Capítulo 10 – Zumbi
Eu não posso dizer que minha vida tem sido fácil ultimamente. Acordar nos braços do seu pior inimigo, grávida, é sempre algo inesperado e desagradável. Mas mesmo a pior das criaturas pode ter um lado bom – até mesmo Gollum, tão feio e malvado, tinha Sméagol dentro dele.
O mesmo ocorre com a minha situação. O mesmo ocorre com a minha vida. O mesmo ocorre com o meu Gollum, James Potter. Nem tudo é oito ou oitenta, e eu demoro para perceber essas coisas, mas quando eu percebo, eu não me esqueço mais. E eu percebi que nada do que me está acontecendo é tão terrivelmente mau quanto eu imaginei a princípio. Eu estou grávida; e daí? Eu estou casada com meu maior rival de todos os tempos; e daí? Eu estou presa numa vida do inferno; e daí? Eu ainda estou viva, Potter ainda me deu milhares de rosas, eu ainda sei que sou fértil. Viu? Nada é assim tão ruim. Eu tenho visão periférica.
Portanto, é completamente não apenas desculpável, mas também esperado, eu estar preocupada com Potter. Ele está sumido há dois dias, sem dar nenhuma notícia, depois de me jogar aquela expressão sombria e dizer aquela frase maldita: "A Fênix me chama". E o que você tem a ver com isso?, você me pergunta. Eu ainda estou casada com James/Gollum, e ele ainda tem um Sméagol/Cara-que-gosta-de-dar-rosas-nos-momentos-mais-inexperados-para-a-esposa dentro dele, eu respondo. Eu tenho de ficar preocupada, entende? E ele tem de me deixar mais informada, para eu não ter de ficar preocupada. É a obrigação nupcial dele. E apesar de ele estar faltando com suas obrigações nupciais, eu ainda estou preocupada. Eu ainda estou rezando para que ele não tenha morrido. Eu ainda me importo. Mesmo ele sendo meramente o Potter.
Lily rolou na cama. Levantou-se. Desceu as escadas. Tomou um copo de leite morno. Sentou-se no estúdio. Puxou um livro para estudar. Procurou uma maneira de voltar para a sua antiga vida, longe do terror de poder ser a causa mortis de Potter. Olhou pela janela enquanto o sol nascia. Comeu um sanduíche. Estudou mais um pouco. Levantou e tomou todo o leite que havia na casa. Foi de novo para a cama.
Passou sete horas nesse vai-e-vem doentio, consumida pela culpa e pelo medo. Desde o momento em que Potter saíra pela porta com seu sobretudo bege, e ela lembrara-se do código para missões verdadeiramente perigosas, que ele acabara de usar, não conseguia parar de pensar que o moreno morrera. Ele morrera, e era tudo culpa dela. Se ela não tivesse brigado com ele, ele provavelmente não teria saído numa missão suicida, especialmente com ela grávida. Se não tivesse brigado com ele, ele não estaria tão acabado, devastado e miseravelmente puto da vida, e não cometeria loucuras no campo de batalha enquanto na sua missão suicida. Ficou aquelas longas horas se xingando, xingando Potter, xingando seu eu-futuro e a todos em quem podia pensar, até que não tinha mais ninguém em quem colocar a culpa além de si mesma. E ficou ali, passeando entre o estúdio e sua grande poltrona, os sofás estufados da sala e a cama de seu quarto, preocupada e grávida em demasia, brigando consigo mesma por não ter conseguido enxergar de uma vez o lado bom de Potter. E, enquanto comia todo o estoque de pão que encontrou, começou a deduzir as qualidades de Potter, tentando por tudo que era mais sagrado ver alguém bom nele, para ter algo a dizer no funeral, enquanto sua esposa. Pensou no que escrever na carta para seu eu-futuro, e no que escrever na carta para Dumbledore, onde explicaria que era do passado e que queria voltar para sua vida de direito. E pensou em maneiras de consolar os pobres Marotos, que ficariam sem um amigo. E enquanto pensava em como encarar o fato de que Remus Lupin, o sempre doce e gentil Remus Lupin era um lobisomem, ouviu batidas na porta, e sentiu o coração afundar. Tinha uma certeza obscura de que era o Ministério vindo trazer o corpo de James Potter, seu defunto marido.
Andou rapidamente até a porta, e a escancarou com um gesto brusco da varinha; estava pálida, descabelada e semi-nua, os olhos verdes desfocados e preocupados. Não se parecia em nada com ela mesma, e enquanto Sirius a encarou através do portal, sentiu pena. Sabia do que estava acontecendo entre Lily e James naqueles últimos dias, e seu amigo estivera em sua casa quando recebera a carta de Dumbledore, informando sobre a missão pela Ordem. Sirius sabia de seus deveres enquanto melhor amigo de James, e sorriu calmamente para Lily.
