Que época boa essa do carnaval, dá para deixar em dia mais um capítulo da historinha. Aqui está um capítulo que vai tirar a dúvida sobre a admiradora secreta do Kamus. Espero que gostem, hein? Abraços!
Capítulo 11
Suspeitos
Saga chegou passado em casa. Tinha que ter uma conversa muito séria com seu irmão, afinal, aquela situação estava se tornando terrível e depois de como Dohko agiu durante a luta, tinha certeza que o garoto chinês estava muito magoado. Tirou sua roupa e estava pronto para entrar no banho quando o telefone começou a tocar. Enrolou uma toalha em seu corpo e tirou o fone do gancho. A voz que escutou era a última que queria ouvir naquele momento.
-Fala irmão, beleza?
-Mas é claro que não, Kanon.
-Por que irmãozinho?
-Você sabe do que eu estou falando. Onde você está?
-Então, liguei pra dizer que vou passar o fim de semana na casa do Máscara da Morte. Ele arranjou convites para uma festa em Esparta e eu vou com ele.
-Não! Eu preciso falar com você nesse fim de semana!
-Você não é meu pai, Saga. Falou aí!
-Kanon! KANON!
-Tu, tu, tu...
Saga bateu o telefone no gancho com força, como se o aparelho tivesse culpa. Era melhor entrar no banho logo antes que fizesse alguma besteira.
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O final de semana passou voando. No sábado de manhã os alunos compareceram no colégio para serem recompensados com as medalhas adquiridas durante os jogos esportivos. E a segunda-feira chegou para o tormento de uns e alegria de outros. Após uma semana sem aulas, os alunos estavam encontrando certas dificuldades para se adaptar novamente a rotina ainda mais quando as semanas de provas do final do primeiro semestre estavam chegando e novamente o clima voltou a ficar tenso.
Miro chegou na sala de aula e viu Dohko sentado em sua carteira, rabiscando um papel. Sentou-se bem a sua frente e encarou o colega com uma cara de preocupação. Logo depois, Kamus estava ao lado do colega, mas em pé com a mesma posição de sempre: braços cruzados e expressão séria.
-Dohko, Kamus e eu vimos você lutando com o Saga de uma maneira furiosa.
-Vai dizer que você não sabe o motivo? Aliás, não deveria nem estar falando com vocês.
-Mas por que não? Eu não sei do que está falando.
-Como não, Miro? Todos sabem!
-Não, Dohko. Eu sei, mas o Miro não.
-O que eu não sei? Dá pra alguém me atualizar aí?
Kamus baixou os olhos e virou-se para Miro. Talvez se dissesse o que sabia, poderia ajudar o amigo chinês.
-A Lígea foi beijada por Kanon a força. Aí o Saga nos contou que ela gosta do Dohko, mas que o irmão dele é muito cobiçoso.
-Bobagem Kamus! Ela gosta do Kanon, só preciso me acostumar com a idéia.
-Pelo menos não foi o que Saga nos disse. Ele pareceu muito sincero.
-E por acaso alguém sabe se o Saga realmente diz a verdade? Eu nunca soube dizer o que se passa exatamente na cabeça daquele indivíduo. E, aliás, eu vi a Lígea abraçada com o Kanon no jardim, quinta-feira passada.
-Dohko, converse com a menina.
-Kamus... – Miro interveio na conversa – Nós dois vimos ela abraçada com o Kanon na quadra, depois da luta.
-Estão vendo? Depois querem discutir comigo...
-Eu acho que você deveria investigar melhor Dohko, afinal, se você gosta realmente dela...
-Nossa Kamus! Nem parece você falando!
-Só estou dizendo o óbvio, Miro. Agora, com licença, eu vou para meu lugar, porque eu preciso prestar atenção na aula de revisão do Eugeu. Vai que nós vamos mal de novo e as provas precisam sumir novamente. – Kamus saiu do meio dos dois e foi para seu lugar.
-Esse Kamus... Cada dia que passa, está mais estranho... A minha lista de suspeitos... Cada vez aumentando mais.
-Como assim, Miro? Aumentando mais? Lista?
-Todas vezes que eu pergunto alguma coisa sobre isso, se alteram comigo. Então não vou insistir nesse assunto com ninguém. Pensei alto somente.
