Doce Lar.


No capítulo interior:

-Não que eu tenha perguntado ainda, mas se você faz questão...

-Eu faço. - sorri.

Ele sorriu também e entrelaçou as suas mãos nas minhas.

-Então, Lily Evans. Quer namorar comigo?

-

-Então, eu finalmente entendo o que você quis dizer sobre a sua família. Eram suas primas? - eu falei, sorrindo encorajadoramente para ele.

-É. - Sirius respondeu, sorrindo. - Ninguém nunca acredita quando eu conto. Comparado a elas eu não sou tão ruim assim, não é?

-

-Eu falei sobre o meu interesse por gângsters, mas se for começar com a violência doméstica está tudo acabado entre nós.

Ah, eu acho que o comentário dela tinha a ver com a noite do show, quando, conforme me contara Mary, Sirius falou que era engraçado Mary ser tão certinha e ser interessada por ele ao mesmo tempo, sem reprovar certas ações dele. Mary havia respondido que também se interessava com gângsters e mafiosos. Meu Deus, eles já possuíam suas próprias piadas internas.

Sirius sorriu.

-Eu não ia querer que isso acontecesse. - Sirius respondeu e eu me surpreendi com o tom caloroso que deixou os seus lábios.

-

-Você é uma boa pessoa. Por que você é sincera em relação aos seus sentimentos e não tem escrúpulos idiotas ao admiti-los. Você ainda gosta do Sirius.

E eu não perguntei. Eu afirmei.

-Eu não sei por que! - Marlene exclamou, arrasada. - Ele era todo idiota, achando que podia me chamar para o canto a qualquer hora e eu iria atrás dele e dando em cima de outras garotas na minha frente. Eu fiquei com muita raiva. Encontrei o Carter e a única coisa que eu pensei era "hora de dar o troco no Sirius". E eu não me importei por ele ter ficado com a Mary naquele dia por que eu pensava que era só por minha causa. Só pra me provocar. Mas isso, hoje, não é. Não é mesmo?

-

-Ok, só vim te chamar para a valsa.

Eu fiz uma careta.

-Eu preciso mesmo? Vou pagar o maior mico. James provavelmente nunca mais vai conseguir andar depois que nós valsarmos.

Mamãe riu, impiedosa.

-Boa tentativa, mas acho que James é resistente. Vamos logo.


Capitulo dez: O Concerto n° 21


Aquela sala-de-estar nunca parecera maior. James estava ali, no centro de tudo, em um smoking elegante e com os cabelos desgrenhados como sempre, mas lindo, com um ar displicente e cantarolando algo, e enquanto eu caminhava em direção a ele, eu percebi o quão grande aquele aposento realmente era. Pois apesar de apressar o passo, ao sentir o olhar de todas aquelas pessoas sobre mim, e ao sentir o olhar de James sobre mim, o salão só aparentava crescer mais e mais de tamanho a cada segundo.

Quando eu estava a aproximadamente um metro de James, ele sorriu e fez uma pequena reverência, a qual eu retribui. Ele estendeu uma das mãos e eu sobrepus uma das minhas mãos na dele, enquanto a outra eu colocava em seu ombro e ele repousava a sua outra em minha cintura. Ele colou sua face a minha e de novo aquela proximidade me incomodava. A música começou a tocar. O concerto n° 21 de Mozart, sussurrou James no meu ouvido. Ótimo, além de ter lido Jane Austen e ser músico aspirante e compositor, ele ainda conhecia música clássica. Eu só acreditava que ele era real pelo seguinte fato: ele não parecia estar interessado em mim.

-Eu apresentei Oliver à sua mãe. - falou ele.

-Por que você está falando disso agora? - perguntei.

Ele deu de ombros.

-Achei que você gostaria de saber.

-Sim. - eu concordei. - Mas agora é... sei lá, nós estamos dançando valsa.

Ele riu.

-Entendo o que você quer dizer. Mas o que eu deveria dizer?

Eu dei de ombros.

-Não sei. Mas todo mundo está olhando pra gente. É constrangedor. - respondi.

Ele riu.