"Bom dia, Lils" ele passou pela porta e a fechou, andando sem convite até a cozinha. Sentia que Lily o seguia, e isso era sempre um bom sinal. Ela ainda não estava completamente louca.
"Onde está o James?" foi a primeira pergunta dela, e ele se viu sorrindo contra a própria vontade; aqueles dois eram tão ridiculamente óbvios.
"Missão da Ordem" ele respondeu em um tom sóbrio, ao que ele viu ela se sentar à mesa com um suspiro triste. Colocou as sacolas no balcão da pia e começou o trabalho de abastecimento "Eu fiz compras" ele acrescentou, ao que ela pareceu suspirar mais uma vez.
"Você acha que ele morreu?" ela perguntou, e ele se forçou a rir. James podia muito que bem ter morrido, especialmente estando tão moribundo quanto estivera quando saíra de sua casa, mas era seu trabalho mantê-la calma, especialmente com ela estando tão grávida quanto estava. Tirou um pacote de pão de dentro de uma sacola e começou a empilhar garrafas de leite dentro da geladeira.
"Ele é o James, Lily. Ele não morre. Você já tentou várias vezes matá-lo, e se ele não morreu, é porque não tem como" amassou duas sacolinhas de plástico e mirou o lixo, fazendo uma cesta. Finalmente levantou os olhos para Lily e sorriu teatricalmente "Pare de se preocupar" ela não disse nada por um tempo, apenas apoiou o rosto nas mãos e ficou olhando para o vazio. Sirius lhe deu um tapinha amigável nas costas e começou a ir para a sala quando sentiu uma mãozinha lhe segurando o pulso; a ruiva tremia levemente.
"Nós estávamos brigados. Ele acha que eu o odeio de novo. Ele nunca vai me perdoar" e depois de uma pausa "Eu nunca vou me perdoar. Se ele morrer, sabe" Lily estava se sentindo tão miserável quanto nunca, e Sirius era um péssimo mentiroso. Quanto mais ele tentava fazer as coisas parecerem corriqueiras, mais ela sentia o pânico e o medo nas veias.
"Ele não vai morrer, Lils" Lily sentiu um braço pesado pousando sobre seus ombros, e percebeu que Sirius lhe abraçava; encostou a cabeça no ombro dele, lutando contra a culpa, mas sentiu as lágrimas nos olhos.
Não tomou conta de quanto tempo passou ali, encostada em Sirius, chorando, mas quando finalmente se soltou do abraço, cada músculo de seu corpo doía, e sua mente implorava por uma soneca; passara a noite em claro, e estava terrivelmente cansada.
"Eu acho que eu vou dormir... 'Tô completamente acabada..." e depois, como um raio, o pensamento lhe ocorreu, e ela levantou os olhos para Sirius, preocupada "Você não acha que o James vai voltar enquanto eu durmo, acha?" Sirius balançou a cabeça com um sorriso. Não tinha nem mesmo certeza de se James voltaria, estando ele no estado que estava quando partiu.
"Ele iria querer que você estivesse bem, descansada e saudável" sorriu para ela e a ajudou a levantar; se fosse necessário, a arrastaria até o quarto, e conhecendo Lily como conhecia, talvez realmente fosse. Mas para a grande surpresa do Maroto, ela se deixou levar, parecendo anestesiada e tonta. Sirius a colocou na cama e jogou a coberta sobre ela "Você vai ficar bem, Lils?" ela abanou a cabeça positivamente, e seus olhos já estavam muito pesados, as pálpebras fechando devagar. Sirius sentiu alívio dentro dele e, sem muita enrolação, foi embora, deixando a ruiva sozinha com seu sono e sua culpa.
Ela dormiu por um longo tempo, e quando acordou, já estava escuro lá fora. A casa inteira estava em silêncio, e ela sentia um aperto dentro do peito; James ainda não voltara. E se ele estivesse morto, era puramente sua culpa. Ela acabara com a vida de conto de fadas de seu eu-futuro, e acabara com a vida de James.
Rolou na cama, e então, decidida a acabar com seu sofrimento, e a socar James assim que pudesse, por impor esse sofrimento a ela, levantou-se e foi até a biblioteca. Acharia um meio de sair dali o mais rápido possível, custasse o que custasse. Aquela vida ridícula havia passado do limite, e ela precisava de novo do stress infantil dos NIEM's e de James flertando com ela, sem que tivesse que se sentir culpada por dar foras nele. Queria sua antiga vida de volta, e a conseguiria.
