certo? Pelo menos alguém!

"Tenho meus amigos. São uma boa família" ele lembrava de Chikage ter dito quando lhe contara que vivia num orfanato após a morte de seu tio adotivo. Mas que amigos eram esses que não mandavam nem um cartão de natal?

Ou, quem sabe, as corujas estivessem atrasadas! Afinal, há anos a neve não era tão intensa. Elas poderiam ter se atrasado. Sim, poderiam, mas... o Japão não estava 6 horas a frente? Será que haviam mandado mais tarde para chegar na hora certa? Será que eles eram japoneses?

Forçou a memória, percebendo que nunca tinha visto Chikage receber nem sequer uma coruja! Era como se não houvesse nada, nem ninguém!

Seria isso possível?

Chikage nunca haviam conversado sobre seus amigos, mas isso não significava que não houvesse outros amigos! Quem sabe, isso fosse só um reflexo do fato dele também não ser o tipo de pessoa que saia falando de si mesmo? Fora a vez que lhe perguntara sobre seu sangue, não se lembrava de alguma vez ele ter comentado alguma coisa realmente pessoal. Ele apenas respondia a perguntas, e de forma bastante vaga.

Só que Draco não era de fazer perguntas.

Assim, não era realmente estranho que ele nada soubesse do amigo, era? Poderia ser que eles apenas não comemorassem o Natal, não? Realmente, nada sabia sobre esses tais "amigos", não sabia quem eram, não sabia nem quantos eram, não sabia seus nomes, onde os conhecera, há quanto tempo conviviam, se eram mais velhos ou mesmo se eram orientais.

Não sabia de nada.

Contou mais uma vez os presentes apenas para constatar que realmente não havia nenhum de fora.

Poderiam esses amigos não existir?

Contudo, porque estava tão encanado com isso? Não sabia nada sobre eles, mas o que sabia sobre o próprio Chikage? O que sabia de fato? Sabia que ele nascera, mas não crescera no Japão, que ele não entendia Herbologia e não gostava de História, mas era muito bom em Feitiços e Poções, sabia que ele gostava de ler, mas não lia muito, dormia pouco, gostava de animais, de dias ensolarados e que era mestiço (coisa que Draco não tinha muita certeza de ser verdade. Aquela história de encontrar a mãe na escola, mas nunca vê-la era muito mal contada e ao loiro parecia apenas uma desculpa para elevá-lo a condição de mestiço. O que era estranho, visto que o amigo não parecia fazer distinção de sangue, mas muito lógico).

E o que mais?

Nada. Não sabia nada sobre o amigo.

Há dois meses convivia direto com ele e nada sabia fora informações banais.

Recolocou os sapatos, levantando-se em seguida, massageando os ombros. Onde estaria Chikage? E por que estava tão fissurado nele?

– Será que você não tem mais ninguém que queria arrastar para fora nesse frio?

Draco sobressaltou-se e olhou para os lados antes de perceber que a voz chorosa vinha do lado de fora e pertencia a Grach.

- Não seja mole, Robert. É Natal! Você vai mesmo fazer pouco do meu trabalho de vir até aqui só para te chamar? – brincou Lindsay Peterson, ela parecia animada, sua voz estava meio cantada e logo ela começou a cantar alguma ridícula música de Natal e, conhecendo Lind, ela estava agora com os braços em volta dos ombros de um Grach mal humorado. Ele odiava cantar e chamar a atenção. Mesmo sendo tão diferentes, Lind o adorava! Draco dizia que ela parecia uma irmã chateando o irmãzinho pelo puro prazer de fazê-lo.

Sorriu de leve ao pensar que se Pansy o ouvisse chamando a garota de Lind teria um ataque! Ela não suportava a loira, mas como não o fazer se o melhor amigo desta dividia quarto com ele? Brian Kinney era o amigo/candidato a marido de Lindsay desde pequeno, mas pareciam determinados a frustrar suas famílias. E não apenas quanto ao casamento. Não era segredo para ninguém que mesmo sendo filhos de famílias tradicionais os dois não davam a mínima para ideias envolvendo pureza sanguínea. E era exatamente por isso que ela passava seu primeiro Natal em Hogwarts. Com o Lord do lado de fora, eles eram apenas mais dois dos que viam-se diante de um dilema: suas famílias ou seus desejos? Brian há muito já havia tomado sua decisão.

Foi só quando a voz dela sumiu pela escada que Draco se deu conta! Que horas eram? Lind nunca levantava cedo! E muito menos o faria em pleno dia 25 de dezembro! Puxou a manga do casaco, fitando o relógio esquecido. Onze horas da manhã! Onze horas! Como dormira tanto assim? Girou o corpo mais uma vez, como que esperando ver Chikage em algum canto. Poderia parecer idiotice, mas o oriental tinha um verdadeiro dom para aparecer e desaparecer ou manter-se em um mesmo lugar sem ninguém perceber que, por um segundo, Draco teve esperanças de vê-lo ali. Mas ele continuava sozinho.

Abriu a porta do dormitório e desceu as escadas quase correndo. Não sabia dizer porque, talvez não houvesse um porque, mas estava preocupado. Subitamente preocupado. Chikage sair por aí no meio da noite era normal, desde sua primeira semana Nott reclamava dos sumiços do colega, mas Chikage havia dito que isso acontecia porque ele tinha problemas para dormir, o que o deixava com fome e ele não conseguia dormir de barriga vazia. Só que tudo tem limite! Ninguém fica mais de 5 horas andando por aí numa manhã gelada de Natal esperando o sono chegar!

Adentrou o Salão Comunal andando a passos rápidos, mas não precisou procurar muito. Bastou um olhar em direção a lareira para ver Chikage sentado no sofá de sempre, o mais perto possível do fogo, os joelhos flexionados próximos ao peito, os pés sobre a poltrona. Usava um grande gorro de lã verde escuro, um casaco enorme e grosso, meias e luvas de lã e um cachecol que quase lhe cobria a boca. Nas mãos, próximas a boca, ele segurava uma caneca cheia de um liquido marrom fervendo, a fumaça fazendo aspirais no ar frio enquanto ele o soprava devagar, tentando beber o chocolate muito quente. Seus lábios tinham uma coloração levemente azulada.

– Olá, Feliz Natal! – ele disse, a voz totalmente rouca, o sorriso vivo como sempre – Tempinho gelado, não?

– O que você fez? Saiu lá fora sem casaco? Parece que está congelando aí – Draco perguntou, aproximando-se do amigo.

– E realmente estou – e como para provar isso seu corpo tremeu mesmo que seus lábios tomassem mais um gole do líquido quente – Servido? Peguei um estoque de chocolate quente na cozinha.

– Não, obrigado – respondeu o loiro, sentando no encosto do sofá – Onde você estava?

Chikage fitou o fogo, o que fez Draco pensar se ele estava questionando-se qual seria a melhor resposta. Sentiu um aperto no peito ao pensar que o amigo mentiria para ele e preferiu que ele não dissesse nada a que mentisse. Então a voz rouca soou novamente – Fui visitar meu irmão e perdi a hora. Quase congelei. Tomei um banho quente, mas quase desisti quando lembrei que teria que tirar as roupas. Ainda não sinto meus dedos direito.

– Visitar seu irmão? – perguntou, e ante ao aceno positivo que recebeu - Mas como? Dumbledore lhe deu permissão para sair? E com esse frio?

– Foi uma concessão especial não pedida devido ao Natal.

O loiro ergueu uma sobrancelha diante da resposta, um monte de perguntas passando por sua mente antes que ele se decidisse por uma. Quando falou, Chikage tinha a caneca nos lábios.

– Não sabia que tinha um irmão.

– Tenho sim. Mais velho. Nunca contei?

– Não.

– Hum... acho que é porque não falo muito dele – respondeu com um dar de ombros indiferente. Mas seus olhos traíam o tom banal que ele queria dar ao assunto.

– Você não costuma falar muito sobre ninguém em especial. Isso é meio estranho, não acha? – questionou o loiro, tentando não soar inquisitivo. Havia aprendido com seu pai como fazer perguntas que deviam ser respondidas, mas não queria colocar Chikage conta a parede, queria que o amigo falasse porque queria que Draco soubesse.

– Acho que tem razão – foi a resposta que recebeu. Ele tentou olhar nos olhos verdes, mas estes estavam pregados no fogo – Mas sabe, falar daqueles que amamos e não estão aqui apenas faz com que a saudade aumente. Você não acha?

Não, ele não achava.

SL&SL&SL&SL&SL&SL

Manhã de Natal significava presentes, suéteres tricotados a mão, ceia, guerra de bolas de neve e conversas jogadas fora a beira da lareira.

Por isso, Harry normalmente acordava de bom humor no Natal e assim permanecia. Adorava a ceia que os elfos preparavam e gostava do clima no Castelo, para ser perfeito, só faltava a presença de Mione, que havia viajado com seus pais.

Infelizmente, além da falta da amiga, aquele ano também não contaria com a tradicional guerra de bolas de neve, pois a tempestade do lado de fora estava forte demais para qualquer um pensar em sair do Castelo. Harry se perguntou como as corujas tiveram força de trazerem seus presentes sem atraso e teve um excelente café da manhã! Mais uma vez Dumbledore resolvera unir as mesas, juntando os poucos que haviam permanecido no Castelo (12 alunos: 4 grifinórios, 2 corvinais, 1 lufa-lufa e 5 sonserinos). Fora muito bom! Muitos professores não estavam na escola e mesmo sendo muito estranho comer junto de Snape e Filch, Harry estava feliz.

