A Mão que Balança o Berço
Heitor estava dirigindo seu corola, seu amigo Adamastor (o fauno Pan na forma humana), estava ao seu lado sentado no banco do carona. Os dois estavam fazendo o percurso do circo até o prédio onde tinham seus apartamentos. Durante o trajeto os dois conversavam sobre o estranho dono do circo. Gallifrey, um homem que diz ser um primordial. Uma criatura mais antiga que o universo. Praticamente uma divindade, já que da imaginação dele é que tudo foi criado.
- O que ele me diz é verdade, não é? - Perguntou Heitor. - Ele é mesmo uma espécie de deus e pode mesmo ver o futuro. - Aquela indagação era só pra confirmar o que Heitor já sabia. Seu instinto de Guardião dizia que as palavras do exótico primordial eram verdadeiras.
- Sim. Eu te avisei que vender o nome do seu primogênito ia dar merda.
- Ainda não entendo como um nome pode causar tanto problema.
- Um bruxo pode influenciar no destino de uma pessoa ao colocar seu nome em um feitiço. A pessoa pode virar quase um escravo da vontade do feiticeiro.
- E só agora você me diz?!
O fauno não rebateu a dura do guardião. Após um breve momento de silêncio Heitor continuou. - Se esse primordial é tão poderoso assim, por que ele mesmo não toma o nome do meu filho da mão do bruxo e encerra esse problema?
- Primordiais não podem interferir tanto assim nos acontecimentos, eles só podem influenciar as pessoas. Até chego a pensar que ele só me contratou em seu circo para poder chegar mais facilmente a você. É, eu sei, são um pouco manipuladores.
- E agora? Como resolvemos esse problema?
- Das duas uma, ou renegociamos com esse Sheng Lee ou damos uma solução mais definitiva. - Heitor entendeu o que Adamastor quis dizer com essas palavras e não gostou nem um pouco delas. Heitor era um policial, gostava de prender bandidos, não executá-los.
Assim que os dois chegaram no prédio passaram no apartamento de Heitor. O detetive pegou seu coldre com pistola e o pôs na cintura. Era como se ele fosse resolver um caso. Em seguida pegou o saquinho de feijões mágicos que lhe foi presenteado. Ainda tinha muitos, dava pra se fazer várias viagens. Antes de seguirem para algum lugar a céu aberto Adamastor pediu que passassem no apartamento dele. Lá ele pegou uma mochila.
- Isso não é uma viagem de férias, pra quê bagagem?
- Talvez tenhamos que lutar contra esse bruxo. Essas coisinhas que comprei no mercado Trasgo ainda podem ser muito úteis. - Heitor duvidou muito daquilo já que quando precisou da ajuda do fauno em uma luta (quando enfrentaram o trasgo) de nada adiantou.
Heitor e Adamastor foram até o playground do prédio, lá tinha uma área a céu aberto apesar de pequena. - Aqui vai servir. - Disse o fauno. Adamastor pôs um feijão no chão e despejou um copo de água em cima. Imediatamente o feijão cresceu e ganhou o céu.
- Posso ver isso milhões de vezes, mas nunca deixarei de ficar impressionado. - Disse Heitor.
Os dois subiram no pé de feijão e chegaram no outro mundo rapidamente. Como antes tinham chegado a uma floresta, o mercado Trasgo estava só alguns poucos quilômetros de distância. Um caminho que poderia ser facilmente feito a pé.
Ao chegar no mercado a dupla viu o mesmo movimento de sempre. Mercadores e compradores andando de um lado para o outro. Pessoas e criaturas dos mais variados tipos compravam mercadorias igualmente exóticas. Durante esse caminho Heitor viu alguns guardas do trasgo. Homens vestidos de preto que usavam máscaras. Alguns fizeram menção de que queriam se aproximar pra arrumar encrenca. Heitor os desmotivou ao levantar a jaqueta e mostrar a arma em sua cintura. A memória do tiro que ele deu em um deles ainda deveria estar fresca, pois nenhum guarda quis se meter mais com Heitor.
