Olá pessoas.

Chegamos aos quinze reviews. Como prometido, mais um capítulo desta história chega e intrigas e reviravoltas (ou não).

Disclaimer: Declaro que Sakura Card Captors e seus personagens não me pertencem e sim ao CLAMP; e que a fic, classificada como T , contém cenas de violência.


Cap 11 – Desmond Hills

Escrito por: Cherry_hi

Revisado por: Yoruki Hiiragizawa

Quatro dias dias de viagem e já pareciam meses.

Shaoran estava cansado. Não somente da viagem: sentia suas pernas e costas doerem pelo longo tempo que ficava montado em cima do cavalo, havia uma barba rala em seu rosto e ele não tomava um banho decente há quatro dias. Mas ele não se aborrecia muito com isso. O que realmente o deixava louco era o silêncio.

Ao seu lado, um pouco mais adiante estava Sakura, cavalgando com a elegância de uma amazona, o rosto compenetrado, sério, os olhos verdes voltados sempre para frente. Os lábios cerrados em uma linha fina. O que ele mais queria era poder conversar com ela, mesmo que fosse apenas para falar do tempo. Porém, no momento que abrisse a boca, as discussões recomeçariam.

A primeira que tiveram foi no momento que saíram de Londres. Quando andaram mais um pouco além da cidade, Shaoran sugeriu que eles deveriam parar para descansar em alguma hospedaria e recebeu um olhar atravessado.

̶ Vamos continuar.

̶- Mas… está tarde. Eu mal consigo enxergar com a luz da lua. É perigoso. E nós precisamos descansar.

̶ Descansaremos ao amanhecer.

Shaoran fez o cavalo parar.

̶ Pretende viajar a noite toda? Você é maluca?

̶ Sempre fiz assim. Se não gostou da ideia, devolva-me o anel e dê meia volta.

̶ Não vê que isso é extremamente perigoso?

̶ Nunca tive problemas.

̶ Eu me recuso.

Sakura fez o cavalo dar meia volta e o encarou, furiosa.

̶- Você está aqui contra a minha vontade. Por mais que eu tenha apelado a você e à sua consciência que o melhor a se fazer é me deixar em paz, ainda assim você veio! E agora você questiona meu modo de viajar?.

- Mas é porque é completamente INSANO! Vamos parar em uma hospedaria poderemos continuar pela manhã, bem cedo se você assim desejar.

̶ Não! Corremos muito mais risco de nos verem à luz do dia. Viajar a noite é mais seguro.

- SEGURO? Pode ser qualquer coisa, menos seguro! Os cavalos podem tropeçar e nos derrubar…

- Se ALGUÉM não tivesse metido uma bala em meu joelho, esses cavalos já teriam dançado. - ela volveu, irritada. - Caminhar é muito mais discreto.

- … e além disso,. - ele continuou, como se não tivesse sido interrompido. - existem bandidos apenas esperando para atacar viajantes indefesos!

̶ Salteadores de estrada assaltam pela manhã, quando pessoas normais viajam. Até eles precisam dormir.

̶ Os salteadores de diligências noturnas e carros-correio ficam bem acordados à noite!

̶ Mas eles pensariam muito bem que sou uma deles. Isto se me vissem: Sei ser discreta. Embora este cavalo chame muita atenção!

̶ Pare de implicar com o cavalo!

̶ Eu implico com ele porque ele atrapalha! VOCÊ me atrapalha! Então, se quiser fazer esta viagem comigo terá de fazer tudo o que eu fizer, incluindo viajar à noite e dormir entre as árvores durante o dia.

̶ DORMIR ENTRE AS ÁRVORES DURANTE O DIA?

E assim se seguiu uma discussão até mais ou menos quando os primeiros raios de sol feriram o negrume do manto da noite e eles pouco avançaram. Quando finalmente pararam (num lugar que ela havia determinado), ela apeou com uma caretinha e começou a mancar em volta.

̶ Eu estou escutando barulho d'água. Acho que deve ter algum rio por aqui. Vou matar a sede e vou também procurar lenha para fazer uma fogueira.

̶ Fogueira para quê? Já amanheceu e logo vai esquentar mais.

̶ Não é para nos esquentarmos. É para cozinhar a comida.

̶ Que comida?

̶ A comida que você vai caçar! - ela falou de uma maneira debochada, como se estivesse explicando para uma criança de cinco anos. - Suponho que saiba caçar com armadilhas, não?

̶ Sim, mas…

̶ Então pegue algum coelho para que possamos comer.

Sem dar chance para ele, ela desapareceu entre as árvores, deixando-o sozinho. Ele franziu a testa. Caçar com armadilhas? Por que, se ele tinha uma arma e a melhor mira de toda Londres, deixando a modéstia de lado?

Realmente, alguns metros antes, ele havia visto algumas tocas de coelho. Devagar ele se aproximou. Não demorou muito, um coelho branco e bem gordo, veio a superfície e o conde, sem hesitar, deu um tiro certeiro nele. O barulho lhe pareceu bem mais alto quando ecoou pela floresta, espantando alguns pássaros empoleirados nas árvores próximas. O coelho morreu na hora e ele se aproximou para pegá-lo. Voltou para o acampamento improvisado, segurando o animal morto como se fosse um troféu. Sakura apareceu entre as árvores, esbaforida e com um olhar alerta.

̶ Quem foi que atirou? Há alguém por aqui?

- Não. Fui eu, para pegar o coelho. - e o ergueu no ar para mostrá-lo.

Não que ele esperasse uma reação alegre ou cheia de admiração da parte dela pelo trabalho bem feito, mas o que obteve foi um rosnado e um sussurro enfezado:

̶ Você não usa a cabeça não? Se eu perguntei se você sabia caçar com armadilhas era porque você tinha que caçar com armadilhas! Esse tiro deve ter ecoado muito longe daqui. Vamos ter que mudar de lugar!

̶ Nós não vimos nenhum sinal de vida por um bom tempo. Estamos seguros aqui!

̶ Faça o que estou dizendo! - ela voltou a subir no cavalo, a cara azeda. - E rápido!

̶ Você é muito paranóica! - ele resmungou, mas também subiu na garupa de seu cavalo.

Depois de galopar alguns quilômetros, seguindo o rio que havia ouvido anteriormente, eles voltaram a montar acampamento. Sakura tinha uma espécie de panela feita de metal bem fino, leve e muito brilhoso. Ele ficou curioso para saber aonde ela havia conseguido, mas teve a prudência de ficar calado. Em silêncio, ela preparou o coelho utilizando algumas especiarias que havia trazido na bolsa e algumas raízes que ela encontrara na mata. Tinha um gosto estranho, mas agradável. Depois de satisfeitos, ela retirou um amontoado de roupas e um cobertor da bolsa e olhou ao redor. Ela parecia farejar, como um animal tentando pressentir o perigo. Depois de um tempo, deu-se por satisfeita e preparou-se para dormir ao sopé de uma árvore.

̶ Vamos realmente dormir aqui? - ele ousou perguntar.

̶ Tenha um ótimo dia de sono, Shaoran! - ela volveu, sarcástica. E virou-se para o outro lado.

Aquele foi só começo. Depois de um "dia" muito mal dormido, a noite chegou e eles se prepararam para continuar a viagem. Comeram o que sobrou do coelho, encheram um cantil que ela trouxera com água e se puseram em marcha. Ele logo descobriu que o silêncio era diretamente proporcional à quantidade de quilômetros que eles percorriam. Mas quando chegaram a altura de Abbots Langley, foi inevitável outra discussão. Foi quando ele finalmente havia descoberto que o destino deles era a Irlanda, mas que eles precisariam dar a volta pela…

̶ Escócia? - ele exclamou, surpreendido.

̶ Sim, Escócia. Iremos dar a volta pela Inglaterra, iremos até uma cidade portuária e de lá pegaremos um navio até qualquer cidade portuária da Irlanda. Simples assim.

̶ Mas não seria mais fácil irmos até uma cidade portuária inglesa? Como Liverpool? Ou mesmo pelo país de Gales? É mais perto ainda.

