Armadilhas do Outono.
Por RubbyMoon
Capítulo 11: Despertar!
Sakura observou o pôr-do-sol. Sentiu uma agradável preguiça antes de voltar de sua caminhada pela propriedade, retornando lentamente para a casa de Pierre. Já podia sentir o delicioso aroma do jantar preparado pela gentil senhora Augustine. Sorriu ao se lembrar dos exagerados mimos da cozinheira, que assumira a tarefa de Tomoyo ao deixá-la mal-acostumada com os excessos de carinho e atenção. Antes de entrar na casa ainda olhou uma última vez para o sol poente e apreciou o luminoso espetáculo da natureza. Sakura sentia-se leve como há muito tempo não sentia devido à paz que encontrou na quietude do campo. Sabia, porém, que os dias de isolamento estavam chegando ao fim, pois enfim decidira o que faria com o restante de sua vida.
Voltaria em breve a Paris e iniciaria um acompanhamento médico. Depois que o bebê nascesse, desfrutaria da ajuda de Tomoyo por mais algum tempo, pois entendia que seria uma época difícil e compreendia que não conseguiria passar por tudo sozinha. Entretanto, não poderia abusar para sempre da hospitalidade de Tomoyo, então procuraria um emprego e moradia na colônia japonesa em Paris. Não queria movimentar sua conta bancária, pois sabia que sua família, principalmente Touya, poderia assim descobrir sua localização. Já havia decidido que quando o bebê houvesse nascido e estivesse com cerca de um ano, contaria a sua família toda a verdade, pois haveria passado tempo suficiente para acalmar os ânimos de todos quanto ao ataque que sofrera.
Respirou fundo, aliviada por ter encontrado uma pequena luz na escuridão que a cercava, porém(,) era estranho perceber que em algum lugar do seu coração vinha surgindo um sentimento conflitante. Nos meses que se passaram desde sua tragédia pessoal, Sakura havia aprendido a conviver com os fatos, claro que não poderia dizer que se conformara. Muito menos havia superado, mas aprendera sim a conviver e entender que sua vida deveria continuar pelo bem do ser inocente que crescia em seu ventre.
Mesmo assim, não entendia o que era esse sentimento que vinha incomodando-a nas últimas horas. A última vez que se sentira assim era o aviso de que algo ruim estava para acontecer e infelizmente ela não entendera os sinais. Dessa vez, porém, ela não se sentia angustiada, somente um pouco apreensiva. Colocou a mão sobre o pequeno ventre arredondado e falou em voz alta para o bebê:
'Não sei o que vai acontecer, mas tenho certeza de que não estamos em perigo! Basta agora esperarmos para ver!' – e finalmente entrou na casa, seguindo o aroma convidativo do jantar.
'Quer fazer o favor de se sentar aqui por um instante e explicar o que aconteceu? Onde está a Sakura?' – Yelan apontava à poltrona - 'Pelo amor de Deus, Xiao Lang! Você está pálido! Eu sabia que ficaria doente mais cedo ou mais tarde, devido a sua falta de descanso e má alimentação!'
'Não seria melhor levarmos Syaoran ao pronto-socorro?' – sugeriu Nadeshiko, diante da palidez e agitação do rapaz.
'Não! Não tenho tempo pra bobagens! Só vim buscar a chave do carro e uma muda de roupa! Preciso partir imediatamente, antes que a Sakura desapareça novamente!' – Syaoran estava no limite da ansiedade.
'Ela não sabe que você está indo atrás dela, então não fugirá! Sente-se e beba um pouco de água, coma alguma coisa, descanse e então quando estiver melhor você poderá partir!' – aconselhou Wei.
'Não me tratem como se eu estivesse doente! Mãe, a senhora escondeu a chave do carro de novo? Devolva-me agora!' – Syaoran explodiu sua irritação. Moveu-se rapidamente e sentiu o mundo todo rodar. Se não fosse Wei a lhe segurar, teria beijado o chão.
'Aqui, Wei, coloque-o no sofá, oh céus!' – Yelan ajudou.
'Estou bem!' – Syaoran mal conseguia abrir os olhos – 'Reconheço que estou um pouco cansado, mas não tenho tempo a perder! A prima, Tomoyo, eu nem acredito que a encontrei, mas a Sakura não estava com ela. Eriol está!'
'Eriol está com Sakura?' - Yelan perguntou confusa.
'Não, está com a prima. Ele a ama!' – explicou Syaoran.
'O quê? Eriol ama Sakura?' – perguntou Wei.
'Não! Sou eu quem ama a Sakura! – Syaoran começou a achar que o sofá era o lugar mais confortável do mundo e também o mais quentinho. Ideal para uma soneca, se ele tivesse tempo...
'Isso nós sabemos!' – explicou Yelan – 'Você não está falando nada com nada!'
'Vocês é que não entendem nada! A prima que me deu o endereço, moça simpática! Um pouco nervosinha, mas legal! Eriol está com a Tomoyo e ela era a amada dele o tempo todo!' – explicou e bocejou. Por que as luzes estavam desaparecendo? Nem era noite ainda...
'Oh meus Deus...' – Nadeshiko colocou a mão sobre o coração disparado – 'Eriol e Tomoyo?'
'O mundo pode ser pequeno mesmo, não é?' – Yelan sorria de orelha a orelha.
'Caramba, isso é melhor do que novela! Queria ser uma mosquinha para poder bisbilhotar esse reencontro!' – vibrou Wei.
'Onde está minha filha, Syaoran? – Nadeshiko perguntou, mas então percebeu de que nada adiantava – 'Vejam, ele adormeceu!'
Yelan cobriu Syaoran com a manta de lã do sofá – 'Ele estava no seu limite e acabou sucumbindo ao cansaço!'
'Eriol e Tomoyo!' – Nadeshiko sorria – 'Por isso a Tomoyo possuía aquela tristeza enraizada! Agora percebo que ela também sofria por amor!
'Uma mosquinha bem pequena, era tudo que eu queria ser agora e voar sobre o reencontro!' – desejou Wei.
Ela tinha orgulho de ser considerada uma pessoa exemplar. Era constantemente citada como referência em equilíbrio e paciência, principalmente por ser diplomática em situações complicadas e sempre ostentava um gênio cheio de bom humor. Porém, nada havia lhe preparado para aquele momento. Não sabia o que dizer e muito menos como deveria agir.
Tomoyo não conseguia acreditar que Eriol estava ali bem na sua frente, ainda mais depois de ter se convencido de que jamais voltaria a vê-lo por toda a sua vida.
