A OUTRA FACE DO DESTINO

Capítulo 11

- Mais um dia... – falou para si mesmo antes de levantar-se da cama.

Sentou-se sobre a cama e passou os olhos azuis pelo quarto, que estava ainda às escuras. Em seu olhar pesaroso, era possível perceber um cansaço que não era apenas físico, mas também mental.

Olhava ao seu redor sem interesse. Olhava para o vazio. E, finalmente, seus olhos recaíram sobre o rapaz que dormia placidamente na cama ao lado.

"É melhor eu aproveitar que ele ainda não acordou e sair agora", pensou consigo.

Assim, da mesma forma que fizera um dia antes, procurou vestir-se em silêncio, o mais rápido possível. Queria sair de lá. Não estava se sentindo bem ali...

Quando finalmente ganhou as ruas, deu-se conta de que estava realmente cedo. Ainda não eram 6 horas da manhã. Um vento frio passou por seu rosto, mas seu corpo sequer estremeceu ao contato daquela brisa gélida e cortante. Talvez por estar acostumado ao frio. Talvez por estar insensível a qualquer coisa depois dos últimos acontecimentos...

Na noite passada, o jovem russo aceitara sair para jantar com Isaac. Agira por impulso, agira sem pensar. E já estava arrependido.

O fato de ter visto Ikki e Shiryu de um modo como nunca havia imaginado antes ainda o deixava desnorteado. E, por ter ficado tão transtornado na noite anterior, achou por bem colocar uma pedra sobre todos os estranhos acontecimentos daquele dia. Ele precisava esquecer, parar de pensar... Por isso, aceitou o convite do finlandês. Achava que era o melhor a se fazer. Era no que ele queria acreditar, pelo menos.

Muita coisa tinha acontecido naquele fim de semana. Seu aniversário, o beijo de Shun, o retorno de Isaac, e...

- ... Ikki. – suspirou o jovem loiro.

O encontro que tiveram debaixo da cerejeira na noite de seu aniversário ainda mexia com ele... o que teria sido aquilo? E aquela troca de olhares tão significativa que tiveram à porta do hospital, após o acidente sofrido por Shun?

E ainda tinha o ocorrido naquele galpão abandonado... "Mas isso não passou de um sonho...", insistia em repetir para si mesmo.

No entanto...

"Teria sido mesmo um sonho?

Apenas um sonho?..."

O jovem sacudiu a cabeça. Malditas dúvidas que não o deixavam em paz! Já estava cansado de sentir-se confuso entre sonhos e realidade... E então se lembrou: também havia tido um estranho sonho na noite do acidente. Um sonho constituído de imagens confusas e sem nexo, mas que produziam nele uma agradável sensação de bem-estar. Ele conseguia ver, de forma assustadoramente realista, como se aquilo de fato tivesse acontecido... ele e Ikki em uma cafeteria... Ikki sorrindo para ele...

- Mas que droga! – falou, em voz alta e levando as mãos à cabeça – Desse jeito eu vou acabar ficando louco!

Realmente, o rapaz loiro via-se bastante confuso. Já não conseguia mais distinguir o que era sonho do que era realidade... e toda essa confusão o impedia de colocar seus pensamentos em ordem. O resultado é que ele terminava por cometer algumas besteiras, como sair para jantar com Isaac:

- Como se já não me bastassem tantos problemas, eu ainda resolvo me criar mais um... – disse, em um tom de auto-censura.

Na noite anterior, Hyoga aceitara jantar com Isaac e não demorou para que se desse conta de que havia cometido um erro. Mas o amigo se via tão empolgado e verdadeiramente feliz por estarem naquele restaurante que o loiro resolveu dar uma chance ao destino. Quem sabe, estar ali, com Isaac, não era o melhor a se fazer?

Entretanto, o tempo ia passando e a sensação de que aquilo não estava certo ia aumentando. Isaac não parava de falar sobre assuntos sem a menor importância, como se com isso, impedisse que Hyoga pensasse em tudo quanto lhe estava incomodando. Porém, a verdade é que o russo sequer prestou atenção ao que o finlandês lhe falava. Respondia com monossílabos, de modo que fingia prestar atenção ao que o amigo dizia, enquanto que, lá no fundo, seus pensamentos voavam para muito longe dali.