̶ Por que você ainda insiste em discutir comigo? - ela perguntou, já ficando na defensiva.

̶ Ao menos me dê um motivo para que tenhamos que dar essa volta toda.

̶ Não se esqueça que eu tenho quinhentos anos! Mas continuo com o mesmo rosto. E estive em Liverpool, Morecambe e até mesmo no país de Gales muito recentemente. Corro o risco de ser reconhecida!

̶ Acho que você está sendo precavida demais!

Ela se voltou para ele, irritada:

̶ Seu criado me reconheceu. Alguém que eu NUNCA esperava que fosse me encontrar na Inglaterra. Imagine então as pessoas de uma cidade na qual eu estive há menos de vinte anos.

̶ Ainda acho que você está tendo uma reação exagerada. Você é uma pessoa entre milhares.

̶ Mas, sem falsa modéstia, meu rosto é muito difícil de esquecer. - ela rebateu, seca. Não era vaidade, era realmente apenas a constatação de um fato.

̶ Mas então… supondo que iremos para Irlanda, passando pela Escócia… posso ao menos saber nosso destino final?

Ela o olhou de soslaio e voltou a galopar o cavalo. Quando ele bem pensava que ela não iria mais responder, ela disse:

̶ Tara. nós estamos indo para Tara.

̶ Tara? Por que este nome me é familiar…?

̶ Provavelmente porque você já ouviu falar da colina de Tara, onde está o Lia Fáil. É justamente para este lugar em específico que iremos. Se subirmos pela Escócia deverá ser mais fácil chegarmos até lá.

̶ Pelo que eu me recordo, Tara fica perto de Dunshaughlin. - ele comentou, esforçando-se para lembrar do velho mapa do Reino Unido que havia colado na parede do seu quarto do internato francês. - … que é muito perto de Dublin. Se fôssemos por Liverpool…

̶ Eu SEI que por Liverpool é bem mais rápido, está bem? Mas nós não iremos por lá… então conforme-se em irmos pela Escócia, está bem?

Neste exato momento Shaoran desconfiou que havia algum motivo oculto para que ela não fizesse a travessia naquele ponto mas, vendo a cara azeda dela, prudentemente guardou suas suspeitas para si e se conformou em ter que percorrer quase o dobro do que esperava…

Sakura tinha toda uma maneira especial de viajar e lidar com os imprevistos, que Shaoran estranhava e por vezes repudiava. Mas, tendo plena consciência que havia imposto sua presença a ela, ele geralmente ficava calado. Porém, no terceiro dia, ocorreu a única discussão que ele, de fato, ganhou.

No terceiro dia, eles se aproximaram de Royston e, logo pela manhã, eles notaram pesadas nuvens negras encobrindo o céu. Havia o grande risco deles serem pegos pela tempestade em campo aberto, então decidiram rumar para a cidade e se abrigarem em uma hospedaria. quando se aproximaram da entrada da cidade, Sakura falou:

̶ É melhor você não usar o seu título enquanto estivermos aqui… ou melhor, durante toda a jornada. Ser um nobre inglês acompanhado de uma moça com certeza não seria bom para você.

̶ O que você sugere?

̶ Utilize algum sobrenome mais comum… e nada de Shaoran, que é diferente e marcante.

̶ Devo utilizar meu nome do meio? Lionel?

̶ É mais comum, mas ainda assim muito distinto. Acho bom inventarmos alguma coisa mais comum…

̶ Como Elliot? - ele sugeriu, meio sem graça.

̶ Não combina com você. - foi a resposta seca dela. - Acho que John é perfeito. Discreto e comum. John… Carter. É isso.

̶ Não me agrada muito, mas admito que passa desapercebido. - ele fez uma careta e depois continuou. - E, suponho, você será a senhora Carter.

̶ Mas é claro que não. Serei a senhorita Carter.

̶ O que você está dizendo? Que se passará por minha parente, é isso?

̶ Sim. Posso ser perfeitamente sua irmã.

̶ Ninguém vai engolir essa. Não somos nem um pouco parecidos, apesar de eu possuir os olhos levemente puxados. Não temos o mesmo tipo físico, a mesma cor… nem o cabelo é igual. Não! É muito mais fácil que você se passe por minha esposa.

̶ Mas eu não quero me passar por sua esposa! - ela replicou e ele logo reconheceu aquele tom que ela sempre adotava quando estavam prestes a ter uma briga. E ele estava cansado, sonolento, faminto e impaciente. Fechando a cara e com firmeza, ele retrucou:

̶ Olha, já sabemos onde isto vai dar. Você argumentará que só estou lhe atrapalhando, que eu não deveria estar aqui e que você sempre faz as coisas do seu jeito. Eu sei disso, sinto muito por você e somente por isso aceitei empreender essa viagem nos seus termos! Mas quanto a isto, eu não irei discutir! Você bem sabe que sermos marido e mulher de mentirinha é a desculpa mais plausível para estarmos viajando juntos sem acompanhantes. Eu tenho consciência que será desconfortável e embaraçoso para ambos, mas é a única saída possível. E você sabe disso!

Ela mordeu o lábio, provavelmente segurando toda a sua irritação que certamente viria em um jorro de palavras rápidas e furiosas. Contudo, ele tinha razão e ela era obrigada a admitir isso.

̶ Tudo bem. Serei então a senhora Mary Carter. - ela resmungou. Então para ter como extravasar sua irritação, ela lançou um olhar torto para Shaoran e disse. ̶ Mas antes de entrarmos na cidade e começarmos esse teatrinho infernal, temos que dar um jeito nas suas roupas.

̶ Qual é o problemas com as minhas roupas? - ele perguntou, surpreso. Mas ela já havia descido do cavalo e, com a bolsa em suas mãos, desapareceu em uma moita selvagem e bem larga. Depois de uns dez minutos, ela voltou, trajando um vestido verde, feito de tecido barato e de corte simples, mas de muito bom gosto. Ela guardou as vestes pretas de viagem na bolsa e a entregou a Shaoran, dizendo-lhe:

̶ Guarde isto enquanto eu estiver fora. Preciso ir a cidade comprar-lhe algumas roupas que combine com o papel que representaremos. E aproveitarei para sondar quais são as hospedarias do lugar.

̶ Não acha melhor eu ir com você? - indagou, preocupado.

̶ As pessoas do interior podem ser inocentes, mas não são burras. Se virem você vestindo um casaco que obviamente foi feito por um alfaiate londrino nunca acreditarão que você é quem diz ser. E já vai ser difícil acreditar, pois os cavalos que montamos são de raça e é impossível esconder essa aura de nobreza e cavalheirismo que você emana. ̶ Não eram elogios, eram apenas constatações do óbvio. Ela então mostrou sua mão esquerda, onde brilhava um anel fino e muito singelo de ouro. ̶ Se quer que eu cumpra meu papel, então cumpra o seu também. E fique aqui enquanto sondo a cidade, senhor John Carter. Voltarei em uma hora.

Antes que ele pudesse protestar, Sakura já havia ido. Ela era bem rápida para um pessoa manca. Ele se contentou em esperar, brincando distraído com um galho. Seus pensamentos voaram para Lisbury Manor onde, a esta altura, suas irmãs com certeza já teriam dado falta dele. Seu coração se apertou. Fora uma decisão extremamente difícil, que constantemente o fazia querer voltar para casa e ficar com as irmãs. Porém, toda vez que fraquejava, ele dizia a si mesmo que tudo era por elas. Todo aquele sacrifício e dificuldade. E assim afastou os pensamentos de casa…

Pensou em Eriol e, consequentemente, em Tomoyo também. Esperava que seu amigo, quase sempre tão racional e sábio, colocasse algum juízo na cabeça e fizesse o correto. Embora tivesse três exemplos de casais felizes e apaixonados na própria casa, o casamento por amor era coisa raríssima em Londres. Ele tinha certeza que Tomoyo tentaria mais uma vez. Ela era tão teimosa quanto Cloversfield e quando conversaram no último baile, Shaoran poderia jurar que havia lhe dado esperanças e força. Porém voltou a pensar na teimosia e orgulho do amigo e seus pensamentos positivos vacilaram. Resolveu deixar isso de lado e se concentrar em algo mais presente. Por exemplo, o fato de Sakura estar demorando.

