EQUILÍBRIO
Capítulo 11. Quando o pesadelo vira realidade
Aquele dia estava sendo bem esquisito para Uruha. Não que não esperasse um dia confuso, afinal confusão era algo certo quando havia um live para acontecer: todo mundo muito ocupado com checklist, afinação de instrumento, montagem de luzes e equipamentos... Nada com o qual deveria se surpreender já que os anos na banda fizeram com que se acostumasse. Mas aquele dia particularmente parecia cheio de problemas que não costumavam ter com tanta frequência a ponto de fazer com que imaginasse alguma espécie de sabotagem: pedaleiras, amplificadores, luzes e instalações pareciam mais frágeis que o de costume, e até falhas bobas que o staff nunca cometeria em dias normais, fazendo com que o trabalho parecesse duplicar. Era estranho. Estranho demais.
Todos pareciam tensos, mas não a tensão normal de um pré-live. Kai, Reita, Ruki e Aoi estavam nitidamente ansiosos e ressabiados embora parecessem se esforçar para não demonstrar e fizessem brincadeiras para distrair a tensão. Algumas vezes os viu olhando para si de uma forma tão estranha que começou a cogitar se não havia algo de errado consigo, se algo como o que acontecera no passado pudesse estar acontecendo de novo, mas aquilo parecia diferente. Era como se eles estivessem lhe vigiando, como se julgassem que pudesse desaparecer ou acontecer algo no minuto seguinte caso não o observassem direito. De qualquer modo eram momentos tão rápidos que mal conseguia saber se era real ou apenas impressão sua.
De qualquer modo, independente de ter essa sensação, o clima era realmente estranho, mas sempre que tentava perguntar o que estava acontecendo acabava recebendo respostas evasivas do tipo "não é nada", ou "é impressão sua". Em uma tentativa de descobrir do que se tratava simplesmente aparentava deixar as coisas passarem, esperando que sua fama de distraído pudesse ajudá-lo de alguma forma, mas não ajudou em nada. Não conseguiu escutar nenhuma conversa nem obter qualquer resposta, tendo de se resignar a ficar sem saber por pelo menos algumas horas.
Por fim na hora do live viu os rapazes lidando com a ansiedade do jeito que podiam. Sem saber do que se tratava, nem ter a mínima pista do que poderia ser, restou a si torcer para que aquilo pudesse ser superado ou deixado de lado em prol da apresentação. Para sua sorte, a apresentação ocorreu tranquilamente. O nervosismo deles ainda estava lá, mas parecia controlado a partir do momento que tinham algo a fazer. A tensão não os impediu de ter um bom desempenho nem de agradar os fãs com brincadeiras e fanservices e foi o bastante para deixá-lo satisfeito.
Estava exausto quando o live terminou, desejando muito voltar para o hotel, tomar um banho e cair na cama, mas estranhou quando Kai pediu ao manager que avisasse que a banda não concederia entrevistas naquela noite. Normalmente sempre havia alguma entrevista no fim dos lives, e chegou a perguntar para Kai a respeito, mas teve como resposta alguma coisa sobre todos estarem cansados demais por terem tido muito trabalho durante a organização dessa vez.
Sem perguntar mais nada, acabou acatando a resposta do baterista. Era plausível de qualquer modo e precisava mesmo do descanso, portanto assim como os outros apressou-se em tomar um banho rápido, tirar a maquiagem e ir embora. Estava tão sonolento que não reparou que a van da banda havia entrado na garagem do hotel pela entrada dos fundos. Dividiram a última refeição da noite juntos, despediram-se e se retiraram para seus respectivos quartos. Para ele, bastou entrar no cômodo para deixar-se cair na cama sabendo que embora estivesse exausto provavelmente as dores no corpo não fossem deixá-lo dormir.
— Tá tudo bem, Kou-chan? – perguntou Aoi, entrando no quarto e fechando a porta atrás de si. — Tá sentindo alguma coisa?
— É só cansaço mesmo. Acho que ainda vai levar um tempo pra conseguir dormir.
