Disclaimer: Justiça Jovem pertence a Greg Weisman/ Cartoon Network/ Dc Universe/ Warner Bros., etc. Jogos Vorazes pertencem a Suzanne Collins. Sou apenas uma fã sem nada pra fazer.
Só tenho uma coisa a dizer: o tamanho do capítulo compensa pelo atraso! Perdão pela demora imensurável! Continuo amando vocês!
Boa leitura! :3
Capítulo X - Soterrado Por Sentimentos
Minha mãe diz que quando uma pessoa desencarna, a alma dela não vai direto pro céu ou pro paraíso. Ela fica aqui um pouquinho entre nós, no purgatório, como diz a igreja católica.
-Ela vaga o tempo que for preciso entre nós para se redimir por seus pecados e depois fazer sua ascensão para o céu. – ela diz para mim, sentada em sua cadeira, tricotando a colcha do meu pai enquanto eu fico ali de pé, no escuro. Ela levanta o rosto, sem sorriso – Geralmente no lugar em que ela morreu.
-... a gente não deve interromper a missão de ninguém. – eu ouvi a voz de Megan e minha mãe sumiu. Só escuridão em volta de mim. Virei-me para trás e lá estava a menina da zona 10, com as facas na mão.
-Você interrompeu a minha missão!– ela gritou pra mim, atirando uma faca na minha direção.
Eu pulei e meus olhos se arregalaram, suor frio escorrendo por meu corpo. Não tinha mais a tipóia segurando meu braço e as agulhadas da farpa na minha barriga estavam me matando de dor. Por um instante eu pensei ainda estar sonhando pela escuridão infindável em volta de mim, mas a ficha caiu que eu estava em algum lugar debaixo da terra porque estava tudo muito úmido e não havia uma estrela quando eu olhava para cima em busca do céu.
Eu respirei fundo, com dificuldade, sentindo o ar frio entrar e descer até meus pulmões, arrepios por meu corpo inteiro. Meus dentes trincavam enquanto eu rolava para a lateral, tentando desfazer o nó da manga do meu casaco ao redor da minha cintura. Eu o vesti, mas ainda estava muito frio pra conseguir me mexer.
Tateei a pedra abaixo de mim, meus olhos não enxergavam um palmo a minha frente e eu só sentia a umidade entre os meus dedos. Continuei até sentir o vértice do chão e da parede, me arrastando e sentando com minhas costas apoiada na superfície áspera. Prendi a respiração contando até dez, me concentrando e tentando ouvir qualquer coisa perigosa que pudesse haver naquele corredor rochoso, mas nada me chamou atenção.
Uma pontada e eu mordi a língua. Aquela farpa atravessada na minha barriga estava doendo muito e eu não estava em condições de machucar daquele jeito mais. Eu precisava urgente de um remédio e de um par de mãos extras, no mínimo – enquanto duas puxavam a farpa, as outras tapavam os buracos pra eu não morrer de hemorragia. Mas, até aí, é pedir demais.
Eu provavelmente não teria muito mais chance, presa sob a terra, sem comida e com um resto mortal de água no cantil; uma farpa na minha barriga, um corte no meu braço, um ombro deslocado sem falar no meu pé luxado depois de chutar a cara de Tuppence.
Isso me fez rir, então, apesar da dor. Valeu à pena. Eu a deixei desdentada e isso nunca me deixou tão feliz assim.
Sim. Estou aceitando morrer esquecida num buraco porque não tenho muito jeito de sair daqui e, sim, meu pai deve estar morrendo de vergonha de mim nesse momento, falando qualquer coisa que eu sou uma completa inútil por não ter cavado minha saída; minha mãe estaria chorando inconformada por ter perdido mais uma filha para a Capital; Oliver deve querer vir especialmente até aqui me entregar o analgésico enquanto me xinga de todos os nomes sinônimos a idiota; Dinah deve querer me dar algum discurso moralista para me animar nesse momento de tristeza e solidão; Roy deve agradecer por não ter que me matar...
É. Talvez seja mais fácil mesmo, fechar meus olhos e esperar sofrendo pela morte. Talvez seja a forma mais agradável de morrer nessa arena e talvez eu seja privilegiada por ter tido essa chance. Talvez eu seja recebida de braços abertos por meus amigos que vieram aos Jogos e morreram, me esperando e me perdoando pela minha falta de capacidade. Talvez eu até encontrasse Gar...
