A.U – Universo alternativo.
Essa fic usa personagens de Saint Seiya ambientados em Vampiro, A Máscara parte do cenário do World of Darkness – Segunda Edição, publicado pela White Wolf. E obviamente nenhuma das duas obras me pertence.
Não custa repetir: Cross over entre minhas duas grandes paixões: CDZ e Vampiros. Como eu é que mando aqui e não o Kurumada ou o Justin Achilli estou tomando certas liberdades em relação aos personagens e a ambientação. Não vou seguir nenhum dos dois universos ao pé da letra, capisco?
Pois é... Fiquei tanto tempo sem postar que acabei colocando o capítulo X em duplicidade, me desculpem, estou enferrujada!
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Capítulo XI – A dor, o amor e o interesse.
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Chicago, Clube Masquerade, Elite.
Uma música suave começara a tocar na Elite alegrando os olhos verdes da Condessa – Eu adoro essa música, me trás boas lembranças. - Ela falou ao ouvido de Kamus. – Dancei-a muitas vezes com meu pai, quando ele era vivo... – Enquanto isso, vários casais se dirigiam para a pista pouco iluminada da Elite.
- Se te trás boas lembranças, por que não dançarmos? – Kamus falou ao ver que ela realmente estava radiante diante de uma lembrança de seu passado. Lembranças e passado... Até quando ele viveria disso? Por que ele se apegava as suas tristes lembranças, enquanto ela se deixava tocar por uma lembrança que lhe trazia felicidade? Olhos azuis, intensos, olhos iguais aos de Danielle... Mas por que tais pensamentos interrompiam seu claro e objetivo raciocínio? – Quando eu matá-lo tais pensamentos me deixarão, tenho certeza. – Pensou consigo.
- Não sabia que o Duque era um pé de valsa. – Ela falou em tom zombeteiro, embora a música fosse típica da década de vinte do século vinte. – Pois bem, aceito seu convite, meu senhor!
- My lady sabe pouco sobre mim. – Ele se levantou entendendo a mão a ela. – Espero causar uma boa impressão. – Ele disse num atípico tom charmoso enquanto beijava a mão direita dela. E obviamente tão gracejo não passou desapercebido pelos vampiros que atentamente observavam o casal.
- My lady? Mas que modos arcaicos são esses!? – Ela sorriu e caminharam rumo a pista. Delicadamente ele a envolveu pela cintura e estendeu o braço para segurar na mão dela, com maestria saíram girando pela pista. – Mas o senhor sabe conduzir muito bem uma dama! – Ela falou animadamente. E não é que ele sabia mesmo dançar?
- Não seria um cavaleiro completo se não soubesse conduzir uma dama, não é verdade? – O tom dele era bem mais leve, relaxado.
- Kamus, as pessoas não tiram os olhos de nós desde que chegamos...
- Eu já esperava por isso, Gabrielle. – Encostou os lábios ao pé do ouvido dela. – É bem possível que Saga e Kannon tenha feito muito para que tantos membros da Camarilla estivem aqui hoje afinal de contas... Aquela nossa recente história com o Toreador precisava de um desfecho cinematográfico. – Ele sorriu.
- Sem dúvida há o dedo do Príncipe e do Seneschal nisso tudo. E até seria constrangedor o fato de Kannon não tirar os olhos sobre nós se eu não soubesse que eles esperam uma bela encenação de nós, vamos dar a eles o que desejam? – Ela concordou com um gesto, logo em seguida Kamus deu um leve selinho em seu pescoço, fazendo-a se arrepiar. De fato, ele era bem atraente e não parecia nenhum pouco enferrujado em jogos de sedução, isso ela comprovara poucas horas antes tão logo se atracaram na Villa Del Vecchio. E tudo aquilo era apenas o começo, um bom começo, diga-se de passagem.
Kannon não tirava os olhos dos dois, fato. Havia deixado Saga conversando com Shaka enquanto preferia se unir aos exóticos freqüentadores do bar. Kamus estava levando aquela encenação a sério, até chamara a neófita para dançar! Beijara sua mão e agia como um verdadeiro "noivo" ostentando um ar de... Satisfação?
De certa forma ele não estava gostando nada daquilo, uma pontada atingiu seu coração morto: ele, Kannon, que deveria estar no lugar de Kamus, o noivo satisfeito. Achara muito sexy a Condessa usar os cabelos loiros tão curtos, realçava aquele alvo pescoço onde saltavam veias pequenas... O sangue dela deveria ser delicioso. Trocar vitae com ela... Deveria ser uma experiência incrível! Ainda bem que era só uma encenação, Kamus não iria tão longe, afinal era uma união de conveniência! O rosto fino premiado com dois olhos cor de esmeralda, aquela boca pequena e delicada era um tanto quanto tentadora... E que gênio! Era realmente invocada aquela Condessa. Decidiu-se. A tiraria para dançar. A próxima dança seria sua e ele faria com que ela não esquecesse daquilo tão cedo, estava realmente disposto a tê-la como mais uma de suas conquistas. Ninguém iria saber mesmo! Virou o copo de gim de uma vez e seguiu na direção do casal, a música demorara quase uma eternidade para acabar.
- Posso dançar com sua noiva, Kamus? – Falara em tom gentil ao dirigir-se ao Primogênito.
- Claro, Kannon. – Kamus fez um gesto de aprovação. – Gabrielle, vou até Saga. – Beijou-lhe carinhosamente a testa e virou-se para o Seneschal. – Kannon, cuide bem da dama de minha devoção. – Kannon esboçou um meio sorriso. – Claro, Kamus. – E o Primogênito deixou os dois a sós na pista dirigindo-se para a mesa de Saga.
- Condessa, permite-me. – Kannon estendera-lhe o braço para conduzi-la a um dos cantos da pista. Envolveu-a pela cintura e iniciaram a dança. – Ela está quieta. Por quê? Não falou nada ainda...Essa mulher fala pelos cotovelos, já percebi isso!
- Algo a incomoda, Condessa? – Perguntou gentilmente, mas já antevendo a resposta.
- Sim, a sua presença e ousadia me incomodam. Mas sou educada o suficiente para não demonstrar isso na frente de Kamus.
- Poderia ter recusado a dança, então! – Ele provocou.
- Não seria educado, dado que eu e Kamus estamos sendo o centro das atenções nesta noite. Não seria sensato recusar uma dança com o Seneschal mesmo que ele seja um porco, metido a espertinho e conquistador barato. – Mas por que estou sendo tão agressiva? Eu realmente não gosto do jeito dele, não, eu não gosto!
