NOVE

Não se podia dizer que a pequena sala de refeições de Hawking Park era aconchegante, mas Edward a preferia. Ele esperava impaciente por Isabella e começava a se aborrecer com a demora.

Quando ela entrou com um lindo sorriso no rosto, o conde quase perdeu o fôlego. Isabella exalava vida. E a julgar por sua expressão, parecia contente em vê-lo.

— Edward, você está ótimo! — exclamou como se estivesse preocupada.

— Melhorei bastante — respondeu o conde, com o coração acelerado. Esticou o braço para tocá-la, pois precisava estabelecer algum tipo de contato, e a intensidade de seu desejo o assustava. Em vez disso, entretanto, fechou as mãos para controlar a urgência.

— Obrigada pelas roupas. Gostei muito e acho que ficarão lindas. Não sei nem como expressar minha gratidão por também estar se preocupando com minha mãe. Você é tão generoso, Edward!

Então era esse o verdadeiro motivo de sua alegria? Algumas libras que desembolsara com um novo guarda-roupa? Não querendo se irritar, ele afastou o pensamento amargo.

— Nós compraremos mais roupas quando formos a Londres.

— Londres? Nós vamos para Londres?

Ele acompanhou-a até a cadeira e afastou-a para que se acomodasse.

— Eu ainda não decidi a data, mas será em breve, é necessário que você estabeleça contato com a sociedade, não quero saber de fofocas a seu respeito ou sobre nosso casamento. Refletirá na criança.

Isabella ficou calada, pensando em suas últimas palavras. Embora ela não tivesse feito objeção alguma, o conde notou que estava perturbada.

— Ficaremos muito tempo? — perguntou ela, alguns momentos depois.

— Um mês, talvez. Iremos à ópera algumas noites e a alguns bailes. Provavelmente no começo da estação. Detesto multidões e todas aquelas matronas sem personalidade que só pensam no excelente genro que poderiam ter.

— Acho que você não terá mais esse tipo de problema — disse ela, caindo na risada.

— Como sou idiota! — declarou o conde, também rindo.

— Ainda bem que não terei de suportar mais aquele interrogatório desagradável.

— Está vendo? — provocou ela, com os olhos castanhos brilhando. — Pelo menos eu sirvo para alguma coisa.

O olhar de Edward deve ter revelado seus pensamentos, pois ela enrubesceu e baixou o rosto.

Tentou concentrar-se na refeição a sua frente. Estava ardendo de desejo por Isabella. A única noite de amor que haviam passado juntos não fora suficiente para saciá-lo, e a simples lembrança quase o enlouquecera, ainda mais enquanto se recuperava. Não via a hora de chegar à noite, embora não precisasse esperar para amá-la. Contudo estava determinado a levar em consideração a inexperiência da esposa.

— Eu estive no jardim ontem — comentou ela. — E percebi que está um pouco abandonado. Seu jardineiro precisa cortar as ervas daninhas e podar alguns arbustos antes do inverno.

— Como você sabe essas coisas sobre jardins? — perguntou, segurando o garfo próximo à boca.

— Eu não sei nada. Sempre admirei jardins e costumo fazer perguntas para quem entende do assunto. A maioria dos jardineiros dos parques de Londres sai correndo quando me vê chegando.

— Então você é incorrigível? — Ela fingiu-se ofendida.

— Saiba que conhecimento é algo muito valioso, senhor.

— Bem, ficarei contente em deixá-la testar este conhecimento. Eu também gosto de cuidar do jardim, pois acho uma atividade bastante relaxante. E é um excelente exercício. Além disso, aprecio a beleza das plantas. — Ele a olhou, indicando a estima por sua beleza. Mesmo envergonhada, Isabella não desviou o olhar, e um indício de sorriso formou-se no canto de seus lábios.

O jantar foi uma refeição agradável graças à companhia dela. Todos os nervos do corpo de Edward vibravam com a ânsia de possuí-la. Conversaram sobre assuntos corriqueiros, mas sua mente concentrava-se apenas no formato dos seios e na cintura fina de Isabella. Quando o relógio bateu dez horas, o conde quase pulou da cadeira.

— Vamos nos retirar? — perguntou.

Isabella concordou e levantou-se. Edward tentou se comportar bem, mas quando chegaram ao final do corredor, ele agarrou-a pela cintura e virou-a.

Isabella arregalou os olhos e entregou-se ao beijo apaixonado. Sem dizer uma só palavra, o conde a fez conhecer a intensidade de seus desejos. Puxou-a mais para perto e sentiu os mamilos intumescidos contra seu peito.

— Eu a quero — murmurou, explorando-lhe a orelha com mordidinhas. — Senti muito sua falta, Bella.

Quando ele abriu a porta do quarto, Isabella se afastou.

— Eu não posso...

— Não compreendo — perguntou ele, desorientado.

— Estou cansada hoje, Edward. Por favor, não me peça. Eu...

