Capítulo 10

Sexta-feira à noite, Ginny verificou se todos os seus alunos estavam com suas pequenas camisas brancas de homens, com as asas de tecido costuradas nas costas. Auréolas de papelão pintado com glitter se equilibravam sobre as cabecinhas das crianças de 5 anos. Depois que todos foram checados, ela tomou um momento para espiar através da extremidade da cortina grossa a fim de ver se Ginny tinha chegado. Algo que vinha fazendo de minuto em minuto desde que chegara.

Ele ainda não estava lá. O que não importava, disse a si mesma. Harry dissera que tentaria ir, o que provavelmente era um jeito educado de falar que não estava interessado. Não era como se eles estivessem namorando de verdade. Que homem solteiro maravilhoso iria querer passar a noite de sexta-feira com um bando de crianças que nem conhecia?

Ginny reprimiu um suspiro enquanto se afastava da cortina. Apenas para colidir com alguma coisa quente e sólida.

Virando-se, viu Harry parado atrás dela.

— O que você está fazendo aqui? — perguntou Ginny.

— Você me pediu que viesse.

Ela riu, esperando que não tivesse corado.

— Não, quero dizer, nos bastidores.

— Eu quis vir cumprimentá-la antes que o programa começasse. Uma das mães está guardando um lugar para mim.

Ginny olhou para os ombros largos, para as feições fortes e para o jeito que o corpo másculo preenchia o terno.

— Aposto que ela está.

— O quê?

— Nada. Obrigada por ter vindo. Você não precisava fazer isso.

— Eu queria ver se você continuava furiosa.

— Eu nunca estive furiosa.

O humor brilhou nos olhos acinzentados.

— Agora, você está mentindo sobre isso.

— Não estou. Eu estava irritada. Existe uma diferença.

— Você estava furiosa. Estava praticamente gritando por causa dos pneus. De maneira estridente.

Ele estava brincando, o que Ginny gostou muito. Logo que eles haviam se conhecido, ela nunca teria imaginado que isso fosse possível.

— Eu estava calma e racional — disse ela.

— Você agiu como uma garotinha. Admita.

— Eu poderia bater em você nesse momento.

— Você poderia, e ninguém notaria. Principalmente, não eu. — Harry pegou-lhe o braço e conduziu-a para um canto sombreado. — Aqui. — Ele lhe entregou um pedaço de papel.

Ginny estudou o papel. Era um memorando impresso, detalhando a nova política sobre pneus com descontos.

— Agora, você vai consertar seu maldito carro?

Ela o olhou, sabendo que, enquanto Harry a estava ajudando, também estava ajudando muitas outras pessoas.

— Farei isso — replicou ela, colocando-se na ponta dos pés e beijando-o de leve. — Eu prometo.

Ele passou os braços ao seu redor e puxou-a para mais perto.

— Ótimo. Você é muito chata. Sabia disso, certo? Ginny riu.

— Sim. Você é autocrata. E irritante.

Eles permaneceram abraçados por diversos segundos. Ginny adorava senti-lo junto a si, deleitava-se na força e no calor do corpo másculo. Como sempre, estar perto dele lhe causava uma sensação de segurança.

— Eu preciso voltar para meus alunos — murmurou ela com relutância. — Eles estão usando uma auréola de papelão que não vai sobreviver por muito tempo.

— Tudo bem. Eu a vejo depois da coisa do Natal.

— Festival de inverno.

— Tanto faz. Até mais tarde.

— Sim — concordou Ginny e observou-o se afastar.

Ela soube então que, apesar de conhecê-lo somente por poucas semanas, estava a caminho de se apaixonar por ele. Harry era diferente de todas as pessoas que já conhecera.

Harry tinha prometido não lhe pedir que eles fossem amigos, e Ginny confiava que ele manteria sua palavra. Mas também prometera que quando o feriado no Natal acabasse, o mesmo aconteceria com o relacionamento deles. E ela sabia que ele manteria sua palavra da mesma forma quanto a isso. Desejar mais do que aquilo não alteraria o resultado. Harry lhe dissera uma vez que, em sua vida, alguém sempre ganhava e alguém sempre perdia. Desta vez, Ginny tinha o mau pressentimento de que seria a perdedora.

-x-

Na segunda-feira pela manhã, Harry entrou em seu escritório para encontrar um prato de cookies sobre sua mesa. Estavam cobertos com um plástico de motivo natalino, e atado, havia um bilhete escrito à mão.

Caro, sr. Potter,

Muito obrigada pelo desconto nos pneus novos anunciado na sexta-feira. Eu sou uma mãe solteira com três filhos e o orçamento é sempre apertado. Venho precisando de pneus novos há um bom tempo e simplesmente não tinha condições de comprá-los. Esse desconto significa dirigir com segurança para minha família.

Eu sempre gostei de trabalhar para Potter Industries.