- Mas a Condessa realmente é hábil em pensar como nossos subalternos na Camarilla reagem, afinal de contas é muito próxima à ralé, não é verdade? Será que eles sabem que a sua boa apesar de linda é bem sujinha? Não é nenhum pouco delicado de sua parte falar assim comigo, minha querida. – Ele caprichara no tom debochado, irritando-a profundamente.
- Eu sei o que você quer Kannon. Pode perder suas esperanças por que não sei um prêmio no seu chaveiro. Vou deixar o Key Club, não vou competir com você, capisco? – Era a segunda vez que ele a deixava nervosa a ponto de misturar idiomas.
- Deixar o Key Club? Mas por quê? – Ele parecia desapontado. Assim ela perderia metade do valor dos pontos que ele poderia conquistar no Club dos entediados conquistadores Ventrue.
- Cínico! – Ela tivera vontade de deixá-lo plantado sozinho naquela pista de dança, mas seria muito constrangedor para ela e Kamus. – Deixarei o Club, pois não quero mais brincar com os sentimentos das pessoas, quero dizer, de alguns vampiros que ainda tem algo de humano. – Ela estava tão arrependida de ter se envolvido com Afrodite. Todo aquele charme do Toreador a levara a aceitar o desafio de transformar um Toreador em outra pessoa... Sem nem mesmo conhecer Milo, aceitou o pedido de Afrodite. Quem estava manipulando quem? Ela manipulara Afrodite ou ele a manipulara? E ela ao invés de abrir um caminho de glória para Milo, o levara a um caminho que nem ela mesma sabia onde iria acabar. O estrago na vida de Kamus então... Nem merecia comentários.
- O que é isso? Uma demonstração de humanidade, Condessa? – Ele não conseguiu esconder o riso sarcástico. – Não pode mudar o que você é, minha querida. Você é tão manipuladora quanto eu. Só está em meio a uma crise de consciência, que, aliás, é completamente dispensável a um verdadeiro Ventrue.
- Considere uma fraqueza minha. Sua opinião sobre mim não me interessa, Kannon. Se o caminho do sucesso requer que eu não tenha consciência e respeito por aqueles que devo conduzir então sou uma anomalia dentro de nosso clã. Enquanto eu estiver com Kamus, estarei apenas com ele, entendeu? Tenho honra e princípios que a sua mente doente não entende.
- Ah... Agora entendi... Kamus lhe contou sobre Danielle, não é? Precisava ver quando eu e Saga o conhecemos. Ele era mais cruel em batalha do que um membro do Sabbat, sádico! Não deixava que os adversários morressem. Ele os alimentava com o próprio sangue para poder torturá-los por semanas às vezes meses! Não satisfeito com isso... Kamus vez ou outra os transformava em vampiros e os deixava esperar a luz do sol para morrerem sentindo a dor dilacerante de terem seus corpos lentamente queimados pelo sol.
- Ele se arrepende disso para sua informação, Kannon. – Não acredito que Kamus possa ter feito coisas assim... Mas a julgar pela idade dele... E o que aconteceu com sua família... Ele realmente pode ter feito coisas assim... Mas eu senti arrependimento nele... Esse maldito está querendo me jogar contra o Kamus!
- Tiveram conversas intimas assim? – Kannon não gostou nada de saber daquele detalhe. – E você acredita que alguém com mais de mil anos de idade consegue se arrepender? Mudar da água para o vinho, Condessa? Como você é ingênua... – O sarcasmo na voz dele era realmente incômodo. – Aconteceu alguma coisa entre ela e Kamus e não foi apenas uma conversa... Preciso descobrir o que foi! – Kamus foi e ainda é um dos maiores torturadores do nosso clã, criança. Você já conheceu a sala de troféus dele? Peça para vê-la. Veja as peles dos Garous que ele torturou e matou! – Ele concentrou a atenção na aura dela para enxergar suas emoções e não gostou de ver que... Ela tivera uma relação há algumas horas... Ela e Kamus chegaram atrasados... Então... Eles... Sim, eles estiveram juntos! Agora Kannon estava realmente irritado.
- Os Garous mataram a família dele, Kannon. Garous são desprezíveis. Ele tinha todo o direito de fazer o que fez. Escuta, por que você está querendo me jogar contra ele? Não foi você e o seu irmão que me "obrigaram" a permanecer aqui em Chicago pra me unir a ele? Ei, olhe para mim, seu... Desprezível!
- Eu? Jogar-te contra o Kamus? Não, minha criança. Eu só não quero que você deixe o Key Club por causa dele. Só isso. – Será que era só isso mesmo? Aquela neófita possuía um idealismo fora dos padrões Ventrue e Kannon estava achando encantador. – Encantador? Não, definitivamente não. Era divertido isso sim. Mas ele não gostara de descobrir que os Kamus fizera com ela o que ele deveria ter feito, era SEU direito. – Eles são noivos, Kannon, podem fazer o que desejarem ainda mais entre quatro paredes, longe dos olhos do seu próprio Clã! – Kannon tentou racionalizar.
- Desista, Kannon. Eu vou entregar minhas chaves, decidi sair do Club e o farei. Não quero causar nenhum desgosto ao Duque e também... Nem vejo mais graça em seduzir por seduzir, eu já superei essa fase. Deixo isso pra pessoas mal resolvidas como você! Boa diversão, querido e continue em sua solidão eterna, por que é esse o seu destino. Quanto a mim, tenho uma pessoa honrada e que está disposta a recuperar sua humanidade para me dedicar e quem sabe uma noite destas eu possa aprender a amá-lo? Você sabe o que é o amor, Kannon? – Ela perguntou fitando-o bem nos olhos. – Kannon é bonito, muito bonito. Mas sua alma... Não reflete nenhuma beleza. Beleza realmente não quer dizer nada entre os vampiros... Como Kannon pode ser tão, tão simplório?
- O amor é uma desculpa para sentimentais. Isso não existe. É uma bela piada. Olhe o Saga. Ele acha que ama Verônica, mas no fundo é só uma obsessão. Amor é o refúgio dos idiotas. É a desculpa para existirem fracos. – Se você pensa isso mesmo, Kannon, por que se incomodou quando ela disse que pode aprender a amar Kamus? Que deseja dedicar-se a ele?
- Essa é a diferença entre você e Kamus. Ele amou um dia e isso está ajudando-o a não sucumbir diante da Besta. Agora você... Coitado de você, Kannon... Não tem nenhum sentido e se prende a conceitos tão mesquinhos para existir... Sim, existir. – Ela enfatizou. – Não acredito que você um dia tenha vivido. Quem é obcecado aqui é você! Tudo é competição! Tudo! Chega uma hora em que isso não é tudo, existe mais, muito mais. E eu acredito que Kamus por ter amado é muito mais valioso do que qualquer vampiro que esteja neste lugar. Ele admite isso e mesmo que mais de um milênio depois ainda se lembra de como amava Danielle! Limpe sua boca, melhor, limpe sua alma antes de tocar no nome da esposa de Kamus, entendeu?
