Orquestra

Lucy acordou com Edmund a chamando. Abriu os olhos sonolentos e mal pode registrar o que estava acontecendo. Ele estava pegando documentos e jogando-os dentro de uma maleta, aparentemente para organizá-los num único lugar. Ela não sabia do que se tratavam os papeis, mas tinha a vaga noção de que estavam todos relacionados à informações importante, que provavelmente poderiam ser úteis numa barganha para conseguir a entrada dele na Inglaterra.

Ele estava agasalhado, cabelo desgrenhado e olhos injetados. Provavelmente não havia pregado os olhos durante a noite.

- Vista-se, Lucy. – ele disse rapidamente – Klein conseguiu um carro, vamos partir daqui a pouco. Leve apenas o necessário.

- Para onde estamos indo? – ela perguntou sonolenta.

- Dunkirk, se tivermos sorte chegaremos no meio da tarde. – ele disse prático – Pedi comida para você, imagino que deve estar chegando a qualquer momento.

Ela não fez mais perguntas. Foi para o pequeno banheiro lavar o rosto e fazer uma breve higiene. Colocou um vestido solto e por cima um casaco longo. Dentro da mala havia um par de sapatos baixos e confortáveis. Caso precisassem correr aquilo seria mais adequado do que sapatos de salto.

Edmund vestia calça, camisa, um blusão de lã grosseiro, sobretudo e botas militares. Mesmo para uma manhã de início de primavera, o clima estava frio e esfumaçado por causa da neblina que cobria a cidade dormente.

Engoliram a pequena refeição que foi entregue por um homem rabugento e mal humorado. Não deram muita importância.

- Algum motivo para a pressa? – Lucy perguntou ansiosa.

- Há sim. Estão terminando a retirada das tropas britânicas. Já não sei se vale a pena buscar o exercito britânico. Estão sendo expulsos ou naufragados por causa dos bombardeios aéreos. Quando chegarmos por lá, tentarei negociar com qualquer marinheiro que esteja disposto a nos levar através do canal. – ele disse afoito – Não sei se vai dar certo.

Ela colocou a mão sobre a dele, num gesto espontâneo e sutil.

- Vai dar tudo certo. – ela disse calmamente, com uma certeza tão intima que ele ficou estremecido. Talvez ela fosse muito mais forte do que aparentava. Ele tirou um cartão do bolso, com um endereço anotado as pressas.

- Se acontecer alguma coisa comigo, você deve procurar este homem. Rillian é um velho amigo meu, fugiu da Alemanha antes da guerra estourar. Ele cuida das minhas contas bancárias. Não há um centavo na Inglaterra, ou na Alemanha. Está tudo na Suíça. – Edmund disse às pressas – É tudo seu. Você é minha herdeira. Deve ser dinheiro o bastante para tirá-la da Inglaterra e mantê-la confortável na América caso seu país seja invadido. Não pense duas vezes, pegue o dinheiro e fuja.

- Pare de falar bobagem. Nada vai acontecer com você. – ela disse séria – E eu não preciso do seu dinheiro. Sou herdeira de uma fortuna, lembra?

- Isso se você não tiver sido dada por morta. – ele disse sério – Estou apenas me precavendo.

- O melhor que temos a fazer é sair daqui o quanto antes e ir pra costa. – ela disse rapidamente.

- Vamos. – ele se levantou e a ajudou a se levantar também. Ficou calado, encarando-a por um longo tempo. Sentiu uma urgência inexplicável de abraçá-la, de enterrar seu rosto na volta do pescoço dela e dizer que a amava. Gritaria isso se pudesse, mas não agora, não no meio daquela correria.

- Algum problema? – ela o encarou curiosa.

- Não é nada. – ele disse sem graça e então os dois deixaram o quarto de hotel.

Encontraram Susan e Peter na entrada do hotel para fecharem a conta. Klein correu até o outro lado da rua para pegar o carro que havia conseguido sabe-se lá Deus como. Lucy estava certo de que ele havia roubado o veiculo, mas agora não fazia diferença.

Os quatro entraram no carro e saíram deslizando pelas ruas de Paris em direção a saída da cidade. Até alcançarem a rodovia, tiveram de manter uma velocidade muito a quem da pretendia. Foram parados algumas vezes por oficiais alemães apenas para conferencia de documentos pessoais, mas graças as crise de enjôo de Susan, não foram detidos por muito tempo. Ninguém queria realmente causar problemas a uma mulher grávida.

O tempo permaneceu nublado e frio. Às vezes era possível ouvir o som de aviões cortando o céu e tanto Peter quanto Edmund se tornavam cada vez mais apreensivos. Aquilo tinha um significado muito simples. A frota alemã havia saído para caçar e a caça do dia seriam as tropas aliadas.

