Vigésimo Sexto Dia

Castle já tinha passado da fase em que olhava para o teto para tentar retirar os pensamentos românticos a respeito dela há algum tempo. Agora ele apenas o fazia para brincar com a própria mente, apreciando a liberdade de não se sentir mais tão pressionado por si mesmo e tentando arranjar algo útil para fazer. Pensava a respeito dos capítulos de um possível próximo livro – sem nem mesmo ter acabado o que escrevia – quando ouviu a porta do apartamento se abrir. Finalmente. Companhia.

Sem nem mesmo olhar para trás, sabia que era Alexis voltando da escola.

– Olá, pai. – Disse a garota, animada, se largando no sofá ao lado dele. As férias de meio do ano estavam para começar, então ela se daria o luxo de não se importar com lições de casa naquela tarde. Sentia falta do pai, gostava de como ele diminuíra a carga horária de visitas à Kate para ficar em casa. Talvez naquelas férias ele até mesmo não se alienasse nos Hamptons como em todos os verões, já que conseguira tempo para sentar e simplesmente escrever. Seria bom passar um tempo com ele antes de ir para Stanford.

– Boa tarde. – Respondeu, arrumando a própria posição no sofá e fitando a filha com um sorriso. – Como foi na escola? Alguma novidade?

– Nada demais... Lições, aulas... Nada do qual você se interessaria. – Brincou ela.

– Tem razão, deixe a escola pra lá.

– Como foi o seu dia entediante de trabalho?

– Ah, sabe como é, olhar para cima, não fazer absolutamente nada...

– Devia se orgulhar menos de ser um preguiçoso.

– Estar no prazo não tem graça. – Resmungou o escritor, balançando a mão no ar num sinal de indiferença.

– Ah, isso me lembra das minhas estreias nos tempos de glória do Theater District...

Castle e Alexis se viraram para encarar uma dramática Martha, que saia do quarto de hóspedes com os cabelos despenteados e ainda vestida nas roupas da noite anterior. Ela parecia cansada, apesar do sorriso no rosto. A nostalgia era tanta que Castle quase podia vê-la num figurino, encenando Sonhos de Uma Noite de Verão.

– A noite foi muito boa ou muito ruim. – Constatou Alexis, sempre divertida pela personalidade extrovertida e festeira de Martha. Mal parecia ser sua avó. Aquele era o tipo de coisa que ela esperava de uma irmã. Ou talvez de sua mãe.

De repente a amizade entre Meredith e a sogra parecia fazer sentido para Alexis.

– Sempre vivendo intensamente, não é, mãe?

A atriz apontou para a neta, e se aproximou dos dois massageando as têmporas. Nunca se é velho demais para Champagne demais.

– Concordo com Richard, estar no prazo não tem graça. O improviso deixa as coisas muito mais naturais. – Martha se sentou do outro lado de Castle, deixando-se relaxar completamente no estofado e deixando a cabeça pender no ombro do filho.

– Pelo bem das minhas notas, eu não penso assim. – Disse garota, analisando as atitudes da avó.

– Meredith me enganou, você foi mesmo adotada! – Disse Castle, tocando o nariz da filha.

– Tudo bem, eu também tive a minha fase responsável. – Castle e Alexis trocaram olhares de dúvida. Secretamente, ambos achavam difícil imaginar uma Martha Rodgers "responsável". – Ela ainda vai descobrir como viver... E como anda a det. Beckett?

O sorriso que Castle tinha cultivado com tanto carinho durante a semana se desfez com a menção ao nome da parceira. Richard esperava qualquer pergunta menos aquela, e certamente ainda não estava preparado para pensar em Beckett novamente. Estava tentando fugir do assunto, tentando não sentir falta. Era absurdo pensar que ele estava... apaixonado, parecia um exagero, mas bem, ele estava. Apaixonado, e, infelizmente, não era recíproco, então ele preferira não levar aquilo adiante. Sabia muito bem que o amor podia ser comparado com uma droga, principalmente quanto à recuperação. Era preciso deixar aquilo que o fazia tão mal, mesmo que a sensação da abstinência pudesse ser pior que o vício em si. E ele havia se viciado na presença de Kate.

Só mais alguns dias, talvez mais uma semana sem vê-la, e ele estaria minimamente desintoxicado. Se convencer de que aquela apaixonite era passageira viria com o tempo. Mas ele precisava daquele tempo sem pensar nela. E isso estava se mostrando uma tarefa muito mais complexa do que devia ser. Mais incrível: não por parte dele.

– Ninguém ligou me convidando para o funeral, então acho que bem. –Respondeu, com certa frieza, tentando impedir que pensamentos a respeito dela se infiltrassem em camadas mais profundas de sua mente.

