A chuva chegou na noite de segunda-feira, fazendo Sakura se preocupar, mas a terça-feira amanheceu clara. Sakura checou o boletim do tempo matinal, com uma xícara de café na mão, e sorriu quando o meteorologista prometeu uma tarde ensolarada.
— Você acordou cedo — murmurou Sasuke, parando para dar um beijo no topo de sua cabeça.
— Hoje é um grande dia.
Sasuke voltou com uma caneca fumegante e viu a previsão do tempo.
— Você está bem? — perguntou ele.
Na noite anterior, Minato telefonara para Sasuke avisando que ele fora o vencedor do concurso. Até então, no entanto, os dois não tinham tocado no assunto.
— Claro. Estou desapontada, mas fiz as pazes comigo mesma. Acho que foi uma boa exibição, que levantamos uma tonelada de dinheiro.
— Essa é a Sakura de que eu gosto!
— Estou sendo uma boa perdedora.
— Se você aceitasse minha proposta...
— Não vou desprezar a tradição. Você está onde deve estar.
— Mas gosto quando você fica em cima.
Essa declaração fez Sakura tentar calcular quanto tempo teriam aquela manhã antes de sair para o desfile... O pior é que já estavam meia hora atrasados.
— Parabéns, Sakura.
Nanami estava bem atrás dela, um pouco vestida demais para o evento, com grandes óculos escuros cobrindo seus olhos.
Sakura sabia que Nanami era muito boa em seu trabalho, mas não gostava tanto dela. Havia alguma coisa inquietante naquela mulher. Ela era muito brusca e focada nos próprios objetivos para o gosto de Sakura.
— Obrigada. Nós fizemos um grande trabalho, mas eles ainda não anunciaram nada oficialmente. Todas as parabenizações são tecnicamente prematuras.
— Eu diria que você foi muito bem, apesar de tudo.
— Obrigada.
— Eu não estava falando sobre a competição. Mas parabéns por isso também.
Ela não podia ver os olhos de Nanami por conta dos óculos de sol, mas o sorriso ligeiramente zombeteiro a deixou em estado de alerta.
— O que está querendo dizer? — perguntou Sakura.
— Para você, ganhar ou perder essa competição não importa. Acho que você ficaria orgulhosa de si mesma de qualquer maneira.
Aonde Nanami queria chegar?
— Já estou me sentindo muito orgulhosa, Nanami. O Santos e Pecadores foi um grande sucesso.
— Sem dúvida...
Sakura perdeu a paciência.
— Nanami, se quiser dizer alguma coisa, diga! Não estou com disposição para rodeios.
— Você conseguiu atrair todos os holofotes... ficando em cima de Sasuke — disse ela um tanto grosseira.
— O quê?
— Ah, você é muito inteligente, Sakura, e eu repito meus parabéns. Você sabe como tirar proveito de uma situação. Aliás, muito boa a matéria no Times...
O insulto era óbvio. Sakura sentiu a mandíbula em choque.
— Não vou negar que minha relação com Sasuke abriu várias portas para mim, mas eu não estou com ele por isso.
— Ah, querida, não estou julgando...
Mas soava como se estivesse.
— Sei tudo sobre esse jogo.
— Isso não é um jogo. Se você está preocupada com Sasuke...
— Eu nunca me preocupo com Sasuke. Ele é um profissional. Sabe como isso funciona.
— Claro que você se preocupa com ele...
— Eu não me preocupo com Sasuke. O Santos e Pecadores foi uma chance para que ele superasse a história com Sasame.
Sakura sentiu uma pontada no estômago. Mas o que ela esperava?
No entanto, o fato de ele ter se beneficiado pessoal e profissionalmente não invalidava a experiência. Ainda que a tornasse um pouco mais ordinária.
Nanami deu de ombros e ficou observando a multidão.
— Sasuke é um cara muito inteligente. Ficar com você foi uma ideia brilhante.
— Eu gosto de pensar que Sasuke tem muito bom gosto.
Droga. Suas palavras saíram mais duras do que ela esperava.
Nanami ficou olhando para Sakura.
— Ah, com certeza. Ele precisava encontrar uma boa menina para limpar sua imagem. Isso funcionou como um conto de fadas ou algo parecido.
— Sasuke tem alguns planos também...
— Sasuke vive cheio de ideias — disse Nanami. — E metade delas nunca funcionou. Em pouco tempo, ele precisará voltar ao estúdio e à estrada.
