Chegada VII
Santuário, Templo de Libra
Dohko de Libra olhava atordoado para a loira que cantava levando roupas e instrumentos de um canto a outro do quarto, movendo os móveis e cantarolando cada uma de suas ações em ritmo de rock. "Guardando as blusaas, tinha uma meia com eeeelas, tenho que guardar na gaveta certa! Yeah!", era esse o verso que cantava quando Dohko veio chama-la para almoçar, mas seus esforços para conseguir a atenção de Away eram, digamos, discretos demais, ou seja, ele não gritou com ela, então a mercenária continuava cantando sem se dar conta da presença dele.
O cavaleiro reparava na decoração do quarto outrora simples, havia uma guitarra num suporte em um canto de parece e atrás dela saia uma luz neon azul e verde que ele se perguntava de onde havia saído. A resposta era óbvia considerando que a inglesa trouxera tanta coisa que parecia que iria viver ali para todo o sempre. O cômodo agora estava ricamente decorado com instrumentos musicais e sobre a cama havia uma colcha de algodão com bordados complexos. Away terminava de se instalar e afastava-se andando de costas em direção a porta para ter uma visão mais ampla de seu novo quarto. Dohko então voltou a tentar chamar sua atenção, mas a loira continuava desligada, com seus pensamentos distantes, só se deu conta da presença do cavaleiro quando eventualmente pisou no seu pé.
Virou-se de sobressalto e quando o viu sorriu sem jeito e mostrou o quarto com amplos movimentos de mão.
- E então? O que acha?
- Ficou muito bonito. – o cavaleiro sorriu – O almoço já está servido, se estiver com fome...
- Fome? Ah, sim, estou. Vamos, vamos... – disse pegando o braço do rapaz e o conduzindo por um corredor – Espero não estar te dando muito trabalho...
- Ahn... Senhorita...
- Away, me chama de Away, todos me chamam assim. – depois ficou pensativa – se bem que nem sei por que... – sorriu olhando para o cavaleiro, ainda o carregando para algum lugar.
- Sim, mas... Para onde está me levando? – Dohko riu.
- Ah... – ela pareceu iluminada por um momento – Ah, é! A casa é sua, você que me leva – ela riu.
- Sim. – disse lhe oferecendo o braço e a guiando cordialmente na direção oposta – E não, não está dando trabalho algum. – mentiu.
Claro que dera algum trabalho trazendo uma tonelada em malas para o Santuário, mas isso não era de todo mal, além do mais, Dohko gostava de ouvi-la cantar.
Chegada VIII
Santuário, Templo de Escorpião
Para o cavaleiro de Escorpião aquilo parecia natural, viu uma garota, achou bonita e deu encima dela, e embora não fosse corriqueiro para ele, havia levado um fora, tudo dentro da normalidade. Mas foi essa ação, esse fora, essa rejeição que o fez se sentir vivo de novo. Ele percebera enfim, a ficha caiu e um sorriso brotou em seus lábios enquanto ele desenhavam aquela palavra tão bela. Vida. Acompanhando Ange por entre os corredores ele podia sentir todos os seus sentidos acenderem. O calor aconchegante da Grécia, o silêncio dos templos em contraste com a lembrança da ventania ensurdecedora do Cocito, as cores, tantas e tantas cores diferentes do branco ao qual havia se habituado, tudo parecia mais intenso.
Olhou de novo para a ruiva a seu lado, seus olhos brilhantes e entediados, brindou-a com mais um galanteio que só a fez suspirar irritada, mas não esperava nada diferente. Parecia tão certo, apenas um cortejo suave, sem toda objetividade de outrora, só para poder sentir-se novamente vivo.
- Seu quarto é aqui. – parou em frente a uma porta simples e lhe sorriu.
- Merci. – lhe respondeu já entrando.
