Capítulo XI: "Presentes de Natal"
Aconchegou Hanon, dando-lhe depois um beijo na testa. De seguida aproximou-se da cama de Yuuko. Ajeitou-lhe os cobertores e o corpo dela mexeu-se. Abriu os olhos ensonados e olhou para Syaoran. Ela sorriu e ele também o fez m sinal de resposta.
― Syaoran… - chamou-o baixinho.
― Sim? – incentivou-a.
― Quero que seja sempre assim! – disse Yuuko, cedendo ao sono e fechando os olhos.
Syaoran acariciou-a na bochecha e beijou-a na mesma. Sorriu. Levantou-se do chão onde estava ajoelhado e olhou para ambas as camas. Os cobertores levantavam e desciam conforme as respirações das crianças.
― A partir de agora, se depender de mim, vai ser sempre assim! – e saiu, fechando a porta devagar, para não as acordar.
Desceu as escadas até à sala de estar. A árvore de Natal cintilava com as luzes que ora acendiam, ora apagavam. Os presentes já se encontravam dispostos debaixo desta. Só agora se lembrava que faltavam três dias para o Natal. Só agora, também, reparava que a casa, àquela hora, parecia tão sossegada. Sentou-se no sofá e acendeu a televisão. Encontrou um canal onde estava dar um clássico qualquer dos anos 60. Preparou um cálice de licor e sentou-se no sofá a saboreá-lo. Sorriu ao se lembrar de como as suas irmãs competiam no jogo de consola. Depois de lhes perguntar onde tinham estado, continuaram a jogar. Syaoran fora largamente vaiado pelas duas por perder na maioria das vezes.
Agora que pensava nisso… Elas haviam estado na casa de Sakura. Ficara tão chocado com a resposta que nem lhes perguntara como tinham ido lá parar. Para não deixar que elas se apercebessem do seu desconforto, passou logo a entretê-las. Seria que elas tinham ido a pé, sozinhas? Só de pensar nas mil e uma coisas que lhes podiam ter acontecido, arrepiou-se. Como sabiam o caminho até lá? Tantas perguntas sem resposta. Teria de falar com Meiling no dia seguinte.
Recostou a cabeça para trás e tomou um gole de licor. Fechou os olhos enquanto brincava com o liquido na boca. Ouviu passos. Abriu os olhos e olhou na direcção da porta. Eriol entrava na sala em roupão, arrastando os chinelos e despenteando o cabelo com uma das mãos. Parecia um pouco abatido.
― Eriol? – fez-se notar Syaoran, ao que parecia Eriol não se apercebera da sua presença.
― Estás aí? – perguntou, surpreso.
― Sim. Queres? – ofereceu, levantando o cálice.
― Acho que estou a precisar de uma coisa como isso.
Syaoran encheu um novo cálice para Eriol. Deu-lho e o homem bebeu-o de um trago só. Entregou o copinho a Syaoran que o voltou a encher. Eriol repetiu a acção. Syaoran não sabia se havia de encher o cálice ou não, já que Eriol lhe estendia o copo. Não era hábito de Eriol beber. Novamente, Syaoran colocou licor dentro do copo. Eriol voltou a engolir tudo de uma vez. Depois sentou-se no sofá e pediu a Syaoran para lhe encher mais uma vez. Repetiu o ritual mais duas vezes. Syaoran notou que o irmão já estava um pouco entorpecido.
― Já chega, Eriol!
― Não! Eu quero mais!
― Tu não estás bem. Nunca bebes!
― Precisamente por isso é que eu hoje quero beber.
Syaoran encheu mais duas vezes o cálice, após as quais, Eriol começou a arrastar a voz e a deixar cair a cabeça.
― Agora chega! – bradou Syaoran.
― Não! Só mais um. Não sejas desmancha-prazeres, Syaoran! – disse Eriol com voz de bagaço.
― Sim… Vá levanta-te! – ordenou Syaoran, pondo a garrafa e o cálice em cima de uma mesa ao lado da televisão.
Eriol tentou levantar-se, mas estava demasiado tonto. O licor era forte e tinha bebido muito de um só vez. Syaoran amparou-o mesmo no momento em que pensou que ia cair.
― Obrigado. – agradeceu, enrolando a língua.
Syaoran levou Eriol da sala. Subiu os primeiros três degraus. Quando ia a tentar que Eriol subisse o quarto, sem saber como, o seu braço escorrega.lhe do ombro e Eriol cai desamparado no chão. No instante a seguir, Syaoran baixa-se e agarra os ombros do irmão.
― Estás bem? Aleijaste-te? – perguntou, preocupado.