Entrou no estúdio e encarou a pilha enfadonha de livros velhos que estava sobre a mesa, e partiu para a estante, muito mais decidida do que jamais estivera antes numa empreitada por sua antiga vida; olhou para os títulos de vinte e sete livros, e quando finalmente alcançou o vigésimo oitavo (Lições que Devemos Aprender, por Anna Brogoshaw), sentiu uma cosquinha engraçada na boca do estômago, e o puxou da estante, certa de que ele continha as respostas para todas as suas perguntas. Sua incisão naquela vida fora uma lição, certo? Então deveria estar naquele livro.
Sentou-se na grande poltrona, puxando os joelhos para cima e apoiando o livro pesado neles, e abriu a primeira página. Havia uma dedicatória.
Lily,
Na vida, fazemos vários sacrifícios. Você, mais do que qualquer pessoa que eu conheça, sabe disso. Você foi quem cuidou da sua casa enquanto criança, e quem cuidou dessa nossa casa enquanto adulta. Você é quem se casou comigo (e lá existe um sacrifício pior do que esse?), e teve de conviver com minhas manias ridículas e meus grandes defeitos. Você é quem um dia vai ser mãe dos meus filhos, e isso também parece injustamente horrível. Mas, acima de todos esses sacrifícios, você fez um ainda maior por mim. Você desistiu do seu sonho, para me dar o meu. Você desistiu de ser Auror para que eu pudesse ser. Você foi incrível, e continua sendo.
Eu sabia desde sempre que você seria incrível, não importava que profissão escolhesse. E hoje, você é a mais renomada historiadora de feitiços que existe, e todos te respeitam tremendamente. Mas não era isso que você queria ser, não foi para isso que você sempre se preparou. Você é uma Auror, aí dentro, e sempre vai ser, e é por isso que é tão brilhante na Ordem. Mas ser historiadora mágica foi um grande passo para você ser tão brilhante, e eu acho que você nunca compreendeu isso completamente.
Então, como seu marido, eu me vi na posição de te dar algo para clarear a mente. E aqui está. Esse livro é famoso por ser tremendamente esclarecedor, e eu espero que ele esclareça para você as vias que a trouxeram onde você está. Afinal, cada escolha implica em uma ação, e cada ação é um tijolo na parede de quem somos. E Merlim sabe que você é uma parede e tanto.
Do sempre seu,
Jamisey.
Lily piscou os olhos. Ninguém nunca soubera que ela queria ser Auror. Ela não contara a nenhum dos amigos, e poucas vezes sequer admitira para si mesma. Sabia que era um sonho quase impossível para ela, mas ali estava James, dizendo que ela era brilhante, e que provavelmente teria conseguido, não fosse por ter desistido de tudo por ele. E ela desistira de tudo por ele. Desistira de sua carreira, e de se casar com George Harrison, e agora estava carregando o filho de Berzebu, tudo porque aparentemente amava James Potter.
Balançou a cabeça e a apoiou no encosto da poltrona. O cansaço havia voltado, e era um cansaço de si mesma. Era tão ridícula. Havia desistido de tudo para se casar com um homem que partia sem maiores explicações, a deixando doente de preocupação em casa, e grávida. Havia desistido de ser a pessoa que sempre sonhara ser, para se tornar uma mulher que vivia para um homem. Era tão ridícula.
Enfiou o rosto nas mãos e começou a chorar de vergonha. Tornara-se tudo o que havia se prometido não ser, e não havia mais volta. Estava casada com James, embuchada pelo demônio e não tinha dizer sobre a locação da escova de cabelos. Tudo estava perdido. E ela amava aquele imbecil.
Abriu os olhos e encarou o teto seriamente, enquanto cogitava as razões pelas quais havia feito tamanha besteira. Por que havia se deixado apaixonar por James? Por que havia parado de tomar a poção, e se deixara engravidar? Por que brigara com James no meio dessa maldita guerra?
Baixou os olhos e os pousou sobre o livro, vendo o garrancho carinhoso do marido ali, e um sentimento morno se apoderou dela. Ela o amava, então ser quem não queria até que valia a pena.
E de uma maneira ridiculamente lenta, enquanto ela relia as palavras do marido, ela começou a se perguntar o que fazia com aquele livro específico no colo. E outra pergunta, instintiva, se apoderou de sua mente: por que estava pensando aquelas coisas? Mas que coisas?, se perguntou silenciosamente, curiosa com o que seria errado o suficiente para seu inconsciente bater à porta. E a realidade das coisas começaram a aparecer, e ela percebeu que raios estava errado.