E essa palavra despretensiosa fez o cavaleiro de Escorpião soltar um riso leve. Claro, um segundo galanteio depois da resposta negativa não ocorreria em situações normais. A conhecia a pouco tempo, mas de alguma forma ela lhe parecera familiar desde o começo, só agora percebera o porquê. Dos cabelos ruivos aos olhares gélidos, ela tinha os mesmos trejeitos que ele.
- Qual a graça?
Ange lhe lançava um olhar completamente inexpressivo, estava minimamente curiosa e muito entediada, qualquer reação incomum chamava sua atenção com toda a força. Milo a encarou por um momento, o jeito que ela fizera a pergunta, o tom, o rosto, todo o conjunto em volta da ação fez sua mente voltar ao Cocito, àquele momento em que ria da feiura de Camus em que ele fizera aquela mesma pergunta, com aquele mesmo sotaque francês.
- Nada demais. – ele falou sorrindo de forma charmosa – Foi só um dejavù.
- Ah.
Ela virou-se e entrou no quarto fechando a porta em seguida de forma delicada. Ele encarou a porta por um instante e um riso escapou entre seus dentes perfeitamente alinhados e saiu de volta para seu quarto, talvez fosse divertido tê-la ali, pensou consigo mesmo.
Chegada IX
Santuário, Templo de Sagitário
Robin estava surpreendentemente calada. Aquela expressão morta, aquele olhar de quem não se lembrava mais das coisas, conhecia muito bem tudo aquilo. Alguns anos atrás reconheceria aquela expressão em seu próprio rosto, levou um tempo até que pudesse preencher todo aquele vazio, mas ele era diferente. Ela simplesmente acordara um dia sem nenhuma lembrança em sua mente, tudo havia sido apagado, apenas os instintos ficaram, levaram meses até que a primeira memória de seu passado voltasse à mente. Mas aquele não era o caso, ele não era uma experiência, ele não havia sido projetado e moldado para ser o soldado perfeito.
Aioros mantinha os belíssimos olhos que agora ostentavam um azul esverdeado sobre o rosto demasiadamente próximo de Robin, aquele olhos negros estavam começando a deixá-lo enjoado. A íris representava com perfeição o buraco que existia em sua mente, negro, profundo, absorvia toda a luz e nada escapava de sua fome voraz e dentro deles ele, via com clareza, algo tão antinatural e imutável quanto o que sentia no momento. Nos olhos da mercenária ele encontrou um par para sua inércia. Apenas vácuo, contra vácuo. Seu rosto inexpressivo moveu-se levemente com umas poucas nuances de surpresa denunciando a recente epifania. A loira se afastava dele lentamente, os cabelos platinados, finíssimos, esvoaçaram quase tocando o rosto do outro.
- Agora dá pra ter mais noção do que a Ange chama de interessante. Você não é interessante, conheço bem seu tipo, na verdade, eu sou esse tipo. Pra ser bem sincera não tem absolutamente nada em você que chame alguma atenção, mas imagino que você ainda não tenha se acostumado, deve ser muito fácil te perturbar, não é? E claro, Ange é esse tipo de pessoa, do tipo que perturba... Na verdade, ela meio que é como nós em certos pontos, mas nunca vai ser assim como somos, por mais inexpressiva que seja ela tem suas próprias emoções, apenas não demonstra. Nós, meu amigo... No momento, você não sente nada de verdade e eu... Eu não fui criada para sentir, fui criada para fazer, entende?
Houve um momento em silêncio, os dois estavam a algum tempo no salão da casa de Sagitário, Robin chegara e o encontrara ali, imóvel, olhando para o lugar como se não o reconhecesse, mesmo tendo dormido ali na noite anterior. Andou em sua direção a passos firmes e parou lhe encarando a centímetros de seu rosto, apenas para analisar, para ter certeza. A missão era protegê-lo, mas aquele homem precisava de muito mais do que proteção física, ele estava moribundo por dentro e Robin era um bom soldado. Não o deixaria morrer de forma alguma.