Ele já estava se servindo quando percebeu a chegada da corvinal Liz Swan e três sonserinos. Percebeu que um deles era a loira que normalmente acompanhava Brian Kinney (um sonserino que por algum motivo desconhecido ajudava Colin vez ou outra – Harry não conseguia acreditar quando soube!) e a outra era uma bela morena, a mesma pela qual muitos garotos suspiravam, mas com a qual nunca falavam. Harry não sabia seu nome (achava que era Al-alguma-coisa Rosier) da mesma forma como não sabia o nome do menino mais novo (devia ter uns 13 anos) que vinha junto delas, um rapaz com cabelo cor de palha, franzino e um pouco mal-humorado. Mas talvez isso se devesse ao fato da loira (Peterson, ele lembrou!) estar com os braços em volta de seus ombros. Eles chegaram e cumprimentaram todos, Peterson com visível entusiasmo. Todos conversavam, mas Harry não saberia dizer sobre o que falaram. Depois da chegada dos colegas, seus olhos não deixaram o prato enquanto sua mente se ocupava diante da possibilidade de ver Malfoy e o que faria quando o loiro cruzasse a porta. Mas este não veio, assim como um certo japonês também resolveu não aparecer. Os dois únicos que não tomaram café.

E Harry preferiria passar uma tarde junto de Snape a admitir que isso o deixara irritado.

Entretanto, Gina percebeu e preferindo fingir que nada notou, deixou a manhã transcorrer normalmente até o delicioso aroma do almoço atrai-los novamente ao Salão Principal. Eles desciam as escadas junto de um Neville empolgado que contava que a tarde ajudaria a professora Sprout a cuidar de umas tais Begônias, pois o frio estava muito intenso para elas. Ele estava tão concentrado falando que não percebeu que os risinhos dos amigos vinham das caretas que Rony fazia ao imitar alguém com frio, mas ele sempre parava quando Neville olhava para trás, o que fazia com que um silêncio caísse sobre eles, enquanto Harry e Gina tentavam conter risadas. Foi num desses silêncios que eles ouviram as vozes de duas pessoas conversando, bem embaixo da escada onde estavam.

– Não entendo meus pais, realmente não entendo. Por que cometer o mesmo erro 15 anos depois? Isso é burrice! – reclamou uma garota, que Harry percebeu ser Peterson, a famosa sonserina que, mesmo usando o uniforme da Casa Verde, era constantemente vista com alunos da Corvinal – Já disse para eles que não volto para casa até que eles me aceitem como sou. Nem que eu tenha que fugir e viver num bairro trouxa!

– Então é melhor começar a estudar Estudos dos Trouxas – disse a sonserina morena que Harry não conseguia lembrar o nome de jeito nenhum – Vai por mim, daqui há 20 anos seus pais serão os mesmos. Eles são muito cabeça dura. Não entendo porque você e Brian não começam a sair! Isso facilitaria muito as coisas para os dois – ponderou a outra – Vocês são melhores amigos e ele é gente boa! Só gosta da fama de ruim e insensível, mas sempre ajuda os outros quando pensa que não estamos vendo.

– Não vou... – ela começou a responder, mas sua frase foi interrompida quando percebeu a presença do quarteto grifinório. A morena os olhou feio, mas Peterson disse um educado "Feliz Natal" e afastou-se sem olhar para trás.

– Adoro os Natais daqui, mas seria tão melhor se não houvesse nenhum sonserino no caminho – reclamou Gina, assim que os quatro se viram sozinhos novamente, recebendo um sinal de concordância por parte de Rony. Harry também ia concordar, mas foi surpreendido pelas palavras de Neville.

– Também não gosto muito deles, mas com toda essa guerra lá fora, imaginei que mais deles fossem ficar aqui – disse o rapaz, de cabeça baixa – Claro que todos estamos sofrendo com os sumiços e perseguições, mas eles ainda são perseguidos pelos próprios colegas, né? O Kinney, por exemplo, soube que nem volta mais para casa. Minha avó contou que agora ele vive na casa dos Novotny, que são quase todos mestiços e Lufa-Lufa. Ela foi lá esta semana e ele estava lá. Brincando na rua com garotos trouxas! Enquanto a irmã dele é Comensal. Deve ser bem difícil essa situação. Sem falar do Newton, a família inteira apareceu morta mês passado! É muito tenso isso. Nós estamos sofrendo a maior pressão também, mas pelo menos não dividimos quarto com os assassinos de nossas famílias.

– Você anda bem por dentro do que está acontecendo – mencionou Gina. E era verdade, desde o ano anterior Neville estava mais do que decidido a lutar nessa guerra e vinha colhendo muitas informações. Mas era Natal e eles não queriam falar na guerra. Era Natal e a perda de Sirius se fazia ainda mais presente e Harry queria apenas esquecer de tudo. Só que não conseguia. As palavras do colega, somadas as da sonserina loira não saiam de sua cabeça. Harry nunca antes tinha parado para pensar na situação das famílias dos Comensais, muito menos na daqueles que haviam efetivamente mudado de lado. Nunca antes tinha parado para pensar que havia aqueles que não desejavam seguir Voldemort mais uma vez, mas o faziam por temerem ameaças, nem na situação que os filhos destes viviam nas Masmorras. Muitos ali eram aprendizes de Comensais, mas e aqueles que não eram?

Harry nunca tinha parado para pensar no "outro lado" ou nas pessoas envolvidas com ele.

Isso não era certo era?

Ele sabia o quanto doía perder alguém, ele sabia até bem demais o que a guerra causava. Ele sentira a rejeição. No ano anterior, quando brigara com seus colegas de quarto, sentiu-se mal e sozinho. Sentiu-se injustiçado. Era tanta coisa acontecendo e ele era só um adolescente! Ele deveria ter outros problemas com os quais se preocupar, ele não deveria ficar se preocupando com guerras e mortes e profecias.

Pensou em seus pais, em Sirius, em Lupin. Na dor que deveria ter sido para o ex-professor descobrir que ele havia sido tido como o espião, na dor em perder todos aqueles que amava ao mesmo tempo. Eram amigos que a guerra separara. Harry pensava muito nisso, mas nunca pensava que a mesma situação poderia acontecer com os membros da casa de Slyterim. Para Harry, eles sempre seriam Comensais. Sempre. Mesmo que Andromeda Tonks tenha sido uma sonserina, mesmo que Peterson e Kinney fossem sonserinos.

Então por um momento pensou no que eles deveriam sentir. Mesmo que não fossem projetos de Comensais eram vistos como tais. Harry odiaria estar no lugar deles. E mesmo que sua mente quisesse dizer "eles mereceram, pois são sonserinos", Harry se lembrava que ele mesmo quase fora um. Mas ele escolhera não ser, não poderiam eles terem feito o mesmo?

Estava tão absorto em seus pensamentos que mais uma vez perdeu o rumo da conversa de seus amigos, só percebendo que estava no Salão Principal quando seus olhos foram imediatamente capturados pelos olhos cinza de Malfoy e, como vinha acontecendo nos últimos dias, foi impossível não sentir raiva ao mirar as íris cor de tempestade. Foram segundos bastante tensos nos quais Harry não sabia se saia ou se azarava o loiro, mas antes que ele decidisse um Kakinouchi muito animado saldou-os com um alegre "Feliz Natal", acompanhado de Dumbledore que, como o oriental, também usava um gorro vermelho de Papai Noel e ostentava um enorme sorriso no rosto.

Logo mais os alunos restantes chegaram e o almoço teve início, e teria sido bom ver Filch meio bêbado, Hagrid e Kakinouchi cantando músicas natalinas em um tom desafinado, a professora Trelawney tentando fazer previsões diante de um Snape e uma McGonnagal insatisfeitos. Teria sido realmente bom se não fossem os olhos tempestade de Malfoy, se não fossem os sorrisos que este trocava com o japonês a seu lado, se não fossem os dedos entrelaçados das mãos de ambos. Kakinouchi conversava com todos e ria, Malfoy não participava do assunto, mas sorria discretamente para o amigo e visivelmente desviava os olhos do moreno.

Tão incomodado estava, que Harry demorou para notar três coisa: Malfoy não estava olhando para ele, não estava comendo e tinha olheiras, que na pele clara ficavam muito mais evidentes.

Isso não era bom sinal. Se tudo isso significasse que Malfoy estava mal ou com algum problema, sua síndrome de herói iria atacar e ele ia ficar preocupado! Como já estava ao notar que a sua volta, metade dos alunos tinha sua família marcada ou desaparecida ou os dois. Nas emoções escondidas por trás dos sorrisos, expressões abatidas. Mas ele não podia pensar nisso! Porque ele não podia deixar que sua raiva por Malfoy se transformasse em pena. Ele não podia permitir que Malfoy despertasse nele outra coisa além de ira!

E enquanto tentava acreditar que tudo não passava de uma encenação por parte do loiro Harry não pode deixar de pensar, pela primeira vez, que talvez aquela guerra toda não afetasse profundamente só o "lado do bem".

SL&SL&SL&SL&SL&SL

Fitou a neve que batia com força na janela. Nunca vira um fim de ano mais frio! Os jornais falavam do natal mais frio dos últimos anos, e dessa vez eles pareciam ter mesmo razão! Era como o calor escaldante de todos os dias de sua infância. Todo dia era o dia mais quente do ano, mas quando efetivamente era o dia mais quente todo mundo sabia. E eles nem precisavam de termômetros para saber que a temperatura ultrapassara os 45ºC. Agora Chikage também não precisava de um para saber que a tempestade de neve que parecia ter estacionado sobre suas cabeças deixava-os com uma sensação térmica que beirava o congelamento!