Lucy se encolhia nos braços dele enquanto o carro seguia para o litoral, cortando estradas vazias, na esperança vã de que chegassem vivos até Dunkirk.

Peter parou o carro alguns quilômetros longe da praia. Teriam de seguir a pé até a beira do mar e tentariam encontrar ou um oficial, ou algum pescador disposto a fazer a travessia do canal.

Edmund entregou a maleta que havia preparado mais cedo para Lucy. Ele e Peter pegaram pistolas e então os quatro seguiram em direção a praia num ritmo lento e cauteloso para que não fossem pegos no meio do caminho.

Não demorou muito para que os dois oficiais se arrependessem da idéia de ir a Dunkirk carregando duas mulheres. O lugar estava uma zona. O cheiro pútrido preenchia cada parcela de ar ao redor deles. Corpos caídos pela areia. Homens feridos, animais mortos. Destroços por todo lado. Veículos queimados. Tudo isso misturado com o cheiro da maresia.

Susan ficou pálida e sentiu vertigens fortes, mas foi Lucy quem acabou vomitando primeiro. Ninguém a culparia. Edmund teria botado tudo pra fora também, se já não estivesse calejado por causa do campo de concentração. Os homens que estavam mais próximos a água mal poderiam ser considerados soldados. Eram apenas farrapos.

- Não devemos nos aproximar mais. – Edmund disse – Homens desesperados, eles não tem nada a perder.

- O que faremos agora? – Peter perguntou. Parecia apavorado e com razão. Não era apenas a vida dele. Sua esposa e filho estavam em perigo também.

- O que vocês vão fazer é arder no inferno! Cães sarnentos desgraçados! – uma voz cansada e rouca se pronunciou atrás deles e o som de uma arma engatilhada foi ouvido.

Edmund e Peter ergueram as mãos sobre a cabeça. Lucy e Susan ficaram estáticas.

- Não vamos atirar. Permita que nos viremos, ao menos para encará-lo. – Edmund pediu seguro.

- Não atiro em um homem pelas costas, ainda que seja um maldito alemão. – o homem disse firme. Edmund e Peter se viraram lentamente e encararam o dono da voz.

Era um homem jovem, provavelmente teria a mesma idade de Peter, talvez alguns anos mais velho. Loiro, com olhos azuis cansados e barba por fazer. Tinha feição agradável, mas naquele momento era apenas mais um soldado que não tinha nada a perder. Correção, não era um soldado, era um oficial que não tinha nada a perder.

- Quem são vocês? – ele perguntou firme. Edmund e Peter bateram continência.

- Coronel Peter Klein, SS, responsável administrativo pelo campo de Duchau, se apresentando. – Peter disse firme.

- Major Edmund Hoffmann, SS Gestapo, segundo responsável administrativo pelo campo de Duchau, se apresentando. – Edmund repetiu o gesto do companheiro e ambos receberam um olhar desconfiado do oficial que apontava a arma.

- Dois oficiais suicidas? – o homem perguntou – Ou são loucos, ou realmente querem morrer nessa praia. Já que se apresentaram, então lhes devo a mesma cortesia. Capitão Tirian Campbell, um dos oficiais responsáveis pela missão de evacuar essa maldita praia o mais rápido possível e matar todo alemão desgraçado que aparecer na frente.

- Oh pelo amor de Deus! – Susan chorava – Não faça isso! Por favor! – o capitão encarou-a com espanto.

- Inglesa? – ele baixou a arma alguns milímetros – Quem são as duas?

- Se me permite, capitão. – Peter falou tentando manter a calma – A senhora de cabelo preto é minha esposa, Susan Klein. E a outra é Lucy Pevensie, minha cunhada.

- Somos cidadãs britânicas! – Susan disse imediatamente – Por tudo o que é sagrado, só queremos voltar pra casa!

- Acho bom alguém começar a me explicar o que está acontecendo aqui. – Tirian falou sério.

- Somos desertores. – Hoffmann falou calmo – Estamos nos entregando a um oficial britânico sob custódia e se lhe parece aceitável, temos informações que podem interessar aos seus superiores.

- A troco de que vocês dois vêm até Dunkirke só pra se entregarem quando a Alemanha está sob vantagem? – Tirian arqueou a sobrancelha. Lucy tremia e estava terrivelmente pálida. Aos poucos a consciência foi ficando falha e o corpo dela pendeu para o lado. Susan a amparou enquanto Edmund a olhava em pânico.

- LUCY! – ele gritou e correu até ela para socorrê-la, sob a mira de um capitão pasmo – Pelo amor de Deus! Ela precisa de um médico!

