A

quela semana no acampamento foi muito deprimente. Depois da conversa que eu tive com Barbara, eu entendi porque quase todos os campistas pareciam tão revoltados. Eu não os culpava por estarem daquele jeito; ter um irmão traidor devia ser uma das piores coisas do mundo.

Os interrogatórios e revistas também não estavam dando resultados. Já era quinta-feira e Quíron ainda não havia descoberto nenhum espião, e nenhum objeto suspeito havia sido encontrado em nenhum chalé. Eu não esperava que fosse ser assim tão simples, mas o fato de estarmos na estaca zero me preocupava demais.

A única coisa boa daqueles dias era Hannah. Ninguém teve coragem de falar qualquer coisa sobre Tobey na frente dela, então ela não ficava triste e era divertido de verdade passar algum tempo com ela; mesmo que nós ainda estivéssemos mantendo nosso relacionamento em segredo e por causa disso não fazíamos nada além de ficar de mãos dadas um pouco quando achávamos que ninguém estava olhando. E aquilo estava acabando comigo! Eu sentia um choque percorrer o meu corpo toda vez que ela tocava em mim e eu queria tanto, tanto, tanto poder beijá-la.

Ela havia acabado de se despedir de mim para ir para a aula de arco e flecha quando Argos veio me chamar para ser interrogado.

Os interrogatórios estavam acontecendo na sala da casa grande. Quíron estava em sua cadeira de rodas, de costas para a lareira, olhando para as anotações em sua prancheta.

- Como está, Nico? – ele me cumprimentou um tanto distraído. – Pode se sentar.

Eu me acomodei no sofá.

- Isso não vai levar muito tempo. Só preciso que responda algumas perguntas. Apesar de eu confiar plenamente em você, Nico, eu sou obrigado a entrevistar todos os campistas, sem exceção.

- Tudo bem. – eu dei de ombros.

- Primeira pergunta: que tipo de relacionamento você mantinha com Maureen e seus aliados?

- Eu não conhecia nenhum aliado de Maureen aqui no acampamento antes da missão. Já Maureen fazia parte da minha equipe no Capture a bandeira, mas mesmo assim eu falava muito pouco com ela, só assuntos relacionados ao jogo. Nunca fomos amigos.

- Você sabia algo sobre as Dádivas dos deuses antes do ataque de Maureen à Hannah Pope?

- Eu sabia itens mágicos existiam, como o boné da invisibilidade de Annabeth, mas não sabia que eram chamados assim e pra falar a verdade nunca dei importância a isso.

- Percebeu alguma atividade suspeita no acampamento? Reuniões, itens proibidos ou até mesmo algum campista se comportando de maneira estranha?

- Bom, todos parecem arrasados por terem descoberto que seus irmãos são traidores e estão treinando muito mais que o normal...Mas acho que isso é aceitável diante da situação, não é?

Quíron me encarou com uma expressão ininteligível por alguns segundos. Depois disse:

- Sim. – com uma entonação esquisita. – Próxima pergunta: Você já foi convidado a participar de alguma atividade ou reunião suspeita?

- Não.

- Está utilizando algum aparelho eletrônico, como celular, dentro do acampamento?

- Não.

- Sabe se algum campista está usando?

- Não, mas... – uma luz se acendeu em minha mente naquele instante. – Quíron! Tobey nos deu celulares na viagem e eu acho que ainda tenho o meu. Não sei se os outros também estão com os deles.

- Então foi isso! – Quíron se transformou em centauro imediatamente. Acho que foi a maneira que ele encontrou de pular.

- O quê?

- Foi assim que Maureen localizou vocês! Por isso ninguém desconfiou de Tobey, porque ele provavelmente não falou diretamente com ela a missão inteira!

Dei um tapa na minha testa. Como eu não havia pensado naquilo?

- Nico, como você pôde permitir que ele usasse celulares na missão? E por que você aceitou usar um? Você não sabe que isso leva os inimigos até vocês?

- Eu sei, eu sei! Foi burrice minha, eu não pensei nas conseqüências.

Mas Quíron nem estava me ouvindo, ele já estava abrindo a porta e gritando por Argos.

Argos apareceu e Quíron disse:

- Chame Hector Madison , Hannah Pope e Eve García e me encontre no chalé de Hefesto. Nós vamos fazer uma revista agora mesmo. – ele se virou para mim. – Vá buscar o celular que Tobey lhe deu e depois vá para o chalé de Hefesto. E não demore.