-Espere aí, me conte isso direito.
-Não sei se devo.
-Claro que não deve. Se junte mesmo com esse povo e esconda as coisas dos seus amigos.
Miro pensou bem. Dohko não seria capaz de ter roubado as provas e ele não fazia parte de sua lista suspeita. Poderia contar com ele?
-Está bem... Eu te conto. Mas me prometa segredo. Nem o Kamus sabe.
-Beleza...
-Eu tenho uma lista de suspeitos de quem tenha sido o autor do crime... Até pesquisei sobre o tipo de punição que a pessoa pode sofrer.
-Que tipo de punição?
-Em primeiro lugar, ele vai ser expulso do colégio, óbvio... Depois disso, os pais dele vão ficar sabendo... E andei lendo um livro de Direito, pode ser acusado de invasão de propriedade particular e roubo. Se forem duas pessoas, formação de quadrilha.
-Caramba! Eu não queria estar na pele desse sujeito...
-Acho que além da humilhação de ser expulsa... A pessoa vai ficar uns anos atrás das grades...
-E quem faz parte da sua lista, Miro?
-Kanon e Máscara da Morte, obviamente. Shura, Mu... E infelizmente o Kamus entrou para a minha lista...
-Está desconfiado do seu melhor amigo?
-Já reparou como ele não gosta de falar sobre o assunto?
-Sei lá Miro, o Kamus é sério... E você sabe que ele não gosta de fofocas. Ele é bem maduro... Duvido que ia se envolver nisso... E quanto aos outros, o Mu é tão na dele... Eu acredito que tenha sido os dois lá...
-O Mu anda estranho... E se lembra do pedaço de tecido que a orientadora achou?
-Lembro.
-No dia do cinema, o Mu estava com a jaqueta preta dele rasgada... Então... Tenho motivos para desconfiar dele. E o Shura faltou à aula no dia seguinte.
-Fiquei sabendo que o Saga também faltou nesse dia...
-Sério? Então é mais um que entra para lista.
Dohko continuou a conversa com Miro até que se lembrou de algo que o deixou aturdido. "Vocês não gostam de mim. Ninguém gosta de mim. Será que eu preciso roubar a escola pra vocês gostarem de mim?" – Dohko se lembrou do que Afrodite tinha dito no dia em teve a discussão na casa de Aioros.
-Miro! Acabei de me lembrar de uma coisa!
-O que?
-No dia que o Shura brigou com o Afrodite... Lá na casa do Aioros... Lembra?
-Em que nós deixamos ele escolher a matéria? Lembro.
-Estava só ele e eu... Ele me disse algo do tipo... "Será que tenho que roubar a escola pra vocês me respeitarem?" Ou algo assim...
-Sério mesmo, Dohko?
-Sim. Talvez ele tenha apenas comparado o fato, mas devemos considerá-lo também...
-E você me esquece um negócio TÃO importante desse? Ele está empatado junto com aqueles dois baderneiros da outra sala.
Dohko, apesar de feito o comentário, não acreditava que o garoto sueco tivesse a ousadia de roubar os testes, principalmente para chamar a atenção.
-Vem cá, Miro. Você está fazendo isso, pesquisando sozinho?
-Sim. – Miro resolveu mentir, afinal, Calíope disse que era para manter segredo sobre a espionagem.
-Então, depois da aula a gente conversa melhor.
Eugeu entrou na sala e a sua expressão facial indicava perigo. Ultimamente o professor estava tão nervoso e enérgico que era melhor nem mexer com ele. A sala ficava em silêncio e era possível ouvir o barulho de uma borboleta batendo as asas de tão quietos que os alunos estavam.
Na outra turma as coisas estavam melhores. Aldebaran e Mu se falavam novamente e amizade tinha recomeçado firme e forte. Shaka estava se aproximando mais de Saga após o início oficial do namoro entre Marin e Aioria. Era impossível ficar ao lado dos dois sem ficar sem graça e não era preciso dizer que Máscara da Morte e Kanon estavam mais impossíveis do que nunca. Enquanto Kim estava dando a revisão antes da prova final do primeiro semestre, teve que parar umas cinco vezes para responder perguntas bobas que os dois faziam. Numa dessas, Calíope surgiu na porta da sala de aula. Kim abriu a porta para ela.