A música estava acabando. O sorriso sarcástico de Kannon desaparecera. – Obrigada pela dança, Condessa. Foi realmente muito agradável conversar com sua nobre pessoa. Creio que haja outros cavaleiros neste ambiente que adorariam conduzi-la em uma dança. E Kannon estava certo. Afrodite já se postara a poucos metros deles e se aproximava. Kannon cumprimentou-o com a cabeça e um sorriso receptivo, deixando-a nas mãos do mais belo Toreador de Chicago.
- Permite-me, Condessa? – Ele falou com toda a graça que lhe era peculiar.
- Claro, Afrodite. A honra pertence a mim. - Ele a envolveu pela cintura e estendeu o braço para segurar na mão dela.
- Não tivemos tempo hábil para nos falarmos após a have Brujah, Gabrielle. – Afrodite sussurrou sedutoramente seu nome ao pé do ouvido dela. – Você não me contou sobre seu compromisso com Kamus, minha pequena... Senti sua falta...
- Desculpe-me, Afrodite... Eu não podia falar nada até que o Príncipe acertasse minha vinda oficialmente para Chicago... São tradições do meu clã, são mais fortes do que eu. – Não se deixe levar pelas palavras doces dele, Gabrielle...Ele é tão... Desejável. Contenha-se, você é uma vampira comprometida agora!
- Será que pode me explicar por que escolheu seu próprio noivo para ser envolvido na ascensão do meu pupilo? – Ele ostentara um ar de homem traído e... Desejável, e ela se amaldiçoava por ter pensamentos obscenos com aquela figura tão andrógina e masculina, definitivamente um ser sobrenatural que não mais podia se mostrar aos mortais tamanha era sua condição inumana, quem diria que a beleza podia ser uma maldição? No caso dele, era. Sua beleza o restringia ao contato com vampiros e os seletos humanos que freqüentavam o Masquerade.
- Por que... De certo modo... Eu posso controlar as atitudes de Kamus e não permitir que ele faça nenhum mal ao Milo. E Kamus como Ventrue... A vitória do Milo seria ainda maior... Numa arena Brujah... – Era realmente difícil resistir ao charme de Afrodite. Ela estava sofrendo para raciocinar e não entregar a besteira que fizera.
- Mas você sabe que esse seu compromisso com Kamus está roubando a atenção do meu pupilo, não sabe? – Afrodite realmente gostava de usar seu poder sobre as pessoas. Estava realmente chateado com as omissões da Condessa.
- Mas pelo menos agora... Milo... Milo criou um nome, não é? E ganhou a simpatia de muitos... Certamente deve ter... Se... Portado bem na reunião de seu Clã ontem à noite, não? – Será que essa música vai demorar muito para acabar? Afrodite está pegando pesado comigo... Ai, maldita hora em que eu fui deixar o Club... Mas quem é que está no controle aqui? Não sou eu! Pêra aí. Acorda Gabrielle que ele está usando seus dons sobrenaturais sobre você!
- Sim, ele se portou maravilhosamente bem. Reconheço que fizeste um belíssimo trabalho com ele. Cuide para que Kamus não encoste em um fio de cabelo do meu pupilo, Condessa. – Ele precisava fazer com que ela sentisse rancor dele, alguma mágoa. Máscara da Morte fora bem claro em sua ameaça e com aquele brutamontes ele sabia que não existiam meias palavras. Ele até gostava um pouco daquela neófita... Mas... Não havia lugar pra esse tipo de sentimento na sua vida. Tinha um clã para controlar e um chantagista para agüentar. Finalmente a música acabara.
- Muito obrigada pela dança, Afrodite. Foi muito agradável. Agora se me permite estou cansada, vou me sentar.
- Sinta-se a vontade, Condessa. Foi um quase um prazer dançar com a senhorita. – Ele a libertou da influencia de seus poderes sobrenaturais e a viu se afastar.
Enquanto Gabrielle vivia seus dilemas na pista de dança. Kamus finalmente conseguira conversar com Saga. Tinham assuntos a resolver. Shaka deixara Saga e Kamus a sós na mesa. O Malkaviano sabia que os dois teriam muito que conversar.
- Saga.
- Kamus.
- Posso me sentar?
- Claro.
- Precisamos conversar sobre minha união com a Condessa. Você assumiu o papel de mediador não?
- Foi necessário, Kamus. Você sabe tudo o que estava em jogo.
- Sim, eu sei. Mas deveria ter me consultado antes como regem nossos costumes.
- Não houve tempo. Tínhamos que ser mais rápidos do que a língua dos neófitos. E por isso tivemos sucesso.
- De fato, o sucesso é visível. Não há muito o que discutir a respeito. Já aconteceu, especo que seja honrado e consulte-me em decisões que me envolvam diretamente. Falemos então dos tramites legais do que irei oferecer a Condessa por essa união.
- E o que tem em mente, Kamus?
- Metade dos meus bens e a Villa del Vecchio.
Saga começou a rir. – Pensei que essa propriedade seria vendida a mim, Kamus. Vai entregar pra ela uma propriedade tão valiosa? Ela sabe que você conseguiu aquela propriedade matando o chefe de uma tribo de Garous? Sabe dos quadros? Afrodite também queria comprá-la de você, mas pensei que eu teria prioridade na compra. Eu até entenderia se fosse somente a propriedade, mas o que tem lá dentro é muito mais valioso! Nem vou comentar a respeito dos seus bens. Não vou permitir isso. Onde você está com a cabeça, Kamus?
- Como mediador, deveria você defender os interesses dela, Saga. A propriedade e tudo que ela contém será da Condessa e sim, eu passarei metade de minha fortuna a ela. Quero que isso seja notório e publicado na ata da próxima reunião do Diretório. A Condessa está abrindo mão de sua vida no Brasil para permanecer em Chicago e resgatar minha honra, ela será bem recompensada por isso.
- Kamus, você tinha recursos suficientes para se candidatar a uma posição na Gerousia da América do Norte, está abrindo mão disso, compreende?
- Estou ciente, Saga. Sabia que defendia meu patrimônio não por mim, mas pelo que posso oferecer ao Diretório de Chicago, você é realmente previsível para assuntos políticos. Não se preocupe, eu terei essa posição, tenho tempo e multiplicarei meus dividendos. Não tenho pressa por mim e não a terei por você. – O olhar de Kamus era gélido e desagradara a Saga, mas o Primogênito não estava preocupado com a decepção do Príncipe naquele momento – Quero também que ela como minha consorte se torne Whip do nosso Clã, afinal de contas deixará de ser uma harpia.
