A Sorte e o Azar (2a parte)

- "Lamento a tua perda. A sério." – e com isto colocou um braço à volta dos ombros dela e encostou a sua cabeça na dela.

Ficaram em silêncio durante uns longos minutos. Por vezes o silêncio é como um velho amigo que nos sabe bem abraçar.

E por vezes simples gestos falam por si. Não é necessário formular palavras.

Ainda com o braço de Draco enrolado nos seus ombros, deslizou a cabeça para cima e olhou fixamente para Draco.

Qual era a razão dele estar ali, se momentos antes estavam a discutir e a demonstrar o quanto se odiavam?

Será que não era ódio? Será que…

- "Draco, porquê? Porque vocês fazem sofrer tanto uma pessoa? Porque é que mataram a Tonks?" – uma tímida lágrima deslizou pelos olhos inchados de Hermione e repousou no peito de Draco.

Este último, olhou para Hermione, mas depressa depositou o seu olhar num outro ponto distante.

Não conseguia encarar aquele olhar. Um olhar tão triste, tão sofrido. Draco Malfoy que já tinha visto as piores coisas do mundo sem qualquer pena, sem qualquer problema, não conseguia encarar uns lindos e tímidos olhos castanhos.

- "Lamento." – foi tudo o que conseguiu proferir.

Hermione desenrolou-se bruscamente do braço de Draco e levantou-se, indignada.

- "Lamentas? Será que só sabes dizer isso? Como podes lamentar algo que não sentes? És um deles. Deves estar radiante pela Tonks ter morrido. Como foi que ele disse? Aaaah… 'houve uma baixa na ordem'. É só disso que se trata, não é? Baixas e mais baixas. Mortes e mais mortes, até não sobrarem mais ninguém. Era tua prima. TUA PRIMA!"

- "Eu sei quem ela era. EU SEI, porra! Não posso fazer mais nada. Ela escolheu o caminho errado. Talvez se ela fosse mais inteligente, estaria neste momento com uma marca negra no braço esquerdo do que com uma lápide em cima." – dizia Draco, que agora se encontrava de pé, encarando a cara perplexa de Hermione. E depois disto, não viu mais nada… Apenas sentiu.

Sentiu uma mão a bater com toda a força possível e imaginária no seu rosto.

Hermione tinha acabado de lhe dar um estalo.

- "Metes-me nojo. E eu a pensar que por debaixo do teu devorador da morte, havia de algum modo um Draco Malfoy decente. Com coração. Um coração a descongelar. Que estúpida que fui ao pensar que estavas a mudar. Que terias SALVAÇÃO!"

Depois de ouvir estas palavras de esperança estilhaçada, Draco Malfoy foi apoderado de uma força e de um sentimento que não conhecia.

Sem qualquer controlo no seu corpo, sem saber o porquê, pegou no rosto de Hermione e beijou-a, desesperadamente.

Ao princípio o beijo foi abrupto e ardente como se dependesse dele. Sentia a repulsa de Hermione e as suas mãos a tentar afastá-lo, mas sem sucesso. E por fim, Draco ficou surpreendido.

Hermione tinha se entregado também ao beijo.

O seu gesto significava que também ela tinha desejado aquilo. Que também ela andava a sentir algo que não entendia.

As mãos de Hermione percorriam a nuca de Draco. Acariciavam o seu cabelo loiro, enquanto Draco acariciava as suas costas. Os seus corpos estavam juntos e roçavam um no outro. Um coração estava a bater desenfreadamente. Ele sentia-o.

E por fim, sentiu que eram dois a bater do mesmo modo.


A madrugada tinha passado lentamente. Não tinha conseguido dormir e várias vezes deslizava para a janela em busca do regresso de Tonks. Mas isso era impossível. Tonks tinha sido levada por Neville, Mr. Weasley e outros quantos aurors para o sitio onde jazia Lupin.

Algo se tinha acalmado dentro de Harry. Uma ideia reconfortante.

Agora, Tonks e Lupin estavam juntos.

Assim como os seus pais.

Estavam juntos e felizes, num lugar que Harry sabia que existia. Juntos e felizes para todo o sempre.

E a tristeza cessou um pouco.