Estava se confundindo com a Lily do futuro. Estava pensando como a Lily do futuro. Estava se preocupando como a Lily do futuro. Estava sendo SÁDICA que nem a Lily do futuro.
Pulou da cadeira, deixando o livro cair no chão, e percebeu que gritava. Desde quando ela pensava que amava James Potter? E que queria bem a ele? E que ela havia feito sacrifícios por aquele casamento estúpido? Ela não havia feito nada. Ela não havia se casado com Potter. Ela nunca se casaria com Potter. Ele era o último projeto de ser humano que ela jamais teria em mente caso decidisse se casar. Ela o ODIAVA!!
Andou até a cozinha, puxou uma das recentemente adquiridas garrafas de leite, e começou a beber em gordos goles. O que ela estava pensando? Potter que morresse! Ele não merecia sua atenção mais que uma mosca. Ele era horrível. Nojento. Estúpido. Bruto. Feio.
Algo no fundo da sua mente protestou - ele não era feio não! – mas ela o ignorou resolutamente, e jogou a garrafa de leite vazia para o outro lado da cozinha, a raiva fluindo. Deu alguns passos pesados na direção da biblioteca, pronta para achar um jeito de sair daquele lugar infernal, e puxou o livro para si, passando as páginas furiosamente.
E então, seus olhos pousaram no topo de uma página.
Trocas de Consciência.
O gelo começou a se espalhar do coração para as pontas dos dedos de Lily, e ela sentiu-se sorrir, apesar do medo de baixar os olhos e encontrar uma página em branco. Encarou o título por um longo tempo, tremendo levemente, parcialmente esquecendo o fato de que James estava desaparecido, e então deu uma risadinha baixa e rouca, e passou os olhos pela página, feliz por encontrar letras, e imagens com fórmulas de como realizar um feitiço. Seu coração pulou uma, duas, três batidas, e ela começou a rir mais alto.
Parecia completamente maluca.
E, com um grande suspiro, ela piscou algumas vezes e começou a ler o que a página tinha a dizer.
TROCAS DE CONSCIÊNCIA
Um dos passos para se compreender melhor sua estrada, é se lembrar quem você foi um dia, ou ver quem você vai ser. Para tanto, existe um feitiço extremamente complicado, que só deve ser usado em casos extremos (quando você está completamente sem rumo). Não posso estressar suficientemente o quão ridiculamente complicado é esse feitiço, Lily, então nem tente fazer em casa. Esqueça. Você está presa nessa vida até eu decidir que pode sair.
Você achou que podia ser mais esperta que eu, mas eu sou mais velha, como mostra a ruga, e eu sei uma coisa ou duas a mais que você. E eu te conheço. Quão patética! Pensar que eu teria o livro com o feitiço em casa! Onde James podia encontrar!!! POUPE-ME, LILYETA!
De qualquer modo, querida eu-do-passado, não adianta procurar. Eu trouxe o exemplar comigo para os anos setenta. E ele vai ficar preso aqui até eu dizer o contrário. Como ele foi escrito em 1027, não existe um segundo exemplar. Esqueça. Então, amada, relaxe e goze, porque eu aprendi o dom da paciência, e posso esperar por um longo tempo até que você veja que James é muito mais do que um imbecil que podia escrever um livro sobre cantadas baratas e chantagem emocional. Ele é um homem e tanto, e merece o seu respeito. E até você aprender a ser eu, você não vai sair dessa vida. Se acostume.
Beijos da sempre sua, Lily Potter.
GRÁFICO DO FEITIÇO
Só de felicidade, aqui vai o feitiço de aparatação; eu não quero que você acabe com o meu pó-de-flú...
Era demais para Lily. Ela fechou o livro com força e o jogou na mesa, cheia de exasperação. Quem aquele maldito eu do futuro pensava que era para pregar uma peça dessas? Estava cansada daquela merda de vida, e nunca havia pedido para trocar de lugar com ela, então não precisava ficar presa ali. Podia voltar para casa. Precisava voltar para casa. Tinha de voltar para casa.
Sentiu as lágrimas nos olhos, e segurou com força os braços da poltrona; queria gritar, fugir, se esconder para sempre. Não queria estar ali. Queria estar em qualquer lugar, menos ali. Fechou os olhos com força, os espremeu, e começou a perceber algo novo dentro dela. Suspirando entre as lágrimas, ficou de pé e saiu da biblioteca.