O telefone de Nanami tocou. Ela atendeu e Sakura respirou aliviada, agradecendo a interrupção.
Mas não conseguia afastar a sensação de mal-estar. No momento em que Minato chamou a atenção de todos para o anúncio oficial, ela sentiu náuseas.
Sakura e Sasuke subiram até o topo e tomaram seus lugares, atrás da almofada de veludo, segurando a auréola do santo e os chifres do pecador.
Minato começou sua fala fazendo um resumo dos vários projetos comunitários beneficiados e da quantidade de dinheiro arrecadado. Mesmo inquieta, Sakura sentiu um momento de orgulho ao ouvir a quantia. Uma enorme alegria atravessou a multidão e Sakura tentou se animar.
— Equipe Pecador, você é a vencedora!
Sakura lançou um olhar de desculpas para sua equipe de Querubins. Sasuke percebeu e disse:
— Não se preocupe com eles. Todos terão excelentes assentos no meu próximo concerto, mas o time perdedor vai ganhar passes para os bastidores.
A premeditação e a bondade do gesto de Sasuke diminuíam o peso da perda. Ele não se envolvera naquele concurso apenas por razões egoístas.
Sasuke subiu as escadas, com os diabinhos bem atrás dele, e tomou seu lugar no trono. Sakura e seus querubins permaneceram no nível inferior.
Ela olhou para o trono de Sasuke e percebeu que ele olhava para ela.
Ele parecia estar de fato desfrutando o momento.
A banda começou a tocar e eles deram início ao desfile. O sol saiu de trás de uma nuvem e a emoção das crianças ao redor de Vivi era perceptível.
Aquele era um dia para comemorar, ainda que ela estivesse celebrando uma perda.
De volta à casa, Sakura sorriu ao tirar os sapatos.
— Eu disse para você usar algo por baixo das asas. Aprendi minha lição depois da última vez.
Sasuke carregava o troféu que recebera no final do desfile.
— Acha que é grande o suficiente?
— Não há necessidade de se gabar — reclamou Sakura.
Ele fez que não com a cabeça.
— Você é uma péssima perdedora.
— Nada disso. Mas gosto de troféus.
Ele lhe lançou um olhar incrédulo.
— É verdade. Eu gosto de troféus — repetiu ela.
— Você gosta de ganhar — retrucou ele.
— Gosto de competir — corrigiu ela. — E hoje sou uma perdedora.
— Não vou mentir, não vou dizer que não queria esse troféu.
Sakura olhou pela janela. A multidão no Bairro Francês atingira o pico aquela noite. Até mesmo através das grossas janelas de vidro eles podiam ouvir o barulho da festa na rua.
Ele começou a abrir o vestido de Sakura.
Ela puxou os braços para fora do vestido e deixou-o cair no chão.
Vestindo apenas uma camiseta fina e calcinhas rendadas, ela se espreguiçou e gemeu de alívio.
A visão era bela e erótica, mas ele estava cansado demais...
Logo em seguida, ela caiu no sofá e deixou a cabeça descansar contra o braço.
— Vou ligar para a Srta. Sbaku no amanhã de manhã e dar alguns conselhos para a próxima vez que ela quiser colocar asas em alguém. Mas não agora... Eu estou exausta. Só quero uma taça de vinho e um pouco de silêncio.
— Que alívio! Eu estava com medo de que você quisesse sair.
— De jeito nenhum Foi um dia divertido, mas... longo demais. Não quero ver ou falar com ninguém.
— Nem comigo? Não quer me ver?
— Você pode ficar, mas traz o vinho... Não vou me mexer até amanhã. Pode me chamar de desmancha-prazeres, mas estou acabada.
Ele pegou o vinho e duas taças, que pousou na mesa ao lado de Sakura.
— Sasuke, se você quiser, pode sair, pode se divertir.
— Eu não pretendo sair deste apartamento por pelo menos uma semana — disse ele, juntando-se a Sakura no sofá. — Mas saiba que a ideia foi sua. Uchiha Sasuke deveria estar lá fora, na noitada, não deitado em seu sofá, pensando em dormir às dez da noite.
Ela franziu o cenho.
— Quer dizer que eu sou um empecilho à sua vida social?
Ele serviu o vinho e entregou uma taça para Sakura.
— Já percebi que, se estou namorando uma santa, todo mundo espera que eu me controle, que seja aceito na sociedade.
— Sério? É isso o que eu estou fazendo?
— O quê?
