CAPÍTULO 11

Bad Girl

Mary Alice: O tempo passa. Com o tempo, ganhamos experiência e amadurecimento, conhecemos a nós e aos que estão ao nosso redor, cultivamos amizades e relacionamentos amorosos. Descobrimos sentimentos e refletimos sobre estes. Tomamos decisões que podem afetar toda nossa vida.

Seis meses se passaram para as mulheres de Wisteria Lane. Nesse tempo, houve muitas mudanças. Lynette conseguiu um emprego novo em publicidade, Susan reatou com Mike, Edie ficou viúva com a morte de Dave, Katherine tornou-se caçadora e agora compete com Edie pelos homens de Fairview.

Além destas notáveis donas-de-casa, outras duas também passaram por drásticas mudanças em suas vidas. Gabrielle Marquez, como se chamava antes de ser Solis, recuperou mais do que seu nome de solteira com o divórcio. Adquiriu direito a todos os bens móveis da família, tendo vendido vários destes ao ex-marido, deixou Carlos ficar com a casa, para que a separação não fosse prejudicial às filhas. Estabeleceu guarda compartilhada, na qual ela cuidaria das crianças até ele chegar do trabalho, quando as levaria para casa, e teriam finais de semana alternados. Com todo dinheiro que conseguiu, além de fazer muitas compras, investiu em imóveis para locação, adquirindo assim renda fixa sem precisar trabalhar, suficiente para manter seu antigo padrão de vida.

Quanto à Bree Van de Kamp, estendeu sua empresa, passando a atender as cidades vizinhas, lançou um segundo volume do seu livro e recebeu mais uma vez o prêmio da Mulher de Negócios do Ano. Seu único problema era não poder assumir abertamente seu relacionamento, pois isso arruinaria sua carreira de escritora, indo de encontro a tudo que defendia em seus valores tradicionalistas. Mas isto era algo que a ruiva sabia disfarçar quando necessário e o fazia muito bem, às vezes até demais.

Era nisso que Gabrielle pensava quando acordou naquela manhã. Levantou alguns minutos mais cedo que o normal, não dormira bem durante a noite. Então ficou sentada na cama, fazendo carinho em sua namorada, assistindo-a descansar com uma expressão tão pacífica que não tinha coragem de acordá-la. Passava as pontas dos dedos levemente sobre os braços e os cabelos da amada, mas estes pequenos gestos foram o suficiente para fazê-la despertar.

- Que horas são? – Bree perguntou ainda atordoada de sono.

- Cedo, pode voltar a dormir – respondeu Gabrielle.

- Não, tenho que levantar – disse a ruiva consultando o relógio de cabeceira. - Ainda falta preparar muitos pratos para o almoço dos Evans. Vamos servir mais de cem pessoas e só temos pronta parte da comida.

Enquanto falava, Bree se levantava da cama, colocava o robe e escolhia que roupa iria vestir depois do banho. Gaby só assistia quieta, sentada no mesmo lugar, sabendo que nada poderia fazer, nem ousaria, para parar sua companheira. Deitou-se mais uma vez, olhando para o teto, ouvindo apenas o som do chuveiro, imaginando o que faria no resto do seu entediante dia.

Viu a ruiva passar já completamente arrumada e reclamando algo sobre não ter tempo de preparar o café, mas não deu atenção. Deixou-se beijar brevemente sobre os lábios e observou da janela enquanto Bree entrava no carro e saía. Pegou o celular e fez uma ligação:

- Oi, Edie, sou eu. Está ocupada?

- Depende, o que vai falar? – Respondeu a loira.

- Preciso conversar com alguém, se não vou enlouquecer – disse.

- O que a maníaca por controle tem feito? Eu te avisei pra ter certeza de onde estava se metendo.

- Não é isso – Gabrielle cortou-a. – É só que... – E sua voz ficou séria. – Não é mais a mesma coisa.

- Como assim? – Edie não entendia.

- Eu sinto como se ela estivesse me rejeitando aos poucos, sabe? – Gaby desabafou. – Primeiro, ela não pode me assumir publicamente, mas isso eu até entendo, é por conta do trabalho. Também tem o fato de que parece que ela é casada com o serviço, mas isso eu também entendo, ela ama o que faz e deu tudo por essa empresa.

- Mas... – A loira esperava pelo resto. – Isso não é o bastante pra você vir me ligar.

- Mas o que realmente me incomoda, e eu não consigo entender, é porque ela mudou comigo – hesitou por um instante e depois continuou -, sexualmente.

Edie não agüentou e irrompeu em risos do outro lado da linha. Foi necessário que Gabrielle gritasse com ela algumas vezes para fazê-la parar e tornar a ouvir o restante do que tinha a dizer.