Olhou para a cara de Eriol e reparou que se ria. As gargalhadas iam aumentando de volume. Ecoavam por toda a escada.
― Eriol não faças barulho! Os nossos irmãos estão a dormir! – pediu Syaoran. – Levanta-te, apoia-te em mim. – Syaoran tentava a todo o custo erguer Eriol, acto que se mostrava complicado, uma vez que Eriol, para além de estar bêbado, ria-se a bandeiras despregadas e não tinha forças para se apoiar em Syaoran.
― O que se passa aqui? – a voz de Gaito fez-se ouvir escada abaixo.
― Olha quem é… - Eriol foi interrompido pela mão que Syaoran lhe pôs na boca, a fim de abafar o som na voz, que era muito alto.
― Ssssshhhhh! Pelo amor de Deus, Eriol, fala baixo! Queres que Hanon e Yuuko te vejam assim? – vendo que Eriol se acalmou, tirou a mão da boca do irmão e voltou-se para Gaito. – Gaito, ajuda-me, se fazes o favor! – pediu.
Gaito desceu as escadas e ambos elevaram Eriol. Degrau a degrau, conseguiram levá-lo para o quarto e deitá-lo na cama. Eriol adormeceu de imediato. Syaoran apagou a luz e fechou a porta. Gaito estava à porta do quarto, esperando por Syaoran.
― Adormeceu assim que se deitou. – informou-o Syaoran.
― O que lhe deu para beber?
― Não sei… Deve de estar com problemas… Mas sabes como é o Eriol, nunca fala sobre si. Nem tive tempo de lhe perguntar o que ele tinha. Amanhã vou falar com ele.
― Está bem. – e rumou para o seu quarto. Syaoran fez o mesmo. Antes de abrir a porta Gaito voltou-se para Syaoran. – Syaoran… Entra. Quero-ye mostrar um coisa.
Syaoran estranhou a atitude de Gaito, mas fez o que lhe foi pedido. Quando entrou no quarto, Gaito remexia nuns papéis que estavam na secretária. Quando achou o que procurava sorriu e entregou a folha A4 A Syaoran que a examinou.
Era um retrato de Yelan e Saito. Estavam idênticos. Syaoran abriu a boca em sinal de espanto.
― Não sabia que desenhavas! – disse, surpreso.
― Pois é… Parece que há muitas coisas que não sabes sobre mim. – atirou Gaito.
Syaoran levantou o olhar da folha e dirigiu-o para Gaito.
― Parece que sim. – disse Syaoran, triste.
― E eu conclui que errei, Eriol fez-me ver que sim… Eoutras coisas também. Naquele dia, que tu estavas com a vete…
― Sakura, Gaito. – interrompeu-o.
― Que seja, com a Sakura. – respirou fundo. Syaoran sabia como Gaito era orgulhoso desde pequeno, mas nada disse, ele próprio também estava magoado, embora sentisse que não tinha esse direito. – Enfim… Eu queria pedir desculpas. Agora que te percebo.
Syaoran levantou o sobrolho.
― Que me percebes? – perguntou. Gaito anuiu. Vendo que não iria receber mais nenhuma informação, prosseguiu. – Esqueçamos tudo. Também não tenho sido o melhor irmão, desde… Desde aquele dia. Quero que tudo volte a ser como antes. Que sejamos a família unida que fomos um dia. Estou farto de estar à margem de tudo. Estou disposto a fazer tudo! Pela memoria deles! – rematou Syaoran.
― Finalmente tomaste uma atitude! – e abraçou o irmão, dando fortes pancadas nas costas deste. Syaoran fez o mesmo.
Após isto deixou o quarto. Gaito recordou a conversa que tivera com Luchia naquela tarde.
FLASHBACK
Depois de ouvir Gaito, Luchia olhou para o lado, pensando no que dizer.
― Se não te sentes bem com a situação, o melhor é falares com o teu irmão. – disse, por fim.
― Falar com ele?
― Se achares que deves… Se quiseres que esse mau estar que se instalou entre vocês desde a morte dos vossos pais acabe, só tens é que lutar por isso. E a melhor forma de o fazeres é falares com Syaoran.
Gaito não lhe contara que tinha visto Sakura e Syaoran beijarem-se naquele dia. Ela parecia não saber e ele não se via no direito de contar. Depois de falar com ela, tudo lhe parecia mais fácil. Tinha demorado a perceber que estava apaixonado por Luchia, mas, finalmente, isso acontecera e, de alguma forma, ficou surpreso com a correspondência.
― Obrigado! – disse Gaito. Puxou-a para si e beijou-a.
