Bella

Distraída pelas translúcidas partículas de poeira flutuando no ar, a aproximação de um estranho assustou-a. Imediatamente seus olhos varreram o lugar, seu cérebro freneticamente trabalhando para criar uma rota de fuga. Ao não encontrar nenhuma, ela começou a sentir-se agitada, algo primitivo e feral subjugando seu raciocínio. Um rosnar ameaçador veio à superfície, a estranheza de seu poder assustando até quem o havia emitido. Sem que tenha conscientemente tomado uma decisão, seu corpo graciosamente agachou-se, uma obscura imagem de um sedutor perigo. Suas unhas afiadas estavam prontas para abrir a garganta de quem quer que ousara adentrar seu domínio, o desejo por violência levando-a a vibrar com antecipação.

O intruso permanecera imóvel, pacientemente esperando que Bella dominasse seus instintos. Quando finalmente reconheceu de quem se tratava, Bella enfrentou a quase impossível tarefa de subjugar seu instinto de sobrevivência. O conflito entre o que sabia e o que sentia afetaram Bella profundamente fazendo-a novamente desejar pela doce inconsciência do sono. Tal pensamento trouxe lágrimas a seus olhos pois recordou-se de tudo o que havia perdido. Frustração fez com que enterrasse suas unhas na palma de sua mão na tentativa de suprimir a vontade de destruir algo. A enorme gama de sentimentos importunando-a era exacerbada pelas incansáveis vozes de milhares de pessoas falando sobre coisas mundanas – a audição aumentada de um vampiro era uma maldição e não uma bênção para alguém que nunca se sentiu próxima da humanidade como um todo.

Na vã tentativa de silenciar as vozes, Bella cobriu seus ouvidos com suas mãos. Esgueirando-se em um canto do quarto ela começou a balançar seu corpo para frente a para trás, procurando confortar-se. Curiosamente, o movimento parecia dar-lhe algum alívio, pois ela não mais sentia-se açoitada pelas vozes, pelo estranho ou pelo cheiro de uma deliciosa refeição – somente o fogo queimando sua garganta seca ainda a incomodava. Um copo cheio com um líquido azedo foi colocado diante dela, a bebida destinava-se a atenuar sua miserável sede. Fitando o pobre substituto para o rico sabor que desejava, Bella pegou o copo e forçou-se a beber. Todas as partes de seu corpo rebelavam-se contra a ideia de beber sangue proveniente de um matadouro.

Apesar da recalcitrante recém-nascida que havia dentro dela, Bella estava feliz por não ter de matar para sobreviver. Fora vegetariana quando humana, logo a ideia de exterminar uma vida senciente era ofensiva à Bella. Então ela escolheu viver dos restos das presas dos humano, exatamente como sua criadora. Atraída por cheiros que remetiam à divindade, ela fora tentada a fugir e cravar seus dentes em algum delicioso pescoço, mas sempre fora capaz de conter-se. Não era um caminho fácil de se trilhar, especialmente quando seu corpo doía e a loucura a ameaçava, mas ela desfiava usa nova natureza no intuito de preservar alguma parte de si mesma. Além disso, era uma ótima forma de exercitar controle e ela precisaria disso para o que viria a seguir.

Enquanto enchia-se de sangue de boi, ela deu vazão às mais obscuras fantasias de sua alma. Era um mecanismo que desenvolvera para suportar a privação e evitar o ridículo de sentir ânsia quando lhe era impossível esvaziar o estômago. O som de vidro quebrando trouxe-a de volta à realidade. Observando sua própria mão, ela sentiu uma risada dominá-la – por um segundo acreditara que os cacos a fizeram sangrar. Absurdamente distraída pelos padrões formados pelas gotas de sangue em sua roupa, Bella estava alheia à perfunctória análise que a outra mulher lhe direcionava. Quando sua mentora falou, Bella encheu-se de louca ansiedade.

Acho que chegou a hora de você sair para o mundo lá fora.