Acertou o cachecol mais uma vez, por puro reflexo, estava desacostumado ao frio. Haviam sido poucos os invernos congelantes que vivera e mais raros ainda aqueles dos quais se lembrava. Na verdade, possuía apenas uma lembrança dele brincando na neve quando criança, mesmo tendo nascido numa região fria como o norte japonês, cuja temperatura média de janeiro era de -8,5ºC. Depois que saíra de lá quantas vezes vislumbrara a paisagem branca?

Uma vantagem, já que era naturalmente sensível ao frio. Ele também gostava da cor branca. Gostava do contraste das terras congeladas em relação a terra na qual crescera, terra seca cujos invernos eram altamente quentes. Diferente da terra sem estação alguma na qual atualmente vivia.

- Se continuar assim, quero ver como todos vão voltar – Chikage pensou alto. Com uma tempestade daquelas, seria impossível que os alunos voltassem ao Castelo. Pelo menos pelo caminho tradicional. Haveria chance das aulas serem adiadas? Faltavam dois dias para o fim das férias de inverno – Que pena... ter o dormitório só para mim é tão legal. Brianc e Nott definitivamente não vão com a minha cara.

E não iam mesmo! Já perdera a conta de quantas pequenas travessuras tinham tentado aprontar com ele sem nenhum sucesso. Nott e Crabbe, na verdade, Brianc parecia ter optado por ignorá-lo nas últimas semanas. Isso deveria incomodá-lo da mesma forma que as brincadeiras deveriam chateá-lo, mas não. Até porque perto do que Kiddzu ou mesmo Wruakj aprontavam com ele, Nott e qualquer outro eram tão insignificantes. Suas travessuras tão infantis!

Afastou-se da janela, retomando sua caminhada ruma a Enfermaria. Não devia ter passado também o Ano Novo no cemitério. Tantas horas sob a neve e ele conseguira a tradicional gripe de início do ano. A diferença era que esse ano não havia Erick para lhe esperar com chá quente e poções revigorantes. E a febre o pegara legal.

Caminhava distraído, tão alheio a tudo que só percebeu que passara reto pela Enfermaria ao deparar-se com Pirraça bem a sua frente, empenhado em assustar os desavisados com sua nova e irritante música de fim de ano. Com ele não foi diferente.

No entanto, assim que o poltergaist viu o japonês, seus olhos inflaram até ficarem redondos demais, as palavras mortas antes mesmo de serem pronunciadas.

– Hellow, Pirraça. Feliz Ano Novo! – Chikage disse com um aceno simpático, mas o poltergeist o olhou como se este fosse mais um dos animais de Hagrid: algo potencialmente perigoso, mas ao qual o meio-gigante teimava em chamar de "muito mau compreendido".

– Feliz Ano Novo, Kakinou – Pirraça enfim se decidiu por dizer, tirando o chapéu e fazendo uma mesura exagerada.

– Divertindo-se? – perguntou o sonserino, o sorriso de sempre parecendo incomodar o poltergeist. Pirraça flutuou um pouco para trás, antes de responder:

– Apenas passeando por aí, até mais ver, Kakinou – e desapareceu depressa por trás da parede mais próxima. Chikage riu achando graça do receio do fantasma. De todos, Pirraça era o último que ele esperava que o evitasse. Sorte que ninguém tinha percebido isso ainda, pois o poltergeist fazia questão de evitar ao máximo cruzar seus caminhos com o do japonês. Uma pena, Chikage o achava realmente engraçado, com um humor meio sádico, mas para quem estava acostumado com Maxxcy, Pirraça não passava de uma inocente criança travessa. E talvez fosse isso mesmo.

A ideia veio do nada, mas de repente ele achou que seria engraçado dar um susto no poltergeist. Não seria nada diferente do que ele próprio fazia! O que Pirraça pensaria se o encontrasse de novo? Um susto pequeno, apenas um "oi", nada mais. Algo totalmente indolor. E não era como se o fantasma pudesse morrer de um ataque cardíaco! Forçou a memória buscando o que havia atrás da parede pelo qual ele sumira, se era outro corredor ou uma sala e que outro corredor a cruzaria e correu para lá. Seria divertido.

Criança. Ele também era uma criança. Uma criança sem infância que também adorava travessuras.

Mas Pirraça não estava no corredor.

– Que droga! – exclamou divertido, achando graça de si mesmo. 16 anos completos, o mundo se acabando e ele brincando de pega-pega com um fantasma...

– AAHHH! – Chikage se assustou, virando a cabeça para trás ao ouvir o grito de susto de outro colega. Pelo visto, Pirraça encontrara outro aluno para infernizar. Iniciou uma meia volta, mas antes que desse um passo a frente sentiu um impacto forte que o jogou no chão.

– Trevo! – ele ainda ouviu alguém gritar antes de abrir os olhos e encarar o alto rapaz de olhos castanhos esverdeados caído a sua frente. Por isso sentira ser atropelado, o outro era pelo menos uma cabeça mais alto que ele!

– Tudo bem? – perguntou, levantando-se agilmente do chão frio, num movimento quase dançado de tão suave, estendendo a mão em seguida para o outro para que ele também pudesse se erguer – Ei, tudo bem? – voltou a questionar ao não ouvir resposta alguma. O menino continuava com os olhos arregalados fitando fixamente algo a sua frente. Virou o rosto para trás, mas nada viu além de um corredor cheio de salas, a maioria fechada – Ei, o que houve? Olá?

– Neville! – ao ouvir o chamado Chikage ergueu a cabeça, mas manteve na mesma posição, uma mão meio estendida, a outra apoiada no joelho. Atrás do rapaz caído, dois outros chegavam – Neville, tudo bem?

– Não, Trevo escapou – choramingou o rapaz ainda no chão e os olhos verdes de Chikage cruzaram com os verdes de Harry.

– Quem é Trevo? – perguntou ao ruivo recém-chegado enquanto a mão estendida finalmente era aceita pelo colega no chão. Longbotton era realmente pesado, pensou enquanto o ajudava a levantar.

– O sapo dele – Rony respondeu, meio ofegante – Pirraça nos assustou e ele fugiu.

– Fugiu? – isso era raro, dificilmente animais de estimação bruxos fugiam, pois costumavam ser muito mais inteligentes do que os domesticados por trouxas.

- Ele vive fugindo! – lamentou-se o grifinório, finalmente de pé – Vou levar um século para achá-lo depois.

– Ele deve estar em uma dessas salas – Chikage respondeu, sentindo uma pequena pontada de culpa. Ele que desviara o poltergeist de seu caminho – A maioria está fechada, então não deve ser tão difícil encontrá-lo.

– Mas não posso passar a tarde procurando-o – lamentou-se o moreno – Prometi a professora Sprout que estaria na Estufa 4 daqui a pouco! Com esta neve toda, as Begônias morrem se não forem bem agasalhadas.

Chikage não se lembrava bem o que eram Begônias (alguma coisa com flores, talvez... ou quem sabe algo com dentes. Como a Mimosa de Draco), mas um simples olhar para fora justificaria a necessidade de qualquer planta de ser agasalhada, assim como a certeza que num castelo de pedra a umidade formava muitos lugares úmidos extremamente agradáveis a um sapo. Outro rápido olhar pelo corredor e ele teve certeza que levaria muito tempo para o grifinório encontrar seu sapo sozinho.

E nem Potter, nem Weasley pareciam dispostos a se oferecer para procurar o animal com ele.

– É um sapo comum, não? – perguntou Chikage, recebendo um aceno de cabeça – Então eu ajudo você a procurá-lo. Se começarmos já, pode ser que o encontremos antes de você precisar correr para a estufa.

– Por que você faria isso? – Harry perguntou, intrigado, antes que Neville tivesse chance de responder.

– Por que não faço a menor ideia de para que as Begônias servem e prefiro que ele vá ajudar a professora a eu topar com ela no meio do caminho e ser arrastado no seu lugar – explicou o sonserino com um sorriso, acrescentando – Também não tenho nada para fazer no momento. Estava só andando sem rumo mesmo. Não me custa nada procurar... qual o nome do sapo?

– Trevo. Você faria isso mesmo? – Neville perguntou esperançoso. Já havia conversado vez ou outro com o japonês e uma vez ele até lhe ajudara, lhe devolvendo as lições que tinha perdido. Neville gostava de Chikage e tal oferta apenas o fez admirar mais ainda o colega.

– Sem problemas!

– Mas e se vocês demorarem para achá-lo? – perguntou Rony.

– Hum... Eu continuo procurando e fico com ele até poder entregá-lo a você – Chikage respondeu, sorrindo largamente – Viu, fácil!

– Muito obrigado! – Neville agradeceu. Quantas pessoas se ofereciam para procurar Trevo? E nem amigos eles eram! – Nem sei nem como agradecer...

– Não liga para isso...

– Acho que seria mais fácil Rony e eu o procurarmos com você. Nós conhecemos Trevo – ofereceu Harry, num impulso, ignorando a cara de Rony.

Os três haviam se encontrando na escadaria, por acaso, pouco antes de Pirraça aparecer do nada cantando aquela música idiota. E ele realmente chegara a pensar em se oferecer para procurar Trevo, de verdade. Ele apenas não gostava nem um pouco da ideia de Neville dever favores a um sonserino! Apenas isso.

Se bem que não havia sido uma proposta inteligente. Não mesmo. Porque agora lá estavam os quatro vasculhando cada sala atrás de um sapo fujão enquanto ele poderia estar bem distante do sonserino irritante.