FIM DO FLASHBACK
Os cinco irmãos Li, assim como Meiling, estavam reunidos à mesa para o pequeno-almoço. Meiling barrava uma torrada que deu a Hanon e repetiu o ritual e entregou outra a Yuuko. Eriol enchia uma chávena de café. Syaoran bebia o sumo de laranja e, após um gole, dirigiu-se a Gaito.
― Tens mais daqueles que me mostraste ontem? – perguntou, não muito baixo, mas de maneira a ninguém mais ouvir.
― Sim. Porquê?
― Devias expor. O do pai e da mãe eu queria emoldurar e pendurar na sala.
― Expor? Não sei…
― Porque não?
― E se não gostarem?
― Se não mostrares, nunca vais saber. – e bebeu o resto do sumo.
Gaito ficou a pensar naquilo. De facto, se não expusesse, não seria reconhecido. Por outro lado, não sabia se queria ser reconhecido. O mesmo se passava com a música. Muitas vezes Tomoyo tinha dito que poderia arranjar um palco para Gaito tocar, mas ele sempre recusava.
Quando todos tinham acabado de comer, levantaram-se. Hanon e Yuuko pediram, com olhos suplicantes, para irem brincar para a neve e ver os animais.
― Syaoran, por favor! – pedia Hanon, com as mãos juntas.
― Está bem, está bem! Mas não façam asneiras. – avisou antes das meninas festejarem.
― Meninas! – Eriol chamou. Elas voltaram-se para ele. – Estejam aqui para o almoço. A professora Daidouji vem hoje. – voltou-se para Gaito. – Tu também.
Os três assentiram e saíram.
― Meiling preciso de te perguntar algo. – disse Syaoran para Meiling. Ela sacudiu a cabeça em sinal de interrogação. – Como é que Yuuko e Hanon foram ter à casa de Sakura?
― Foram de carro. – respondeu Meiling, esboçando um sorriso. Vendo a expressão inquiridora de Syaoran, continuou. – No carro de Sakura. Não me perguntes como, mas elas conseguiram esgueirar-se para o carro dela. Ela deve de ter estado aqui. – e voltou costas.
Isso não podia ser. Desde aquele dia que ela não voltara à quinta. Ou pelo menos, ele pensava que não.
Os Kinomoto estavam reunidos na cozinha, a arrumar das louças do desjejum. Luchia guardava a manteiga no frigorífico, Nadeshiko lavava a louça, enquanto Fujitaka a limpava, Sakura limpava a mesa com um pano sem prestar muita atenção no que fazia.
― Sakura… Não tens ido à quinta dos Li. – disse Fujitaka.
― É… Ultimamente não têm precisado de mim. – mentiu Sakura.
Fujitaka sabia perfeitamente que Sakura estava a mentir. Olhou para Nadeshiko. Esta negou com a cabeça. O pai de Sakura resolveu não perguntar mais nada.
Só com a pergunta do pai é que Sakura se apercebeu que não ia à quinta havia quatro dias. Tinha de arranjar maneira de ir lá nesse dia. Tinha de ver Lagoon, ou tudo o que tinha feito até agora não valeria de nada.
― Eu vou sair por um instante. – informou a família.
Saiu da cozinha. Pegou do casaco que estava no bengaleiro à porta de casa e saiu. Uma vez mais, pegou no carro e fez o caminho tão conhecido daquelas últimas duas semanas. Dez minutos depois, estava em frente ao tão conhecido portão.
Estacionou o carro fora da quinta e saiu de lá. Percorreu o caminho rodeado por cerejeiras até às cavalariças. Entrou e dirigiu-se ao desejado cubículo. Viu o cavalo de beleza extrema a dormir tranquilamente na palha. Ele acordou com a sua chegada, mas não se levantou. Apenas a olhou com o que ela interpretou como um olhar de repreensão. Chegou-se mais perto do animal e acariciou o focinho, como que pedindo desculpas por ter demorado tanto a vir.
― Finalmente chegou, Sr.ª Veterinária. – ouviu uma voz atrás de si. Voltou-se para ver quem era. Uma batida do coração pareceu falhar ao ver que era Syaoran. Este sorriu e continuou. – Ele tem andado muito triste desde que deixou de vir, senhorita Kinomoto.
― O que está aqui a fazer?
― Ora, mas esta é a minha propriedade!
Ele, de facto tinha razão. Era Sakura que não devia estar ali. Syaoran agia como se nada se tivesse passado. Não lhe parecia o mesmo Syaoran de dias atrás. Pelos vistos, Syaoran era um homem de varis faces, estava confiante.
