Capítulo 10. As entrelinhas
"Atrás de palavras escondidas
Nas entrelinhas do horizonte dessa Highway"
- Beleza. – Ela murmurou.
- Como assim "beleza", Marlene? – A voz irritada de sua mãe fez doer seus ouvidos ao mesmo tempo que a luz pálida do Sol que atravessou a janela que ela livrava das cortinas fez o mesmo com seus olhos.
- Você perdeu a carona de Frank, está atrasada! Levante-se que seu pai a levará. - Ela foi saindo e gritando pela casa.
O carro de seu pai cheirava a fumo de cachimbo, hortelã e estofado novo. Ela se jogou no banco do passageiro, sua cabeça girava em um "não fuja de mim" de voz rouca que não parava de se repetir em círculos espiralados por sua mente. E a cada vez que ela, via o que parecia gravado em sua retina: o rosto de Sirius Black, ora sorrindo de um modo calmo e brilhando que ela nunca vira nele, como se tivesse atingido alguma solene razão maravilhosa que ela absolutamente desconhecia; ora sério por uma determinação que parecia ver em algum ponto da testa de Marlene.
- Está tudo bem, filha? – A voz de seu pai pergunta.
- Tudo, pai. – Sua voz saiu rouca.
- Comeu alguma coisa? Tome este suco, eu sabia que sua mãe não ia esperar você comer.
Marlene alcançou a garrafinha na mão de seu pai, agradecida.
- Lennie, gostaria de conversar sobre algo com você.
Marlene fez um gesto brusco do qual se arrependeu pois lhe fez doer a cabeça. Mas foi inevitável: seu pai estava quase sempre muito imerso em seu próprio mundo e nunca dizia coisas como "tenho que conversar sobre algo com você".
- O quê?
- Bem, sua mãe disse que o tal Bone tem intenções muito sérias com você e…
- Pai, eu só tenho 18 anos…
- Exatamente. Não quero que você aceite algum tipo de noivado, se ele sugerir, entende…
Marlene sorriu para ele.
- Sem chances, pai. Eu não quero isso nem um pouco.
Seu pai sorriu satisfeito.
- Minha garota. Ainda quer ir pra faculdade, certo?
- Certo! – Ela se animou.
- Bem, isso será arranjado.
Mas a animação causada pela conversa com o pai sumiu como fumaça quando ela desceu do carro. O giro que sua cabeça deu a fez lembrar-se de todo o ocorrido da noite anterior. E então o rosto de Sirius gravado em sua retina, o sorriso solene que enxergava alguma verdade maravilhosa em seu rosto… ela não pode mais negar… a verdade era a mesma para ela.
Enquanto andava pelo gramado em direção à escola, sentiu um medo desmedido, descomunal, insuportável porque de repente soube, ou admitiu o que parecia ter sido sempre verdade, que amava Sirius Black, e não havia solução para isso. Quis correr, mas suas pernas levaram-na somente para a escola, trêmulas, a cabeça doendo. Ela precisava fugir.
Então tomou a decisão: entregaria o trabalho necessário para concluir sua nota em Literatura, daria alguma desculpa para o professor e não permaneceria na próxima aula. Andou um pouco mais animada até a sala.
Seu plano não funcionou, porém. O professor parecia absorvido numa fúria insana de fim de ano letivo e esbravejou com metade dos alunos, humilhando-a particularmente quando ela veio dizer-lhe que não se sentia bem e gostaria de ir embora.
Marlene novamente se sentiu um animal caminhando para o abate quando foi sentar-se. Jogou o corpo numa cadeira a um canto da sala, garantindo ficar longe de Sirius.
A aula passou nas espirais que Sirius Black lhe causava. Ela tentava prestar atenção à leitura dos alunos que tiveram que refazer seus poemas, como Sirius, para que o professor os reavaliasse. Via-o lançar olhares que pareciam fazer arder sua pele, mas não o encarou à exceção de uma vez – Sirius parecia lívido: o rosto pálido e um pouco suado, mantinha aquela determinação solene e iluminada da noite anterior, olhava para o professor com as mãos agarradas com força à carteira. Marlene tinha certeza de que isso nada tinha a ver com a reprovação que o professor tinha usado para ameaçá-lo, Sirius Black jamais daria tanta atenção a isso. Devaneios de que Sirius estava assim por sua causa invadiram sua mente antes que pudesse evitar, mas felizmente para seu bom senso, foram interrompidos pelo professor.
- Sirius Black! – A voz do professor trovejou pela sala. Marlene pulou na cadeira de susto edeixou cair o estojo, e ao tentar pegá-lo caiu também. Algumas pessoas riram.
Arrastou-se como um verme de volta à carteira, ou ao menos assim se sentiu. Um verme aparado pela visão de Sirius Black caminhando até a frente da sala, onde ela não poderia evitar olhá-lo.
Ouviu cochichos frenéticos ao centro da sala e olhando para verificar, descobriu as amigas de Meg Brown e ela própria conversando. Ouviu um "só pode ser para você, Meg, você vai ver…" de uma das amigas, como se consolasse a garota. Marlene se lembrou então que Sirius a abandonara à porta da festa, enquanto carregava-a no colo para seu carro. Sentiu um aperto na garganta ao pensar na possibilidade da qual as garotas se referiam: Sirius pedindo desculpas num poema apaixonado para a namorada. Sentiu-se agora um verme que por um segundo pensou ser uma princesa em contos de fadas, mas descobre-se voando no bico de um pássaro, para alimentar sua cria.