Respirou fundo e caminhou até a janela da sua sala de estar. Olhou a adorável paisagem de Paris. Aquilo sim era a verdade. Aquela paisagem era real, as pessoas caminhando pelas ruas eram reais. A vida fluindo a cada esquina era a realidade. O que era fruto de sua imaginação fértil, pura fantasia, truque de sua mente cansada e preocupada, era a sensação de que ali, na mesma sala que ela, estava exatamente a pessoa com a qual ela jamais deveria voltar a se encontrar.
Isso mesmo, tudo era parte de sua imaginação. Eriol não estava ali. Não estava.
Ela realmente deveria estar ficando louca, pois agora ela até conseguia sentir o calor familiar da presença de Eriol parado bem atrás dela. Como que pra confirmar que estava sofrendo de alucinações, ela conseguia até mesmo sentir o toque suave das mãos dele em seus braços, forçando-a a se virar e a olhar diretamente para ele, dentro do oceano de seus olhos cheios de emoção.
Com suavidade ele deslizou sua mão em sua face e Tomoyo sentiu o corpo inteiro estremecer, reconhecendo as sensações que ele costumava despertar em todo o seu ser com apenas um toque. Oh Deus! Aquilo não era uma fantasia e sim a realidade. Nem em seus sonhos mais doces Tomoyo conseguira encontrar aquela sensação, aquele calor. Seus lábios tremeram e uma lágrima escorreu por sua face. A felicidade há tanto tempo esquecida encontrara uma brecha em sua armadura e invadira sua alma.
'Tomoyo!' – Eriol disse com emoção e a abraçou, desejando estar colado ao corpo dela, reconhecendo seu calor, sua forma, seu perfume.
'Você está aqui! Está aqui!' – ela também o abraçou desesperadamente – 'Não deveria! Não deveríamos! Nunca mais deveríamos nos encontrar!' – disse cheia de dor.
'Impossível! Seria o mesmo que pedir para o planeta parar de girar, ou fazer com que o sol nunca mais voltasse a brilhar! São coisas impossíveis e é por isso que estou aqui! Não podia mais ficar longe de você e estive te procurando por muito tempo!'
Então era isso que ele esteve fazendo em Paris, pensou Tomoyo. Esteve procurando por ela por muito tempo, ele dissera. Ela sentia o coração batendo desenfreadamente. Havia vindo por ela.
'Mas Eriol... e a promessa que você fez aos nossos pais?'
'Foi a coisa mais estúpida e infeliz que fiz em toda minha vida! Hoje sei que você também foi obrigada a fazer uma promessa ao seu pai! Sei o quanto você foi nobre!'
'Eu precisava fazer algo por você! Percebi o quanto estava desesperado e temia pela vida de seu pai!'
'Hoje meu pai está com uma excelente saúde! Depois que me rebelei e virei às costas para a sua empresa, disse a ele que voltaria a procurar por minha felicidade! Devo confessar que ainda sentia um pouco de culpa por voltar a te buscar, mesmo conhecendo os riscos pela quebra da promessa, porém eu estava forte em minha decisão!'
'Você não deve sacrificar sua herança! Não quero ser a causa de desentendimento entre pai e filho!' – ela tentou se afastar dele, mas ele a segurou com firmeza.
'Não há desentendimento algum! Assim como você, estive longe da Inglaterra por muito tempo! Até mesmo minha família não possuía autorização para me procurar, a não ser se estivessem a fim de briga! Isso não intimidou meu pai, e alguns meses atrás ele veio me devolver a liberdade! Ele vendeu a empresa! Passei a te procurar sem sentir culpa!'
'Ele vendeu a empresa?' – Tomoyo sentiu um raio de esperança brotar em seu coração – 'Mas era a sua herança!'
'Eu resolvi fazer outra coisa de minha vida no dia que voltei a procurá-la! Eu sabia que seu pai poderia cobrar nossas dívidas e eu já não me importava em perder a empresa. Começaríamos do zero novamente!'
'O que você esteve fazendo por todo esse tempo?' – ela perguntou ainda assustada pela enxurrada de novidades que ele despejava a cada instante.
'Estudando! Segui a sua pista até o Japão, onde estive no último ano! Por um momento eu perdi a esperança de reencontrá-la e não me orgulho do que me tornei! Porém em relação aos estudos encontrei minha vocação! Estou cursando medicina e sou muito bom nisso!' – ele sorriu de forma convencida.
'Medicina? Como é possível? Ainda me lembro daquela vez que precisei levá-lo ao hospital e você quase desmaiou quando a enfermeira ia aplicar a...'
'Ei, ei, ei... se vamos começar a recordar os velhos tempos, que seja então sobre lembranças mais interessantes, como por exemplo, o modo como você costumava ficar com as bochechas coradas depois de um beijo longo e quente!'
'Isso não é verdade, eu...'
Tomoyo não teve tempo de argumentar, pois os lábios de Eriol desceram sobre os seus de forma saudosa, sôfrega, fazendo tudo que havia em sua mente desaparecer para só existir um turbilhão de sensações, necessidades e desejos. Ela se agarrou a ele como se sua vida dependesse daquele contato. Não imaginou o quanto esteve ferida e solitária, por todo tempo que esteve longe dele. Dessa vez era real, não era outro sonho que virava pesadelo de saudade no momento em que acordasse.
'Eu sabia! Elas estão rosadas!' – ele avaliou.
'Rosadas?' – ela tentava recobrar o fôlego e se lembrar do próprio nome.
'Suas bochechas!'
'Ah... Só rosadas? Acho então que não está de acordo com suas lembranças, afinal você disse que elas costumavam ficar vermelhas!'
'Será que não foi um beijo quente e longo o suficiente? Talvez devêssemos tentar novamente?'
'Só para ver se suas recordações estão corretas, é claro!'
'Sim, só pra tirar a dúvida! Como senti sua falta, Tomoyo!' – disse e a beijou de forma ainda mais intensa.
'Ainda não acredito que você está aqui! Pensei que nunca mais poderia sentir isso novamente!' – ela se abandonou em seus braços com alegria.
'Estou bem aqui e não quero perdê-la nunca mais!' – sussurrou ele, com os lábios percorrendo todo o rosto amado. – 'Então se certifique de que é isso que você deseja! Lembre-se de que você fez uma promessa ao seu pai!'
'Sim! Eu quero! Tenho certeza! Se meu pai quiser me impedir, ele que me processe se tiver coragem!' – ela sorriu, permitindo-se sentir esperança e júbilo depois de tanto tempo.