― Tem vindo vê-lo? – perguntou Sakura, entrando no jogo dele.
― Sim. Parece que ele já me aceita. – um brilho passou pelos olhos de Syaoran.
― Já o montou?
― Não. Estava à espera de uma palavra sua.
Sakura olhou para Lagoon e depois para Syaoran. O cavalo parecia não estranhar e conviver muito bem com a presença de Syaoran. Syaoran aproximou-se do animal, que já estava de pé, e passou a mão pelo dorso. Lagoon não parecia nada nervoso. De alguma maneira, Sakura sentia-se feliz: por si que tinha conseguido acalmar e curar o estado emocional conturbado e agitado do animal e por Syaoran que tinha recuperado a confiança do amigo de quatro patas.
― Não quer experimentar? – sugeriu Sakura
― Acha que posso?
― Sim. Vamos lhe por os arreios e a cela para ver como ele reage.
Syaoran assentiu. Saiu do cubículo e foi até um canto da cavalariça, onde se encontravam os apetrechos para preparar o cavalo para a montagem. Voltou para o cubículo e pô-los no chão. Lagoon olhou para os objctos e Sakura sentiu uma leve ansiedade no corpo do animal. Acariciou-lhe no focinho e encostou a sua testa entre os olhos dele.
― Sshh… Não te vamos fazer mal. – disse e ele pareceu ficar mais calmo.
Syaoran colocou a protecção e depois a cela no dorso de Lagoon. Acariciou-o na crina e pôs-lhe os arreios na cabeça. Quando o cavalo estava com todos os objectos correctamente colocados, levaram-no para fora. Antes de Syaoran o montar, levaram-no a andar um pouco pela quinta. Um silencio constrangedor pairava entre eles. Ambos sabiam que havia coisas a serem ditas, mas nenhum deles queria ser o primeiro a falar. Talvez essas coisas devessem permanecer assim: por dizer.
Syaoran fez Lagoon para e preparou-se para montar o cavalo. Antes disso, passou a mão pelo dorso e olhou o animal nos olhos. Com o pé direito ergueu-se e passou o outro por cima da cela. Sentou-se, mas antes de par autorização ao cavalo para andar, esperou pela reacção do animal. Como ele nada fez, Syaoran agitou os arreios para que ele desse partida. O animal obedeceu.
Sakura acompanhava-os um pouco atrás Syaoran pareceu-lhe muito bonito em cima do cavalo. Pareceu-lhe? Syaoran era bonito e atraente e cortês e cavalheiro e… Sacudiu a cabeça para afastar aqueles pensamentos. Ainda estava magoada e para alem disso ainda havia Meiling, que Sakura não sabia muito bem o que significava para Syaoran.
Agora encontravam-se perto da cerca. Sakura reparou num carro que estava muito perto da cerca. O carro passou por Syaoran e Lagoon, do outro lado da cerca. O animal assustou-se. Recuou, relinchando. Syaoran tentava acalmá-lo, puxando e afrouxando os arreios. Sakura correu para o local, pois tinha parado e encontrava-se a uns metros de Syaoran. Parou repentinamente quando viu que Syaoran se tinha desequilibrado e caído. Voltou a correr com todas as suas forças. Lagoon corria, também, assustado, em direcção oposta.
Syaoran estava estendido no chão quando lá chegou. Ajoelhou-se e pôs-lhe as mãos nos ombros dele.
― Syaoran? Syaoran? – chamava-o, apavorada.
Viu-o franzir a cara e abrir os olhos com alguma dificuldade.
― Syaoran? Syaoran, responde! – esquecera-se de o tratar de maneira formal, a situação não o pedia e ela não conseguia mais manter a distancia dos "vocês".
― Ai! Não me agarres com tanta força, Sakura! – disse Syaoran, por fim.
― Onde te dói? – perguntou Sakura, vendo a expressão de dor de Syaoran.
― Ai! Dói-me o corpo todo. – Syaoran tentava levantar-se, mas sem sucesso.
― Onde? – Sakura chegou-se mais perto dele e passava as mãos pelo peito.
Com alguma dificuldade, Syaoran enlaçou Sakura num abraço, fazendo-a ir contra o seu corpo, o que se demonstrou um tanto doloroso. Mas a dor valia a pena. Estar assim com ela de novo era tudo o que queria naquele momento. Sakura arregalou os olhos perante aquele acto. Ainda se forçou a sair dali, mas o corpo não obedecia.
― Sakura, não te vás embora, por favor! – pediu Syaoran. – Eu sei que não fui correcto. Mas é que naquela altura fiquei completamente apavorado.