Olhou para o relógio de bolso e viu que já se passara bem mais de uma hora. Ficara bastante tempo divagando. Ele se levantou do tronco caído onde estivera sentado e começou a andar de um lado para o outro, nervoso. Teria acontecido alguma coisa a ela? Se sim, tudo estaria acabado e ele não teria outra escolha a não ser voltar e encarar o fato de que seria infeliz para o resto da vida. Mas havia algo mais e ele sentia extrema raiva de si mesmo, pois bem sabia o que era: ele sentia preocupação por ela! Porque a amava! Mesmo sabendo que era tudo fruto de um feitiço ou o que quer que fosse! Ele ainda a amava. E não queria que nada lhe acontece, apesar de como ela o tratava. Como era possível existir alguém tão masoquista?

Ouviu passos inconstantes se aproximarem e logo ele viu a silhueta magra e pequena se aproximar, segurando um pacote nas mãos. Ela jogou para ele, dizendo-lhe, de passagem:

̶ Quando você terminar de vestir isso, guarde suas roupas na sua mala. Há uma hospedaria muito boa e simples. Já falei com o proprietário para nos reservar um quarto e encomendei o jantar.

̶ Que desculpa você deu por estar sozinha? - ele perguntou, admirado por ela ser tão independente.

̶ Falei que você havia parado para pescar no riacho que vimos a caminho daqui e que caiu na água sem querer.

̶ Nossa! Que bom para o meu orgulho masculino! - ele comentou, sarcástico, indo se trocar. - E quantos peixes eu peguei? Não estou vendo nenhum.

̶ Aparentemente, você não é um bom pescador. - ela comentou de volta seca, e ele ficou em dúvida se ela havia feito uma piada ou não.

A hospedaria em que ficaram era realmente muito simples, mas confortável. Shaoran aproveitou para descansar as costas na cama. Sakura se sentou em uma poltrona e começou a ler um livro que havia trazido dentro da bolsa, em silêncio. Ele passou boa parte do resto da tarde cochilando, escutando a chuva cair lá fora e olhando a moça, pensando no quanto ela era linda… mas ao mesmo tempo, tão difícil de se tratar.

O jantar foi servido às sete em ponto e estava excelente, embora, com a fome que sentia, Shaoran era bem capaz de achar um pedra apetitosa. O dono da hospedaria, um homem de meia idade, gordo, barbudo e muito simpático, tentou puxar conversa, mas Sakura, com aquele sorriso frio e poucas palavras, desencorajava-o a qualquer tipo de aproximação.

Quando subiram de novo para o quarto para pernoitarem, Shaoran se deu conta que eles passariam a noite juntos e sozinhos… e ficou encabulado. Sakura estava com a cara fechada de sempre e não parecia estar incomodada com aquela situação. Ele pigarreou.

̶ Bom… eu… eu irei dormir… na poltrona para lhe deixar mais a vontade.

Ela lhe lançou um olhar sem emoção.

̶ Por quê?

̶ Bem… porque eu não quero lhe comprometer de nenhuma maneira. - ele respondeu, surpreso.

Os lábios dela tremeram, como se fosse sorrir, mas ela falou séria:

̶ Oras, você só está sendo cavalheiro. Não precisa se preocupar com a minha reputação. Esta cama é grande o suficiente para nós dois. - ele parecia confuso e sem graça, então ela emendou. - Se você se sentir desconfortável, podemos colocar travesseiros entre nós.

̶ Eu me sentir desconfortável? - ele retrucou, aborrecido com a leviandade que ela tratava aquele assunto. - Era você quem deveria se sentir assim! Não tem medo que eu, no meio da noite, sendo homem e tendo certas… hum… necessidades, a force a…

̶ Fazer sexo? - ela falou, como se estivessem falando de fritar um ovo para o jantar. E emendou. - Você é cavalheiro demais para isso.

̶ Também achou que eu fosse cavalheiro demais para lhe dar um tiro e eu lhe dei dois! Olha, desta vez você tem razão: eu jamais a forçaria a agir contra a sua vontade… nesse caso. Mas não gosto da maneira como você aborda esses assuntos íntimos.

̶ Shaoran, quando você tem quinhentos anos de idade, certas coisas simplesmente deixam de ter importância.

̶ Mas eu não tenho! - ele retrucou, exasperado. - E fui educado para respeitar as moças e suas virtudes! Portanto, eu não me sinto confortável que você, uma mulher, seja tão… tão… leviana!

̶ Eu não sou leviana! Agora você pegou pesado! - ela falou, irritada. - Saiba que a minha virtude, que você tanto fala, ainda está intocada! E agora você perdeu a oportunidade de dormir no conforto da cama, porque quem não quer mais a sua companhia sou eu!

̶ Ótimo!

̶ Ótimo!

̶ ÓTIMO! - ele enfatizou, despindo o casaco de suas vestes novas, que estavam meio apertadas e eram feitas de tecido grosseiro. - E estas roupas coçam muito, muito obrigada por elas!

Ela apenas fez um muxoxo irritado e começou a desabotoar o vestido ali mesmo, na frente dele. Ele se virou, para dar a ela a privacidade que ela não merecia.

Depois de uma noite mal dormida na poltrona e um café da manhã rápido, eles se puseram a viajar de novo. Assim que saíram de Royston, após comprarem algumas provisões, Sakura entrou na mata para trocar seu vestido pelas roupas pretas de viagem. Ele também trocou as roupas comuns pelas suas, muito mais confortáveis, e seguiram viagem.

E assim, após uma longa manhã e tarde sem se falarem, eles se encontravam em uma bifurcação da estrada. Uma pequena placa informava que a cidade de Peterborough encontrava-se a menos de um quilômetro. E que Grantham ficava a vinte quilômetros. Ela embicou o cavalo para Grantham.

̶ Espere um pouco.

Ela se voltou para ele, pronta para discutir.

̶ Antes que você comece a brigar comigo, não é porque eu quero descansar em uma cidade ou coisa assim. É que eu estou imaginando a rota que você vai tomar.

̶ Pensei em seguirmos indo a direção noroeste, cruzando o pais em diagonal até chegarmos a Carlisle. E poderíamos fazer a travessia por Gretna.

̶ Mas você sabe como ir por lá? Quero dizer, já andou por aquelas bandas? ̶ ele perguntou, lutando para manter um tem neutro na voz e não despertar a ira dela outra vez.

Ela parecia estar lutando contra si mesma, e ele descobriu porque.

̶ Não. - ela admitiu, em tom irritado e derrotado. - Eu só fui até Kendal. Depois de lá, teríamos que usar um mapa e pedir informações, o que nos faria andar muito mais pelas estradas e correríamos o risco de sermos vistos.

̶ Bom… então vamos seguir na direção norte. - ele sugeriu. viu que ela ia contestar sua sugestão, por isso acrescentou logo. - Eu sei chegar até Kyloe, em Northumberland. E, de lá, sei ir até Edimburgo se você quiser. Sem muitas paradas e mesmo indo em paralelo pela estrada. Vai ser um pouco mais demorado. - um ou dois dias de viagem a mais. - mas não correríamos riscos de sermos vistos.

̶ E como é que você sabe chegar até lá?

Ele deu um sorriso ácido.

̶ Já ouviu falar de Desmond Hills?

̶ Não.

̶ Pois então: foi neste lugar que eu passei minha infância inteira.

̶ Então você seria facilmente reconhecido. - ela raciocinou. E voltou a embicar o cavalo para Grantham.

̶ Deixe-me ao menos terminar? - ele pediu, indignado. - Desmond Hills fica isolada no extremo norte de Northumberland e a vila mais próxima, Kyloe, fica a mais de dez quilômetros de distância. Todos os anos, durante o inverno, eu e minhas irmãs éramos mandados para aquela mansão sombria e fria e nunca nos foi permitido sair da propriedade. Sei o caminho porque fiz aquele odioso trajeto durante muitos anos. E quando tive posse do título, mandei fechar a mansão e não permiti que nem um caseiro ficasse ali. Está abandonada, o que faz daquele lugar um esconderijo perfeito.