- Desculpa, essa eu não agüentei – disse a loira enxugando as lágrimas nos olhos. – Continue.

- Assim, quando começamos o sexo era fenomenal, fazíamos várias vezes ao dia, chegamos até a fazer sete vezes em um dia. Mas ai as coisas foram esfriando, e agora mal fazemos uma vez no dia, ficamos longos períodos sem fazer nada. E isso nem é o pior.

- Tem mais? – Espantou-se Edie.

- Tem. Não sinto que ela me deseje. Eu coloco calcinhas bonitas, ela nem diz reparar. E ela não admite, mas eu tenho certeza. Ela não gosta mais de "fazer". Acho que não ganho sexo há dois meses.

- Não! Sem essa!

- Sério. Acho que ela está se arrependendo, que ela está vendo que cometeu um erro e não gosta de mulheres.

- Hey – foi a fez da loira assumir a postura séria. – Eu vejo vocês duas juntas desde o começo e posso falar francamente que ela te ama. Aquela ruiva de farmácia está arriscando o pescoço cada dia pra ficar com você, ela passou por maus bocados também. Então não venha dizer que ela não te ama.

- Eu não falo de amor, falo de desejo! – insistiu Gaby.

- Então converse com ela!

Mas a mente de Gabrielle já adquiria outros planos. Enquanto olhava pela janela, via o jardim da sua antiga casa e seu ex-marido sentado na varanda tomando cerveja. Teve uma idéia, arriscada, errada, mas estava tão desesperada para sentir-se bem consigo mesma e adquirir novamente a atenção que merecia, que decidiu tentar, ainda que pudesse colocar tudo a perder. Despediu-se de Edie e ligou para a namorada, deixando uma mensagem de voz:

- Baby, eu vou passar a tarde com as meninas, então me ligue quando estiver saindo do trabalho pra eu te receber em casa. Beijos, te amo.

Desligou o telefone, tomou banho, colocou um vestido apertado e saltos altos e rumou para a casa dos Solis.

- Oi – disse parando a apenas alguns passos do ex-marido -, quero falar com você.

Com estes dizeres curtos, Gabrielle entrou em casa e foi para o seu antigo quarto, sendo seguida por Carlos. Aos pés da cama, começou a tirar o vestido.

- Não estamos reatando, ninguém pode saber disso e não vai acontecer de novo – foram os termos dela.

Não foi preciso dizer mais nada, Carlos apenas sorriu vitorioso e aproveitou a oportunidade de vingar-se. Envolveu Gabrielle em seus braços e deitou-a sobre a cama, arrancando-lhe o que sobrava de roupa.

Cerca de duas horas depois, Gaby deixava a casa. Constatou que Bree ainda não havia retornado do serviço, pois o carro não se encontrava na garagem. Então foi para a casa de Edie.

- Eu fiz uma besteira – disse assim que a loira abriu a porta. – Posso passar a noite aqui?

Sem ter como negar diante da notável tristeza da morena, Edie permitiu que entrasse e foi preparar martinis enquanto a outra telefonava para Susan e a chamava para encontrá-la. Reunidas as três e com os drinks prontos, Gabrielle contou como passara sua tarde, seus medos, suas aflições, e ainda mais, seu arrependimento.

- No que você estava pensando? – Reclamou Susan. – Que idéia idiota! Meu Deus, ela é sua amiga!

- Eu sei, eu sei, já disse que me arrependo! – Repetia Gaby. – Eu me arrependi desde o momento em que comecei. Foi horrível. Foi...

- Muito errado – complementou Susan.

- Sim – concordou Gabrielle. – Foi tão ruim que não senti o menor prazer, eu juro, nem consegui ir até o final, mandei ele parar antes - notou que Edie a olhou espantada, ao que respondeu com um olhar de reprovação. – Olha, eu entendo a besteira que fiz.

- Uma besteira imensa – Susan interveio mais uma vez. – Como pode fazer isso com Bree?

- Eu sei! – Gaby falava mais uma vez. – O que eu faço? – Perguntou desesperada.

- Bem – Edie finalmente se manifestou, demonstrando total calma -, não concordo com o que fez, mas já está feito, não é? Acho que agora só depende de você decidir o que fará.

- Eu vou contar – Gabrielle decidiu-se -, mas não ainda. Vou esperar o momento certo.

Mary Alice: O tempo que foi necessário para construir uma relação pode ser facilmente perdido por segundos de uma decisão mal tomada. O medo da rejeição pode levar a um relacionamento construído por mentiras. São as bases podres que derrubam casas, por mais belas que possam parecer, até para os próprios habitantes.

N.A.: Não segui a história porque não queria matar Edie, nem deixar Katherine louca.

N.A.(2): E sim, isso aconteceu.