Eu corri o mais rápido que pude até o meu chalé. O grande problema foi lembrar onde eu havia deixado o celular. Procurei embaixo da cama, revirei umas gavetas e só depois reparei na minha mochila jogada num canto: eu ainda não havia desfeito a mala completamente. Por causa da pressa, tudo que eu fiz foi virar a mochila de cabeça pra baixo e o maldito celular deslizou até os meus pés. Resisti ao meu primeiro instinto de enfiar aquela porcaria na lata de lixo mais próxima e saí correndo em direção ao chalé de Hefesto.

Já estavam todos lá, junto com alguns filhos de Hefesto parecendo muito surpresos com a visita. Quíron estava conversando com eles. Assim que eu cheguei, Hector me disse:

- Dá pra acreditar nisso? O desgraçado do Grant estava planejando acabar com a gente desde o começo!

Não respondi porque estava prestando atenção à conversa de Quíron com os filhos de Hefesto.

- Nós não mechemos nas coisas do Tobey; até porque, se há algo importante, está no cofre dele e daria um trabalhão para abrir. – disse um deles.

- É, e aposto que ele colocou armadilhas para o caso de alguém tentar arrombar. – outro concordou.

- Bom, eu tenho certeza de que vocês podem dar um jeito. – Quíron não estava com cara de quem ia desistir tão fácil.

- Talvez se você nos der algum tempo... A revista do nosso chalé só seria feita sábado, inclusive.

- René, diante das atuais circunstâncias, não podemos esperar mais e muito menos permitir que o cofre seja aberto sem a minha supervisão. Não estou acusando nenhum de vocês de serem espiões, mas eu preciso garantir que não há nada lá que vá pôr em risco a segurança do acampamento. Agora, se vocês puderem começar a abrir o cofre... – Quíron sabia ser muito ameaçador quando queria.

René suspirou e se voltou para os seus irmãos:

- Pessoal, vocês ouviram Quíron.

Imediatamente eles se dirigiram para dentro do chalé e Argos os acompanhou.

- Trouxeram os celulares? – Quíron nos perguntou.

Nós entregamos os aparelhos a ele. René pegou dois deles e os analisou por alguns instantes.

- Parecem comuns para mim. Mas vou dar uma olhada melhor e aviso se encontrar alguma coisa. – ele foi para dentro do chalé.

- Eu vou ficar aqui até eles abrirem o cofre. Eu chamo vocês se precisar de mais alguma coisa. – disse Quíron.

Encaramos isso como uma dispensa, então voltamos às nossas atividades. Bom, Hannah, Hector e Eve devem ter voltado, mas eu não estava com cabeça para treinar, então fui para perto das plantações de morangos.

Eu havia descoberto há pouco tempo que as plantações de morangos eram um ótimo lugar para fugir do mundo. Isso porque quase nenhum campista ia lá durante o horário de atividades. Além de ser possível conseguir uma sombra embaixo de uma árvore, você também pode fazer uma degustação de morangos frescos.

E era exatamente isso que eu estava fazendo, tentando não imaginar que problemas surgiriam do cofre de Tobey Grant, antes de uma voz familiar dizer:

- Nico? O que está fazendo aqui?

Eu praticamente dei um pulo de um quilômetro de altura de tanto susto.

Era Dione Stevens. Justamente quem eu estive evitando desesperadamente nos últimos dias. É claro que era impossível não encontrá-la no acampamento, então toda vez que eu percebia que ela estava vindo para conversar comigo, eu me camuflava entre os outros campistas e desaparecia. Não era uma atitude muito madura, mas eu realmente não tinha cabeça para resolver aquele problema no momento.

Sem escolha, eu procurei me controlar ao máximo para não deixar transparecer meu nervosismo, e me virei para ela com um sorriso ameno:

- Hum, eu? Só dando um tempo. E você?

- É a minha semana de cuidar da plantação de morangos.

Fiz cara de interrogação. Dione sorriu e veio se sentar ao meu lado.

- Toda semana um grupo de filhos de Deméter e Dioniso é sorteado para vir cuidar dos morangos. Ou você acha que eles ficam bonitos e saborosos assim sem mais nem menos?

- Era isso mesmo que eu pensava. – confessei.

- Acredite ou não, Nico, não são só os semideuses filhos dos Três Grandes que têm habilidades especiais. – ela fingiu se ofender.

- E por que você não me mostra o que pode fazer? Talvez eu mude de opinião. – eu entrei no jogo.