Se Isaac percebeu quão distante o russo estava daquele restaurante e daquela conversa – que era mais um monólogo que qualquer outra coisa – Hyoga não sabia dizer. E, sinceramente, nem se importava. Não estava mais com raiva do amigo, pois racionalmente se convencera de que a briga que tivera com Isaac nunca ocorrera. A razão o impelia a crer que todo o ocorrido depois de sua briga com Camus havia, de fato, sido apenas um sonho. E acreditava nisso porque, depois de presenciar aquela cena entre Ikki e Shiryu, não poderiam lhe restar mais dúvidas. O ocorrido no galpão só poderia mesmo ser um desejo inconsciente seu... Mesmo assim, mesmo não sentindo raiva do finlandês devido às palavras cruéis que achara ter ouvido do outro, não conseguia se importar tanto com o que o amigo dizia ou pensava. Seus pensamentos insistiam em correr atrás daquele homem de olhos cor de safira...

Por tudo isso, mesmo se esforçando para ser uma companhia relativamente agradável naquele jantar, Hyoga fez o possível para não prolongar mais o que ele considerava um erro. Não era certo agir daquela forma; e ao atuar dessa maneira, estava até mesmo sendo injusto com Isaac, que tinha boas intenções, mas era tratado pelo loiro como uma peça de reposição ou um entretenimento para ajudá-lo a se esquecer de seus problemas...

Assim, conseguiu evitar a sobremesa que Isaac insistia em pedir e, tão rápido quanto lhe foi possível, retornaram ao hotel. A verdade é que Hyoga nem sabia porque fora com Isaac para o hotel; sua cabeça estava tão cheia que apenas deixou-se guiar até lá.

O rapaz de cabelos verdes continuava falando sobre tudo – e, ao mesmo tempo, nada – e parecia desejar ardorosamente que Hyoga tomasse realmente parte nessa conversa. E foi aí que o russo precisou dar um fim àquilo. Ser agradável era uma coisa – que, por sinal, já estava exigindo demais dele – mas demonstrar-se verdadeiramente interessado no que quer que o outro estivesse falando? Não, isso ia além da sua capacidade naquele momento. Então, tão logo sentaram-se sobre suas respectivas camas, Hyoga alegou uma terrível dor de cabeça, e argumentou que precisava muito de uma boa noite de sono. Com isso, conseguiu fazer com que Isaac parasse de falar, meio que a contragosto, e puderam ambos dormir.

Entretanto, a verdade é que Hyoga mal pregou os olhos naquela noite. Como estava realmente cansado, cochilou por diversas vezes, mas não foi capaz de adormecer profundamente, como tanto desejava. Porque, efetivamente, ele precisava descansar. Seu corpo pedira por isso, mas sua mente parecera não compreender essa necessidade...

Andava a esmo pelas ruas ainda bastante vazias. Não tinha rumo; não sabia para onde ir. E, enquanto andava, rodeado pela solidão, pôde sentir um pouco da paz por que tanto ansiava. Acabou concluindo que precisava ficar sozinho. Ainda não sabia se seria capaz de ordenar tantos pensamentos confusos, mas entendeu que, se isso fosse possível, precisaria estar só para alcançar esse objetivo.

Portanto, não poderia continuar se hospedando naquele hotel. Por mais que achasse importante reatar laços com o amigo, Hyoga reconhecia que aquele não era o melhor momento para isso. Precisava se concentrar em assuntos sobre os quais não sentia que poderia discutir com Issac e este não o deixaria em paz enquanto tentasse refletir acerca de tudo que vinha acontecendo.

Contudo, também não desejava ficar na mansão. Afinal, lá não o deixariam em paz do mesmo modo. Havia já uma grande preocupação de seus amigos em relação a ele e Hyoga não teria mais respostas evasivas a oferecer a eles toda vez que lhe perguntassem se ele estava bem.