-Já sei o que eu posso falar então. - ele disse, com um tom tranquilizador e reconfortante, e eu pude sentir que ele estava com os lábios em minha orelha. - Vamos fingir que eu sou um cavalheiro e você a minha donzela. É um prazer estar aqui com você esta noite, milady. E permita-me dizer que a senhorita está mais reluzente que a própria Lua cheia.

Eu apenas estremeci e enrubesci, querendo desaparecer. Por que ele estava fazendo aquilo?

-Lily, se você não for participar, não vai ter graça alguma.

-Eu já não estou vendo graça. - retruquei, antes mesmo que pudesse pensar. James se calou e continuou a dançar, em silêncio. Eu suspirei, resignada, e acrescentei: - É um prazer receber tais cumprimentos do senhor. Muito embora eles sejam inapropriados no momento.

-Oh, então a senhorita me desencoraja. - disse ele, em um tom dramático, mas ainda sussurrando em meu ouvido. - Mas não devo calar-me. Devo falar pelo meio que está ao meu alcance. E fazer uma citação, se necessário. Você me fere a alma.

E aí os meus órgãos internos resolveram jogar uma partidinha de pique-pega. Enquanto eu lutava ao máximo para poder dizer algo. Algo a altura. Enquanto eu torcia para que ele fizesse algo, me beijasse ali mesmo, ou algo. Mas o fato era que mesmo se ele me quisesse, Oliver estava no salão. E eu não poderia fazer isso com Oliver.

Eu abri os lábios para dar qualquer resposta que saísse no momento mas então a música parou. James e eu nos separamos e ele sorriu, com um olhar misterioso, enquanto eu amaldiçoava aquela maldita valsa e a maldita brincadeira. Forcei um sorriso e estava quase me forçando a dizer alguma coisa decente quando Oliver chegou e pôs a mão sobre meus ombros. A pista agora era invadida por diversos casais.

-Me concede a honra? - ele disse, fazendo uma pequena reverência. - O que acha de me emprestar o seu par pelo resto da noite, James?

James lançou um olhar distraído para ele e ficou em silêncio por um tempo.

-Sem problemas. - respondeu ele, de um jeito esquisito, e deu as costas.

Oliver observou-o com um olhar intrigado e depois se voltou para mim, me envolvendo para que nós pudessemos começar a dançar.

-O James tem estado meio diferente comigo desde que nós nos conhecemos. - comentou ele.

Eu não prestei muita atenção no comentário dele por que estava ocupada olhando James deixar a pista de dança, ou pelo menos tentar. Enquanto tentava passar por uma senhora elegante que estava com as primas de Sirius, a senhora o parou e começou a conversar com ele. No segundo seguinte ela empurrava Narcissa para James e no outro os dois estavam dançando. Eu senti um aperto engraçado no peito. Por que apesar de assustadora Narcissa era muito bonita. Se não carregasse aquela expressão de quem está cheirando bosta no ar. Expressão a qual não carregava enquanto falava com James.

-Lily? - Oliver me chamou.

Eu voltei minhas atenções para ele e me ocupei em respondê-lo:

-Não notei nenhuma diferença no comportamento dele.

Oliver riu.

-Talvez ele só tenha mudado comigo. Talvez ele esteja com ciúmes.

Foi a minha vez de rir.

-James com ciúmes? De quem?

-De você, oras. - respondeu Oliver, como se fosse a coisa mais óbvia do Universo. - Não sei se eu já falei isso, mas quando eu vi vocês dois naquele show eu achei que eram um casal.

-E agora me diga quem está com ciúmes. - eu respondi, entediada. Não sabia aonde Oliver estava querendo chegar com aquela conversa.

-E estou sim. Pelo menos eu admito. Você não entende as minhas razões para ter ciúmes? - respondeu ele, um pouco chateado.

-Não. - eu respondi, simplesmente.

-Lily, eu não quero ser o namorado ciumento insuportável. Mas pra mim James parece estar interessado muito em você. E não só como amigo. E o jeito que ele estava enquanto vocês dançavam? Parecia que ninguém mais estava no salão, só você. Ou pelo menos parecia que você era a única pessoa com a qual ele se importava. - explicou Oliver, calmamente.