Ela ponderava, com a testa franzida.

̶ Você tem absoluta certeza que não será reconhecido?

̶ Tenho. Todos os empregados foram realojados para outras propriedades. Além disso. - uma sombra negra toldou o olhar âmbar e ele virou-se com firmeza para Peterborough. - Não se pode reconhecer a quem nunca se viu.

'

Mais três dias de viagem. Sem paradas longas e passagens por hospedarias. O silêncio como companheiro constante e desagradável, na opinião de Shaoran. Porém, decidido como estava de manter a paz entre os dois, fazia um enorme esforço para manter-se calado. Estavam na altura de York, viajando muito depressa. Em dois ou três dias, chegariam a Desmond Hills. Shaoran imaginou como estaria a mansão depois de um ano de abandono. Tudo o que ele mais desejava era passar longe daquela casa odiada, porém, como admitira anteriormente, ela seria um esconderijo perfeito. E, conhecendo o caminho como conhecia, eles viajavam rápido. Em um dia, eles chegariam ao local.

Embora realmente propusesse aquilo por conhecer o caminho, admitia para si mesmo que também desejava impor um pouco de respeito. Já estava cansado de ser tratado como uma criança e sentia-se até mesmo um pouco inseguro à medida que o tempo passava e ela ficava no comando. E ele nunca fora assim! Tinha que mostrar que era um homem de 25 anos bem capaz de cuidar de si mesmo e dela, se ela assim deixasse…

̶ Me diga uma coisa.

Aquilo foi tão inesperado que ele puxou as rédeas do seu cavalo sem querer.

̶ O quê? - ele perguntou, a voz meio rouca pela falta de uso.

̶ Como era essa mulher que lhe entregou o bilhete? No baile?

̶ Bom… - ele começou, surpreendido pela pergunta. - Foi uma moça… muito bonita, jovem, aparentava ter seus dezoito, dezenove anos.

̶ Sim, mas… como era fisicamente? Como se vestia?

̶ Deixe-me lembrar… era alta, bem alta… talvez um metro e setenta, ou mais… magra, esguia… cabelos negros, olhos castanhos… você está bem? ̶ ele perguntou, preocupado, ao vê-la empalidecer rápida e visivelmente.

̶ Sim… na verdade, não… - ela balbuciou, confusa. - É que… foi ela!

̶ Ela quem?

̶ A Madoushi! Foi ela quem lhe entregou o bilhete!

Ele sentiu um arrepio na espinha.

̶ Tem certeza… não teria sido outra pessoa…?

̶ Ela estava vestida de vermelho? - ela o cortou, impaciente. - Ou preto?

̶ …

̶ Vermelho ou preto, Shaoran?

̶ …Ela estava toda de preto.

Sakura ficou calada. Com agilidade, ela desceu do cavalo, como se não conseguisse se conter e ficou andando em círculos, até Shaoran também apear do seu.

̶ Pode realmente ter sido ela?

̶ É nisso que eu estou pensando… - ela respondeu, um tanto apreensiva. - É que… isso seria do feitio dela, entende? Interferir para me irritar! Para me atrapalhar.

̶ É muito bom saber que estou sendo uma companhia agradável. - ele a interrompeu, com sarcasmo.

̶ Mas o que não consigo entender é o que ELA ganharia com você viajando comigo! Por que interferir deste jeito se ela tem pressa em conseguir os anéis?

̶ Será mesmo? Quem já esperou quinhentos anos pode esperar mais um pouco… aliás quantos anos ela tem?

Sakura olhou para ele, daquele jeito condescendente que ele detestava.

̶ Não se trata de uma questão tão simplista como essa. Sabe o que significa Madoushi?

̶ Não. Não tenho a mínima ideia, embora desconfie que seja uma palavra japonesa.

̶ Você está certo. Madoushi significa feiticeira, bruxa. Uma, por sinal, muito poderosa. Seu poder provem da escuridão e das estrelas. É a rainha delas.

̶ Pensei que as estrelas fossem… bem… fossem como o sol…

̶ As estrela do nosso mundo são assim… mas não as estrelas do lugar onde ela vive.

̶ Ela… vive em outro mundo? - ele perguntou e a única expressão facial que demonstrava qualquer sentimento era uma sobrancelha erguida.

̶ Você aceitou bem essa informação.

̶ Bem… depois de saber que a adolescente na minha frente tem quinhentos anos e se cura em segundos, nada mais me surpreende realmente.

Ela sorriu. O primeiro sorriso sincero desde que saíram de Londres. Mesmo que com os lábios cerrados.

̶ Bom… você tem razão. Mas, voltando ao assunto, o lugar onde vive… existe um nome, mas é proibido para nós, pobres humanos. Podemos chamar apenas de o "Lugar aonde o tempo não passa". É como uma dimensão paralela à nossa, em que todas a criaturas mágicas vivem, sem limite de tempo ou espaço. E lá, ela reina entre as estrelas. Ela nunca me disse seu nome verdadeiro. Quando a conheci, ela se autodenominou Akai no Madoushi: Feiticeira vermelha.

Ele nada falou. Tinha, na verdade, milhões de questões a lhe fazer, tanto o que conversar, porém, achou mais prudente apenas perguntar?

̶ Algum dia você me contará? Contará como… tudo aconteceu?

O semblante dela se fechou. Mas, pela primeira vez naquela viagem, não havia rancor, ou raiva. era apenas… neutro. Ela mancou até o seu cavalo e o montou. Ele fez o mesmo e eles seguiram viagem…

̶ Sabe quando eu quis que você não soubesse da verdade? Da maldição? - ele apenas concordou com a cabeça. - Eu quis protegê-lo da verdade… e sua insistência nos trouxe… aonde estamos. Há coisas que você não deve saber.

Um monte de palavras, algumas atrevidas e outras suplicantes, vieram aos lábios dele, mas ele fez força para engoli-las. Sentia que alguma coisa havia mudado naquela breve conversa, mesmo que fosse apenas um pouquinho… e não queria estragar isso.

'

No dia seguinte, Shaoran anunciou que ambos chegariam ao destino ao anoitecer, ou mesmo antes. Decidiram então, no horário do almoço, fazer apenas um lanche rápido para que pudessem descansar melhor a noite.

Um pouco antes das quatro horas, eles chegaram nas imediações de Kyloe. Antes de entrarem na vila, cumpriram o velho ritual de se trocarem para parecerem um casal menos fora do comum. Uma vez em Kyloe, eles procuraram uma hospedaria boa para que pudessem passar a noite ali, mas as que existiam não satisfizeram as exigências mínimas de Sakura. Shaoran então sugeriu que comessem algo mais substancial e que fossem dar uma olhada na propriedade.

̶ Se a casa estiver num estado pior do que as hospedarias que vimos, voltamos para a cidade ou dormimos ao relento.

A moça concordou. Depois de outro lanche rápido, eles prosseguiram viagem. Logo depois que passaram a pequena vila, eles viram nuvens cinzentas ao longe.

̶ Acha que vai chover?

̶ Talvez, mas esta terra é assim 360 dias do ano. - ele deu com os ombros. - Talvez chova ou não.

A altura que transpassaram dois portões abertos já meio tomados pelo mato, caía uma chuva fininha. O bosque que circundava a propriedade tinha um aspecto selvagem, de abandono. E, ao passarem por ele, finalmente puderam ter uma visão da casa. Ela ficava em uma colina, com uma visão privilegiada dos arredores e sua arquitetura lembrava um forte. Havia até duas torres de vigília, voltadas para o norte. Construída de pedras cinzentas, quase não tinha janelas e havia limo e hera nas paredes. Em suma, uma construção feia, triste, sombria e o último lugar para onde qualquer ser normal mandaria seus filhos.

̶ Era para cá que você era mandado? - ela perguntou, sem conseguir esconder o tom de surpresa da voz.