-Olá professor, Kim. Peço que me perdoe por interromper a sua aula.
-Não tem problema, senhorita Calíope. Em que posso ajudá-la?
-Preciso ter uma conversa com Kanon e Máscara da Morte. Posso levá-los comigo por alguns minutos?
Os dois rapazes empalideceram na mesma hora e trocaram olhares assustados. Lígea sorriu sarcasticamente ao olhar para trás e ver o medo estampado no rosto da dupla. Mu sentiu seu estômago revirar naquela hora e Saga começou a pingar de suor. Shaka engoliu em seco e Aioria apertou muito forte a mão de Marin. Aldebaran parecia ser o único que não ficou abalado com a intimação da orientadora.
-Não ouviram meu chamado? – Insistiu Calíope.
Os dois se levantaram, andaram juntos até a orientadora e deixaram a sala. No caminho ninguém abriu a boca. Ao chegar em sua sala, os dois garotos estavam quase entrando em um colapso nervoso.
-Acredito que vocês até sabem o motivo de estarem aqui.
Os dois balançaram a cabeça negativamente.
-Claro, claro. Sabiam que a equipe de teatro da escola está precisando de dois atores com bastante talento?
-Não precisa ser sarcástica, senhora orientadora. – Kanon disse se apressando.
-Bom, eu vou ser bem direta. Fui informada de que vocês dois estavam na sala dos professores no dia em que as provas foram roubadas. Platão me contou que o senhor – Calíope virou a cabeça e encarou Máscara da Morte – Foi tirar uma dúvida com ele e que o senhor – Ela voltou o olhar a Kanon – Se aproveitou disso e deu uma passeada pela sala dos professores. Além disso, o professor Eugeu disse que os dois estavam com média sete da matéria dele. E disse que vocês haviam ido muito mal na prova.
-Ora! Mas por que só a gente? – Máscara da Morte se sentiu injustiçado.
-Foi o que ele me disse. E os outros professores confirmaram que vocês dão um certo "trabalho" para eles.
-Aquele professor filho da mãe falou que a classe toda foi mal e não só a gente!
-Olha a educação! Com uma atitude dessas, não querem que eu acredite que vocês não são os culpados?
-Por favor, se acalme, Kanon!
-Me acalmar Máscara? Olha só, estão nos acusando!
-E a palavra de seus professores não é comprometedora?
-Senhorita Calíope, eu posso te assegurar que eu não tenho nada a ver com o roubo da escola. E nem o Máscara da Morte!
-Estou ouvindo...
-Naquela noite eu fui para a casa dele e eu voltei para casa eram nove horas. Tanto eu como ele, estamos acostumados a dormir cedo... – disse Máscara da Morte medindo as palavras e sem encarar a orientadora.
-Então vocês foram dormir às nove horas da noite?
-Sim! Fomos! – Kanon estava visivelmente alterado.
-Existe alguém que pode confirmar isso?
Agora sim os dois estavam encrencados. A empregada de Máscara da Morte deixava o serviço as sete da noite e Kanon aquele dia estava sozinho em casa.
-Não. – Os dois abaixaram a cabeça ao responder.
-Ótimo. Podem voltar para a sala de aula.
-Antes de irmos, a senhora precisa saber de alguns detalhes.
-Detalhes preciosos. – Acrescentou Máscara da Morte.
-Meu irmão faltou à aula no dia seguinte, pode procurar nos registros da escola! Se ele estivesse em casa, poderia confirmar para você, mas como não estava...
-É! E o Shura do terceiro B também faltou! – Máscara da Morte nem pensou antes de delatar o colega. – E se meteu naquela briga com o Afrodite!
-Agora podemos ir Máscara. – Kanon chamou o amigo com firmeza e os dois deixaram a sala da orientadora, furiosos.
Calíope olhava para o nada. "Isso vai ser mais difícil que eu pensava."
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-O que ela queria? – Mu olhava ansioso para os dois colegas.
-Por que a Vaquinha está tão interessada?
-É, você não tem nada a ver com o que acontece com a gente. – Kanon disse enquanto dava as costas para o colega tibetano.
Mu ficou chateado com os comentários feitos por aquela dupla totalmente sem noção.
-O que você queria com eles, Mu?