'Graças a Deus!' – ele respirou aliviado – 'Pensei que você poderia me expulsar e então eu seria obrigado a te sequestrar e em seguida levá-la pra um lugar longínquo, no alto de uma montanha, onde viveríamos de forma primitiva, enquanto eu a manteria amarrada e me aproveitaria de minha prisioneira.
'Você sempre teve esse dom! De me fazer rir!' – ela sorriu de forma verdadeira, como há muito tempo não se permitia.
'É porque amo vê-la sorrir. Quero sempre vê-la sorrir para mim! Promete que sorrirá para mim sempre que puder?' – inclinando-se sobre ela, ele esfregou de leve os lábios sobre os seus ombros.
'Prometo!' – uma sensação quente se espalhou pelo seu corpo, fazendo seus nervos pulsar. – 'Contanto que sempre me faça sentir dessa forma!'
'Eu farei!' – os lábios dele deslizavam ao longo de sua garganta agora, excitando-a – 'Seu perfume me deixa louco! Não faz idéia do quanto senti falta desse aroma.'
'Oh Eriol, beije-me!' – havia desejo na voz dela. Eriol não conseguiu se segurar.
Sua boca tomou a dela de uma forma quente, forte, dolorida, como se a estivesse marcando a fogo. Ele mudou de gentil para possessivo rapidamente e para Tomoyo a sensação era tão avassaladora que ela não pôde fazer nada, a não se ser se segurar enquanto ele a consumia.
Amor, ela pensou, com a mente girando. Ela sempre havia amado apenas aquele homem que a segurava em seus braços, onde ela se abandonava com segurança. E aquele beijo de tirar o fôlego era muito melhor do que todos aqueles que ela experimentara em seus sonhos. Muito melhor. Em um sobressalto de desejo ela respondeu às exigências do beijo dele com as suas próprias. Não, aquilo não era puro desejo, compreendeu. Era desespero completo.
Ela puxou-lhe a camisa, irritada com os botões, puxando-a para cima, desenroscando de sua cabeça. Queria enfiar os dedos em sua carne, sentir seus músculos.
'Sempre tomou a iniciativa, não é mesmo?' – ele beijou-lhe o ouvido.
'Você sempre me deixa com essa sede!' – Os gemidos baixinhos e constantes que ela emitia quando ele a tocava e saboreava penetraram e espalharam em seu sangue.
A iluminação do apartamento mudava lentamente e já escurecera devido ao anoitecer. Eles eram duas sombras que se misturavam na penumbra, como se fossem amantes secretos.
A respiração dela se tornou mais ofegante, quando ele a fez se arquear para que pudesse se banquetear ao longo da linha de sua garganta. Ela estremeceu quando ele afastou seu casaco que caiu de qualquer jeito, suas mãos sobre os seus ombros afastaram as tiras da blusa que havia por baixo, seus lábios fazendo o mesmo caminho que suas mãos percorreram antes, até livrá-la daquela barreira de pano. Os dedos dele brincaram sobre a renda do sutiã que não tardou a cair sobre a pilha de roupa que se acumulava ao chão. Ela tornou-se líquida no momento em que ele deslizou a língua em seu seio.
De forma quase reverente, Eriol começou a mover as mãos sobre ela recordando os caminhos que eram tão sensíveis ao seu toque. A inclinação dos ombros, a curva dos seios, a linha do torso. Abrindo o botão da calça dela, na altura da cintura, ele puxou o zíper para baixo. Lentamente.
Mais tarde eles poderiam se perguntar quando foi que encontraram o caminho para o quarto e se deixaram deslizar sobre os lençóis da cama, mas no momento o único desejo que possuíam era de dar amor e prazer um ao outro.
Ele não se apressou. Enquanto o desejo se tornava cada vez maior, Tomoyo se agarrava aos lençóis com força para não suplicar. Eriol saboreava seu pescoço, seguindo para os seios e barriga, onde se demorou brincando com seu umbigo.
'Senti falta do seu sabor mais do que tudo. Talvez você não compreenda o quanto pode tornar um homem viciado na delícia de seu sabor. Alimente-me, Tomoyo, nunca mais desejo sentir fome de você!'
'Façamos um trato! Eu o alimentarei se me deixar sempre beber de você. ' – ela disse quase sem fôlego – 'Por muito tempo estive no deserto e finalmente encontrei a fonte que desejo! Devemos saciar nossa fome e nossa sede!'
'Façamos então um banquete!'
Ele esmagou sua boca de encontro à dela e abafou seu grito no exato momento em que a penetrou. Ela se arqueou de prazer, e se fechou em torno dele, sua carne umedecida pressionada fortemente contra a dele.
De forma lenta e suave, profunda e constante, eles se moveram juntos. A cada instante que ela tentava buscar ar, sentia seu sangue correr cada vez mais depressa. Ele se viu perdido nela, aprisionado pelas emoções que ela criava em torno e através dele. Deixou-se arrastar pela correnteza de sensações causada por cada carícia, em cada sabor, em cada palavra.
Não demorou muito e o prazer máximo atravessou Tomoyo com tanta força que fez com que vibrasse forte, sentindo-se indefesa e trêmula. Eriol a olhava com encantamento, contemplando as lágrimas no rosto amado. Quando ela sussurrou seu nome com tanto amor, ele não suportou a beleza daquilo, e então tudo dentro dele desabou.
Wei acordou às três da manhã de seu sono leve, ainda preocupado com Syaoran. O jovem mestre literalmente desmaiara de cansaço após a forte emoção de sentir que estava na reta final de sua busca. O empregado havia preparado uma pequena bagagem, para que quando Syaoran despertasse pela manhã pudesse partir, deixando-a ao lado da entrada do apartamento.
Não conseguia parar de se preocupar com o jovem que ajudara a criar como se fosse um filho. Ainda acalentava a esperança de que Syaoran permitisse que ele fosse junto em sua busca, ou então poderia pelo menos aproveitar esse momento de felicidade de Syaoran e convencê-lo a tomar um desjejum caprichado.
Teimoso era uma palavra que descrevia Syaoran com perfeição, disso Wei não tinha dúvidas. Era só dar uma olhada no rapaz para perceber que havia lentamente adoecido por falta de descanso e alimentação. Jamais pensou que veria alguém adoecer de amor na vida real, assim como assistia em suas novelas favoritas, ainda mais alguém que lhe era tão estimado. Se pelo menos o jovem não fosse tão obstinado, teria aceitado os cuidados que ele, a senhora Yelan e a amiga Nadeshiko se desdobravam para dar já, que ele mesmo não os tomava. A cada pista errada ou falsa na busca por Sakura o deixava mais doente, porém, desde que chegou a Paris, o rapaz encontrara certa esperança e começou a cuidar-se um pouco. Com certeza não fora o suficiente.