̶ Sim. - ele respondeu, sem emoção alguma. – Bem-vinda a Desmond Hills.

'

Depois de contornarem a casa e constatarem que não tinha nenhum sinal de invasão ou vandalismo, eles apearam em frente à porta dos fundos. Ali, Shaoran foi até o beiral de pedra da porta e escalou até alcançar o topo. De lá, triunfante, ele retirou uma chave prateada muito suja.

̶ Ainda bem que esta chave continuava no mesmo lugar. Não iria querer vandalizar minha própria casa para entrar.

Com alguma dificuldade, ele destrancou a porta, que abriu com um rangido de arrepiar. Apesar da hora tardia e do tempo fechado, havia luz natural o suficiente para que pudessem investigar. A cozinha estava empoeirada, de uma maneira inacreditável. Nem parecia que estivera fechada por apenas um ano. Enquanto andavam no piso de pedra, eles escutaram pequenos guinchos e passinhos por toda a cozinha.

̶ Você não tem medo de ratos, não é mesmo? - ele perguntou, acompanhando com o olhar um rabo desaparecer por uma fresta na parede.

̶ Eu tinha… mas aprendi a controlar o medo. - ela respondeu, com calma. - Já vi coisas bem piores.

Em silêncio, passaram pelo corredor que levava à despensa da casa. Como era de se esperar, se havia alguma comida na época que fora abandonada, os animais se fartaram dela. Porém, havia alguns objetos que poderiam ser úteis, como candeeiros, velas e fósforos.

̶ Drogas, os fósforos estão úmidos. - Shaoran praguejou, ao tentar acender um.

̶ Isso é o de menos. Na verdade, é até melhor assim, pois, sendo instáveis como são, poderiam ter começado um incêndio.

̶ Como se eu fosse me importar.

̶ Vamos levar as velas para um lugar menos lúgubre, por favor.

Depois de passarem por um corredor e uma escada secundária, chegaram a um espaçoso hall, cercado por um mesanino. Ali, tinham acesso a todos os cômodos principais da casa. Shaoran guiou a moça até uma sala onde outrora ele e suas irmãs passavam a maior parte do tempo trancados. Os móveis estavam todos coberto por lençóis brancos. A lareira, feita de mármore envelhecido amarelado, estava rachada. Sakura apenas olhava tudo em silêncio, desde o lustre simples e feio até o papel de parede marrom descascado.

̶ Esta é a sala mais feia que eu já vi.

̶ Eu não duvido. - ele comentou, com uma ponta de tristeza na voz. Depois falou com um pouco mais de objetividade. - Mas, feia ou não, acho que é bem melhor que as hospedarias que vimos.

̶ Sim… mas… está tudo bem pra você?

̶ Como assim?

̶ Bem… é óbvio que você não gosta desse lugar, lhe traz… lembranças desagradáveis. Nós podemos dormir na floresta.

Ele a fitou por um longo período. Os olhos verdes continuavam plácidos, mas haviam uma pontinha de algum sentimento indefinível para ele.

– Acho melhor ficarmos aqui. Tenho certeza que choverá mais tarde. Voltar uma vez aqui não será o fim do mundo.

Ela não respondeu. Saíram então, decididos a comprarem provisões para o jantar e para os próximos dias de viagem na vila.

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Como Shaoran previra, caíra uma chuva moderada nos arredores. Depois de um jantar parco, ambos estavam na sala, vendo o fogo que conseguiram fazer com algumas toras de madeiras úmidas. O rapaz estava sentando em uma poltrona puída e Sakura andava pela sala, espiando por debaixo dos lençóis os móveis. Até que encontrou uma cristaleira, cheia de pequeno objetos.

̶ Posso abrir? - ela pediu.

̶ Claro, por que não?

Ela retirou o lençol e abriu as portas de vidros. Havia algumas caixinhas de rapé, não muito bonitas e velhas, miniaturas de pessoas estranhas e uma coleção de cachimbos. A única coisa realmente interessante que ela viu foi uma pequena caixa de música toda marchetada em madeira clara. Depois de dar corda, a caixa foi aberta e de lá saiu uma melodia bonita, mas muito triste. Eles escutaram a música até faltar corda e a moça voltou a fechá-la, guardou-a na cristaleira e voltou a cobrir o móvel com o lençol.

̶ Infelizmente, creio que estes são os objetos mais interessantes da casa inteira. - ele comentou, melancólico. - Quando eu era pequeno, reuni tudo o que valia a pena e coloquei nesta cristaleira.

̶ Você não tinha brinquedos? Como as outras crianças?

̶ Sim, claro. Mas eles ficavam na residência de Londres, na qual eu passava apenas três meses do ano. Então eu meio que não me apegava a eles. E eu e minhas irmãs éramos muito criativos: os cachimbos eram os cavalos, as caixas de rapé as residências… e a caixa de música, a sala de concerto. Brincávamos horas a fio assim, embora em algum momento, fatalmente, nós enjoássemos.

Ele percebeu que a moça mordeu o lábio e que exibiu uma expressão tristonha nos olhos. Tinha um pressentimento que ela queria lhe fazer mais perguntas, mas as lembranças dos anos terríveis que passara ali, há muito suprimidas, voltavam aos poucos com uma precisão torturante.

̶ Acho melhor irmos dormir. Amanhã, quanto mais cedo sairmos daqui, mais cedo atravessaremos a fronteira. - ela apenas concordou com a cabeça, quietamente. - Você pode usar qualquer um dos quartos, mas se você achou esta sala feia, prepare-se para ter a mesma reação com os cômodos do andar superior.

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Após a primeira noite de viagem realmente bem dormida, Shaoran acordou bem disposto para prosseguir viagem. Infelizmente, seus planos foram arruinados por causa da chuva, que caía forte e sem parar. Ele subitamente se lembrou dos cavalos, que deveriam estar sem provisões a essa altura. E assustados, por causa dos relâmpagos e trovões constantes. Ele se vestiu rapidamente e fez o trajeto até porta dos fundo. Dali, passou correndo pelo pátio, até as estrebarias. Não ficou realmente surpreso ao encontrar Sakura lá dentro, acariciando o focinho dos cavalos. Havia bastante água na baias, mas infelizmente, pouca aveia.

̶ Acho que teremos que comprar mais provisões para os cavalos mais tarde. - ela falou, após seguir o olhar dele. - Como estava chovendo muito, imaginei que eles estariam assustados.

̶ Foi bastante… sensível da sua parte. - ele retrucou, ternamente.

̶ Quais são os nomes deles? Nunca perguntei antes, eu creio.

̶ O que você monta se chama Cástor. E o meu é Hadar. Nunca pensei em lhe dizer porque você não parecia gostar deles.

̶ No começo, eu achava que seria um complicador, mas com tudo o que aconteceu. - e bateu com a perna esquerda no piso de pedra, para ele entender ao que ela se referia. - Acabou sendo uma excelente ideia. Vamos chegar bem antes do que eu previa.

̶ Está com tanta pressa assim para se livrar de mim?

Ela virou-se para ele e deu um sorriso triste.

̶ Não exatamente de você, mas da situação toda. Acho que não lhe contei antes, mas eu tenho um prazo, que se finda em menos de três meses.

Ele sentiu uma contração desagradável na boca do estômago. Embora soubesse exatamente o porquê, decidiu ignorar veementemente. Limitou-se a comentar:

̶ Felizmente, com os cavalos, poderemos chegar a Irlanda em menos de duas semana. Quem sabe com o adiantamento, ela se mostre piedosa conosco e acabe me dizendo o que posso fazer para quebrar a maldição.

Ela mordeu os lábios, mas não falou nada e Shaoran achou que era um ótimo sinal ela também querer evitar discutir. Ela afagou Cástor mais um pouco e então informou:

̶ Eu encontrei alguns óleos perfumados e sabonete nas dispensas. Acho que vou aproveitar a chuva, já que é impossível enchermos uma banheira só nós dois, e tomar um banho. Você deveria fazer o mesmo depois. - Ele não falou nada e Sakura, um tanto admirada, comentou. - Achei que você ia fazer um escândalo ante a mais uma das minhas ideias fora do comum.