Mas a oferta foi aceita e agora tudo o que ele podia fazer era fingir ignorar o olhar acusador de Rony quando este foi literalmente cuspido para fora de um armário de vassouras junto com tudo o que havia dentro dele. E as risadas roucas do oriental que se curvava de rir de um Rony atirado no chão com um balde velho na cabeça. Pelo visto o armário não gostara nada de ter a cabeça de Rony lá dentro.

Engolindo as risadas diante do olhar assassino do ruivo, Harry disfarçou e tentou procurar Trevo embaixo de outro armário, que deu um solavanco e foi a vez de Harry quase cair no chão.

– O que é isso? – perguntou Neville, ao ver o armário continuar a tremer.

– Bom, pelo menos ele não te jogou longe! – respondeu Rony, ainda mal humorado e com os cabelos sujos de poeira. Nas mãos o balde que ele tirara da cabeça.

– Ah, você teve sorte – disse Chikage, dando um tapinha suave nas costas do ruivo – Ele poderia conter mais dentro dele do que apenas meia dúzia de baldes e vassouras.

– Ok, da próxima vez você abre os armários.

– Certo, combinado – respondeu o sonserino com um sorriso, enquanto juntava as vassouras do chão, abria cuidadosamente a porta do armário e as jogava lá dentro sem o menor cuidado, fechando a porta rapidamente – Esse Trevo, é sempre tão bom assim em se esconder?

– Sim, sempre. Ele adora fazer isso. Deve achar engraçado – Nevile respondeu olhando embaixo de uma carteira.

– Sabe, no próximo Natal, lhe darei uma coleira com identificação!

– Séria uma boa ideia – respondeu Rony, recolhendo o último balde expelido do armário – Isso com certeza nos pouparia muito tempo no futuro.

– Qual sua cor favorita, Neville? Para a coleira! Só não diga vermelho porque aí todos vão achar que ele é ela e vai que ele acaba complexado! Pobrezinho dele, nessa idade sendo confundido – Chikage brincou e os três riram, deixando muito óbvia a interação deles, o que chocava Harry.

Kakinouchi era um sonserino, por Merlim! Cadê o Rony que sempre falava sobre "confraternizar com o inimigo"? Cadê o Neville que temia os colegas maldosos da casa? E onde estava esse sapo? E porque o armário baixo não parava de tremer? – Hum... será que ele está aqui dentro? – Harry perguntou, apontando para o armário.

– Isso não me parece obra de um sapo – disse Rony, pensativo.

– É, melhor deixar isso para lá. Vamos procurar em outra sala? – Neville respondeu, mas Harry continuou olhando o armário com atenção. Encostou nele novamente e outro tremor aconteceu.

– Não sei. Definitivamente tem algo aqui dentro.

– E definitivamente não é um sapo.

– Acha que devemos abrir? – perguntou o ruivo com uma careta. Abrir armários já tinha se mostrado bastante desvantajoso para ele...

– Provavelmente é apenas um bicho-papão – Chikage respondeu com simplicidade, guardando os baldes que Rony lhe passava e fechando o armário cuspidor com força pela última vez – Melhor deixar ele aí e procurarmos em outro lugar.

– Concordo com Kainou – respondeu Neville no exato momento no qual o armário tremeu mais uma vez.

Harry olhou para o armário outra vez. Realmente, tinha todo a lógica em ser apenas um bicho-papão, mesmo que no mundo da magia muitas coisas fossem completamente ilógicas. Suspirou, concordando, mas outro sacolejar do armário atiçou sua curiosidade – Seja lá o que for, parece querer sair.

– Outro motivo para deixarmos esse armário aí – respondeu Chikage, passando a mão pelos cabelos arrepiados – Vamos, já olhamos cada canto dessa sala.

– Também acho melhor – Rony disse, mas ao passar por Harry seus olhos foram atraídos pelo armário outra vez. Sua mãe dizia que nunca era uma boa ideia deixar armários barulhentos em casa, mas ao mesmo tempo, abrir um sem certeza não era algo muito aconselhável – Vamos, Harry?

– E se Trevo estiver aqui dentro?

A pergunta deixou todos calados. Nenhum animal que se presasse entraria num armário já habitado, ao mesmo tempo que Trevo definitivamente não era um sapo normal e não batia muito bem das ideias.

– Será que devemos? – Neville perguntou, preocupado.

– Sim, afinal, um bicho-papão não é algo com o qual não saibamos lidar.

– Não seria melhor ter certeza? – Rony questionou. Os três estavam tão concentrados no armário que só perceberam que Chikage mantinha-se afastado quando ele disse:

– Duvido muito que Trevo esteja aí, acho melhor procurarmos em outro lugar.

– Quem não te conhece diria que você tem medo de bicho-papão, Kakichi – Harry disse provocador, ao ver a distancia que o outro tomava do armário, mas a resposta seguinte o surpreendeu.

– Eu disse que "provavelmente" era um, mas pode muito bem não ser. E acho que já passamos da idade de sairmos explorando e nos metendo em confusão por causa de um armário com chilique. Seria melhor, voltarmos a procurar Trevo e não darmos uma de detetives. Só isso.

– Nisso ele tem razão – Neville disse, já afastando-se, mas Rony, ainda com uma careta, voltou a perguntar:

– Acha que devemos abrir? Você está acostumado com bichos-papão, não, Harry?

– Não sei não... uma das primeiras coisas que se deve aprender sobre o mundo da magia é que "nada precisa ser o que parece". Acho melhor deixar esse armário aí –Chikage respondeu, recuando um passo para trás. E, ou Harry estava muito enganado, ou o japonês estava com medo? Com medo de algo tão simples? – Vamos embora?

– Vamos – concordou Neville, e Rony já ia em sua direção quando Harry disse:

– Bem, você tem razão, no entanto, todos concordamos que é quase certeza de que é apenas um bicho-papão. Não vejo mal, todos nós sabemos lançar um Riddikulus, não?

Ok, não era imaginação sua, Kakinouchi estava claramente desconfortável!

– Pode ser. Mas o "quase" não convence muito – retrucou o japonês.

– Ora vamos, não tem risco! No meu 3º ano, passei muito tempo com um bicho-papão, para aprender a conjurar o Patrono. É tranquilo, desde que saibamos que forma ele vai assumir – Harry respondeu tranquilamente, sua expressão em nada transparecendo o quanto estava saboreando a sensação de ver o sonserino oriental visivelmente inquieto. Inquieto por algo que em nada o incomodava. Isso lhe deu uma sensação de superioridade em relação a ele, por mais idiota que fosse e por mais que ele fosse se envergonhar dela mais tarde.

– Continuo não achando boa ideia – contrapôs o japonês, olhando para os lados, como se analisasse o lugar caso precisasse evadir-se da sala rapidamente – Ei, você aprendeu a conjurar Patronos com um bicho-papão? E funciona? Achei que apenas o Riddikulus os afetasse!

– Bichos-papões tomam a forma que você teme e no processo ficam vulneráveis aos mesmos contra-ataques – Harry explicou.

– Bom, não deixa de ser mais seguro – comentou Chikage com um dar de ombros e um passo para trás. Harry percebeu que nesses poucos minutos ele tinha se afastado uns bons cinco passos.

– Então... – o moreno continuou, aproximando novamente do armário que tremeu mais violentamente. Diante disso, Kakinouchi deu mais um passo para trás – E se Trevo estiver aqui atrás? O melhor seria abrir o armário antes de empurrá-lo.

– Ainda... não acho uma boa ideia – disse Chikage sem conseguir esconder o receio em sua voz. Ele estava com medo, isso era óbvio – Quer dizer, é um sapo! Eles devem ter algum senso de autopreservação! Às vezes já até voltou sozinho.

– Ele nunca volta – Neville lembrou – Mas também não acho que ele se enfiaria aí.

– Pelo menos, já que estamos em quatro, seria fácil enfrentar o quer que esteja aí dentro – Rony disse, como se pensasse em voz alta.

– Eu continuo discordando. Afinal, nem temos certeza do que tem aí dentro e eu não acho uma boa ideia descobrirmos. E, sinceramente, acho que estamos perdendo tempo aqui. Então, se vocês vão ficar aqui, discutindo o abre-não-abre eu vou procurar o sapo em outra sala sapo – opôs-se o japonês, segurando firmemente a alça da mochila (porque ele estava com uma mochila em plenas férias?) e dando mais um passo para longe, dessa vez, rumo a porta.

– Quem vê, até acredita que está com medo, Kakiou – Harry provocou.

– Bem, eu estou com medo. Na verdade, eu detesto bichos-papão. Se tem uma coisa que eu não enfrento é esse serzinho malandro. E se vocês vão mesmo abrir este armário eu vou fazer o caminho contrário e dar o fora daqui agora mesmo.

– Você tem medo de bicho-papão? – perguntaram Neville e Rony ao mesmo tempo, surpresos – Ah, cara, tudo bem que eles assustam, mas do jeito que você tem imaginação, deveria lidar super fácil com eles!

– Mas não lido, não! Prefiro enfrentar dementadores, dragões, gigantes, lobisomens, acromântulas, ou qualquer outra coisa. Não bichos-papão. E não quero estar aqui quando esse armário for aberto. Não mesmo. Portanto, bye bye, sayonara, tchau pra quem fica, eu estou vazando.

– Ora, sabemos que ele não é das criaturas mais meigas e fáceis do mundo, mas está longe de ser perigosa. Principalmente levando em conta que seu poder é assustar apenas, algo que surte muito efeito se ele nos pegar de surpresa, mas uma vez que saibamos que se trata de um... Crianças tem medo dele! – disse Harry de forma quase arrogante – Por que não fica e treina? Se estivermos em quatro, ele fica confuso e fica muito mais fácil lidar com ele.

