Aviso: A fic agora é rated M.
Sakura POV
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Eu desejo ser capaz de tirar toda tristeza da sua vida.
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— Tanjoubi Omedetou, Sakura! — Disseram Sasuke, Naruto e Ino levantando copos com refrigerante.
Estávamos num restaurante na parte baixa da cidade comendo pizza enquanto fazíamos hora para ir numa boate que Ino havia escolhido em comemoração ao meu aniversário. Não que eu fosse o tipo de pessoa que vive em festas dançando e bebendo, mas apreciava uma saída oportuna se Ino estivesse comigo, afinal a loira era a rainha do baile onde ia e nunca dizia não a uma boa festa com música eletrônica.
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Mais cedo eu e meu pai tínhamos tido um dia de pai e filha. Ele me levou em uma sorveteria e ficou chorando sobre como o tempo passa, sobre como seu bebe tinha virado uma mulher. Depois fomos para um parque que estava na cidade e eu deixei ele me tratar como a criança que ele acha que eu sou porque o fazia sentir bem, na verdade, eu até gostava de ser mimada daquele jeito às vezes.
Meu pai era um fofo. Haruno Kizashi era um homem emocionado que vivia para a sua filha, eu. Ainda que as vezes não soubesse lidar muito bem comigo, ele se esforçava bastante. Tinha me dado um moletom com capuz da Shanghai Dragons, o time de Overwatch para o qual eu torcia, mostrando que prestava atenção no que eu falava e fazia. Se eu pudesse afirmar algo, seria que minha mãe foi uma mulher de sorte em tê-lo ao seu lado.
Voltamos para casa e ele me encheu de bolo, Ino chegou por lá com uma mala enorme, parecia que ia passar uns dez dias longe de casa. Ela me fez vestir uma saia de paetê num degrade prata-preto com uma blusa de alças finas preta semi-transparente, o tecido leve caia no meu corpo dando um ar despojado me impedindo de usar um sutiã senão quisesse que ele ficasse totalmente amostra, finalizou ao me enfiar em uma de meia calça e colocando colares e acessórios.
A maquiagem não ficou por menos, caprichou num preto esfumaçado em meus olhos que faziam o verde da minha íris brilhar como nunca. E claro, um salto enorme.
Já ela, sem nenhuma dúvida, não ficou por menos. Se enfiou num vestido colado de uma cor roxa cintilante. A peça era completamente aberta nas costas, que contrastava com o ar quase recatado do corte frontal e mangas que iam até pouco acima do cotovelo. E como se não bastasse, o vestido contava com fendas laterais mesmo seu cumprimento não passasse do meio da coxa.
Completou o uma sandália fechada de camurça preta com o salto vermelho, e fez uma maquiagem cheia de brilho para si mesma.
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— Ok, a gente devia ir agora porque senão vamos pagar mais caro pra entrar — E fez sinal pro garçom antes mesmo de todos concordarem, pedindo a conta e mostrando quem tava no comando da situação. — Não queremos pagar caro desnecessariamente.
— Vocês que vão pagar pra mim — Informei olhando para cada um deles. Ino revirou os olhos acompanhada de uma piscadela do Naruto. Sasuke demorou seu olhar no meu.
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Os meninos tinham chegado no horário combinado, tiveram que esperar um pouco na sala com meu pai lhes falando sobre as razões para usar camisinha e não beber e dirigir ao mesmo tempo. Quando aparecemos na sala encontramos um Naruto de visual meio hipster usando uma camisa branca long line e um Sasuke com cabelo bem penteado e camisa de botões com as mangas dobradas nos punhos.
Kakashi que me perdoasse, mas eu teria que ser cega para não admitir que eles estavam bem...
Mas isso foi só o primeiro impacto, porque assim que percebi as bochechas coradas de Sasuke e o constrangimento estampado na cara de Naruto... Meu pai estava distribuindo camisinhas.
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Naruto tinha achado um lugar para estacionar e saímos nos equilibrando em nossos saltos na direção da fila. Era uma boate nova e estava lotada. Tinha gente brotando de todo lugar. Naruto odiava esses lugares cheio de gente apesar de que com um pouco de álcool ele logo se soltava, entretanto como ele era o motorista da vez, iria ter que aguentar sóbrio. Sasuke também era outro que odiava, e somado ao fato de não beber... Eu honestamente não sabia porque ele tinha aceitado vir.
A cada de show era enorme, sua fachada tinha letras laminadas e luzes neon. A Cactus estava fervendo, o som ficava cada vez mais alto a medida que nos aproximávamos na entrada, vazando pela porta. O segurança com pinta de latino nos parou pedindo nossa identidade, quando percebeu que eu estava fazendo aniversário liberou minha entrada de graça junto com uma rodada de tequila grátis para mim e meus acompanhantes.
Dia de sorte, com certeza.
Assim que colocamos o pé dentro do local, a batida do grave fez nossos corpos tremerem. As luzes piscavam psicodélicas com corpos de todos os tipos se movendo conforme o ritmo. O local contava com dois andares, um com música eletrônica e outro com mashups de músicas pop, ficamos com os mashups.
Eu e Ino já entramos dançando. Com aquele volume era impossível pensar em qualquer coisa, o que tornava mais fácil deixar o corpo relaxar e se levar pela batida. Aquele era o ambiente natural de Ino, e eu era flexível o suficiente para aproveitar daquele momento da melhor forma possível.
Sasuke sumiu e voltou com quatro copinhos. A cortesia da casa. Como os meninos não iam beber, Ino virou dois e eu dois. A bebida desceu quente pelos nossos corpos fazendo a vontade de dançar aumentar cada vez mais. Fechei os olhos enquanto sentia as sensações da música pelo meu corpo, dos graves sintetizados vibrando por todos os lados e me envolvendo com aqueles agudos pontuais.
Eu não era muito resistente a álcool e sabia que se eu partisse para mais uma dose de tequila talvez não devesse beber mais nada pelo resto da noite. Ino era mais resistente, provavelmente aguentaria umas cinco, mas resolveu me acompanhar. Pedimos vodka com refrigerante para mantes nossos corpos dispostos a se mexerem mais e mais.
Naruto começou a dançar desajeitadamente com uma Ino sensual que parecia se divertir com a falta de habilidade do namorado. Ela não ia se segurar por causa dele, aquilo estava na cara. Por outro lado, havia um Sasuke tentando me acompanhar. Eu não sei se era o álcool falando, mas eu simplesmente deixava ele apoiar a mão na minha cintura enquanto fazia movimentos esquisitos. O estranho era que ele estava realmente tentando dançar comigo máximo que conseguia. Eu também não estava tão disposta a me segurar por conta dele, mas fiquei aberta às suas tentativas.
Foi ai que a música mudou para uma pegada mais lenta. Naruto e Ino se atracaram na pista, os loiros começaram a dançar mais próximos e trocavam beijos que ela fazia questão de aprofundar mais e mais. Sasuke e eu também nos aproximamos dispostos a deixar a música comandar nossos corpos, e ai ele começou a falar no meu ouvido como eu estava linda naquela noite. Não que Sasuke não me fizesse elogios, mas havia algo na sua voz. Eu recuei a cabeça levemente para olhá-lo e vi aqueles orbes negros me hipnotizarem. Havia alguma coisa naquele olhar, nas mãos dele na minha cintura, no meu corpo suado perto do dele.
A música mudou de repente, mas Sasuke continuava com aquele olhar, me prendendo, me puxando. Então ele começou a aproximar seu rosto do meu, e eu inclinei meu rosto, colocando minha bochecha na rota de colisão com seus lábios, e no ritmo daquela nova música que soava alto dentro de mim, eu fui me afastando para dançar mais livremente.
Pude ver nos olhos dele algum tipo de surpresa. Me olhou confuso deixando claro que não pensava que eu fosse recuar com tamanha facilidade. Bem, talvez fosse o álcool, mas a verdade é que durante aquele momento, eu estava enxergando Hatake Kakashi.
Em um dado momento, tanto eu quanto Ino pudemos perceber o tédio no rosto dos dois. Não era nem uma da manhã quando eles já começaram a bocejar. A loira então sugeriu que eles fossem ficar no bar, sentados, mas Naruto disse que iam ficar lá na entrada, e que a gente não se preocupasse em se apressar, eles iam ficar lá fora conversando.
Quando eles sumiram no meio da multidão a loira me chamou no banheiro, e com a batida bem mais abafada já foi perguntando.
— O que foi aquilo? — E parecia cansada e extasiada, como só uma balada daquelas poderia deixar.
— Eu não sei! — Respondi percebendo que ainda estava sóbria demais. — Ele tava querendo me beijar!
— Eu vi! — Disse agarrando meus ombros — Naruto achou que ia rolar, mas eu disse que duvidada. Você tem que contar pra ele, Sakura! — Eu maneei a cabeça sem querer pensar nisso.
— Dança comigo! — Pedi desviando do assunto enquanto já começava a voltar pro salão.
— É pra isso que eu to aqui! — Ela me agarrou pela cintura, me dando um abraço por trás e voltamos a nos mexer e deixar tudo para depois.
O lance com baladas desse tipo é que quanto mais o tempo passa mais bêbadas as pessoas ficam, e nesse caso elas começam a mostrar quem são de verdade. Enquanto dançávamos uma com a outra, um cara começou a se aproximar da gente e do nada tentou passar a mão em mim. Eu recuei e nós nos afastamos, mas ele continuou meio que perseguindo a gente.
— Ow, vai pra lá! — Ino disse enchendo o saco.
— Ei, vocês tão sozinhas? Não querem companhia? — Parecia extremamente bêbado e falava como se nem estivesse ouvindo a gente.
— Não. Cai fora! — Ela gritou com a valentia de alguém sob efeito do álcool.
O cara começou a rir e a se aproximar demais, como se fosse agarrar Ino a qualquer momento.
— Cara, você é surdo? — Uma voz grossa por cima da música chegava aos nossos ouvidos. — Vaza! — Um cara de cabelos longos e castanhos com olhos pretos, bonito, dizia com uma cara de poucos amigos.
O perturbador o encarou como se o desafiasse, mas ai Ino simplesmente gritou para o outro ir embora e como se aquilo tivesse despertado ele, o homem se mandou. Eu já estava começando a achar que íamos ter problemas com esse ai quando ele simplesmente começou
— Vou ficar com vocês mais um pouco, pra ter certeza que o cara entendeu o recado — Parecia ser sincero, eu já não estava confiando no meu próprio julgamento, havia um excesso de vodka e tequila no meu sangue.
— Sakura! — Gritei com um sorriso torto já voltando a dançar — Essa é a Ino — A loira já estava entregue a música — E é meu aniversário!
— Genma — Ele se apresentou acompanhando o ritmo, ele estava com alguns fios de cabelo colado no rosto — Tanjoubi Omedetou, Sakura-chan! — Dai ele pegou na minha mão e me fez girar na pista, divertido.
Na verdade Genma era ótimo, ele dançava como nunca. Tinha um rebolado maravilhoso e sabia mexer cada centímetro do seu corpo. Ele começou a dançar com Ino e eu poderia jurar que todo mundo estava olhando para como eles se mexiam juntos. Dançamos algumas músicas até que outro cara começou a olhar a gente, na verdade, ele estava olhando para Genma com o tipo de expressão que gritava delicia.
Foi ai que nosso novo companheiro nos deixou para satisfazer seus próprios desejos. Genma começou a beijar o outro ali perto da gente e depois virou brevemente para se despedir. Já era duas e pouca, Naruto e Sasuke estavam sumidos e nós começamos a nos sentir um pouco culpadas e um pouco bêbadas demais. Resolvemos sair do local e encerrar a noite.
Começamos a passar pela multidão na direção da saída, de mãos dadas. Quando já estávamos a poucos passos da saída, o perseguidor nos achou e dessa vez passou a mão na Ino, que virou jogando a mão na cara dele com uma destreza digna de uma alcoólatra, mas o cara simplesmente segurou o braço dela e a puxou. Nesse instante ele cambaleou para trás com o impacto de um soco em seu rosto. Genma aparecia do nada para salvar o dia.
E os seguranças da boate também.
Bem atrasados por sinal.
Fomos expulsos, eu, Ino, Genma e seu peguete.
Uma vez enxotados do local, a loira começava a gritar ameaças para os seguranças que sequer olhavam para ela. Eu comecei a rir junto de Genma, e os outros dois começaram a cair na gargalhada por tabela.
— Isso foi ridículo — Ele comentou com humor.
— Quem diria que teu aniversário ia ser cheio de emoção — A loira falava virada pra mim — Ei, Genma, valeu lá dentro.
— Não agradeça! — Ele sorriu e eu percebi os olhos dele levemente vermelhos
— A gente estragou a sua noite! — Eu choraminguei abraçando Ino por trás pra me apoiar nela, sentindo o corpo ficar pesado — Desculpa!
— Não, não... Sem desculpas! Foi um prazer estar com vocês — Ele disse passando a mão nos cabelos e olhando por cima do ombro pro outro, que parecia estar um pouco impaciente — Mas agora eu tenho que me mandar — Piscou pra gente — Vocês tem carona?
Nos encaramos e começamos a rir. Onde estariam Naruto e Sasuke? Olhamos ao redor procurando, foi quando descobrimos um carro preto com dois seres do sexo masculino encostados um no outro, provavelmente cochilando.
— Arrã! Temos carona! — Ino disse — Os dorminhocos ali.
Genma começou a rir, balançando a cabeça negativamente numa óbvia reprovação.
— Tudo certo meninas, então até a próxima! — E saiu com o outro pro seu próprio carro.