-Saber o que a orientadora disse a eles, Aldebaran...
-Deve ser por causa do roubo das provas. – Shaka chegou com Saga dando um leve susto nos amigos.
Mu trocou olhares ansiosos com Saga. Aldebaran e Shaka percebendo a situação, se calaram.
Como já era hora do intervalo, encontraram Aioros e Kamus juntos, o que era realmente estranho. Logo depois, Miro chegou com Dohko e eles se juntaram formando um mesmo grupo.
-Do que estão falando? – Quis saber Miro.
-Kanon e Máscara da Morte foram chamados pela orientação hoje. Estamos discutindo o que será que foi falado para eles. – Aldebaran respondeu.
-Não sabemos, mas eles voltaram muito bravos de lá. – Shaka terminou de dizer.
-Nossa... Acabei de me lembrar de uma coisa. Eu volto logo. – Miro saiu ignorando os protestos de seus amigos.
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-Com licença, senhorita Calíope?
-Pode entrar, Miro.
O grego entrou na sala e fechou a porta com todo cuidado. Calíope olhava para o computador compenetrada.
-Eu tenho algumas novidades para a senhorita. – Disse ele com cuidado.
Calíope parou de prestar atenção no computador e olhou fixamente nos olhos do rapaz.
-Mas eu não consegui ainda o nome do criminoso.
-Só de me contar suas suspeitas, já está de bom tamanho. – Ela sorriu.
Miro se pôs a contar o que sabia para a orientadora, nos mínimos detalhes. Ao terminar, estava orgulhoso de possuir uma memória tão infalível. O único problema era que a cada dia que passava a lista de suspeitos aumentava e era para acontecer justamente o contrário.
-Obrigada mais uma vez, Miro. É bastante útil.
E o garoto se retirou da sala.
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Na volta do intervalo, Miro chegou com um vaso de violetas nas mãos e chamou Ísis, a garota egípcia em particular.
-Ísis, o Kamus tem vergonha de dar isso àquela garota, entende? Então ele me pediu para entregar pra você. E também pediu para ela ir encontrá-lo no jardim das rosas após a aula.
-Sério mesmo? – Ela olhava Miro assustada.
-Sério. Você entregaria e diria a ela sobre o encontro?
-Claro! Nossa, ela vai se derreter...
Miro ficou observando Ísis ir até o seu lugar e repousar o vaso sobre sua mesa. Certamente que não iria entregar no meio da aula, pois Kamus poderia descobrir quem era a garota. Agora ele tinha que negociar com Kamus a ida até o jardim. O plano estava dando certo.
Quando o francês entrou na sala, Miro estava sentado sobre o tampo da mesa do professor aguardando a sua entrada. Fez um sinal com a mão e o amigo foi até ele.
-Kamus, preciso que você me espere no jardim das rosas após a aula.
-Por que, Miro? Você sabe, a semana de provas vai começar e cada segundo que eu perco é crucial para mim.
-Por favor... Eu queria que você me esperasse...
-Mas pra quê?
-Porque eu vou conversar com a Calíope hoje...
-Eu te espero na frente da orientação.
-Não Kamus. Eu combinei com ela de encontrá-la no bebedouro próximo do jardim. Faz esse favor pra mim...
-Ai, Miro... Está bem! Agora eu vou pro meu lugar.
"Uhu! Vai dar certo!" – Pensou Miro sem esconder o sorriso.
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O sinal bateu e Miro saiu correndo em direção ao jardim das rosas. A grama verde tinha se transformado num grande tapete marrom coberto de folhas alaranjadas. O vento cortava os rostos das pessoas sem piedade.
Kamus chegou alguns minutos depois e se sentou em um dos típicos "bancos de praça" que havia por lá. Apoiou seus braços sobre os joelhos e a cabeça sobre as mãos, pensativo. Sua mente estava longe enquanto visualizava o jardim.
Para a surpresa de Miro, uma garota totalmente desconhecida estava com o vaso de violetas na mão. Ela era baixa, magra, tinha olhos cor de âmbar, pele morena e cabelos bem curtos e lisos da mesma cor de seus olhos. Era uma mistura exótica de curvas bonitas e traços diferentes.
Ela hesitou muito antes de dar o primeiro passo. Por fim, pareceu reunir toda a coragem que tinha e resolveu encarar a "fera".