-Gar... – minha voz estava tão calada quanto o vento e os grandes olhos verdes brilhantes do menino macaco de pelo e pele verde musgo, com um sorriso tão grande quanto o de qualquer outro e aquele brilho no olhar que via encanto em tudo e em todos. Aquela criança maravilhosa que me ajudou, me fez rir e me fez me importar com alguém novamente quando nada mais fazia sentido.
Eu senti meu rosto se contorcendo em uma careta conforme eu tentava segurar as lágrimas que escorriam insistentemente pela minha face, mas não consegui. Eu as limpava com as minhas mãos, uma seguida da outra, até eu começar a soluçar e a dor do desespero e luto tomarem conta de mim, uma dor que não havia força de vontade para trancar num baú e enterrar a sete palmos.
E Gar tinha morrido, aquele sorriso doce em seus lábios se desfazendo e seu rosto paralisado eternamente em confusão, como se fosse a melhor das hipóteses para se morrer: com duvida. Não. Ele não merecia aquilo, não merecia te sido morto daquela forma, me protegendo, porque eu não valho à pena! Eu não valho nada comparado ao que ele valia! Ele se sacrificou por mim, encarou Tuppence para me proteger e sorriu aliviado quando conseguiu se livrar dela para mim. Tudo porque eu os havia abandonado no fogaréu da floresta, caindo do penhasco e ficando distante deles.
De novo, eu sou covarde! Eu sou a maior covarde que há nessa terra! Eu não mereço estar viva ainda enquanto Gar, Tula e Jade estão mortos! Não, porque eu não os estou honrando continuando viva somente por sobreviver e não viver. Eu não valho a pena os esforços que Oliver teve para me treinar nem as broncas de Dinah, nem o sorriso glamoroso de Helena ou os olhares de repreensão de Roy.
Como eu podia simplesmente aceitar morrer depois de tantos outros terem partido com a intenção de continuar no Jogo?! Está certo que, por mais que eu odiasse isso daqui e aceitasse o fato de que morreria logo, nunca levei em conta conhecer os outros tributos a tanto que me causassem tamanho impacto.
Gar se foi, sem pedir nada em troca, com olhos verdes dóceis e aquela sua carinha de menino, um menino pra sempre e eu só fui capaz de cair em um buraco inútil, sem nem dar qualquer apoio a Megan!
-EU SOU UMA INUTIL! – eu gritei para mim mesma entre soluços. Um completo desperdício de espaço enquanto tantos outros poderiam estar no meu lugar, com poderes, fazendo acontecer.
Por que será que a Capital não me mata logo de uma vez?! Eles instalaram um maldito chip no meu sistema nervoso que vai me matar se eu passar do limite da arena. Eles podem muito bem estourar meus miolos enquanto eu não estou lá em cima onde às câmeras podem me ver.
Ah! Claro que eles devem estar satisfeitos por me verem chorar desesperada no subterrâneo, pensando em Gar e em minha morte lenta e dolorosa.
Se Jade estivesse em meu lugar, tudo seria diferente. Ela teria tirado essa farpa, teria se remendado com o que tivesse e subiria o mais rápido a superfície para que seus patrocinadores milionários lhe enviassem o remédio necessário para tampar o ferimento. Com a teimosia e astucia dela, ela não morreria de sangramento. Não mesmo.
Já eu... Eu sou a fraca, a incapaz, aquela que chora quando a situação está tão ruim que o pior nem importa mais; aquela que senta sozinha no escuro de uma caverna e espera o tempo passar, sem lutar por nada; aquela que não foi capaz de agüentar outra morte naqueles jogos; simplesmente aquela que deveria significar muito, pois vim pra cá por causa de Bette, não posso nem passar uma mensagem bonita de despedida pra minha amiga.
Ela provavelmente é outra que está chorando por mim.
Definitivamente, eu sou a pessoa mais patética que eu já conheci.
Um vento forte se manifestou pela caverna e passou por mim com tanta pressão que quase me levou junto, mas ele voltou como se só tivesse percebido que eu estava ali atravessada no corredor estreito. Quando eu ergui minha face chorosa tudo que pude ver foi um vulto negro parado a minha frente se aproximando de mim e eu, por reflexo e puro instinto, chutei as pernas do individuo e o atirei ao chão, ouvindo um grito familiar.