– Não, obrigado. Eu quero estar bem longe quando ele escapulir daí e... o sapo! – disse Chikage de repente, a varinha em punho (mas ela estava no bolso de sua calça, não?) e um accio perfeito atingiu Trevo e o trouxe as mãos do japonês – Aqui! Peguei – disse o oriental sorrindo, o sapo bem firme entre suas mãos – Maravilha! Ops, ele é fujão, não? – brincou, quando viu o sapo tentando escapar de suas mãos.

– Eu pego – disse um Neville sorridente, já pegando Trevo de volta, mas passando-o a Rony quando este o lembrou que ele não voltaria ao dormitório. Chikage ficou surpreso com a habilidade de Rony de segurar o sapo fujão, mas pensou que, ao dividir dormitório com Neville por cinco anos e meio, ele já deveria estar mais que acostumados a localizar e prender Trevo – Obrigado, Kainou. Trevo adoro fugir e eu sempre fico preocupado.

– Um bichinho rápido esse! Brianc, meu colega de quarto, tem um também, mas o dele só fica parado o dia inteiro com cara de tédio – disse Chikage, deixando os ombros caírem numa perfeita imitação! – Vamos voltar antes que o percamos de novo? – perguntou com um sorriso maior que o de costume. Rony assentiu e os três caminharam em direção a porta, sem perceber o ar de decepção de Harry.

Não que o moreno não soubesse que não era certo querer forçar o sonserino a ficar frente a frente com algo que ele temia, mas depois de tanta reticencia, ficava difícil não sentir vontade de saber qual a forma que o bicho-papão adquiriria para ele temê-lo tanto. Afinal, Kakinouchi ainda tinha um ar bastante superior em volta de si e mesmo que Harry o achasse um idiota, e o odiasse quase tanto quanto Malfoy, e definitivamente não queria saber nada sobre ele, sua reação fora no mínimo curiosa. Harry não queria machucá-lo, apenas...

Um barulho mais alto interrompeu seus pensamentos e o fez olhar para trás. Rony, que já estava com a mão na maçaneta da porta, também parou também diante do barulho, assim como Neville, mas Chikage, que por algum motivo havia ficado uns 10 passos atrás, ficou imóvel e pálido como um fantasma.

Um segundo estampido se seguiu e então aconteceu.

Chikage não estava mais com a varinha nas mãos e mexia distraído dentro da mochila, que devia estar sob o mesmo feitiço que a de Hermione, já que o braço dele estava praticamente lá dentro. Se amaldiçoando por ter baixado a guarda e ainda completamente paralisado, ele ouviu o segundo golpe que forçou definitivamente a porta do velho armário que não aguentou e abriu.

Sim, eles estavam certos, era um simples bicho-papão, um ser relativamente fácil de derrotar, mas que podia ser altamente traiçoeiro se a pessoa fosse pega de surpresa. Chikage não fora pego de surpresa, mas parecia ter perdido a capacidade de se mover.

Mesmo encoberto por tanto cabelo Harry pode ver os olhos verdes arregalados e o medo, medo puro e instintivo, retratados nas íris verdes. E atrás do oriental um rapaz estava parado

Antes mesmo de olhar para trás Chikage parecia já saber exatamente o que o aguardava.

Seu medo, tão perceptível a qualquer um, parecia ter paralisado os outros colegas também. Nem Harry, nem Rony, nem Neville, conseguiram se mexer nos segundos que se passaram, arrastados como se estivessem em câmera lenta. Um silêncio pesado instaurado em todo o cômodo.

Talvez por isso o som de um passo sendo dado sobressaltou os três e agora o bicho-papão estava um passo mais próximo.

Tal percepção pareceu enfim despertar o sonserino que virou o rosto, seus olhos sendo atraídos lentamente pelos olhos azuis do adolescente atrás de si.

Muito lentamente ele olhou para trás.

O silêncio da sala quebrado quando Chikage gritou.

Não foi um grito apenas, não foi um grito de susto, não foi um grito de medo, foi algo muito mais profundo. O som parecia sair de dentro da alma do garoto e ele deu diversos passos para trás, encostando-se na parede e escorregando para o chão, a mochila aberta caída onde ele anteriormente estava, espalhando no chão livros e pergaminhos, além de diversos fracos e objetos estranhos. Contudo, ninguém reparou nisso. Agora sentado no chão, Chikage parecia estar tendo um ataque, a cabeça abaixada, as mão enluvadas enroscando-se nos cabelos castanhos, a voz sumindo enquanto ele gritava a palavra "iee" sem parar.

E mesmo ele tendo dito que tinha medo aquilo não era medo, era pânico! Sem saber como reagir, tomados pela surpresa e pelo choque os grifinórios continuaram imóveis. E isso não era a coisa mais solidária a se fazer.

Mas eles continuavam tão imóveis quanto o adolescente que encarava o assustado sonserino no chão.

Era um rapaz alto, não tanto como Rony, mas alto o bastante para a pouca idade que devia ter. Parecia mais velho que Chikage, mas mais novo que os gêmeos Weasley. Tinha a pele morena, queimada pelo sol, o cabelo liso, mas rebelde, preso por um rabo de cavalo baixo, os fios negros mal passando os ombros. Suas roupas eram simples e trouxas, roupas de verão, seus olhos eram de um azul escuro profundo e miravam o japonês com enorme desprezo.

E Chikage continuava a se encolher, tremer e gritar.

Então o rapaz mexeu os lábios, sem produzir som algum, mas seus lábios formavam perfeitamente uma palavra conhecida, entretanto nunca ouvida por ninguém em Hogwarts.

Harry podia jurar, sem saber como, que ele tentara dizer "Chi-chan".

Quando a mão direita dele se ergueu no ar, como se ele a oferecesse ao jovem no chão, este encolheu-se ainda mais, como se quisesse fundir-se a parede. Ele parecia estar convidando-o a algo. Mas para o moreno parecia que ele o estava perdoando também.

E então sua pele começou a derreter, sem que sua expressão mudasse. Mesmo sem olhar diretamente para o homem os tremores de Chikage pareceram piorar e ele apertou os cabelos com mais força, escondendo o rosto nos joelhos, soluçando desesperadamente.

Foi nesse momento que Harry conseguiu voltar a pensar e deu um passo adiante. Um, dois, três. Harry correu para a frente do homem, a varinha em punho, o feitiço na ponta da língua.

Não importava que ele não fizesse a menor ideia de como tornar um dementador ou Voldemort engraçado, Harry apenas avançara, sem pensar em nada além da necessidade de afastar o bicho-papão de Chikage.

Um poof foi ouvido e o rapaz moreno deu lugar a um dementador, isso lhe causou um calafrio, mas não o desmotivou de seu proposito, o que o paralisou foi outra coisa. Quando o dementador apareceu, Harry cometeu a besteira de olhar rapidamente o colega, preocupado, isso era algo que não deveria ter durado mais do que um segundo, mas o deixou completamente sem rumo por segundos longos demais.

Péssimo erro. O feitiço, a segundos de ser lançado, não escapou de seus lábios e mais uma vez o moreno se viu paralisado, dessa vez diante do único olho verde do sonserino que o encarava, aparecendo através do monte de cabelo espalhado. A sua volta o silêncio reinava novamente já que Chikage havia parado de gritar.

Mesmo que seus gritos ainda ecoassem nos ouvidos dos três grifinórios.

Apesar disso, havia um dementador na sala e não era inteligente ficar imóvel. Num rompente, ao sentir o frio característico da aproximação da criatura negra, Harry se virou, a mente buscando a lembrança que faria seu patrono aparecer, as palavras se formando em seus lábios...

VENON! VENON! VENON! VENON! – Harry ouviu, as suas costas, Chikage gritar. E ele gritava sem parar, alto, o corpo tremendo, as mãos ainda agarrando firmemente a cabeça, o rosto escondido pelos cabelos rebeldes, os olhos verdes novamente fechados.

Harry não conhecia aquele feitiço (e, sem entender porque, duvidou que alguém ali conhecesse), mas não era preciso saber que apenas um teria sido muito mais que suficiente para acabar com o bicho-papão a sua frente. Já no primeiro feitiço o dementador explodiu e sucessivamente o mesmo ocorreu por mais três vezes.

Quando Chikage parou de gritar, tudo o quer havia na sala, além dos quatro estudantes, era uma imensa sombra preta que se espalhava pelo chão e dava tantos arrepios quanto a presença encapuzada do ser que ali se encontrava segundos antes.

Estavam imóveis mais uma vez, imersos num silêncio pesado e arrepiante, quebrado apenas pelo som da respiração descompassada do sonserino.

Por quanto tempo ficaram ali? Não sabia. Depois de um suspiro pesado Chikage se levantou, a postura meio curvada, o rosto ainda oculto pelos cabelos, agora mais bagunçados do que Harry jamais vira, apenas um único olho verde visível, o rosto molhado, mas os olhos agora secos. Vermelhos, vazios, perdidos e secos. E nada neles era transmitido.

E ao olhar para ele, Harry sentiu um arrepio que percorreu suas costas de cima a baixo.

Ele sabia que Chikage era forte, sabia que ele era... no mínimo diferente, mas foi ali, naquele momento, que Harry percebeu pela primeira vez o quanto, realmente, o japonês era perigoso.

Muito perigoso.

E Harry sentiu medo, um medo puro e verdadeiro que paralisou seu corpo por todo o tempo no qual Chikage levou para andar até sua mochila e pegá-la, recolhendo as coisas perdidas, mas parando no meio da tarefa, caindo novamente no chão sem forças.