― Porquê? – fez a pergunta já sabendo que não havia resposta. – Vês? Como posso confiar em ti se tu não me dizes o porquê da reacção de Gaito, o porquê do estado do cavalo? Como... – não lhe foi permitido continuar pois Syaoran pusera-lhe o indicador nos lábios.
― Sakura, escuta bem. Não disse isto a muitas pessoas. Sakura, eu amo-te!
Enlaçou a cintura de Sakura e, com custo devido às dores, fez os rostos aproximarem-se. As respirações encontravam-se, na pouca distancia que havia entre as bocas. Syaoran encostou a sua testa à de Sakura.
― Sakura, Sakura…
Sakura, que não podia mais aguentar mais a espera, comprimiu os seus lábios contra os dele. Deu passagem para que a língua de Syaoran entrasse na sua boca. As mãos dele mexiam-lhe nos cabelos, ela acariciava-lhe o pescoço e, depois, a cara. Quando se separaram, olharam-se e sorriram. Syaoran beijou-lhe a testa.
― Sakura, vais saber de tudo! Dá-me mais um pouco de tempo. – pediu.
Sakura saio de cima de Syaoran com a cara amuada. Estava a começar a ficar farta de tantos segredos. Seria que pedia tempo porque queria resolver a sua situação com Meiling? Só podia ser isso. Se não, porque pediria tempo? Esticou-lhe a mão para o ajudar a levantar-se. Ele aceitou a ajuda.
― Vou-te pôr em casa e depois vou à procura do Lagoon. – afirmou Sakura.
― Sakura, eu… - Syaoran tentou explicar os motivos.
― Vamos, apoia-te em mim. – ordenou Sakura, antes que ele pudesse continuar.
Seguiram devagar até à casa. A porta foi-lhes aberta por Meiliing. Sakura não pode evitar uma careta ao vê-la. Ela pareceu achar a situação engraçada. Ajudou Sakura a transportar Syaoran até ao sofá da sala. Este gemia de dores a cada passo que dava. Ali, naquela situação, até as queixas de Syaoran começavam a enervá-la. Não sabia que o ciúme podia vir com tanta força.
― Syaoran… Que raio te aconteceu? – perguntou Meiling, ficando agora preocupada.
― Caí do cavalo… Ai!
― Foste mesmo montar nele? – estava surpresa.
― Sim… Au! – parecia que, ao falar, as dores ficavam mais fortes.
― És doido?
― A doutora autorizou, não foi? – deu um sorriso maroto para Sakura. Meiling também voltou o olhar para Sakura.
― Sim. Estava tudo bem, até passar um carro e o cavalo assustou-se. – disse, na defensiva.
― Vá lá, não fiques assim, Meiling, são só uns arranhões!
― São sempre arranhões. Quando eras pequeno caíste e também eram arranhões. Depois de muito esforço e persuasão, os teus pais conseguiram levar-te para o hospital e no final das contas tinhas um braço partido.
― Mas desta vez são mesmo só arranhões e nódoas negras. Garanto-te.
Sakura odiou sentir a inveja que aflorava dentro de si naquele momento, mas não podia evitá-lo. Meiling parecia saber muito sobre Syaoran, enquanto que ela pouco mais sabia que o nome. Via-se que tinham uma grande cumplicidade. Com o peso imenso de se sentir a mais, decidiu ir-se embora para casa.
― Está na hora de eu ir! – informou, tentado ser o mais fria possível.
― Já? – interrogou Meiling, o que irritou profundamente Sakura. – Não fica para um chá?
― Não, tenho mesmo de ir. Fica para uma próxima, obrigada.
― Eu acompanho-a à porta. – Meiling levantou-se e guiou Sakura à porta, a qual seguiu sem olhar uma última vez para Syaoran.
Despediram-se e Sakura começou a olhar em volta de si, procurando por Lagoon. Resolveu ir para a cavalariça. Era provável que ele se encontrasse lá. Ao entrar no cubículo em questão verificou que as suas suposições estavam certas. Aproximou-se dele e acariciou-lhe o focinho. Afagou-lhe a crina em despedida e saiu.
― Syaoran… Orgulho-me de ter o primo mais tapado à face da Terra! – exclamou Meiling.
― O quê?
Meiling suspirou em sinal de desespero pela incompreensão do primo. Estavam no quarto de Syaoran, em cima da cama e Meiling desinfectava alguns ferimentos provocados pelas pedras do chão, na altura da queda.
― Sim! A Sakura está cheia de ciúmes.
― Hum?