Wei chegou à sala e conferiu o sofá onde Syaoran adormecera naquela tarde. Com forte dor no coração percebeu que seu ocupante não se encontrava mais ali. Olhou onde havia deixado a bagagem na entrada e a mesma não estava lá. Conferiu a temperatura do sofá e constatou que estava frio. Syaoran havia partido há bastante tempo.
'Garoto teimoso! Por favor, tome cuidado!'
Por algum tempo não falaram nada. Provavelmente horas passaram, até que Tomoyo despertou do merecido sono depois de viver emoções tão intensas nas últimas horas. Ela mantinha a cabeça sobre o ombro de Eriol, sentindo sua mão possessiva em seu quadril. Olhou para a parca luz do luar que penetrava em seu quarto através das cortinas. Devia ser madrugada avançada.
Estava feliz por finalmente reencontrar o motivo de seu viver. Mais uma vez conseguia vislumbrar um futuro de amor verdadeiro, da forma que costumava sonhar quando conheceu e se apaixonou por Eriol. Porém a felicidade não poderia ser completa.
Era de sua natureza se preocupar e proteger a todos que amava. Jamais poderia deixar de lado sua preocupação por Sakura. Sabia que estava perto de descobrir os temores de sua prima e quem sabe assim poderia agir e fazer algo que a ajudasse em sua misteriosa situação. Em seu íntimo sentia que já havia dado o primeiro passo para tirá-la do labirinto em que Sakura se encontrava. Ao dar o endereço da localização de Sakura a Syaoran, sentiu de alguma forma que era o certo a se fazer. Respirou profundamente chamando a atenção de Eriol.
'O que foi?' – ele perguntou acariciando as costas dela.
'Acordei você?' – ela o olhou.
'Não! Faz alguns minutos que despertei!'
'Eu também!'
'No que pensava que parece roubar seus pensamentos de mim?'
'Em Sakura! Você a conheceu, pelo que entendi!'
'Sim! Estudamos no mesmo local! Isso se ela retornar algum dia! Fugiu deixando a família e meu melhor amigo em desespero!'
'Seu melhor amigo? Esse rapaz que procura por Sakura? O tal Syaoran?'
'Ele mesmo! Estão envolvidos e se amam há muito tempo! Eram prometidos!'
'Eu não posso crer!' – ela sentou-se sobre as pernas diante o espanto – 'Esse Syaoran é aquele que uma vez Sakura comentou comigo que estava com casamento arranjado? Eu não acredito que essas coisas aconteçam em pleno século XXI!'
'Talvez não aconteçam, mas é a verdade! Syaoran ficou curioso por Sakura ter rompido o compromisso e foi ao Japão conhecê-la! A princípio ele planejava apenas dar uma olhada nela, sem se anunciar, enquanto dava um tempo nas obrigações que o aguardam nos negócios da família. Por rebeldia começou a fazer medicina e na mesma turma que eu. Ficamos amigos imediatamente. Claro que eu não sabia que ele procurava a Sakura! Foi uma comédia presenciar a relação desses dois!' – ele sorriu recordando.
'Conte-me, por favor!' – Tomoyo sorria ao imaginar a história que vinha pela frente.
'Acontece que a única pista que Syaoran tinha do paradeiro da Sakura era um cartaz que ela costumava deixar no mural da universidade anunciando um quarto vago para alugar em seu apartamento no campus! Um belo dia eles se esbarraram e ele decidiu conhecê-la melhor. Perguntou se ela não estaria disposta a dividir o apartamento com um rapaz! Só que meu bom amigo não mencionou o detalhe de que era o ex-noivo para a Sakura! Achou que ela o colocaria numa caixa e enviaria pelo correio de volta a Hong Kong!'
'Oh, agora me lembro! Sakura me disse que dividiria o apartamento com esse sujeito! Eu fiquei desesperada porque viajaria no dia seguinte para Paris e achava que ela estava em perigo com algum tarado. Ela me acalmou e garantiu que ele era gay!'
'Gay?' – Eriol ria com gosto – 'Não posso me esquecer de tirar sarro de Syaoran depois! Não, Tomoyo, ele não é gay e posso lhe assegurar que esses dois foram feitos uma para o outro! Logo quando se conheceram, Syaoran estava morrendo de ciúmes ao imaginar que Touya fosse namorado da Sakura, afinal ele não sabia que ela tinha um irmão mais velho. Você precisava ver que hilário! Eu sabia que eram irmãos, mas não contei a ele. Sei que fui mau, mas não resisti!'
'Eriol, você é impossível! Diga-me como ele descobriu!'
'Syaoran pensava que Touya enganava a Sakura com a namorada dele, a Rika, então causou uma confusão ao dizer a Rika que ela era a outra do Touya! Só sei que a Rika terminou com o Touya e seu primo desapareceu! Então a senhora Nadeshiko surgiu preocupada e descobriu Syaoran com a Sakura. Com a situação explicada, Touya e Rika se entenderam e até decidiram começar os planos de casamento. Sakura e a mãe fizeram as pazes. Foi nessa ocasião que a Sakura descobriu que Syaoran era o ex-noivo, mas não contou a ele que sabia!'
'Essa Sakura... e ela brigou com ele?'
'Não! Colocou o pobre em situações terríveis para que contasse a verdade. Primeiro a presença constante da mãe dela deixava Syaoran desesperado, e como se não bastasse, a própria mãe do meu amigo apareceu no Japão em visita! Todos sabiam que Sakura conhecia a verdade, menos ele próprio!'
'Ela se apaixonou por ele?' – Tomoyo descobrira que sim, mas queria ouvir mais da história.
'Sim, os dois se amavam muito e a cada dia Syaoran estava mais feliz! Ele sabia que Sakura desejava mais que tudo se formar em arqueologia por seus próprios méritos. Então esperou com calma até que ela entregasse o projeto mais importante que preparava há muito tempo. Ele não se importaria de esperar ao lado dela até que concluísse o curso, e até aproveitaria para estudar também. Naquele dia, o da entrega do projeto de Sakura, ele me mostrou a aliança. Ele a pediria em casamento e estava nas nuvens com tanta ansiedade!'
Eriol sorriu ao lembrar, de um modo que somente um amigo de verdade era capaz de sorrir pela felicidade de seu amigo. Então seu sorriso desapareceu e a dor tomou conta de seu rosto. Tomoyo sentiu um peso imediatamente.