Eu suspirei.

-Então ele sabe atuar muito bem. Eu não sei por que razão no mundo James estaria, sei lá, a fim de mim. E não tome como ofensa, já que você, aparentemente, está.

-Eu sei um monte de razões. E pra você estar interessada nele também.

Eu me soltei dos braços dele e dei um passo atrás, para fitá-lo, em choque. Não choque por ele estar insinuando isso. Mas por ele ser, tipo, a milésima pessoa a falar aquilo. A descobrir. Embora no caso de Oliver parecesse ser mais um palpite do que uma descoberta. Eu vasculhei meu cérebro para tentar reunir informações sobre o que fazer naquele momento e encontrei algo do tipo "ser honesta é a chave para qualquer relacionamento bem-sucedido", infelizmente. Eu não podia ter tomado decisão pior.

Suspirei e tomei coragem para dizer:

-Eu estava, ok? Mas isso já faz tempo.

Oliver apenas fitou-me, estupefato.

-Bem, eu achei que nós não devíamos ter segredos. - eu me justifiquei, dando de ombros. - Não é mais nada, Oliver. Eu encontrei alguém zilhares de vezes melhor. E mais bonito. - e sorri, adiantando-me para lhe dar um beijo.

Ele não correspondeu no início, desconfiado. Entretando, resolveu ceder e tentar esquecer aquela história.

-Vamos sair daqui. Estamos no meio da pista de dança. - eu disse, puxando-o pela mão.

Fomos para os jardins e ficamos lá por alguns minutos, para namorar. Então voltamos para a festa e sentamo-nos na mesa em que estavam Mary, Sirius, Remus e Andrômeda.

-Bem-vinda à mesa das ovelhas 'brancas' dos Black. - disse Sirius quando nós chegamos.

Eu sorri para Andrômeda, enquanto ela ria do comentário do primo.

-Ah, Sirius me falou da conversa que você teve que entreouvir mais cedo. Já que a minha vida amorosa é assunto para se espalhar aos quatro cantos, gostaria de opinar também, Lily? - perguntou ela, simpática.

Eu ri.

-Não, obrigada. Só não entendi por que chamaram o Remus de proletário... hm, alguma coisa.

Sirius riu.

-Remus não é o proletário. Remus é o classe média deselegante. - respondeu ele.

Andrômeda olhou para Sirius, alarmada.

-O proletário se chama Ted Tonks. - respondeu Remus, em um tom de voz esquisito.

Andy suspirou.

-Não comece, Remus.

-Eu já terminei por aqui. - respondeu ele, ligeiramente irritado, e levantou-se.

Sirius deu um beijo na bochecha de Mary e levantou-se em seguida, para seguí-lo. Andrômeda bufou e suspirou, chateada. E eu fiquei ali, em dúvida se deveria ou não ir atrás de Remus. Na verdade, eu queria. Mas não me sentia tão íntima dele quanto Sirius para seguí-lo.

Entretanto, levantei-me e pedi licença. Provavelmente não era a coisa mais aconselhável e mais segura para o meu namoro, mas eu saí atrás de Remus e Sirius, apenas com a intenção de achar James. Passei pela porta que dava acesso aos jardins e, ao ver um pontinho laranja brilhando ao longe e um pouco de fumaça envolvendo uma sombra ligeiramente disforme julguei ter encontrado Sirius, e andei em direção a ele.

Quando a figura escurecida se tornou mais nítida, a medida que eu me aproximava, pude perceber que era James.

-Por que você está fumando aqui? - eu perguntei, ligeiramente irritada.

James me olhou, surpreso, e sorriu, antes de dar uma tragada.

-Sei lá, deu vontade. Ansiedade, eu acho.

Eu bufei.

-James, você se dá conta que esse é um evento para levantar fundos para a pesquisa da cura do câncer? - eu perguntei. - E câncer incluí câncer de pulmão, que é fortemente favorecido pelo cigarro. Se alguma dessas pessoas te ver fumando a única coisa que vão comentar é sobre o filho de Edward Potter estar fumanto em um evento...