Imersa em pensamentos apavorantes de amar Sirius Black e ser obviamente desprezada, Marlene subitamente percebeu que o professor ainda ralhava com o garoto à frente da sala: sempre teve um ódio particular por Sirius.
- Estou lhe avisando, Black, mais um poema sobre seu carro e nada de faculdade por um bom tempo! Vou lhe meter um "F" nas fuças e você terá que repetir o ano enquanto eu viver!
Sirius visivelmente segurou o riso, o que fez aparecer uma breve cor em seu rosto. Mas assim que ele olhou novamente o papel em suas mãos, a lividez voltou a tomar conta dos traços bonitos, e ele pigarreou antes de começar a falar o título:
- Bem, é… hum… o poema se chama "Quando eu só sabia escrever poemas sobre o meu carro".
Algumas pessoas riram, o rosto do professor ficou vermelho.
- Sr. Black, o senhor está lembrado do que eu acabei de lhe dizer?
- Sim, senhor.
O professor suspirou e franziu as sobrancelhas para ele.
- E sobre o que é esse mald... o poema do senhor?
Sirius baixou o rosto para os sapatos e depois lançou um olhar para a janela atrás do professor. Falou então muito claramente em sua voz rouca:
- É sobre uma garota, senhor.
O grupinho de Meg Brown deu risinhos e iniciou um novo cochicho frenético, interrompido pelo professor, que parecia agora um tanto atordoado.
- Certo… uma garota… OK, bem, então vá, rapaz, declame.
Sirius tentou ignorar a breguice do professor no uso da palavra "declame", para não rir, e começou a ler a folha trêmula em suas mãos (era a primeira vez que tremia em uma sala de aula na vida), o mais dignamente possível.
- Como eu disse, se chama "Quando Eu Só Sabia Escrever Poemas Sobre o Meu Carro". – Ele pigarreou novamente, deu um olhar de dois segundos a um canto da sala, registrou que Marlene não saíra correndo (apesar da brancura que adquirira ao olhá-lo como se ele fosse acertá-la com uma faca direto no coração), o que ainda assim encheu seu coração de coragem e o fez querer rir da graciosidade dela, e começou:
"Eu quero as coisas que não voltam
Como o meu rádio que você quebrou
Ou a sua mochila no banco de trás.
Eu quero a fuga que já acabou
E o vento fazendo seu cabelo voar."
Sirius conferiu se Marlene não saíra correndo outra vez, antes de continuar:
"Quero os momentos que já foram
Ouvir seu riso porque fui engraçado
E ver todos os jeitos que você tem de sorrir,
Quero ouvir seu bocejo vindo do banco ao lado
E ficar acordado só pra ver você dormir."
As pessoas começaram a notar que Sirius olhava não para Meg, mas para Marlene Mackinnon. E ele falava de algo como se fosse uma viagem... os cochichos tiveram que ser reprimidos pelo professor.
"Eu quero de volta aquele banho de mar
Você girando molhada como uma criança louca,
Quero voltar atrás quando te toquei e ouvi o que prometeu
Quero ver você dançar com nada mais do que a minha touca
Mexendo os ombros, meus ossos preferidos são os seus"
Marlene nunca sentira tanto medo na vida. As pessoas olhavam para ela e… Sirius olhava para ela. Estava tentando não pensar no quão maravilhoso aquilo parecia ser, tentou se concentrar no medo e no formigamento de seus dedos das mãos e dos pés.
"Mas se eu voltar muito, correr no tempo sempre rápido para trás
Andar por aí fingindo não saber que é por você que eu paro
Esquecer cílios, olhos grandes, pulsos finos, seus tornozelos, meu coração
De mim não vai restar nada, nem corpo, nem para viver uma razão
Só vai sobrar o tempo em que eu só sabia escrever poemas sobre o meu carro."
A platéia/sala de aula pareceu levar uns instantes para absorver. Sirius olhava agora diretamente para Marlene, sem variar entre o papel nas mãos e a garota, que registrou que não sentia mais as pernas muito bem, e que isso a apavorava bastante, pois já passara da hora de sair correndo. A maior parte da sala estava com os lábios entreabertos por ouvir aquilo de Sirius Black, uma boa parte estava ainda mais atordoada porque acabara de ter certeza que o poema não era sobre Meg Brown, ela sabia disso e olhava Sirius com fúria; uma pequena parte olhava de Sirius para Marlene, parecendo entender algumas coisas, mas surpresas como se entendessem que 2+2 é 5, afinal. Algumas poucas pessoas, chamadas Lily, James, Alice, Remus e Frank sorriam satisfeitos olhando de um para o outro e entre si.
- Muito bem, muito bem, senhor Black. Muito bem… - O professor parecia também estar um tanto atordoado. – Certo, pode ir se sentar.
O que parecera estar a vida toda escondido em entrelinhas, aparecia agora como verdade em palavras diretamente saídas dos lábios de Sirius Black, para quem quisesse ouvir.
N/A: Muito obrigada para quem leu! =] Em especial para Niril, que me deu um "bem vinda de volta" muito confortante! Marina e Biancah, espero que vocês gostem deste também! Antigas leitoras, vou responder antigas reviews por resposta, torcendo pra que vocês ainda me leiam!
Beijos!