Dione aproximou a mão em forma de concha de um morango pequeno e ainda meio verde. Três segundos depois, ela colheu o mesmo morango, agora enorme e vermelho, e me entregou.

- Lindo. – eu disse, fingindo não estar muito impressionado.

- Garanto que o sabor é tão bom quanto a aparência.

Eu mordi o morango e estava do jeito que eu gostava: doce, porém levemente azedo no fim.

- E então? – ela perguntou.

- Fantástico, Dione! – disse com sinceridade.

O nosso pequeno desafio se encerrou depois disso. Ela se encostou na árvore e relaxou.

- Você deve estar uma pilha, não é mesmo? – questionou , sem olhar para mim.

- Por que você acha isso?

- Está estampado no seu rosto, na sua voz... A missão terminou de um jeito horrível, não foi?

- É. – admiti. – Eu estava preparado para lidar com qualquer coisa, menos com uma traição.

- Você não é o único que se sente mal. Todos aqueles que têm irmãos traidores se sentem assim também. E isso os enfraquece.

- Tem razão.

- Mas acho que quem mais está sofrendo no acampamento é Hannah.

Ela falou como se aquilo não fosse nada demais, mas eu sabia muito bem o que ela pretendia colocando Hannah no meio da conversa. Eu queria fugir dali de qualquer jeito, mas não havia uma escapatória que não fosse soar como uma grosseria. Eu tinha que permanecer ali e encarar a situação. Principalmente porque Dione era sim uma garota muito legal e merecia uma conversa sincera.

- Até que ela está lidando bem com isso. Eu soube que as coisas já não estavam muito boas entre ela e o Tobey.

- Eu não pude deixar de notar que vocês dois ficaram bem próximos na missão. – Dione continuava sorrindo, como se aquela conversa fosse super despretensiosa.

- Hã... – eu comecei a ficar nervoso.

- Eu sei como é isso. – ela nem me deixou falar. – Missões aproximam qualquer grupo. Foi assim na minha. Mas, voltando ao assunto, que bom que Hannah encontrou alguém para apoiá-la num momento como esse. Muito legal da sua parte, Nico.

Eu abri a boca para falar, mas ela continuou:

- Eve também ficou muito amiga de Hannah. – ela já não conseguia disfarçar seus pensamentos.

- Hum...E isso incomoda você?

- Incomodar? Por que incomodaria?

- Não sei. É só que você está falando de um jeito...

- Não me incomoda nem um pouco. Acho muito bom que Hannah tenha encontrado apoio num momento como esse.

Ficamos em silêncio durante algum tempo. Cara, maldita hora em que Dione apareceu! Ela havia conseguido me deixar mais nervoso do que eu já estava!

Eu não queria nem conseguiria esticar a conversa. Resolvi inventar uma desculpa e me mandar dali. Comecei a falar, mas Dione foi mais rápida:

- Você e Hannah estão namorando?

Se cinqüenta animais selvagens e ferozes estivessem prestes a me atacar ao mesmo tempo, eu não estaria me sentindo tão acuado como eu me senti diante da pergunta de Dione.

- Não. – respondi, depois de ficar paralisado por alguns instantes.

Ela ergueu uma sobrancelha, totalmente incrédula.

- Não? – perguntou.

- Não.

Minha resposta a deixou completamente indignada. Ela respirou fundo, como se estivesse se preparando para discutir comigo, mas quando ela abriu a boca, outra voz me chamou:

- Nico! Você está aí! Eu te procurei por toda parte! – era Eve.

Eu nunca fiquei tão feliz em vê-la!

- Aconteceu alguma coisa? – eu perguntei, já me levantando para fugir de Dione.

- Os filhos de Hefesto conseguiram abrir o cofre do Tobey. Encontraram um monte de coisas, é melhor você vir.

- Claro. Hum...Desculpa, Dione, é coisa urgente. Conversamos outra hora. – eu saí dali sem nem mesmo olhar para trás.

Praticamente corri em direção ao chalé de Hefesto. Eve me acompanhou sem nenhuma dificuldade:

- O que foi aquilo? Você e Dione numa espécie de encontro?

- Claro que não. Lembra que você disse que ela ia me encurralar mais cedo ou mais tarde? Bom, foi isso que aconteceu.

- E como foi?

- Você chegou na hora certa. Ela ficou rodeando até fazer "a pergunta".

- Você deve ter surtado na hora.