Além disso... havia o problema de continuar vivendo sob o mesmo teto que Shun. Afinal, o acidente fizera com que não tocassem mais no assunto sobre o qual Hyoga vinha evitando pensar a respeito... mas tão logo o mais jovem deixasse o hospital, eles teriam de abordar essa questão em suspenso. E o mais provável é que a situação entre eles não ficasse tão bem... possivelmente a amizade de ambos se veria abalada... ainda mais depois de Hyoga se descobrir apaixonado pelo irmão do cavaleiro de Andrômeda...

"Por que eu tive de me apaixonar justamente por aquele idiota?", pensou o loiro, inconformado. Mas, logo em seguida, soltou um suspiro triste: "E como poderia não me apaixonar por ele...?"

Balançou a cabeça tristemente. Precisava parar de pensar nisso. Era incrível: estava pensando em onde deveria se instalar, no problema que teria de resolver, cedo ou tarde, com Shun e, ainda assim, seus pensamentos insistiam em fugir para Ikki.

E, num repente, uma idéia passou pela sua cabeça:

- Mas é claro! Como não tinha pensado nisso antes?

E assim, com pelo menos uma certeza em mente, tomou um táxi e dirigiu-se à mansão Kido.

Lá chegando, correu até seu quarto e começou a preparar suas malas. Tinha pressa. A mansão estava vazia; deviam estar todos no hospital com Shun. Mas não queria se demorar, não queria correr o risco de encontrar alguém e ter de se explicar agora. Não; faria primeiro o que tinha de fazer, depois, se necessário, explicaria a situação.

- Pronto. Só o básico. O resto, eu busco depois... – falou para si mesmo, enquanto deixava o quarto às pressas.

Ia caminhando tão rápido que, ao virar o corredor, quase atropelou a pessoa que vinha no sentido oposto:

- Me desculpe, eu... – e foi então que se deu conta de quem estava à sua frente - ... Ikki?

O moreno, pelo visto, não estava menos surpreso. Obviamente, também não esperava encontrar Hyoga ali, naquele momento...

- Hyoga? Eu... Você... – gaguejou ele – Você não deveria estar dando aula? – foi só o que conseguiu dizer, por ter sido pego desprevenido.

- Ahn... não. – respondeu o outro, que também se via sem jeito – Eu só daria aula hoje à tarde, mas decidi que vou pedir uma licença por essa semana...

- Ah, sim. Claro. Por causa de tudo o que aconteceu. – Ikki ia falando, deixando o nervosismo que tomava conta de todo seu ser transparecer a cada palavra.

- É. Isso mesmo. – respondeu Hyoga, pensando que realmente não estava em condições de trabalhar. Já há algum tempo, seus colegas diziam que ele precisava de um tempo para si. Estava esgotado desde antes desse fim de semana...

Só então Ikki percebeu que Hyoga levava uma grande mala consigo. Estranhou aquilo e, sem pensar, perguntou:

- Aonde você está indo com essa mala?

Hyoga sentiu-se mal pela situação. Não queria que ninguém o visse naquele momento, ainda mais Ikki. E era justamente ele a primeira pessoa a quem teria de dar alguma explicação? Bem, se não havia jeito...

- Eu... estou deixando a mansão.

Ikki ficou em silêncio, como se estivesse pesando as palavras que diria agora. Ao cabo de alguns segundos, disse:

- E... para onde vai?

- Para o apartamento que meu mestre e Milo me deram de presente. Estou precisando de um tempo e um lugar só para mim.

- E aqui você não pode ter isso? – perguntou o moreno, parecendo não gostar muito daquela idéia.

- Na verdade... não. – respondeu Hyoga, secamente. Queria dar logo fim àquela conversa. A presença de Ikki o deixava desorientado e tudo o que ele não queria agora era perder-se novamente nessa sensação que o embriagava e o fazia até esquecer-se da mágoa que sentira ao ver o belo moreno na companhia do cavaleiro de Dragão...