-AI! – eu não podia acreditar naquilo. Eu esfreguei meu nariz com as costas da minha mão e lutei pra subir grudada na parede, sabe lá se aquela pessoa quisesse me matar.
Tentei alcançar a faca em minha mochila, mas quando eu escorreguei uma das abas pra pegá-la de lado, meus braços foram presos contra a parede, acima de mim, e minha mochila caiu no chão entre as minhas pernas. Minha farpa só doeu mais com aquele gesto e eu grunhi de dor.
Eu estreitei meus olhos até que eles finalmente se acostumassem com a escuridão e eu pudesse ver melhor a silhueta daquele infeliz que insistia em ficar ali parado, esperando por alguma luz – em todos os sentidos.
E, quando eu finalmente consegui distinguir as cores, os cabelos embaraçados e ruivos como laranjas, os olhos verdes de maçã como dois pontinhos brilhantes no meio da escuridão e aqueles óculos vermelhos de proteção pendurados em seu pescoço.
O ruivo maldito estava bem perto de mim, mas eu não tinha tempo para brincadeiras.
-Me solta. – eu o mandei, meu maxilar trincando.
-VOCÊ É LOUCA, É?! EU PODIA TER MATADO VOCÊ?! – eu odeio ameaças sem procedência.
-ENTÃO POR QUE NÃO MATA, HEIN?! – me debati, tentando chutá-lo no meio das pernas, mas quando levantei meu joelho, a farpa andou na minha barriga e eu contraí o meu abdômen, xingando de dor e chorando de raiva por não conseguir fazer nada – AFINAL, ESTAMOS AQUI PRA MORRER! ME MATA LOGO! ME MATA!
-PÁRA COM ISSO! – eu senti novas lágrimas descerem pelas minhas bochechas e essas me fizeram enxergar melhor as manchinhas pequenas no rosto dele, e a sua boca numa linha de concentração. Quando me voltei para seus olhos, os vi com uma eterna duvida neles e as rugas entre suas sobrancelhas não era nada comum.
O Cabeça de Cenoura não combinava nada com essa face de frieza e isso me lembrou de que as pessoas se transformam quando estão com a vida num eterno risco. Eu só lamentei que não visse o sorriso do mala sem alça antes de morrer.
Eu senti aqueles orbes sobre mim, analisando-me como se eu fosse um animal arisco que pudesse feri-lo pelas costas. Se eu estivesse em meu auge, eu o daria razão para isso. Entretanto, agora era apenas a fossa da minha vida e dar esse gostinho de presenciá-la antes de eu morrer para Wally West não estava na minha lista de coisas a fazer antes de partir.
Vir aos Jogos também não, mas eu tive de adaptá-la.
-O que houve com você? – sua voz, por incrível que pareça não se dirigia a mim como superioridade, mas preocupação.
-Não quero sua piedade. – o avisei quando suas mãos soltaram meus pulsos e eu o empurrei com força para a parede atrás dele, me retraindo e me encolhendo de dor. Meus olhos não saíram de seu rosto, porém, e eu vi irritação tomando conta dele.
-Você quer que eu te trate mal então?! Pois eu posso fazer isso sem o menor problema. – ele rebateu bufando e chutando minha mala para trás dele, impedindo-me de continuar a me dobrar para pegá-la – Você quer parar com isso?! Tem um troço na sua barriga e você mal consegue respirar de tanto chorar!
-Eu não preciso que retrate a minha vida, West. – e, por um breve instante, não sei se foi à falta de luz ou qualquer coisa parecida, mas pensei ter visto os olhos verdes se arregalarem em choque e, em seguida, se transformarem em pura seriedade.
-O que há? Você nunca me chamou de West.
-Sempre há uma primeira vez.
-Artemis! – eu me assustei com meu nome ecoando pelas paredes frias da caverna. Eu tinha quase me esquecido dele.
-O que quer? – eu perguntei, sem dar o braço a torcer, estreitando meus olhos e esperando que ele me respondesse alguma coisa haver com os jogos, com os tributos, com ele. Sei lá!
Porém, ele somente soltou um ar e relaxou os ombros, me encarando de soslaio como se isso fosse me deixar mais relaxada – Eu não sei o que está te atormentando tanto, mas não tem problema em chorar quando tiver vontade.