- Ainda estou surtando. Espero que tenha algo realmente interessante no cofre do Tobey para que a gente possa sair para outra missão amanhã bem cedo. Não posso lidar com Dione, Eve. Simplesmente não posso.

Eve riu.

- Nico, relaxa! Eu já salvei você. Agora você só precisa tomar cuidado para não ser pego por ela outra vez; ou pior: ser pego por Hannah enquanto você estiver com Dione. – ela deu risada da minha cara de pânico.

- Eve, estou falando sério: não conte nada disso à Hannah, entendeu?

- Assim você me ofende, Nico... – ela fingiu ficar triste. – Eu sempre fui uma amiga tão leal! Como você pode duvidar de mim?

- Que seja. Só fique quieta, está bem? – disse quando avistei Hannah encostada na porta do chalé de Hefesto.

Eve me lançou um sorriso cúmplice.

Estava o maior alvoroço em volta do chalé de Hefesto. A porta estava aberta e eu vi de longe os filhos de Hefesto com chaves de fenda e outras ferramentas andando pelo chalé. Quíron e Hector também estavam lá, coordenando tudo. Coordenando porque vários campistas curiosos ficavam se esticando para ver o que estava acontecendo lá dentro. Eve e eu atravessamos a multidão aos empurrões e foi Hector quem nos puxou para o chalé.

- Isso aqui está uma loucura! - ele disse. - Todo mundo quer ver o túnel do Tobey!

- Túnel? Você quis dizer cofre, certo? - perguntei.

- Não, é sério! É um túnel!

- O quê?!- eu empurrei quem estava na minha frente e corri até onde os filhos de Hefesto estavam agrupados.

Eu só não caí em um grande buraco porque dois garotos me puxaram pela camisa bem a tempo.

- Ei, cuidado! - disse um deles. - Não sabemos ainda o que tem lá embaixo! Pode ser muito fundo!

Eu olhei para baixo e engoli em seco: era uma espécie de passagem secreta, profunda demais para se enxergar onde terminava. Um filho de Hefesto estava descendo devagar pendurado por uma corda e carregando lanternas para pendurar em alguns pontos. O detalhe interessante sobre aquela passagem era que, de fato, era um cofre também: havia vários andares de prateleiras cheias de coisas. Já haviam tirado algumas e trazido para Quíron inspecionar.

Não sei quanto tempo eu teria ficado ali parado encarando aquele fosso se o garoto que me impediu de cair não tivesse dito:

- Cara, é melhor você se afastar. Não queremos nenhum acidente por aqui.

Eu obedeci e fui me juntar aos meus amigos.

- Como isso é possível? Como Tobey construiu isso aqui sem que ninguém soubesse?

- Quíron disse que os filhos de Hefesto sempre construíram compartimentos secretos aqui no acampamento, mas eram coisas como alçapões. Grandes túneis subterrâneos não se vêem todo dia.- Hector explicou.

- Deu o maior trabalhão para abrir.- disse Hannah.- Havia uma porta de titânio com sei lá quantos centímetros de espessura e que precisava de senha para ser aberta. A solução foi arrancar a porta; o que não foi nada fácil, como vocês podem imaginar.

- Você ficou aqui o tempo todo? - perguntei.

- É...Me chamaram para tentar decifrar a senha porque acharam que podia estar relacionada a mim. Mas parece que não estava... - todo mundo percebeu que ela ficou decepcionada com aquilo.

- O importante é que conseguiram abrir. - Hector tentou levantar o astral dela.- Tenho certeza de que alguma coisa lá dentro vai ser útil para nós.

- Espero que sim... – eu suspirei.

Passamos o resto do dia ali. Os filhos de Hefesto traziam tudo que havia no cofre para a superfície. O que não deveria demorar tanto, mas é óbvio que Tobey deixou armadilhas ao longo do caminho para o caso de outra pessoa abrir. Uma de suas irmãs quase caiu porque de repente uma rede a envolveu e a puxou para baixo; por sorte, conseguiram segurá-la.

Eu estava bastante otimista no começo, mas o tempo foi passando e nada do que eles encontravam parecia suspeito: caixas e mais caixas de ferramentas, peças de máquinas, manuais de instrução, DVDs, gibis...Era igual ao conteúdo do cofre de qualquer filho de Hefesto. Fiz questão de analisar detalhadamente cada chave de fenda, procurando um botão secreto ou qualquer coisa assim, mas não encontrei nada.