Eu e Ino cambaleamos para a SUV de Naruto, batemos insistentemente na janela do carro levemente entediadas. Os garotos acordaram assustados, Naruto apertou o botão destravando as portas e nós emburacamos no banco traseiro. Meio tortas começamos a tagarelar sobre o que havia acontecido, enquanto isso o loiro só ligou o carro e começou a ir na direção de sua casa. Íamos dormir lá como o combinado.
— Eu não devia ter deixado vocês sozinhas! — Naruto dizia meio sonolento meio irritado — Tudo culpa do teme que ficou irritadinho porque não conseguiu beij- — Ele parou bruscamente ao receber um cutucão do Uchiha. Ino não deixou passar e riu alto enquanto eu, com a simples menção de um beijo, fiquei com uma imensa vontade de ver Kakashi.
— Me leva na casa do Kakashi — Eu disse preguiçosa com a cabeça no ombro da Ino. Só ela conseguia ouvir meu murmuro sonolento.
— Não, Sakura. — Ela falou e mesmo sem ver, eu sabia que ela estava revirando os olhos.
Senti o carro parar, olhei pela janela e meu corpo turvo viu a fachada da casa de Naruto. Foi a minha vez de revirar os olhos.
— Não vou sair daqui até você me levar lá. — Falei me jogando no banco.
— Levanta essa bunda daí! — Ralhou a loira já fora do carro e me puxando pelo braço.
— O que ela quer? — Sasuke perguntava com um bocejo.
— Eu quero ver o meu-
— O pai dela! — Naruto gritou no meio ao ver o olhar de pânico na cara de Ino — Ai Sakura-chan hein!
— Ele tá dormindo, vem logo que eu quero dormir. — A Yamanaka já começava a reclamar.
— NÃO VOU SAIR DAQUI ATÉ VER O -
— SEU PAI! — Naruto gritava novamente.
Sasuke revirava os olhos indo abrir a porta da casa depois de pegar as chaves com Naruto. Nisso o casal loiro conversavam baixinho.
— Leva ela lá e traz ela de volta.
— Não, tá tarde. Ele nem vai abrir a porta.
— Então ele é um péssimo namorado. — Ino disse se afastando — É aniversário dela, se você não fizer isso ela vai ficar falando dele o tempo todo e o Sasuke... — Ela bocejou — Eu fico com ele e você vai.
— Uh.. — Ele revirou os olhos voltando pra dentro do carro — Sakura-chan, eu realmente gosto muito de você. Lembre-se disso.
— Eu também te amo, Naruto!
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Naruto estava com um braço na minha cintura, me mantendo junto dele enquanto ele batia freneticamente numa porta de madeira no quinto andar de um prédio já muito frequentado por nós dois. Ele resmungava o tempo todo enquanto insistentemente ritmava suas batidas imitando uma música de elevador enquanto me mandava ficar quieta, afinal eram três da manhã e os vizinhos precisavam dormir.
Ele viu a luz acender pela fresta da porta e por isso parou de bater, me aprumando ao seu lado. A porta se abriu revelando um homem com cara de quem acabou de acordar, vestido numa camisa cinza com o nome Oxford, uma cueca samba canção preta e uma máscara igualmente preta.
— Kakashiii — Eu disse me jogando para ele. Naruto suspiro revirando os olhos e pela reação do dono da casa, ele estava entendendo zero coisas.
— Ela tá meio bêbada, queria ver você, então...
— Ah... — Kakashi disse com uma voz mais rouca que a de costume, me abraçando enquanto eu descansava. — Você quer entrar? — Perguntou pra Naruto.
— Não, fico aqui. — E o loiro bocejou — Só me devolve ela logo. — E escorregou pela parede, sentando no chão — Entendeu? — Kakashi riu.
— Você é um bom amigo. — Disse por fim me conduzindo pra dentro — Voltamos já. — Naruto acenou com a mão enquanto Kakashi fechava a porta.
Eu sorri pra ele.
Ele balançou a cabeça com humor, abaixando a máscara e me dando um beijo na bochecha.
— Você é uma péssima amiga. — Comentou.
— É o meu aniversário — Eu falei como se justificasse tudo aquilo. — E você nem me mandou mensagem. — Reclamei tombando para ele, que habilmente passou uma mão na minha cintura. Eu passei a mão ao redor do seu pescoço — Você é um péssimo namorado.
Ele riu comedido e de repente me ergueu com um movimento rápido. Eu soltei um woopss pela surpresa do ato, com a minha cabeça girando 360 graus pelo movimento súbito. Sem aviso prévio, Kakashi estava me carregando em seus braços para um lugar que eu nunca estive naquela casa.
O quarto dele.
— A gente combinou que iriamos comemorar seu aniversário amanhã. — Ele me deitou na sua cama e começou a tirar meus sapatos. Eu bocejei olhando em volta sem prestar muita atenção, o cheiro dele vindo dos lençóis bombardeava por todos os lados os meus sentidos já não tão confiáveis.
— Só era mandar uma mensagem... — Reclamei virando na cama e agarrando um travesseiro, trazendo o cheiro dele pra dentro de mim.
— Ei — Ele chamava após deitar do meu lado, me puxando pra ele — Feliz aniversário, meu bem. — E me dando um beijo tenro. E eu me deixei levar, me aconchegando de uma maneira estranhamente desinibida. — Você está incrível essa noite. — E senti sua mão na minha lateral, por cima da blusa, passeando tranquilamente no meu corpo.
— Eu sou incrível — Eu sussurrei de volta fechando os olhos e me deixando levar pela madorna e pelo amparo de seu corpo me envolvendo. Aquele cheiro, aquela voz...
— Você tem razão — Sua voz soava divertida, mas naquele momento estava mais concentrada nos seus dedos por cima do tecido fino da minha blusa. — Não durma, Sakura, você tem que voltar com Naruto.
Soltei um ruído de quem estava pouco interessada naquele assunto. De fato uma péssima amiga. Ele riu preguiçosamente e me deu uma série de beijos curtos chamando meu nome entre eles.
— Quee... — Disse sonolenta.
— Se você dormir e eu dormir também, Naruto vai dormir no corredor. — Ele disse tão sonolento quanto eu — Eu não me importo muito pra ser honesto, mas ele é seu amigo não é?
Eu abri os olhos pesados e vi aquela expressão serena. Kakashi era lindo. Eu passei a mão no rosto dele e o beijei preguiçosa antes de concordar com ele. Eu era uma péssima amiga. Ergui o tronco zonza, constatando que álcool e sono era uma combinação pouco proveitosa. Senti a cama balançar e olhei para trás por cima do ombro, Kakashi se erguia também, sonolento, pulou para fora da cama catando meus sapatos.
— Vem cá. — Ele disse passando um braço pela minha cintura e me levantando. — Vai pra casa, tome um banho frio e mais tarde vem pra cá, tá? — Sua voz era paciente enquanto ele me guiava pela sua casa, deixando seu quarto para trás e abrindo a porta da frente. Naruto olhou pra cima e se levantou.
— Ok — Respondi pra ele enquanto seu calor abandonava meu corpo, sendo substituído pelo calor de Naruto.
— Dirija com cuidado. — Kakashi pediu ao loiro que apenas acenou com a cabeça e deu um breve tchau com a mão. A energia de Naruto era absurda, mas apenas quando ele não estava com sono.
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Estávamos na varanda da casa de Naruto. Sasuke sentava no chão encostado na parede, as pernas esticadas e com fones de ouvido. Era uma tarde quente. Eu cheguei com uma camiseta velha e short jeans, deitei a cabeça nas pernas dele soltando um ruído a medida que meu corpo relaxava.
Tínhamos acordado depois de uma da tarde. Surpreendentemente eu não estava sofrendo com ressaca, só minha boca parecia mais seca que o comum, por isso eu ficava arrastando uma garrafa d'água por onde ia, ao contrário de Ino que definitivamente não parecia ter bebido uma gota de álcool, estava plena.
O casal tinha saído para comprar picolé enquanto eu estava terminando o banho. Agora, eu e Sasuke esperávamos enquanto sentíamos a brisa quente tocar nossa pele. Era uma tarde agradável e eu ainda me sentia sonolenta. Sasuke passou a mão nos meus cabelos levemente, me fazendo um carinho confortável e tudo parecia tão certo naquele momento.
Sua voz começou a ecoar naquela varanda um pouco alta demais, começando a cantarolar uma música que eu amava em seu inglês de cursinho. Comecei a cantar junto com ele e sabia que estava pronunciando tudo errado, mas ele não se importava. Eu não precisava nem abrir os olhos para ver a expressão tranquila que seu rosto sustentava.
— the look of love, the rush of blood, the "she's with me", the gallic shrug... — De repente percebi que estava cantando sozinha, e ele simplesmente estava ali sem os fones e olhando para mim. Eu continuei — the shutterbugs, the camera plus, the black and white and the colour dodge...
— ...the good time girls, the cubicles, the house of fun, the number one party anthem... — Ele completou com um sorriso de canto que acabaria com guerras inteiras.
— Eu amo essa música. — Comentei passando a língua nos lábios, aproveitando do momento leve em que estávamos mergulhados. Ele tocou na minha bochecha me fazendo um carinho calmo e sutil.
— Eu sei. — Ele olhou para mim e eu não consegui decifrar o que era, se assemelhava a uma inquietude pacifica, algo que ele sentia e não sabia como manifestar, então ele pegou minha garrafa d'água e abriu, passando-a para mim — Se hidrate.
— Hn.. — Revirei os olhos aceitando a sugestão, levantei um pouco a cabeça com preguiça de sentar e comecei a beber de forma desajeitada, uma gota escapou e escorreu pela lateral da minha boca. Sasuke balançou a cabeça.
— Parece uma criança.
— Desculpe meu mal jeito, senhor adulto. — Debochei enxugando o que escapou com um dedo. Ele revirou os olhos sem se importar com meu comentário.
— Ei, que tal a gente comemorar seu aniversário de verdade mais tarde?
— Hn? A gente não já comemorou de verdade?
— Não, aquilo foi uma festa da Ino — Ele explicou — Vamos fazer uma comemoração à moda antiga. Eu, você, Naruto se ele quiser, um monte de trash food, jogos e baladas ninja.
Eu ri. Sim, meu último aniversário tinha sido exatamente assim, era quase uma tradição se não fosse por Ino entrar na equação e mudar tudo esse ano. Sasuke não tinha se divertido e nem Naruto. Fiquei inclinada a aceitar mas... Eu tinha planos pra mais tarde.
— Acho que Naruto vai sair com a Ino mais tarde. — Comentei fechando os olhos de novo — E eu me diverti ontem. Você que não sabe dançar.
— Então a gente comemora juntos, só nós dois. — Falou — Você pode me ensinar a dançar.
Eu sorri com a ideia de passar a noite toda ensinando Sasuke a seguir o ritmo. Sasuke nasceu com o dom do rebolado, só não sabe usar a seu favor.
— Sua oferta está ficando cada vez mais tentadora... — mas eu já tenho planos, era o que eu queria dizer logo em seguida, mas fui incapaz.
— Então você topa?
— Vai ser esquisito comemorar sem o Naruto. — Eu não tive coragem de olhar nos olhos dele. Tentei parecer o mais casual possível, mas não consegui olhar pra ele.
Houve silencio.
— Você tá bem com ele saindo com a Ino? — Perguntou de repente.
— Sim. Eles são ótimos juntos. Quem diria que duas pessoas tão diferentes poderiam se dar tão bem... — Comentei querendo mudar de assunto desesperadamente, porque sabia o que vinha a seguir.
— Namorando. — Sasuke disse de repente — Eles estão namorando. — Se corrigiu como se fosse uma informação importante. Senti como se estivesse enfatizando aquilo para o meu próprio registro.
— Sim, namorando. Eu daria tudo pra ter visto Naruto fazendo o pedido — E ri na tentativa de mudar o assunto novamente.
— Sakura — Sua voz me chamou séria, eu abri os olhos mirando os dele e sua expressão era séria, intensa. — Eu queria convers-
— Não tinha picolé de tapioca, Sakura! — Ino gritou pulando pra fora do carro — Antes que você comece a reclamar, eu trouxe de maracujá.
Eu agradeci a interrupção da loira a todos os deuses que eu conhecia. Eu sabia o que ele queria, com todas as células do meu corpo, com todos os sentimentos que tínhamos um pelo outro, com aquela tentativa de beijo da outra noite... Eu sabia o que ele queria e não estava tão certa se poderia ter essa conversa naquele momento.
Levantei a cabeça e sentei ao lado dele. Virei rapidamente lhe dando um beijo na bochecha e sussurrando logo em seguida "depois a gente conversa" porque eu não poderia deixa-lo no escuro. Eu precisava sentar com ele e deixar as coisas claras como nunca antes fizemos. Porque havia essa coisa entre mim e Sasuke que nunca era dita, principalmente depois do que ele fez comigo.
— Vocês demoraram um século e nem acharam o picolé que eu queria? Ai ai viu... — Reclamei pegando o que me havia sido oferecido.
Sasuke ficou me olhando brevemente antes de abstrair o assunto e mergulhar no que estava acontecendo naquele momento. Eu não sabia o que estava se passando dentro dele, mas eu sabia que em breve nós nos entenderíamos de um jeito ou de outro.
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No final da tarde, Naruto juntou todo mundo em seu carro e saiu distribuindo em suas casas. Jantei com meu pai numa conversa animada sobre a noite anterior, omiti a parte que fomos expulsas da festa porque um cara tinha passado a mão na gente e o outro veio em nossa defesa. Depois informei a ele que iria dormir na casa de Ino. É claro que meu pai fez um drama, mas no final não reclamou.
Tomei um banho e coloquei um casaco de lã, uma saia preta e meias que iam até acima do joelho. Calcei um tênis baixo e prendi o cabelo num rabo de cavalo frouxo. Eu sei que ele disse que eu poderia até mesmo ir de pijama, mas é claro que eu não iria vê-lo num pijama de ovelhas. Estava confortável o suficiente para uma noite na fazenda, eu supus.