Obrigada por me dar mais um motivo para sentir orgulho do meu local de trabalho.

Tenha um ótimo Natal e Ano Novo.

Sinceramente,

Natalie Jones

Departamento de Contas a Pagar

Harry não tinha ideia de quem era a mulher ou há quanto tempo ela trabalhava para a companhia. Ele abriu a embalagem dos cookies e provou um. Com pedacinhos de chocolate. Seus favoritos.

Ainda mastigando, ele andou até as janelas que davam vista para o saguão no centro do edifício de seis andares. Podia ver as pessoas chegando para começarem sua semana. Pessoas que ele nunca se importara em conhecer.

Dez anos atrás, teria sido capaz de nomear cada empregado. Costumava trabalhar 24 horas por dia, esforçando-se para tornar a companhia lucrativa, então para fazê-la crescer o mais rapidamente possível. Durante os últimos dez anos, tivera contato com sua equipe de gerência, com sua assistente e com ninguém mais. Não tinha tempo.

Quem eram aquelas pessoas que trabalhavam para ele? Por que elas tinham escolhido essa companhia, e não outra qualquer? Gostavam de seus empregos? Isso até mesmo deveria lhe importar?

Harry olhou de novo para o bilhete e para o prato de cookies. Ginny seria um desastre como chefe, doando mais do que a companhia faturava. Mas talvez fosse hora de ele deixar os confins de seu escritório e lembrar-se de como era conhecer seus empregados. Ouvir em vez de comandar. Pedir em vez de exigir. Talvez fosse hora de parar de ser o diretor-executivo mais cruel do país.

Harry nunca realmente gostara das reuniões de diretoria, mas aquela era pior do que o usual. Não porque eles estavam reclamando... Com isso ele podia lidar. Era o jeito que todos lhe sorriam. Sorriam amplamente, na verdade, como se estivessem com orgulho. O que significava aquilo?

— Os dois últimos artigos sobre você foram excelentes — disse seu tio. — Muito positivos.

— Eu só estou fazendo o que nós concordamos em fazer.

— Esse repórter — Um dos membros do quadro de diretores ajustou seus óculos e franziu o cenho para o jornal de negócios — Arthur Skeeter, parece pensar que você teve um despertar. Quem é essa tal de Ginny?

— Ginny Weasley — disse Sirius, antes que Harry pu desse responder. — A mulher com quem Harry está saindo. Os outros membros do quadro de diretores o olharam.

Vocês me aconselharam a procurar uma boa pessoa — Harry os relembrou. — Ela é professora de jardim da infância. Muito bonita.

— Muito bem — elogiou o membro mais velho do quadro. — Você deveria trazê-la aqui, de modo que todos nós possamos conhecê-la.

— Não há necessidade disso — respondeu Harry, pensando que a última coisa que Ginny precisava era de um bando de homens velhos tentando flertar com ela.

— Ginny é especial — anunciou Sirius. — Boa para Harry também.

Harry estreitou os olhos.

— Eu estou saindo com ela durante o período dos feriados natalinos. É um acordo profissional, nada mais. Você me disse para encontrar uma boa mulher e mudar minha imagem. Foi o que eu fiz. Não transforme isso em mais do que é.

— Não me pareceu um arranjo profissional — comentou Sirius.

— As aparências podem ser enganosas.

De maneira alguma, Harry diria ao seu tio ou a qualquer um do quadro de diretores que também considerava Ginny uma mulher especial. Eles não precisavam saber como ela passara a fazer parte de sua vida. O surpreendente era que ele não achava que Ginny estivera sequer tentando. Todavia, independentemente de seus sentimentos por ela, quando os feriados acabassem, o relacionamento deles também acabaria.

Os executivos mudaram para outros assuntos. Quando a reunião terminou, Sirius permaneceu na sala até depois que todos os outros homens saíram.

— Está falando sério sobre terminar seu relacionamento com Ginny? — questionou seu tio. — Eu vi vocês dois juntos, Harry. Você gosta dela. Deveria se casar com ela.

Harry meneou a cabeça.

— Eu já fui casado.

— Com a mulher errada. Eu não sei o que Cho queria, mas não era você ou um casamento de verdade. Ginny é diferente. Ela é o tipo de garota ao lado de quem um homem pode passar o resto da vida.

— Isso vindo de um homem que foi casado cinco vezes? Como você saberia?

— Eu vivi muito mais tempo do que você. Tive experiências, fiz escolhas erradas. Existem poucas coisas mais dolorosas do que saber que você deixou escapar a mulher de seus sonhos. Você sempre foi mais esperto do que eu sobre a maioria dos assuntos. Não seja um idiota agora.

— Obrigado pelo conselho — disse Harry, levantando-se para ir embora.

— Mas você não vai aceitá-lo.