― Sim, Syaoran. Não reparaste na maneira como ela olha para mim? – olhou suplicante para a cara franzida de confusão de Syaoran – Homens! – voltou a passar o algodão nos arranhões.
― Queres dizer que ela está com ciúmes de nós? – perguntou, incrédulo, ao que Meiling anuiu. – Não pode ser! Ela pensa… Ela pensa que eu estou contigo ou assim?! – concluiu, extasiado com a nova descoberta.
Meiling soltou uma gargalhada. Syaoran olhou para ela sobre o ombro.
― O que pensas fazer? – perguntou Meiling.
― Acho que já sei o que lhe vou oferecer pelo Natal! – exclamou, sorrindo ao ter a ideia.
Ao chegar a casa sentiu qualquer coisa a ir contra si a apertar-lhe os ombros. Fechou os olhos, como resposta e só voltou a abri-los quando se apercebeu que era uma pessoa, para ver Touya à sua frente. Abriu um sorriso enorme. Aos pés de Touya, viu uma criança agarrada às calças do pai, tentando manter-se de pé. Conclui, então que quem estava a abraçá-la era a sua cunhada, Kaho. Retribuiu o abraço.
Fujitaka, Nadeshiko e Luchia levantaram-se do sofá onde, possivelmente, estariam todos a conversar antes de Sakura chegar e dirigiram-se para o lugar. Todos sorriam. Nadeshiko dava suspiros de mão aliviada por ter todos os seus filhos ao pé de si. Fujitaka tinha um braço sobre os ombros da esposa. Luchia dava pulinhos de contentamento.
― Quando chegaram? Não sabia que vinham para o Natal! Como vão? – perguntou quando se separaram, indo ter com o bebé. – E tu, minha pequena, como vais? – pegou-a ao colo. – Touya! – e abraçou-o.
— Acabámos de chegar! Decidimos vir cá passar o Natal e fazer-vos uma surpresa!
— Fizeram muito bem! Já estávamos cheios de saudades vossas! – apoiou Sakura, dando um beijo estalado na bochecha do irmão. – A minha sobrinha está linda! – e sorriu.
— Bem, meninos… Do que estamos à espera? Vamos almoçar? – sugeriu Nadeshiko radiante.
Toda a família dirigiu-se para a mesa que havia na sala de estar, destinada àquelas ocasiões em que se juntavam todos à mesa. Para além do mais, era época natalícia e nada como as pessoas mais queridas estarem todas à volta de uma mesa farta.
Durante o almoço, Touya e Kaho contaram os acontecimentos dos últimos tempos na América. Apesar de serem de origem asiática, tinha ganho o seu lugar no mundo ta música Jazz. Touya com o seu talento no saxofone e Kaho com a sua voz quente e sedutora. A pequena Yoshiko adorava ouvir os pais, segundo contavam. Faltavam dois dias para o Natal e Sakura já sabia que a chegada do irmão fora o melhor presente.
Depois do almoço, todos se sentaram nos sofás a conversar e a deliciarem-se com as gracinhas de Yoshiko. Ao colo do avô, tirou-lhe os óculos e ficou muito admirada a observá-los. Sorriu, olhou para a cara do avô e deu uma gargalhada infantil. Mais tarde, Sunomi e Tomoyo tocaram à campainha. Ficaram para tomar um chá e depois, todos, bem encasacados, saíram de casa para irem ver a quinta. Há muito que Touya não pisava aquele solo.
Foram até aos campos onde, no verão, havia árvores repletas de fruto. Agora, todas estavam cobertas com plásticos, a fim de proteger os mesmos. Fujitaka e Touya conversaram animadamente sobre as diversas culturas, enquanto apontavam para aqui e ali. No carrinho, completamente tapado com mantas, Yoshiko insistia em desviar uma delas para, também ela ver a linda paisagem de Inverno.
Sakura e Tomoyo caminhavam lado a lado, um pouco afastadas do grupo. Tomoyo olhava a amiga inquisitoriamente. Sakura sentiu um arrepio na espinha, resultado do olhar clínico da prima. Com era possível ela saber absolutamente tudo sobre Sakura?
— Priminha… O que se passa? – perguntou, finalmente. – Não estás bem!
— O mesmo posso dizer de ti!
E, de facto era verdade. As duas raparigas não estavam bem. Ambas confusas, sem saberem que as causas dos seus problemas estavam precisamente na mesma família.
— É impossível escondermos alguma coisa uma da outra. – disse Tomoyo com um sorriso.
— É. Queria-te perguntar uma coisa!
— Diz. – incentivou Tomoyo.
— Algum dos irmãos Li é casado?
— Não, nenhum deles se casou ainda. Porquê?