Olhou para o cadeirão. Ron tinha lhe feito companhia durante a madrugada e agora ressonava bem alto com os pés em cima do braço do cadeirão.

Não se ouvia vozes familiares, portanto tudo indicava que Ginny e restante família ainda se encontravam a dormir. A descansar, se possível.

Os raios de sol entraram pela sala e acordaram Ron, que se espreguiçou barulhentamente.

- "Bom dia! Já estás acordado, Harry? Ou nem sequer dormiste?"

- "Mais a segunda opção, Ron. Não consegui mesmo dormir. E é quase 'Boa Tarde' ".

- "O pessoal? Já acordou?"

- "Depois do regresso do teu pai foram todos descansar. Já estavas a dormir quando ele regressou. A Ginny veio cá avisar. Estás pronto?"

- "Pronto? Vamos já para Privet Drive?"

- "Quanto mais cedo, melhor."

- "E a minha irmã? Ela sabe da tua escolha?"

- "Qual escolha?" – Ginny entrara de rompante na sala, sobressaltando Ron e Harry. Dirigiu-se para junto de Harry e encarou-o friamente. – "Que ideia mirabolante tiveste agora Harry James Potter?"

- "Uiii… é melhor sair daqui, antes que sobre para mim."

- "Ninguém vai sair daqui, Ron. Ouviste-me?" – ordenou Ginny, apontando um dedo ao irmão e dirigindo de novo o olhar frio a Harry.

- "Vou embora."

- "Como assim, vais embora? Para onde? Porque raio não me disseste nada? Ias embora sem me dizer? Deixar-me na triste dúvida? Que raio de namorado és tu?"

- "Um namorado que te ama, Ginny. Se não te digo as coisas é porque é o melhor. Porque te quero proteger, quero o melhor para ti… quero…"

- "É melhor parares por aí, Harry. Eu vou para onde tu fores. Eu faço o que tu fazes. Eu não me vou afastar de ti, nem que isso signifique que morra contigo."

- "Meu, é melhor dizeres para onde vamos. Ela não vai mudar de ideias."

- "O QUÊ? Ias levar o meu irmão e não me ias levar a mim?"

- "Ginny, pelo amor de Merlin… Pára com isto. O Ron insistiu… e… pronto! OK! Vamos para Privet Drive. Eu conto-te tudo pelo caminho."

- "Privet Drive?" – questionou Ginny ao mesmo tempo que era empurrada para o exterior da sala.

- "Sim… Privet Drive. Vamos, antes que o resto do pessoal acorde. Será melhor irmos sem tê-los a impedir-nos. Deixei um pequeno bilhete para sossegá-los. Ron, vai buscar o teu manto e o da Ginny. Vamos partir imediatamente."

E o trio deslizou para fora da sala. Ron retirou a sua varinha e com um leve aceno fez dois mantos de viagem aparecerem no seu corpo e no da irmã. Já Harry, não precisava de tal coisa, uma vez que ainda tinha o seu vestido.

- "Esse feitiço dá mesmo jeito, irmão. Quem te viu e quem te vê. Tu que nem talento para mudar a cor do teu animal de estimação, tinhas."

- "Pois… Posso agradecer à Herm…" – mas Ron não conseguiu acabar a frase. Ao caminhar por aqueles corredores, lembrou-se das imensas vezes que Hermione fazia o mesmo junto dele. Das vezes que percorriam aqueles corredores juntamente com todos os seus amigos. A falar. A discutir. Ou apenas em pleno silêncio.

E ao chegar ao exterior com Harry e Ginny fechou os olhos para saborear a doce brisa e proferiu:

- "Vamos encontrar-te Hermione. Nem que seja a última coisa que faça. Vamos tirar-te do sofrimento em que te encontras. Vais acordar desse pesadelo. Vamos todos!"


Ele sentiu também o coração de Hermione. Não queria acreditar no que os seus olhos viam, mas principalmente não queria acreditar no que o seu coração sentia. Ambos tinham desejado o mesmo.

Como se de um sonho tivesse acordado, Draco encarou a realidade e da mesma maneira que começou o beijo, o terminou.

Largando Hermione abruptamente, recuou alguns passos de modo a olhá-la nos olhos.