- O que ela tem? – Tirian perguntou sem ação.

- Eu não sei! UM MÉDICO! ELA PRECISA DE UM MÉDICO! – Edmund já não raciocinava direito e teve sorte de Tirian ser um homem dado a cavalheirismos, principalmente quando envolviam uma mulher desacordada.

Ele mandou Peter carregar a garota por ser o mais forte e ainda com a arma aponta ele conduziu os quatro até uma das poucas construções próximas à praia que parecia inteira. Era uma taverna desmantelada, onde alguns soldados estavam deitados no chão, com bandagem em membros feridos, ou na cabeça.

Havia apenas duas pessoas de pé. Um homem de rosto sério, porém jovem, e uma garota com roupas esfarrapadas. Em algum lugar no passado, as roupas que usavam foram brancas, agora eram trapos encardidos, mas notava-se que se tratava de um médico de campanha e uma enfermeira desnutrida.

- Scrubb! Preciso de você aqui! – Tirian gritou.

- Estou tentando manter esses homens vivos, não está vendo? – o médico respondeu impertinente. A moça que o auxiliava levantou a cabeça e ao ver Lucy desacordada nos braços de Klein correu até ela.

- Quem é ela, o que aconteceu? – a garota perguntou.

- Preciso de você aqui, Jill! – o médico disse zangado.

- Oh, cale a boca! Eu tenho uma mulher desacordada aqui, Eustace! – foi quando Susan finalmente reconheceu aquele nome. Levantou a cabeça para encara o médico mal humorado.

- Eustace Scrubb? É você mesmo? – ela disse assombrada. O jovem médico a encarou por um momento e então veio o choque – Sou eu!

- Shoshanah? Não, Susan Pevensie? – ele amarrou a ultima bandagem e correu até a mulher – Leeba! Eu não acredito! São vocês! Susan e Lucy!

- Ótimo! Você as conhece! PODERIA AJUDAR, POR FAVOR! – Peter berrou.

- Claro! – Eustace respondeu prontamente – Deite-a ali, sobre o balcão.

Peter obedeceu e o médico passou a verificar os sinais vitais dela.

- Jill, veja se há alguma garrafa com um pouco de bebida. – o médico disse e logo a enfermeira correu para trás do balcão, onde achou uma garrafa empoeirada com um resto de vinho. Tirou a rolha e entregou a ele.

Eustace posicionou a boca do vidro próximo ao nariz de Lucy, que foi recuperando a consciência aos poucos, graças ao cheiro forte do álcool.

- Ed... – ela virou a cabeça instintivamente, procurando por ele. – Edmund!

- Estou aqui. – logo ele estava ao lado dela, segurando sua mão – O que aconteceu, Lucy?

- Tontura. – ela disse enquanto tentava se levantar – Estou bem.

- Ela deve ter entrado em choque. – Tirian deduziu – Está bem agora, senhora?

- Leeba, fique quieta mais um pouco. – Eustace disse rapidamente.

- Eustace? O que está fazendo aqui? – Lucy finalmente reconheceu o médico ao seu lado.

- Já que as duas conhecem o primeiro tenente Scrubb, proponho que eu e os senhores terminemos a conversa que estávamos tendo na praia. – Tirian se virou para encará-los novamente. Edmund lançou um olhar ansioso à Lucy – Jill vai ficar de olho nas duas e vai chamar se for necessário. Vocês dois vêm comigo.

Edmund e Peter obedeceram. Seguiram o capitão até uma outra divisão da taverna, onde Tirian mandou que se sentassem de frente para ele. Edmund daria um soco na cara daquele homem e correria até Lucy, mas naquele momento o mais sábio era explicar o que havia acontecido nos mínimos detalhes.

Eram três homens exaustos tentando sobreviver a uma guerra. Talvez apenas as motivações fossem distintas, mas no fundo eles queriam que aquele inferno acabasse rápido. Tirian os encarava de forma avaliativa. Aparentemente, os dois desertores se tornaram absurdamente intrigantes.

- Podem começar a falar. O que fazem aqui? – ele disse sério.

- Eu explico. – Peter disse solene – Éramos até o mês passado os responsáveis pelo campo de concentração Duchau, próximo à Munique. As duas mulheres na sala ao lado são cidadãs britânicas que tiveram o infortúnio de estar no lugar errado, na hora errada. Susan era cantora lírica e sua companhia estava em Berlin para uma temporada de apresentações quando ela e a irmã foram identificadas como judias e mandadas para o campo de Duchau.

- O senhor disse que ela é sua esposa. – Tirian os encarou de forma suspeita – Como isso é possível?