'Oh céus, conte-me o que aconteceu! Por que sinto no peito que algo deu errado?'
'Algo deu errado sim, Tomoyo!'
Eriol olhava os olhos preocupados de Tomoyo e lutou internamente com seus princípios sobre revelar ou não o que acontecera a Sakura. Por fim decidiu que não tinha esse direito, porém poderia dar a situação a entender e Tomoyo concluiria por si própria sendo sensível como era.
'Algo aconteceu! Nem Sakura e nem Syaoran tiveram culpa!' – ele media com atenção suas palavras – 'A Sakura passou por um episódio que nenhuma pessoa, seja homem ou mulher, adulto ou criança, deveria passar!' – ele fechou os olhos, por um momento, tentando ocultar de Tomoyo o horror que ele sabia da história – 'Depois disso, Sakura não foi a mesma. Evitou a todos, fossem da família, amigos e até mesmo Syaoran. Então um dia desapareceu e agora sabemos que veio para cá!'
'Meu Deus, Eriol... ela... ela, Sakura foi atacada? Abusaram dela, foi isso que aconteceu, não foi? – as lágrimas escorriam de seus olhos pela compreensão encontrada. – 'Ela ficava nervosa em meio a multidões, preferia ficar isolada, evitava contato com o sexo oposto, só faltava sair correndo quando um homem lhe dava atenção! Passou algum tempo para que voltasse a conversar normalmente com um!' – ela levou as mãos à face e escondeu o pranto – 'Oh, meu Deus! As pistas estavam lá e eu não fui capaz de entender! Que droga de prima que eu sou!'
'Venha cá!' – Eriol puxou Tomoyo para seus braços e beijou-lhe os cabelos – 'Não se martirize! Sakura não estava pronta pra falar sobre o assunto! Quando ela conseguir falar, tenho certeza de que ela procurará você para desabafar! Talvez seja por isso que ela tenha vindo ficar com você!'
Tomoyo parou de chorar e Eriol ficou aliviado, entretanto o alívio ficou de lado quando ele tornou a ver que ela tremia e olhava para ele em desespero.
'O que houve?' – ele perguntou.
'Talvez não seja por isso que ela veio me procurar... agora realmente entendo porque Sakura fugiu de todos vocês! Acho que ela já sabia que havia ficado... droga, droga, droga! Preciso voltar imediatamente!' – ela se levantou e andou de um lado para o outro decidindo que precisava voltar ao campo o quanto antes. – 'Mandar seu amigo até ela foi um erro! A coisa vai ficar ainda pior na cabeça da Sakura! Preciso estar lá para quando ela precisar e acredite, ela vai precisar!'
'Não estou entendendo, Tomoyo! Sakura fugiu por quê? Por que mandar Syaoran até ela foi um erro?' – ele a segurou por um instante.
'Sakura não sofreu apenas marcas emocionais e físicas com o abuso, Eriol! Ela ganhou uma lembrança mais sólida! Ela... ela... Sakura está grávida e um bom observador conseguiria entender depois de uma boa olhada!'
Eriol retrocedeu até sentar-se na cama, pois ficou sem chão por um momento.
'Grávida? Meu Deus, essa garota deve ter sofrido muito quando percebeu!' – Eriol passou a mão sobre o rosto tentando aliviar os maus sentimentos que o atormentavam.
'Eu não entendo a razão para ela ter fugido e vindo até aqui, ao invés de ter interrompido a gestação enquanto ainda havia tempo!'
'Só se ela achar que a criança que vai ter também possa ser do Syaoran!' – Eriol disse após pensar. Tomoyo sentou-se ao lado de Eriol, avaliando essa possibilidade.
'Ela deve estar pensando isso e tudo que podemos fazer por ela é torcer para que assim seja. Como acha que seu amigo reagirá?'
'Eu não sei dizer, Tomoyo! Mas ele a ama muito, ficou doente de desespero quando ela o deixou. O Syaoran que você viu hoje não é nem a pálida lembrança do que ele costumava ser quando os dois viviam juntos!'
'Confesso que mesmo se eu correr para ficar ao lado de Sakura nesse momento, talvez não exista nada que eu possa fazer para ajudá-la com esse problema. Não é de meu estilo sentar e esperar, mas vou dar um voto de confiança a seu amigo e torcer para que o amor que ele sente por minha prima possa ajudar a curar as suas feridas profundas!'
'Vamos dar um tempo aos dois! Pela manhã vamos ao encontro de sua tia primeiro, a senhora Nadeshiko deve estar ansiosa por notícias, mas talvez você deva ocultar a parte da história que diz sobre Sakura estar grávida, pelo menos por enquanto!'
Sakura estava inquieta. Ficara acordada a maior parte da noite preocupada com algo que não sabia o que poderia ser. Quando adormeceu já era quase dia e mesmo assim dormiu muito pouco. Desistiu de ficar no quarto quando marcavam sete horas da manhã. Arrumou-se com uma roupa leve, pois o dia estava lindo e espantosamente quente. Quando chegou à cozinha encontrou a cozinheira atrapalhada correndo de um lado a outro.
'Bom dia, senhora Augustine!'
'Bom dia, querida! Vejo que caiu da cama tão cedo, o que me é favorável, pois precisava mesmo falar urgente contigo, menina!'
'Está acontecendo algo?' – Sakura sentou-se numa banqueta. – 'Posso ser útil de alguma forma?'
'Não se preocupe, não está acontecendo nada de sobrenatural! Acontece que irei me ausentar pelo resto do dia e talvez precise ficar fora até amanhã! Minha filha mais nova, aquela que eu lhe disse que também estava grávida, só que do terceiro filho, pelo visto o menino dela resolveu visitar esse mundo mais cedo! Esperávamos que viesse daqui a uns vinte dias, mas ele está pedindo pra vir hoje mesmo e parece que não se trata de nenhum alarme falso!'
'Que maravilha, todos devem estar ansiosos pela vinda de mais uma criança na família!'
'Sim, estamos sim! Mas é uma pena que eu precise me ausentar, ela mandou me chamar e faz pouco tempo que recebi o telefonema! Não me agrada deixar uma convidada de Pierre sozinha enquanto me ausento, porém não há outro modo!' – a mulher corria de um lado para o outro da cozinha aprontando alimentos. Então abriu a geladeira e indicou: 'Esses potes da esquerda são o seu almoço e os potes da direita são o seu jantar! Ainda há todas essas frutas e assei um bolo de chocolate para o seu lanche! Esses potes que acabei de preparar, os que estão no balcão, são alimentos que não necessitam ficar na geladeira!'