- Talvez você ainda tenha uma chance, sabe? Talvez possa se recuperar. – a expressão dele era constante, parecia prestar atenção ao que ela dizia, mas não fazia comentário algum, talvez porque a loira não lhe desse tempo – Quer dizer, não tiraram um pedaço do seu cérebro, então ainda deve estar aí em algum lugar, você só precisa encontrar. Mas não se preocupe, mesmo que não encontre é perfeitamente possível viver bem assim. – disse começando a articular e se distanciar mais dele – Quer dizer, olhe só pra mim! Bonita, talentosa, razoavelmente rica, tenho amigas e tudo mais, não é como se ser esse tipo de pessoa atrapalhasse minha vida. Na verdade, apenas me dá vantagem, as pessoas pensam que me conhecem, que podem me prever, mas elas não podem. Eu tenho praticamente a mesma sensibilidade de uma porta. – ela lhe olhos com um leve esboço de sorriso e percebeu que ele piscara mais rápido, como se estivesse assimilando lentamente suas palavras – Claro que pra você é mais complicado, você tem os amigos antigos e as pessoas que o conheciam antes não sabem de nada. Você tem que decidir agora se vai gostar delas ou não, porque se for vai ter que começar a atuar logo.
Robin calou-se por um momento, apenas para aguardar uma resposta de Aioros, que mal entendia do que ela falava, mas de certa forma, todo aquele discurso desenfreado começava a fazer sentido.
- Atuar? – ele perguntou, separando um pouco as pernas para ficar mais confortável.
- Sim. Veja bem, você não se lembra muito deles, não é? – ela perguntou erguendo as sobrancelhas, e continuou antes que ele tivesse tempo de responder – Claro que não, comigo também foi assim, não lembrava de nada, apenas sabia do que sabia e isso era tudo, mas aos poucos as memórias foram voltando, mas não como deveriam ser, sempre parecia como cenas de filme, mas isso é outra história. O que estou tentando dizer é que você vai ter que fingir, rir quando parecer que deve, mesmo que não veja graça, e acredite em mim, você não verá.
Robin continuou com seu discurso com um tom gravíssimo mesmo que vez ou outra perdesse o foco da conversa e começasse a falar de assuntos aleatórios que só serviam pra confundir o recém encarnado cavaleiro, falou por minutos infindáveis até que ouviu o próprio estomago roncar e decidiu que era hora de comer. Ele era sua missão agora, e como um soldado perfeito, iria cumprir sem deslizes.
Chegada X
Santuário, Templo de Capricórnio
Depois de ajudar Dohko com a bagagem de sua hóspede, Shura subiu lentamente até sua casa, não havia pressa alguma, sua mente vagava em algum espaço entre a morte de Aioros e sua volta. Não falara com ele ainda, talvez não houvesse perdão para o que fez, tudo o que recebera de Sagitário fora aquele olhar frio, o mesmo que daria a um estranho, tentara dar a entender que gostaria de ficar por lá e conversar, mais o desinteresse do outro era óbvio demais. Entrou em seu templo e procurou por sua hospede, não simpatizara muito com ela e por isso mesmo acho que deveria checá-la.
Encontrou-a no salão principal, em frente a estatua de Athena entregando a Excalibur, ela parecia completamente absorta a imagem e rodeava a escultura de pedra analisando cada detalhe. Shura cruzou os braços, encostou-se a uma parede e apenas observou. Levou algum tempo até que Mad Max percebesse sua presença e por um instante se encararam em silêncio, até que ela sorriu em deboche.
- Sabe, poderia ganhar um bom dinheiro vendendo essa coisa. – Shura ficou ainda mais serio e bufou desviando os olhos para um ponto qualquer – Não que precisem, se desperdiçam ouro fazendo armaduras então devem estar de bem com a grana. – disse andando mais para perto dele.
- Essa estátua, assim como as armaduras são dádivas de Athena, não tem nada haver com dinheiro.
- Claro que não... Até porque sua deusa fez o favor de ficar podre de rica nessa encarnação.
- Não foi assim que aconteceu. – ele disse fechando os olhos lentamente.
