Capítulo 11 - Second heart

Estava sentando no chão do apartamento de John a pelo menos cinco horas, analisando as fotos das paredes azuis tiradas por Lestrade e intercalando seu olhar delas para as fotos na parede quando foi obrigado a interromper o processo para olhar o irmão com descrença.

― Você insiste que o caso requer minha presença e agora quer me afastar dele?

Mycroft maneou a cabeça e arrastou a sombrinha levemente sobre o carpete seco enquanto caminhava para observar os desenhos na parede.

― O caso está tomando rumos diferentes do esperado.

― Então só porque pintaram as paredes de azul e escreveram nomes óbvios, o caso sai do rumo esperado?

― Exatamente.

Sherlock soltou um sorriso satisfeito e voltou sua atenção para as fotos.

― Bom saber disso, obrigado Mycroft.

Imaginou o irmão revirando os olhos, mas estava focado demais para ceder à sua satisfação de ter certeza do que acontecia. Sua atenção vagava sobre as fotos espalhadas no chão e por vezes a análise era interrompida quando o detetive circulava um nome, anotando-o logo em seguida em um caderno que estava próximo. Precisava dar rostos e respostas à eles.

― Escute-me pelo menos uma vez na vida. Se continuar procurando, garanto que não vai gostar do que vai encontrar ― Mycroft o interrompeu novamente.

― Eu já o escutei muitas vezes, irmão ― Sherlock argumentou sem tirar sua atenção da sua pequena lista. ― E se está dizendo que não vou gostar do que vou encontrar, significa que é algo que eu já deveria saber e você, propositalmente, escondeu. Aparentemente não é nada perigoso, portanto, vou continuar sem mais interrupções.

Sentiu a ponta da sobrinha se chocar com mais força contra o chão e olhou para Mycroft com verídico interesse, encontrando-o com uma careta descontente e um olhar desgostoso. Uma expressão que vira poucas vezes.

― Diga de uma vez, Mycroft.

O mais velho respirou fundo e o fitou com nítida hesitação, antes de responder:

― Augustus é quem está vigiando o John.

― Vigiando? ― Sherlock franziu o cenho.

― Vigiando não é bem a palavra, eu diria "tornando-se obsessivo", mas soaria como um exagero.

― E é?

Novamente Mycroft hesitou.

― Nem pense em se calar agora ― Sherlock repreendeu se levantando para ficar frente a frente com ele.

― Há alguns meses notei uma movimentação estranha nas contas bancárias do John... alguém depositava e retirava dinheiro muitas vezes dentro um curto período de tempo. Claramente só estava querendo chamar atenção, o saldo permanecia o mesmo no final, mas John estava tão distraído com o luto que sequer notou. Por precaução, comecei a vigiar os passos do doutor com mais frequência.

― E o que descobriu? ― o detetive apressou ansioso.

― Que alguém está interessado demais em seguir a rotina dele. Não sabemos de quem se trata, não há nenhuma combinação conhecida ― Mycroft esclareceu alcançando seu celular. ― Mas onde John está o mesmo homem está e eu não acredito em coincidência.

Segundos depois o celular de Sherlock notificou uma mensagem e ele rapidamente o pegou. Mycroft havia enviado a foto do suspeito desconhecido.

― Tantas oportunidades e não conseguiu uma foto melhor?

Mycroft o ignorou e continuou falando:

― Esse mesmo homem invadiu esse mesmo apartamento e usou um sangue desconhecido como tinta, escreveu apenas "John Watson" e depois invadiu os sistemas de vigilância e apagou as filmagens, deixando apenas o nome Augustus entre a codificação.

― E já houve uma aproximação perigosa?

― Se considerar um atropelamento uma aproximação perigosa, então sim.

Sherlock arregalou os olhos e agarrou o celular com mais força.

― Foi Augustus? Como sabe?

― Câmera de segurança. Londres está cheia delas, lembra?