- Está correto, capitão. – Peter respondeu sério – As duas foram designadas pelo major Hoffmann para cuidar da limpeza e organização da residência dos oficiais. Foi quando eu e Susan começamos nosso caso. – Peter mantinha o rosto sério e o maxilar travado. Não lhe agradava falar de sua vida com Susan, mas era um mal necessário. – Eu tinha sentimentos por ela, mesmo antes de descobri-la no campo. Uma feliz coincidência, se me permite dizer. Acontece que fomos descuidados e nosso pequeno romance acabou nos trazendo um obstáculo considerável.

- Prossiga. – Tirian queria todas as palavras, todos os detalhes. Não se deixaria enganar por um alemão safado.

- Ela está carregando um filho meu. Não podia deixá-la no campo, nem mesmo poderia cogitar a idéia. Logo descobririam e seriamos executados. – ele disse num tom sombrio – Eu também estava farto daquele lugar. Posso ser um homem de batalha, mas matar mulheres, crianças, idosos e homens doentes em um campo de concentração é muito mais do que qualquer soldado decente pode tolerar.

- Ainda não explicou a nomenclatura "esposa". – Tirian o encarou seguro. Peter tirou dentro do bolso do casaco uma folha de papel dobrada e entregou ao capitão.

- Me chame de hipócrita se quiser, mas eu não fujo das minhas responsabilidades. A criança vai ter meu nome, assim como a mãe já tem. Foi celebrado em Paris há poucos dias atrás. – Tirian parecia tão convencido quanto qualquer pessoa ficaria diante da situação toda – Leve a um perito se achar necessário. Susan foi batizada anos atrás, o casamento religioso é válido. – este assunto seria apurado depois. Uma questão diplomática por vez.

- E onde você se encaixa nessa história, major? – Tirian finalmente se virou para Edmund, que o encarou de uma forma não menos do que determinada.

- Meu caso é semelhante ao do meu colega. – Edmund disse e parecia desconfortável com a situação – A garota que desmaiou, Lucy. Acho que o correto seria chamá-la de minha amante, mas não estou certo. Amantes compartilham o desejo de estarem na presença um do outro, seria equivocado de minha parte assumir que ela me deseja por perto. Quando muito me tolera. – o major era um homem claramente perigoso. Falava da garota com indiferença e frieza. Alguém acostumado a dissimular qualquer coisa. Tirian diria que ele estava mentindo, se Edmund não tivesse agido de forma tão histérica minutos antes – Concordei em ajudar o coronel Klein porque logo eu estaria sob suspeita também. Me considero particularmente cuidadoso com aquilo que me pertence, isso me levou a retirar Lucy de lá.

- Não se casou como seu amigo fez? – Tirian ergueu uma sobrancelha.

- Não. – Edmund disse simplesmente – Casamento é expressão da vontade de duas pessoas de compartilharem uma vida em comum. Eu não a obrigaria a isso.

- Traz a garota até aqui, colocando a sua vida em risco e diz que não tem qualquer sentimento por ela além de posse? – Tirian parecia escandalizado. Ingleses eram realmente muito puritanos.

- Não disse que não tenho sentimentos por ela. – Edmund respondeu sério – Só estou dizendo que ela não tem qualquer motivo para ter sentimentos por mim. Não vou obrigá-la a suportar mais do que já suportou. Acredite ou não, eu a respeito o bastante para não levar essa loucura adiante.

- O que quer então, major Hoffmann? – Tirian perguntou por fim – Ela me parece bem dependente do senhor. Vai simplesmente abandoná-la?

- Só quero uma garantia de que ela voltará para Inglaterra e ficará em segurança. – ele respondeu sério – De resto, faça o que bem entender comigo. Estou disposto a entregar planos do Reich, e como agente da Gestapo, pode apostar que eu sei muita coisa.

- E pode apostar que este é o único motivo que vai me fazer levar os quatro para o outro do Canal. – Tirian falou num tom exausto – Droga. Vou ter que arranjar uma embarcação realmente pequena, se não quiser que um dos soldados acabe matando vocês dois.

Nota da autora: Menino, que capítulo corrido esse. Admito que foi mesmo um turbilhão de emoções, mas eu precisava apresentar Jill, Eustace e Tirian. De quebra eu precisava garantir passagem pros fugitivos até a Inglaterra. Isso aqui vai virar novela mexicana, estou sentindo isso. Segurem a respiração crianças, porque no próximo capítulo a tia estará de férias (provavelmente reprovada em processo penal) e o momento cabalístico Ed e Lu acontecerá. Se preparem para muitas emoções no próximo capítulo de Réquiem!

To Be Continued...(Depois dessa eu me preparo para receber pedradas XD)

Bjux

Comentém (Sem música pq continuo com pressa)