Chamei um uber e em poucos minutos estava no elevador do prédio de Kakashi subindo para o quinto andar. Eu bati na porta do apartamento e ele abriu vestido numa calça moletom, com uma camisa branca e um casaco preto.
— Bem na hora — Ele disse se inclinando para me beijar. — Vamos? — E pegou na minha mão fechando a porta atrás de mim.
— Claro — Disse deixando que ele me guiasse pelo corredor.
Entramos no elevador e ele apertou o botão para irmos ao subsolo pegar o carro. No meio do caminho tirei o celular do bolso e me juntei a ele.
— Dê um sorriso. — Falei sabendo que aquilo pouco faria diferença, ele estava de máscara. Ele me abraçou por trás e colocou a cabeça próxima a minha.
Click.
— Envia pra mim — Disse olhando o resultado na tela por cima do meu ombro. Sorri pra ele buscando um beijo decente, ele entendeu e puxou a máscara pra baixo me deixando sentir seus lábios nos meus.
A porta se abriu no andar desejado. Ele pegou minha mão e saiu me conduzindo pelos inúmeros carros na enorme garagem. O carro que Kakashi usava normalmente era um Jeep quadrado com cara de mau, mas pra minha surpresa o carro que destravou ao comando da chave foi uma pick up da Nissan com cara de quem aguentaria um apocalipse zumbi.
— Mudou de carro? — Perguntei enquanto entrava. O treco era muito alto.
— Só por hoje. — Ele disse virando brevemente para mim enquanto começava a manobrar para sair do lugar — Você vai entender porque.
— Você só tá me deixando mais curiosa. — Comentei e ele riu divertido.
Saímos para a rua com a lua brilhando, o céu noturno estava sem nenhuma nuvem. Era o final do verão e os dias começavam a ficar mais frios assim como as noites. As luzes da cidade e as casas lentamente iam ficando para trás, começando a rarear a medida que nos aproximávamos da rodovia. Kakashi começava a pisar no acelerador fazendo o carro assumir mais velocidade.
— Coloca uma música — Ele disse ligando a central multimídia do carro — Vamos ver se você tem bom gosto.
Revirei os olhos pegando meu celular.
— Ok, estou me sentindo pressionada — Falei olhando minha playlist que ia de AKB48 pra Red Hot Chilli Pepers em um segundo.
Eu ouvi ele rir me dizendo pra por qualquer coisa, então apertei o dedo em qualquer música. Violet City começou a soar nos auto falantes do carro e eu fiquei olhando para o homem do meu lado, que pareceu levemente surpreso e extremamente bem receptivo.
— Mansionair — Falou — Não imaginei que você conhecesse.
— Você gosta? — Perguntei compartilhando da surpresa dele.
— Mas é claro. Inclusive está na minha playlist. — Deu uma pausa — Você tem bom gosto. — Eu ri.
— É porque você não sabe o que mais tem aqui. — E rolei a tela tentada a colocar uma banda coreana que estava fazendo muito sucesso com músicas chicletes.
— Então não me deixe saber, por favor — Retrucou imediatamente.
— Eles tocaram essa ontem na festa, fiquei com ela na cabeça. Claro, ela tava remixada, mas...
— Não tá de ressaca? — Ele perguntou olhando de canto pra mim — Você parecia ter bebido um pouco além.
— Ah... — Ri nervosa — Desculpa por ontem. Acordei você por nada.
Kakashi ficou um tempo olhando para a estrada e maneou a cabeça, como quem estivesse discordando em silencio e ao mesmo tempo achando engraçado.
— Foi um prazer — Disse por fim com um sorrisinho por baixo daquele tecido preto parecia estar lembrando de algo — Só devia ter ido pra dormir, o coitado do Naruto ficou na porta esperando.
— Porque quis, você mandou ele entrar. — Dei os ombros não querendo falar sobre dormir lá.
— Na verdade foi o jeito dele de dizer que estava com pressa de ir pra casa.
— Nah — Revirei os olhos — Ele ficou a maior parte da festa dormindo no carro, tu crê? — Kakashi me olhou brevemente com uma sobrancelha arqueada — Ficou no carro com o Sasuke cochilando. Perderam a maior treta.
— Hm? O que aconteceu?
E ai eu contei sobre o cara que ficava tentando passar a mão em mim e na Ino.
— A sorte é que aquele outro cara apareceu e ficou com a gente... Nem lembro o nome dele agora... — Fiquei pensando — Gingo, Gengo... — Comecei a testar os nomes até receber um estalo — Genma! Era Genma o nome dele.
Kakashi virou o rosto pra mim e me olhou com curiosidade, voltando rapidamente sua atenção para a estrada, me perguntou como ele era. Eu só lembrava que ele tinha um cabelo relativamente grande na cor castanha.
— Pega meu celular aqui — E indicou o bolso com um movimento. Eu enfiei minha mão lá e mostrei a tela de senha — 2566, vai nas fotos. — E fiz como ele me disse, vendo várias fotos de paisagem e pratos prontos que eu julguei ter sido ele quem os preparou. — Mostra aqui — Eu virei a tela para ele e ele rolou um pouco até encontrar uma foto e dar zoom — É esse cara?
— Oh, vocês são amigos? — Perguntei vendo a foto do cara da noite anterior na tela. Tinha um grupo sentado num sofá, incluindo Kakashi. Cada um com um copo na mão e pareciam estar levemente bêbados.
— Eu não acredito — O homem ao meu lado soltou uma risada enquanto pegava o celular da minha mão. Tocando algumas poucas vezes na tela, ele soltou o aparelho num suporte do carro e imediatamente ouvi o tom de chamada invadir os auto falantes do carro. — Ele é tipo, meu melhor amigo. Só não diga a ele que eu falei isso.
Eu conheci um amigo do Kakashi?
Continuamos na estrada, dobrando numa encruzilhada, de repente a paisagem mudou para uma longa plantação de arroz. Genma atendia o telefone.
— Kakashi? — A voz de Genma parecia distraída — Aconteceu alguma coisa?
— Me diga você, arrumando briga em casa de show.
— Ah... O cara mereceu. Tava rondando duas meninas lá, eu não pude não socar ele. — Falou como se estivesse lembrando de algo divertido — Elas eram umas gracinhas, você precisava ver. Metade do lugar estavam esperando elas ficarem bêbadas o suficiente. — Ele deu uma risada contida e Kakashi me olhou pelo canto do olho, me fazendo corar. Ele tava me dando uma bronca? — Mas como você tá sabendo disso mesmo?
— Minha namorada te viu lá. — E pareceu esquecer momentaneamente que eu precisava ser censurada por estar bebendo numa boate!
— Oh — Genma soltou surpreso — Não tinha muita mulher ontem, mas não vi nenhuma que fosse seu tipo — Disse casual — Tinha uma morena do rabão mas... Não sei, ela tava se pegando com outro cara...
— Claramente não era minha namorada.
— Como ela é?
Kakashi me olhou cumplice, como se deixasse para mim a decisão de contar ou não. Eu dei os ombros, devolvendo a decisão pra ele, o amigo era dele afinal de contas. Ele sorriu de canto.
— Olhos verdes, tava de preto ontem à noite, usando um salto muito alto...
— Kakashi, você acha que eu vou ficar reparando nos olhos de toda mulher que eu vejo? De resto você tá descrevendo qualquer mulher.
— A de cabelo rosa, Genma — Eu falei antes que Kakashi pudesse responder. A ligação ficou muda por um momento.
— Sakura? — Ele disse com uma repentina explosão — Sakura! — E começou a rir no celular — Você tá com a novinha ai?
— Ela tá ouvindo tudo o que você fala.
— Eu to curiosa, o tipo do Kakashi é morena do rabão?
Genma riu, parecia constrangido e divertido, Kakashi balançou a cabeça negativamente e eu podia apostar que tinha uma cor avermelhada naquelas bochechas.
— O tipo dele é você, minha querida — Respondeu se recuperando — E Kakashi, você deixou sua namorada ir numa festa cheia de marmanjo sozinha bem no dia do aniversário dela?
— Estamos indo comemorar agora.
— Divirtam-se então! — Ele disse percebendo que Kakashi já estava cortando o assunto — Sakura, foi um prazer conhecer você, espero te ver de novo em breve.
— Eu também, Genma. Obrigada por ontem.
— Disponha. E Kakashi, não fica escondendo ela da gente. Vamos organizar um social pra você apresentar ela pra todo mundo.
— Você quer uma desculpa é pra encher a cara. — Genma riu do comentário — Nos vemos depois. — Falou por fim desligando.
A música voltou a tocar nos auto falantes e eu percebi que estávamos numa estrada de barro bem assentada fazendo uma curva não muito acentuada. De um lado haviam os terrenos alagados das plantações de arroz e do outro um barranco de terra no qual nós estávamos fazendo a curva. Haviam arvores pontualmente aqui e ali e o céu continuava feliz e escuro como na cidade, só que muito mais iluminado agora por não estarmos num ambiente com luzes artificiais.
— Então quer dizer que você não sabe beber — Kakashi falou enquanto subíamos num planalto. As arvores começando a serem mais frequentes.
— Eu sei beber. Só bebi um pouco demais. — Dei os ombros — Você viu que eu tava consciente.
— Sakura, eu só quero que você tenha cuidado, ok? — Falou enquanto diminuía a velocidade, aparentemente havíamos chegado a... lugar nenhum. — Quero que preste atenção no ambiente a sua volta e decida não beber quando perceber que as pessoas estão apenas esperando você fazer isso. — Ele começou a manobrar.
— Não age como se fosse meu pai... — Resmunguei.
— Não to agindo como ele, to agindo como alguém que quer você segura. — Ele olhou para mim suavemente. Kakashi tinha esse jeito de dizer as coisas que parecia não estar incomodado com nada. Eu sorri de volta aceitando levar o conselho dele a sério.
— Ok, você tá parando... — Eu disse vendo ele desligar o motor.
Estávamos numa espécie de pequeno penhasco, se é que dava pra chamar assim. Era um elevado que dava numa vista completa para uma fazenda de arroz. Dava pra ver um pedaço da cidade lá trás, um casarão que poderia ser amarelo, talvez. Kakashi parou o carro de modo que a cabine desse de cara para um amontoado de arvores e vegetação mais densa e a traseira ficasse com a vista espetacular.
— Chegamos. — Ele disse abrindo a porta do carro e pulando fora. Eu arqueei as sobrancelhas confusa.
— Você disse que não ia ser uma trilha noturna. — Falei pulando pra fora do carro também.
Tomei uma lufada de vento frio contra a pele, soltei um breve ruído de quem tem frio cruzei os braços na frente do corpo. Ouvi ele rindo enquanto dava a volta no carro, o acompanhei um tanto incerta, sem saber o que exatamente estávamos fazendo ali.
Ele desamarrou a lona que cobria a parte aberta da carroceria e puxou para trás. Eu abri um sorriso inclinando a cabeça para o lado, Kakashi era um fofo. Ali estava uma espécie de cama improvisada. Ele tinha colocado alguns colchonetes e muitos travesseiros, cobertores. Parecia muito aconchegante na verdade.
Ele subiu na carroceria e me içou para cima, deitando confortavelmente com as costas apoiadas em vários travesseiros, então abriu os braços com um sorriso torto. Eu sorri de volta sem falar nada, sentei no meio da suas pernas e me recostei nele.
— Ok, boa escolha — Ele disse puxando um cobertor quente para cima das nossas pernas e me abraçando por fim. O calor ia lentamente voltando para o meu corpo enquanto eu relaxava naquele abraço.
— Por um minuto achei que íamos fazer rapel noturno, ou algo assim. — Comentei deixando a cabeça pender no seu ombro enquanto deixava meus olhos admirarem direito aquela paisagem. O céu refletido no terreno levemente alagado, alguns galhos pulavam das árvores compondo uma silhueta acolhedora contra a luz que vinha da enorme lua que estava bem acima de nós. Aquele cheiro gostoso de chuva emanava de Kakashi me fazendo querer ficar ali para sempre.
— No seu próximo aniversário a gente pode até ter rapel, mas nesse só vamos esperar que o seu presente vai chegar uma hora dessas. — E a voz dele vinha detrás de mim, ecoando no silêncio acolhedor da noite.
— Meu presente ainda vai chegar? — Perguntei afastando um pouco o rosto para ver os olhos dele sorrirem pra mim.
— Sim, só temos que esperar um pouco. — E me apertou um pouco mais colocando as mãos por baixo do meu casaco para começar a fazer círculos com o dedão na minha barriga. Eu deitei novamente a cabeça em seu ombro e aproximei o nariz do seu pescoço, sentindo o contato com o tecido.
— Tira essa máscara. — Reclamei tateando ele com uma das mãos até encontrar o fecho traseiro que a prendia. Ele abaixou a cabeça levemente para facilitar o processo, e ai a joguei para o lado. — Bem melhor.
Ele sorriu virando-se para mim e me tomando os lábios suavemente, me inebriando com seu corpo abarcando o meu, e suas mãos em contato direto com a minha pele continuava a desenhar círculos na minha barriga. Eu sentia seu calor e dentro de mim surgia um frio na barriga numa espécie de ansiedade.
Ele continuava me beijando daquele jeito ameno e então recuou levemente. Seu rosto ainda muito próximo ao meu, ele traçou beijos pelo meu rosto enquanto me ajustava naquele seu abraço e eu não podia pedir mais nada aquela noite.
— Se tiver muito frio você me fala 'que eu trouxe um monte de cobertores. — Ele riu com os lábios ao meu ouvido.