Não tem problema em chorar quando tiver vontade
Eu tomei alguns segundos para absorver o que quer que ele queira dizer com isso, mas eu não sou idiota. É óbvio que o velocista estúpido não saberia de nada que acontecera. Ele só dever ter ouvido o barulho do canhão e ter caído num buraco do outro lado da arena enquanto tomava conta de Zatanna. Aposto que ele mal sabia o nome de Gar ou quais eram os poderes dele.
-VOCÊ NÃO SABE DE NADA, SEU IDIOTA! – eu gritei, esperneando e socando seu ombro com muita raiva – NADA! – ele se virou de frente para mim e eu xinguei por ser mais baixa que ele. Meus punhos atingiam o peito dele, rígido, com tudo que me restava de força. Ele não parou minhas mãos, nem tampou minha boca, nem fez nada. Só ficou ali parado, até eu começar a fraquejar – Nada... Você não pode dizer que não há problema em chorar quando eu tiver vontade... Você não pode! – eu solucei e quando não conseguia mais atingir o torso de Wally, eu simplesmente berrei, chorando como uma criança.
Ele não me abraçou ou se aproveitou de mim. Ele só ficou ali, parado, esperando que eu estivesse me sentindo melhor. Sim. Ele ficou parado por um bom tempo até minhas energias ficarem esgotadas e eu ir ao chão lentamente, porque ele me segurou quando viu que eu ia cair e sentou-se a minha frente no corredor da caverna, dando sua mão para eu apertar enquanto continuava a ser atingido pela maré de sentimentos que estavam me inundando.
Eu fiquei cansada de chorar, com a boca seca e com dor de cabeça, mas acabei apagando. Antes de ficar inconsciente por horas, eu senti um leve atrito entre o polegar dele na minha mão que o apertava e ainda não o tinha deixado ir.
BOOM!
Eu acordei assustada, vendo Wally olhar para ambos os lados do corredor em busca de entender o que estava acontecendo. Minha visão estava horrível, mas eu sabia que ele ainda estava ali porque sua mão ainda estava na minha mão e não tinha mudado até então.
Tudo ao nosso redor começou a tremer, terra começou a cair sobre nós e as pedrinhas no chão pulavam alto.
-QUE PORRA É ESSA?! – Wally berrou, se levantando do chão e tentando se equilibrar. Ele me arrastou com ele e eu gemi de dor de novo – Terremoto?!
-EU NÃO SEI! – respondi morrendo de dor, tentando enxergar alguma coisa naquela escuridão. Nada... Somente senti o pó.
E, de repente, o barulho ensurdecedor de alguma coisa se arrastando na direção de onde Wally tinha vindo. Como uma pedra gigante ou como se todo o teto da caverna estivesse desabando sobre nós.
A única coisa que eu ouvi de Wally foi uma ordem para que eu corresse, ele me arrastando pelo lado que ele iria continuar a correr. Só que eu não estava conseguindo dar um passo sem sentir a farpa andando e desandando a parte que estava cicatrizando. Eu parei na hora e me encolhi, mandando que ele continuasse a correr.
-NÃO VOU TE DEIXAR AQUI! – por que não? Desde quando ele me considera como aliada? Desde quando ele, por algum acaso do destino maldoso, tem qualquer interesse em mim que valha a vida dele? Pelo amor de Deus! O que passa na cabeça das pessoas que estão num jogo de sobrevivência e se sacrificam por uma pessoa que conheceram semana passada?!
Eu me lembrei de Gar que tentou me ajudar e morreu sem nem poder se defender, com um ataque por suas costas. Se Wally me ajudasse, ele morreria assim como o adorável Gar. Eu não posso ter mais uma morte de um menino sorridente sobre meus ombros assim. Não mesmo!
Eu puxei minha mão da de Wally e finquei meus pés no chão, o máximo que eu pude. Forcei minhas pupilas a se focarem na silhueta do ruivo irritante – pelo menos tentar olhar em seu rosto, ou na sombra dele, enquanto eu o mandava ir embora. Wally me chama atenção novamente, me avisando que nós estaríamos mortos se não continuássemos a correr.
-Você vai. – falei, minhas mãos em volta da farpa na minha barriga.