O detetive engoliu em seco e abaixou o olhar, sentindo-se repentinamente acuado.

― Por que John não me contou?

― Porque ele não tinha certeza se faria alguma diferença e creio que ainda não tem.

― O que quer dizer com isso?

Mycroft se mexeu, caminhando adjacente à parede.

― Mentiras, segredos... as pessoas comuns se magoam com isso, Sherlock. John não é diferente. Você escondeu o fato de que salvou Irene Adler, depois escondeu seus planos e quando ele achou que finalmente possuía algum espaço significante na sua vida, você finge um suicídio e permanece morto por dois anos, todo mundo sabe... exceto ele, porque não era útil para nada. É normal que John esteja um pouco hesitante quanto a relação de vocês, não acha?

― Mas eu –

― Poupe-me do seu discurso. Ambos sabemos exatamente o que aconteceu e seus motivos, não me faça ter que ouvi-los pela centésima vez. Aliás, deve ser por isso que John anda tão impaciente.

Sherlock bufou, debochando.

― John não está impaciente.

― Oh, claro que não. Ele ter inundado o próprio apartamento é um bom exemplo disso.

― Devia se interessar pela novidade que é ele reconhecer o tipo da tinta, mas imagino que não seja mais novidade para você que compartilha tantos segredos com ele.

Mycroft não escondeu um sorriso malicioso, provocando:

― Ciúmes?

― Queimando ― Sherlock devolveu sarcástico entre dentes, afastando-se.

O sorriso do mais velho se abriu ainda mais, fazendo Sherlock revirar os olhos novamente. Mas antes que a civilizada conversa continuasse, um dos celulares tocou. O detetive rapidamente atendeu ao ver que se tratava de Lestrade.

― O que tem pra mim?

Dois corpos no St. Bartholomew.

― E por que isso é algo além de obvio? ― Sherlock franziu o cenho.

Estão sem o coração e me garantiram que não é por causa de um transplante não informado. Logo estarei lá e você não se atrase.

Quando a linha ficou muda o detetive, confuso, fitou o celular e estreitou os olhos. Lestrade estava estranho e sequer oferecera carona, como sempre fazia.

― Um novo caso?

― O que acha? ― respondeu ainda imerso em pensamentos enquanto saia do apartamento.

Mycroft esperou alguns segundos antes de voltar sua atenção para o celular, encontrar um número salvo recentemente e enviar uma mensagem rápida.

Estamos saindo agora. É a sua chance.

MH

Suspirou e se virou para olhar a foto de John às suas costas mais uma vez. Uma que chamou sua atenção pela familiaridade e autoria. Ele mesmo havia tirado alguns dias atrás, para fins que ainda não poderiam ser discutidos... mas o que ela fazia ali, grudada naquela parede e protegida por uma fina camada de vidro?

Seu celular vibrou novamente.

Preciso mesmo fazer isso?

Lestrade

Mycroft revirou os olhos e começou a andar para seguir o irmão, digitando impacientemente.

Apenas faça, Inspetor, e não esqueça de ser cuidadoso. Pegue apenas as fotos e não mexa em mais nada. Sherlock perceberá.

MH

O Hospital St. Bartholomew estava lotado, não somente de pacientes como também de policiais, peritos médicos e curiosos. Determinado, Sherlock desceu do carro de Mycroft e atravessou a primeira barreira de interessados sem se importar com os xingamentos que imediatamente recebera. Em seguida ultrapassou a linha de segurança estranhando o fato de Sally Donnovan nem ao menos olhar em sua direção no processo e Lestrade não estar à vista. Sem o Inspetor, o atraso natural que Anderson criava e alguma instrução, o detetive apenas seguiu o caminho que os peritos faziam.

John não havia respondido sua mensagem, o que o preocupava um pouco. Não era feitio do médico não responder, exceção quando era proposital, Sherlock sempre recebia uma resposta mesmo quando esta se resumia em um xingamento. No entanto, nada havia chegado ainda e John estava naquele mesmo local.