— Eu fiz o que o quadro de diretores pediu. Isso é tudo que você irá conseguir de mim.

Sirius o olhou por um longo momento.

— Nem todos nos abandonam.

Harry não reagiu à declaração, mesmo sabendo que o homem mais velho estava errado. Quase todo mundo que importava ia embora. Ele tinha aprendido isso muito tempo atrás. Era melhor não se importar. Mais seguro.

— Ginny não é do tipo que abandona outros — acrescentou seu tio suavemente. — Veja a vida dela.

— O que você sabe sobre isso?

— O que você me contou. Ela tem primas e uma amiga das primas morando em sua casa. Está ajudando a pagar as faculdades das garotas. Concordou em sair com você para ajudar o irmão depois que ele tentou jogá-la embaixo do ônibus. Ginny não é uma pessoa que desiste facilmente.

Aquilo era verdade, pensou Harry com desconforto. Ginny assumia responsabilidades, agarrando-as com ambas as mãos.

— Isso é diferente — murmurou ele.

— Não é, e você sabe disto. Ginny o assusta muito, porque com ela tudo é possível. Não deixe que o que aconteceu no seu passado arruine seu futuro. Não viva com arrependimentos por tê-la deixado ir embora. Eles irão comê-lo vivo.

— Eu ficarei bem.

— Pode continuar repetindo isso a si mesmo, mas não será verdade. Você nunca teve medo de nada, exceto de arriscar seu coração. Ginny é a pessoa mais estável que você poderá encontrar.

Harry pegou-se querendo ouvir, o que só levaria a problemas.

— Ginny entrou nesse acordo para salvar o irmão. Não tem nada a ver com gostar de mim.

— Talvez não tivesse no começo, mas tem agora. Apenas preste atenção. Todos os sinais estão aí. Ela está se apaixonando por você. Talvez já esteja apaixonada. Chances como essa não acontecem com frequência. Acredite em mim, você não vai querer perder essa.

Sirius saiu da sala de reuniões. Harry ficou parado ali, sozinho, imaginando se seu tio estava falando a verdade. Ele se arrependeria de deixar Ginny partir? Com o tempo, descobriria. Seu tio também estava certo ao dizer que Ginny o assustava. Havia possibilidades com ela. Grandes possibilidades.

Mas ele já havia entregado seu coração para alguém. Já acreditara em "felizes para sempre" e aprendera uma dura lição. Amor era uma ilusão, uma palavra que as mulheres usavam para enganar os homens.

Talvez Ginny fosse diferente, mas Harry não sabia se estava disposto a correr o risco.

Apesar de três noites até tarde no escritório, dormindo o mínimo possível e trabalhando até a exaustão, Harry ainda não conseguia tirar as palavras de seu tio da cabeça. Não conseguia parar de pensar em Ginny.

Arriscar violava tudo que ele conhecia como verdade, entretanto... A ideia era tentadora. Essa era a única explicação possível para estar num shopping center, a menos de uma semana antes do Natal, enfrentando as multidões e procurando presentes para as primas de Ginny e para Angelina.

Devia ter pedido que sua assistente comprasse alguma coisa on-line, disse a si mesmo, quando outro comprador pisou na sua frente sem olhar. O que ele sabia sobre gostos e necessidades de garotas universitárias? Estava prestes a sair da loja de departamentos quando leu uma placa que proclamava que todas as mulheres adoravam cashmere.

Havia um mostruário de blusas em diversas cores. Uma vendedora bem-vestida se aproximou e sorriu.

— Está procurando alguma coisa para sua esposa ou namorada?

— Para as primas dela — replicou Harry. — E para uma amiga. Elas estão na faculdade. Cashmere é um bom presente?

— Sempre. Por acaso, você não sabe os tamanhos, sabe? Ele deu de ombros, então apontou para uma jovem mãe passando.

— Mais ou menos assim.

— Entendi. Você quer escolher as cores?

— Não.

— Devo embrulhar para presente?

— Seria ótimo — disse ele.

— Dê-me 15 minutos e estará tudo pronto. Há um café-bar perto dos sapatos, se você quiser se afastar da multidão.

Harry assentiu e andou na direção do café, apenas para ser parado por um mostruário de árvores de Natal. Havia uma pequena, talvez com sessenta centímetros, coberta com luzinhas brancas piscando e enfeites em miniaturas. A árvore que chamou sua atenção era branca e dourada, e decorada com dúzias de anjos.

Eles eram todos loiros e inocentes, com olhos grandes. Por alguma razão, faziam com que ele se lembrasse de Ginny. Harry pegou na árvore e levou para a caixa registadora.


Olá! Olha eu devo dizer que este é dos meus capítulo favoritos! Harry, mesmo sem se dar conta, está mudando! E Sirius já topou tudo!

Muito Obrigado pela review Hanna! Fico contente que está a gostar :)