Os dois chegaram até a barraca do bruxo Sheng Lee, uma mulher estava vendendo quinquilharias, na certa outra escrava deduziu o guardião. Aquilo o deixava enojado. - Quero falar com seu mestre. - Disse Heitor a escrava.
Atrás da barraca havia uma tenda, uma bem pequena que parecia de acampamento. A moça indicou sua entrada e não disse mais nada. Heitor se perguntou como o bruxo poderia estar em uma tenda tão pequena, mas quando viu o lado de dentro sua indagação foi sanada.
Por meio de magia do lado de dentro a tenda era muito maior do que do lado de fora, contrariando várias leis da física. O bruxo que os dois procuravam estava ali, sentado em uma poltrona como se estivesse esperando por eles. O lado interno da barraca era esquisito. Cheio de ervas e produtos estranhos amontoados. Cabeças de animais exóticos, pedaços de pessoas no formol, estatuetas e frascos de poções diversos. O que mais chamou a atenção de Heitor naquela tenda foi uma gaiola, que ao invés de ter um pássaro ou um bichinho pequeno tinha um bebê humano. Um recém-nascido. Heitor até chegou a se indagar se aquele era seu filho, mas logo desistiu da hipótese. Tinha vendido o nome do seu bebê apenas, não o corpo inteiro.
- Então, vieram negociar novamente? - O bruxo estava jogado na poltrona de forma tão desleixada que deixou Heitor enraivecido. Sheng Lee passava uma calma e um controle que o incomodava.
- Quanto você quer pelo nome do filho do meu amigo? - Perguntou Adamastor.
- Ter um guardião na coleira é algo muito precioso pra mim. - Disse Sheng Lee. - Só o daria de bom grado em troca de algo de igual valor. O nome de outro guardião. Por que não o seu. - Ao dizer isso o feiticeiro apontou para Heitor.
- Não tenho paciência pra negociar com bandido. - Disse Heitor, enquanto pegava sua arma de seu coldre e apontava para o bruxo. - Desista do nome do meu filho se não quiser morrer aqui e agora. - Sheng Lee sorriu e Heitor se perguntou se o bruxo assim como os guardas do trasgo também não conhecia o que era uma pistola.
Antes que Heitor percebesse Sheng Lee tirou uma varinha da manga, fez um movimento rápido com ela em mãos e disse palavras em uma língua estranha. De imediato a arma que estava na mão de Heitor se transformou em um passarinho e saiu voando pela tenda.
- Mas que merda! - Exclamou Heitor.
Sheng Lee apontou sua varinha para o detetive e falou outras palavras estranhas, Heitor na mesma hora foi jogado a alguns metros de distância, caindo de forma brusca e dolorosa no chão. - Acho que vou te transformar em um vira-lata ou algo parecido.
Como Sheng Lee estava preocupado apenas com Heitor, Adamastor aproveitou que estava sendo ignorado e puxou algo de dentro de sua mochila. Um frasco grande que brilhava intensamente. O fauno destampou o frasco e o apontou para o bruxo. Um raio elétrico intenso foi disparado do frasco em direção a Sheng Lee que se contorceu no chão. Na dor a varinha acabou lhe escapando da mão.
- Rápido, Heitor! A varinha!
Heitor se levantou ligeiro e pegou a varinha do chão. Começou a apontar ela pra Sheng Lee como se estivesse usando uma arma. O bruxo riu desdenhoso. - O que pensa que está fazendo? Você não é um bruxo!
- Quer saber, foda-se! - Heitor deu uma joelhada na varinha a partindo em duas. O que deixou Sheng Lee bem irritado.
- Filho da puta!