Já era quase hora do jantar e não só os filhos de Hefesto estavam cansados de trabalhar como também o restante de nós não agüentava mais folhear gibis.

- Heróis...Já chega por hoje. – disse Quíron. – Continuaremos amanhã.

Todos respiraram aliviados e já estavam guardando as ferramentas quando o garoto que estava descendo pela corda gritou lá de baixo:

- É o fundo! É o fundo! Tem algo aqui em baixo!

Foi imediato: todos, inclusive os curiosos do lado de fora, correram para ver o que era. Ficamos nos empurrando em volta, tentando ver onde aquilo terminava, enquanto Hector e Quíron gritavam coisas como "Não fiquem empurrando!", "Afastem-se!" e "Quem não está autorizado, saia daqui!". Ninguém deu importância, é claro.

De qualquer maneira, era impossível enxergar alguma coisa com tanta gente com a cabeça na frente. A maioria do pessoal acabou desistindo e saiu dali para jantar. Quíron procurou estabelecer a ordem:

- Muito bem. Vocês quatro – ele apontou para mim, Eve, Hector e Hannah. – podem descer se quiserem. Quero um grupo de Hefesto para explorar a passagem e outro grupo para garantir a segurança da entrada.

Nos organizamos rapidamente e estávamos descendo pelo túnel em dois tempos. Me perguntei como é que Tobey tinha acesso a um cofre como aquele sem que ninguém percebesse. Afinal, seria muito complicado descer por uma corda toda vez que ele quisesse pegar um gibi. Não tive tempo de ficar ruminando muito o assunto porque não era um trajeto tão longo assim até o final.

O início do túnel, que era mesmo um cofre, era feito de metal; mas conforme descíamos, as prateleiras desapareciam e as paredes eram de pedra, como uma caverna. E foi numa espécie de caverna que descemos.

O espaço era pequeno, na verdade, e parecia ser uma continuação do cofre, pois havia mais prateleiras com mais coisas guardadas, apesar de ser tudo muito rústico. Uma rápida olhada ao redor me fez perceber que não era mais um monte de inutilidades. O que me deu a dica? Um mapa dos Estados Unidos com alfinetes marcando as cidades que visitamos na missão.

- Desgraçado. – eu falei o mais baixo que consegui.

- Ótimo... – um dos filhos de Hefesto resmungou. – Mais coisas para levar lá para cima. Anita, por favor. – ele pediu à sua irmã e ela começou a se preparar para fazer o transporte. – Nós vamos continuar, certo? Vamos ver o que tem atrás daquela porta. – ele direcionou a lanterna para uma porta de madeira no fundo do lugar.

Pois é, havia mais uma passagem. Aquele lugar onde estávamos devia ser uma ante-sala.

- Vamos logo. – acho que Hannah também reparou no mapa na parede e ficou furiosa, porque ela arrancou a lanterna da mão do cara e foi em frente para abrir a porta.

Ele olhou para mim, completamente chocado. Eu dei de ombros.

Até Hannah se surpreendeu com o fato de a porta estar destrancada. Hector foi até lá e pôs o braço na frente dela.

- Agora vamos com calma. Pode haver alguma armadilha.

Hannah não se atreveu a discordar.

Hector puxou algo de seu bolso. Algo que começou a brilhar e que provavelmente não caberia no bolso de um jeans se não fosse uma Dádiva dos deuses. Era a tocha que ele ganhou de Apolo.

- Brilhante, Hector! – disse Eve, e todo mundo começou a rir, apesar da tensão.

Ele apenas aproximou a tocha da entrada e a luz se tornou tão intensa que iluminou o lugar inteiro, como se tivéssemos acendido centenas de lâmpadas. Teria sido um bom momento para eu me gabar de ter adivinhado que "O grande líder os iluminará nos momentos de escuridão" se referia a Hector, mas o que encontramos ao atravessar a porta foi muito mais interessante: uma caverna decorada para parecer uma sala de reuniões, com uma grande mesa rodeada de cadeiras no centro e, em cima dela, vários papéis e fotos. O pior de tudo é que eram fotos de semideuses que eu conhecia: Owen, John, Percy, Annabeth, Daniel, Hannah e muitos outros. As fotos estavam marcadas com símbolos de cores diferentes. Devia ser um código. No fundo, eu preferia não saber o que o "X" preto na foto de Hannah significava.