Edward foi consumido por uma ira gigantesca. Ela estava se recusando a aceitá-lo! Por mais alto que a razão falasse, uma voz ecoava em sua mente: Isabella o vira indefeso e doente. E agora o abominava!

Lutando contra a inevitável vontade de chacoalhá-la, ele falou entre dentes cerrados:

— Já discutimos isso antes, Isabella. Você deve estar à minha disposição. Já se esqueceu dos termos do contrato? Eu mantive a minha palavra e paguei-lhe cada centavo. Espero que cumpra com a sua.

Ela cerrou os punhos e cruzou os braços na frente do corpo.

— Eu sei Edward. Prometo que... — O rosto severo do conde mostrava toda sua fúria, e ela parou de falar. Incapaz de encará-lo baixou os olhos. — Sinto muito. Eu... Eu estou indisposta no presente momento. Devo estar recuperada daqui a alguns dias.

A princípio suas palavras não fizeram sentido, mas aos poucos ele compreendeu. Fechou os olhos e respirou fundo, incapaz de acreditar em sua estupidez.

Quando abriu-os novamente, viu que Isabella estava péssima.

— Bella, não seja tão envergonhada. Somos casados. Você tem liberdade de conversar comigo sobre esses assuntos — disse ele, esticando os braços. Relutante, Isabella permitiu-se abraçar.

Estava humilhando-a cada vez mais, pensou ele. Primeiro tivera um acesso de fúria, pois achava ter sido rejeitado, e depois tocara em um assunto muito delicado. Embora fosse seu marido, ainda era um estranho, afinal de contas, se conheciam havia pouco mais de uma semana.

— Não falaremos mais nisso — murmurou com os lábios colados em seus cabelos perfumados. Torceu para que ela compreendesse o pedido de desculpas. Estava muito envergonhado por tê-la magoado com seu orgulho.

— Vá se deitar, Bella — disse Edward. — Até amanhã.

Sem levantar os olhos, ela desejou-lhe boa-noite e se recolheu.

No silêncio que seguiu a partida de Isabella, ele foi até a janela e olhou para o grande vazio. Costumava adorar a noite, e ansiava pelas diversões que ela oferecia, preenchendo as horas sombrias com bebida e mulheres.

Agora a noite era apenas o fim do dia e, sem a companhia de Isabella, fria. E solitária.

Na verdade sempre fora, observou. Todas as diversões de sua vida inútil eram apenas uma maneira de encobri a solidão.

Talvez fosse esse o motivo de abominar a infâmia. Talvez. Lembrava-se das palavras que seu pai proferira contra ele em suas últimas horas de vida: inútil, depravado e obsceno. E, um pouco tarde demais, Edward percebeu que a opinião de seu querido genitor era a única que realmente importava.

Agora havia Isabella, cujo rosto cintilante e olhos reluzentes aceleravam seu coração e faziam sua alma sentir dor. Estava começando a precisar dela.

No dia seguinte, sentada ao lado da mãe na hospedagem, Isabella não conseguia se concentrar na conversa. Não sabia quanto tempo fazia que a mãe tinha parado de falar, e só tomou consciência quando sentiu o peso de seu olhar.

— Diga-me — ordenou Rennée.

— Mãe, acho que não será tão fácil quanto imaginei.

— É difícil ver alguém sofrendo, minha filha. Especialmente quando se trata de alguém com quem nos importamos.

Isabella levantou a cabeça e deparou-se com o olhar implacável da mãe. A declaração ficou no ar.

— Como Seth está aceitando o novo remédio? — perguntou Isabella, mudando de assunto.

— Ainda é cedo para dizer. O médico deve consultar algumas clínicas...

— Mãe, estes lugares são caros demais. Por mais generoso que Edward tenha sido, não poderemos pagar.

— O médico está analisando — insistiu ela, deixando o assunto de lado.

Seth acordou, e as mulheres mudaram para um assunto mais alegre, como o guarda-roupa novo que o conde lhe proporcionaria. O garoto também ganharia roupas e ternos novos. Rennée encomendara apenas dois modelos com a Sra. Newton, garantindo que compraria mais com o passar do tempo, usando seu próprio dinheiro. Os três caíram na risada ao lembrar o gosto extravagante da costureira.

Já passava do meio-dia, e Isabella postergou sua partida para poder jogar uma partida de xadrez com Seth.

Procurou sinais de melhora em seu rosto, e não notou nenhum, mas não se mostrou desapontada enquanto ria com o irmão.

Quando voltou a Hawking Park foi direto para seus aposentos. A saúde debilitada de Seth a preocupava e, incapaz de resistir, entregou-se às lágrimas.

Desejou conseguir dormir para afastar o horror.

Seth.

E Edward.

A morte estava a sua volta.

Sentindo-se um pouco melhor, levantou-se, lavou o rosto e trocou de vestido antes de descer para jantar.