Sheng Lee se recuperou e praticamente voou na direção de Heitor. Como não podia mais resolver aquilo com magia resolveu usar a brutalidade. Para a surpresa do guardião seu oponente se mostrou um artista marcial impressionante. Sheng Lee era muito bom no Kung Fu, tinha ótimos reflexos. Heitor não conseguia acertar um golpe no adversário. Pra piorar também não conseguia defender nenhum dos golpes dele.
Heitor estava jogado no chão, todo doído. Esgotado. Sheng Lee planejava finalizar a luta ali. Com um golpe brutal como quebrar o pescoço ou algo do tipo. Porém o bruxo cometeu o mesmo erro duas vezes. Ignorou o fauno. Algo compreensível já que essas criaturas não costumam entrar em briga.
Adamastor abandonou sua forma humana e se transformou em Pan, o fauno com corpo de madeira. Usando seus potentes chifres Pan deu uma marrada tão forte nas costas do mago que seu corno atravessou seu ventre. Pan nunca tinha matado alguém, mas não hesitou já que a vida de seu amigo dependia daquilo.
- Filho da... - O bruxo chinês caiu no chão todo ensanguentado. Heitor ficou olhando espantado para o fauno. Aquilo era impressionante, Heitor achava que o conhecia bem, mas não esperava aquele tipo de atitude. Algo que o deixou eternamente grato.
- Cara, você é demais!
Pan ajudou Heitor a se levantar. Em seguida fez a ele uma pergunta. - Bom, e agora?
- Agora eu tenho que achar o meu filho. Não deve ser difícil.
Pan voltou a sua forma humana e ajudou Heitor a voltar ao mundo mundano. Descer o pé de feijão machucado do jeito que estava se mostrou uma tarefa difícil, mas com muito esforço pôde ser feita. A dupla voltou até o circo e foram falar com o primordial. Pediram a Gallifrey uma informação. De bom grado ele a deu já que estava muito feliz com as boas novas.
- Consegui ver o futuro! - Disse Gallifrey. - O destino glorioso da humanidade está seguro novamente!
Quando Adamastor e Heitor saíram do circo, no corola, já estava quase amanhecendo. Foram direto ao hospital publico onde Felícia estava internada. Foi uma surpresa muito grande pra ela ver o pai do seu filho ao seu lado em seu leito.
- Por que não me contou nada? - Perguntou Heitor. - Eu poderia ter te apoiado.
- Não vamos nos enganar. - Respondeu Felícia. - Nós dois nunca daríamos certo juntos. Você sabe disso.
- Isso não importa. Eu sou pai. Tenho que arcar com minhas responsabilidades.
- Que bonitinho. - Heitor achou que Felícia estava sendo irônica. O que estava certo.
- Qual o seu problema? Quer ser mãe sozinha, é?
Felícia ficou encarando Heitor com cara de poucos amigos. - Assim que me recuperar vou voltar ao meu mundo com meu menino.
- Não! Você tem que ficar!
- A decisão não é sua! Você pode vir visitar o menino quando quiser!
- Como vou achá-los?! Você vai acabar sumindo que nem na outra vez!
Felícia fechou os olhos por uns instantes, parecendo que estava em transe. - Mandei uma mensagem pro seu e-mail explicando como me achar. Satisfeito? - Felícia podia mandar e-mails com a mente. Algo que deixava Heitor impressionado. Será que seu filho teria essas habilidades também. Será que seu rebento nasceu transhumano ou guardião? Ou será que seria um hibrido?
- Posso vê-lo agora pelo menos?
- Ele está na sala ao lado.
Heitor deixou Felícia de lado e foi até a sala ao lado. Havia uma grande janela de vidro que permitia que as pessoas do corredor pudessem ver todos os bebês do berçário. Naquela noite havia apenas um bebê ali. Um menininho rechonchudo com a pele morena do pai e o cabelo liso e bem preto da mãe. O guardião ficou encarando seu herdeiro por vários minutos até perceber que ele não sabia seu nome. Heitor lutou tanto para recuperar o nome do bambino e ele não sabia qual era.