Afastou sua preocupação por hora e finalmente conseguiu chegar ao local do crime, um consultório médico no segundo andar. Só que não havia ninguém útil ali.

― Onde está Lestrade? ― perguntou aos desconhecidos que analisavam os corpos.

― Chegará em breve ― alguém respondeu.

― E o John?

― Ora, perdeu o namorado? ― Anderson soltou em algum lugar às suas costas.

Descrendo em seu azar, Sherlock apenas se virou e fechou a porta contra o rosto de Anderson.

― Ninguém sabe do John? ― voltou a perguntar cínico.

Os olhares confusos que o fitaram por um tempo se desviaram quando a porta foi aberta, revelando um Inspetor ofegante e um médico agitado.

― Desculpa o atraso, Sherlock ― John pediu rapidamente começando a olhar em volta. ― Eu estava terminando uma cirurgia quando...

Sua voz foi sumindo a medida que observava a cena ao seu redor e Sherlock compreendeu a reação quase catatônica.

A cena continha apenas duas vítimas, mas o caos estava criado ao redor delas e a partir delas. Os dois homens estavam estendidos sobre o chão, próximos um do outro e completamente nus. As paredes brancas do consultório agora estavam manchadas de respingos de sangue e dezenas de papeis cobriam o chão, igualmente manchados. O detetive olhou ao redor tentando avaliar a situação quando, finalmente, notou a mesa onde o médico conversava com seus pacientes e de repente soube que Moriarty estava envolvido novamente.

Sherlock ignorou essencialmente os dois corpos, passando por cima de um, e se aproximou da mesa onde havia a possível catarse da cena. Dois corações ensanguentados sobre os papeis avulsos. Sabia que não pertencia a nenhum dos dois corpos na sala, já que estes ainda permaneciam intactos, então tentou pensar em algum significado simbólico para aquilo. Afinal, por que Moriarty mataria dois homens e colocaria dois corações sobre a mesa? Corações que não pertencem às vítimas.

― O que pode me dizer, Sherlock? ― Lestrade perguntou alcançando seu pequeno caderno de anotações.

O detetive o olhou tentado a perguntar ao Inspetor o que havia de errado com ele naquele dia e finalmente descobrir se sua intuição estava certa ou não, mas decidiu por apenas voltas aos corpos e cuspir suas conclusões, como sempre fazia.

― O consultório não pertence a nenhum deles.

― Como tem certeza? ― John questionou se aproximando.

― Fácil, apenas tive que respirar fundo ― Sherlock deu de ombros ― Os corpos estão praticamente no mesmo estado e assim que entrei senti um leve cheiro de formol. Devem falar com a Molly.

― São corpos do necrotério? ― Lestrade perguntou surpreso.

― Deixe-me adivinhar... ― John se pronunciou se abaixando ao lado do corpo com a expressão fechada. ― Mais uma cena de Moriarty?

Sherlock apenas concordou em silêncio, compartilhando daquela raiva contida. Moriarty continuava transformando suas vidas em um jogo sem qualquer barreira que o impedisse, sendo que, só para início de conversa, deveria estar morto.

― E os corações? ― Lestrade se adiantou agitado.

― Com certeza pertenciam a pessoas bem vivas antes de serem colocados sobre a mesa ― Sherlock respondeu. ― Eu, literalmente, não posso deduzir nada sobre corações, mas posso pensar em significados simbólicos que Moriarty possa ter colocados neles.

Então por que ainda me quer aqui? Por que faço parte da sua família? Só por que você se importa demais comigo? Pensei que considerava isso um problema.

Assim que as palavras de John voltaram à sua mente, o detetive ergueu os olhos e encontrou os olhos azuis já cravados em si. O médico não parecia tão perdido quanto ele, na verdade aquele olhar parecia carregar uma certeza tão grande que Sherlock não se conteve em se aproximar, determinado.