— Estou aquecida — Falei sentindo um arrepio provocado por ele — Só tenho medo do fazendeiro aparecer aqui com um ancinho e dois cachorros tocando a gente pra fora das terras dele.
— Hm?
— A gente tá numa fazenda de arroz né? — E recebi um breve sim em confirmação — Se o dono da fazenda chegar e encontrar a gente aqui sem permissão... — Ele riu de forma contida.
— Não se preocupe com isso. O fazendeiro deve estar fazendo coisa melhor.
— Como você pode saber? — Perguntei enquanto um grilo começava a cantar.
— Ele deve estar abraçando a namorada dele, aproveitando esse céu que só se vê das terras dele. — Falou casualmente e eu suspirei revirando os olhos até que aquelas palavras foram tomando um novo sentido.
— Você... — Eu disse de repente, virando para olhá-lo melhor — não é o dono, né? — Ele estava sorrindo feito uma criança que tinha sido pega no flagra. — Você é dono disso tudo? — Apontei um tanto incrédula, ele balançou a cabeça positivamente. — Você é produtor de arroz? — Ele começou a rir.
— Vai com calma, meu bem. — Disse me dando um beijo rápido enquanto eu continuava incrédula — A fazenda é da minha família. Herança do meu avô, na verdade. — Pisquei atônita, voltando a repousar as costas no peito dele.
— Não acredito. — Falei pasma — Você... Um homem da fazenda. — E ri imaginando ele com um macacão jean surrado, camisa xadrez e chapéu de palha. — Você não tem pinta de fazendeiro.
— Eu administro a distância, então não tenho quase nenhum envolvimento. — Deu os ombros — Eu cresci aqui mas desde que voltei da Inglaterra que não passo mais de uma noite aqui.
— Pensei que você não era da região.
— Mas eu não sou. Meu pai é de Tóquio, ele era contador especializado na contabilidade de fazendas, então acabou sendo contratado pelo meu avô. Foi quando ele conheceu minha mãe, ficou apaixonado por ela, e em menos de seis meses já estavam casados e morando numa casa no subúrbio de Tóquio.
— Seu pai é rápido. — Disse divertida.
— Ele dizia que tinha que amarrar ela antes que ela percebesse os defeitos dele — E riu um pouco nostálgico — A verdade é que ela já sabia de todos os defeitos quando casou. Com um ano de casados ela se viu grávida de mim, eu nasci em Tóquio, mas meu avô morreu quando eu tinha uns seis anos. Minha mãe não queria se desfazer da fazenda então meu pai largou o emprego e viemos todos para cuidar disso aqui.
— Eles ainda moram aqui? — Perguntei curiosa sobre o passado dele, Kakashi não falava muito sobre si mesmo e eu estava disposta a aproveitar o momento.
— Ah, meu pai sim. Minha mãe morreu pouco tempo depois. — Ele maneou a cabeça, não parecia triste ao falar disso — Ela ficou muito mal com a morte do meu avô... Morreu quando eu tinha uns sete anos. Depois disso foi só eu e meu pai aqui.
— Ele não quis se casar de novo?
— Não... Minha mãe foi o único amor dele. As vezes ele aparecia com uma paquera porque ele era um homem bonito e até jovem, mas ele nunca se dispôs a começar um romance de fato.
— Então ele é tipo meu pai, que acha que não vale a pena se desgastar com pequenos amores.
— Quando eu era mais novo achava isso uma besteira — Ele deu uma pausa refletindo rapidamente — Depois de mais velho comecei a entender melhor essa decisão.
— Ah foi? — Eu projetei a cabeça levemente para cima, buscando uma vista da sua face. O que encontrei foi uma expressão distante, como quem está repassando algo em sua mente. Fiquei em silêncio imaginando o que se passava na mente dele.
— Quer ouvir a história dessa cicatriz? — Perguntou de repente e nossos olhos se encontraram — É meio longa. — Disse com um sorriso dolente. O olhei por um longo momento me perguntando o que seria tão doloroso sobre aquela marca em seu rosto.
— Sou todas ouvidos. — Se ele estava disposto a compartilhar algo que aparentemente era tão doloroso, então eu estava pronta pra ouvir.
Ele suspirou profundamente em preparação para o que estava por vir. Soltou o ar dos pulmões com um ruído e eu passei a mão pelos seus braços que me envolviam, demonstrando apoio. Ele sorriu pra mim e me deu um beijo na têmpora antes de começar.
— Quando eu me mudei pra cá, eu era esquisito. Era uma criança chata e quase sempre distante. Tinha muita coisa acontecendo e eu não me sentia confortável com ninguém que não fosse meu pai. Eu fui pra uma escola na cidade... Fazia uma pequena viagem para chegar e voltar todos os dias e não tinha a menor paciência para interagir com as pessoas apesar de sempre manter boas notas. — Ele deu uma pausa curta, seus dedos voltaram a fazer círculos na minha barriga e o vento soprou um pouco mais frio — Dai tinha essas duas crianças que não me deixavam em paz, ficavam me seguindo por ai... Eu realmente não gostava delas, eram muito irritantes. E eu não sei em que momento foi, mas teve uma hora que elas passaram a ser menos irritantes. É aquela coisa, água mole em pedra dura..
— Tanto bate até que fura. — Completei e ele maneou a cabeça divertido.
— É, e ai em algum momento eu me tornei amigo dessas pessoas, Rin e Obito. Começamos a passar muito tempo juntos fazendo todo tipo de coisa. Mas ai a gente foi crescendo e as coisas vão se complicando. Obito descobriu uma paixão por Rin, e ela descobriu uma paixão por mim, e eu não estava apaixonado por ninguém — Ele riu com humor — Gostava dos dois como amigos e era só isso. — Deu os ombros — Eu não sei se foi o fato de Obito falar muito da Rin pra mim, dizendo que eu era muito burro de não estar com ela, mas de algum jeito eu comecei a enxergar ela de outra forma. Foi como se ele tivesse virado uma chave em mim, ligado meus hormônios, não sei — E riu novamente, parecia um tanto constrangido — A gente tinha uns quinze anos...
— Você viu os peitos dela crescerem. — Ajudei ele a pôr pra fora, e por motivo de falta de peitos eu me senti um pouco enciumada.
— Não foi assim... — Ele deu uma pausa considerando as palavras — Ela mudou, sim. Mas eu comecei a reparar mais nela, notar... — Suspirou — tudo basicamente.
— Tudo?
— É, Sakura. Eu me dei conta da presença dela, algo assim. Ela parecia estar amadurecendo em todos os aspectos, e somado ao fato que corava com certa frequência se me pegasse olhando pra ela, então é... Eu comecei a notar tudo.
Seu olhar ficou perdido por um tempo e os círculos na minha barriga cessaram. Eu sabia que não devia, mas aquele olhar e o jeito com que ele falava dela me deixavam num misto de ansiedade e irritação. Eu não falei nada e deixei que ele tomasse o tempo que precisava para continuar.
— E Obito ficava falando no meu ouvido 'vai cara, ela tá na sua', porque ele gostava tanto dela que queria ver ela parar de correr atrás de mim e nos ver juntos. Sim, Obito era esse cara que colocava os outros acima dele. Ele estaria feliz se todos estivessem também, mesmo que a garota que ele gostasse estivesse com seu melhor amigo que nem gostava tanto dela assim.
Sua risada saiu num tom amargo e eu não sabia o que aquilo significava direito.
— Então eu cedi. Eu e Rin começamos a namorar mesmo eu não gostando tanto assim dela, mas o tempo foi passando e algo em mim foi mudando. Rin era doce e gentil, sempre estava comigo, e lentamente ela foi me fazendo sentir algo por ela, até que chegou um ponto do nosso relacionamento que eu tinha um amor apaixonado por ela. — Ele voltou a me fazer carinho lentamente, voltando a ficar mais confortável — Éramos aquele casal da escola que todos achavam que iriam se casar um dia e ter filhos. — E deu uma risada seca — E creio que nós dois até acreditamos nisso.
Outro vento frio passou forte o suficiente para balançar as folhas das árvores de maneira mais agitada. O barulho suave do farfalhar contrastava com o canto agudo da cigarra. Kakashi deu uma pausa e eu fechei os olhos, protegendo-os do vento e virando o rosto mais pra dentro. O cheiro dele era presente, seu calor.. Mas ele não estava ali, a sua mente estava no passado.
— Foi no terceiro ano que tudo mudou. Eu tinha me inscrevido num concurso de poemas que ia premiar os cem melhores em todo o país, daí eles seriam publicados na forma de um livro pelo ministério da educação. O meu poema atingiu a melhor pontuação, fui o primeiro colocado. Meu professor ficou agitado e mandou meu poema e outros textos que eu tinha produzido para um amigo dele na Inglaterra. Eu só vim descobrir isso quando o cara veio bater na minha porta, dizendo que poderia me arrumar uma bolsa de estudos integral em Oxford, e tudo que eu precisava fazer era escrever um livro infantil.
— Um livro infantil? — Perguntei confusa. A voz dele parecia muito mais natural nessa parte da história. Falava com certo orgulho de si mesmo. Eu gostava dessa voz.
— Sim, na época eles tinham um programa para jovens escritores que já tivessem alguma publicação, então o amigo do meu professor, Jiraya-sama, ele achou que seria mais fácil conseguir a publicação de um livro infantil, e eu simplesmente o fiz. Escrevi um livro de cinquenta páginas e mandei pra ele.
— E ai?
— E ai nada. — Ele riu — Jiraya-sama me deu o pior ghosting da minha vida.
Eu ri da forma que ele falou ghosting, enfatizando como eu chamava esses sumiços irritantes e desnecessários.
— Ele desapareceu. Eu achei que ele tinha desistido de mim ou algo assim. Continuei vivendo, estudando. Tinha decidido que ia virar contador, assim como meu pai. Obito ia seguir comigo porque a família dele tem uma série de comércios, e Rin tinha optado por farmacologia. — Ele suspirou — Tava tudo andando até que um belo dia recebo um pacote do correio. Era meu livro. Capa dura, folhas grossas, todo diagramado com ilustrações de um cara famoso. — Ele sorriu virando pra mim — Meu livro tava ali, pronto e publicado, Sakura.
— Ele simplesmente deixou tudo pronto?
— Sim, eu não mexi um dedo! — E estava divertido — Eu fiquei tão feliz, Sakura. Não pela bolsa, mas pelo livro em si porque eu tinha dedicado um bom tempo para escreve-lo, e apesar de ser curto, foi uma história que eu realmente gostei de escrever, e achei que tinha sido tudo em vão até ver meu livro pronto.
— E Jiraya?
— Apareceu uns dias depois para acertar as coisas com meu pai, pegar meu histórico escolar, algumas assinaturas... Ele resolveu a papelada e me deu uma passagem só de ida para a Inglaterra. Meu pai era só orgulho, ficava se gabando por ai. Obito pirou de felicidade, comprou três livros de uma só vez. Todo mundo estava feliz por mim, exceto por Rin.
— Ah... — Soltei sem querer e ele não pareceu notar. Simplesmente tomou folego e continuou.
— Ela ficou péssima com o fato de eu ter que me mudar. Ela nunca pediu, mas tudo o que ela fazia, tudo o que falava, até o jeito como ela me olhava, tudo gritava 'não vá', mas ela não pediu e mesmo que o fizesse, eu iria assim mesmo. Ela sabia disso, só evitou se magoar sem necessidade. — Deu os ombros — Eu falei pra ela que iriamos dar um jeito, que nas férias eu ia voltar.. Que ela tivesse paciência, seriam só três anos... — E maneou a cabeça complacente — Então eu fui e ela teve paciência, mas as férias do meio do ano chegaram e... — Ele soltou o ar dos pulmões parecendo cansado repentinamente.
— Você não voltou pra ela.
— Não. — Sua voz estava profunda — Não voltei. — Ele deu uma longa pausa antes de continuar — Tinha uma atividade acadêmica de férias, eu queria participar, ela não quis aceitar isso e nós terminamos. — Outra pausa — Ela me disse que eu estava esquecendo dela, que já não gostava dela e que sabia que a Inglaterra iria destruir o nosso relacionamento. — E riu — Ela era um pouco dramática como você pode ver.
Permaneci calada. Não parecia certo concordar ou discordar daquilo, afinal, é uma daquelas situações que você só sabe o que acontece quando acontece. Você não pode simplesmente prever uma reação e assumir como certo ou errado. Kakashi sabia disso também.
— Eu voltei pro Japão nas férias seguintes e descobri que ela e Obito estavam num relacionamento não muito sério. — Arqueei uma sobrancelha em expectativa. — Eu não me importei, sério. Fiquei feliz pelo meu amigo finalmente ficar com a pessoa que ele queria estar, e descobri que aquele amor apaixonado que eu sentia não era tão profundo assim. — Deu os ombros — Nós três continuamos amigos, saiamos quando eu vinha pro Japão, conversávamos e... Enfim, eu era amigo deles de qualquer modo. — Suspirou — E minha vida estava indo muito bem, eu abracei Londres como a minha cidade, resolvi emendar minha graduação com um mestrado, e acabei passando cinco anos lá.
— Nossa — Eu ri baixinho — Você só se jogou na literatura, hein.
— É. Eu foquei bastante nela, e teria focado mais se eu não recebesse um chamado do meu pai dizendo que ele estava um pouco ruim da saúde. Meu pai já não era tão novo, e se ele precisava de mim eu com certeza voltaria. Ai eu falei com Jiraya-sama, me apliquei para o programa de doutorado da universidade de Tóquio, voltei pro Japão, aluguei um apartamento no centro, cuidei do meu pai, aprendi a lidar com a fazenda e estudei.