-Blábláblá. - cortou James, entediado. - Eu me dou conta de que isso é para ajudar as crianças com câncer, Lily. E eu duvido que as mesmas, tendo câncer de pulmão, o tenham adquirido por que fumaram demais.

Eu suspirei e sorri, resignada.

-Tem razão. - eu falei, como que levantando uma bandeira branca. - Me dá um, então?

James olhou para mim com os olhos arregalados, em choque.

-Você não pode estar falando sério.

Eu dei de ombros.

-Só queria experimentar, já que você acha tão bom.

-Eu não vou te dar um cigarro, Lily.

-Então eu vou ter que conseguir com algum traficante, em algum beco... - eu comecei, dramática.

James continuou a me fitar, sério.

-De novo, você não pode estar falando sério. - repetiu ele, firme.

-Ah, qual é, James. Só uma tragada. Não me obrigue a pedir para o Sirius.

-Sirius não te daria um cigarro. - ele retrucou, imediatamente.

-Daria sim. Ele adora o fato de eu não ser mais a chata irritante e certinha que sempre vinha implicar com ele. Ele daria uma festa, provavelmente.

Ficamos alguns instantes em silêncio, nos olhando. James ainda tinha aquela cara de quem não acreditava no que estava acontecendo. Até quando ele estendeu o cigarro que estava apertado entre seus dedos indicador e anular. Aposto que ele apenas emprestou-o para mim para ver se aquilo era real ou não.

Eu olhei para o cigarro por alguns instantes, ainda em dúvida se faria aquilo ou não. Mas se eu não levasse aquilo até o final James provavelmente ficaria zombando de mim pelo resto de nossas vidas. E o meu objetivo de desafiá-lo seria totalmente em vão. Eu levei o bico do cigarro à boca e chupei um pouquinho. Aquela fumaça fedorenta entrou pela minha boca, envolveu meus dentes e arranhou minha garganta. Como eu havia esquecido totalmente de soltá-la de volta, engasguei-me com ela e toda ela saiu pelo meu nariz, deixando no caminho um cheiro não muito agradável.

James tomou o cigarro de minha mão, tacou-o no chão e pisteou-o, decidido. Em seguida, veio em meu auxílio e deu alguns tapinhas em minhas costas, até que eu parasse de tossir.

-Pronto. Você experimentou, não gostou, nunca mais vai fazer isso. - disse ele, sério. - Promete?

-Prometo. - respondi eu, com a voz ainda rouca devido ao meu surto de insanidade. Meu Deus, eu havia dado uma tragada em um cigarro. - Me desculpe. Eu acho.

James riu e colocou o braço da mão que havia até então usado para me dar tapinhas nas costas em volta de meus ombros. Eu, quase que automaticamente, envolvi a cintura dele com um de meus braços.

-Você me assustou por alguns instantes. Achei que estava falando com um alienígena.

Eu ri.

-Quer dizer então que você prefere a Lily chata de sempre à Lily com momentâneos surtos de loucura?

Ele riu.

-Eu adoro seus momentâneos surtos de loucura, Lily. Eles são muito engraçados. Te levar para casa e cuidar de você quando você está de porre, ouvir você me pedir um cigarro. Mas eu devo dizer que prefiro a Lily chata, que não é nem um pouco chata. Então vou chamá-la de Lily normal. - ele fez uma pausa e olhou para mim, sorrindo. - A Lily normal não me faz sentir que eu é quem preciso ser a pessoa responsável. Me sentir responsável por você faz com que eu me torne em uma pessoa um pouco incerta.

Ok, coisas muito esclarecedoras sendo ditas. Primeiro, ele cuidara de mim quando eu estava de porre. Não somente havia me levado para casa e me largado em cima da cama. Ele estava tentando inferir que ficara comigo até a hora em que eu adormecera, imagino eu. E segundo...

-Você não precisa se sentir responsável por mim, James. Nós não somos... - eu fiz uma pausa, para tomar um pouco de fôlego. - Sabe?

James me fitou, confuso.

-Nós não somos... irmãos.

James riu.

-Irmãos? - perguntou ele, surpreso. - Lily, eu nunca, por momento algum, pensei em nós dois como irmãos.