- Isso eu não posso aceitar, Kamus. – Saga estava transtornado com as decisões de Kamus e não escondia isso.
- Pode e vai aceitar, Saga. Não estou pedindo a você, estou comunicando minha decisão como Primogênito do Clã Ventrue. Você é o Príncipe e suas decisões envolvem a política da Camarilla, do Clã Ventrue cuido eu. Se você apoiar será mais fácil para que os outros aceitem, se não apoiar minha decisão todos terão que aceitar de qualquer forma. Tome isso como um fato.
Kamus conseguira irritar Saga. Ele estava a ponto de estourar devido a ameaça do ataque Sabbat e ter seus planos frustrados em relação a mais uma posição nacional conquistada por um Ventrue de Chicago era... Quase a gota de água que faltava para que ele estourasse. Mas a noite ainda lhe reservaria surpresas.
- Kamus, se não estivemos em um lugar tão público eu realmente discutira com você. Mas diante dos reais problemas que tenho pela frente, suas decisões atípicas realmente são a última das minhas preocupações. Faça como quiser e espero muito, muito que você se arrependa da pior forma possível.
- O que é que está te preocupando de verdade, Saga? – Kamus o conhecia relativamente bem. Havia algo mais a preocupá-lo, Saga não bateria boca com ele a troco de nada, se bem que... Uma posição na Gerousia não era o que se poderia ser chamado de "nada".
- Um iminente ataque Sabbat a Chicago. – Saga falou, sem rodeios.
Kamus não conteve a surpresa. – Como assim? Eles não seriam loucos a tal ponto.
- Sim, eles são loucos a tal ponto e acontecerá em breve.
- Isso é realmente preocupante, quando o Conselho Primogênito será reunido? – Kamus, objetivo como sempre.
- Amanhã à noite e conto com você para lutar.
- Lutarei, sem dúvida. Saga, preciso ir. Eu e Gabrielle temos negócios a resolver.
- Vá, nos vemos amanhã à noite. – Eles educadamente se despediram. Kamus não era dado a discussões, mas quando decidia algo... Ele sempre ia até o fim mesmo que se arrependesse depois.
Discretamente Saga procurou Verônica com os olhos. Ela não se encontrava naquele ambiente. Procurou o irmão, encontrando-o no bar conversando com Mu. – Kannon, onde está Verônica? – Perguntou-lhe usando seus poderes telepáticos. Hora da gota de água para que Saga explodisse.
- Você não viu?
- Deveria ter visto o que, Kannon?
- Ela saiu.
- Como assim... Saiu? Saiu pra onde?
- Pra onde, eu não sei. Mas ela saiu.
- Verônica nunca sai do Masquerade, Kannon.
- Mas ela saiu, Saga. Levou três seguranças com ela.
- Você mandou alguém segui-la?
- Sim, irmãozinho.
- Vou embora, Kannon. Assim que descobrirem onde ela foi me comunique. Não dormirei enquanto não souber onde aquela teimosa foi! Deixar a segurança do Masquerade nesse momento não foi muito sensato da parte dela.
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Chicago, Mansão Oresund.
Num dos quarto da mansão Oresund a festa particular de Milo e Tétis seguia animada. Definitivamente estavam dispostos a passar a noite inteira em meio a jogos eróticos.
Enquanto isso, um preocupado Afrodite deixava-se cair num dos confortáveis sofás de seu escritório. Manipular Pandora não era tão fácil quando manipular a Condessa. Precisou apenas de algumas noites tórridas com a Ventrue para que ela pensasse estar no controle da situação, Ventrue... Eram tão previsíveis. Mas no fundo havia se apegado a ela, mas não era louco de colocá-la na lista de executáveis de Máscara da Morte.
Sentiu um arrepio ao lembra-se de seu antigo amor, e hoje, desafeto. Mais de cem anos haviam se passado e no fundo Afrodite continuava o mesmo: hedonista, sedutor e um inveterado fã de apostas altas. Geralmente ele se saia bem em seus arriscados planos, mas... Quando apenas um deles deu errado... Transformara o que, na época, ele não entendia ser amor em um ódio tão grande que... Acabara. O ódio entre ele e Máscara da Morte era recíproco. O amor, apenas a lembrança de um passado tão morto quanto os dois.
Afrodite não era mal, nem bom. Era apenas um Toreador interessado nas luzes e no glamour de ser o centro das atenções e para isso precisava de poder. Não deveriam haver muitos princípios no caminho que levava ao estrelado, e quando ele se sentia tocado por algum arrependimento ou valores como honra, amizade e amor, procurava lançá-los sob o tapete. Mas eles ainda existiam. Em algum lugar dentro dele.
Poucas coisas ele não conquistara ainda. Queria a qualquer custo ser Príncipe. Pretendia retornar a seu país natal para levantar uma Práxis contra o Príncipe de Estocolmo e tomar-lhe o Principado. Tinha status e apoio político o suficiente para tirar aquele infeliz do poder. Mas seu verdadeiro sonho era ter Chicago, ser Príncipe de Chicago. Se ele e Máscara da Morte não se odiassem tanto e unissem suas forças teriam conseguido de alguma forma tirar Saga do poder. Afrodite queria Chicago, amava aquela cidade que lhe daria o que ele realmente queria: todas as atenções dos mais poderosos vampiros do mundo, e ele estaria entre as verdadeiras lendas da Camarilla.
Um passo de cada vez. Primeiro cuidar da ascensão de Milo, depois partir para Estocolmo para ganhar a disputa de Práxis enquanto Chicago seria destruída pelo Sabbat. A Camarilla enfraquecida seria fácil de ser manipulada. Ele já sabia das movimentações nos territórios anarquistas, Saga confirmara isso algumas horas antes. Certamente Saga ficaria desmoralizado diante de um confronto com o Sabbat, não teria condições de permanecer no Principado! Afrodite só precisaria chamar a Práxis, fazer um discurso e conquistar apoio para tirar Saga do poder.
Kannon era uma carta fora do baralho, não tinha a simpatia da maioria dos anciões que só o respeitavam por ser irmão de Saga. Kamus. Até pouco tempo atrás o preocupava, era um concorrente forte, mas de certa forma a Condessa ajudara a enfraquecê-lo politicamente: primeiro por que ele perdera de modo humilhante uma luta para um Toreador, e isso representaria uma mácula na imagem mais do que perfeita que o Príncipe de Chicago precisava ter depois... Não satisfeito, Kamus se uniria a uma neófita que não tinha nenhum laço com Chicago. O Príncipe de Chicago precisava ser inabalável, quase um Deus, e ele era divino, o espelho lhe dizia isso.