Percebeu que, ainda que levemente, Chikage continuava a tremer.

Não era como se alguém se atrevesse a romper o silêncio instalado.

Minutos, tudo ocorrera em questão de minutos, minutos que passaram tão rápido como um filme acelerado ao mesmo tempo que deixava uma sensação de tensão típica de momentos longos e difíceis, intensificada pelo silêncio que reinava entre eles.

– Você está bem, Kakichi? – perguntou Rony assim que sentiu sua voz retornar, suas pernas, no entanto, não conseguindo dar os poucos passos que o separavam do colega no chão.

Ao ouvir a voz do ruivo, Chikage levantou a cabeça, que estava outra vez escondida entre os joelhos, contudo, diferente do que os grifinórios esperavam o sonserino não parecia estar chorando novamente. Não naquele momento.

– Estou. Estou bem – ele respondeu, a voz completamente rouca, o rosto sem expressão. Era a primeira vez que o moreno o via sem o enorme sorriso permanente e ele nunca teria imaginado o quanto a falta da alegria exagerado do outro o descaracterizava. Ali, sentado e visivelmente perturbado, Chikage simplesmente não parecia o mesmo aluno que o incomodava desde sua união a Malfoy.

Ele era baixo como uma menina, e parecia ainda menor naquela posição.

– Acho... que é melhor voltarmos... Está ficando tarde – Disse Harry, inseguro, pela simples necessidade de dizer algo, mesmo sem saber o que. A verdade é que ele estava assustado. Assustado e com medo. No chão, ocupando um grande espaço da sala, uma sombra disforme ainda podia ser vista e era impossível impedir o calafrio que subia novamente por sua espinha ao olhá-la e lembrar de como aquele simples bicho-papão fora completamente destruído. Não conseguia não pensar em qual seria o real alcance daquele feitiço, mas sentia que ele seria mais que suficiente para dar conta de algo muito maior e mais forte.

Sentiu o corpo tremer novamente ao lembrar do brilho nos olhos verdes. Medo. Era por isso que ele não conseguia se aproximar ou se mexer, ele ainda estava com medo.

– É... acho que sim – respondeu Chikage, erguendo-se e jogando a mochila meio aberta no ombro direito com movimentos lentos e pesados. Ele ainda estava visivelmente abalado.

Como haviam chegado naquela situação?

Todos em pé, sem palavras, sem ações, com uma enorme mancha no chão que um dia fora um ser vivo e agora nada mais era do que uma sombra.

Com outro suspiro pesado, Chikage puxou a varinha, dirigindo-se a mancha que era tudo o que restara do bicho-papão que ali havia habitado sabe-se lá por quanto tempo – Acho... acho que tenho que limpar isso... Evanesco – disse com a varinha displicentemente apontada para o chão, a mancha negra desaparecendo no mesmo instante, mesmo que ainda bem fixada na mente dos grifinórios presentes. Agora nada mais restava – É, melhorou – disse tentando sorrir, sem muito êxito, a varinha voltando ao bolso traseiro – Onde está o sapo? Não o perdemos de novo, perdemos?

– Não, eu o coloquei no bolso – disse Rony, conferindo se Trevo se mantinha no mesmo lugar. Sim, ele estava – Er... como... como... você ainda parece um pouco pálido.

– Na verdade – e agora o sorriso começava a voltar, mesmo que ainda visivelmente forçado – eu sempre fui meio pálido demais. E como costumava ficar em lugares ensolarados e depois da fase camarão ambulante, mantive por muito tempo um tom meio moreno. Ah, Harry, valeu.

– Pelo quê? – perguntou o moreno sem entender.

– Por ter tomado a dianteira, por ter confundido o bicho-papão. Valeu mesmo – e havia algo muito errado ali. O agradecimento era sincero demais e o sorriso que mal se formava forçado demais e tudo aquilo era estranho demais.

– Cara, você parecia... estar tendo um ataque histérico – disse Neville sem se conter. A curiosidade que sentia sobre quem seria o rapaz moreno contida pela expressão vazia do colega.

– É. Imagino que assustei vocês, né? – sua voz estava rouca e quase sumida, o falso sorriso desaparecido.

– Quem era o homem moreno? – perguntou Rony, sem pensar, expondo toda a sua característica falta de tato para certos assuntos.

– Rony! – exclamou Harry. Claro que Harry também queria muito saber a resposta, mas sentia não ser a coisa mais sensata no momento. Kakinouchi parecia estar longe de poder responder essa pergunta. No entanto, foi surpreendido pela resposta do oriental:

– Tudo bem, tudo bem. Não é nenhum segredo na verdade – respondeu o japonês, balançando a mão direita num gesto de indiferença que não era refletido em seus olhos – Ele... Chiaki... era o meu irmão.

– Irmão?

– Você tem um irmão?

– Tinha, na verdade... Mais velho. Quase três anos mais velho.

– E o que aconteceu com ele? – perguntou o ruivo, sem se conter uma vez mais. Harry, no entanto, achava que a resposta não seria das mais felizes, em sua mente, a imagem do homem derretendo voltava como que gravada a fogo.

– Ele morreu... há três anos – respondeu o sonserino, outro suspiro escapando de seus lábios, os olhos voltados para o chão, numa atitude completamente atípica – Ei, ei, não precisam fazer essa cara de "ai meu Deus, perguntei o que não devia, o que eu falo agora?" – e lá estava aquele falso sorriso, ainda tão forçado e pequeno que poderia nem ser visto – Faz tempo. Eu já aceitei. Apenas... não gosto quando bichos-papões tomam a forma dele... Mesmo que eu saiba que não é ele e que é apenas uma representação... Nem sempre a mente reage de acordo com os seus conhecimentos.

Tinha sentido. Muito sentido. Harry se perguntou se conseguiria atacar alguém que possuísse a aparência de seus pais ou Sirius. Não? Não conseguiria.

– Foi algum... acidente? – Neville deixou escapar, menos por curiosidade do que por qualquer outra coisa. Um pensamento tomando forma em sua mente: como morrera o irmão de um bruxo tão forte como Kakinouchi?

– Sim, acidente – foi a resposta que recebeu e ela não esclarecia muita coisa, mas não era como se eles pudesse exigir mais do que isso. Não eram amigos e mesmo que fossem bastava olhar para o rosto do sonserino para saber que ele não tinha condições de fornecer mais explicações no momento.

SL&SL&SL&SL&SL&SL

A torre da Grifinória estava vazia, o que não era surpresa uma vez que Neville estava nas estufas e Gina devia estar com a menina lufa-lufa. A lareira acesa era um convite tentador e Harry e Rony sentaram-se próximo a ela, ainda calados. Não tinham o que falar. Ou melhor, tinham tantos coisas que não sabiam por qual começar. Agora que alguns minutos haviam se passado, tudo parecia tão surreal! Harry sentia como se tivesse acordado de um sonho. Rony sentia como se tivesse passado por uma forte experiência. Aquilo tudo acontecera mesmo? Mas o sapo nas mão de Rony apenas confirmava que sim. Depois de deixaram a sala vazia, Kakinouchi despedira-se deles com um sorriso muito forçado e se afastara. Neville chegara a dar alguns passos em sua direção, mas estagnou quando ele apenas acenou para eles, sem se virar. Talvez ele quisesse ficar sozinho. Talvez eles não devessem tê-lo deixado ir daquele jeito. Harry sentia que devia ter dito algo, mas ainda não conseguia pensar no que diria. Ainda não sabiam se havia agido certo. Mas o que deveriam ter feito? Acompanhado o colega até as masmorras? Ficado com ele? Rony oferecera companhia mais de uma vez, sem que esta fosse aceita e não podiam obrigá-lo a isso, não eram amigos.

– Estou preocupado com ele – Rony conseguiu enfim sintetizar o que os dois pensavam, os gritos de Chikage ainda ecoando em seus ouvidos.

– Também estou.

– Não entendo... O que aconteceu lá?

– Entendo tanto quanto você.

Rony brincou com a manga do suéter, tentando colocar em palavras o que sentia. As que saíram de seus lábios não eram a melhores.

– O irmão dele... eles não se parecem em nada, eu nunca diria que são irmãos.

É, eles não se pareciam mesmo.

– Foi impressão minha ou... o bicho-papão... ele... parecia estar derretendo antes de você avançar e o dementador aparecer – Rony lembrou-se. Ele queria perguntar como alguém podia morrer daquele jeito. Que acidente provocaria aquilo?

– Existem mesmo muitas formas de morrer – Harry refletiu, respondendo a pergunta não feita por Rony, mas que também o intrigava. Ele lembrava dos noticiários que via na casa dos tios, quantas mortes bestas existiam? E cruéis? E imprevisíveis? E mágicas? Pensou em seus pais, em Cedrico, na luz verde da maldição da morte, em Sirius e no manto que o levara sem deixar nada para trás... Perdido, para sempre. E quantas outras, ainda mais no mundo da magia. Luna mesmo falava da morte horrível de sua mãe, nunca explicada. Como o irmão de Kakinouchi morrera não era a questão que mais o afligia, não era, o que mais o intrigava era – Por que a morte do irmão o desestabiliza daquele jeito? – Sim, seus pais morreram salvando sua vida, passara o 3º ano ouvindo-os gritar e implorar por seu filho, desmaiava só com essas lembranças, chorava, sentia dor e angustia. Saudades. Enquanto Kakinouchi parecia perder completamente o controle sobre si mesmo – Ele parecia apavorado. Por um momento, duvidei que o bicho-papão fosse o irmão dele, achei que fosse algum aluno que estava na sala e tinha nos pregado uma peça.