– Continua com essa brincadeira de não ir visitá-la?

– Não é uma brincadeira, mãe, só acho que não tem necessidade alguma de aparecer lá todos os dias. – Ele tentou, paciente.

– Porque é claro que você tem muito mais o que fazer... – Ajudou Alexis, apenas por brincadeira. Ela não reprovara a decisão do pai, mas não conhecia todos os detalhes. Sendo uma romântica incurável a menina teria adorado saber o que o próprio pai já fizera pela mulher que amava. Ou odiaria saber que ele se colocara em risco por isso, o que era mais provável. O romantismo da garota sempre fora vencido pela razão.

– Vocês tem alguma coisa direta pra me dizer?

– Ah, querido, só estamos preocupadas com você. Não acha que a decisão de simplesmente sumir do mapa foi muito precipitada? Não precisava ser tão radical...

Richard suspirou. Era radical, e aquela era justamente a ideia: ser radical naquele momento e não correr o risco de fazer alguma besteira depois. Ela devia estar orgulhosa. Era raro vê-lo pensando em fazer besteiras.

Além do mais, aquele diálogo já estava parecendo um enorme deja vu.

– Mãe, já falamos sobre isso. Na verdade a conversa foi estranhamente parecida, eu não quero correr o risco de ser repetitivo...

– Mas dessa vez você não me escapa. – Disse ela. – Richard, o que está acontecendo com você?

Ele procurou uma fuga se virando para a filha, mas Alexis tinha no rosto a mesma preocupação e curiosidade que a avó. Castle desviou o olhar novamente para o teto, mas o silêncio que se instalou não o agradou. Ele se sentiu com onze anos novamente, dentro da sala do psicólogo querendo não querer falar sobre assuntos dos quais era mais fácil fugir.

Mas não havia para onde correr.

– Eu... Não quero ver Beckett. – Respondeu, cauteloso. Esperou algum comentário, mas aquelas a seu lado apenas continuaram quietas. – Eu não posso vê-la agora. Ficamos muito próximos desde que nos conhecemos, acho que... acabei gostando dela mais do que eu devia. Não quero correr o risco de piorar a situação. Fiz a besteira de dizer que a amava quando achei que ela ia morrer, mas ela não se lembra, e eu prefiro assim. Assim como sua fase responsável, isso passa, mãe.

– Ah, querido... – Suspirou Martha, sem saber como consola-lo.

Alexis deitou a cabeça no outro ombro do pai, igualmente sem palavras. Nunca achou que o veria dizer algo do gênero. Acostumara-se a vê-lo andar para todo lado de mãos dadas com uma mulher. Castle podia não ser o pior dos mulherengos, mas estava sempre namorando, e pela primeira vez em muito tempo estava devidamente solteiro. Como escritor, ele era um eterno amante, sempre completamente apaixonado por alguém ou alguma coisa – era a descrição do trabalho. Por isso, era estranho ouvir palavras tão decididas de sua boca. Estranho ouvi-lo dizer que havia desistido de levar uma relação adiante. No fundo, Richard Castle podia negar o quanto quisesse, mas Alexis e Martha tinham a impressão de aquela 'fase' não seria assim tão passageira.

O escritor estava apaixonado o suficiente para ter medo de tentar.


O ápice do tédio fora há três dias, quando ela começara a contar os fios soltos dos lençóis em sua cama – eram trinta e sete. Alguém sempre ia visitá-la, mas o mundo continuava girando, seus amigos e seu namorado ainda precisavam trabalhar e a única pessoa que não tinha absolutamente nada para fazer da vida havia sumido do mapa completamente.

E Beckett estava odiando-o por isso.

Mas agora, concentrada em bater em personagens animados no PSP que Seth lhe emprestara, ela não estava pensando nele. Ao menos não até que o médico entrasse no quarto para a visita da tarde.

Ela nem mesmo descolou os olhos da pequena tela de LCD, quando ele passou pela porta, continuando a apertar os botões do vídeo game portátil tão freneticamente quanto um adolescente viciado em um novo jogo. Seth se apoiou na barra de segurança da cama como sempre fazia, admirando o foco absoluto que Beckett colocava em algo tão bobo e se perguntando se esse era o motivo de seu sucesso como detetive de polícia.

– Você ainda não fechou? – Perguntou ele, cético, e Katherine se deu conta de sua presença com um sobressalto. O PSP escorregou de suas mãos e foi parar em sua barriga. – Eu zerei o Dissidia em três dias e nem jogava tanto quanto você!

– Eu estava quase matando o Sephiroth! – Reclamou a mulher, irritada.

Ela recuperou o aparelho agradecendo aos muitos anos sem jogar vídeo games por não grudar na tela – caso o contrário, ele teria caído em cima de seu peito, causando uma dor que ela preferia não imaginar – e colocou-o de lado.