'A senhora esqueceu que sou somente uma? Há comida aqui para um time de vôlei!'
'Somente uma não, querida! Estou alimentando você e o filho que está carregando, o que me deixa ainda mais desconfortável por abandoná-la!'
'Pois não fique desconfortável! Ficarei bem, não sou criança, sabe? Logo terei um bebê, assim como a sua filha! Agora corra pra se juntar aos seus!'
'Ainda tenho tempo suficiente para lhe arrumar a mesa para o café da manhã e...'
'Não se preocupe! Acho que irei para aquele cantinho maravilhoso lá fora, aquele do jardim que tem as espreguiçadeiras, e levar um bom livro e algum alimento. Passarei a minha manhã debaixo desse sol que o céu nos deu hoje! A senhora se apronte imediatamente e vá em paz ficar ao lado da sua filha que precisa muito mais de ti do que eu!'
'Mas...'
'Mas nada... agora vá!' – Sakura deu um empurrãozinho de incentivo à senhora rechonchuda.
Sakura foi ao seu quarto e agarrou o cobertor de lã de sua cama e o livro de aventura que vinha lendo nos últimos dois dias. Retornando até a cozinha, preparou um pequeno cesto com alimentos, uma garrafa térmica com chá bem quente e alguns doces que a exagerada senhora Augustine preparara para pelo menos uma dúzia de pessoas. Juntou tudo e se colocou a caminho do jardim. O sol bateu em seu rosto e imediatamente ela se sentiu energizada com seu suave calor. Passaria o dia numa confortável espreguiçadeira tendo como companhia as aventuras do livro com seus heróis e mocinhas cativantes. Não demorou muito tempo e a senhora Augustine veio lhe dar novas recomendações e verificar mais uma vez se ela precisava de alguma coisa.
'Se por um lado me livro dos mimos da Tomoyo, por outro a senhora assume a missão de fazer com que eu me sinta uma criança!'
'Deixe de bobeira! Está bem confortável? Tem tudo de que precisa?' – a cozinheira baixinha arrumava as almofadas que trouxera para Sakura passar horas confortáveis ali se desejasse.
'Está tudo perfeito!'
'Então está tudo bem, aqui está o telefone sem fio, não se preocupe que funciona bem até mesmo nessa distância. Caso precise de qualquer coisa disque o número três da memória, é o da casa do nosso vizinho Luc. A governanta dele, minha velha amiga Louise, virá atendê-la. Já combinamos tudo! Agora vou embora, antes que meu neto resolva fazer sua estréia nessa vida sem a minha presença! Até logo, jovem!'
'Até logo e mande meus votos de felicidade a sua família!'
Sakura se acomodou de forma confortável nas almofadas fofas e se cobriu com o cobertor de lã. O sol fraco chegando até ela através das folhas da copa de uma árvore também a aquecia. Ao longe ouviu o carro da senhora Augustine saindo da propriedade. Estava completamente sozinha. Não demorou muito para abandonar a leitura e beber um pouco de chá e comer um pêssego. Ouvia somente o canto dos pássaros e o ruído de alguns insetos distantes.
A verdade é que estava apavorada por ficar sozinha. Sabia que era bobagem sentir tanto medo, mas não conseguia evitar. Antes sempre havia alguém por perto, à distância de um grito de socorro. E para piorar, havia esse sentimento estranho a perseguindo desde o dia anterior. Começou a respirar fundo para não começar a sentir os efeitos físicos que um ataque de pânico costumava lhe causar. Fechou os olhos e se concentrou em pensamentos felizes.
Então aconteceu. Sakura sentiu no interior um movimento que lembrava uma carícia, quase irreal por sua fragilidade. Paralisou e permaneceu muito quieta, aquecida pela coberta e o calor do sol. Estirada na espreguiçadeira, sorriu para si mesma. Uma vez mais voltou a senti-lo, esta vez com mais intensidade. Deslizou a mão até seu ventre, como se estivesse em um sonho, e seus pensamentos se esclareceram repentinamente. Lágrimas de alegria brotaram em seus olhos e, se precisasse descrever a emoção daquele momento, jamais encontraria palavras. Seu bebê se movia pela primeira vez de forma que ela sentisse. Era como se ele houvesse sentido seus temores e tentasse acalmá-la. Depois de chorar um pouco adormeceu onde estava devido ao cansaço da noite insone.
Suas pernas pareciam movimentar-se por vontade própria. Syaoran sentia-se exausto, o corpo pesava, os olhos clamavam por descanso e seu pensamento estava desconexo. Em alguma parte do trajeto se deu conta que sentia fome também. Porém não havia tempo para descanso, nem para alimentação. Precisava encontrar Sakura. Ela precisava dele e ele precisava dela. Segundo o endereço dado por Tomoyo ele estava no local correto.
A casa era linda vista de fora e ele tinha certeza de que por dentro deveria existir bastante conforto. Estava feliz por saber que Sakura estivera bem acompanhada a maior parte do tempo, pela prima que tanto amava. Olhou ao redor e notou o jardim enorme, um pouco judiado pelo inverno, mas ainda belo. Havia alguém ali e não demorou muito a perceber que era Sakura e que ela estava adormecida. Teve que conter sua agitação por correr e tomá-la em seus braços. Sabia que quando esse momento chegasse não poderia agir impulsivamente, não depois de Sakura ter passado por aquela terrível experiência. Tentando controlar o coração acelerado e a emoção de seu corpo, aproximou-se lentamente a contemplando.
Sakura despertou e abriu os olhos ao sentir que alguém se aproximou. Primeiro viu as pernas de alguém em frente a ela e soube que pertenciam a um homem. Agitada, tentou ver quem era, mas o sol cegou seus olhos e movida pelo medo tentou se levantar e fugir se necessário. Entretanto a pessoa sentou-se ao seu lado e a segurou levemente no local.
'Calma! Sou eu, Sakura!' – Syaoran percebeu o crescente medo desde a hora que Sakura despertou.
Sakura reconheceria aquela voz até mesmo se estivesse de olhos fechados. O medo inicial deu lugar ao espanto. Ela então fitou seu rosto e o espanto só fez aumentar. Syaoran estava muito diferente. O que havia acontecido com ele?
'Syaoran... como que... quando? O que está fazendo aqui?' – ela conteve a vontade de esticar o braço e tocá-lo na face.
'Vim te buscar! Acho que está na hora de parar de brincar de esconde-esconde conosco, Sakura! Confesso que estou muito cansado desse jogo!' – disse e bocejou.
'Como me encontrou?'