— Estou controlando você? Estou fazendo com que você seja aceito pela sociedade?
— O que conta é a aparência, Sakura.
— Agora eu entendo... — disse ela, ficando de pé. — Está dizendo que se envolveu comigo para melhorar sua imagem pública?
— O quê? Não!
— Mas estar comigo limpa um pouco a sua imagem, certo?
— Sim.. mas eu tinha decidido fazer as pazes com você antes de nos tornarmos qualquer coisa.
— Por quê?
— Isso são águas passadas, Sakura.
— Mas quando, exatamente, você decidiu fazer as pazes comigo?
— Não sei. No primeiro fim de semana, talvez? Por quê?
— Sei lá. Você deveria saber o porquê.
— Porque nós somos adultos.
Para sua surpresa, ela assentiu.
Sakura passou a mão pelo rosto.
— Eu fui convidado para participar do Santos e Pecadores, Sakura. Assim como você...
— Só quero saber por que você concordou em ser o pecador. Para alguém saído de um escândalo sexual, proclamar-se pecador parece um pouco contraditório.
— Que melhor maneira de vencer tudo isso? Demonstrei ter senso de humor e...
— ... demonstrou ser uma pessoa do bem? — completou ela.
— Isso é um problema, Sakura?
— Um pouco, sim
— Por quê?
— Porque não deveria ser assim.
— Sinto muito se meus motivos não são tão puros como você gostaria que fossem Mas a Konoha Beneficent queria ganhar dinheiro e aumentar sua popularidade. Missão cumprida. Tudo mundo saiu ganhando, certo?
Sakura mordia o lábio inferior com tanta força que a pele foi ficando branca.
— Então eu... eu também fazia parte de seu plano?
— Eu não entendo, Sakura...
— Na verdade, tudo faz sentido agora. A santa Haruno foi apenas a cereja no bolo de sua redenção. É tão óbvio agora! Eu não acredito que me apaixonei, muito menos que dormi com você. Eu sou uma boba!
— Você enlouqueceu? O que é isso?
— Você me usou.
— Não!
Sakura revirou os olhos.
— Voltamos à história de Naomi...
— O quê?
— Você não mudou nada, Sasuke.
— Eu só queria que a guerra terminasse. Quero viver em paz nesta cidade.
— E dormir comigo?
— Pensei que fosse uma atração mútua. Eu não sabia que teria de provar minhas intenções.
Os olhos de Sakura se estreitaram Aquele olhar cauteloso, desconfiado e desaprovador, que ele conhecia tão bem, estava de volta.
— Você não acredita em mim.. E guardou isso o tempo todo, Sakura?
— Não...
O alívio resultante da sua negação durou pouco.
— Talvez no começo, mas fui arrastada para você e não me preocupei em pensar em nada. Você sabe, eu poderia ser apenas um caso. Eu poderia estar disposta a jogar se você tivesse sido honesto comigo desde o início. Isso não precisava ser assim..
Suas palavras o atingiram como uma bofetada.
— Nossa história parecia boa...
Ela não disse nada.
— Ah, Sakura! Você apareceu na minha porta no meio da noite. E você é a única que continua voltando...
Se olhares pudessem matar, ele estaria morto, em uma poça de sangue, naquele exato momento.
— O quê? — perguntou ela, de queixo caído.
— Eu não sou o único que se beneficiou com isso. Ser a namorada de Uchiha Sasuke é bem mais interessante do que concorrer ao Miss Japão. Justamente quando você pensou que seus dias de glória tinham ficado para trás...
— Cale a boca! Eu meio que me senti mal com toda essa atenção, mas, pensando bem, é justo que eu também consiga alguma coisa.
— Nossa! Acho o usado aqui fui eu, não você!
— Eu só esperava um pouco de civilidade durante o Santos e Pecadores. Mas você começou a jorrar todo esse lixo sobre histórias de adolescentes, sobre pedir perdão...
— Seu complexo de superioridade é inacreditável. Você não passa de uma fraude!
Sakura era uma dessas raras mulheres que ficam belas com raiva. Seu cabelo estava meio solto, suas faces coradas, mas seus olhos estavam arregalados, sem sombra de lágrimas.
— Vai se catar, Sasuke!
Ela trincou os lábios, como se estivesse morrendo de vontade de dizer algo mais. Logo em seguida, Sakura calçou os tênis e começou a recolher as poucas coisas dela que estavam espalhadas pelo apartamento.