O enjôo voltara. O bebê queria lhe avisar que ainda estava ali. Que estava vivo. Que ela estava grávida, e que não havia muito que ela podia fazer além de aceitar esse fato e viver com ele.
Sentou no chão, em frente à privada e vomitou. E depois de passar quase duas horas no banheiro, saiu e se arrastou escadas acima, até o quarto, onde deitou na cama e abraçou a barriga, se encolhendo inteira no meio da bagunça de cobertas e lençóis. Estava sozinha, e não tinha como voltar para casa, para seus amigos, e para a Sarah ativista, e para os eternos julgamentos pela guarda de Christina, e para as aulas patéticas de Slughorn. Estava presa com grilhões ao casamento com James, e àquele pequeno bebê na sua barriga.
Revirou na cama por horas, sentindo mais e mais pena de si mesma a cada minuto e, por fim, começou a pensar em James, e nele morto por sua culpa. A vergonha se apoderou dela novamente, mas dessa vez por ser tão fraca; James precisava dela, ela precisava pensar que ele estava bem, até ele voltar inteiro para casa, não importava o quanto ela o odiava – ou melhor, desgostava, agora – e ela havia sido fraca e egoísta, pensando apenas em largar tudo para trás e trazer a desavisada Lily do futuro de volta para sua vida. Sentiu-se culpada, e envergonhada, e embaraçada, e se enrolou mais na cama, enquanto lá fora o sol nascia sob uma cortina de nuvens pesadas e escuras.
Por volta do meio-dia estava pálida e tremula mais uma vez, e desceu as escadas para comer alguma coisa, enquanto o barulho da chuva acariciava seus ouvidos, tentando acalma-la, tentando fazer ela se sentir menos culpada por coisas que não devia. E então, ela foi até o estúdio e puxou o livro que a Lily do futuro lhe separara – Histórias Para Assustar Pais de Primeira Viagem - e começou a lê-lo, sem realmente prestar atenção nas palavras.
Finalmente, ao meio-dia, houveram batidas na porta, e ela levantou de um salto, parecendo ainda pior do que no dia anterior. James estava desaparecido há dois dias, e agora era quase uma certeza para ela: ele morrera. Correu e abriu a porta, apenas para revelar três Marotos sorridentes.
Sirius, Remus e Peter entraram sem pedir licença, falando dos mais diferentes assuntos, e criando uma cacofonia irritante dentro da casa; de alguma maneira, apesar disso, o coração de Lily se aqueceu, e ela abriu um sorrisinho frouxo para eles.
"Bom dia, meninos" Remus e Peter se jogaram nos sofás da sala, perguntando sobre o bebê e sobre o gosto do vômito, enquanto Sirius ia alegremente até a cozinha, arranjar algo para comer na geladeira. Lily se sentou num tapete em frente à lareira, o corpo mole, e se encostou contra o mantel.
"Mas tem gosto de vômito normal?" Peter insistia, ao que Lily ria baixinho e balbuciava 'sim, Peter, gosto de vômito normal...', e Sirius havia voltado da cozinha com três garrafas de cerveja amanteigada e um pacote de salgadinhos. Deu as cervejas para os meninos, abriu o salgadinho e enfiou uma mãozada na boca. Ainda soltando farelos, ele se virou para Lily e lhe sorriu.
"Voxê fa bem, Lilefa?" ela fechou os olhos e respirou fundo.
"Não tem saída, né?" ela murmurou e deu de ombros. Sirius franziu as sobrancelhas "Eu estou mesmo casada com James" quando ela abriu os olhos, os Marotos enxergaram algo que os preocupou, e Remus pulou de pé na mesma hora, resolvido a sair para pegar algumas roupas para ela; quando ela estava mal assim – parecida com a Murta-Que-Geme, de uma maneira horripilante – só havia uma pessoa que podia a fazer ficar melhor, além de James.
Lily se viu perdida em um furacão de braços e pernas, de uma hora para outra; Remus jogou um vestido e um casaco sobre ela, e os três Marotos a arrastaram para fora da casa, carregando uma garrafa de leite, e aparataram. Lily chegou no destino xingando as mães de todos os três, puta da vida com eles e consigo mesma por ter se deixado levar.
Não percebeu, de primeira, onde estavam, apenas foi se deixando ser arrastada por um gramado macio e bem aparado, e ao redor de um lago, e então, levantou os olhos e se viu encarando intermináveis paredes de pedra polida, parcamente escondidas pela névoa, e sorriu.
"Hogwarts" ela murmurou, e Sirius, ao seu lado, parecia contente consigo mesmo; haviam acertado no tratamento.