— Pensei que o Li Syaoran pudesse estar casado. Nos últimos dias tem lá estado uma rapariga mais ou menos da nossa idade.
— Hum… Mas, por aquilo que eu sei, não tens ido lá nos últimos dias, estou errada?
— Como sabias? – Sakura parou e olhou para a prima.
— Digamos que Neshiko e Sunomi falam muito! – e piscou-lhe o olho. – Se falas de Li Meiling, é apenas a prima de Syaoran. Foram criados juntos, quando os pais dele morreram.
— Pareces saber muito acerca do assunto.
— E tu estás muito interessada em Li Syaoran!
Olharam uma para a outra e soltaram uma gargalhada. A máscara tinha caído. Era chegada a hora de contarem tudo uma à outra. Tomoyo revelou-lhe a sua relação com Eriol. Sakura contou à prima de como se tinha apaixonado por Syaoran em tão pouco tempo. Disse-lhe o mal entendido que se tinha gerado no dia anterior.
— Daqui a uns minutos tenho de ir. Vou dar uma aula às meninas e a Gaito. Eriol deve querer falar comigo. – Tomoyo parecia nervosa. – Tenho medo que ele decida que não vale a pena e queira acabar com tudo! Tem sido muito difícil até agora.
— Tomoyo, não! Não podes pensar assim! Vai correr tudo bem! Vais ver! Agora vai para não te atrasares.
Tomoyo estava sentada entre Yuuko e Hanon em frente ao piano. Tentava fazê-las decorar as notas de um determinado excerto de uma música natalícia, uma vez que elas queriam fazer uma surpresa à família na noite de Natal. Gaito, que ficou dispensado da aula, desenhava a um canto da sala.
— Tentem sozinhas! Tu primeiro Yuuko. – Yuuko obedeceu.
Seguidamente foi a vez de Hanon. À medida que ia tocando, Tomoyo corrigia e fazia-a começar tudo de novo. A meio do excerto, ouviram a porta da sala abrir-se e os quatro olharam na sua direcção. Eriol entrara com as mãos nos bolsos, muito calmo, olhando cordialmente para Tomoyo.
— Como vão as minhas pianistas profissionais, senhorita Daidouji? – perguntou com um sorriso misterioso.
— Muito bem! Mais um pouco de prática e estão a tocar na perfeição. – e sorriu.
— Precisava de falar consigo. Venha. – virou costas e desapareceu para o hall de entrada.
— Meninas, continuem a praticar. Eu já venho. – levantou-se e seguiu Eriol.
Este estava à sua espera no cimo das escadas e Tomoyo concluiu que tinha de as subir. Assim o fez. Eriol, num passo calmo e descontraído, guiou-a até à porta do seu quarto. Abriu-lhe a porta e ela entrou.
— Espera aqui. – pediu Eriol, olhando-a por cima dos óculos e fechando a porta.
Tomoyo abriu a boca para dizer alguma coisa, mas não conseguiu produzir som algum. Não entendendo nada mais do que o facto de que teria de esperar, decidiu-se manter ocupada.
Caminhou até uma estante de livros, onde encontrou uma moldura com a fotografia de Eriol. Estava muito bonito na fotografia, por sinal. Sem saber como o objecto escorregou-lhe das mãos e foi parar ao chão. Quando foi apanhar nos pedaços reparou, numa outra foto, mas desta vez nesta estavam Eriol, um pouco mais novo e uma outra rapariga. A rapariga estava a dar-lhe um beijo na bochecha. Virou a foto e no verso lia-se:
Para o Eriol com todo o meu amor.
Beijos! Amo-te!
Tomoyo levou a mão à boca ao ler aquilo. Nesse momento, Eriol entrou no quarto e viu o que se tinha passado. As lágrimas estavam prestes a brotar dos olhos de Tomoyo. Eriol deu passadas largas até ela e abraçou-a.
— Acabei de contar aos meus irmãos tudo sobre nós. Tomoyo, vamos ficar juntos!
— Eriol, o que é esta fotografia? – perguntou Tomoyo contra o peito de Eriol.
— Essa fotografia pertence ao passado.
— Quem é esta mulher, Eriol?
— É Rumiko. Alguém que foi muito importante para mim! – desfez o abraço para encontrar os olhos desconfiados de Tomoyo. – Não, Tomoyo, não é nada do que estás a pensar! Olha a data. É de há cinco anos atrás! Rumiko é uma antiga namorada! Alguém que amei muito! No passado! Alguém que até à poucos dias me trazia lembranças tristes. Tinha medo de assumir a nosso relação, pois não queria que tu fosses descriminada como ela foi por seres mais nova que eu. E que fizesses como ela. Que te fosses embora! Foi preciso enfrascar-me para perceber isso!