- Você já escolheu o nome? - Disse Heitor ao voltar ao quarto onde Felícia estava internada. A moça estava quase pegando no sono por isso aquela interrupção o deixou um pouco irritada.
- Já. Lk-102.
- Que porra é essa?! Ele precisa de um nome não um número de série. Ele não é uma máquina!
- Se quiser escolher o nome mundano dele fique a vontade.
Heitor pensou um pouco e um nome veio a sua mente. Um nome que, há muito tempo atrás, ele escolheu como bom pra um filho. Naquela época ele namorava sério uma moça e chegou a pensar que o relacionamento iria terminar em casamento. Porém foi tudo por água abaixo. Quando esse nome veio a sua mente Heitor se perguntou onde ela estaria agora. Bem, aquela resposta não era importante no momento por isso ele a deixou pra lá, se focando no seu bebê.
- Martin. Quero que meu filho se chame Martin.
Heitor ainda ficou na maternidade por mais algumas horas. Babando pelo filho. Quando saiu de lá já era nove da manhã. Seu chefe, Levi Straus, ligou pra ele várias vezes perguntando porque ele estava demorando tanto de chegar no trabalho. Heitor deu uma desculpa esfarrapada qualquer, mas não se dirigiu a DP, não ainda, foi passar em sua casa. Iria deixar Adamastor no apartamento dele.
Após entregar Adamastor a sua casa, Heitor deu uma passadinha no seu apartamento. Antes de se dirigir até a DP queria tomar um banho e trocar de roupa. Seus planos foram interrompidos com a presença de alguém estranho, um invasor.
- Quem é você? - Heitor instintivamente pôs a mão no coldre, porém não havia arma nenhuma ali.
- Calma, sou o seu novo criado. Rhiatama.Trago boas notícias. - O invasor era um ser místico. Tinha pele cinza, orelhas pontudas e um chifre que lembrava o de um unicórnio na testa. Seu cabelo era branco e comprido. Usava uma roupa bem medieval. - Como o senhor derrotou o grande Sheng Lee em combate ganhou o direito de conquista. Pela norma do mundo Emerso a qual pertence o mercado Trasgo após derrotar um oponente e em caso deste não ter descendentes e nem parentes próximos você ganha o direito por todos os seus bens.
Heitor riu, achando aquilo bem inesperado. - E isso seria...?
- Algumas propriedades espalhadas em vários mundos, um gado de 345 escravos (a qual eu me incluo) e todos os seus objetos místicos que devem formar alguns milhares de itens. Parabéns, o senhor agora é oficialmente um homem rico.
- Tive um dia cheio. Você pode voltar uma outra hora?
- Claro. - Rhiatama pegou um cartão de seu bolso e o entregou a Heitor. - Caso queira chamar minha presença basta falar meu nome três vezes. - O monstro estalou os dedos e imediatamente desapareceu em uma cortina de fumaça.
- Que loucura!
Heitor estava de volta a DP, sua olheira da noite mal dormida e seus machucados devido a briga com o bruxo chamaram a atenção dos seus colegas. Principalmente de Jeremias Bolevar.
- Diabos! Você lutou que guerra?!
- Nem te conto, amigo. Nem te conto.
Heitor se jogou em sua cadeira e ficou um tempo recostado, olhando para o teto. Até que Jeremias bateu em seu ombro pra avisá-lo que havia alguém que queria conversar com eles pra prestar queixa.
A mulher era um pouco rechonchuda e sua roupa era tão rosa que doía a vista. Heitor olhou bem pro rosto dela e percebeu. O rosto da senhora se transformou por alguns instantes em o de um urso branco.
- De volta ao trabalho. - Pensou Heitor. Se referindo mais a sua função de guardião do que a de detetive. - Em que posso ajudá-la?