Um sentimento quente e ao mesmo tempo perturbador tomou conta de meu peito. Aquela informação sem dúvida havia sido útil, e reconfortante. Mas eu precisava saber mais.

-Se é assim... Por que se sente responsável por mim, quando eu resolvo dar meus surtos de loucura? - perguntei, sem entender.

James me trouxe mais para perto dele, com o braço dele que estava em meu ombro. Ele falava agora com a sua cara voltada para a minha, e aquela proximidade me incomodava, de certa forma. Não que eu não gostasse daquilo. Mas ele jamais iria dar um passo adiante e acabar com o pequeno espaço que ainda havia entre nós.

-Eu fico medo de não conseguir tomar conta de você. Por que eu me sinto na obrigação de tomar conta de você... - respondeu ele.

-Por causa da minha mãe? - eu o cortei, antes que pudesse me conter. Antes que ele começasse com aquele papo todo de não querer desapontar ao pai dele e à minha mãe.

James riu.

-Não, sua boba. Por que eu me preocupo com você. Por que eu quero cuidar de você, mas fico com medo de não dar conta. Por que eu...

Eu apenas continuei a fitá-lo, esperando que o meu olhar fosse encorajador o suficiente para fazê-lo continuar.

-Eu não sei explicar, ok? - continuou ele, agora um pouco constrangido, desviando o olhar.

Eu sorri. Não sei por que, mas estava satisfeita com aquela explicação dele. Ou aquela não-explicação. Pelo menos o motivo não era algo como não querer desapontar ao Sr. P e à Karen. Fora que James levemente constrangido era uma gracinha.

-James, me desculpe por não ter entrado na brincadeira mais cedo. Na hora da valsa. Eu estava realmente nervosa.

Ele riu.

-Não tem problema. Eu percebi que você estava nervosa e queria que você relaxasse. Mas acho que acabei te deixando ainda mais nervosa.

Aquela hora foi a vez de eu ficar sem graça.

-Não sei. Aquelas coisas que você disse...

-Fizeram você pensar em Oliver? - perguntou ele, em um tom estranho.

Eu olhei para ele, arqueando as sobrancelhas.

-Oliver? Ahn?

-Por que ele é seu namorado, sabe... - esclareceu James.

O que eu deveria dizer? Não, seu idiota. Me fizeram pensar em como, por mais que eu tente, eu não consigo deixar de gostar de você e começar a gostar de Oliver como eu deveria. Mas, bem, como James e eu havíamos resolvido ser francos um com o outro quando passamos a conviver mais (fora meio que um trato que fizeramos em um dia fatídico em que ele generosamente me ensinara a fazer um omelete), eu resolvi ser pelo menos parcialmente franca. Ou tentar uma indireta. Não que isso fosse certo, já que eu tinha um namorado. Lindo. Fofo. E que gostava de mim.

-Não, James. Eu não pensei em Oliver naquela hora. - De jeito nenhum, fiquei com vontade de acrescentar.

James olhou-me de uma maneira diferente logo após eu ter dito aquilo. Ficamos em um silêncio que, com qualquer outra pessoa ou em qualquer outro lugar, seria incômodo. Mas nós éramos Lily e James, e eu não me senti nem um pouco incomodada ao fitá-lo indefinidamente. E ser retribuída.

-Ah, aí está você. - eu ouvi a voz de Mary dizer. Olhei em sua direção e vi que ela andava até nós. - Após sermos totalmente abandonados, eu e Oliver resolvemos sair para procurar as pessoas.

Mary parou por uns instantes e eu pude perceber que ela olhava um pouco intrigada para nós. Por que havia nos achado sozinhos, em silêncio, e, de certa forma, abraçados. Mas antes que qualquer um de nós pudesse dizer mais alguma coisa, Oliver surgiu por detrás de Mary e parou ao seu lado.

-Então aí estão vocês. - disse ele, em um tom meio agressivo. Eu tirei o meu braço da cintura de James e ele imediatamente tirou o seu de meus ombros. - Com quem mais você estaria, não é mesmo, Lily?

-Oliver...

Oliver bufou e revirou os olhos, em seguida nos dando as costas.