Viu o moreno assentir com um sorriso leve, pegando seu notebook e o levando para a cama. Provavelmente acessaria o Twitter e ficaria ali até desanuviar a mente. Yuu também parecia cansado, mas aquilo parecia ser mais que o cansaço de um live. Já o conhecia bem para saber disso. Até tentara perguntar a ele se tinha acontecido algo, mas o mais velho havia sido um dos pioneiros da resposta "impressão sua, tá tudo bem". Não ia adiantar muito perguntar embora ele fosse um dos que tinha lhe olhado daquele jeito durante o backstage.
Frustrado por não conseguir saber e ter de esperar por algum tipo de resposta, tirou o celular do bolso, lembrando-se que ainda não o tinha ligado depois do live. Era praxe que todos desligassem o aparelho enquanto estavam se arrumando para entrar no palco e naquele dia havia sido pior já que tinham lidado com tantos problemas. Bastou apertar o botão para que se assustasse com os números que apareceram em sua tela: várias chamadas perdidas, diversas mensagens de textos recebidas e não lidas. Antes que pudesse ter tempo de esboçar mais do que estranheza ou pensar em verificar do que se tratava tudo aquilo, o aparelho começou a tocar, e a ligação vinha do escritório da PSC.
— Moshi-moshi?
— Takashima-san? Aqui é Ueno Hayato, do departamento jurídico da PSC, tudo bem? Desculpe pelo horário, mas telefonamos outras vezes e não conseguimos falar com você.
— Tudo bem, Ueno-san. Não tem problema com o horário, o meu celular estava desligado porque estávamos em um live. – respondeu, intrigado pelo telefonema. Raríssimas vezes teve algum contato com o departamento jurídico da produtora em quase dez anos trabalhando com eles e de uma hora para outra o número deles marcava quase quinze ligações perdidas em seu celular. Isso lhe parecia muito repentino. — Precisa de algo?
— A montadora do seu antigo carro entrou em contato conosco hoje, procurando por você. Eles desejam fazer um acordo financeiro a respeito do seu acidente, mas não sabiam onde poderiam te encontrar.
— Mas como assim? – perguntou, mais intrigado ainda. Pelo que sabia as pendências burocráticas a respeito do assunto tinham sido resolvidas junto à seguradora do veículo, que inclusive já havia mandado um carro novo e que estava praticamente intocado na garagem do seu prédio. — Até onde me lembro, as questões pendentes sobre esse assunto já foram resolvidas. O que eles têm a ver com isso?
— De acordo com eles, houve uma falha no acionamento do airbag do seu carro. Ele não inflou e não cumpriu o papel que deveria. Só que eles tomaram conhecimento disso somente hoje quando analisaram o vídeo do seu acidente e o laudo feito pela polícia e pela seguradora.
— Espera, onegai... Não estou entendendo. Como assim? Como eles descobriram isso?
— Tem um vídeo do seu acidente circulando na internet, Takashima-san. Alguém da montadora assistiu e repassou para o alto escalão que requereu os laudos e comprovaram a falha. Já estava comprovado, na verdade, mas como não houve nenhuma providência ou processo a respeito eles não tomaram conhecimento da situação. Eles entraram em contato conosco porque não sabiam como te encontrar e nós estamos entrando em contato com você. Já tem algum advogado cuidando desses assuntos para quem eu possa repassar isso?
Assustado, Kouyou custou a recobrar a fala. Como assim um vídeo do acidente? Não estava sabendo de nada disso. Ninguém sequer havia mencionado naqueles dias que havia uma filmagem. Tudo que sabia a respeito do que acontecera consigo vinha da polícia e de sua família. As únicas coisas das quais havia tomado conhecimento era que seu pai havia agido junto à seguradora para resolver a papelada e agilizar a burocracia para receber o novo carro e também que o caminhoneiro que provocara o acidente estava preso e aguardando julgamento.
— Ueno-san, nós poderíamos ver isso amanhã? – pediu, tentando controlar seu tom de voz, disfarçar que aquilo lhe pegara completamente desprevenido. — Eu... Eu não estou com o telefone do meu advogado no momento, então...
— Hai, como quiser Takashima-san. Sem problemas. Aguardo seu contato então.
— Arigatou, boa noite.
Desligou o celular, sem saber de onde havia tirado fôlego ou força para encerrar aquela ligação, mas sentia o coração quase aos pulos, de uma forma que chegava até mesmo a doer. Como assim havia um vídeo do seu acidente circulando pela rede?