-Ta louca é?! – ele pegou no meu braço, mas eu o estapeei.
-Não quero nem saber se você morrer depois; só não quero que você morra por minha causa. De novo não!
Eu não entendi direito o que aconteceu depois por que: 1) estava extremamente escuro e meus olhos estavam doendo; e 2) tudo foi muito rápido. Eu só fui capaz de ouvir um bufar e um "COMO VOCÊ É IRRITANTE!" antes de ser erguida no ar por braços rígidos e tudo tornar-se um vulto enorme em volta de mim, pressão do ar na minha cara e pó vindo a minha boca. Eu mal conseguia gritar e eu senti o peito de Wally encostando em minha cabeça, a batida acelerada de seu coração a mil por hora em meu ouvido estava me deixando descompassada.
Wally me apertou um pouco mais, enquanto continuava a correr e eu já não sabia mais se morreria de dor por ele estar me apertando tanto com aquela maldita coisa na minha barriga ou se morreria asfixiada.
Eu estava quase ficando inconsciente quando senti uma cabeçada na minha testa que me fez abrir a boca com tamanha força pra gritar, permitindo o ar entrar e sair de meus pulmões.
-NEM PENSE EM DESMAIAR AGORA, DEUSA DA SIMPATIA! – me ameaçou.
Eu mal consigo respirar! Eu queria gritar pra ele, mas a pressão não deixava. Tentei usar meu nariz, com muita dificuldade.
-VIRA O ROSTO PRA MIM! – como assim, raios?!
Virar o rosto pra ele? Em que momento eu conseguiria virar o rosto pra ele naquela velocidade que me jogava pra trás na maior força. Não tinha nem cabimento porque ele estava fazendo aquilo. Não havia qualquer necessidade e não havia, de forma alguma, um valor lógico naquilo. Eu não consigo entender esse ruivo idiota!
-VIRA PRA MIM E VOCÊ VAI CONSEGUIR RESPIRAR... – o ar estava ficando escasso de novo e eu variei, quase desmaiando – PORRA, ARTEMIS! – ele me deu outra cabeçada e eu quis xingar aquele filho de uma puta!
Automaticamente me virei para seu torso, me contraindo de dor e quando eu fui tentar buscar um pouco de ar, milagrosamente, ele entrou por minha boca e alcançou os meus pulmões. Eu nunca senti tanta alegria por finalmente respirar.
-TU É LOUCO, É?! – eu tentei me empurrar pra cima e dar uma cabeçada na testa dele, por vingança, mas aí já seria de mais. Continuei ali parada com dor – ISSO É JEITO DE PARAR UMA PESSOA DE DESMAIAR OU FAZÊ-LA ENTRAR EM COMA?!
Então ele riu. Não aquela risada cínica, cheia de farpas e veneno jorrando dela, mas, sim, uma risada de glória. Como se ele tivesse alcançado um objetivo.
Eu não sabia por onde estávamos indo ou se, em algum momento, o túnel terminaria com uma parede sem saída e nós morreríamos pelo impacto. Porém eu não estava nem aí. Aquela risada dele, aquela alegria... Era como se ele tivesse conseguido tudo o que queria na vida, uma risada sincera, genuína. Uma risada perfeita.
Acho que ele sentiu que eu estava variando, pois logo ele ameaçou me dar outra cabeçada e eu, simplesmente, coloquei minha mão na testa dele.
-Mantenha a visão pra frente, Surfista! – mandei, sentindo o calor da testa dele na minha mão gelada.
-Só uma garantia. – quando respondeu, pareceu estar sorrindo.
Como ele era quente. Muito quente; quase febril. Eu fiquei me perguntando se ele estava bem de saúde, já que um velocista tem uma saúde muito frágil. Entretanto ele não mostrava qualquer sinal de fraqueza e eu tenho que admitir que ele fosse bem forte pra me carregar enquanto correndo milhas por minuto.
-Vai deixar a mão aí pra sempre? – ele me questionou com aquela voz sacana dele e eu corei no flagrante, recolhendo-a imediatamente e xingando por esse movimento ter feito a farpa se mexer.
-Só corre, Kid Boca Grande. – murmurei, fazendo beiço e eu o senti prender uma risada já que estava encostada contra o seu corpo.
-Como a Deusa quiser.