-Oliver! - eu chamei, chateada.

James lançou um olhar intrigado para Mary, sem entender ao certo o que estava havendo. Mary continuou inexpressiva, mas eu pude notar em suas feições que ela estava com um pouco de vontade de rir.

Eu suspirei, aborrecida, enquanto observava Oliver atravessar a porta de volta ao salão principal.

-Lily, você não deveria estar indo atrás do seu namorado? - perguntou Mary, ao ver que eu não fazia menção alguma de seguí-lo.

-Ele está sendo irracional! - eu exclamei.

James optou por ficar em silêncio, mas percebi que ele me lançava um olhar de descrença. Como se discordasse. E Mary também parecia um pouco descrente.

-Me desculpem, vocês dois. Mas se eu estivesse no lugar de Oliver... - começou Mary, agora um pouco mais séria.

Bem, talvez ela tivesse razão. Eu lancei um último olhar para James, e ele olhou de volta, tentando ser inexpressivo, mas com um ar de riso. E então eu resolvi ir atrás de Oliver.


-Oliver! - eu chamei, logo que ele havia entrado em meu campo de visão novamente.

Ele apenas parou e esperou que eu o alcançasse.

-O que aconteceu? - eu perguntei. Percebi na hora que era uma pergunta um pouco cínica, já que eu havia admitido mais cedo que já havia tido sentimentos por James e logo depois ele nos encontrara naquele... clima.

-Você é quem tem que me dizer, Lily. - respondeu ele, tentando soar calmo, mas estando claramente irritado.

Eu suspirei, cansada.

-Eu sei, Oliver. Sei que você ficou com ciúmes. Mas não estava acontecendo nada ali, sabe? Nós só estávamos conversando, como dois bons amigos. E nos abraçando, oras. Você não abraça suas amigas?

Oliver bufou.

-Abraço, Lily. Mas aquilo pareceu algo mais. Ainda mais sendo com um cara o qual você admitiu já ter tido sentimentos. - respondeu ele, soando muito lógico.

-Eu entendo, Oliver. - eu respondi, chateada. - Mas eu também te expliquei que meu interesse já era fraco antes de te conhecer e virou nulo quando eu te conheci. O problema entre nós, é que você não confia em mim.

-É meio difícil confiar em você, depois da cena que eu presenciei.

-Pelo amor de Deus! - eu exclamei. - Não é como se eu tivesse me agarrando com ele! Nós estávamos abraçados, nós somos amigos!

-Não era o que parecia.

-Então eu não sei o que dizer, por que tudo que eu tentei te falar foi em vão. - eu retruquei, aborrecida. Ótimo. Eu estava fazendo um dia de namoro e já estava brigando com o meu namorado. Que podia não ser mais meu namorado nos próximos segundos.

-Eu vou embora. - falou Oliver, após alguns instantes em silêncio. - Preciso de um tempo para pensar, esfriar a cabeça. - ele se adiantou e beijou a minha testa. - Eu te ligo depois.


Então eu comecei a andar meio que sem direção pelo salão. A festa já estava quase chegando ao fim, as atrações (como os filhos dos donos da festa pagando o maior mico - leia-se: eu e James dançando valsa, discursos etc) já haviam chegado ao fim e os comes e bebes estavam ficando mais escassos também. Mas no geral a festa havia sido um sucesso, para a satisfação da minha mãe e, minha mãe estando satisfeita, o Sr. P parecia estar também. Não havia mais dúvida alguma em minha cabeça de que os dois formavam um casal e tanto. E o Sr. P era tão dedicado e... apaixonado, ao que parecia. Só não era muito agradável quando eu entrava toda inocente na cozinha de casa, para pegar um copo de água ou algo similar e os encontrava dando uns... amassos. Ok, voltando.

-Você viu a Marlene? - Mary perguntou à medida que se aproximava. - Eu a vi há mais ou menos uma hora, bebendo muito, no bar. Depois nunca mais. Estou preocupada. E - ela olhou de soslaio para um canto do salão, onde Sirius estava conversando com uma mulher mais velha. - a mãe de Sirius me dá medo. Então estou me escondendo por um tempo. Mas acho que ela nos viu juntos.