Ambos ofegavam e não conseguiam encarar-se. Mas quando isso aconteceu, Draco pôde ver o brilhozinho de satisfação nos olhos de Hermione.

E ele jurava que os dele também transmitiam o tal brilho.

Como se isto fosse um estímulo para o que vinha a seguir, Draco sibilou:

- "O que acabou de acontecer, nunca mais se repetirá. Foi um lapso meu. Estou carente. Precisava de uns lábios quentes junto dos meus. Ao que eu cheguei. Como estou aqui preso, tive que me contentar com a sangue de lama."

- "Porque não consegues ser verdadeiro? Porque raio estás a omitir ou a mentir? Sê verdadeiro como outrora já fostes. O que dizes não é o que sentes. Está a passar-se algo entre nós. Eu também sinto isso. Sente também e diz a verdade."

- "Queres a verdade? Não sinto nada. Ouve bem o que te digo, Granger!"

E depois de proferir tal coisa, caminhou para fora do quarto e fechou a porta atrás de si.


Abriu a porta.

Tudo estava em plena escuridão e com "cara" de abandono.

O pó acumulava-se em estantes e armários e dava à casa um ar fantasmagórico.

Nem parecia a casa que antes tinha que estar em pleno "brinquinho".

- "Esta casa está mesmo numa lástima. Precisa de uma arrumaçãozinha."

- "Gi… não viemos para limpezas. Apenas viemos para permanecer uns tempinhos. Temos coisas a tratar e não podemos estar na sede. Este lugar dá perfeitamente."

Harry olhou para as paredes e para as inúmeras molduras com fotografias da família. Da família Dursley, a qual Harry nunca tinha sido incluído.

Estava tudo do mesmo modo que se lembrava ter deixado.

À excepção de uma fotografia do casamento de Duddley. Uma foto onde Duddley, a mulher e os pais permaneciam imóveis. Nada a ver com as fotografias dos feiticeiros.

O casamento deveria ter sido interessante. Ver Duddley, por fim, a casar-se devia ser algo histórico. Mas Harry não pôde ver a cara de Duddley. Não por falta de convite, mas por falta de tempo.

Na altura do casamento tinha entrado para os treinos de auror… treinos esses que não podia interromper.

E por essa razão, a sua ausência foi permanente no casamento do seu primo.

- "Onde posso colocar a minha mala?" – Harry olhou para Ginny, nem tinha percebido que ela andava com a sua malinha de missangas. A mesma malinha que Hermione tantas vezes utilizou quando andavam no 7º ano. Podia-se colocar inúmeras coisas naquela mala, que tudo cabia e nunca se enchia.

- "Sobe as escadas e coloca no primeiro quarto, à direita. Era o meu quarto."

E assim Ginny fez. Subiu as escadas e minutos depois ouviu-se um suspiro e uma exclamação:

- "QUE SUJIDADE!"

Tanto Ron e Harry giraram os olhos.

Harry foi o primeiro a entrar na cozinha. A mesma cozinha que tantas vezes utilizou nos seus dias de escravo.

Era triste o facto de não se lembrar de um momento feliz naquela casa. De tantas vezes ter desejado nunca ter nascido. De tantas vezes ter desejado sair dali para sempre.

E nos seus dezassete anos esse desejo concretizou-se. Saiu daquela casa e nunca mais regressou.

Tinha pouco contacto com os tios. Apenas nas ocasiões especiais é que se falavam. Natal, Páscoa, Dia de Acção de Graças e por incrível que pareça, no dia das bruxas.

Já o seu primo todos os meses mandava-lhe uma carta.

Duddley tinha mudado imenso. Já não era aquele sacana que tinha como objectivo de vida ser rufia e atazanar o magricela do primo.

Desde aquele dia em que Harry salvara o primo dos tenebrosos dementors, Duddley mudara.

Ao recordar estes momentos, Harry sentou-se no sofá poeirento dos tios.

A mobília estava lá toda, assim como a rica televisão que Duddley tanto prezava.

Ron também procurou um cadeirão à frente de Harry e sentou-se nele. Minutos depois, Ginny reapareceu e sentou-se ao lado do namorado, ajeitando o cabelo.

- "Então Harry? O que vamos fazer a partir daqui?" – Ron quebrou o silêncio com esta pergunta.