"Isso mesmo. Hogwarts" Remus disse, enquanto a ajudava a subir os degraus de pedra que a levariam para dentro de sua casa, sua eterna casa. Ela foi andando pelos corredores com os Marotos por um longo tempo, até que eles pararam e Lily viu eles se encarando "Alguém sabe a senha?" Remus soltou, ao que Pedro começou a rir desembestado. Lily olhou para cima e viu a gárgula que dava passagem para a porta de Dumbledore.
Seu coração se encheu de ternura, por Hogwarts, pelos Marotos, por Dumbledore. Ela sorriu, e olhou para eles.
"Me levem para casa" ela disse, ao que os três pararam, a encarando e piscando como corujas altistas.
"Como assim?" Sirius a encarou, e ela sorriu, se abraçando e fechando o casaco melhor ao redor do seu corpo. Estava tremendo um pouco, e o enjôo começava a dar sinais de que queria aparecer.
"Eu quero ir para casa. Não quero conversar com ninguém. Nem com Dumbledore. Eu só quero ir para casa e esperar o corpo do James" Sirius empalideceu, e Remus se engasgou com o ar; Peter parecia prestes a desmaiar.
"Ele morreu?" Peter perguntou, ao que Lily sorriu, tremula, e baixou os olhos, encarando os próprios pés mal cobertos por chinelos velhos.
"Depois de dois dias? Acho que sim" ela suspirou, e sentiu o braço pesado de Sirius mais uma vez sobre seu ombro, e fechou os olhos com força "Me levem para casa, assim eu posso apreciar melhor minha viuvez" e então Remus riu.
"Ah, Lily, o James sempre desaparece por dias a fio... Por que você está tresloucada dessa vez?" Sirius pareceu tomar a palavra, dando um passo formal na direção de Remus.
"Por que ela queria se divorciar do James" e depois de uma pausa e um sorriso traquinas "Para se casar com a privada. Foi demais para o pobre Pontas" virou-se para Lily com um sorriso, e a encontrou rindo entre lágrimas "Lily, vai ficar tudo bem. Apenas dê um alô para Dumbledore, já que estamos aqui mesmo" ele estendeu para ela a garrafa de leite, e ela tirou a tampa e deu um gole, limpando as lágrimas com as costas das mãos.
"Você acha que ele ainda está vivo?" ela perguntou, ao que Sirius sorriu mais uma vez.
"Eu espero, sinceramente, que ele tenha morrido, para que nós, Marotos restantes, possamos brigar pela sua mão em casamento" passou um braço por cima dos ombros dela e bagunçou seu cabelo ruivo um pouco mais do que já estava "Não se esqueça que, assim que a gente matar a minha mãe, eu vou receber minha herança polpuda" Lily sorriu, e levantou os olhos para a gárgula. Algo dentro dela - talvez seu eu-futuro – lhe dizia que Dumbledore seria sempre uma boa idéia. Com um suspiro, viu sua boca se abrindo para revelar a senha.
"Fondue de Limão" se viu murmurando, e depois mordeu o lábio inferior enquanto os três Marotos a encaravam, e ela dava de ombros, constrangida. Começou a subir as escadas rolantes com passos lentos, uma sensação morna se esgueirando dentro dela.
A sala de Dumbledore tendia a ser intimidante para a maioria das pessoas, mas quando você passa sete anos indo e vindo dela, seja para receber broncas ou detenções por mau comportamento perto de James Potter ou responder para os professores, seja para saber suas obrigações enquanto monitora-chefe ou prêmios por notas altas, ela perde um pouco dessa aura assustadora. Com o tempo, os geringonças de Dumbledore, a fênix e as cadeiras de espaldar alto, próximas dos quadros dos antigos diretores, tornaram-se quase que aconchegantes para Lily; ela encarava as paredes com tanto reconhecimento e calma que poderia tentar se passar por uma diretora extremamente jovem. Ela apreciava os sons suaves que saiam dos objetos nas estantes, e o calor morno que emanava da lareira super-crescida que ficava próxima a porta. Ela gostava de todos os aspectos, inclusive dos murmúrios constantes dos antigos quadros, enquanto os ex-diretores fofocavam entre si. Sentia-se, de uma maneira quase imprópria, em casa naquela sala, e o sorriso paternal de Dumbledore – que ela vira pela primeira vez depois de receber aquela carta amaldiçoada que lhe contara da morte do pai – sempre lhe aquecia o coração. Ele tinha a aparência de um vovô muito bonzinho quando a encarava assim.
Então quando, naquele dia pesado, Lily se esgueirou para dentro da sala, carregando uma garrafa de leite consumida pela metade, e viu aquele sorriso tão familiar, o sentimento mais próximo de alívio que ela podia ter naquelas circunstâncias a preencheu.