Milo, caíra como uma luva em seu plano! Seria o peão perfeito em seu complexo jogo de xadrez. Tinha fama de anarquista em Atenas, Afrodite ficou de olho nele exatamente por isso. Milo conquistara o respeito dos Brujah que seriam decisivos na disputa da Práxis fosse contra Saga, (se ele sobrevivesse ao ataque)... Fosse contra Kamus. Milo ficaria feliz como Primogênito Toreador... Como era próximo de Aioria, o Primogênito Brujah... Certamente Aioria por suas diferenças mais do que notórias com Saga... Apoiaria a ele, Afrodite. Bastava levantar a práxis! E quem Aioria apoiasse, seria o novo Príncipe de Chicago! Pois tantos os Malkavianos quanto os Nosferatu seguiriam o voto de Aioria. Isso era um fato.
Afrodite só tinha que se preocupar em criar um atrito entre Aioria e Kamus, já que eles se davam bem consideradas as diferenças entre seus clãs. Precisava abalar esse relacionamento de alguma forma, ele só não sabia ainda, como iria fazer isso. E sim, claro, fazer com que Máscara da Morte desaparecesse da face da Terra muito discretamente.
Chamou com a campainha um de seus ghouls que rapidamente entrou no amplo escritório.
- Eles ainda estão no quarto? – Perguntou com uma voz desinteressada.
- Sim, meu senhor.
- Pode se retirar.
Afrodite se levantou e bocejou. O dia nasceria em breve e apesar do cansaço, tinha que executar mais uma parte de seu plano: conquistar a afeição e confiança de Milo. Definitivamente era uma parte deliciosa do seu plano, por que o garoto era um vulcão na cama ( a noite passada fora memorável) e não havia lugar melhor para tratar de política do que numa confortável cama de dossel. Tétis. Tola e fogosa Tétis. Fora muito útil em entreter Milo durante a noite, agora era a hora dela sair de cena.
- Vamos ver até onde esse rapaz pode ir, comigo, é claro. – Falou enquanto ia deixando suas peças de roupa pelo chão, formando uma visão ao mesmo tempo bela em sua aparência e terrível em suas intenções.
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Chicago, zona industrial nas margens do Lago Michigan.
Mascara da Morte acendera mais um cigarro e sozinho observava o reflexo da lua nas poluídas águas do Lago Michigan. Se lembrava de que nem sempre o lago fora sujo, engraçado pensar isso, por que era mais ou menos assim com ele: nem sempre ele fora sujo.
Há muito tempo, fora um ser humano e as pessoas gostavam de estar perto dele. Era jovial, falante e cativante. Hoje, elas se afastavam por que ele mudara e para pior. Difícil considerar que houvesse vampiros de caráter e definitivamente o seu havia desaparecido assim como a sua necessidade de respirar. Era apenas um cadáver ambulante que não poderia morrer nunca de câncer no pulmão. Uma pena. Bebeu um gole de whisque no gargalo da garrafa, estava cada vez mais difícil ficar bêbado e havia horas em que ele realmente queria esquecer tudo e todos a sua volta. Mas existiam as responsabilidades e ele as tinha em grande quantidade.
Em sua existência nunca houve espaço para meios termos. Tudo era oito ou oitenta: ou ele realmente era leal e justo até mesmo bondoso ou se transformava no maior inimigo que alguém poderia não querer ter em seu encalço. Sim, sua vontade era de ferro e ele soube esperar pelo momento certo para executar seu plano. Mais algumas noites, apenas mais algumas noites e seus inimigos começariam a cair. Acendeu outro cigarro e sorriu imaginando como eles iriam sofrer e talvez nunca suspeitassem de que ele fora o articulador de suas vertiginosas quedas.
- Vampiros... Odeio todos vocês, todos!
Ele se levantou e arremessou a garrafa vazia em um latão próximo. Em momento algum percebera que um homem envolto em um manto negro o observava e estudava cada um dos seus movimentos.
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Chicago, Biblioteca Central.
"Verônica, não decepcione meu irmão..." As palavras de Aioria ecoavam em sua mente. Agora ela estava parada na frente da Biblioteca Central tomando coragem para entrar. Como era tola. Como era tão cega. A devoção de Aioros era bem mais sincera do que ela esperava. Ouvir sobre o que ele fizera por ela deixava-a ainda mais perturbada.
- Verônica? O que faz aqui? A luz dos postes pode queimar sua pele! – Ouviu a voz suave e preocupada de Aioros. – Vamos, entre antes que se machuque!
Ela estava tão imersa em seus pensamentos que esquecera até mesmo de sua sensibilidade sobrenatural diante da luz. Nem se dera ao trabalho de colocar uma proteção ao deixar o Masquerade.
- Aconteceu alguma coisa, minha querida Verônica? – Ele a conduzia pelo saguão da biblioteca o cheiro daqueles livros envolveram-na, fascinando-a... Tanto conhecimento naquele lugar... Tantas respostas para perguntas... Aquele lugar era a cara de Aioros e ele não escondia seu orgulho em tê-lo fundado, queria levar o conhecimento a todas as pessoas que pudesse, era realmente um homem bom e ela uma mulher má. O que ela fazia pelas pessoas? Nada. Aioros vivia para os outros, e acima de tudo vivia para ela. E o que ela fazia? Nada. Aioria estava certo em ter lhe dado um ultimato. Tinha que dar o braço a torcer, ninguém nunca fizera tanto por ela sem pedir nada em troca. Afinal de contas, no mundo existia apenas um Aioros.
- Aioros, eu soube do que você fez. Não, não me interrompa, por favor. Soube que negou entregar-me a minha família. Por que se arriscou tanto?
- Por que a amo, Verônica. Somente por isso.
- Não quero que Chicago seja atacada por minha culpa, não quero ter mais mortes em minha consciência... Não mereço seu amor. – Ela pensou em Saga, por que tinha que amar a ele? Não seria mais simples se ela conseguisse amar Aioros?
- Fiz o que acreditei ser o certo e Saga concorda comigo, Verônica. Vamos lutar para proteger a cidade e você não tem culpa de nada. É exatamente isso que eles querem que você se sinta culpada e se entregue. Mas você não o fará, não permitirei isso.
- Aioros, eu não quero. Contate o Sabbat e me entregue. – Ela mostrou decisão em sua voz, afinal de contas era o certo a se fazer.
- Verônica, eu sempre faço o que você quer, mas sua vida não é algo negociável para mim, entende, minha querida?
- Não mereço toda essa consideração, Aioros. Eu tenho que me desculpar com você por tudo... Não pensei que você falasse sério quando dizia que me amava.
- Eu não costumo brincar com coisas sérias, minha querida. Nunca menti ou escondi o que sinto por você. Foi meu irmão que tirou sua paz, não foi?