- "Estive a pensar… e vamos entrar em acção."

- "Define acção, meu?"

- "Vamos parar este período de terror uma vez por todas. Vamos capturar o Voldmort, vamos salvar a Hermione e exterminar todo o mal."

- "E como vamos fazer isso?" – questionou Ginny.

- "Vamos pesquisar o passado do pai de Voldemort. Outrora pesquisámos o passado do próprio Voldemort, agora vamos aprofundar um pouco mais. Tenho a certeza absoluta que Voldemort utiliza uma das casas que outrora pertencera à família Riddle. O Ron tinha razão quando mencionou isto."

- "Mas ele detestava o pai… detestava toda aquela família. O que fizeram à mãe, o desprezo que deram… isso tudo!"

- "Sim, é verdade Gi. Mas temos outra questão. Outra questão que nós na Ordem andávamos há muito a ponderar. Que apesar de eu e o Voldemort sermos completamente diferentes, somos ao mesmo tempo muito…"

- "… Parecidos!" – concluiu Ron, com uma expressão de quem tinha acabado de encontrar a saída no final do túnel – "Estou a entender onde queres chegar Harry. Ambos ficaram sem pais, ambos viam Hogwarts como o seu lar, ambos metiam-se em sarilhos, ambos tinham certas e determinadas parecenças. Já sei o porquê de estar aqui nesta casa, Harry."

- "Não entendo Ron." – questionava Ginny, que pela primeira vez sentia-se perdida.

- "Não entendes? O Harry está a dar os mesmos passos que, supostamente, Voldemort estará a dar. E se for verdade e se tivermos sorte, então, encontraremos Hermione e quiçá o próprio Voldemort."

- "Os mesmos passos?"

- "Gi, amor… Sei que é uma ideia parva, mas tenta seguir o raciocínio. Se nestes anos todos tanto eu como Voldemort fomos um pouco parecidos, então em certas ocasiões, poderemos fazer coisas semelhantes. Por exemplo, neste momento estou numa casa que não me oferece as melhores recordações. Em toda a minha infância quis sair desta casa e nunca mais voltar. Então porque estou aqui?"

- "Porque ninguém vai suspeitar. Uma vez que detestavas esta casa e esta não te protege mais, desde os dezassete anos, então não te servirá de nada e ninguém te vai procurar aqui."

- "Exacto Ginny. Agora entendes? Onde achas que Voldemort poderá estar? Ou a Hermione? Num sítio realmente importante para Voldemort? Num sítio escondido mas de fácil encontro, ao mesmo tempo? Claro que não. Ele estará num sítio que apesar de detestar, lhe será útil. Será de difícil localização, uma vez que ninguém vai desconfiar que ele lá esteja. A não ser alguém que, infelizmente, tenha o mesmo pensar que ele."

- "Entendes mana? Vamos encontrar a Hermione, basta continuarmos a procurar pelas várias mansões dos Riddle."

O sorriso de Ron voltou depois de uma ausência enorme. O brilho nos seus olhos e a certeza de encontrar Hermione cresceram dentro de si.

Nunca tinha desistido e agora sentia.

Sentia que estava mais perto da sua amada. Muito mais perto.


Olhou pela janela da sala. Depois da sua partida, seguira-o sem pensar duas vezes.

Mas mesmo assim não conseguiu detê-lo antes deste sair porta fora.

Gritou pelo seu nome, mas este ignorou-a. Como outrora.

Estava sentado num banco de pedra, naquele sítio que em tempos foi um majestoso jardim.

Queria poder estar com ele, dizer-lhe o que tinha para dizer-lhe, mas aquele estúpido feitiço não a deixava concretizar esse desejo.

Bastou abrir a porta da rua para ser projectada para trás.

Esquecera-se completamente desse pormenor.

O que se passava com Draco?

Porque a beijou com tanto desejo e seguidamente a ignorou?

Porque tinha dado tanto de si para depois a rejeitar?

Ela sabia que ele estava a esconder algo. Algo que ela também escondia.

Mas já não queria esconder mais. Não depois de ver o resultado de um simples beijo de Draco

Hermione estava apaixonada por Draco Malfoy.

Não podia esconder mais.