Ikki bufou. Não queria que Hyoga fosse embora. Ele sabia bem o que isso significava. O russo estava se afastando da mansão agora, mas futuramente ele poderia acabar se distanciando de todos da mansão. Afinal, ele estava guardando seus problemas apenas para si. E isso poderia levá-lo a um afastamento definitivo dali.

- Eu não sei se você deveria fazer isso. – falou, demonstrando alguma inquietação, apesar de manter os olhos azuis muito escuros presos ao jovem loiro – Todo mundo aqui se preocupa com você e eu acho que deveria repensar essa sua decisão.

Hyoga olhava fixo para aquelas belas safiras azuis. Mas o que estava acontecendo? Ainda ontem, Ikki o tratara de forma grosseira, rude. Depois, descobriu-o com Shiryu naquele quarto do hospital, escondidos da vista de todos... E, agora, ele voltava a agir dessa forma que desconcertava o Cisne completamente. Do seu jeito tão particular, ele demonstrava se preocupar com o loiro... e esse simples fato aquecia o coração do cavaleiro do gelo.

Ikki se deu conta de que Hyoga o observava com curiosidade. Aqueles olhos azuis voltaram a brilhar, fazendo com que a sombra que parecia escondê-los até poucos instantes atrás desaparecesse. O russo o olhava de forma tão encantadora, tão devastadoramente encantadora que Ikki sentiu um calafrio. Se não parasse para ouvir a voz da razão, ele se afogaria ali novamente. E isso não podia acontecer. Ele sabia bem aonde seus atos impensados poderiam levar Hyoga. E ele não podia permitir que isso acontecesse. Jamais.

Virou o rosto a fim de quebrar aquele contato visual. Em seguida, prosseguiu, ensaiando uma voz desprovida de qualquer acento que denotasse preocupação de sua parte:

- Mas a vida é sua. Faça o que quiser.

Hyoga percebeu que o moreno fugiu-lhe com os olhos e algo dentro dele lhe mandou buscar novamente aquelas safiras. Contudo, não conseguia encontrá-las mais:

- É engraçado, pois você deveria me entender, Ikki. – começou a dizer, na intenção de atrair novamente aqueles olhos para si – Afinal, mais que ninguém, você deve conhecer bem a necessidade de se afastar de todos para compreender o que está se passando na sua vida... E eu... eu estou muito perdido e confuso...

Ikki percebeu que Hyoga estava prestes a lhe fazer alguma confissão. Isso não podia acontecer. O cavaleiro de Fênix precisava repelir qualquer ligação mais íntima que se pudesse desenhar entre eles. Revestiu-se de sua faceta mais fria e preparou-se para o que tinha de fazer. Ia doer; ele sabia. Mas era preciso:

- Você está falando sério? – disse, a voz em um tom bastante agressivo – Você está realmente achando que pode se comparar a mim?

Hyoga não soube o que responder. Não estava esperando aquela reação do outro. Normalmente, quando falava com Ikki em um tom mais suave, o moreno nunca lhe agredia verbalmente.

- Pois se você acha que essa sua crise existencial e todos os probleminhas ridículos que ela acarreta se igualam a tudo o que já sofri nessa vida, está muito enganado! – a voz de Ikki ia se tornando cada vez mais hostil, apesar de ele não elevar o tom de voz – Você não sabe o que é sofrimento! Você não sabe o que é estar perdido! Você não sabe o que é nada disso porque não passa de um filhinho de mamãe mimado e cheio de caprichos, que acha que todos devem prestar atenção unicamente em você! E, quando consegue chamar atenção o suficiente, diz que está cansado de ter todo mundo se preocupando com você? Ah, faça-me o favor! Vá embora mesmo, que assim todo mundo ganha!

Hyoga estava atônito, os olhos arregalados. Definitivamente, não estava esperando por tudo aquilo e não sabia como reagir.