- Eu também. Nunca imaginei que seria isso a aparecer, principalmente quando ele contou temer bichos-papão. Nunca mesmo. Imaginei que fosse aparecer algo assustador e enorme...

- Ou que ele não tivesse muita certeza do que ia surgir, por isso não sabia como enfrentar – porque ele não parecia ser do tipo que tinha medo de algo, e não precisaria, não com um conhecendo um feitiço como aquele que usara – Kakiou sabia muito bem o que ia aparecer...

- Será que ele chegou a Sonserina? Acho que devíamos tê-lo acompanhado.

Provavelmente sim, mas se ele já tentava sorrir mesmo depois de tudo aquilo, talvez o melhor fosse mesmo deixa-lo sozinho para que não precisasse se preocupar em sorrir para os outros. E então um pensamento voltou a sua mente! As palavras de Luna, ditas no que agora parecia ser há muito tempo, adquirindo novos significados.

"Uma pessoa que atua o tempo todo, mostrando sempre a mesma face, a mesma coisa, nenhum ator gosta de ter sua atuação interrompida". E essa talvez fosse a resposta a pergunta que ela mesma tantas vezes tinha feito: "é possível confiar em alguém que atua o tempo todo?".

SL&SL&SL&SL&SL&SL

Suas pernas estavam pesadas, cada passo dado sentia que seria o último, que ia desabar, cair em algum canto e ali ficar. Encostou-se em uma parede e respirou fundo, uma, duas vezes, as lágrimas voltando a rolar por seu rosto, dessa vez, silenciosamente.

Chiaki.

Passou a mão nos cabelos, jogando-os para trás com mais força do que o necessário. Estava tremendo novamente.

Num gesto brusco, esfregou o rosto molhado, as luvas raspando a pele, o corpo curvado para a frente.

Estava quebrando.

De novo.

Respirou fundo outra vez, e mais outra, tentando acalmar o coração disparado, apagar as imagens que a situação devolvera a seus olhos.

Chiaki.

Chiaki sempre sorria para ele.

O toque de Chiaki, as palavras dele, o olhar, o carinho, o amor.

A lembrança cruel de um flash de luz vermelha, de seus olhos azuis, do choque, da raiva, das certezas, tudo perdido.

Apertou a garganta, impedindo-se de gritar mais uma vez, fechando os dedos com tanta força que sentiu dor, apertando até perder a própria voz.

Dor.

Doía. Doía mais do que sentia que ia aguentar.

Abriu os olhos, vendo o mundo desfocado, as paredes frias, escuras, o corredor deserto.

Passos ao longe...

Precisava se acalmar, precisava sair dali, precisava voltar a ser ele mesmo, precisava...

Quando Dumbledore passou pelo comprido corredor que ligava as masmorras, caminhando em direção a sala de Snape, percebeu uma mancha escura na parede, as pedras escurecidas levemente mais desgastadas que as demais. Franziu o cenho, sem entender. Um gesto de varinha não detectou magia na região e mais esse assunto foi jogado para um canto de sua mente. Havia coisas mais urgentes a serem tratadas. Talvez, se ele soubesse que há menos de 5 minutos Chikage Kakinouchi estava encostado nessa mesma parede, ainda abalado pelo que acontecera numa sala antigamente habitada por um bicho-papão, não tivesse saído dali tão rápido.

Mas para sua sorte, Dumbledore pela primeira vez estava envolto no desconhecimento.

SL&SL&SL&SL&SL&SL

Não estava conseguindo dormir. Rolava, rolava e rolava na cama e não dormia. Para piorar, os ponteiros de seu relógio pareciam estar andando muito mais devagar, seria um feitiço retardatário? Claro que não.

Suspirou pela centésima vez em menos de três horas.

Tédio, cansaço e dor nas costas se uniam para lhe deixar com um péssimo humor e tudo isso apenas colaborava ainda mais para sua insônia.

Odiava sofrer de insônia! E isso era tão raro que quando acontecia o deixava ainda mais nervoso. Tinha sono leve, é verdade, mas nada que um pouco de silêncio e escuridão não resolvessem, gostava de acordar tarde. Dormia bem, apesar de pouco, tinha um sono quieto, não se mexia muito e raramente acordava no meio da noite.

Droga de insônia!

E aquele maldito ponteiro não dera nem três voltas, o que significava que nem 3 minutos haviam se passado.

Saco.

Remexeu-se na cama. O que fazer? Girou para o outro lado, percebendo estar completamente embolado nas cobertas, o que não era surpresa nenhuma. Cobriu a cabeça para descobri-la pouco depois e constatar com um suspiro irritado que nem dois minutos haviam se passado. Chutou as cobertas e, criando coragem para enfrentar o frio, sentou-se na cama, disposto a sair dali antes que ficasse mal-humorado e dolorido. Os pés calçados por grossas meias de lã brancas tocaram o frio chão de pedra e Draco se perguntou porque mesmo não fora para casa.

Como se ele não soubesse a resposta, como se há dias não a repetisse para si mesmo.

Não queria pensar nisso.

Não queria pensar em sua casa, em sua mãe, em seu pai, nem lembrar que não tinha ido visitá-lo naquele natal, nem no Ano Novo e que não teria de ver seu rosto abatido e triste, seus olhos cheios de tristeza, dor e ao mesmo tempo tão desesperadamente vazios. Nem ouviria sua mãe chorando ao chegar em casa enquanto ele se escondia onde ninguém pudesse ver para que pudesse fazer o mesmo. Odiava chorar, odiava sentir que as coisas haviam chegado num ponto onde tudo o que poderia fazer era derramar lágrimas que em nada mudariam coisa alguma.

E odiava mais do que tudo seu egoísmo. Egoísmo e covardia que deixava seu pai sozinho numa cela vigiada por um dementador, só em pleno fim de ano porque seu filho era egoísta e medroso demais para lhe oferecer um mínimo de calor.

Não queria pensar nessas coisas, em nada disso.

Levantou-se e saiu do quarto, chegando ao frio do corredor de pedras úmidas, abraçando a si mesmo num gesto pouco digno de um Malfoy, mas que pelo menos espantava o frio. Mas o que faria? Ficaria andando sem rumo ou motivo?

"Como se você já não soubesse, Draco", pensou sem conseguir conter o sorriso cínico que dirigiu a si mesmo e deu poucos passos para a esquerda, parando frente a porta de madeira apenas tempo suficiente para abri-la e entrar em outro dormitório quase vazio.

Dirigiu-se a cama que ficava mais afastada, longe da porta, longe da janela e a única ocupada e abriu as cortinas verdes sem cerimônia. Ali, literalmente esparramado por baixo de cobertas finas demais para aquele frio, estava Chikage, dormindo muito bem pelo que parecia. Ele estava meio virado para a direita, na direção de Draco, a cabeça apoiada sobre o braço direito (ficaria com cãibras mais tarde), os cobertores lhe cobrindo até as orelhas. Parecia um enroladinho com um tufo de cabelos castanhos na ponta, cabelos bagunçados que despontavam por baixo das cobertas, metade ainda escondido, metade no rosto. O loiro fez uma leve careta, aquele cabelo todo no rosto devia incomodar e fazer cócegas e também dar muito trabalho. Na verdade, diferente de seus pais, Draco não era fã de cabelos cumpridos. Ou pelo menos não era até pouco tempo.

– Ei, Chikage! – chamou, tocando muito de leve o ombro do sonserino japonês – Ei, Chikage! Chikage? Chikage, acorda. Chi-ka-ge! CHIKAGE! Caramba, vai dormir assim lá no Japão! Ei, Chikage! – tornou a chamar, mas nada. A essa altura já estava quase chacoalhando o amigo dorminhoco, mas nada conseguira além de fazer o oriental virar para o outro lado, encolhendo-se um pouco, ainda dormindo pesadamente. Aquele lá era uma figura mesmo! Falava pra caramba, parecia ter um sorriso permanente estampado, sabia demais, adorava fazer drama, chamava atenção onde quer que passasse, fazia piada até da morte e quando dormia o fazia como uma pedra! – Ok, amigo, foi você que pediu – disse o loiro, colocando uma mão embaixo de seu braço e a outra sob uma das pernas, erguendo-as em seguida, num movimento ágil, que fez o corpo menor virar e rolar para o outro lado da cama, caindo com estrondo no chão frio.

– Quê? Como? Que aconteceu? – perguntou o japonês, o cabelo despenteado cobrindo os olhos fechados, enquanto emergia do outro lado da cama, a voz completamente rouca. Pelo visto, nem a queda realmente o acordara.

– Estou te chamando faz um tempão. Como você não acordava, eu te acordei – respondeu o loiro sem conseguir conter um sorriso traquinas ao ver Chikage coçar a cabeça, espalhando ainda mais cabelos, os olhos verdes ainda ocultos pelas pálpebras pesadas de sono. Ele ainda não parecia ter acordado de verdade e muito menos parecia ter notado que estava sentado no chão frio – Pensei que tivesse dificuldade para dormir. Sono leve, insônia ou alguma coisa do gênero.

– E tenho – respondeu o moreno, ainda sem abrir os olhos direitos, parecendo agora saber que não estava mais na cama, mas sem forças para abrir os olhos e ver onde tinha ido parar.

– Sei... não foi o que pareceu, acho que nem um berrador te acordava – retrucou enquanto se inclinava na cama, apoiando nela um joelho e estendendo a mão para o japonês, na intenção de ajudar o amigo sonolento a levantar – Anda, vai acabar congelando.