'É uma longa história!' – ele agitou a cabeça tentando afastar o sono, mas acabou ficando com tontura.
'Você está bem?' – Sakura percebeu o momento em que ele ficou pálido.
'Estou ótimo! Eu tenho tudo que preciso exatamente aqui!' – e segurou a mão dela – 'Mas se eu pudesse descansar um pouco, por um instante... é que foi uma longa busca!' – ele se acomodou ao lado dela na espreguiçadeira e fechou os olhos.
Sakura tentou se levantar, não acreditando na situação toda desde a chegada Syaoran, porém percebeu que apesar de Syaoran ter adormecido, segurava sua mão firmemente e ela não conseguia se afastar. Ela ficou ali tentando entender o que estava acontecendo. Syaoran a havia encontrado no lugar mais improvável para se buscar, porém ele estava ali e segurava sua mão como se agarrasse uma bóia salva-vidas no meio de uma tormenta no mar. Tentou acordá-lo, mas ele murmurou algo incoerente e continuou a dormir. Não havia outro modo a não ser esperar ele acordar para obter respostas.
Cerca de meia hora passou e ela continuava ali, presa pela possessiva mão de Syaoran. Aproveitou para observá-lo. Havia algo errado com ele. Estava magro, pálido, talvez até mesmo doente. Apesar disso, era belo o bastante para fazer seu coração bater enlouquecido e dolorido ao mesmo tempo. Ela sabia que um momento de aflição se aproximava quando fosse preciso confrontar Syaoran, dizendo-lhe que não havia mais futuro envolvendo os dois. Tudo seria mais fácil se ele já houvesse entendido isso.
Ela havia morrido no dia que aquele homem horrível abusou dela e a Sakura que vivia agora era a sombra nascida dos cacos quebrados da antiga. Além disso, era provável que ela estivesse gerando o resultado daquele dia fatídico. Jamais poderia envolver Syaoran naquela situação e não esperava nada dele, nem a mínima compreensão. Ele precisava acordar e ir embora antes de perceber que ela estava grávida. Levou um susto ao ouvir tocando o telefone que a senhora Augustine lhe dera mais cedo. Percebeu que Syaoran nem se moveu com o estridente toque. Ao atender, percebeu que as surpresas não acabariam quando Syaoran surgiu, pois na linha estava sua mãe.
'Você está bem, Sakura?' – Nadeshiko segurou a vontade de chorar.
'Estou bem, mãe! O que está acontecendo? Eu pedi um tempo e agora estou conversando com a senhora e com Syaoran preso a minha mão enquanto dorme como se houvesse virado pedra!' – Sakura sussurrava pra não despertar Syaoran.
'Graças a Deus ele chegou! Pensávamos o pior por falta de notícias! Ele não está bem, Sakura!'
'Isso eu já percebi! O que aconteceu com ele?'
'Desde que você desapareceu, ele não faz mais nada a não ser procurá-la! Nunca descansa e não se alimenta! Não há dúvidas de que ele acabou ficando doente de fraqueza!'
'Ficou assim por minha causa?' – Sakura sentiu os olhos vacilarem com as lágrimas.
'Não se culpe! Ele não precisava levar a situação ao extremo porque não te encontrava! Só espero que você tenha um pouco de consideração com ele antes de negar-lhe o que ele espera de você! Deixe-o ao menos se recuperar um pouco!' – Nadeshiko suspirou cansada – 'Você não sofreu sozinha, filha! Sua dor é nossa dor e não importa onde se esconda, ainda pensaremos em você e te amaremos!'
'Sinto muito, mamãe! A senhora tem razão, mas não posso permitir que Syaoran se aproxime de mim e não quero lhe dar falsas esperanças! Ele precisa ir embora assim que acordar!'
'Você vai mesmo ter coragem de mandá-lo embora da maneira em que ele se encontra? Pense bem, Sakura, pois se algo acontecer a ele não conseguirá conviver com essa culpa!'
'Droga, afinal o que vocês querem de mim? Eu não tenho nada para dar, não sobrou nada de mim!' – irritou-se profundamente. Será que ninguém a entendia?
'Não queremos que você nos dê nada, filha! Só queremos lhe dar. Aceite nosso carinho, nosso amor, nossa presença, nossos corações!' – Nadeshiko não escondeu a voz de choro. – 'Volte para nós, Sakura!'
'Eu não sei!' – Sakura respirou cansada – 'Sinto sua falta, mãe! Preciso da senhora nesse momento mais do que eu imaginava! Vou pensar melhor e depois decido! Prometo que vou ligar o quanto antes!' – disse e desligou.
Syaoran continuava dormindo e Sakura puxou o cobertor que a cobria e o cobriu também. Acabou contagiada pela sua calma e mesmo lutando contra o sono, não conseguiu manter-se acordada. Adormeceu junto a ele.
'Estão juntos?' – Wei perguntou.
'Sim, parece que Syaoran chegou bem lá!' – Nadeshiko secava as lágrimas que ainda rolavam por seus olhos.
'Desculpe-me, tia Nadeshiko! Eu não sabia que estavam sofrendo tanto com a vinda de Sakura! Ela não me contou o real motivo de estar se escondendo!' – Tomoyo se lamentou.
'Não se desculpe!' – Nadeshiko abraçou a sobrinha – 'Quando descobri que ela só poderia estar com você fiquei imensamente feliz! Eu sou grata por você estar ao lado ela!'
'O que faremos agora?' – perguntou Yelan.
'Talvez seja uma boa idéia dar um tempo para os dois ficarem sozinhos. Vamos torcer para que o Syaoran consiga fazer Sakura mudar de idéia!' – sugeriu Eriol.
'Pelo bem dos dois, ele precisa alcançar a parte da Sakura que se perdeu!' – argumentou Wei.
'Espero que os dois não se machuquem ainda mais!' – Yelan refletiu em voz alta.
'Não vai ser fácil!' – disse Tomoyo desanimada e despertou a curiosidade de todos. Eriol deu um discreto apertão na mão dela.
'Por que diz isso, Tomoyo? Sakura está tão deprimida, mesmo depois de tanto tempo por aqui?' – Nadeshiko apertava as mãos em frente ao peito, demonstrando toda sua aflição.
'É que... talvez, a Sakura...' – Tomoyo não sabia o que dizer.
'O que Tomoyo quer dizer é que talvez Sakura fique chocada demais com a aparência de Syaoran e agora deve se sentir culpada e com certeza Syaoran dê um pouco de trabalho a Sakura, pois vocês sabem como ele é teimoso!' – Eriol rapidamente socorreu Tomoyo.