E Ikki, percebendo que estava perto de alcançar seu intento, finalizou dizendo:

- O único motivo pelo qual eu achei que deveria ficar era por conta do meu irmão. Shun tem um carinho muito grande por você e eu achava que seria bom tê-lo por perto para que meu irmão melhorasse mais rápido. Mas, quer saber? Mudei de idéia. Não quero mais você ao redor de Shun enquanto ele estiver se recuperando. Tudo de que ele não precisa é de uma pessoa tão egoísta como você com ele numa hora dessas. E eu achando que alguma coisa ainda se salvava em você... Até parece. – e passou reto por Hyoga, a fim de terminar aquela conversa – E agora, vai ter mais uma dessas suas crises em outro lugar porque estou ocupado. Vim aqui pegar umas coisas para o Shun e você já me fez perder tempo demais.

Era impressionante, mas em todo esse terrível discurso, Ikki conseguiu manter a voz firme, do começo ao fim. Supreendia-se, pois tinha conseguido ser incrivelmente convincente. Por dentro, seu coração sangrava, mas ele sabia bem de onde vinha toda essa força. Ele precisava fazer isso. Precisava afastar-se de Hyoga para evitar o pior.

- Tudo... tudo bem. – conseguiu dizer Hyoga, por fim – Eu... ficarei longe do Shun. – e baixou os olhos.

- Menos mal. – respondeu Ikki, sem ao menos se virar para trás. Continuava caminhando a passos resolutos pelo corredor. Quem o visse assim jamais seria capaz de imaginar a tormenta em que sua alma se deflagrava nesse momento.

- Mas... Ikki? – falou Hyoga, a voz baixa mas suficientemente audível.

O moreno parou e respirou fundo. Precisava aparentar uma frieza que estava longe de sentir naquela ocasião. Mas o faria, mais uma vez:

- O que você quer agora? – perguntou, esforçando-se por parecer bastante aborrecido.

- Eu... sinto muito. Não quis comparar meus problemas com os seus. – falou, com um fio de voz.

O cavaleiro de Fênix olhou para o Cisne, e o viu tão frágil... Os olhos, visivelmente umedecidos. A fisionomia tão triste, o aspecto melancólico... Sentiu uma vontade aterradora de correr até ele, tomá-lo em seus braços e, em meio a beijos e carícias, pedir-lhe perdão por tudo...

Mas controlou-se. Mais uma vez.

Hyoga entendeu que Ikki não estava disposto a conversar. Suspirou e deu meia-volta. Pegou sua mala e, com passos lentos e quase arrastados, desceu as escadas. Lá de baixo já não podia mais ver a figura de Ikki, mas ainda assim lançou um último olhar na direção dos quartos. Em seguida, abriu a porta da mansão e partiu.

Ikki permanecia parado onde estava. Só então parecia aperceber-se do que fizera. Sentiu uma angústia esmagar-lhe o peito e, como que por impulso, dirigiu-se ao quarto do russo. Cambaleou e, ao parar à porta do quarto, sentiu o perfume de Hyoga que ainda se alastrava por todo o ambiente. O perfume de Hyoga o fazia parecer tão próximo, ao mesmo tempo em que a visão do guarda-roupa vazio indicava sua ausência que, de agora em diante, se tornaria uma constante na vida de Ikki.

Sentiu as pernas fraquejarem. Quase não conseguia respirar. Era como se todo seu corpo houvesse desaprendido a viver. Caminhou até a cama do loiro e sentou-se ali. Acariciou o lençol que cobria a cama. Finalmente, algumas lágrimas rebentaram de seus olhos.

In this world you tried
Not leaving me alone behind.
There's no other way.
I prayed to the gods; let him stay.
The memories ease the pain inside,
Now I know why.

Neste mundo você tentou
Não me deixar sozinho para trás.
Não há outro modo.
Eu rezei aos deuses; deixem ele ficar.
As lembranças aliviam a dor por dentro,
Agora eu sei por quê.

Aquela cama lhe trazia lembranças, recordações... e isso doía-lhe na alma. Seu corpo já sem forças para manter-se firme desabou sobre aquele leito. Sua cabeça pesada recostou-sobre o travesseiro e ele pôde sentir ali a fragrância dos cabelos de Hyoga. Abraçou o travesseiro com força e chorou em silêncio. Agarrava-se aos lençóis, àquela cama em um mudo desespero, enquanto as lembranças vinham aos borbotões.