Ele parou um pouco, umedeceu os lábios e eu percebi que a lua havia andado um bocado no céu. As estrelas continuavam brilhando intensamente e o grilo tinha nos abandonado, nos deixando a mercê do ruído das folhas mexendo e do vento soprando em nossos ouvidos. Ficava mais frio a cada minuto, mas Kakashi não parecia perceber mergulhado naquela longa história.
— E ai eu comecei a sair com meus velhos amigos, que estavam terminando a graduação na mesma universidade. Obito morava no prédio em frente ao meu. Nos encontrávamos direto, e Rin voltou a ser uma pessoa frequente na minha vida. Ela não tinha mudado muito e nem eu, a conversa vinha e ia facilmente. Era fácil estar com ela, e acho que ela pensava a mesma coisa, já que começou a dar em cima de mim novamente.
Revirei os olhos sabendo que ele não podia me ver.
— Eu não gostava dela dessa forma, eu tinha consciência disso. Mas Rin era aquela pessoa que estava ali para me dar o que eu precisava, ela me dava atenção, cuidava de mim, e me dava amor. Então foi natural quando voltamos com nosso relacionamento. Obito ficou feliz também porque parecíamos estar retomando de onde paramos, apesar de que ele ainda gostava muito dela... Obito nunca superou a Rin. — Ele suspirou — E a Rin sabia disso. Eu não dava muita atenção para ela, confesso. E não me leve a mal, eu gostava dela só que... Não era aquele gostar de antes, e Obito estava lá o tempo todo, se divertindo, dando a atenção que ela precisava e merceia.
Ele não precisava dizer com todas as letras, eu já havia entendido o que tinha acontecido entre eles pela forma que ele estava colocando toda aquela situação. Não precisava ser nenhum adivinha e ele sabia que eu havia entendido, mesmo assim ele disse em alto e bom som.
— Rin estava me traindo com Obito.
A voz dele era surpreendentemente tranquila. Não parecia ter guardado nenhum tipo de mágoa da moça por tal gesto, na verdade ele me contava aquilo como se fosse a parte menos interessante da história, querendo apenas que eu não a julgasse. Pois bem, eu não o faria.
— Eu percebi isso ainda nos primeiros meses. O jeito que ele olhava pra ela, como eles ainda pareciam um casal quando estavam sozinhos em festas, tinham também alguns comentários... Foi quando Genma me falou com todas as letras que tinha pego os dois no banheiro de uma festa. Eu conheci Genma nessa época e ele nunca foi com a cara da Rin porque ela também não gostava dele, e ai eu entendi que era porque ele andava nas mesmas festas que ela e eventualmente iria flagrá-los. — Ele riu com a justificativa — Enfim... Ele me contou e você pode achar que eu fiquei puto... Mas eu recebi a notícia de um jeito tão tranquilo que até mesmo eu me surpreendi com minha falta de expressividade.
Me soltando do abraço, ele levou a mão até um travesseiro em suas costas e o arrumou brevemente, tornando a me abraçar logo em seguida, subindo o cobertor até meu pescoço para me proteger do frio ao notar que ventava cada vez mais forte. Estávamos no momento mais escuro da madrugada.
— Eu entendi que pra ela era fácil estar com Obito, ele sempre quis ela, sempre cuidou dela. Obito era a pessoa que dava o que ela precisava sem pedir nada em troca, ao passo que eu estava ocupado com minha vida acadêmica, meu pai, a fazenda... e também não queria sair com ela. Eu estava numa época de apreciação do lar — Riu achando o próprio termo idiota — E Obito sempre estava ali saindo com ela, levando ela pra todos os lugares, então... Eu não senti nada além de gratidão por Obito.
Eu arqueei uma sobrancelha, levemente confusa.
— Sabe, eu fiquei feliz por ela ter alguém que suprisse essas necessidades dela. É difícil explicar, mas... Eu não senti raiva em nenhum momento, eu não senti nada. Eu recebi a informação e nada mudou pra mim. Rin ainda era minha namorada, Obito ainda era meu amigo... E eu percebi que as coisas funcionavam bem do jeito que estavam. Rin tinha o que ela queria, Obito tinha o que queria, e eu tinha o que eu precisava. Eu não me importei de dividir Rin desde que eu fosse a prioridade dela, entendeu? — Ele deu uma pausa mas não esperou uma resposta — Enquanto eu fosse a pessoa que ela apresentava pros amigos como namorado, a pessoa que ela pensasse antes de dormir, a pessoa que ela amasse... Enquanto eu fosse essa pessoa para ela eu não me importaria de deixa-la se divertir com Obito, porque isso também me isentava de várias responsabilidades com ela.
Quando ele pausou a história para sua própria reflexão, eu percebi que estávamos chegando a algum lugar. Voltei a pôr minhas mãos em cima das dele, lhe fazendo um carinho que ele meramente percebeu. Fitava algo além da paisagem, algo que eu não conseguia ver.
— Então o tempo passou dessa forma, eu já estava terminando o doutorado quando recebi uma oferta de emprego muito boa, também tinha passado num pós-doc na Inglaterra, mas não pretendia voltar porque estava tudo indo muito bem aqui no Japão. — Maneou a cabeça levemente — Foi numa tarde dessas, meio quente meio fria.. Eu estava deitado com Rin, estávamos vendo qualquer coisa na TV e de repente ela começou a falar dos nossos hipotéticos filhos. E ela foi falando, empolgada, sobre como gostaria de ter tantos filhos e sobre que nome escolher para eles. Eu falei que deveríamos pedir conselhos a Obito, já que a criança passaria muito tempo com o tio Obito, então ele deveria participar dessa decisão.
Ele deu uma pausa longa, continuou olhando para longe revivendo o momento na sua cabeça. Mantinha um sorriso um tanto amargo, como se estivesse olhando para uma memória de que se arrependesse. Tomando um pouco do ar gélido para dentro dos pulmões, ele continuou.
— Ai ela mudou. Ficou com uma expressão esquisita, meio taciturna... Do nada ela falou "você sabe, não é?" — Ele fez outra pausa. — E eu respondi que sim, que sabia que ela estava me traindo com ele. E que estava tudo bem também, que eu já sabia a muito tempo e não me importava. — Dava pra sentir certo nível de repugnância nas suas palavras, como se estivesse punindo a si mesmo em sua própria consciência. — Ela ficou confusa, mas conversamos bastante aquela noite, e a discussão acabou comigo dizendo que se fosse com qualquer outro eu não aceitaria aquela situação, mas como era com Obito, nosso melhor amigo, um cara que eu sabia que não estava se aproveitando dela, então tudo bem. — Ele soltou uma risada condita em escárnio — E pra confirmar que estava tudo bem, eu me levantei, fui no quarto e voltei me ajoelhando na frente dela, pedindo que casasse comigo.
Kakashi parou novamente mergulhado naquela memória. Eu me empertiguei em seu enlace para buscar uma visão melhor do seu rosto. A lua jazia por trás dele, fazendo sua silhueta iluminar-se brevemente, mas os breves traços de sua expressão revelavam arrependimento. Eu queria me virar e abraça-lo, dizer que não precisava continuar e pedir que afastasse tudo o que vinha a seguir, mas não o fiz porque sabia que ele precisava fazer aquilo.
— Ela aceitou, parecia feliz e realizada... Não faço ideia do que ela estava pensando ou sentindo, mas ela parecia realmente feliz, e talvez a ideia de não ter que se separar de Obito lhe fizesse sentir eufórica. Já pra mim, era aquela coisa, enquanto eu fosse a prioridade dela tudo bem ela ter seu caso com Obito, não mudava em nada minha dinâmica com ela. — Deu os ombros — Ela estava feliz, não parava de falar nisso, com as amigas, com a família... Eu estava bem também, com aquela sensação se estar seguindo o fluxo da vida — E riu seco — E só faltava dizer a Obito...
Sua voz ficava cada vez mais pesada, eu sentia seu peito se mexer brevemente nas minhas costas conforme o ritmo regular da sua respiração. Ele estava tomando distancia da cena para continuar, bloqueando alguma coisa atrás de uma porta dentro si. Puxei seus braços em torno de mim o despertando do torpor por um momento. Ele sorriu pra mim com uma longa tristeza, me aconchegou nos seus braços e afundou o rosto em meus cabelos, sentindo o cheiro do meu shampoo e me aninhando por um longo momento. O vento frio soprava nossa pele exposta, e com um beijo meigo em meus cabelos ele voltou a falar, dessa vez mais baixo, mais triste.
— Chamamos Obito pr'aquele casarão ali — Indicou com um movimento da cabeça a casa amarela, distante — Meu pai não estava em casa e podíamos ficar à vontade porque não tem ninguém por perto, como você pode ver. — Ele deu um suspiro pesado — Ficamos os três rindo e conversando, lembrando de coisas velhas, falando de coisas novas... E ai, em dado momento, Rin olhou pra mim com expectativa e eu consenti 'Conta pra ele'. Ela olhou cheia de orgulho e falou 'Hey Obito, estamos noivos! Eu e Kakashi vamos casar!' — E deu uma pausa rápida — Você precisava ver a cara dele. Ele não sabia o que fazer. Riu daquele jeito débil, nos parabenizou todo sem graça. Foi péssimo... Ele não sabia o que fazer... Não precisava ser um grande observador pra saber que ele estava odiando a ideia.
Seus braços me apertaram um pouco mais, eu sentia o rosto dele apoiado confortavelmente na minha cabeça. Eu queria dizer para ele que não precisava continuar, que ele podia parar por ai e que tudo bem, que não importava o que havia acontecido, que aquela cicatriz não representava nada... Eu queria que ele parasse de sofrer com aquela história antiga que claramente voltava de tempos em tempos para assombrá-lo.
Mas eu fui incapaz de abrir minha boca, porque aquela decisão de me contar significava algo pra ele, algo denso e ele precisava continuar. Eu só queria abraça-lo e tirar toda dor de seu peito, queria olhar seu rosto e dizer que tudo bem, tava tudo bem, mas eu também sabia que se nossos olhos se encontrassem naquele momento, talvez Kakashi não fosse mais capaz de estar comigo.
— Ele se viu acuado e sem saída, daí deu a desculpa de que ia buscar vinho para comemorarmos e saiu pra cozinha o mais rápido possível. Comemorar algo com vinho, veja só... — E balançou a cabeça — Rin olhou para mim apreensível e ai foi atrás dele. Não demorou dois minutos depois que ela entrou na cozinha, eles começaram a discutir alto. Ele falando coisas como 'Como você acha que eu vou me sentir estando ao lado dele no altar sabendo que eu comi a mulher dele na sexta passada?' — As risadas que ele soltava eram cada vez mais secas e amarguradas — E exasperada, ela gritou de volta 'Ele sabe de tudo, Obito! Ele sabe!' E ai veio o silêncio, e logo depois ele estava na sala, na minha frente.
O jeito que ele falava já não era o mesmo de antes, parecia cansado e mergulhado num profundo vale, mostrando que estava cada vez mais difícil continuar com aquilo.
— Eu o vi parado na minha frente e ele começou a me acusar de tantas coisas... Ele... Estava transtornado... Não me deixou falar em nenhum momento, jogando coisas na minha cara — Kakashi se perdia revivendo aquela cena, ouvindo em sua mente as palavras cruéis que Obito lhe dirigia, e ficou soturno — E Rin ficava cada vez mais nervosa, se sentindo culpada e sem saber o que fazer... Eu... Não sei de onde tirei tanta calma, era como se eu não estivesse vivendo aquilo, era como se eu fosse um expectador, e lentamente eu ia entendendo tudo que havia de errado naquilo tudo, enquanto ele me chamava de egoísta, sádico e tantas outras coisas... Rin começou a gritar de volta, e de repente Obito percebeu que não valia a pena ficar ali, pegou as chaves do carro, saiu batendo as porta e só ouvimos o cantar dos pneus se afastar.
Eu fechei meus olhos, esperando que ele se afundasse cada vez mais, prevendo o que estava para acontecer naquela trágica história. A cigarra voltou a cantar mas o vento parava de soprar, uma nuvem passou sobre nós sozinha e ligeira, devolvendo o luar outrora feliz para nós. Kakashi não notou nada disso, ele estava em um lugar sombrio e distante que só ele podia acessar.
— Rin estava nervosa, sentindo que tudo aquilo era responsabilidade dela, talvez a ficha estivesse caindo, assim como a minha. Ela pegou as chaves do meu carro e eu não podia deixá-la sozinha... Tirei das mãos dela lentamente... Eu lembro do olhar dela para mim, do jeito que ela procurava conforto, algum sinal que tudo ia ficar bem... Não sei se ela conseguiu ver alguma coisa naquele momento.
E se perdeu naquela incerteza, tentando encontrar o motivo para não ter mostrado a mulher àquilo que ela tanto procurava nele, àquilo que ele nunca esteve disposto a dar pra ela. Era a culpa dominando sua voz a medida que ele avançava lentamente nas aguas tortuosas que conduziam a memória.
— Nós entramos no carro e eu sai atrás dele. A cada segundo que passava Rin chorava cada vez mais, estava tendo um ataque de pânico que só ia passar quando eu alcançasse Obito. Eu pisei fundo e ela estava soluçando, se culpando por tudo, pedindo desculpas a não sei quem... Ela era muito sensível... Eu só queria que ela se sentisse melhor, queria que ela não estivesse se culpando tanto, então eu virei pra ela rapidamente e olhei nos olhos dela, disse que ela não tinha culpa de nada... Disse pra ela confiar em mim, que eu ia consertar tudo, que eu faria tudo ficar bem de novo.
O vento voltava a soprar, congelante.
— Foi naquele segundo que ela mais acreditou em mim, foi naquele segundo que ela mais se sentiu amada. E um segundo depois ouvimos o barulho alto. Olhei pra frente e a traseira do carro de Obito tinha sobrado numa curva, ele bateu numa árvore e eu vinha rápido demais para não bater nele logo em seguida. O impacto fez com que meu carro capotasse por cima do dele. Rin morreu na hora, estava sem cinto... Ele sobreviveu, foi levado ao hospital com metade do corpo preso em ferragens e eu... Um ferro passou direto pelo meu maxilar.