- Humm... – disse ela parando de se aproximar – Qual é a da estátua? – perguntou analisando bem as feições do cavaleiro, que abriu os olhos e a encarou.
- Simboliza o dia em que Athena concedeu a Excalibur ao cavaleiro de Capricórnio, por ser o mais leal a ela.
- O mais leal... – Mad debochou – Me disseram que você quase a matou quando era um bebê, e ajudou a fazê-lo depois. Se você é o mais leal começo a temer pelo bem estar de sua deusa. – disse rindo em seguida.
Shura tinha o semblante irritado, mas apenas coçou entre as sobrancelhas e desencostou da parede se pondo a andar.
- Siga-me, vou lhe mostrar seu quarto. – falou de forma seca.
- Excalibur, você disse? – ela continuou enquanto apanhava sua bagagem e o seguia – Tipo a do Rei Arthur? – ele assentiu – Bem, não me admira que sua armadura tenha chifres. – riu debochada.
- Você é sempre assim? – ele perguntou com uma ponta de irritação.
- Assim como? Incrivelmente gostosa? Temo que sim.
- Irritante, eu quis dizer. – lhe olhou de canto, de forma pretensiosa.
- Só quando é divertido. – ela lhe sorriu de volta – Relaxa, você se acostuma... Ou não, sei lá. Não é como se eu realmente me importasse.
- Ah, ótimo. – ele disse bufando novamente.
Chegada XI
Santuário, Templo de Aquário
O silêncio foi particularmente estranho, Camus nunca foi e nem seria um homem extrovertido, mas lembrava-se daquela pessoa de maneira diferente. Conversas pseudo intelectuais, desafios de lógica ou ausência total da mesma, mas principalmente lembrava a voz, a voz firme, alta, irritante, tão, mas tão diferente do que era agora. Mais do que som, havia calor, ela costumava cutucar-lhe, abraçar só por saber que ele não gostava de tal coisa, mas agora nela viu um espelho de quem havia se tornado. Frieza extrema, mas era diferente, pois se ele era frio como as geleiras da Sibéria, ela tinha a frieza sutil de um corpo morto.
Camus entrou em sua própria casa sentindo-se desconfortável, estava quente na Grécia, mas seu templo nunca estivera aberto a esse calor. Parado no meio do salão de batalha ele inspirou fundo aquele ar seco, e surpreendeu-se com a consciência de que seu próprio corpo matinha um calor aconchegante, lhe era estranho. Pôs instintivamente a mão sobre o peito, sentindo o espaço vazio onde antes podia sentir seu cosmo queimar como gelo. Suspirou sentido mais uma vez o ar quente penetrando os pulmões e sentiu-se irritado, como uma criança que não dormiu o suficiente.
- Quanto tempo até recuperar meu cosmo? – perguntou com a voz rouca.
- Não precisa dele enquanto eu estiver aqui. – disse a loira olhando para um ponto qualquer na parede.
- Não é essa a questão.
A voz dele soava baixa, grave e completamente sem emoção. Esse era o cavaleiro de Aquário, o poderoso senhor da neve. Ele fez um movimento cortes e a guiou para o quarto a passos lentos, andava pela casa como se não a reconhecesse mais, estava vazia, impecavelmente limpa e cada objeto estava em seu devido lugar. Exatamente como deixara, mas faltava algo. Ali foi onde vivera anos e onde morrera tentando ensinar a Hyoga a última lição, se sentia desconfortável, como se aquele lugar não mais o pertencesse. Lady Anubis podia perceber isso, o mínimo de atenção era suficiente para uma amiga de anos. Camus nunca perdera alguns velhos hábitos, o dedilhado nervoso era bem mais ameno, mas estava lá. Ele estava irritado e desconfortável, sabia bem, pois essa era o tipo de reação que gostava de causar no ruivo. Estranhamente não sentia vontade de fazê-lo agora. Perdera alguns anos de sua vida buscando Camus, mas depois um breve momento de euforia inicial percebeu que sua amizade do jeito que costumava ser estava irremediavelmente perdida. Ele não era mais o garoto que buscava. Há muito tempo deixara de ser.