Absorto, não se deu conta de que Aoi o observava de soslaio, mas que agora parecia completamente atento a si. Disposto a descobrir a verdade, sentou-se na cama ao lado de Yuu, tomando o aparelho do moreno, virando-o para si, abrindo uma nova aba no navegador de internet e digitando as palavras chaves, buscando o que precisava saber e infelizmente encontrou. A partir do momento em que acionou o player do vídeo, tudo aquilo voltou a acontecer. Todos os pesadelos acontecendo bem à sua frente.
Soluçou, levando as mãos à boca, chocado com o que estava assistindo e sentindo o ar lhe faltar a cada segundo. Os olhos castanhos acompanhando e decifrando o turbilhão pelo qual passara e sonhava todas as noites, vendo cada momento como uma peça se encaixando em um quebra-cabeça do qual tentava esquecer desesperadamente. Exausto, cobriu os olhos sentindo suas mãos trêmulas e geladas. Não queria mais ver aquilo. Não precisava passar por isso de novo...
Perdido na própria dor, não sentiu quando Aoi fechou o notebook e o tirou de perto de si, encerrando aquele espetáculo dantesco. Mal conseguia sentir algo além da sensação de estar afundando, então mal sentiu quando os braços do moreno o envolveram, acolhendo-o de forma quase imediata.
— Gomen, Kou-chan... – ouviu-o dizer, em voz baixa — Nós ficamos sabendo disso hoje a tarde e não tínhamos ideia de como te contar. Nós queríamos conversar com você com calma... Não queríamos que visse isso! Nós sabíamos que isso ia te machucar... Sinto muito...
Kouyou sentiu os olhos arderem e sem que conseguisse se impedir, as lágrimas rolaram pelo rosto. O choro veio de forma ruidosa e compulsiva como se tudo que tivesse guardado dentro de si durante tanto tempo houvesse simplesmente explodido sem qualquer controle enquanto o mais velho ainda lhe mantinha no abraço, afagando seus cabelos e falando consigo com um tom de voz tão suave que era como se estivesse ninando uma criança. Como se cantarolasse um novo mantra ao qual, diferente de todos os outros que tinha em sua memória desde o dia em que tudo havia começado a desmoronar, era capaz de lhe trazer conforto.
— Está tudo bem, Kou-chan. Você não está mais sozinho. Nós estamos e sempre estaremos aqui pra quando você precisar... Eu vou estar aqui pra você para sempre se você deixar...
Kouyou precisava tanto daquilo que não conseguiu se impedir de aceitar o refúgio nos braços de Aoi, mesmo que muito provavelmente não fosse a decisão certa. E dividido entre seu pânico e seus receios surpreendeu-se ao sentir os lábios de Yuu tocando os seus gentilmente. Não sabia bem o que significava aquilo, mas sentiu-se protegido, cuidado. Uma sensação de conforto que aos poucos foi vencendo seu pânico, fazendo com que ele cedesse aos poucos até simplesmente desaparecer.
Não sabia quanto tempo aquele beijo havia durado, mas foi o bastante para que se lembrasse do selo rápido que lhe roubara durante o famigerado live, do gosto dos lábios dele, que havia permanecido nos seus durante tanto tempo sem que conseguisse esquecer, mesmo sofrendo tudo que havia sofrido. E quando terminou, tudo que lhe restava era o cansaço e a exaustão pela infinidade de coisas que havia colocado pra fora a ponto de a ideia de pensar, poder representar um esforço do qual não pudesse arcar.
Mergulhando no torpor de um choro muito longo, Uruha sentiu que Aoi estava deitando-o na cama. O moreno não desfez o abraço, deitando-se bem ao seu lado, ainda acarinhando seus cabelos.
— Tenta relaxar, Kou. Você precisa descansar. Vai ser melhor amanhã, você vai ver.
Para sua surpresa, realmente o sono não demorou a chegar. Sentindo-se cuidado e embalado pela carícia de Yuu, pela primeira vez em muito tempo deixou-se levar por ele de bom grado, sem esperar nem temer por novos pesadelos. Estava exausto demais para sonhar.
ooOOooAoi permaneceu na cama, deitado junto a Kouyou e escutando a respiração do mais novo. O loiro estava dormindo profundamente e não aparentava que fosse acordar tão cedo, mas ainda assim não quis sair do seu lado. Sentia-se tenso demais para ficar longe dele depois de tudo.