– Bem que notei que minha bunda estava ficando gelada – disse Chikage, um pouco mais desperto agora, mas ainda muito rouco e visivelmente apenas semiacordado, a mão que Draco nunca vira sem as luvas segurando a sua – E eu tenho, sim, distúrbios de sono. Poção para dormir – disse com um leve menear de cabeça, apontando a direção do criado-mudo.

E foi então que o loiro reparou no frasco na mesinha de cabeceira e no líquido roxo dentro dele. Poção do sono.

– Ela é bem eficaz pelo visto. Belo pijama – completou o loiro sem se conter diante do moletom folgado que o moreno usava: calças e blusa azuis, mesclando o claro e o escuro, como apenas no mar tal mistura podia ser vista, estampado com muitos peixes felizes e coloridos, um coral ao fundo da blusa. Era definitivamente infantil.

– Thanks – respondeu Chikage sorrindo, os olhos fechado novamente. Estava ajoelhado na cama e arrumava as cobertas claramente disposto a entrar embaixo delas novamente – Então, Draco, o que foi? Qual o motivo de me acordar no meio da madrugada?

– Eu estava sendo irônico... Eu não estava conseguindo dormir então... – porque fora até lá? Não sabia – lembrei que você disse que não dormia direito e que o professor Snape lhe fornecia a poção do sono quinzenalmente. Pensei se você teria um pouco.

– Você é um péssimo mentiroso – sorriu Chikage, os olhos finalmente abertos, mas por quanto tempo? – Quer dormir aqui?

– Claro que não!

– Ah, deixa de manha e deita aí – disse o japonês agarrando a mão pálida do amigo e dando um puxão forte, forte demais para um corpo tão pequeno e magro, trouxe Draco num único impulso direto para a sua cama – Adoraria conversar com você, mas essa porcaria é muito forte. Então deita aí, dorme e amanhã, quando eu conseguir acordar, você me conta o que foi, ok? Pode ser assim?

– E por que eu tenho que dormir com você? – perguntou Draco indignado, sem, no entanto, sair da cama.

– Castigo por interromper o meu sono e o meu sonho que era muito bom e que agora eu esqueci.

– E como sabe que era bom, então?

– Simples, tinha chocolate no meio, então era bom.

– Você não é chocólatra! Nem é fã de doces!

– Não, mas chocolate não pode ser ruim, pode? E sossega, deita aí e fecha os olhos. Isso resolve qualquer problema de insônia – disse Chikage com autoridade antes de voltar a fechar os olhos e se enfiar embaixo do cobertor, se acomodando novamente.

– E se eu preferir voltar a minha cama?

– Eu levanto daqui, nem que seja amanhã, vou até sua cama e o trago para cá de volta nem que seja a força. Você escolhe. Mas se for obrigado a isso, juro que você não só vai dormir aí, como vou dormir abraçado com você.

Draco chegou a abrir a boca para retrucar, mas a fechou ponderando as opções. Teria ele alguma chance de enfrentar Chikage se este não quisesse perder? Ele com certeza cumpriria sua ameaça, não? Mordeu o lábio, hábito pouco conhecido, mas antigo e acabou resolvendo ficar. Se Chikage lhe chutasse no meio da noite ele teria uma desculpa para sair. E depois era culpa dele ter ido até lá sem ter pensado antes numa desculpa. Dizer que estava se sentindo sozinho com certeza estava fora de cogitação.

E agora ele não estava mais sozinho...

– Quer deitar logo e dormir? Não vou te agarrar no meio da noite, não se preocupe – sussurrou o japonês, sua voz rouca dando a impressão de um ronronar felino.

"Eu que deveria dizer isso... afinal, o gay aqui sou eu..." – admitiu Draco para si mesmo entrando enfim embaixo das cobertas quentes – "O que você diria se soubesse que convidou um cara gay, para dormir na sua cama? Me expulsaria, não?"

Mas a essa altura Chikage já dormia novamente e, bem, mal não havia não é? A cama era quente, Chikage era quente e era bem melhor do que ficar sozinho. Draco mal percebeu quando dormiu, não percebeu também na mão que segurou a sua e não ouviu as palavras pronunciadas por uma voz rouca e sonolenta. Sua insônia há muito tinha passado.

SL&SL&SL&SL&SL&SL

Suas palavras passavam de um sussurro, não passavam de um mantra segredado numa voz rouca e baixa. Mesmo assim suas palavras eram facilmente ouvidas pela pessoa que olhava a bola de cristal e cujos olhos verdes pareciam ver mais do que a esfera mágica mostrava.

– Você é tão previsível. Tão absurdamente previsível.

Do lado de fora, o céu continuava escuro como sempre, mas era possível ouvir as risadas, assim como a aproximação deles. Aproximavam-se sem se preocupar em se esconder, pois sabiam que ninguém nunca poderia chegar de surpresa, a surpresa era um sentimento que não conhecia. Era um tédio. Tudo sempre tão irritantemente previsto. Desde o tempo a resposta de alguém, um objeto que cai ou um acidente, saber de tudo o que iria um dia acontecer era a sua benção, era a sua maldição. Não havia a necessidade da esfera de cristal que flutuava sobre a mesa. Aquele era um hábito apenas, servia para ver o que já sabia. Com um gesto a esfera tornou-se vazia novamente, no seu interior uma fumaça branco leitosa se movia sem dizer mais nada, mas sua mente ainda recebia imagens demais. Dor. Seria doloroso, doloroso demais. Sabia disso, sempre soubera. Não era uma questão de pureza e nunca fora. E ele era a última pessoa que poderia ser enganada com tal desculpa. Era um castigo e como tal haveria muita dor.

– Se fosse só a sua dor... seria mais fácil para você, não? – contudo essa era uma pergunta retórica, como todas, pois sabia a resposta. Sempre sabia a resposta, para cada misera dúvida.

Passos. Eles estavam cada vez mais perto. Fitou o céu escuro através da janela circular. Depois de ter visto o sol pela primeira vez, o escuro nunca mais lhe agradara totalmente. Quando criança achava que o sol se assemelhava as diversas esferas de fogo vermelho que flutuavam no ar, envoltas numa aura branco-prateada, única fonte de luz dentro do Castelo Negro. Mas não era. E agora, não importava quantas esferas seu quarto possuísse, a luz forte que vinha de todos os cantos apenas iluminava o quarto de paredes e moveis negros.

– Mais seis meses. Quanto sangue ainda pode correr? Tem, algum de vocês, ao menos noção disso?

Continua...

Março/2012

N/A: Alguém ainda se lembra de mim e dessa fic?

Sim, eu demorei, muito mais do que o normal e esperado. E vocês não vão acreditar no que me aconteceu! Eu queria postar em outubro. Eu achei que postaria em outubro. E então, dia 06/10, quando eu tinha 20 das 34 páginas desse capítulo prontinhas e revisadas elas... foram diretamente para a lixeira permanente por um erro no computador! Ele travou e apagou todos os arquivos abertos ou alterações recentes! E lá se foram 20 páginas! Quase tive um troço quando fui tentar reabrir o arquivo. E lá fui eu escrever TUDO de novo! A sorte foi que eu tinha um rascunho beeeeem antigo das cenas principais esquematizadas em outro arquivo (faz um ano que quero escrever esse capítulo, estava muito ansiosa por ele) que por uma tremenda sorte eu tinha esquecido de apagar do pen drive. Pelo menos uma cena eu consegui salvar... Aí só faltou reescrever outras do zero, e escrever de novo (pq elas se recusavam a ficar tão boas quanto as anteriores), editar, adaptar, reescrever, relembrar, revisar, trabalhar, terminar a faculdade, trabalhar mais um pouco, começar a pós, resolver mais um monte de coisa e assim passaram 5 meses nos quais eu mal tive tempo de pensar (pq dormir foi raridade mesmo). Ligar o word e acessar esse capítulo? Nenhuma vez em mais de dois meses!

É, as coisas não andam saindo como eu as tenho planejado.

Mas aos trancos e barrancos vamos chegando lá!

Espero que esse capítulo esteja bom. Quero minha beta de volta! E vocês, descobriram mais um pouquinho sobre o Chikage? Querem mais?

Ah, coloquei mais um desenho lá no meu Orkut! Será que alguém aqui ainda acessa o Orkut?

Agradecimentos: A todos aqueles que não se esqueceram dessa fic e aos novos leitores que dedicaram seu tempo em lê-la. E claro, um agradecimento mais que especial a todos os que perderam uns minutinhos de seu tempo para me mandar palavras de incentivo. Elas fazem grande diferença! Então, muito obrigada a Mary Sumeragi, Mila Pink, Matheus e Maatheus Lestrange! Valeu mesmo!

E para aqueles que não deixaram e-mail para resposta:

Matheus: Finalmente, atualizei! Desculpa mesmo pela demora! Espero que goste de mais esse capítulo e espero que o próximo venha muito mais rápido! O ffnet tem muitas coisas interessantes, em 2005 eu lia muito aqui, mas coragem mesmo para postar, como pôde ver, é recente =P Bjs!

Prévia do próximo capítulo:

Chikage estava estranho. Não que ele normalmente assistisse as aulas de História, mas ele ao menos costumava fingir. Olhou novamente para o lado, onde Chikage dormia com a cabeça apoiada nos braços cruzados, a cabeça virada para o outro lado, os cabelos espalhados sobre os pergaminhos.

"Sei que não é tudo o que queremos compartilhar com os outros. Entendo isso. Mas queria que você me contasse o que aconteceu, Chikage".