Edward foi uma companhia agradável, mesmo que um pouco mais retraído do que o normal. Isabella espantou-se com seu comportamento em relação à doença. Não parecia mais abalado após o último ataque. Seth, por outro lado, ficava cada vez mais pálido e magro. Este último pensamento causou-lhe uma grande dor.

— Bella?

Ela piscou, voltando ao presente. Isabella a fitava com ares de preocupação.

— Eu a estou incomodando?

— Não! De forma alguma! Sinto muito.

O conde a estudou por alguns instantes. Isabella sentiu um tremor percorrer-lhe o corpo, receando que ele pudesse ler seus pensamentos.

— Há algo que a perturba? — perguntou.

Seria tolice negar. Pensou rápido para encontrar uma desculpa.

— Acho que sim. Fiquei imaginando quando meus vestidos ficariam prontos.

Recebeu um olhar mal-humorado como resposta e só então percebeu o erro que cometera. Seguindo um impulso, Isabella levantou-se e foi até o marido.

— E percebi que fui muito negligente — disse ela, inclinando-se. — Eu não o agradeci devidamente. Pelo que me lembro, você gosta de demonstrações de gratidão. — Isabella beijou-lhe a face recém-barbeada.

A maciez da pele dele a surpreendeu e ela se deu conta de que queria beijá-lo, e de verdade. Edward não se mexeu, apenas ficou olhando-a. Devido à falta de resposta, ela fez menção de se afastar, mas o conde a impediu.

— Se for me beijar, Bella, faça-o direito — disse, possuindo-lhe os lábios em seguida. A excitação provocou arrepios em seu corpo, e ela relaxou entregando-se aos braços do marido.

Havia palavras inexistentes em seu peito, coisas que queria dizer, mas não sabia exatamente o quê. Desejava Edward. Seu corpo ansiava pelo toque daquelas mãos grandes, e o desejo de estar com ele de novo e sentir as maravilhas da paixão tornava-se incontrolável.

Um grito e o barulho de louça quebrando-se os assustou.

Isabella olhou para cima e defrontou-se com uma criada de cabelos grisalhos, A pobre tinha os olhos arregalados. Saiu correndo sem abrir a boca.

Isabella virou-se para Edward, e os dois caíram na risada. A chegada da servente amenizou o fogo que consumia Isabella. Ajeitou a saia e Edward afastou-se, mostrando-se, de repente, muito interessado no afresco do teto.

— A menos que queira testar a firmeza da mesa, sem mencionar meu comedimento, sugiro que não repita essa atitude no futuro.

— Você não quer mais que eu o beije? — perguntou, sorrindo.

— Venha comigo — falou Edward, oferecendo-lhe o braço. Isabella o acompanhou até a biblioteca. Já estivera naquele aposento várias vezes, mas jamais para desfrutar do conforto que oferecia. Ela acomodou-se na poltrona de couro que Edward lhe apontou.

— Acho que seria um absurdo você se recolher logo após o jantar enquanto fico bebendo Porto sozinho — disse. — Estamos só nós dois aqui, o que nos permite dispensar as formalidades, concorda?

— Sim.

— Quero dar-lhe algo. — O conde caminhou até um cofre de ferro, ajoelhou-se e o abriu, Em seguida, tirou uma caixa pouco maior que sua mão. — Pedi que trouxessem isso para cá para lhe dar na ocasião de nosso casamento, mas acabei me esquecendo. Sei que é um grande defeito, mas não estou acostumado a pensar nos outros.

— Eu não tenho presente algum para lhe oferecer — disse ela, baixando os olhos.

— Isso é o que você pensa.

Isabella sabia exatamente ao que ele se referia, mas não tocou no assunto. A caixa de certo escondia uma joia. Ao erguer a tampa, seus olhos se arregalaram. Era um belo colar de diamantes.

Pegou-o para analisá-lo melhor. Toda a volta era incrustada de pequenos diamantes e, no centro, havia um grande coração. Ao levantar os olhos, encontrou o olhar de Edward.

— Se não devo beijá-lo, como vou agradecê-lo?

Ele ignorou a pergunta.

— Era de minha mãe. Ela está usando o colar no quadro que fica no salão.

— Não reparei — admitiu Isabella, voltando a olhar para a magnificência diante de seus olhos. — Prometo que vou olhar direito. Edward, obrigada. Cuidarei muito bem do colar e quando nosso filho se casar, ele o dará para sua noiva.

Isabella percebeu no ato o erro que cometera ao deparar-se com a expressão do marido.

— Edward, eu sinto muito. Só queria que soubesse como aprecio...

— Não — interrompeu o conde. — Não se desculpe. Você não disse nada de errado. Fico contente por ter gostado da joia. Agora vá dormir Bella. Amanhã você colocará o colar para mim.

Ela desejou poder voltar atrás e ter ficado calada.

— Sim, Edward. Boa noite — despediu-se Isabella, saindo da biblioteca.