"Ele o deixou lá..." pensava. Esse era o seu pensamento mais frequente depois de ter visto o vídeo do acidente. Não conseguia esquecer a cena do motorista do caminhão simplesmente olhando para Uruha no meio das ferragens e indo embora sem se importar. O rosto sem expressão, sem demonstrar o mínimo de remorso, pesar ou qualquer sentimento que fosse.
Ele simplesmente deixara Kouyou ali para morrer.
Não sabia como tinha conseguido suportar àquelas horas sem simplesmente desabar. Desde que assistira ao vídeo sentia um nó na garganta com o qual se esforçara para lidar até que pudessem contar a ele. Sentia raiva, ódio e o coração apertado, mas pouco pôde reagir a isso pelo receio de que Uruha terminasse de passar o som e voltasse ao backstage e tivessem de explicar o que significava aquele silêncio e as expressões vazias. Havia sido muito ruim que o loiro ficasse sabendo daquele jeito, mas provavelmente tinha sido melhor. Não sabia se poderia aguentar esconder aquilo por muito tempo.
Depois de tudo que assistira, não conseguia acreditar que ele havia sobrevivido. Naquele momento conseguira ter a noção exata de tudo que estivera em jogo naqueles dias em que estivera naquele hospital e o quanto queria acreditar que não, mas o desfecho trágico era o mais certo. E quando fechava os olhos tudo que conseguia lembrar era da imagem de Kouyou de olhos abertos fitando o nada e sendo dado como morto.
Tudo aquilo era absurdo, e diante de tudo era loucura demais não dar valor ao que havia acontecido. Entendera que havia recebido muito mais que uma segunda chance. Que aquele era um milagre que não merecia, mas ao qual deveria dar valor e fazer por merecer dali por diante.
Precisava resolver tudo o que havia deixado pendente antes que o tempo acabasse. Cada minuto fazia a diferença porque havia muito a ser feito. Fosse lá o que havia entre eles ainda estava repleto de mágoas e remorso que precisavam ser superados. Porém não estava mais aguentando esperar e beijá-lo talvez não tivesse ajudado em nada, porém não tinha sido capaz de resistir. E o gosto dos lábios dele era tão bom quanto se lembrava mesmo que houvesse sido apenas um selinho. Fez com que o moreno se lembrasse da razão de estar fazendo tudo aquilo, mesmo que não precisasse de algo para lembrar o que era absolutamente óbvio para si.
Provavelmente teria muito a explicar quando ele acordasse, mas por hora iria continuar ali mesmo. Apesar dos pesares, não queria estar em nenhum outro lugar naquele momento.
E ali permaneceu até que seu sono chegasse, sem desfazer o abraço.
Não soube quanto tempo se passou, mas abriu os olhos lentamente. Sentira algo em seu rosto, um toque diferente e delicado, como se fosse um carinho, mas não sabia dizer se era verdade. Ao acordar também não soube dizer se era ou não, mas quando o fez encontrou o loiro já acordado, olhando para si.
— Kou-chan? – disse, com a voz rouca pelo sono e esfregando os olhos. — Você está bem?
A resposta foi silenciosa, com o loiro meneando a cabeça dizendo que sim. Não impediu que um sorriso discreto viesse aos seus lábios com a resposta.
— Eu fiquei preocupado... Com medo que você tivesse pesadelos. Você não tomou o calmante ontem.
Viu o mais novo franzir o cenho, em uma dúvida não verbalizada. Aoi não estranhou. A noite havia sido tão tumultuada que era normal ter esquecido.
— Desculpe ter dormido "desse jeito" – pediu, referindo-se ao fato de estar abraçado a ele — É que você estava dormindo tão tranquilo que fiquei com medo de me mexer e te acordar. Eu não queria tomar nenhuma liberdade, e...
— Iie, não se preocupa Yuu. Está tudo bem, não tenho razão pra ficar incomodado. Aliás, essa foi a primeira vez em tempos que eu dormi a noite toda sem ter pesadelos e nem tomar remédios.
Aoi deixou escapar um sorriso discreto ao escutar a resposta do loiro, em saber que havia conseguido ajudar pelo menos um pouco.