̶ Acho que estou me acostumando a elas. - ele respondeu, um tanto divertido. - Mas me intriga saber o que irá fazer para me impedir de espioná-la.

O sorriso verdadeiro voltou a aparecer em seus lábios, dessa vez com um leve toque de falsa inocência.

̶ Milorde é cavalheiro demais para isso.

Ele deu uma risada.

̶ Está bem, está bem. Você tem razão. Enquanto milady faz sua toalete, irei até a cidade para comprar algumas previsões.

̶ Na chuva? Mas vai ficar ensopado!

̶ Não gosto de fazer os animais sofrerem. Se fossemos, nós em vez deles, os montaríamos sem piedade e cavalgaríamos até encontrar o que comer. Eles merecem este pequeno sacrifício por ter nos servido tão bem até agora. Além disso, é bom que vou lavando esta roupa que está imunda.

Ela revirou os olhos, mas não falou nada. Fazendo uma ligeira reverência, ele saiu e começou andar, rumo a vila, utilizando uma boa dose de força de vontade para não jogar sua reputação de gentleman fora e realmente espioná-la.

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Demorou quase cinco horas para ir até a vila e voltar, sempre debaixo de muita chuva. Ele vinha carregado de pacotes, arrependido amargamente de não ter levado Hadar consigo. Ele mal enxergava dois palmos diante de si, mas um relâmpago súbito fez com que os contornos de Desmond Hills ficassem nítidos a uma distância bem mais próxima que calculara. Depois de cinco minutos, ele entrava esbaforido pela porta dos fundos, completamente ensopado. Jogou os pacotes em cima da mesa e largou-se em uma cadeira. Depois de algum tempo, ouviu passos descendo as escadas…

̶ Shaoran, é você? - perguntou a voz distante de Sakura.

̶ Estou na cozinha! - ele gritou de volta.

Em segundos, ela aparecia segurando uma vela, usando um vestido simples de tecido fino que ele não vira antes, os cabelos úmidos penteados em uma trança comprida. Apesar de tudo o que acontecera e tudo o que passara por ela, seu coração disparou ao vê-la e ele ficou sem fala. Ela conseguia ser incrivelmente bela mesmo sem jóias ou roupas bonitas.

̶ O que você trouxe aí? - ela perguntou, aparentemente alheia ao arrebatamento dele.

̶ Bom eu… trouxe aveia para os cavalos e mais comida para nós, visto que sabe-se lá até quando ficaremos presos aqui. Também comprei um novo conjunto de roupas simples para mim. O que estou usando está muito apertada embaixo dos braços. Foi uma extravagância, mas acho que mereço este pequeno conforto.

̶ Falando em extravagâncias… - ela começou, depositando a vela em cima da mesa e também sentando-se, exalando um delicioso perfume de limpeza, frescor e primavera no ar. - Queria mesmo lhe falar sobre as finanças. Quanto você tem?

̶ Para falar a verdade, esta última compra me consumiu uns bons trocados. Tenho três libras e alguns xelins. E você?

̶ Tomoyo foi bem generosa comigo e me deu vinte libras que estão intactas. Porém creio que não será suficiente para chegarmos até a Irlanda.

̶ Eu trouxe algumas jóias também. Podemos vendê-las em Edimburgo e garantir um dinheiro extra.

Uma sombra toldou-lhe o olhar.

̶ Eu não gostaria que você fizesse por mim mais do que já está fazendo. As jóias são suas, afinal.

̶ Na verdade, nem todas. - ele retirou a carteira do bolso e de um pequeno compartimento ele puxou a única jóia com a qual andava pra cima e para baixo: a esmeralda. - Isto tecnicamente pertence a você.

Aturdida, ela pegou a esmeralda e a examinou atentamente. Seu olhar demorou-se um pouco na pequena rachadura.

̶ Onde está o resto do pente?

̶ Bom… digamos que… ficou em casa. - ele desconversou, constrangido. Se dependesse dele, ela nunca saberia como a esmeralda acabara ficando sem seu luxuoso ornamento.

Ela deu com os ombros.

̶ Bom… não me interessa realmente. Eu lhe dei o pente há dezessete anos. É seu por direito e você faz com ele o que quiser.

̶ Então não se importa se tentarmos vendê-la, se as coisas apertarem?

Ela deu com os ombros mais uma vez e considerou aquilo como uma afirmativa. Ele guardou a esmeralda na carteira outra vez.

̶ Acho melhor você tirar essa roupa. - ela interpretou corretamente a expressão que surgiu no rosto do rapaz e acrescentou, entre exasperada e divertida. - Você sabe o que eu quero dizer! Por que os homens sempre entendem um duplo sentido no que falamos?

̶ Acho que é porque sempre temos esperanças de ser relacionado ao que estamos querendo.

̶ Ao menos, você foi sincero. Bem, você entendeu o que eu quis dizer. O sabonete está na dispensa. Se eu fosse você, aproveitaria e lavaria suas roupas também.

̶ Você poderia fazer este pequeno favor por mim, que foi até a cidade andando pelo seu bem e dos cavalos. E eu não sei como fazer!

̶ É muito simples: molhe a roupa, esfregue bem o sabonete, molhe de novo e deixe-as secar perto da lareira. Eu sei que você consegue. Ou suas mãos são nobres demais para tal serviço braçal?

̶ Se eu posso carregar um pacote de aveia por dez quilômetros, posso fazer isso, com certeza. Só queria que você sentisse pena de mim.

Ela se levantou e se dirigiu para a porta da cozinha, mas não antes de dizer, com um sorrisinho travesso:

̶ Acho que você sempre esquece que eu não posso sentir nada, não é?

Sem esperar resposta, ela se foi.

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Depois do almoço, apesar de muito pensamento positivo, a chuva ainda continuava. Felizmente, agora havia pequenos períodos de calmaria, onde os pingos afinavam o suficiente para não mais se ouvir o som da água batendo no telhado. No céu, porém, as nuvens nunca deixavam o sol raiar e, logo em seguida, chovia forte outra vez.

Em um desses descansos da chuva, Shaoran perguntou se Sakura não queria olhar a vista de uma das torres de vigia. E, estando quase para morrer de tédio, ela aceitou. Eles subiram as escadas quase intermináveis e enfim chegaram ao topo da torre. A vista era incrível, embora só se enxergasse florestas e nuvens cinzas no céu. Via-se uma fita prateada bem ao longe, quase fazendo fronteira com o céu, que faiscava a mínima luz: obviamente, os dias seriam mais iluminados se conseguissem sair de Desmond Hills.

̶ Aquele é o rio Tweed. Quando o atravessarmos, estaremos em solo escocês.

̶ Então estamos mais perto que imaginei.

̶ Mais ou menos sete quilômetros. Umas duas horas a cavalo e estaremos lá.

Neste instante, a chuva voltou a ficar grossa. Eles recuaram para longe da janela quando o vento começou a soprar a água para dentro da torre.

̶ Ótimo! - exclamou o rapaz, aborrecido. - Estamos presos aqui dentro até sabe-se lá quando.

̶ Acho que daria no mesmo, estando aqui ou lá, pois não temos o que fazer mesmo. - foi o que ela comentou.

Havia um pequeno banco de madeira, extremamente sujo a um canto e ela fez menção de sentar, mas ele se adiantou:

̶ Não! Está imundo.

̶ Eu não me importo.

̶ Mas eu sim. - ele se aproximou, despiu o casaco escuro que vestia e o estendeu no banco. Ela deu um sorrisinho.

̶ Muito obrigada. É muito gentil de sua parte.

Ela se sentou e por algum tempo, ambos ficaram em silêncio, olhando a chuva cair ininterrupta lá fora.

̶ Aqui é um lugar muito triste.

Ele a fitou. Os olhos verdes da moça miravam pensativos a janela.

̶ Sim. Sempre foi assim.

̶ Com… que idade vocês começaram a vir para cá? - ela perguntou, hesitando levemente.