Após alguns minutos, suas lágrimas haviam secado e sua respiração voltara ao normal. Mas seu corpo cansado parecia pesado demais para conseguir se levantar dali. Cerrou as pálpebras e a primeira imagem que lhe surgiu foi a de um jovem loiro com olhos azuis da cor do céu, cujo sorriso era o mais belo que ele já vira em toda a sua vida. E essa imagem, que ele via tão nítida ao simplesmente fechar os olhos, trazia-lhe conforto. Trazia-lhe paz.

All of my memories keep you near.
In silent moments, imagine you here.
All of my memories keep you near.
Your silent whispers, silent tears.

Todas as minhas lembranças mantêm você próximo.
Em momentos silenciosos imagino você aqui.
Todas as minhas lembranças mantêm você próximo.
Seus sussurros silenciosos, lágrimas silenciosas.

Sim, as lembranças eram tudo o que restaria deles dois. Apenas a lembrança de um passado muito distante. Mas já não importava. A Ikki, interessava apenas manter sua promessa e permitir que Hyoga continuasse vivo. E, se em meio a tudo isso, ele ainda pudesse lembrar-se de tudo o que um dia viveu ao lado do Cisne... então ainda valeria a pena viver. A simples lembrança de Hyoga, a recordação do sorriso que ele lhe dedicava... só isso já era motivo para suportar firmemente uma vida inteira de amarguras.

Isso e, obviamente... a necessidade de saber se Hyoga estaria bem. Havia prometido a si mesmo que zelaria pela vida desse anjo para sempre. De algum modo, buscaria sempre saber se ele estava bem. Esse era o caminho pelo qual sua vida seguiria agora. Era o único caminho que fazia sentido ele percorrer nesta vida... Era o único caminho no qual ele ainda encontrava algum motivo para continuar vivendo.

Made me promise I'd try
To find my way back in this life.
I hope there is a way
To give me a sign you're ok.
Reminds me again it's worth it all
So I can go on.

Me fez prometer que eu tentaria
Encontrar meu caminho de volta nesta vida.
Espero que haja um meio
De me dar um sinal de que você está bem.
É o que me faz lembrar que tudo vale a pena
Então eu posso continuar seguindo.

Os olhos fechados fizeram-no sentir, enfim, o cansaço de seu corpo. Não tinha dormido bem aquela noite, pois ficara velando o sono do irmão e... pensando em Hyoga. Despedira-se de Shiryu, que não exigiu qualquer explicação dele sobre tudo o que se passara e, depois que o chinês partiu na companhia de Seiya e Saori, Ikki ficou só, com seu irmão, que descansava angelicalmente. Tentou dormir um pouco também, mas fora-lhe impossível. Sua mente simplesmente não conseguia parar...

Entretanto agora, envolto naqueles lençóis que ainda guardavam o perfume de Hyoga, o moreno pôde, finalmente, sentir-se em paz. Com os olhos fechados, momentos felizes passados na companhia de Hyoga corriam velozmente por sua mente. E Ikki conseguia ainda ver, perfeitamente, o sorriso pelo qual se apaixonara perdidamente... E que amaria até o fim de sua vida.

Together in all these memories
I see your smile.
All the memories I hold dear.

Darling, you know I will love you 'til the end of time.

Juntos em todas essas lembranças
Eu vejo seu sorriso.
Todas as lembranças eu guardo com carinho.

Meu bem, sabe que irei amá-lo até o fim dos tempos.

Assim, em meio a sonhos e lembranças do passado, o cavaleiro de Fênix pôde, finalmente... adormecer.

Continua...

N/A: Bom, como sempre... se alguém estiver interessado em conhecer a música que apareceu aqui, ela chama-se "Memories" e é da banda Within Temptation. Ando viciada nela por culpa da Virgo no Aries, que me apresentou algumas músicas dela e vem me deixando profundamente inspirada a escrever mais. Virgo, olha aqui minha homenagem para você! =)

E obrigada a quem continua acompanhando a leitura dessa fic.

Beijos,

Lua Prateada.