Chegada XII
Santuário, Templo de Peixes
Scarlet despediu-se de Emma no já na saída do décimo segundo templo, não havia avistado o dono da casa até então e vendo-se sozinha, pôs-se a procurá-lo. O templo de Peixes parecia diferente daqueles que havia passado, era melhor iluminado, havia um ou outro espelho nas paredes e pétalas de rosas em todo chão apesar deste reluzir de tão limpo. Um vento forte e seco soprou vindo de um dos corredores e trouxe o cheiro adocicado do jardim. Ela sentiu uma dormência agradável pelo corpo, e como se sentisse atraída pelo odor, foi caminhando contra o vento com mais e mais pétalas dançando e acariciando-lhe o corpo. Chegou as portas que levavam ao jardim entorpecida. Deixou as bolsas caírem suavemente pelo chão, encostando-se ao batente e admirando o mar vermelho do jardim.
Mesmo em sua condição, com a mente enfraquecida, pode reparar em um ser mexendo-se entre as rosas, o corpo insinuando-se como uma serpente, delicado em uma túnica típica grega, mas anormalmente curta. Ele cuidava do jardim, sujando as mãos e o corpo de terra fofa.
Afrodite parecia absorto demais em sua tarefa, quando chegou ao jardim ficou imensamente feliz ao saber que as rosas, em sua maioria, haviam sobrevivido a sua ausência, havia dormido ali mesmo, entre elas, na maciez das pétalas, sabendo que os espinhos jamais iriam machucá-lo. Estava desde cedo adubando a terra, podando e retirando alguns insetos que se atreveram a fixar moradia ali. Sem o seu cosmo ajudando-as a crescer, o veneno ficou muito mais ameno, ainda era mortal, de fato, mas seu efeito era demorado. Ele colheu uma rosa vermelha que transbordava vivacidade e levou o talo a boca, em uma atitude muito comum a si. Fechou os olhos e pode sentir toda a euforia, ansiedade, o prazer das batalhas, a lembrança de seu poder vívida. Mas nada ocorreu. O pisciano tinha esperança que isso fizesse seu cosmo despertar, mas tudo que conseguiu foi suspirar desapontado.
Continuou adubando e cuidando as rosas uma a uma, sem se dar conta do olhar atento de Scarlet sobre si. A mercenária não podia deixar de admirar a delicadeza de seus atos, dos contornos, em como o sol em seu cabelo o fazia brilhar, e aquele perfume começava a trazer uma sensação boa, tinha vontade de deitar-se em meio às rosas e dormir. Balançou a cabeça fortemente tentando afastar o pensamento, voltou à postura rija, que nem se dava conta de ter abandonado e então bateu no batente da porta, chamando a atenção do pisciano.
Pareceu-lhe que Afrodite movia-se em câmera lenta, enquanto os olhos azuis se abriam lentamente, os longos cílios fazendo uma curva perfeita. O sueco ficou alguns segundos encarando-a, estava pronto para apenas acenar e ignorá-la, afinal, suas rosas eram mais importantes, mas a viu vacilar por um momento e a brisa que carregava pétalas para dentro da casa voltou calma. Ele levantou rápido e andou até ela.
Scarlet tinha ânsia de recuar ante ao olhar felino de Peixes, mas algo estava errado, mal podia sentir as pernas, que dirá mexê-las. Afrodite chegou até ela e pondo as mãos em seus ombros empurrou-a um pouco para trás, apenas o suficiente para conseguir fechar as portas e manter o odor entorpecente do lado de fora. Quase que instantaneamente os sentidos de Scarlet voltaram e ela encarou o loiro transpassando uma leve surpresa. Afrodite tirou a rosa que tinha entre os lábios e exalou seu perfume tem uma atitude demorada.