Postou-se diante do francês que só notou sua presença por ter lhe tampado a luz solar.
-O... Olá... Kamus. – Ela segurava o vaso de violetas próximo ao ventre.
-Olá, quem é você? – Ele olhava para ela assustado.
-Meu nome é Anisah, eu estou no primeiro colegial. – A garota corou fortemente.
-E daí? Eu não te conheço. Como é que você sabe meu nome?
-Tenho amigas em sua sala e uma irmã no outro terceiro ano. Obrigada, eu adorei... – Anisah apontou o pequeno vaso de flores.
-Garota, eu não sei do que está falando. – Kamus começou a ficar totalmente sem graça.
-Como não? – Quem começou a ficar sem graça agora era ela.
-Olha, esse é o papo mais estranho que eu já participei – Ele se levantou do banco, olhou para os lados – Eu vou indo, tenho coisas para fazer... Até algum dia.
-Espere... – Mas a sua voz não foi ouvida por estar fraca demais. Lágrimas corriam de seus olhos.
Do outro lado do jardim, Miro se xingava de todos os palavrões que conhecia.
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O stress tomava conta dos treze garotos prodígio naquela terça-feira terrível. Kamus chegou na escola sendo agredido por Ísis e Shina.
-Como você pode ser tão frio, Kamus?
-É! Concordo com a Shina! Você não tem mesmo coração! – Dizia Ísis enquanto dava tapas nos braços do colega de sala.
-Mas hein? – Ele não estava entendendo nada – O que eu fiz?
-E ainda é cara de pau!
-Espere aí, Ísis, do que é que você está falando?
-Eu não vou responder!
Ísis e Shina saíram de perto do francês batendo os pés.
Miro assistia tudo e estava muito sem graça. Precisou disfarçar muito bem a vergonha que estava do seu amigo.
-Você está vendo por que eu detesto me envolver emocionalmente com garotas? Alguém as entende?
-Difícil né? – Miro não olhou para Kamus ao fazer a pergunta.
Depois de uns cinco minutos ele começou a ser atingido por bolinhas de papel.
Kanon e Máscara da Morte estavam impossíveis. Haviam colado um papel nas costas de Saga escrito "Sou apaixonado pelo professor Eugeu". Quem passava por ele tinha duas reações: ria desesperadamente ou dava tapinhas em sua cabeça. Mu foi o primeiro a perceber que Saga estava sendo motivo de chacota da escola toda e quando viu o recado nas costas do amigo, tratou de tirar.
-Obrigado, Mu – Dizia ele enquanto lia o conteúdo do papel. – Maldito Kanon!
-Você já conversou com ele?
-Não. Ele está dormindo na casa do Máscara da Morte desde o dia em que eu peguei ele com a Lígea na minha casa.
-Convidarei os dois para ir a minha casa estudar para as provas, aí você o pega de jeito, está bem?
-Boa idéia, Mu.
Os dois estavam conversando quando Aioria chegou com Marin ao seu lado.
-Mu, vocês vão estudar juntos para as provas?
-Sim. Todos nós, inclusive você.
-Será que a Marin pode ir também? Ela está com uma dificuldade enorme em biologia... Aí você pode me ensinar que eu ensino para ela.
-Claro... Claro, Aioria. Pode ir sim, Marin. Estarei esperando a presença de vocês na minha casa.
-Muito obrigada, Mu! Muito obrigada! – Marin sorria alegremente.
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As aulas à tarde estavam escassas de alunos. Mu e Shaka se perguntavam o que estavam fazendo ali com a quantidade de matéria que tinham para estudar. Afrodite ainda estava suspenso então não podia ir a aula de costura, deixando Shina sozinha com a carrasca professora Eulália. O clima estava realmente pesado no ateliê de pintura. A aula que fora feita para relaxar estava sendo campeã de stress. Dohko não conseguia olhar para Lígea e nem para Kanon. O garoto grego vivia sorrindo ironicamente para todos os cantos da escola, mesmo com vários problemas assolando a sua cabeça. Lígea tinha preferido ficar longe dos dois e se isolou num dos cantos da sala. Nix tinha pedido para seus alunos pintarem no papel canson tudo o que estava na mente deles de forma abstrata. Passou pela mesa de Kanon e pediu para Lígea contemplar a sua obra de arte. A garota foi totalmente até a mesa dele e viu o papel cheio de rabiscos vermelhos e pretos feitos com giz pastel. Quando a professora saiu de perto dos dois, Kanon disse bem baixo antes que Lígea saísse de perto.