- Foi... Quero dizer, não. Eu apenas conversei com ele sobre... Nós.
- Não precisa ficar cabisbaixa, Verônica. Nem se sentir culpada, você não tem culpa por não me amar, sei que seu coração pertence ao Saga, não há nada que eu possa fazer para mudar isso. – Ele sorria enquanto levantava o rosto dela. Colocou-se de joelhos na frente dela. – Vamos, não fique assim. Meu amor por você é o suficiente para mim. Vou ter uma conversa muito séria com meu irmão, ele não tinha o direito de invadir a sua vida.
- Tudo o que Aioria falou... Tinha sentido, eu é que não queria entender isso. Pensei que você fazia todos os meus caprichos somente como meu submisso. Tanto que... Entre todos os meus submissos... Você sempre foi o meu preferido, por ser o mais dedicado o mais disposto a enfrentar os limites da dor... Mas... Pensei que era apenas a nossa relação de dominação que existisse. Eu sou caprichosa, admito. Gosto de dominar, sim, adoro isso. Mas... Sinceramente Aioros? Acho que não posso continuar esse jogo com você. Você é um homem que merece realmente mais do que isso. E sinto por não poder dar a você o que deseja, eu realmente não posso...
- Eu gosto das coisas como elas estão, Verônica... Gosto mesmo. Desde quando fizemos aquela viagem de Madri para Londres, eu, você, Saga e Kannon – Ele sorriu e seus olhos brilhavam - Nunca fui tão feliz em minha vida. Não me prive dessa felicidade, por favor... – Ele apertou com delicadeza a mão gelada dela. – No começo foi difícil entender que você amava o Saga e me usava e ainda usa para fazer ciúmes a ele, como fez ontem a noite... Mas eu me permito ser egoísta e saber que... Eu já te beijei e ele não. Eu já passei noites inteiras nas suas mãos, e ele não. Querendo ou não, eu já tive mais de você do que o Saga. Estou certo, não estou? Você não teve nada como ele ou com aquele doente do Kannon, não é mesmo?
- Sim, você está certo. Eu não me dobrei a ele, quero dizer a eles. E nem eles a mim. – Um pouco da Mistress finalmente aparecera. Aioros gostava de ser isso em Verônica.
- Essa é a Verônica que eu conheço e amo! Não dê crédito as palavras de Aioria, tivemos uma discussão ontem, meu irmão é muito diferente de mim. Mas acho que ele finalmente foi tocado pelo amor e bem, quando se ama, não temos chão sob nossos pés.
- Você está falando daquela humana, a Marin, não é?
- Sim, dela mesma. Fiquei muito feliz em saber que ela está no Masquerade, sei que você irá tratá-la muito bem com o seu jeitinho particular de mostrar que gosta de alguém – Ele sorriu e ela retribuiu o sorriso.
- Eu gostei dela, tem muita fibra. Mas acho que seu irmão vai sofrer muito por ela ser humana... Acho difícil que Saga permita que Aioria a abrace e a torne uma Brujah.
- Quando Aioria sentir que é o momento, eu conto com sua ajuda para que meu irmão cabeça dura não sofra. Interceda junto a Saga, por favor, acho muito difícil ele negar um pedido seu, se ele não puder transformá-la, faça-o você. Ao menos ela será imortal.
- Eu acho que seu irmão não gostaria de me ver metida a tal ponto, Aioros... Farei o que puder, por que você nunca me pediu nada. É a primeira vez em tanto tempo que nos conhecemos que você me pede algo e nem é para você, Aioros. Por que faz isto?
- Por que desejo que meu irmão seja feliz, a felicidade dos que amo é mais importante do que a minha, Verônica. Vamos, me diga o que posso fazer para que você volte a sorrir?
- Posso passar o dia com você? Já vai amanhecer... E eu não quero dormir sozinha hoje...
- Quer dormir comigo?
- Sim, quero muito.
- E depois podemos "brincar" um pouco? Sinto falta dos nossos encontros...
- Você quer mesmo? – Os olhos dela brilharam.
- Mas é óbvio que sim, adoro servir você, minha Deusa.
- Aioros você não existe. Como pode ser tão maravilhoso?
- Isso é você quem diz minha querida. Vamos, meu quarto fica no subsolo da biblioteca.
Ele a conduziu por uma série de escadarias que levavam até seu refúgio. Verônica nunca estivera ali, afinal de contas Aioros sempre ia até ela e não o contrário. Tudo estava metodicamente arrumado. Aioros era muito organizado. O lugar era bem amplo e parecia uma extensão da biblioteca acima dos dois. Estantes e mais estantes de livros em idiomas que há muitos séculos não eram falados, mas que aquele homem dominava com maestria. Ele notou a surpresa dela e sem esconder o orgulho que sentia por seu legado apontou para uma estande e falou:
– Muitos desses livros são sobre a nossa espécie, minha querida. Existem também tratados sobre medicina e filosofia medieval que foram considerados perdidos pela humanidade, mas estou tentando gradativamente colocá-los a disposição do público, Aioria tem me ajudado nisso com seus contatos na Universidade de Chicago. Alguns foram escritos por mim ao registrar a história do meu clã e são dados aos jovens Brujah que desejam aprender, infelizmente poucos se interessam por coisas tão velhas...
- Aioros, quem sabe que você tem tudo isso aqui?
- Poucas pessoas. Meu irmão e Ikki sempre entram aqui quando querem. Shaka vez ou outra me pede alguns livros sobre a história dos treze clãs e suas lendas, você sabe que eles são proibidos pela Camarilla, não sabe? – Ela concordou com a cabeça. – E esses aqui são sobre magia e arcanos. Ensinam como um vampiro pode aumentar seus poderes através do uso da magia. Os Malkavianos tem muito interesse nesses exemplares. Agora... Existem alguns que eu guardo no cofre por que são realmente perigosos... Você quer vê-los?
- Perigosos? Como assim? Não me diga que... Você tem material de infernalistas? Até no Sabbat eles são caçados!
- Consegui reunir uma coletânea sobre linhagens desaparecidas de nossa espécie e... Não gosto nem de tocar nesse assunto, por que aqueles livros são a verdadeira representação do mal, estão vivos, feitos de pele humana e escritos com sangue... São livros de invocações de demônios, minha querida. São realmente perigosos. Tentei destruí-los, mas nem com fogo e água eles se desfazem, possuem uma proteção mística feita do mais puro mal e podem corromper aqueles de mente fraca. Nem Aioria nem Ikki tem a chave deste cofre e me deram a palavra de que nunca tocariam nestes livros que podem dar a qualquer um o que desejar, mas pedirão a alma e a morte de inocentes em troca, na melhor das hipóteses.