̶ Eu vim pela primeira vez com quatro. Minhas irmãs, acho que vieram mais cedo ainda.

̶ E passavam aqui três quartos do ano?

̶ Exatamente. Nove meses sozinhos aqui, com os empregados e uma babá.

̶ Deviam dar trabalho a ela. Cinco crianças…

̶ Não era assim.

̶ O que quer dizer?

Ele arrastou os pés até o banco e ficou em pé diante dela. Seu olhar estava sóbrio e distante.

̶ Não há nada aqui em Desmond Hills. Vivíamos, dia após dia, em uma apatia sem fim. Não havia brinquedos para nos divertir. Nunca podíamos ir lá fora porque estava sempre chovendo. A comida que comíamos aqui era tão ruim quanto a que comemos hoje. As aulas que tínhamos com a nossa babá eram maçantes. Estávamos sempre sonolentos, tristes. A única coisa que nos consolava era saber que estávamos juntos.

̶ Mas… por quê? - ela perguntou, e a expressão em seu rosto poderia ser descrita como choque. - Sei que vocês são ricos e devem ter milhões de propriedades espalhadas pelo país, como Oxford. Por que mandar para… este lugar?

̶ Pelo mesmo motivo que a duquesa mandava Tomoyo para o sul do país: era o lugar mais longe possível. E meu pai tinha a filosofia brutal de que uma criança infeliz é uma criança quieta. Bem… funcionou muito bem para nós.

Um relâmpago iluminou por um breve momento os olhos dela, que se enchiam de um sentimento que beirava a compaixão. Como ela permaneceu calada, ele continuou.

̶ Este lugar… na época em que a Inglaterra era inimiga da Escócia, foi um forte, como você deve ter adivinhado. Houve muito derramamento de sangue e tragédias que são contadas quase como mitos. A fama ruim deste lugar foi tanta que, quando a situação se acalmou, ninguém quis morar aqui.

"A construção permaneceu abandonada por muitos anos até que um ancestral meu, creio que meu bisavô, conseguiu a posse dessas terras e reformou o forte. Acontece que o irmão dele, que nascera com problemas mentais, estava se tornando muito inconveniente e violento, então o trouxeram para cá, onde ele foi esquecido. O nome dele era Desmond Lisbury e desde então o Forte Eagle Eye ficou conhecido como Desmond Hills.".

Quando terminou a narrativa, ele notou que estava tremendo. Sem querer, lembrou-se da infância amarga, dos dias em que ficava olhando pela janela esperando que a chuva passasse, que alguma coisa acontecesse. Lembrou-se das poucas vezes que se sentira enérgico o bastante para fugir do julgo da babá e sair debaixo da chuva até aquela mesmíssima torre. Ele já conhecia a história daquele lugar desde que aprendera a ler e devorara os parcos livros que havia na biblioteca e olhava o horizonte, imaginando os homens que haviam montado guarda naquele local, das batalhas sangrentas e dos muitos atos de bravura que certamente aconteceram. Imaginava os Escoceses, homens de honra, coragem, mas, de certa forma, selvagens, atravessando o rio e sendo avistados pelos soldados ingleses, que logo se preparavam para o combate. Sua imaginação às vezes era tão forte que ele chegava a ouvir os sons das espadas se cruzando e o grito de dor dos homens que eram atingidos.

E, quando se cansava das histórias de guerra, ele, embora não fosse muito familiarizado com contos de fadas, imaginava que estava ali, preso na torre guardada por dragões e bruxas. Em suas histórias, ele entoava uma profecia a si mesmo em que, quando o sol vencesse os dias frios, cavaleiros elegantes e destemidos derrotariam todos os males que os prendiam e finalmente, ele e suas irmãs estariam salvos.

Mas o sol nunca aparecia… e ele nunca foi salvo.

̶ Me… desculpe.

Ele se assustou. Estava tão perdido em suas lembranças que se esqueceu completamente que Sakura estava bem ali. E, quando a olhou, ficou completamente aturdido: havia uma lágrima solitária que descia pela face dela, lentamente. Embora a expressão de seu rosto fosse fria. Era como se chorasse contra sua vontade.

̶ Você está… se sentindo bem?

̶ Sim… e não. Mas não importa agora.

̶ Então por que…?

̶ Eu sinto muito. Por tudo. - e outra lágrima caiu dos olhos frios. - É a maldição. A maldição que impus em seu avô e que recaiu sobre você, suas irmãs e sua mãe.

Ele se sentou, pensativo, ao lado dela.

̶ Sim, a culpa é sua. - ela olhou-o chocada. Embora estivesse ciente do fato, nunca esperou que ele concordasse daquela maneira, sem reservas.

̶ Eu…

̶ Mas… - ele a cortou, com brandura. - a culpa não sua. Embora eu não soubesse que estava sob o julgo da maldição, e tampouco meus parentes, sempre nos restou a opção de lutarmos contra os obstáculos que a vida colocava no caminho. Sei que cada história é diferente e sei que, em alguns casos, a situação se mostrara irreversível, mas… sempre tivemos e sempre teremos a oportunidade de lutarmos para sairmos menos feridos.

"Minha mãe poderia ter fugido ou ter se recusado a casar com meu pai; Shiefa pode ter a oportunidade de curar seu coração ferido com o bálsamo de um novo amor; Fanrei pode se afastar de Daniel para que tanto ela quanto o bebê que ela carrega não sejam afetados pela doença dele; Fuutie é jovem e poderá sair fortalecida desta situação… Quanto a Fenmei… bem, ela escolheu não ter notícias de sua família, mesmo sabendo que nosso pai faleceu. Cada um pode seguir um caminho diferente daquele que lhe foi destinado…

"Mas não foi assim que aconteceu. Minha família escolheu seguir o caminho da dor, do sofrimento. A maldição existe e fere, mas são elas que mexem na ferida e fazem com que sangre mais.".

Ele se calou alguns segundos, pensativo.

̶ E você…? - ela não soube como terminar a frase. Na verdade, nem tinha certeza do que queria perguntar.

̶ Eu poderia ter feito o que você me pediu: esquecer a história e me conformar de que seria infeliz pelo resto da vida. Mas então, sendo interferência da Madoushi ou não, aquele bilhete e aquele sonho me trouxeram novas perspectivas. Eu tenho um caminho alternativo a seguir! Mesmo que a chance seja mínima, eu escolhi lutar contra o meu destino! Por mim e por elas. E é por isso que estamos aqui hoje. Se realmente existe alguém que escreve nossas histórias, como um grande autor da vida, e se ele determinou que era preciso eu passar por esta casa odiosa novamente, lembrando de tudo o que me aconteceu de ruim aqui, para que eu alcance um objetivo maior e mais nobre, então eu o faria. Mil vezes, se tivesse que fazer.

Havia uma determinação tão concreta em sua voz que ela, mesmo contra vontade, acreditou nele. Shaoran iria até o fim.

̶ Eu… tenho que lhe contar uma coisa.

Ele estranhou o tom dela, subitamente tenso.

̶ Mas, primeiro, você precisa me prometer que irá escutar até o fim. Porque… porque o que eu vou lhe dizer, provavelmente, o aborrecerá muito… e poderá fazer com que você aja precipitadamente.

̶ Você está me assustando.

̶ Promete? - ela o encarou, a expressão tensa e desafiadora, ao mesmo tempo.

̶ Prometo.

Ela respirou fundo, buscando a serenidade e frieza pela qual era tão famosa, dentro de si.

̶ Eu menti pra você. Existe, sim, uma maneira de quebrar a maldição…

Ele se levantou no ato, sentindo seu íntimo borbulhar, mesclando esperança, expectativa… mas também raiva e revolta. Sentia as palavras de protesto e ódio chegarem a sua boca, querendo sair dali em forma de gritos e xingamentos, entretanto, com muito esforço, ele se controlou, respirando bem forte. A moça, que o olhava com a mesma calma que reservava para quando ele explodia, pareceu aprovar seu controle, por mais frágil que fosse. Num tom neutro de voz, o rapaz perguntou:

̶ E por que você mentiu para mim?