— Então... Quer dizer que você se sentiu seguro comigo? – perguntou, baixando o tom de voz e hesitando. — Ainda confia em mim?
— É claro que eu confio. Se não confiasse não teria concordado em dividir o quarto com você, muito menos estaria... Assim. – o loiro respondeu, parecendo embaraçado e lhe dando uma das respostas que mais queria ouvir.
Aoi queria muito reconquistar a confiança de Kouyou. Só assim teria condições de se aproximar dele e pensar em conquistá-lo. Amor e confiança andavam de mãos dadas e Yuu queria desesperadamente sentir que havia alguma esperança para si. E se o loiro ainda confiava...
— Que horas são? – perguntou o mais novo, saindo do abrigo dos braços do moreno, erguendo-se e sentando na cama como quem se assusta e nesse movimento acabou assustando o mais velho. — Os outros já devem estar nos esperando pra ir embora...
— São seis da manhã. Ainda é muito cedo, Kou-chan. Tenta dormir mais um pouco, você precisa descansar. – pediu, levantando o corpo e pedindo para que ele voltasse para a cama, já saudoso do conforto em abraçá-lo. Não havia notado, mas colocara sua mão sobre a dele, pedindo para que ficasse.
Viu a dúvida estampada nos olhos de Kouyou e vibrou secretamente quando o mais novo voltou a deitar-se, aceitando o convite que talvez tivesse lhe parecido apressado demais. Sem que pudesse se conter, voltou a acarinhar os cabelos do loiro, tentando fazê-lo relaxar.
Ficaram ali, deitados lado a lado, imersos em um silêncio estranho e tímido. Desconfortável para quem tinha tantas expectativas. Era como se algo tivesse sido quebrado e agora Aoi estava ansioso para recuperar o momento onde Kouyou estava plenamente relaxado em seus braços.
— Como vocês souberam do vídeo? – o loiro perguntou, baixinho.
— Sakai-san telefonou pro Kai-kun enquanto você estava no palco fazendo a passagem de som e contou que tinha um vídeo do seu acidente que caiu na internet e estava se espalhando. Ele telefonou pra nos prevenir que a imprensa estava à sua procura. Não tínhamos como contar pra você naquela hora, daquele jeito. Foi por isso que cancelaram a entrevista depois do live e que entramos no hotel pela porta dos fundos.
— Vocês... Assistiram?
Yuu assentiu com a cabeça, sem coragem para verbalizar o óbvio. Ainda não conseguira digerir tudo o que assistira e não conseguiria nem tão cedo.
— Todos nós assistimos. – respondeu quando se sentiu mais seguro do seu tom de voz. — Nós íamos te contar hoje. Não queríamos que ficasse sabendo desse jeito.
— Tudo bem, não tem problema. Eu ia ficar sabendo de qualquer maneira. Eu já tinha percebido que estava acontecendo alguma coisa errada, mas não sabia onde.
— Você percebeu?
— Hai. Vocês me olhavam como se eu pudesse desaparecer ou desabar a qualquer momento.
O moreno concordou, não restando muito a fazer além de admitir. Sabia que pelo menos quanto a si mesmo havia sido muito difícil fingir que não estava acontecendo nada, mas também não pensou que todos tinham sido tão transparentes. Ou talvez Uruha não fosse tão distraído e lento quanto costumavam dizer. Não sabia qual seria a melhor resposta, mas não se concentrou nisso. Havia algo mais importante para acontecer, e começou sem que notasse. A palavras tomaram voz sem que percebesse embora não tivesse feito o menor esforço para contê-las.
— Fiz o melhor que pude, mas sabia que não ia conseguir. – concordou, tendo a mente muito longe ocupada em uma tentativa de esquecer as cenas do vídeo, mas sem sucesso. — Não é todo dia que a gente se dá conta do quanto estava pra perder.
As palavras deixaram seus lábios de maneira natural. Mal conseguiu acreditar que conseguira articular tão facilmente algo que levara tanto tempo para entender e aceitar. Um bom sinal em todos os sentidos. Talvez agora estivesse pronto. Talvez aquela fosse a tal da "hora certa" pela qual tanto esperava.