Verônica estava chocada com a revelação dele. - Aioros, você nunca se sentiu tentado em usá-los?
- Não. Nunca, Verônica. – A voz dele era tranqüila e realmente mostrava que ele nunca tivera intenção de usar aquele conhecimento, embora o mesmo pudesse dar qualquer coisa que ele desejasse.
Aioros era um filosofo e tinha muito conhecimento, Verônica sabia. Era a pessoa mais inteligente que ela conhecera. Mas diante daquelas revelações ela só podia chegar a uma conclusão: Aioros poderia ter alcançado a Golconda... Mas isso era uma lenda! Ele era calmo demais para ser um Brujah, limita-se sempre ao espaço da biblioteca, não ia atrás de ninguém (exceto dela)... Alimentava-se muito pouco, o que não condizia com sua idade avançada. Diziam tais lendas que se o vampiro conseguisse controlar seus instintos e conter a Besta, tornava-se menos suscetível a necessidade de sangue e aos pecados da existência vampírica e Aioros tinha uma aura diferente, era literalmente uma pessoa iluminada. Até então ela pensara que tal iluminação era devido a grande inteligência dele, mas agora parecia fazer sentido por que ele era tão diferente de qualquer outro vampiro que ela conhecera.
- Aioros... Você... Não me diga que, você... Você conseguiu Aioros? – Ela não podia acreditar naquilo.
- Se refere à Golconda? Sim, eu acredito que tenha conseguido. Meu remorso, meu arrependimento e a aceitação da minha condição de amaldiçoado a beber sangue pela eternidade me elevaram a uma compreensão do mundo e de mim mesmo. Consegui aceitar a Besta e ela me aceitou; somos opostos, somos uno. Precisei ser cruel e santo, conhecer o purgatório para trilhar a Golconda. Queria poder lhe dizer como consegui isso, mas é uma trilha pessoal onde o auto conhecimento e os extremos são a base da busca... Desde o meu abraço... Eu busco estar em paz comigo mesmo e com todos a minha volta até mesmo com Saga. Mas ele é que espartano, não eu. – Como ele conseguia fazer uma piada tentando fazer parecer normal a lenda máxima entre os imortais? Tratava-se da Golconda!
- Seu irmão sabe disso? Aioros, você... – Ela o abraçou. Por isso você é "assim".
- Aioria não acredita na Golconda, querida. Agora você entende por que sou tão calmo e vivo em paz enquanto todos estão em conflito. Viver tais conflitos é parte desse processo de crescimento, mas compreendê-los e aceita-los é a parte realmente difícil. – Sua expressão tornou-se séria – Queria que você ficasse com a chave do cofre, a senha é a data do seu aniversário. – Ele sorriu. - Não confio nem em meu irmão para ficar com esta chave, Aioria ainda tem que sofrer muito para não ser tentado pelo que está lá dentro. Caso alguma coisa aconteça comigo, entregue essa chave ao Mu. Ele saberá o que fazer com toda a maldade que está lacrada lá dentro.
Ela pegou a minúscula chave eletrônica. – Aioros... Eu não mereço tamanha confiança, tenho medo de ser tentada... Todo esse poder...
- Olhe bem para mim. Você tem tudo o que quer menos o Saga, ao menos por enquanto. E você sabe que amor é algo tão grande que nem a magia pode te dar o que deseja. Pode te dar a ilusão de ter esse amor, mas não fazer com que alguém te ame sem que desgraças aconteçam contigo. O livre arbítrio existe e o céu e o inferno podem tentar manipulá-lo, mas essa liberdade de escolha é maior do que nós. Você tem a chave e a senha, a escolha é sua, e a julgar pelo que conheço de você, não é o tipo que apela para o caminho trilhado pelos fracos de espírito, você consegue o que quer com as suas próprias mãos. Por isso eu te amo e amarei por toda a eternidade enquanto eu viver e após minha vida. Carrego essa certeza no coração desde que a vi pela primeira vez, Verônica.
Ela desmoronou, lágrimas doloridas brotaram em seus olhos. Não, não tinha nenhuma palavra para dizer, só conseguia chorar e abraçá-lo. Ele por sua vez afagava seus cabeços e ternamente a consolava com palavras doces. Tudo nele era doce e inspirava respeito e admiração. Por que um homem que tinha tudo nas mãos se colocava sob os pés dela? Ela realmente não merecia tudo aquilo, mas ele achava que sim e que ela só estava passando por uma fase ruim. Aioros falava que ela precisava ser forte por que tempos difíceis viriam e ela precisava continuar escrevendo sua história com as próprias mãos.
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Chicago, Clube Masquerade, Porão.
Marin mal conseguia acreditar que havia sobrevivido a tumultuada reabertura do Porão. Como era de se esperar, fora um sucesso. E ela tivera força e vigor o suficiente para controlar todos os problemas da noite, colocando três ou quatro arruaceiros bêbados para fora do estabelecimento.
O Rage fora um sucesso no palco, ela só se lamentou por não ter lembrado de levar uma filmadora para registrar a performance arrasadora de Hyoga nos vocais. Ele realmente estava inspirado naquela noite! O loirinho cantou com a alma e o público foi ao delírio.
Infelizmente os meninos não puderam ficar para ajudá-la a arrumar as coisas, dado que... O sol era um perigo para a existência deles. Ela não se importou muito com isso já que ela queria mesmo era ficar sozinha, a lembrança do beijo daquele vampiro maldito ainda estava na sua boca e o sangue dele a deixara mais do que disposta para arrumar tudo no lugar antes de finalmente encostar a cabeça no travesseiro.
Por varias vezes ela se pegou olhando na direção da entrada esperando que ele retornasse, mas... Ele não apareceu. Sentiu um aperto no peito por isso. Deveria estar puta da vida com ele, já que... Dera toda a bandeira do mundo que estivera a fim dele e... Aioria mão quis ter algo mais com ela, não uma aventura, mas algo mais. Sentiu um friozinho no estomago ao lembrar das palavras dele: "Desculpe... Mas eu não quero você por uma noite ou pra uma aventura, eu quero mais." – Será que ele queria dizer que... Era realmente isso que ele queria ou não passava de uma encenação para conquistá-la? Na hora ela só pode sentir raiva dele, mas agora... As palavras dele ecoavam fundo na sua mente.
De qualquer forma, ela não teria respostas tão cedo e na verdade, talvez não quisesse respostas, tinha medo de ter se apaixonado por Aioria, e ela não se perdoaria se isso realmente fosse real.
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Chicago, refúgio do Príncipe, localização desconhecida.
O sol já se mostrava alto no horizonte, Saga sentia, apesar das imensas paredes de concreto que o protegiam daquela luz terrível, ele não demonstrava nenhum sinal de que se deixaria levar pelo sono dos amaldiçoados.