̶ Acredite, há uma razão para eu mentir para você.

̶ Só não me diga que está tentando me proteger, porque… - ele começou, deixando escapar na voz um pouco de irritação.

̶ Não é isso. Mantenha a calma. - ela pediu placidamente.- E escute com muita atenção.

Via-se claramente que ele controlava suas emoções com muita força de vontade. Como se, além da superfície da pele, Shaoran quisesse explodir. Colaborando com seu estado de espírito, ela foi direto ao ponto:

̶ Bom… na verdade é muito simples: eu conheço somente esta maneira de quebrar a maldição. A boa notícia é que você pode fazer aqui e agora, não é muito difícil. Mas a má notícia é que… se eu lhe contar como se quebra a maldição ou você descobrir por si mesmo… o método não mais funcionará.

Em segundos, a agitação se transformou em confusão e o rapaz olhou estarrecido para ela:

̶ Como assim?

̶ Vou lhe dar um exemplo prático. - ela falou, pacientemente. - Se, de repente, o método para acabar com maldição fosse… hum… fazer com que eu me molhasse com água da chuva contra a minha vontade, você teria que fazê-lo sem a intenção de quebrar a maldição, entende? Mas, se por um acaso você deduzir, ou mesmo se eu lhe contar, você pode me obrigar a passar a noite inteira fora de casa e o máximo que poderia acontecer seria eu pegar um resfriado. Ou não, já que posso me curar. Você entendeu?

Ela não obteve resposta. Ele parecia absorto em seus pensamentos, a testa franzida, mas com uma expressão decepcionada no rosto. Sem perceber, ele voltou a se sentar e Sakura respeitou o seu silêncio, fitando o teto onde ela escutava a água bater impiedosamente.

̶ Então… quer dizer que não há outro jeito? Eu preciso fazer a… coisa… sem querer para que a maldição seja desfeita. - ele viu de soslaio ela concordar. - Não há outra maneira?

̶ Não… não que eu saiba.

̶ Então eu… bem… ao menos você pode me dizer…

̶ É melhor você não perguntar nada. Eu sinto muito, mas é melhor assim, pois você conserva a sua chance de conseguir o que deseja antes do que você previu.

̶ É… você tem razão… - ele falou, embora fosse claro que ele desejava ter dito outras coisas. Depois de uma pausa, ele continuou, com um pouco mais de animação na voz. - Bem… eu tenho a viagem inteira para descobrir. E, se mesmo assim não acontecer, eu posso tentar convencer a Madoushi a dizer o que eu quero saber.

Ela soltou um sorrisinho cínico.

̶ Acho difícil, mas não custa você tentar. - ela se levantou. - Até porque você merece isso. Acho que você é o homem mais perseverante que já conheci.

Ele também ficou de pé, sorrindo.

̶ E isso é bom ou ruim?

̶ Um pouco dos dois.

̶ É melhor do que ser apenas uma coisa ruim, acho. - Finalmente, a chuva estava dando uma trégua e eles poderiam correr até a casa sem se molhar muito. - Podemos ir agora. E vou me certificar de empurrar você para fora da casa, contra a sua vontade.

Ela soltou uma risada espontânea.

̶ Se fosse isso, me empurrar não adiantaria, já que você saberia que esse é o método.

̶ Mas não custa tentar.

̶ E, mais importante: eu queria ver você tentar. - o sorriso maroto iluminou o rosto dela e ele deu uma gostosa gargalhada, antes de começarem a descer as escadas.


E então? Gostaram? Amaram? Odiaram? Bem, só poderei saber se me mandarem reviews...

Como vocês perceberam (ou não), a "promoção" deu certo e, após 15 reviews, postei no mesmo dia, adiantando o capítulo que somente sairia no dia 31. Doeu deixar uma review? Causou tendinite? Tenho certeza que não...

Por isso eu peço encarecidamente que vocês continuem essa boa prática que estou tentando cultivar em vocês. Reclamem, xinguem a mãe do juiz, elogiem, implorem, ameacem, mas façam por extenso pois, como muito bem a Yoruki Hiiragizawa colocou hoje nas notas sobre o capítulo 21 de SuteKi da Nee (propaganda descarada proposital), nós ainda não sabemos ler mentes (ainda).

Outro pontinho para se comentar importante é que eu mudei a classificação da fic de k+ para T, pois acho que o nível de violência aumentou bastante e, mesmo isto não sendo um filme de Tarantino, gosto de zelar pelo bem estar dos meus leitores.

Sem muitas delongas, vocês ficam com o Yorukis Corner deste capítulo:

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Yoruki's Corner:

UHUUUUUUU!. Viva os capítulos relâmpago! Eu quero ser igual a você quando eu crescer, tia! Deixando a brincadeira um pouco de lado, é realmente difícil de acreditar quando o capítulo sai com essa rapidez, não é? Principalmente porque nossa vida é atribulada o suficiente para nos deixar sem tempo nem para respirar. Cada capítulo que terminamos é uma pequena vitória... pena que nem todo mundo entenda isso... Mas deixando a sapice de lado...

Sobre o capítulo: Simplesmente maravilhosa a interação entre eles! É claro que a Sakura, principalmente no início do capítulo, mais parece uma velha com reumatismo e manias arraigadas, mas conforme o tempo vai passando e eles vão se familiarizando com a presença, costumes e manias um do outro, ela foi se sentindo mais confortável e se soltando um pouco... O clima de parceria com que o capítulo terminou foi muito saudável... E eles estão começando (e destaco o "começando") a parecer realmente um casal agora...

Acredito que ela tenha percebido, pelo menos um pouco, que ele cresceu e não é mais o moleque de oito anos que ela conheceu na França... Talvez não tenha sido o suficiente para considerá-lo um homem, ainda, mas ele deve ter atingido a adolescência, no ponto de vista da velhinha... hehehe...

A única coisa que me deixa triste sobre esse capítulo é que não temos como saber o que está acontecendo com a Tomoyo e o Eriol e o Duque...(Indireta, isso? Não! Imaginação sua... XD)

Mais uma vez, sinto-me honrada por poder fazer a revisão desta história fantástica, Cherry-sama! Até a próxima e como dizia o Tuxedo Kamen-sama:

"Sarabada!..." (XD)

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E agora vamos a notinhas culturais:

Abbots Langley, Morecambe, Liverpool, Royston, Peterborough, Carlisle, Gretna, Kyloe, York, Kendal, Northumberland: São todas cidades ou povoados da Inglaterra.

País de Gales: O País de Gales, ou simplesmente Gales, é uma das nações que constituem o Reino Unido.

Tara: Ou colina de Tara é um lugar cercado de mistérios, situado na Irlanda.

Lia Fáil: Situada na colina de Tara, é um monumento feito em pedra, onde se acreditava que os verdadeiros reis da Irlanda eram coroados.

Dublin: Capital da Irlanda

Dunshaughlin: cidade irlandesa

Edimburgo: Capital escocesa

Rio Tweed: rio que, em alguns pontos, faz divisa entre a Inglaterra e a Escócia

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O último recadinho é com relação ao próximo capítulo. Não vou estabelecer uma data certa, nem fazer promoções. Mas vou tentar de tudo postá-lo até o natal. Ele já quase pronto, mas eu gostaria de postá-lo apenas depois que começar a escrever o treze, pois assim eu mantenho um bom ritmo.

E, por último, mas nem de longe menos importante, agradeço as reviews dos quinze leitores que conseguiram preencher a meta estipulada. Eu até pensei que vocês iriam deixar a review apenas para fazer número, mas teve muitas críticas, elogios e sugestões. Portanto, eu agradeço do fundo do coração a: Gal, Ninha Souma, Vanessa Li, Ana Pri-chan, Cycy, Brunnhh, Sango Lee, Cherry Li (quase minha xará XD), Suppie-Ko, Priscila Cullen, Mimica-chan, Thali-chan, Lilua-chan, Nadja Li e Yoruki Hiiragizawa.

Assim, fico por aqui. Até o próximo capítulo.

Sem mais,

Cherry_hi