Fiquei tão pasmo com as fotos que só fui perceber muito depois que o resto do grupo estava prestando atenção em outra coisa: a porta pela qual entramos não era a única do lugar; havia pelo menos mais oito ao redor da caverna. Tentaram abrir todas, mas estavam um clique na minha cabeça quase que imediatamente, mas foi o filho de Hefesto que estava nos acompanhando que deu o veredito:

- Galera... Julgando pela localização dessas portas e supondo que tenham um trajeto semelhante à passagem que acabamos de atravessar...Eu diria que elas vêm de outros chalés do acampamento. O que significa dizer que...

- Tobey definitivamente não é o único traidor por aqui. – eu completei.

- E olhem só como tudo isso aqui não parece abandonado. – disse Hector. – Eles devem ter se reunido recentemente.

- Isso é muito preocupante... – aquele lugar parecia dar arrepios à Eve; ela não parava de esfregar os braços e tremer.

- Vamos voltar. – disse o irmão de Tobey. – Já está tarde e podemos continuar amanhã.

Ninguém discordou , principalmente porque ninguém havia jantado ainda. Nós subimos de volta para o chalé de Hefesto, acabados. Quíron havia nos liberado, mas o filhos de Hefesto ainda teriam que recolher tudo que estava lá embaixo.

Apesar de estar com fome, a comida parecia meio sem gosto naquela noite. Eu não conseguia parar de pensar em como Maureen conseguiu montar um covil bem debaixo dos nossos narizes. Ela devia estar morrendo de rir de nós, otários, àquela altura.

Hannah nem mesmo se sentou à mesa para jantar. Eve e ela estavam conversando sem parar durante a fila para pegar a comida e, pelo que pareceu, a conversa estava tão interessante que elas ficaram comendo em pé em um canto do pavilhão. E isso fez com que o meu jantar fosse ainda mais deprimente, porque eu precisava desabafar a minha frustração com alguém, e ninguém estava disponível.

Quando elas finalmente calaram a boca, Eve foi acompanhar seus irmãos e Hannah saiu do pavilhão na outra direção. Fiquei indignado com o fato de ela não ter dirigido a palavra a mim a noite inteira. Me levantei e corri atrás dela. Consegui segurá-la quando ela já estava perto de seu chalé.

- Ei! – eu agarrei seu braço. – Você já vai dormir?

- Hã...Vou. Estou morta. – a cara dela estava péssima mesmo.

- Hannah, está tudo bem? Quero dizer, você deve ter ficado arrasada com o que vimos hoje.

- Eu fiquei mesmo. Mas estou bem.

- Ok. Então...Se precisar de alguma coisa, me chame.

Hannah deu uma risada discreta.

- Nico, você... – ela me encarou com um olhar engraçado. – Ah, esquece.

- O quê? O que foi?

- Nada, nada. Deixa pra lá. – ela sorriu. – Boa noite.

- Boa noite. – disse, meio confuso.

- Hannah, espere! – alguém gritou.

Hannah se deteve com a porta do chalé entreaberta.

Era René, irmão do Tobey, vindo correndo na nossa direção com alguma coisa nas mãos.

- Hannah... – ele parou diante dela, ofegante. – Encontramos isso aqui na parte de baixo do cofre de Tobey. – e entregou para ela uma caixa de aço do tamanho de uma caixa de sapatos.

- O que é isso? – ela perguntou, analisando a caixa de vários ângulos.

- Tem o seu nome nela. – René apontou para o nome "Hannah" gravado na tampa, com uma caligrafia bonita. – Nós abrimos por questão de segurança, mas são só objetos pessoais aí dentro. Quíron disse que você pode ficar com ela.

Hannah ficou muda por uns dois minutos, apenas encarando a caixa. Ela começou a levantar a tampa lentamente, mas desistiu no meio do caminho.

- Obrigada, René.

- De nada. Quíron também pediu para avisar vocês dois que vamos continuar o trabalho amanhã. Vocês podem aparecer por lá para dar uma ajuda. É isso. Boa noite. – e ele foi andando de volta para o seu chalé.

- Boa noite. – Hannah e eu dissemos ao mesmo tempo.

Ela voltou a encarar a caixa inexpressivamente. Eu fiz o mesmo. Algum tempo depois, ela respirou fundo e disse:

- Acho que não quero olhar isso aqui por enquanto.

- É uma boa idéia.

- É. – ela segurava a caixa como se fosse uma bomba ou coisa assim. – Até amanhã, Nico. – e entrou no chalé.