Dumbledore se levantou, e as roupas ridículas pareciam descabidas diante do olhar terno.
"Bom dia, Lily" ela piscou; estava desacostumada a ser tratada pelo primeiro nome por Dumbledore. Ele pousou uma mão de dedos compridos no ombro dela, e a conduziu da maneira mais suave até uma das cadeiras em frente à mesa dele. Ela se sentou, ainda confusa.
"Bom... Bom dia" ele deu a volta na mesa e, com um gesto quase teatral, sentou-se.
"Vejo que está ainda mais grávida do que na semana passada" ela franziu as sobrancelhas; Dumbledore já sabia que ela estava grávida de James Potter. Ótimo.
"Estou. E meu suposto marido está desaparecido" levantou a garrafa de leite e tomou um gole "Essa minha vida é simplesmente brilhante, não acha?" pousou os olhos verdes nos azuis de Dumbledore, e ele abriu um sorriso sábio; depois, ele se abaixou um pouco e abriu uma gaveta na sua escrivaninha.
"Aqui está. Do jeito como você me pediu" ele se levantou e estendeu uma carta à Lily, e ela sentiu-se borbulhar por dentro; seu eu-futuro fora longe demais. Usar Dumbledore de coruja? Precisava ser completamente insana para ter essa idéia.
"Eu não quero ler carta alguma" ela murmurou de volta, e Dumbledore deu uma risadinha que o fez parecer cento e cinqüenta anos mais jovem.
"Eu tinha me esquecido de quão terrível você podia ser, Lily Evans" ele balançou a cabeça sorridente, e colocou a carta na frente da ruiva "Você ainda tem muito que crescer. Leia essa carta, ela vai te ajudar" mas Lily perdera total interesse na carta, e estava piscando, estática. Dumbledore soava como... Como se soubesse demais.
"Lily Evans?" ela perguntou, levantando as sobrancelhas; todos a chamavam de Lily Potter, naquela vida ridícula.
"Não é esse seu nome?" ele perguntou, e apoiou os dedos indicadores um no outro, e depois os encostou curiosamente na boca, de modo a parecer pensativo; Lily piscou ainda mais, sua semelhança com luzes de Natal desembestadas aumentando sistematicamente.
"Eu... Eu sou Lily Potter, não sou?" ela perguntou, ao que Dumbledore riu mais uma vez e balançou a cabeça; depois, com um suspiro, ele a encarou, e seus olhos azuis faiscavam de uma maneira amedrontadora.
"Nós dois sabemos muito bem que não, certo?"
NA: Eu juro que tentei, pessoal. Eu fiz o meu melhor e mais um pouco... Eu tentei cortar esse capítulo e torna-lo o menos enfadonho possível, mas a tristeza em uma fic de comédia geralmente não tem espaço, e essa história não é apenas uma comédia, e tinha de abrir espaço para essa tristeza, que é uma daquelas tristezas essenciais. Então me desculpem se foi pesado, se foi longo, se foi triste, se não fez com que vocês rissem (apesar de eu amar aparições do Sirius, a qualquer momento); eu fiz o meu melhor e espero que vocês tenham gostado (ou ao menos tragado). Geralmente este capítulo vem acompanhado de comentários de ódio profundo pela Lily do futuro, então eu vou compreender plenamente se vocês forem bastante criativos nas maneiras de fazê-la sofrer. A tortura mais criativa recebe dedicação do próximo capítulo... huahauhau Agora as reviews:
Oliivia, eu espero que você entenda as consequências de não-atualização que vem com a minha morte... Pense duas vezes antes de me matar! huahuahua E o Harry já é complexado... Eu não preciso tratar James e Lily direitinho, então! huahuahua Bem, as boas notícias é que o próximo capítulo é melhor!! YAY!
AnnaMel, obrigada por perceber este detalhe adorável da história de James... Quem sabe um dia eu acabe escrevendo uma shortfic contando sobre seu primeiro beijo, porque eu acho completamente curioso que ele tenha sido com a Murta-Que-Geme... /mas pense em como isso explica a obsessão da Murta pelo Harry!/ hauhauhaa Eu garanto com todo o meu coração que logo, logo a Lily vai perceber mais no James e vai baixar a bola... huahuahau
KiNe Evans, isso se chama "cortar na hora certa para as pessoas quererem ler o próximo capítulo". É maldade, mas é um recurso comum entre os escritores mais sádicos, como eu... hauhauhaua Seja bem vinda, leitora nova-velha, é um prazer ter uma review sua aqui!!! Continue aparecendo, porque eu adoro elogios, e os seus são lindos!