E mesmo o farfalhar das folhas nas árvores não era suficiente para afastar todo aquele turbilhão de sentimentos. Eu soltei os braços dele pronta para virar o torso e vê-lo, mas os seus braços me impediram. Ele dizia para mim, silenciosamente, que ainda não tinha terminado. Que não estava pronto para olhar nos meus olhos.
— Acordei no hospital uns dias depois com metade do rosto imobilizado. Passei por umas cinco cirurgias pra por tudo no lugar, mas nada se comparou ao tratamento de Obito. Eu o visitava todos os dias, sentava ao lado dele e não podia dizer uma palavra porque a minha maldita boca não se mexia... Quando eu mais precisava... — Havia raiva naquele tom — Então eu sentava do lado dele todos os dias e o ouvia perguntar por Rin, reclamando porque ninguém falava dela... Reclamando da comida, das dores... E um dia eu encontrei ele de bom humor. Me falou que assim que nos recuperássemos, nós três deveríamos fazer uma viagem, encontrar uma praia bonita e colocar os pingos nos i's. Pediu desculpas por estar com a Rin, por ter saído daquele jeito... E eu só conseguia pensar que eu que deveria estar pedindo desculpas...
— Kakashi... — Eu disse baixo segurando as suas mãos, querendo que ele voltasse pra mim.
— Obito tinha razão. Fui acomodado com relação a Rin, estava com ela por conveniência, me aproveitando dela. Fui cruel com Obito, deixando que ele ficasse com ela como quisesse sem me importar, porque eu não o via como uma ameaça ao meu relacionamento, eu não enxerguei ele como alguém que pudesse interferir de verdade naquilo que eu tinha com ela... Sakura, eu errei tanto... Eu feri o orgulho dele, não me importei com Rin, e tudo isso levou a morte dos dois, porque no dia seguinte o quarto de Obito estava vazio e a família dele preparava um funeral.
Seus braços me apertaram um pouco mais, me trazendo para perto de si ele afundou o nariz nos meus cabelos e ficou ali por um tempo. Eu deixei que ele absorvesse o que precisasse de mim e então me virei suavemente passando uma perna por cima e sentando em seu colo. O abracei com as pernas e me inclinei para trás, observando-o.
Ele era lindo. Sob aquela luz, Kakashi parecia ter vindo diretamente dos céus. Aquela tristeza em seu rosto, no entanto, não combinavam em nada com a ternura que ele vinha me mostrando a dias. Peguei as mãos dele e as coloquei na minha cintura, ao passo que me aproximei dele calmamente, querendo que ele sentisse que aquela história não mudava nada.
Encostei minha testa na dele com minhas mãos confortáveis na curva de seu pescoço, aquecidas pelo seu calor, eu fechei meus olhos mergulhando lentamente na profundidade das emoções conturbadas e sombrias do homem a minha frente.
— Eu vejo você — Falei num sussurro entendendo os significados das minhas palavras. Eu o via, por completo. Ele estava ali no meu abraço, entre meus dedos, e eu o via frágil e vulnerável. Eu via a sua dor. — Eu vejo você, Kakashi — Minha voz era um sopro junto ao vento que cortava, levando meus cabelos para frente. — E você não tem culpa de nada do que aconteceu — E ali estava a mais genuína e gentil certeza. — Entendeu? Você não tem culpa. — Mantive os dedos firmes no seu rosto e a voz suave flutuando na imensidão daquela noite.
Suas mãos escorregaram para as minhas costas por dentro da lã, seus dedos pressionavam a minha pele como se quisessem ter certeza que eu não iria a lugar nenhum, que eu estava ali com ele. Sua respiração ritmada e seu hálito em minha face me diziam que ele estava tentando acreditar em mim.
— Olha pra mim — Eu me inclinei para trás iniciando um carinho no seu rosto, por cima de sua ferida recém aberta. A vastidão negra que eram seus olhos refletiram nos meus — Eu to aqui — E minhas mãos andaram pelo seu rosto, sentindo sua pele levemente áspera, os relevos e contornos — E não vou a lugar nenhum. — E então o beijei, encostando meus lábios com delicadeza nos dele e o trazendo pra mim, o envolvendo com minha presença.
Ainda resistente, ele deixou que eu o fizesse. Rompeu meus lábios aprofundando o gesto conforme sua necessidade, suas mãos me puxavam para si num movimento possessivo. E então recuou subitamente — Você não tem medo? — Perguntou com certa tensão na voz — Que eu não esteja vendo você? — E seu tom vulnerável carregava angustia.
Estávamos a centímetros um do outro, seus olhos tinham medo e ansiedade, sua respiração descompassava e eu sentia o peito dele inflar com a proximidade de nossos corpos. Estava vacilando, estava recuando... Eu não fazia ideia da profundidade dos sentimentos dele, de como eu revirava a estabilidade que ele havia levado anos para ter.
De repente estava tudo explicado. A distância que ele mantinha, a resistência dele para ceder àquela relação... O peso daquela relação estava ali entre nós, naquele olhar. Eu fechei os olhos e senti seu corpo com o meu, o calor do corpo dele afugentar o frio, o cheiro forte que tornava todo o resto mero plano de fundo. Só existia eu e ele ali, e eu sabia que ele estava me vendo. E eu sorri sem perceber, ele hesitou por um momento sem saber o que aquilo significava.
— Não.
E o puxei pra mim, lhe beijando intensamente. Ele pareceu surpreso por um segundo e então cedeu ao meu desejo, à necessidade repentina que eu tinha de tê-lo para mim e só para mim. Seu passado recém remexido foi sendo abandonado pelo meu querer. Eu queria ser a única em sua cabeça naquele momento e não ia parar até ter certeza que ele havia entendido que eu não aceitaria menos que tudo.
E ele entendeu. Suas mãos me pressionavam contra ele avidamente. Kakashi vibrava naquele beijo febril, tomando posse de mim e deixando que eu tomasse posse dele. Seus lábios escaparam fazendo uma trilha até meu pescoço, arfei com seu toque obstinado, arquejando sobre o crescente desejo que me arrebatava.
Abrindo os olhos por um segundo enquanto ele se afastava brevemente entorpecido, notamos finalmente os rastros de luz caindo em cascatas acima de nós. Levantei a cabeça vendo centenas de estrelas romperem pelo céu deixando finas linhas luminosas por onde passavam.
— É uma chuva de meteoros — Murmurei com a boca entreaberta, embasbacada com o evento acima de nós e então desci o olhar para pegar Kakashi em flagrante, olhando pra mim com um sorriso genuíno. Eu sorri de volta contagiada pelo seu humor.
— Feliz aniversário — Ele me disse e eu o envolvi num abraço mais aconchegante, lhe dando um pequeno beijo antes que ele continuasse — Você fez um pedido quando apagou as velas, não é? — Eu concordei com a cabeça — Eu quero te dar centenas de desejos que vão se realizar. — E eu não conseguia parar de olhá-lo, registrando aquela expressão relaxada que ele havia assumido de repente. Eu não pude deixar de me sentir capaz — Não fique ai me olhando. Faça seus pedidos, meu bem. — Capaz de fazer toda a dor abandonar seu ser. Fechei os olhos por um breve momento e os abri logo em seguida.
— Está feito. — E sai depositando uma série de beijos em seu rosto, passando pela têmpora, bochechas, queixo, boca...
Me acomodei ao lado dele, encostando a cabeça em seu ombro para assistir o resto do show que as estrelas nos proporcionavam. Ficamos num agradável silêncio apreciando a companhia um do outro. Lentamente os rastros iam rareando até finalmente cessarem. Ninguém se mexeu. O vento começava a soprar um pouco mais quente, anunciando que logo o sol despertaria.
— A gente pode ver o sol nascer? — Perguntei projetando a cabeça para vê-lo. Ele sorriu calmamente antes de me depositar um beijo.
— É claro. — E me puxou para si — Tudo o que você quiser.
;
Um galo cantava lá longe baixinho. O eco de sua voz invadia os espaço entre mim e Kakashi. A luz alaranjada surgia calmamente, seus tons quase rosas criavam um espectro de cor curioso nas folhagens. Os terrenos alagados refletiam suave o sol tímido que bocejava seu hálito quente na doce manhã.
Eu e Kakashi ficamos ali, sonolentos vendo ele sair. A fazenda tinha um brilho diferente de manhã, isso tinha que ser dito. A calmaria silenciosa da noite suscitava uma serenidade em forma de mistério, mas aquele sol refrescante evocava uma energia revigorante. Aconcheguei-me em Kakashi como se ele fosse meu travesseiro particular, e apesar de estar um pouco mais quente, eu não queria me afastar do seu abraço.
— Acho que devemos ir, não é? — Perguntou olhando pra mim com um sorriso de canto. Eu não queria ir, mas tinha que admitir, já havíamos passado da hora.
— humrum... — Soltei enquanto ele se mexia, me fazendo sentar direito.
Levantei vagarosamente, pulei da traseira do carro e pousei no chão sentido o corpo ganhar um pouco de energia. O suficiente para que eu conseguisse me manter de pé enquanto via Kakashi passar a lona por cima da nossa cama improvisada. Prendendo bem, voltamos para dentro da cabine.
O homem ao meu lado estava tranquilo. Parecia revigorado pelos raios do sol. Alguns diriam que a vitamina D o fazia bem, mas eu sabia que no fundo, o que lhe fizera bem, foi a confiança que depositamos um no outro noite passada. Estávamos mais leves, conectados.
Ele deu partida e seguimos pela estrada. Apesar de eu querer me manter acordada conversando com ele, o balanço do carro foi mais forte em me ninar. Dormi a maior parte do tempo e Kakashi parecia estar dirigindo mais devagar, como se o sono também afetasse a sua disposição em guiar o carro. Entramos na cidade e eu acordei com um bocejo.
— Meu bem, você vai querer ir pra casa? — Ele perguntou não antes de me devolver o bocejo.
— Não... Eu to na casa da Ino — Falei esticando os braços com um ruído — Só posso pisar em casa depois de meio dia — Expliquei dando um sorriso torto. Não me orgulhava de mentir pro meu pai, sequer de mentir de modo geral, mas o fato é, eu precisei.
Ele maneou a cabeça com humor, os olhos pesados contrastavam com sua expressão de divertimento, lhe dando um ar um tanto engraçado. — Pra minha casa então. — Decidiu virando a esquina.
Não demorou para chegarmos. Ele enfiou o carro na vaga sem muita demora, pegou a minha mão e me guiou para o elevador. Fui eu quem apertou o botão do quinto andar para logo após me jogar nos braços dele querendo ceder ao sono.
Entramos no apartamento sem ligar as luzes. A luz do sol já era suficiente para nos fazer enxergar o caminho por onde passávamos. Os móveis criavam sobras definidas por todo o espaço, naquela luz natural, o apartamento de Kakashi parecia cada vez mais acolhedor e aconchegante.
Seguimos para o quarto, ele entrou primeiro acendendo as luzes e eu dei uma boa olhada no cômodo dessa vez. A cama desarrumada tinha lençóis brancos e fronhas cor creme, estava uma zona e eu deduzi que ele não tinha o hábito de arrumá-la depois de acordar. Ela ficava entre duas mesinhas de cabeceira, cada qual com um abajur. Numa delas havia a embalagem de um papel de bala sob um livro de capa vermelha, além disso um carregador de celular e fones de ouvido estavam quase caindo no chão. No outro havia algo como o frasco de um colírio e um notebook no carregador.
Eu me dei conta estar no ambiente mais pessoal da casa. Algo que não tinha acontecido na noite em que ele simplesmente me jogou na cama. A bebida da noite e a falta de iluminação provavelmente não me ajudaram a perceber, mas um quarto revelava muito sobre ele. Eu sentei na beirada da cama enquanto ele sumia por uma porta no canto, provavelmente a suíte.
Havia um quadro enorme apoiado na parede atrás da cama, era uma moça olhando intensamente para o ambiente pintada em tons de vermelho. Tinha um ar modernista, até mesmo abstrato, mas era claramente uma moça com a mão por cima do ombro. Na parede perto da porta duas pilhas de papel dividiam espaço com lápis e canetas espalhadas sobre uma mesa. Não era difícil imaginar que fosse material de trabalho. Na parede oposta tinha um janelão enorme com cortinas pesadas lhe cobrindo.
Mas o que mais chamava atenção naquele quarto, definitivamente, era a gigantesca tela curva que ficava de frente pra cama. Era enorme. Era posicionada entre dois armários simétricos, obviamente feitos sob medida para o apartamento. No móvel de apoio embaixo da TV havia uma cestinha com vários pendrives dentro, uma bagunça de fios ao lado e por fim dinheiro amassado.
Tirei os tênis jogando-os para debaixo da mesa próxima a parede, fui enrolando a barra da meia para tirar ela num movimento simples, fiz o mesmo com a outra e notei as marcas vermelhas da costura na minha pele. Passei a mão sentindo a textura quando percebi Kakashi me olhando. O olhei por cima do ombro, o sono batendo forte.
— Me empresta uma camisa? — Pedi com um sorriso torto, ele me sorriu de volta tirando o casaco que vestia e jogando-o em cima da mesa com papeis.
Ele abriu uma porta do armário eu pude ver um guarda roupas muito bem organizado. Ele tirou a primeira camisa de uma pequena pilha e me passou.
— Posso usar sua escova de dentes? — Perguntei agarrando a camisa preta contra o peito e pulando para o chão.