'Ah, por isso!' – suspirou Nadeshiko – 'Mas por outro lado essa situação pode até ser favorável ao Syaoran em seu intento. Sakura não vai fugir e deixar Syaoran nesse estado, ela vai ficar ao lado dele até ter certeza de que ele está melhor!'
'E até que melhore, vamos torcer para que Xiao Lang consiga resgatar a antiga Sakura!' – disse Yelan.
'Preciso pedir ao meu amigo Pierre para que permita que a Sakura fique alguns dias por lá com um convidado e abusar pedindo também que os deixe a sós!' – Tomoyo pegou a bolsa e se preparou para realizar essa tarefa. – 'Vem comigo, Eriol?'
'Claro! Vocês três fiquem em paz e não me esperem por hoje!' – disse aos amigos.
'Veja só esses dois! Pelo menos uma história teve um final feliz!' - Nadeshiko abraçou a sobrinha e se despediu.
'Então agora que decidimos deixar Sakura e Syaoran a sós, o que faremos enquanto isso?' – perguntou Wei.
'Você sabe... as mesmas coisas de sempre!' – Yelan disse e se jogou no sofá com ar cansado.
'Comer, beber, jogar cartas, sair e fazer compras em Paris, jogar cartas de novo, fofocar...' – Nadeshiko falava e enumerava as atividades nos dedos.
'A vida é mesmo bela quando quer! Vou fazer um lanche!' – disse Wei e se retirou para a cozinha.
Sakura estava num belo sonho. Era uma linda manhã com uma paisagem deslumbrante e o único homem que amou estava diante dela tão perto que conseguia sentir o toque de suas mãos. O sonho era tão real que ela conseguia sentir uma brisa suave que acariciava a sua pele e agitava suavemente os cabelos de Syaoran. Ela viu o brilho do olhar dele quando lhe sorriu e aproximou os lábios para um beijo. Desfrutou o beijo suave e então despertou.
'O que você está fazendo?' – assustada, tentou se afastar.
'Acalma-se, Sakura! Foi apenas um beijo!' – ele a reteve junto a ele.
'Por favor, solte-me!' – ela pediu com sofrimento.
'Não se afaste de mim, Sakura! Esperei muito tempo para tê-la assim perto! Apenas por um momento, deixe-me abraçá-la!' – ele a abraçou – 'Abrace-me também, por favor!' – e puxou os braços dela colocando em volta do seu pescoço.
Relutantemente Sakura fechou os braços em torno de Syaoran. Disse a si que seria somente aquela vez, como se fosse um abraço de despedida. Fechou os olhos e permitiu-se desfrutar daquela tortura por um momento. Só de pensar que nunca mais voltaria a ter aqueles braços em torno dela, seu sofrido coração sangrava.
Syaoran acariciava suas costas a apertando contra si, e pensou por um momento que se ele pudesse nunca mais voltaria a soltá-la. Sabia que estava forçando Sakura a uma intimidade que ela não desejava. Envergonhado, decidiu dar liberdade a ela, mas só por mais um instante queria sentir o seu calor. Percebeu algo estranho com aquele abraço. De forma automática, desceu a mão para investigar e a pousou sobre o ventre de Sakura. Sentiu o exato momento em que ela congelou em seus braços, prendendo a respiração. Afastou-se apenas um pouco para poder olhar seu rosto que estava pálido e assustado. A mão de Syaoran começou a tremer e não demorou muito para o restante do corpo acompanhar o tremor.
'Solte-me, Syaoran!' – ela o empurrou e, vendo-se livre, se afastou – 'Vá embora, por favor!' – sua voz era apenas um fraco sussurro.
Continua...
Ruby: Prontinho. Desculpe a demora da postagem, a verdade é que há meses o capítulo estava pronto, revisado e corrigido. Eu andei tão atarefada que acabei esquecendo que era escritora amadora nas horas vagas. Dá pra perceber que não tenho tido as tais horas. Hoje vendo meus e-mails me deparei com um aviso do ff de que um leitor fofo havia anexado Armadinhas como sua história favorita. Então eu quase caí da cadeira ao lembrar que ainda não havia colocado esse capítulo no ar.
O próximo capítulo está quase finalizado, estou fazendo o possível para que seja o último dessa história.
Bem, bem, bem, o que tivemos por aqui? Tomoyo e Eriol se entenderam. E como se entenderam. Mas nem tudo é perfeito, a felicidade da prima não foi completa ao se dar conta do que havia acontecido a Sakura. E o lindinho do Syaoran finalmente encontrou sua amada. Dando mais um passo para resgatar Sakura do isolamento a que se submeteu. Porém, Syaoran acabou descobrindo algo totalmente inesperado. Sua amada está esperando...
OMG!!! Como Syaoran reagirá? O que Sakura fará? Vai expulsá-lo da sua vida mesmo com o lindinho todo fraquinho? Será que ainda há chances dos dois serem felizes? Aiiii, o que vai acontecer? Como será que isso acabará? Se alguém souber o que está acontecendo me avise, pois estou arrancando os cabelos de curiosidade! Será que o próximo capítulo é final dessa fic?
Agora comentem, deixem a opinião sobre o capítulo, digam se gostaram ou não, se teve alguma parte em especial que marcou. O que vocês acham que vai acontecer no futuro. Algum palpite? Mas não deixem de comentar, ou pensarei que a fic não é mais do agrado de vocês.
Sempre devo agradecer: A maravilhosa amiga, Cris-chan. Ela que corrige, dá opiniões, dicas de como melhorar algumas colocações, além de dizer se ficou exagerado ou não, antes de eu colocar aqui no site e pagar um mico feio com erros de ortografia e exagero literário. Obrigada mais uma vez, amiga.
Agradeço a todos que estiveram me apoiando, com idéias, e a todos aqueles que comentaram, demonstrando carinhosamente que realmente estão envolvidos com a história. Fico imensamente feliz, pois é isso que espero: alcançar o leitor, levando entretenimento e emoção.
Agradeço também a todos que continuam comentando nas outras fanfics. Até naquelas que estão concluídas, isso me dá um prazer enorme, saber que depois de tanto tempo ainda tem gente que aprecia.
Aviso: As outras fics estão temporariamente interrompidas. Mas elas terão suas conclusões, por isso, não se preocupem.
Amor de Infância é uma fic disponível apenas no Orkut, na comunidade Sakura Fanfics. Participem! (Endereço no profile)
Agora... gostou do capítulo? Não gostou? Só vou saber se vocês comentarem.
Comentem.
Kissus
Ruby (=^.^=)