Pikena, siiim, eu atualizo rápido... Minha fic já está escrita, vê? Fica mais fácil assim... hauhauhau E não chore não, vai dar tudo certo... A Lily sofreu e o James também, mas dizem os guias de boa literatura que não existe recompensa sem provação. hauhauah Obrigada pelos elogios e entre para o fã-clube "James? Ô lá em casa!"!!
Mrs.Na Potter, eu senti sua falta! Não deixe de comentar neste capítulo! hauhua Para compensar a judiação do James, eu judiei um pouco da Lily... Mas pense pelo lado positivo! O Sirius apareceu! E quanto a sua fic, eu estou no capítulo dez, e lendo mais a cada dia... Se minha recuperação não me mantivesse mais afastada do computador do que eu acho saudável, eu já teria terminado de ler a fic e comentado, mas como a recuperação é um porre, eu não consigo passar muito tempo no computador sem morrer de dor... Mas espere o comentário logo!
Mel.Bel.louca, sua comparação com "Maria do Bairro" não podia ser mais sensata ou bem-colocada! huahuaahu Pobrezito do James... Talvez eu devesse mudar o nome do meio dele? James Maria Potter? huahauhaua Agora respira fundo, engole sua vontade de me matar depois desse capítulo e espera o próximo, porque eu prometo acender uma vela no escuro!
Mary M Evans, acho que ninguém gosta de ver o James surtando... Ele é um cara muito legal, extremamente paciente e incrivelmente incrível, e para colocar ele numa situação onde ele surta você tem de apertar todos os botões errados... huahua Mas a Lily fez isso, e agora ela passou um capítulo sofrendo por causa disso... Mas eu prometo melhoras, especialmente depois desse elogio feliz que você colocou na review/abraça Mary/ Obrigada mesmoooo!! Você não sabe como eu fiquei feliz ao ver que você acha que eu mereci ganhar... Eu estava concorrendo com DIANA PRALLON! hauhauahua Anyways... Eu não vou postar dois capítulos de uma vez, mas vou postar, em sua homenagem, dois capítulos em vinte e quatro horas!
Camila Carvalho, primeiro eu tenho de mandar fazer a camiseta "Sra. Potter", mas eu prometo que um dia você recebe! huahuahau Quanto a frase "EU VOU TE MATAR...", minha Beta-reader, MariS2, me ensinou repetidas vezes... A quantidade de vezes que ela me xingou, maldizeu e disse que ia me matar me deixou bem preparada para postar essa fic aqui no hauhauhaua Quanto a sua pergunta, a resposta está no sneack-peak a seguir, então divirta-se! hauhaua Espero que as aparições do Sirius - e Marotos em geral - tenham sido o suficiente para te deixar minimamente feliz com esse capítulo... E pense assim: a Lily-coração-de-pedra teve um capítulo inteirinho para se arrepender de dizer aquelas palavras estúpidas! E agora são apenas seis capítulos... Bluh...
Thaty, realmente, a vida da Lily não e fácil... Mas pense bem: ela não facilita nem pra ela mesma nem para o James! hauhauhaua Anyways, a partir de agora ela vai facilitar um pouco, então cruzemos os dedos e esperemos pelo melhor! huahuahua Anyways... Fanfic continuada! xP
Ok, um sneack-peak do próximo capítulo... LUMUS/acende uma vela no escuro/
Ficou chorando por um longo tempo, e quando ela finalmente dormiu, a chuva já havia se abrandado, e parecia cair mais devagar e suavemente, como que dançando. Quando James finalmente voltou, a chuva havia se transformado em neve, e havia se grudado carinhosamente nos cabelos e nos cílios dele, e quando ele se abaixou sobre o sofá, ele tremia, e seus lábios estavam secos e roxos.
Lily estava afundada em almofadas e enrolada em um casaco de lã fino, as pernas praticamente de fora, o vestido enrolado quase até a cintura; ela também tremia, e apesar de já ser quase noite, e várias horas terem se passado desde a hora em que adormecera, ainda havia sinais de que ela havia chorado. James se curvou sobre ela, pousou sua mão sobre a dela que segurava a vivita carinhosamente, abriu espaço e se deitou, a envolvendo nos braços ridiculamente quentes, talvez quentes demais para tal projeto patético de ser humano...
E se alguém se atrever a não elogiar o melhor sneack-peak que eu já coloquei em um capítulo, eu JURO que bato!! hauhauhauha /baba levemente no James/ BEIJOOOOOS!!! E reviewwws!