-Os riscos em preto são as confusões em que estou metido e os riscos vermelhos são meus pensamentos sobre você, linda.
Ela apenas ignorou o comentário e voltou para sua mesa.
-Mas que cores tristes, Dohko. Somente o mesmo tom de cinza para tantos acontecimentos?
-Ah professora Nix, gostaria muito de colocar uma cor a mais aqui, mas me sinto triste e pesado.
Ao final da aula, Dohko recolheu seu material e estava saindo da sala quando Lígea cortou sua frente rapidamente. Respirou fundo, tentou dar um passo à frente quando foi parado novamente, porém, pelas palavras de Kanon.
-A Líginha é muito gatinha, não é cara? – E sem esperar, deu as costas para Dohko dando gargalhadas.
"Conte até dez..." – Pensou Dohko de olhos fechados.
As aulas de esgrima estavam sem graça com a falta de Shura. Quando Perseu perguntou até quando seu pupilo preferido estaria suspenso ficou mais aliviado.
-Até o final da semana! – Respondeu Aioros.
Dohko lutava com Saga apenas por lutar e os garotos não estavam se doando ao máximo naquela aula. As cabeças estavam voltadas para as provas.
E a professora Jocasta teve que se contentar com três gatos pingados em sua aula de culinária. Um deles era Aldebaran, que estava sempre disposto a aprender receitas novas.
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O resto da semana foi tumultuada para todos e o nervosismo pairava sobre o ar. Tanto o grupo da sala A como da sala B estavam enfrentando problemas sérios. Kanon estava fugindo de Saga o tempo todo e o único indício de união seria o grupo de estudos na casa de Mu. Aioros e Dohko pensavam numa boa estratégia para reunir Afrodite e Shura e não provocar atritos, mas não chegaram a uma conclusão interessante. Por mais na dele que Afrodite fosse, Shura, ainda mais fora da escola, não iria conseguir se controlar ao ver o sueco.
-Teremos de estudar em dois grupos, Dohko.
-Certo. Você, Shura e Kamus. Eu, Miro e Afrodite.
-Kamus e Miro nunca irão se separar.
-Bom, Aioros, então os dois podem ficar com o Afrodite, porque com o Shura, não vai dar certo. Você sabe, o Miro não engole o cara.
-É, então fazemos você, eu e Shura. Kamus, Miro e Afrodite outro grupo.
Os dois chegaram a um consenso e voltaram para a aula depois do intervalo. Comentaram a decisão para os outros dois que concordaram. Depois do começo do namoro de Afrodite, ele já estava sendo aceito em qualquer grupo sem questionamento. Dohko estava com seu humor melhorando aos poucos, mas não conseguia esconder de si mesmo que sentia horríveis pontadas em seu coração ao ver Lígea andando sozinha pelos pátios do colégio.
Depois da aula, os garotos voltaram para casa almoçar para depois seguirem para o grupo de estudos. Saga continuava sozinho, mergulhado em seus pensamentos. Primeiro pensou nas provas, depois pensou em Kia, aquela garota bonita de sua classe e depois remoia as mágoas contra seu irmão. Sentia um ódio muito grande ao ver e rever a cena que presenciou no dia em que o pegou beijando a garota dos sonhos de um dos seus amigos mais legais. Foi despertado pelo barulho de telefone que tocou. Quando atendeu não podia acreditar. Era seu pai. Após desligar, sentia seu coração mais leve. Agora, com a notícia, seu irmão teria de voltar para casa.
As reuniões seguiram perfeitamente. Depois de muito tempo os garotos viram Shura e Afrodite, cada um com seu respectivo grupo. Shura estava desconsolado. Apesar da aparência bruta, ele estava sofrendo muito. Dohko e Aioros não tocaram no assunto a noite toda. Afrodite estava diferente. Mais confiante que nunca, ainda mais por ter provado o quanto era homem. Miro e Kamus estavam desconhecendo o garoto. A única coisa que não havia mudado era o seu jeito de se vestir.