- São venenosas. – a ruiva não entendeu – Minhas rosas são venenosas. Se estivessem em sua condição normal, você estaria morta agora. – a encarou levantando um pouco o queixo. – melhor que fique longe do meu jardim.
Ela assentiu, engolindo em seco, até mesmo a voz daquele homem era inebriante e delicada. Observou enquanto os lábios perfeitos e rosados se abriam e a língua esgueirou-se para acomodar o talo rosa de novo. Ele se pôs a andar e fez um sinal com a mão para que ela o seguisse. Scarlet recolheu suas coisas e foi atrás dele, mantendo a distância que achava ser adequada. Ele abriu uma porta talhada e em um gesto digno da realeza lhe indicou o quarto. Tirou novamente a rosa da boca mantendo-a próxima ao rosto, encostando-lhe logo abaixo do sinal. Fitou-a com um ar arrogante e esboçou um sorriso.
- Até que você não é de todo mal. – falou alargando o sorriso – Ontem estava bem diferente com aquela horrenda cara de sono. Mas assim – inclinou um pouco a cabeça, os olhos percorrendo-a de cima a baixo – Assim não é ruim, não mesmo.
Ela assentiu tentando evitar inutilmente ficar vermelha. O que Afrodite dizia era bem verdade. Scarlet era uma das poucas que fazia o tipo mulherão, os cabelos exóticos da cor de sangue, grandes e ondulados chamaram a atenção do cavaleiro na hora, ele apreciava muito aquela cor. Ele sorriu novamente.
- O almoço será servido logo, não se demore. – disse e saiu andando com aqueles passos leves, que nem mesmo faziam barulho.
Scarlet entrou no quarto colocando as malas encima da cama. Pôs a mão no peito e sentiu seu coração disparado. Mas o que era aquele homem? Não era só belo, mas coberto da cabeça aos pés de um charme, um magnetismo natural. A ruiva penteou o cabelo com os dedos, os prendeu em um rabo de cavalo alto e se preparou para tomar um banho.
Família II
Santuário, Escadarias do décimo terceiro templo
Emma limpava o suor da testa, não conseguia pensar em nada mais exaustivo do que aquela escadarias, acabara de fazer um pacto consigo mesma que não iria subir e descer aquilo mais de uma vez por dia, até porque não podia fazer bem para alguém de sua idade. Já estava quase chegando ao templo quando parou para descansar um segundo, suspirando o ar quente daquele fim de manhã quando enfim reparou sua companhia. Atrás de si, tão silenciosa quanto uma sombra estava Shadow que a seguira o tempo todo, desde a primeira casa.
- Que faz aqui? – perguntou com o conhecido tom maternal, a menina apenas deu de ombros – Por que não ficou em Áries?
O rosto infantil e mal humorado de Shadow formou um gracioso biquinho enquanto ela dava de ombros.
- Tava com saudade. – falou.
Emma pareceu profundamente tocada por um momento e depois lhe apertou as bochechas em um ataque quase histérico.
- Você é tão fofinha, minha Grace! – dizia enquanto apertava o corpo pequeno da outra, que revirava os olhos para a reação dela. Logo Emma a soltou e voltou a calma habitual – Mas agora volte para lá, sim? Nada de deixar seu irmãozinho sozinho. – sorriu para ela.
- Ele não é meu irmão. E não tem nada de "zinho". – disse mal-humorada.
- Ora, não seja assim... A mamãe só quer que seus dois bebês se deem bem, é pedir muito?
- Eu não sou um bebê.
Disse ficando amuada e dando meia volta, descendo as escadas de volta a Áries. Emma apenas sorriu e continuou subindo as escadas, tinha alguns assuntos que precisava resolver sozinha.
~0~
Ehhhhhhh! Finalmente tomei vergonha na cara a postei! Desculpem minha demora extrema, foi total falta de inspiração (sem mencionar de tempo) mesmo x.x Mas, neh? Agora sim, já tá postado. Vocês ainda estão aí? O.o
Beijinhos,
V. Lolita