— Claro. — Ele disse casual virando pra mim. — Ah, não... Espera — Falou de repente me fazendo parar com a mão no trinco. Ele vasculhou uma gaveta na outra parte do armário e me deu uma escova nova — Deixa no banheiro pra você.
Eu ganhei uma escova de dentes!
— Devo interpretar isso como um convite para passar mais tempo aqui? — Sorri torto, o sono atrapalhando minha expressão esperta.
— De certo que deve. — Sorriu de volta.
Entrei no banheiro e percebi que era algo ainda mais íntimo que o quarto. Fiz xixi olhando para os produtos de banho através do vidro do box. Haviam uns três tipos de xampu ali, sabonete líquido, sabonete em barra, esponja... Tirei minha blusa de lã e a dobrei de qualquer jeito, passando a camisa com cheiro de amaciante e Kakashi por cima da cabeça sentindo o tecido leve refrescar o corpo. Tirei a saia e conferi o tamanho da roupa dele em mim. Batia abaixo da bunda.
Escovei os dentes vendo o pós barba em cima da pia, junto com vários outros itens de higiene pessoal e estética. Fiquei imaginando ele saindo do banho e escolhendo um hidratante para a pele.
Comecei a me sentir ansiosa quando depositei minha escova de dentes ao lado da dele. Tudo ali era dele, coisas pessoais e intimas, e agora eu estava compondo aquele cenário mesmo que com apenas um item simples. Olhei um par de olhos verdes no espelho, um pouco fundos da noite não dormida. O cabelo jogado todo pro lado, o rosto que havia acabado de lavar e a camisa dele que caia suave em minha pele.
Aquele cheiro..
Era o mesmo cheiro de horas atrás quando ele me contava da parte mais sombria que havia nele. O mesmo cheiro de quando se permitiu deixar todas as defesas caírem perante a esses olhos refletidos, meus olhos.
Não que estivesse me sentindo insegura, mas era um importante momento de percepção. Eu não era uma saída casual, um romance qualquer que podia acabar a qualquer hora. Ele estava me colocando na vida dele por completo. Sem perceber, estava sorrindo num misto de felicidade e expectativa.
Kakashi sempre foi certeza na minha vida, e agora eu era na dele também.
Abri a porta do banheiro e dei para um quarto escuro. Com as luzes apagadas, raios de sol persistentes vazavam pelas poucas frechas da pesada cortina que cobria a janela. O quarto estava mergulhada numa quieta penumbra, com sombras densas ressaltadas pela pouca luz que alcançava precariamente os objetos.
A silhueta do homem já deitado na cama puxando o lençol num gesto convidativo me fez rir. Escorreguei rapidamente para o lado dele em silêncio, deitando a cabeça no seu ombro nu e recebendo um doce beijo na testa. Não falamos nada. Uma mão suave passeava em minhas costas num movimento de vagaroso de vai e vem.
Uma vez deitada ao seu lado, com a mão em cima de seu torso caloroso, senti aquela sensação de ser bombardeada pelo seu cheiro por todos os lados. Eram os lençóis dele, a cama dele e os travesseiros dele. Era ela ali do meu lado emanando seu calor suave enquanto me acariciava as costas em uma tentativa de, talvez, me ninar.
Aquela sensação me deixava cada vez mais consciente da sua presença. Do seu torso definido ao alcance da minha mão e eu precisava de todo autocontrole que havia em mim para não me deixar tatear aquele corpo convidativo. O sono ia me traindo, sendo substituído por algo que não deveria estar ali.
Pelo menos não agora.
Ele não podia ver meu rosto por conta da nossa posição. Eu estava me obrigando a ficar parada e tentando, inutilmente, me distrair com qualquer coisa. Mas ali estava, minha mão subindo e descendo conforme seu peito inflava suavemente pela respiração regular. O silencio também não me ajudava, e aquela mão insistente nas minhas costas.
Mexi as pernas sem querer. Senti ele se mexer um pouco e tentar me ver. Levantei levemente o rosto dando-lhe uma visão parcial minha. Ele estava tão perto!
— Tendo dificuldades pra dormir? — Sua voz levemente rouca e cansada se fez presente sem muito esforço. Maneei a cabeça sem querer falar nada. Tinha medo que minha voz me traísse. — Talvez assim... — Ele girou o corpo e me virou junto com ele. Agora naquela velha posição tão amada por casais apaixonados, estávamos de conchinha.
Aquela mudança só me fez ficar ainda mais desperta. Sua mão agora depositada displicentemente em minha barriga, traçando círculos suaves com os dedos por cima da camisa que eu vestia, que tinha subido. Minha bunda estava completamente a mercê, e eu podia sentir o tecido da seda tocando minha pele recentemente exposta.
Sério que ele dormia de samba canção?
Se ele abaixasse um pouco mais a mão, ele poderia facilmente sentir o tecido da minha calcinha, e isso me deixava ansiosa, preocupada. Fiquei ali com os olhos abertos, olhando para o frasco do colírio na mesa de cabeceira, tentando inutilmente ler o rotulo. Maldita falta de luz.
— Porque você não tá dormindo também? — Perguntei achando que iniciar uma conversa era mais seguro que ficar com meus próprios pensamentos.
— Hmmmm — Soltou preguiçosamente, tentando pegar mais tempo para responder — O sono me escapa as vezes. — E era uma resposta plausível, porém insatisfatória.
— E o que você faz quando está sem sono? — Falei tentando soar divertida e disposta a fazer alguma coisa, mas minha voz saia mais baixa do que o esperado, e o tom sugeria...
Eu devia ficar de boca fechada.
— Hmmmmmm... Eu fico na cama pensando em qualquer coisa até dormir. — Ele tinha a voz preguiçosa de quem está cansado demais pra falar, ainda que estivesse sem sono.
Ele me puxou para si afundando seu rosto nos meus cabelos. Minha blusa enrolava um pouco mais e agora o carinho que me fazia era direto na minha barriga, brincando ao redor do meu umbigo. E minhas costas ardiam com a sensação do seu peito colado em mim.
Malditos hormônios.
Minha cabeça girava e eu sentia que estava perdendo a sanidade com aquele homem preguiçoso atrás de mim. Ele não estava pronto, eu sabia disso. Eu tinha decidido esperar por ele, pela iniciativa dele. Não é como se eu fosse uma viciada ou precisasse disso, mas aquela proximidade... Eu queria que ele se sentisse confortável comigo, com a ideia de nós dois fazendo amor, mas eram poucos os momentos que Kakashi parecia estar deixando se levar, e sempre que percebia isso, ele parava.
Talvez estivesse esperando o meu avanço...
A ideia era tentadora, principalmente naquela situação. Mas eu não era tão confiante para simplesmente ser rejeitada e conseguir olhar para ele como se nada tivesse acontecido.
Eu sei que depois da noite que tivemos, das coisas que compartilhamos, eu deveria estar completamente segura sobre aquele relacionamento, e sentimentalmente eu estava. Mas sexualmente eu ainda não poderia dizer, apesar de que aqueles beijos necessitados fossem um indicativo que poderia ter rolado alguma coisa não fosse meu presente romper no céu.
Não que eu tivesse me arrependido de ter parado para olhar aquela imensa chuva de estrelas cadentes, porque a expressão de Kakashi naquele momento enquanto olhava para mim valeu por cada uma delas.
Mas eu queria mais.
E queria agora.
Num lapso de coragem eu entrelacei meus dedos naquela mão que insistia em não avançar, e a conduzi lentamente e sem nenhuma resistência até meu seio. Eu estava tensa, uma tensão boa e excitante de estar fazendo algo que podia potencialmente dar errado.
Não houve nenhum momento de hesitação por parte dele. Seus dedos tocaram suavemente a minha pele, contornando meu mamilo e logo em seguida massageando-o lentamente. A ponta do seu nariz encostava por trás do meu pescoço, e seus lábios escorregaram por um curto caminho e depois retornando.
Ele estava recuando.
Argh.
Era sempre assim, ele ia até um ponto e simplesmente decidia que passar dali era demais, porque aparentemente ele namorava uma criança.
Ele não estava pronto, eu sabia disso quando fiz essa investida, mas o ponto é que nunca em nenhuma dessas situações eu havia me sentido tão frustrada como agora, e isso despertou uma estranha coragem.
Eu girei na cama, passei uma perna sobre ele e ergui o tronco. Estava sentada em cima dele com o lençol caído atrás de mim, e então tirei a camisa num movimento rápido, ficando praticamente nua na sua frente.
Através das sombras que permeavam aquele quarto, eu vi seus olhos com uma leve surpresa. Ele me olhava sobre ele, mirando meu rosto e descendo lentamente, registrando a imagem perfeita de todos os caminhos da minha pele, e eu só podia agradecer a baixa luminosidade que não o deixava ver minhas bochechas vermelhas.
Não sei quanto tempo levou exatamente, mas para mim pareceu uma eternidade. O conflito estava estampado na sua cara e eu quis perguntá-lo por quando tempo ele achava que íamos levar esse relacionamento sem chegar a esse ponto.
— Kakashi... — Minha voz escapava suave e adequada para o ambiente. Eu não podia esperar. Se ele fosse recuar, então que fosse agora.
Subitamente ele se ergueu, senti meu corpo tombando pra trás a medida que ele avançava em mim. Suas mãos enlaçaram minhas costas, me segurando firme ali enquanto tomava meus lábios num beijo intenso. Joguei as mãos por cima de seu ombro sentindo a respiração se intensificar, ele me puxava para perto e meu quadril se mexia sozinho.
Sua boca escapava da minha mordiscando meu lábio e se arrastando pela minha pele. Deixava uma trilha de beijos pelo meu pescoço, passando pela minha clavícula. Sob seu toque, eu perdia cada vez mais o pouco de controle que tinha, e ai senti seu hálito no meu seio, e depois sua língua testando meu sabor, para então sugá-lo ao seu próprio prazer.
Não segurei o gemido que me surgiu, pressionando meu corpo contra ele com urgência. Cada toque e beijo eram como pequenos impulsos elétricos que percorriam meu corpo. Ele me puxou pra si mais firmemente, deitando as costas na cama e me puxando para deitar sobre ele. Eu me permiti descobrir cada centímetro do seu torso com as mãos, e ele aproveitou para tatear minha bunda empinada, só depois de estar satisfeito nos girou na cama.
Ficando sobre mim nossos olhos se encontraram por um momento. A lasciva e o desejo crescendo a cada segundo enquanto seus dedos arranhavam levemente a minha coxa, seus beijos em meu pescoço me vaziam arquear entre suspiros e gemidos reprimidos.
Aquela mão suave foi subindo lentamente, me deixando consciente do seu destino final. Ele afastou a cabeça para me olhar e eu segurei seu outro braço com uma das mãos displicentemente apoiada em seu pescoço. Kakashi me olhava intenso deixando seus dedos descobrirem meus outros lábios com suavidade.
Ele me tocava suavemente, deslizando seu dedo pelos meus contornos. Seus olhos vivos pareciam chamas, estava imerso nas minhas reações, na minha respiração descompassada que refletia a discreta caricia que fazia na parte mais intima do meu corpo. Me invadiu vagaroso, testando seu controle sobre mim. Eu arquejava em desejo e necessidade, sentindo pulsos elétricos surgirem a partir do seus dedos e tomarem conta de cada parte do meu corpo.
E ai começou a fazer círculos. Kakashi e seus benditos círculos. Ele pressionava e circundava num movimento contido mas que provocava grandes efeitos. Aquela eletricidade de seus dedos viraram tempestades oceânicas. Uma onda cobria meu corpo e podia sentir minha mente apagar.
Eu era só sensações.
Seus olhos lascivos continuavam firmes no meu rosto. Capturando toda expressão, todo o processo de prazer pelo qual eu passava. Estava fascinado pela devoção do meu corpo ao mais singelo toque.
E veio em ondas, os espasmos do meu orgasmos surgiam. Ele tirou seus dedos e assistiu enquanto eu me entregava aquela sensação, minha mão arranhando a cama em busca de algo para se manter firme — Segure em mim — Sua voz soou rouca no meu ouvido, enquanto puxava minha mão para suas costas.
Eu segurei. E ele me cobriu com seu corpo, me invadiu com seu calor. — Ahh... ah.. — Eu gemia baixo em seu ouvido aumentando sua satisfação vicária. — ...Kakashi...
Eu soprei seu nome recuperando lentamente o controle, com os lábios inchados pelos beijos apaixonados e o olhar semicerrado pela intensidade do momento. Ele afastou a cabeça e me olhou antes de passar os dedos ainda úmidos nos meus lábios de maneira displicente, e então me beijou avidamente. Era uma mistura de sabores, o meu e o dele. Um beijo erótico que despertava mais uma vez todo meu desejo por ele.
Sentindo certa urgência, ele esticou a mão e abriu a gaveta do criado mudo, vasculhando por um segundo até encontrar a camisinha. Rasgou a embalagem com a boca e cobriu sua ereção, voltando para mim em seguida.
Beijando, chupando, mordiscando.
E então entrava em mim suave e sem pressa, deixando que meu corpo se acostumasse com sua presença bem-vinda. Seus movimentos começaram simples, como se saboreasse seu prato preferido, e só então as estocadas ficaram mais frequentes.
— ... Ah... — Os ruídos agudos me escapavam. Novamente eu estava a mercê do homem que, desta vez, parecia estar se deixando perder em mim. O ouvi falhar em reprimir um ruído rouco, ele estava em seu ápice. E parou de repente, deixando que eu sentisse seu peso sobre mim enquanto as sensações do prazer compartilhado lhe invadiam.
Ele era meu.
Seu corpo relaxava sobre o meu. Por um momento ficamos ali, quietos. Minhas mãos vagueavam pela suas costas levemente, enquanto eu ainda desfrutava daquela satisfação, do sentimento de completude.