— Eu amo você, Kou-chan. Eu sei que tenho muito que me desculpar e me explicar, sei que não tenho direito, mas eu te amo.
ooOOooSem que tivesse controle, Uruha sentiu o próprio corpo retesar em meio ao abraço do moreno. Sentiu seus traços se contorcerem em uma expressão de dúvida. Sabia que ele gostava de si, tinha escutado as declarações de Aoi feitas em momentos clandestinos e dos quais nunca deveria ter tomado conhecimento. Sabia dos sentimentos que ainda tinha por ele, havia dito a Reita que se o mais velho quisesse algo, ele teria de vir buscar... E agora ele estava se declarando para si.
Depois de tanto tempo, tantos problemas e tantas mágoas, Aoi estava se declarando.
— Yuu... Eu...
— Shhh, me deixa terminar, onegai. – Eu sei que fiz muita coisa errada nos últimos tempos, Kou. Eu sei o tamanho do que fiz e não acho que eu mereça alguma coisa depois do que aconteceu, mas o fato é que gosto de você. Não sei quando isso começou, mas eu perdi muito tempo tentando recusar e entender quando eu deveria apenas ter aceitado. Por causa disso eu quase perdi tudo. – disse o moreno acarinhando seu rosto, fitando seus olhos. Era fácil notar que ele estava sendo sincero. — Não espero que me perdoe, nem que ainda sinta alguma coisa por mim. Isso eu já sei que perdi. Nem quero alguma resposta, não quero te cobrar nada. Eu só não podia ficar mais tempo sem dizer isso. Sei que não se pode ter tudo o que quer, mas... Só não quero me arriscar a perder de novo.
O loiro não conseguiu reagir de imediato. Piscou os olhos algumas vezes, sem acreditar muito no que estava acontecendo. Durante tanto tempo desejou que aquilo acontecesse que agora que acontecia mal conseguia acreditar. Sabia que ele estava se declarando de verdade, que não havia nada que desabonasse o mais velho agora, além de um passado que ele mesmo estava disposto a tudo para superar e isso era surpreendente porque apesar de saber de tudo que sabia, nunca havia esperado que ele pudesse dizer isso com todas as letras.
— Yuu, você tem certeza do que está dizendo? Nós dois somos homens e pelo que eu sei, você é hetero.
— Eu nem sei mais o que eu sou, Uru, nem quero saber. Prefiro vivenciar isso sem rótulos. Quando eu tentei rotular acabei te magoando e... – o loiro o viu interromper a própria fala, fechando os olhos como se estivesse lutando contra uma lembrança ruim. Uruha também sabia o que era e de sua parte também preferia esquecer. — Não quero mais isso. Só sei que eu me apaixonei por alguém e essa pessoa é um homem. Não me importa o que isso possa significar a meu respeito.
Uruha não conseguiu mais se conter, nem manter a máscara de ceticismo que por tanto tempo tinha usado para se proteger. Deixou que o sorriso lhe chegasse aos lábios e o brilho alcançasse os olhos. Deixou que sua mão pudesse acarinhar o rosto dele da forma como várias vezes chegou a sonhar e que as palavras finalmente pudessem dar a sentença para ambos.
— Se você tem coragem pra tanto, não vejo nenhuma razão pela qual não possamos tentar.
Esperava não se arrepender por ter dito aquilo, mas toda a hesitação acabou desaparecendo quando notou a forma com a qual ele lhe observava, o sorriso bonito e incrédulo por aquela permissão e principalmente quando sentiu os lábios dele novamente sobre os seus.
Fosse qual fosse o decorrer daquela história, sabia que iria valer a pena.
ooOOoo
O moreno dormiu mal naquelas horas que ainda tinha. Tinha medo de dormir e despertar para descobrir que aquilo não passara de um sonho. Tudo estava em sua memória, todos os detalhes... Tudo aquilo parecendo palpável demais para ser um sonho, mas sabia como eles podiam ser reais. Tinha medo de acordar para descobrir que tinha perdido tudo: o perdão de Uruha, aquela permissão para começarem algo e aquele beijo que não era o primeiro, mas no fundo era como se fosse.
Ficou aliviado quando sentiu o corpo quente em seus braços. Uruha ainda dormia, mas seu sono parecia ser bem leve. Um daqueles cochilos do qual se desperta a qualquer momento. Parecia em paz e Aoi não queria perturbá-lo de forma nenhuma. Isso também era um pouco de egoísmo seu: queria sentir o calor dele o máximo de tempo que pudesse. Queria tudo que pudesse lhe fazer crer naquela nova realidade.