O barulho parou em algum momento bem atrás da onde estávamos, mas Wally resolveu continuar correndo por precaução. Sabe lá o que nos seguida. E eu não entendi muito quando paramos num lugar onde eu chamaria de salão subterrâneo se tivesse paredes e qualquer luz. Mas eu percebi por Wally estar quase parando que aquilo ali era como um balão no fim de uma rua sem saída. Aquele túnel nos trouxe até ali e eu só sabia que era largo, pois o eco nas pedras não incomodava tanto quanto antes.
-Fim da jornada. – Wally brincou, me colocando em pé no chão, devagar, com a farpa no meu abdômen.
-Nota-se. – avisei-o, mas ele não retrucou. Ao invés de se distanciar de mim, como de costume, ele ficou me segurando pelas costas enquanto eu pensava no que fazer em seguida.
-Você vai, tipo assim, em algum momento tirar essa farpa daí ou vai transformá-la numa extensão do seu corpo? – eu o encarei, vendo um vermelho escuro como tom de seu cabelo e sobrancelhas, os olhos verdes raramente reluzentes naquela escuridão – Assim, por curiosidade. – eu estava tremendo de dor. Não estava com energias pra respondê-lo.
Pelo menos meu braço estava praticamente curado né – ou não. Dizem que
-Cabeça de Cenoura, será que pode me largar? – eu estava praticamente me jogando no chão. O ruivo nem se mexeu.
-Claro que não. Você está ferida e está escuro. Se ficarmos longe demais você pode cair e fazer esse seu machucado piorar. Se quiser sentar, eu te ajudo. – ele me alertou e eu bufei, cruzando as pernas e resmungando.
Ele segurou meus braços firmemente, sem me incomodar, enquanto eu ia até o chão. Entretanto, assim que minha coxa tocou o chão gelado do salão, foi como se todo o peso do meu corpo fosse direto para a farpa, não sei como. Aquilo quase me matou. Eu gemi de dor.
-Artemis?! – Wally berrou e eu penso que ele ficou preocupado comigo naquele momento, mas a dor era demais pra eu poder responder na hora.
Estava ficando infeccionada e eu não estava conseguindo me recompor. Eu estava morrendo e em algumas horas estaria com uma febra anormal, até que não teria mais jeito e pus se formasse em volta da minha ferida com o pedaço de pau na minha barriga. Aí, depois de agonizar até a morte e ter visões absurdas, eu morreria.
Seria mais fácil arrancar aquilo agora.
-Artemis...
-Me... Ajuda... – eu pedi entre gemidos e Wally se aproximou de mim, me vendo deitar completamente no chão.
-O que você precisa?!
-Puxa... – eu murmurei, mas ele não entendeu – Puxa! – tentei novamente. Só que quando eu puxava o ar pros meus pulmões, eu precisava mexer o torso e aquilo vazia a farpa se mexer.
-O que?!
-PUXA ESSA MERDA, CARALHO! URG! – eu quase me encolhi, mas as mãos de Wally esticaram o meu corpo novamente.
-TU TA LOUCA?! EU NÃO VOU ARRANCAR ISSO! VAI MORRER DE HEMORRAGIA!
Eu estava morrendo de qualquer forma – SEU MERDA! SE VAI SERVIR PRA ALGUMA COISA ANTES DE MORRER AQUI, NÃO VAI SER PRA FICAR CORRENDO EM CIRCULOS! ARRANCA ESTÁ PORRA OU EU JURO QUE VOU TE ASSOMBRAR TANTO QUE VOCÊ VAI QUERER BATER A CABEÇA CONTRA UM PREGO DE QUINZE CENTIMETROS VÁRIAS VEZES! – ele me encarou embasbacado – ARRANCA LOGO!
Eu senti a pele rasgar na minha barriga, pois Wally não tinha força pra puxar de uma vez só a farpa. Eu gemi e rangi os dentes até que a dor aumentou e Wally teve que puxar ela na diagonal. Ele pediu pra eu resistir, mas até eu juntar energia pra mandá-lo pra onde o sol não brilha, eu já teria morrido. Eu gritei e chorei até que tudo ficou escuro e eu apaguei.
Novamente, né? Porque eu sou uma humana comum sem capacidades físicas pra resistir a uma merda de uma farpa.