Seus cabelos estavam desalinhados, sua expressão demonstrara que ele havia vertido lágrimas de sangue. Caminhava desanimado de um lado para o outro para aliviar a tensão que tomava conta de seu corpo frio. Suas vestes estavam amassadas, desarrumadas, parecia que ele havia sido atropelado por um trem. Mas na verdade, elas tinham sentido o toque quente do sol e da maldição vampírica.
Ficara na porta da Biblioteca Central até QUASE o sol tocá-lo a fundo, quase cometera suicídio, não morrera por ter sido socorrido a tempo por seus fiéis ghouls. Mas ele não se importava com o fato de que teria morrido. O que não saia de sua cabeça até agora era: por que Verônica fora até a biblioteca? Claro, ela fora se encontrar com Aioros. Mas... Por quê? Por quê? Será que... As lembranças de vê-la beijando o Brujah no meio do Masquerade o deixaram ainda mais irritado. Era diferente pensar que ela tinha algo com Aioros e diferente VER que ela realmente costumava ficar com seu maior inimigo.
Inimigo? Saga e Aioros eram realmente inimigos? Se eram de fato, por que não se mataram em mais de dois mil anos? Oportunidades eles tiveram. Eram tão diferentes, mas sempre, em todo esse tempo, mesmo em lados opostos, conviveram; às vezes até se ajudando, como fizeram ainda neófitos na Grécia ao expulsarem os Persas ou na Idade Média quando até salvaram a vida um do outro, mas... Houve o "fator Verônica", e tanto ele, como Aioros e Kannon se apaixonaram pela Lasombra.
Saga estava de SACO CHEIO dos jogos de Verônica, ele realmente a amava. E... Sentia que talvez ela realmente preferisse ficar com Aioros, afinal de contas o Brujah poderia assumi-la como mulher diante de todos (e ela merecia isso), enquanto ele... Teria que escolher entre se tornar um párea expurgado do clã Ventrue ou continuar a seguir com sua missão. Ser um líder não era fácil, e ele sempre o fora, por isso era um dos mais brilhantes e admirados Ventrue do mundo, sem exageros.
No final das contas, ele finalmente tinha que admitir que Aioros fora o único amigo que tivera em toda sua existência, os séculos comprovavam isso. Não o matou quando teve oportunidade e Aioros idem. Ele perderia Verônica para o Brujah. Era questão de tempo para que isso acontecesse, e ele daria um basta nesta situação. Os jogos acabariam, e ele continuaria seu solitário caminho em dirigir a Camarilla, proteger a seita que ajudou a criar e defenderia Chicago com sua vida contra o Sabbat.
Diante de sua predisposição de morrer, que fosse pelos motivos certos: pela cidade que ajudara a criar e pela felicidade de duas das três pessoas que ele amava. Quem visse o altivo Príncipe mergulhado em sua depressão jamais acreditaria que aquele homem que se encolhera naquele canto abraçando os joelhos era realmente o lendário Saga que escrevera seu nome entre os luminares não apenas da Camarilla ou dos Ventrue, mas entre as treze famílias e suas ideologias e sangue completamente diferente uns dos outros.
O fim estava próximo, Saga sentia isso e se entregou com todas as suas forças a um choro amargo.
- Verônica, eu te amo tanto... Por que faz isso comigo? Por que, Verônica? – Ele falava enquanto apertava o peito, era muita dor para suportar e ele já a carregava há tanto tempo... Tanto tempo...
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Estou procurando mostrar nessa fic que não existem vampiros completamente bons ou maus. Bem, o Aioros é uma exceção por ter atingido um estado de iluminação que é tão raro, mas tão raro que nem as centenas de livros da White Wolf sobre o universo dos Vampiros fala muito. Não existe forma para se alcançar a Golconda, mas desde já deixo a dica que o Shaka está num dos extremos desse caminho, não sei se ele vai conseguir chegar a Golconda, isso vai depender da minha comunicação mental com o personagem. :) Lutar contra a Besta é o dilema de todo vampiro, a Besta é a maldição e eles não são humanos, então... Isso dá margem a muita história. :)
Falando em Shaka... Desculpe decepcionar quem gosta do casal Shaka x Mú. Eu não consigo entrar tão bem na mente dos dois personagens a ponto de escrever um romance entre eles (ao menos nessa fic) até agora nada, absolutamente nada me veio à mente a respeito deles a não ser o fato de serem Malkavianos. :(
E claro, nossos fofos Kamus e Milo. O mundo dá muitas voltas e eu realmente não sei qual será o destino dos personagens nessa história. Eu costumo me deixar levar pelas idéias que afloram na minha mente e escrever, por exemplo, fiquei com os olhos lacrimejando um pouco pra escrever as cenas do Aioros e da Verônica, por que eu realmente me coloquei no lugar dele.
Existe um metaplot que eu estou seguindo, mas não posso falar nada sobre o destino em particular de cada personagem. Desculpe se estou decepcionando vocês, eu consigo entrar na mente do Kamus muito mais fácil do que na do Milo, pra mim é difícil escrever as partes do Milo, mas as partes do Kamus saem com MUITA facilidade. Aceito dicas sobre COMO escrever sobre o Milo. :)
Aioria e Marin são meu ponto de equilíbrio. Foi a vontade de escrever sobre os dois que me levou a querer montar algumas fics. Só que o negócio cresceu e... Tenho que admitir, são o meu grande xodó, só perdendo para os gêmeos que eu amo de coração. E como vocês podem perceber são ao lado do Kamus os personagens principais dessa história.
Tramas dentro de tramas. Eu acho que algumas pessoas podem ficar chocadas com as cenas do Afrodite nesse capítulo, afinal do primeiro capítulo ele falou "adoro um conto de fadas" por isso uma justificativa baseada no universo do World of Darkness: a Camarilla é um palco pra um vampiro derrubar o outro, ninguém faz nada sem estar interessado em algo, se vocês repararem não tem um personagem nessa fic que não tenha suas crenças e desejos pessoais para serem realizados. Alguns ainda não deixaram claro isso, mas deixarão. Digamos que as piores coisas que existem nos humanos (famosos pecados capitais) nos vampiros são elevadas à décima potência. risos
Esse capítulo saiu mais rápido e maior do que eu esperava. Bendito seja o feriado que me deu tempo para escrevê-lo! Fiquei muito feliz com as reviews de quem acompanha essa humilde fic, obrigada pelo carinho, é por causa de vocês que comentam eu me animei a continuá-la!
Só escrevo o próximo capítulo se as pessoas deixarem reviews!Façam uma Nuriko feliz e comentem ok?