Acarinhou os cabelos claros de Kouyou, pensando em como seriam as coisas dali por diante. Estava feliz, mas também ansioso. Tinha medo de fazer algo errado. Tudo bem que não seria seu primeiro relacionamento, mas seria o primeiro com um homem. Era óbvio que haveria diferenças, que não seria tão simples demonstrar afeto quando estivessem em público, que envolveria uma série de coisas que tinha custado a deixar de lado para finalmente aceitar, mas que ainda representariam muitos desafios a longo prazo. Estava apavorado com a responsabilidade que teria em mãos agora. Não queria magoar Uruha, ainda mais depois de tudo o que tinham passado até chegarem naquele momento.
Sentiu-o se mexer em seus braços, abrindo os olhos lentamente. Logo os olhos castanhos do mais novo miraram os seus e tudo que pode fazer foi sorrir para ele. Acabou brindado quando ele lhe sorriu também, de forma singela, quase como se estivesse envergonhado de alguma forma.
— Dormiu bem, Kou-chan?
— Hai, dormi sim. Mas pelo visto você não dormiu quase nada.
— Cochilei algumas vezes. Foi o bastante para mim. – disse, sem querer falar sobre a ansiedade que o manteve acordado ou o medo de ser um sonho. Não precisava que ele o achasse um bobo.
— Que horas são?
— Sete e meia. De acordo com o Kai, vamos embora às 10 horas. Ainda dá para dormir mais, caso ainda esteja cansado.
— Iie, acho que já chega de dormir. Quero tentar resolver algumas coisas antes de irmos embora. Acho melhor ficar acordado pra poder fazer isso na primeira hora possível. – respondeu, sem muito entusiasmo — Será que os meus pais ficaram sabendo do vídeo?
— Sakai-san ficou encarregado de avisar a eles. Acho que Kai também deve ter feito o mesmo. Estava preocupado que os repórteres tentassem falar com eles e acabassem descobrindo sobre isso por outras pessoas.
Viu o loiro aquiescer, na certa contente com a resposta. Sabia com o que ele estava preocupado, que Kouyou também odiava a ideia de ver os pais envolvidos em uma coisa dessas. Sentiria o mesmo se estivesse naquela situação, sendo perturbados por algo assim.
— Tomara que não tenham assistido... – ouviu-o comentar, como se fosse somente um pensamento que sem querer tomara voz.
Imediatamente lembrou-se dos pais e das irmãs de Kouyou, da forma como reagiram ao acidente, de como também passaram por aquela espera nos corredores do hospital e pelo medo palpável de perder alguém que nunca poderia ser substituído. Lembrou-se do desespero silencioso do senhor Takashima, do pranto sentido da esposa e das duas filhas. Sentiu um imenso respeito por eles durante aqueles dias. Imaginou como seria para eles assistir aquele vídeo. Aoi não era nada mais que um namorado e os outros não mais que amigos e ficaram chocados com o que tinham visto, então como não seria para a família do loiro vê-lo naquela situação?
Era como se o pesadelo se repetisse mil vezes sem que pudessem fazer nada a respeito, independente do fim daquela história ter sido feliz.
— Vai ficar tudo bem, itoshii. – disse, sentindo-se tolo por não conseguir pensar em nada melhor para dar algum conforto ao mais novo.
— Do que você me chamou? – ouviu-o perguntar em um tom surpreso.
— Itoshii. – repetiu, sentindo-se mais tolo ainda, porém mais satisfeito por ter desviado a atenção dele de um assunto tão pesado. Apenas rolou os olhos e sorriu. — Nem sei se casal de homens costuma dizer isso um pro outro. Piegas?
— Ah, não tanto. Eu gostei. Soa bem.
Aoi gostou de ouvir o riso dele. Gostou de saber que o fazia rir e isso o contagiou, fazendo-o rir também. O pouco que sabia sobre um relacionamento era a importância de ser capaz de fazer o outro rir. O som do riso de Kouyou foi o bastante para se sentir seguro por pelo menos alguns minutos.
Talvez no fim o segredo fosse sempre pensar em um dia de cada vez.
Continua...
PS: Em breve o último capítulo dessa budega.