Eu ri, e tomei um tempo para examinar a mãe de Sirius. Possuía traços bonitos como os do filho, mas aquele mesmo ar de Narcissa, de quem estava constantemente cheirando algo muito fedido. Sirius falava com ela como se estivesse morrendo de tédio, e ainda assim com um tom meio irônico. Mais tarde eu lhe perguntaria sobre o que os dois estavam conversando. Eu já estava para me voltar para Mary e sugerir a ela que fôssemos procurar Marlene quando senti uma mão em meu ombro. Me virei, e vi que era James. E ao invés de sentir vergonha, frustração, ou qualquer sentimento desses, a única coisa que eu senti foi alívio.

-Hey, me daria a honra de uma dança normal? - perguntou ele, piscando de um jeito forçadamente galanteador, ao estilo conquistador barato. Eu ri. Já estava para lhe falar que eu e Mary íamos procurar Marlene, portanto eu não poderia, quando Mary silenciosamente saiu de cena.

A música de fundo era lenta e suave. Vários casais velhos e alguns jovens tomavam a pista de dança, balançando seus corpos elegantemente.

-Eu acho que nós já pagamos mico suficiente hoje, não acha? - eu respondi, rindo. Mas era óbvio que eu queria aceitar.

-Ah, mas dessa vez não vai ter o salão inteiro olhando para nós. - Não vai ter o Oliver olhando para nós, eu pensei.

Eu concordei e James me envolveu e começou a me conduzir pela pista.

-Então, quão melhor que eu a Narcissa Black é? - eu perguntei, em tom irônico.

James riu.

-Você viu, então? Não sei o que aconteceu, a mãe dela nunca gostou muito de mim, de repente estava me empurrando para cima dela. Acho que ela queria que o meu pai assumisse a representação pública das empresas dos Black. Ou algo do tipo. De repente eu virei um bom partido. Acho que no final das contas, ninguém consegue resistir ao meu charme. - acrescentou ele, divertido. - Ou ao dinheiro do meu pai.

Eu assenti.

-Ela é bonita. - foi a única coisa que eu consegui dizer. Ela era muito bonita na verdade e estava dando mole para o James, então não entendia por que ainda não tinha acontecido nada.

-Narcissa? - perguntou James, surpreso. - É, sim. Mas... De jeito nenhum, Lily. Mesmo.

Aquilo me reconfortou de certa maneira. Mas eu continuava sem entender os motivos de James. Seria o caráter de Narcissa tão ruim assim pra ele não querer nada com ela?

-O Sirius que já teve uns rolos com a Bellatrix. - acrescentou ele, em um tom divertido. Ok, muita informação para mim.

-Iam ser dois casais e tanto. - eu provoquei. - Você com a Narcissa e o Sirius com a Bellatrix.

James fez uma careta.

-Obrigada, Lily, você acabou de me deixar com enjôo de estômago.

Eu ri.

-O que me faz lembrar. A Lorraine não deu as caras, não é mesmo?

Não que eu quisesse tocar no nome dela tão cedo, mas eu estava curiosa.

-É. - James disse, em um tom vago. - A mãe dela deve ter implicado, ou algo do tipo. Emily e o meu pai não se falam desde que se separaram. É uma história complicada.

É óbvio que aquilo me deixou mais curiosa ainda, mas como o tom de James era o de quem encerrava um assunto, eu decidi não insistir.

-Você e Oliver brigaram? - perguntou ele, finalmente, após termos ficado alguns instantes em silêncio.

Eu ri tristemente.

-Ah, parece que sim. No segundo dia de namoro. - respondi, chateada. - Eu só não consigo entender...

-O porquê? - perguntou James, em um tom meio irônico. - Você deve estar brincando, Lily.

Eu fiquei chocada, mas tentei disfarçar, suspirando. É claro que eu entendia. Mas eu não achei que James entendesse. Já que, supostamente, ele não sabia dos meus sentimentos, que deveriam ser secretos, mas que todo mundo já sabia, por ele.

-Então me diga o porquê, James. - eu pedi, em tom de desafio.