– Me explica, como você consegue ter tempo pra isso? – Indagou ela, curiosa.

– Não se pode viver de trabalho, não é mesmo? Um homem tem quem ter tempo para suas paixões.

Beckett assentiu concordando. Em alguns trabalhos como o dos dois, aqueles que podiam tomar conta da vida de alguém completamente, era importante ter com o que se distrair. Beckett percebeu que a muito tempo não colocava as mãos em um livro. A saudade do cheiro de páginas novas e de uma boa história invadiu a detetive, e ela se pegou pensando que parte daquilo era culpa de seu namoro com Josh. Podia ser bom ter um namorado, mas ela já conseguia admitir para si mesma que ler era seu verdadeiro escape da realidade depois de um dia difícil.

– E o que o trás aqui, dessa vez? – Ela já imaginava informações técnicas a respeito de sua saúde, mas ele apenas sorriu.

– Você já está muito bem, Kate, é improvável que fique por aqui por muito mais que mais um mês. Seu estado é estável, então eu vim aqui para... conversar.

Beckett levantou uma sobrancelha. Aquilo era no mínimo estranho, mas ela não negou a companhia. Apenas balançou os ombros e deixou-se iniciar a conversa perguntando um simples "como assim?".

– Na verdade é minha hora e meia de almoço, e você está com a minha única diversão, – Ele apontou para o console preto perto de Kate. – então resolvi vir te encher o saco. Isso e o fato de que você tem andado estranhamente irritada, e já resolvemos o problema do tédio, então... – Beckett bufou e rolou os olhos, mas ele não desistiu. – Querendo ou não, você é algo como minha amiga, Kate, estou preocupado.

A detetive esboçou um sorriso. E então começou a falar, provavelmente por já estar farta de se importar a toa com algo tão bobo. Como o médico mesmo dissera vários dias antes, ele era o único que poderia ouvi-la.

– Eu... ando um pouco chateada. – Começou, olhando para um ponto qualquer na parede. Seth se sentou na cadeira, mas puxou-a para perto de Kate. – Acho que é mais que só o tédio. Ficar aqui me estressa mais do que o 12th. Eu sinto falta da papelada, de... – Ela cortou a própria fala, ainda desconfortável. Seth deixou que ela reencontrasse a coragem de continuar. Já tinha acostumado a dificuldade de algumas pessoas de falar a respeito de si mesmas. Os olhos da detetive pareceram brilhar um pouco mais quando ela recomeçou – correr atrás dos caras maus, de terminar um caso, da farra pós-caso, sinto falta de C-

Ela parou novamente, dessa vez travando palavras que quase saíram sozinhas, sem que ela tivesse controle nenhum.

– Você sente falta de Castle, isso não é novidade nenhuma. – Afirmou o médico. Beckett lhe lançou um olhar confuso e ele apenas rolou os olhos. – Você não engana ninguém Katherine, você perguntou por ele durante uma semana e meia e depois simplesmente começou a agir como se ele não existisse mais.

Kate abriu a boca para rebater o comentário, mas só conseguiu rir. Não por negação, mas pelo reconhecimento. Era ridículo o quanto aquilo era verdade.

– É, sinto falta dele, também. Ele me diverte. Me distrai. – Disse ela.

– Porque não liga pra ele?

– Se ele não veio é porque tem coisas mais importantes pra fazer.

– Ele é escritor, Kate. Só vai ter coisas importantes para fazer quanto tiver meses de atraso e a ex-mulher enchendo o saco.

Conhecendo Richard, aquilo provavelmente era verdade.

– A questão é que ele teria vindo se quisesse.

– Porque não liga pra ele?

– Você escutou o que eu disse, por um acaso?

Seth suspirou.

– Ok, faça como quiser. – Ele olhou no relógio. – Ainda tenho coisas a fazer antes de voltar ao trabalho, então vou deixar você aqui pensando em como seria se você simplesmente deixasse de ser chata e ligasse para ele.

Beckett revirou os olhos e deixou que ele fosse embora sem mais nenhuma palavra.

O problema é que ele sempre conseguia plantar aquela semente de caos na mente da detetive. E se ela realmente ligasse?

Não podia ser tão ruim assim, podia?


Ah, fic que não acaba...

Sério, Countup já está me irritando. Minha falta de tempo também, e fica cada vez pior. E pior ainda é não saber como isso tudo vai acabar...

Tudo bem, uma hora eu decido/descubro.

Me digam ai como foi o capítulo. Não é enrolação juro, é que é tem diálogos pra acontecer ainda, hehe.

Ok, talvez eu esteja enrolando. Só um pouquinho...