― Ainda precisamos conversar.

John franziu o cenho, mas Sherlock não repensou. Havia o deixado sozinho naquela noite em que ambos discutiram sobre a briga com Mycroft, erros e família, depois foram interrompidos pelo próprio Mycroft quando o detetive tentou novamente expor suas dúvidas.

― Agora? ― o loiro questionou confuso, olhando ao redor.

Sim, estavam no meio de uma cena de crime e era exatamente isso que motivava Sherlock. Porque não aguentava mais estar naquela situação e, sem nenhum aviso, sua mente o levar até John, traindo-o quando mais precisava. Sherlock não precisava de dúvidas infundadas envolvendo seu parceiro e como não conseguia apagá-las de sua mente, então encontraria as respostas que elas exigiam e, talvez assim, conseguisse entrar em uma cena de crime sem pensar em John a cada dedução que fazia sobre uma vítima, como aconteceu na recriação de Moriarty com a mulher de rosa.

― Agora ― concordou determinado antes de se virar para Lestrade e, rapidamente, dizer ― Precisamos ir. Assim que conseguir qualquer informação, ligue-me imediatamente.

Não esperou uma resposta e agarrou o pulso de John, puxando-o para fora da sala.

― Sherlock, espera! ― John protestou tentando se soltar, sem sucesso ― Estou no meio do expediente, não percebeu?

Sherlock quis dizer que, devido ao jaleco branco, era obvio que o outro estava no meio de um dia de trabalho, mas não queria perder tempo e nem dar abertura para que criasse argumentos para adiar aquela conversa.

― Sherlock, pare! O que pode ser tão importante?

Algo no tom de voz de John denotava desespero, assim como sua maior avidez em tentar se soltar. Isso só alimentou ainda mais as dúvidas do detetive que não se importou com os olhares que estava recebendo ao arrastá-lo pelos corredores do hospital. Sabia que havia segredos, sabia que havia perigo e, principalmente, sabia que sua mente não descansaria até John Watson voltar a ser um livro sem códigos.

― John.

Paralisou, fechando os olhos com descrença. Não era possível ser tão difícil ter uma conversa com seu parceiro.

― O que quer, Mycroft? ― perguntou ácido ao se virar na direção do irmão.

― Acredito ter chamado o nome do Doutor Watson ― Mycroft retorquiu com um sorriso pretensioso.

― Acredito que sua intromissão não seja coincidência ― Sherlock resmungou notando o nítido alivio ao ver o Holmes mais velho.

Ainda sorrindo Mycroft se aproximou com passos displicentes e sem muita força puxou John pelo jaleco, afastando-o completamente do detetive.

― Felizmente isso não tem importância, ainda tenho assuntos a tratar com o nosso querido John.

Sherlock estreitou os olhos. Por algum motivo levou aquele ato e aquelas palavras como um afronto mais que pessoal, mas se limitou a bufar enraivecido ao vê-los se afastar. A conversa baixa e a cumplicidade que notou entre os dois novamente queimou algo dentro de si, fazendo-o fechar as mãos ao lado do corpo devido a súbita vontade de empurrar o irmão e pisoteá-lo logo em seguida.

Fechou os olhos e respirou fundo. A cumplicidade entre os dois era estranha e inaceitável aos seus olhos, mais inaceitável ainda os segredos que estavam ocultando. Não podia ser coincidência Mycroft interromper suas conversas e estar tão próximo de John. E quando voltou a abrir os olhos, Sherlock estava decidido a descobrir o que estava acontecendo. Dessa vez usaria todas as suas armas, mesmo que tivesse que obrigar um dos dois ou qualquer envolvido a abrir a boca, por bem ou por mal.

Seu celular tocou e, olhando o nome na tela, sorriu. Já tinha sua primeira vítima.

― Bom que ligou, Lestrade. Também já tenho mais informações sobre o caso, então por que não me encontra no 221 B?