-É óbvio que ele se sente ameaçado por mim. - respondeu ele, quase que imediatamente. - Já que eu sou completamente irresistível. - Eu bufei. James riu e continuou, mais sério: - Por que nós passamos os nossos dias juntos. Por que nós moramos na mesma casa, por que nós somos próximos. E, bem, por que quando eles no viu na varanda nós estávamos bem próximos. E sozinhos. Além do fato de ele ter achado que você era a minha namorada, no show.

Eu ri.

-Mas isso é um absurdo. Não tinha nada acontecendo naquele show para fazê-lo pensar assim. - eu comentei, achando que ele ia concordar em mim. Mas ele só ficou em silêncio. O que era de certa forma, um silêncio de concordância, não? Dizem por aí que quem cala consente. Mas ok. - Aliás, se eu me lembro bem, Judith nunca se sentiu ameaçada por mim.

James riu.

-Judith nunca achou que eu pudesse me interessar por alguém inteligente, já que eu estava com ela.

-Isso é maldade, James. Mas obrigada pelo elogio. - eu respondi, sentindo um pouco de pena de Judith e ligeiramente lisonjeada pelo elogio que ele fizera a mim. - Mas ela se sentia ameaçada por Lorraine, que é bonita e inteligente.

-E você também é bonita e inteligente, Lily. - falou ele, gentilmente. E talvez James não fizesse a noção das reações em cadeia que ele provocara em mim com aquele comentário, como meus batimentos cardíacos se acelerando cada vez mais, quase como se meu coração fosse pular pela minha garganta, o formigamento nas maçãs do rosto e os espasmos múltiplos por todo o meu corpo. - Vai entender a cabeça da Judy. Mas ela é uma boa pessoa.

Eu ri.

-James, ela já se ofereceu para os seus dois melhores amigos! - eu protestei, antes que pudesse me conter. - Aliás, ela já dormiu com o Sirius! - e eu acrescentei isso sem a intenção de ser fofoqueira.

James sorriu.

-Eu sei disso, obrigada por me avisar.

Eu olhei-o, abismada.

-E você não se importa?

James deu de ombros.

-Não é como se tivesse sido quando nós dois estávamos namorando "a sério", ou como se ela tivesse me traído. Eu acho que o Remus podia ter aproveitado também, mas digamos que ele meio que agia como uma menininha com relação à primeira vez dele. - respondeu James, sorrindo. - Eu acho admirável, de verdade.

Só por que o Remus não tinha vontade de enfiar o pipi em qualquer lugar disponível que aparecia pela frente? Pois é, eu também acho admirável, em se considerando que ele é um menino. Mas é claro que eu não externei os meus pensamentos.

-Então o Remus realmente gosta da Andy, não é? - eu perguntei. - Por que ao que me parece eles já passaram a noite juntos.

James assentiu.

-Mas essa história é meio enrolada, eu acho que você já deve ter percebido.

Eu sorri.

-É verdade. Mas eu não acho que nenhum de nós tenha histórias simples.

James também sorriu.

-Com certeza.


N/A: Pois é, devido à total abstinência de James do capítulo passado, fiz com que ele aparecesse muito nesse. Aliás, acho que desde que o Oliver e Lorraine apareceram, James têm aparecido menos, não é? Eu sei que vocês sentiram a falta dele, eu também senti! Fiquei revoltada comigo mesma por ter escrito tão poucas cenas com James. Por fim, ele está de volta. E para ficar, com certeza.

Lorraine não apareceu nesse capítulo por seus motivos, não só por que não tinha muito bem como encaixá-la nas tramas da festa beneficente. Mary e Sirius mais próximos, Marlene arrependida. Vou agora responder as reviews de vocês, por que ultimamente tenho sido meio que negligente. Se bem que eu ando atualizando todas as semanas, e vocês ainda querem que eu atualize com mais frequencia. Meldels, a gente dá a mão e vocês já vão querendo o corpo inteiro né? Haha. Mas eu amo vocês do mesmo jeito. Obrigada pelas reviews e pelo apoio, e... bem, é isso. Entrei de férias hoje. Quer algo melhor que isso?

Beijos e Queijos. To de férias e vocês não, hahaha!