Na casa de Mu, todos estavam concentrados, Kanon evitava olhar para Saga até mesmo durante a explicação do irmão.
O cronograma de provas era o seguinte: Filosofia e Biologia na segunda, Literatura e Química na terça, Geografia e Mitologia na quarta. Na outra semana se concentraram: segunda - feira: História e Física e na terça as piores, Matemática e Grego.
O estudo acabou e os garotos foram se despedindo. Quando Kanon foi falar tchau para o irmão, Saga o advertiu.
-Não, hoje você vai pra casa.
-Quero ver você mandar em mim.
Todos pararam em volta dos dois, toda discussão dos gêmeos era um espetáculo.
-Eu realmente não mando em você. Mas o papai manda.
-Pois é, e ele não está aqui.
-Mas está chegando amanhã.
Kanon arregalou os olhos.
-Mentiroso!
-Bom, então eu vou pedir pra ele passar na casa do Máscara da Morte pra te pegar amanhã.
-Acho melhor você ir com seu irmão, Kanon. – Mu fez sua sugestão.
-Você está com medo do seu irmão, Kanon O Grande? – Aldebaran nunca esperou um momento tão propício para provocar o rapaz.
-Mas é claro que não! – Disse ele emburrado – Eu vou com você pra casa.
E assim os dois voltaram pra casa juntos. O resto do pessoal se dirigiu aos seus lares tranqüilamente.
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Saga abriu a porta do apartamento e Kanon entrou com pressa. Foi rapidamente para seu quarto, porém se deu mal. A porta estava trancada.
-Está procurando por isso? – Saga segurava a chave do quarto do irmão na mão – Não vai dormir até eu terminar minha conversa com você.
-Me dá essa chave aqui, palhaço!
-Sente aí! – Saga empurrou Kanon com força, que caiu sentado no sofá. Ficou de pé, em frente ao irmão.
Kanon cruzou os braços como se estivesse o desafiando. Saga puxou uma cadeira e sentou-se a sua frente.
-Kanon, estou farto de você provocando confusões. Já basta você ter sido expulso de dois colégios por problemas de comportamento, agora está criando intrigas entre nossos colegas, onde é que você está com a cabeça?
-Em primeiro lugar, Saga, pare de apontar o dedo pra mim, senão eu vou quebrá-lo, como já fiz uma vez. E em segundo lugar, você não é NINGUÉM para me julgar. Você é tão sujo quanto eu!
-Você tem uma mania incrível de me comparar com você!
-Porque você é IGUALZINHO a mim, irmão. Idêntico. – Kanon deu um sorriso irônico antes de acrescentar – Ou talvez pior. Eu mostro que sou sacana. Você se esconde e age por trás.
-Não! Não sou igual a você! Eu tenho ética!
-Tem mesmo. Tanto que eu peguei a nossa madrasta com você aos beijos na dispensa de casa. Muita ética!
-Eu já CANSEI de te falar que ela preparou uma armadilha pra mim! Você sabe disso!
-Não Saga, não mesmo! Você é um sacana, pior que eu! Porque eu cobiço a mulher do meu amigo. Você cobiçava a mulher do nosso PAI, que estará aqui amanhã.
-Cale-se Kanon! – Saga deu um murro no estômago do irmão com força.
Kanon se contorceu no chão da sala do pequeno apartamento. Ofegante, ainda conseguia fazer suas perguntas cheias de ironia:
-Co... Como você... Se... Sente ao ver nosso pai, Saga? Como é lembrar que traiu o próprio pai?
Saga levou as mãos à cabeça como se ele próprio se torturasse com a lembrança. Kanon se levantou, tomou a chave das mãos e foi para o seu quarto. Antes de fechar a porta, disse:
-Você vai dormir agora, amanhã já terá esquecido a nossa conversa. E sobre o murro, um dia eu desconto, maninho.
Saga permaneceu imóvel no meio da sala, olhando para o nada. Era terrível guardar aquele segredo consigo e seu irmão sabia exatamente como atacá-lo. Depois de um tempo refletindo, voltou a si e viu que seu coração estava transbordando de raiva. Resolveu ir deitar. Talvez dormindo, aquele efeito passaria. Mas não conseguia dormir. Os pensamentos fluíam rápido demais.