— Nunca faria isso! Eriol quero ficar contigo! – disse Tomoyo, com as lágrimas tranquilas a caírem-lhe pelas faces. Abraçou-o.
— Vamos ficar juntos, meu anjo, sem medos. – e beijou-lhe o alto da cabeça.
Acariciou-lhe a face e beijou-a na boca. Ele remexia nos longos cabelos dela. Ela apertava-lhe os ombros. Sem saberem as forças que os motivaram, desabotoaram os botões das camisas, das calças um do outro. Quando deram por si estavam em roupa interior. Sorriram um para o outro e voltaram às carícias cada vez mais íntimas.
Desceram as escadas de mãos dadas. Tomoyo sentia-se muito feliz, como não se sentia à tempos.
Syaoran e Meiling, Gaito, Yuuko e Hanon estavam na sala a jogar consola, animadamente. A disputa mais renhida era entre Syaoran e Yuuko. Quando se aperceberam da presença de Eriol e Tomoyo, pararam e olharam para eles.
— Irmão, já soube de tudo! – Syaoran dirigiu-se a Eriol e abraçou-o. – Fico feliz por ti! – disse-lhe de maneira a que só os dois ouvissem. Voltou-se para Tomoyo – Que sejam muito felizes.
Meiling repetiou o que Syaoran havia feito e pediu a Gaito e às crianças que cumprimentassem Tomoyo.
— Prima Meiling, eles vão-se casar? – perguntou inocentemente Hanon.
— Não sei, querida! Eles é que têm de decidir!
Na Véspera de Natal, a casa dos Kinomoto estava numa azáfama. Nadeshiko retirava dos arrumos os melhores pratos e talheres. A meio da tarde, Tomoyo e Sunomi apareceram com dois bolos feitos por elas. Ajudaram a preparar o peru recheado. A lareira já estava acesa desde a manhã. Constantemente, entravam e saíam pessoas de dentro de casa. Júnior observava com interesse e, por vezes ia cheirar as calças de um dos membros da família, para depois ladrar de contentamento.
Quando, finalmente se sentaram à mesa, Fujitaka levantou-se. Pegou no copo largo de vinho.
— Façamos um brinde à nossa família! Que seja sempre unida, apesar de não estarmos sempre juntos. Que para o ano estejamos todos aqui de novo.
Os restantes também se levantaram e brindaram. Todos fizeram questão de tilintar os seus copos nos dos demais. Após o brinde e depois de se servirem, começaram a comer a tradicional refeição de Natal.
Depois do jantar, juntaram-se à lareira, jogando cartas. Era sempre divertido jogar, pois todos faziam batota, mas acabavam por ser, a maioria das vezes, apanhados. Era engraçado observar as diferentes reacções. As tão esperadas doze badaladas tocaram e os Kinomoto dirigiram-se para perto da árvore de Natal. Como em todos os anos, Luchia era a encarregada de distribuir os presentes.
Sakura deliciou-se com as expressões dos pais ao ver as prendas que lhes comprara. Luchia também se surpreendeu. Tinha lhe oferecido um casaco que ela andava "namorar" havia algum tempo. Sentia-se feliz por agradar a sua família.
No fim da troca de presentes, por volta da uma e meia da manha, já Yoshiko, dormia no colo da mãe, alguém toca à campainha. Sakura levanta-se e vai abrir.
— Boa noite. Fui encarregue de entregar aqui estes embrulhos. – disse um jovem, com uma farda vermelha.
Sakura recebeu os embrulhos.
— Faça o favor de assinar aqui. – pediu o jovem. Sakura obedeceu e despediu-se do estafeta.
Olhou para os embrulhos e constatou que não eram todos para si. Era um para si, de facto. Um para Tomoyo e um para Luchia.
Continua…
Olá
Aqui estou eu outra vez. Mais uma vez desculpem pela demora, mas muitas coisas se meteram pela frente e acabei por me desorganizar.
Enfim… espero que tenham gostado! Já ninguém se pode queixar de não haver S&S neste capitulo! Desculpem de tiver alguns erros. É que fiu escrito em bocados de tempo livre, já a horas tardias.
MIL DESCULPAS PELA DEMORA!
Obrigada pelas reviews. Adorei todas!
Kissus!
Já ne!
PS: O Natal no Japão não é assim. nem pouco mais ou menos, mas é a esta realidade que eu estou habituada e que conheço. Por isso decidi fazer assim. Espero que não me critiquem por isso.