Ele se ergueu, jogou a camisinha no chão após dar um nó rápido, sem se preocupar em sujar o chão. Tinha tempo para limpar amanhã. Se deitou ao meu lado me puxando para si. Deitei a cabeça em seu peito e voltamos a posição que estávamos, com ele fazendo círculos em minhas costas.
E dessa vez, o sono veio.
;
Abri os olhos lentamente. Estava quente e eu sentia meu corpo suado. Pisquei algumas vezes deixando a paisagem nítida. Não estava exatamente escuro pois a luz de um abajur derramava luz no cômodo, ainda que não fosse uma iluminação ideal, mas era o suficiente para se conseguir enxergar tudo que havia ali.
Inclusive um Kakashi segurando um livro de capa vermelha numa mão, ignorando-o completamente pois sua cabeça estava virada para ver a pessoa que acordava sobre seu peito.
Eu.
— Nhmm... — Grunhi virando em seu abraço e esticando os braços pra cima e só no final notando que estava nua. — ãhnn...? — O sono ainda me dominava, estava meio grogue e rolei para o lado, abandonando o homem ao meu lado para me agarrar ao travesseiro próximo.
— Sakura...? — Ele perguntou com cautela, como se quisesse confirmar alguma coisa.
— ... Nhmmm...?
— Você... Vai dormir de novo? — Perguntou dando a entender que eu já havia acordado em algum momento atrás. Eu não lembrava disso.
— Nhm... — Respondi com preguiça e podia sentir a sobrancelha dele arquear atrás de mim — ... que horas são? — Podia ser meia noite, eu não tinha intensão de acordar.
— Quase onze. — Ele respondeu e esperou. Se ainda eram onze horas então não havíamos dormido muito. Eu ainda me sentia cansada e depois de tudo que havia acontecido eu sentia que merecia um pouco mais de descanso.
Depois do que havia acontecido...
Eu...
As memórias finalmente surgiram. Eu me senti corar com as lembranças e agradeci estar virada para o outro lado. O sono imediatamente deixando meu corpo em favor do fluxo de sangue que aumentava com meu breve momento de vergonha.
Eu estava ali, nua na cama dele, e ele provavelmente estava nu também. E nós tínhamos feito tudo aquilo a poucas horas, e eu realmente não sabia como ele estaria se sentido.
— Sakura...? — Ele voltou a questionar, um pouco mais baixo para o caso de eu ter voltado a dormir. Me senti tentada a fingir que de fato estava dormindo, mas quando mais eu adiasse meu despertar, mais tempo eu lhe dava para pensar sobre...
— Ahhh — Falei um pouco mais alto, virando pra ele e puxando o lençol. Ele já tinha visto tudo mas não precisava ver assim tão fácil de novo. Né? — To acordada! — Falei me empertigando ao lado dele.
— E como você está se sentido? — Perguntou colocando o livro de volta no móvel e centrando sua atenção em mim. Nossos olhos se encontraram e eu sorri sem nenhum constrangimento. Sorri pra ele levemente sonolenta, mas era um gesto genuíno.
— Muito bem na verdade. — Lhe garanti sustentando meu olhar, mas eu conseguia ver uma espécie de preocupação em sua face.
— Sakura.. Eu...-
— Para — Cortei ao ver sua expressão mudar para aquele jeito soturno e didático ao mesmo tempo. — Não faz isso. — Pedi fechando os olhos num suspiro. Ele ficou em silencio por um momento. Eu passei a mão no rosto me munindo de paciência.
Ele não estava pronto e eu tinha forçado uma situação... E agora tinha que lidar com isso.
— Sakura...
— Kakashi. — Abri os olhos e nos encaramos. Era aquele olhar. Aquele de quem não sabe como agir ou o que fazer. Aquele olhar de culpa. — Não faz isso. — Enfatizei olhando-o com sinceridade e de repente eu estava me sentindo culpada. — Porque você tem que ficar se sentindo culpado por algo que nós dois quisemos? — Questionei sem querer uma resposta de fato. Comecei a gesticular olhando para a gigante tv de tela curva a minha frente, desatando a falar — Eu tinha decidido esperar você ficar pronto, sabe? Se acostumar com a ideia de que, é, eu sou mais nova, mas que você é meu namorado — E balancei a cabeça — quer dizer, eu não sei, você anda dizendo ai que somos mas eu não escutei nenhum pedido... — Suspirei — Enfim, eu ia esperar por você, eu realmente ia... mas uh... — Fechei os olhos sentindo ficar vermelha — .. eu fiquei excitada, você é gostoso e tava muito perto... — Mexi os braços — Eu devia ter esperado você se sentir pronto... Mas eu não vou me desculpar por algo que fizemos e que gostamos! Er.. bem... pelo menos eu gostei. Então não fica fazendo essa cara de arrependido pra mim porque eu já to começando a me sentir uma promiscua que violou sua integridade...
Enfiei a mão no rosto percebendo que diálogos matinais não eram um dos meus pontos fortes. Eu tinha soltado a língua e falado coisas que eu provavelmente não teria falado, ou pelo menos teria falado de outra forma. Mas eu ainda me sentia sonolenta e não queria que ele ficasse me olhando com aquela cara de 'fiz algo errado'.
O silêncio se fez no quarto. Eu suspirei me sentindo cansada de repente e virei esperando encontrar aquela expressão de culpa, mas pra minha surpresa o homem apenas estava me olhando com uma sobrancelha arqueada e um sorrisinho idiota na boca. Aparentemente minha tagarelice tinha funcionado de maneira muito efetiva, já que ele parecia ter recuperado o bom humor.
— O que? — Perguntei me sentindo corar.
— Você me acha gostoso, é? — Perguntou na minha cara e minhas bochechas pegaram fogo.
— Foi só isso que você ouviu? — Retruquei tentando me manter firme.
Ele riu satisfeito com minha resposta e me puxou para um beijo rápido em minha têmpora, e ai continuou me olhando como se quisesse rir de algo que achou fofinho. Eu fechei os olhos pronta para morrer.
— Sakura, eu não mereço você. — Ele disse de repente me fazendo abrir os olhos — Acordei faz umas duas horas, assisti você dormir por meia hora pensando se eu não tinha me precipitado com você. — Ele tocou meu rosto — Você é jovem, linda, e me faz sentir vontade de proteger você de tudo, inclusive de mim mesmo. — Seus dedos escorregaram pela minha bochecha — Eu não aguentaria saber que fiz qualquer coisa que pudesse fazer você achar que não pode confiar em mim, e foi só nisso que eu pensei nessas duas horas de insônia enquanto você dormia em cima de mim.
— Kakashi, eu... — Soltei o ar dos pulmões — Você tem que aprender a confiar mais em mim. — Eu disse baixinho como um resmungo. Ele abriu um sorriso ainda maior. Kakashi era lindo.
— Sim... Vou trabalhar nisso — Prometeu — E só pra você saber, foi muito bom fazer amor com você, Sakura. — E meu rosto pegava fogo o fazendo sorrir sacana — Você me pegou de surpresa... Não achei que você... — De repente ele começou a divagar, provavelmente lembrando de algum momento especifico — ... fosse tão direta.
— Mhnn — Respondi com certa inibição. Aquele jeito sacana estava acabando comigo. — Alguém tem que ser..
— Touché — E com isso ele me agarrou, puxando meu corpo contra o dele e afundando seu rosto no meu pescoço, eu sentia sua respiração contra minha pele, seus lábios se arrastarem por ela enquanto suas mãos encontravam meus seios — Diga pra mim, Sakura — Sua voz derretida contra minha pele provocando todo tipo de arrepio. — Diga que eu te excito...
— O-o que? — Perguntei sentindo meus mamilos enrijecerem de acordo com seu toque preciso e fugaz. Estava cada vez mais difícil pensar, sequer falar.
— Eu quero ouvir você dizer — E continuou brincando com meus mamilos, mordiscando minha pele entre as palavras, subindo para a minha orelha e mordendo levemente a ponta. Eu soltei um suspiro. — Diga... — Sua voz ia se tornando um sussurro erótico, uma de suas mãos escorregando para a minha bunda, acariciando-a, subindo a minha perna e encaixando a dele no meio das minhas.
Eu já estava molhada.
— Kakashi... — Arfei segurando nele como se tentasse segurar a minha própria sanidade. Ele foi traçando beijos por todo meu pescoço, sua perna encaixada em mim pressionava contra a parte úmida, meu quadril se movia sozinho. Eu me sentia ridícula.
— Sakura — Sua voz rouca escorregava minha pele, descendo pelo meu torço. Sua perna abandonava a posição me deixando com vontade de mais. — Diga — Exigia passando a língua perto do meu umbigo, arrastando seus lábios cada vez mais.
— ...Você me excita. — Falei num sussurro. — Ah... — Gemi alto em surpresa quando sua cabeça se posicionou entre minhas pernas e seu beijo quente alcançava meus lábios molhados. — mhm.. — Enfiei minhas mãos entre seus cabelos me contorcendo ao comando de sua língua. — Eu vou.. ahh — Eu não precisava anunciar, mas já não sabia o que estava falando.
Entre arquejos e gemidos, meu corpo era pego por aquela sensação maravilhosa. Arqueei jogando a cabeça para trás, o corpo parando de funcionar por um momento para lidar com o prazer que me invadia da cabeça aos pés.
Ele saiu de entre minhas pernas enquanto eu ainda lidava com os benefícios do orgasmo, se empertigou ao meu lado e me trouxe pra si, beijando meu pescoço, meu queixo e maxilar, deixando rastros do liquido viscoso que eu outrora deixei no rosto dele.
— Pervertido — Sussurrei ainda de olhos fechados e escutei uma risada.
— Você ainda não viu nada.
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Passada as diversões matinais, a hora do almoço chegou trazendo consigo a tão conhecida fome. Saí correndo para tomar um banho antes que Kakashi me arrastasse de volta pra cama, enquanto ele se ocupou da tarefa de pedir uma pizza antes que morrêssemos de inanição.
Usei o xampu dele, o sabonete dele, a toalha dele... Voltei vestida naquela camisa preta com o cabelo molhado, quando me viu pulou da cama e me deu um beijo rápido no rosto antes de sumir no banheiro, me alertando que já havia avisado na portaria que o entregador ia subir com nosso tão esperado alimento.
Deitei na cama olhando meu celular. Ele tinha aberto as cortinas deixando o sol entrar no quarto por completo. Olhei as mensagens, haviam duas de Naruto me perguntando se eu queria fazer algo a noite, uma de Sasuke dizendo que queria continuar aquela conversa e umas cinquenta de Ino me perguntando sobre a noite de ontem.
"Foi bom... :p"
Respondi sendo vaga só pra ela ficar mais ansiosa, deixando que a mensagem de Sasuke fosse a última coisa com que eu me preocupasse naquele momento. Eu não ia pensar em Sasuke ali.
"Estoooou livre à noite! Vamos sair!" Respondi a Naruto imaginando que meu pai ia fazer um drama porque eu não tinha passado nada do final de semana com ele, e por isso decidi que depois da pizza iria para casa.
Vi meu celular vibrar com a resposta de Ino no mesmo momento em que a campainha tocava. Meu estomago se manifestou: a prioridade era a comida! Corri pelo corredor e abri a porta. Um cara de boné vermelho e blusa amarela me esticou uma caixa quadrada, o cheiro me fazia salivar.
Agradeci a comida e ele se curvou para agradecer a preferência, foi ali que eu vi, no elevador quase se fechando, uma ruiva com óculos segurando a mão de... Sasuke?
— O que...?
Bati a porta sem esperar o entregador se virar. Corri de volta pro quarto e gritei pra Kakashi que a pizza havia chegado, o barulho da água ainda era audível, ele me gritou de volta para que eu esperasse por ele.
Sasuke e a ruiva...
— Wow.. — Falei surpresa, me encostando na cama enquanto minha mente trabalhava. Ele não tinha me visto, estava olhando pra ela na hora, e estava de mãos dadas com ela, indo pra casa dele provavelmente... Cocei a cabeça.
Ok, eu estava visivelmente surpresa, mas passado esse sentimento eu conseguia notar uma espécie de felicidade ao ver os dois, porque isso significava que Sasuke estava gostando de outra pessoa o que facilitava pra mim contar a ele sobre Kakashi.
Ao mesmo tempo eu não a conhecia, nunca tinha visto na vida. Uma parte de mim quis puxar o histórico dela para saber se ele não estava se metendo com uma mulher inadequada. Talvez fosse uma espécie de ciúmes, porém eu tinha certeza que o fato de eles estarem juntos não me incomodava – me deixava alegre na verdade – mas o fato de eu não a conhecer...
Fora que ele também estava escondendo ela da gente – de mim e Naruto. Ou seja, tinha caroço nesse angu.
De todo jeito era uma oportunidade pra contar sobre Kakashi, e eu não a perderia. Dei um sorriso satisfeita, olhando a pizza quente em cima da cama com sabor de vitória. Sasuke não seria um problema tão grande quanto eu imaginava.
Kakashi saiu do banho com a toalha pendurada na cintura, estava meio molhado ainda qnd sentou na cama e abriu a caixa.
— Por um minuto achei que fosse sair e só encontrar migalhas — Ele pegou uma fatia e começou a comer.
— Se você demorasse um pouco mais, quem sabe... — E comecei a comer também, com a serenidade de quem tem tudo sobre controle.
Ou acha que tem.
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Weeee~~ Capítulo mais longo da história da fic provavelmente!
Gente, eu escrevi isso como um raio. É um momento muito bom da fic que eu estava ansiosa pra mostrar pra vocês.
Próximo capítulo é uma continuação direta desse dia que NÃO ACABOU!
Continuem comigo que as coisas só vão esquentar!
Com amor, loreyu.