— Ah, isso que você está fazendo é muito maduro — disse ele.
Ela fez um gesto rude com a mão.
— Que elegância! Se as pessoas soubessem quem você é realmente, elas pensariam duas vezes antes de te julgar.
Ela pegou o casaco, vestiu-o e depois lançou um olhar de aço para ele.
— Pelo menos as pessoas podem confiar em mim Eu sou honesta. Infelizmente, Sasuke, não posso dizer o mesmo sobre você. — Sakura o encarou, depois fez que não com a cabeça. — Você é um grande músico, Sasuke, mas um péssimo ser humano.
Sakura pegou suas asas e bateu a porta. Um momento depois, Sasuke ouviu a porta de segurança, na parte inferior da escada, ser fechada com força.
Ele não se lembrava de um dia ter ficado tão zangado com alguém. Claro que já ficara zangado com Sakura, mas nunca com tanta intensidade.
Ele se serviu dois dedos do excelente e caro uísque e tomou tudo, de um só gole.
Tanta coisa para isso... Como ele poderia imaginar que Sakura abrigava tanta desconfiança e ressentimentos antigos depois de tudo o que aconteceu? Aquilo era um insulto. Era irritante.
E doía também. Se alguém bancou o bobo, esse alguém foi ele.
Sasuke deveria ter sabido que se envolver com Sakura seria um desastre. Em menos de 45 minutos eles passaram de amantes a inimigos.
E quando ela saiu batendo a porta...
Droga! Sakura acabara de sair no meio da maior festa de rua do país, sozinha. Entre os bêbados, e o tipo de pessoas que atacam os bêbados, ela não estaria especialmente segura.
Sasuke saiu para a varanda, procurando por ela no meio da multidão, mas Sakura estava desaparecida.
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Sakura fechou a porta de sua galeria e ligou o alarme. Deixou as asas estúpidas no chão, com nojo. Não havia nenhuma maneira de vencer a multidão do lado de fora e chegar em casa.
É claro que ela não planejava voltar para casa aquela noite. Mas, de alguma maneira, tinha dito coisas terríveis, e não tinha a menor ideia de como chegara a esse ponto.
Os detalhes eram um pouco confusos... e a verdade é que ela deixara o temperamento e o orgulho dominarem seu cérebro.
No entanto, aquelas coisas precisavam ser ditas. Sasuke não mudara nem um pouco, e ela fora uma tola ao fingir o contrário. Nanami fora honesta com ela.
Havia uma garrafa de champanhe na geladeira do escritório, um presente de Natal que ela nunca levara para casa e que a atraía como um ímã.
As palavras de Sasuke a magoaram, mas ele poderia estar certo...
Ela se apaixonara. E sentia vergonha por ter feito isso tão facilmente. Ela imaginava estar crescendo como pessoa, experimentando coisas novas...
E Sakura odiava se sentir fraca. E odiava Sasuke por ter posto essa sua faceta mais uma vez em evidência.
A rolha saiu com facilidade, e Sakura bebeu direto da garrafa, pois isso parecia se encaixar melhor com seu humor. Ela abraçou a garrafa no peito, enquanto se sentava no canto do sofá do escritório, disposta a repreender a si mesma. Das profundezas de sua bolsa, ela ouviu o ruído de uma mensagem chegando ao telefone.
Seja lá o que for, eu não estou interessada.
Porém, com um suspiro, pegou o telefone e viu o nome de Sasuke. A mensagem era breve: "Eu só quero saber se você chegou em casa."
O que ela esperava? Um pedido de desculpas?
Claro que não. Não importa o quanto tentasse convencê-lo do contrário, ele nunca acreditaria que ela poderia cuidar de si mesma, que poderia sobreviver à maior festa de rua de sua cidade natal. Ele a enxergava como uma mulher fraca...
Ignore. Você não deve nada a Sasuke.
Ainda pensando nisso, seus dedos se moviam sobre a tela: "Estou em casa."
Não havia necessidade de revelar que estava na galeria, até porque ele poderia resolver aparecer por ali.
Ela passou uma noite agitada e miserável no sofá.
Quando os sinos da catedral começaram a badalar, chamando para os primeiros serviços da quarta-feira de cinzas, ela se arrastou para casa, atravessando as ruas quase desertas.
Surpreendentemente, Ino estava acordada, de ressaca.
— Meu Deus, Sakura, o que aconteceu? Você parece pior do que eu!
Sakura respirou fundo. Em seguida, começou a chorar.