Senti uma coisa quente do meu lado. Um calor que fazia tempo que não sentia. E através das minhas pálpebras havia um brilho incomum. Eu senti a umidade embaixo de mim e, claro, ainda estava na caverna. Junto com o irritante velocista. Mas aquele brilho e calor eram incomuns.
Meu primeiro instinto foi tocar o lugar onde o pedaço de madeira havia residido desde um dia atrás – ou desde o momento em que Tuppence me atirara naquela arvore. Eu não tenho mais noção do tempo que estou presa nessa buraco infernal.
Porém, eu senti dor, sim, muita. Nada comparada a dor que eu sentia quando ela dançava entre meus músculos e minha pele. Minha barriga ainda estava aberta, com certeza. Entretanto um pano enfaixando o meu abdômen todo, bem apertado, impedindo que entrasse poeira ou qualquer outra coisa – bom, pelo menos enquanto eu não me mexia.
Franzi meu cenho e abri meus olhos que doeram muito e eu tive de fechá-los novamente para acreditar naquela fogueira com pedras a minha frente. Não sei como, mas ela estava lá e eu fiquei chocada quando vi o ruivo pela primeira vez de uma forma digna. Ele estava tão magro, eu até fiquei com pena – eu devo estar tão ruim quanto ele, sem a menor sombra de duvidas.
Me ergui lentamente e silenciosamente, pois os olhos do Cabeça de Cenoura estavam bem fechados e ele mal se mexia. Sua boca estava aberta também, seca, dava pra ver as rachaduras nos lábios arroxeados dele – e aí que eu notei que ele estava sem o casaco e somente com a blusa regata por baixo. Assim que consegui me sentar decentemente, vi o vermelho e preto do casaco dele na minha cintura e me choquei ainda mais.
Ele pegou as coisas dele pra me enfaixar.
Bem, eu não sei o que as pessoas pensariam sobre isso fora daqui. Talvez um gesto de caridade. Mas aqui, nessa Arena dos infernos, só há duas situações em que uma pessoa salva a outra: a primeira é no caso dos tributos serem aliados, por esse motivo dividirem as coisas; e a segunda é a pessoa ser da mesma Zona que você. Bom, pelo menos no meu consentimento.
Wally não era meu aliado e definitivamente não era da mesma Zona que eu. Porém, ele não parecia nem um pouco arrependido por ter me dado o casaco dele. Minha mochila estava encostada na parede ao lado da dele e eu nem tinha notado isso.
Eu resolvi que seria muito bom chegar mais perto dele, então me arrastei, sentindo que estava muito machucada para andar até ele.
Assim que estava perto o suficiente, sentindo o calor do fogo nas minhas costas geladas e, secando a umidade do meu casaco e me deixando mais confortável, eu comecei a notar as conseqüências no jovem veloz.
A pele bronzeada estava se desbotando e isso mostrava que ele estava ficando muito fraco por estarmos a tanto tempo no subterrâneo. Olheiras em torno de seus olhos deixavam os cílios laranja bem destacados – e haja cílios!
Num pensamento egoísta meu ele nem precisa de tantos cílios assim. Eles ficariam bem melhor numa menina ruiva; mas aquilo compunha o ser excêntrico que ele fazia questão de ser.
As sobrancelhas ruivas estavam cheias e desarrumadas e havia resquícios de uma barba mal-feita em suas bochechas magras e sardentas. Eu fiquei chocada em ver como ele estava cansado.
Além disso, o cabelo dele também estava bem bagunçado e sujo – nem vou comentar do meu porque deveria haver um capítulo só pra mostrar o quão imundo ele deve estar nesse instante. E eu notei que ele também tinha sardas nas orelhas e no pescoço, aqueles óculos de proteção vermelhos estavam nele desde antes mesmo da arena. Com certeza um amuleto extremamente importante.
Vendo assim, de tão perto, até que Wally não era feio. Não. Ele era um moleque, definitivamente. Muito diferente do que Roy ou Kaldur ou até mesmo Cameron aparentavam ser. Bette diria que ele é uma gracinha.
Bem. Não sei se foram borboletas no meu estomago ou se foi à fome mesmo anunciando a sua chegada que me despertaram da minha observação cara-de-pau do ruivo, porque eu senti minhas bochechas arderem – só não sei se elas tinham melanina o suficiente pra ficarem vermelhas.
Como num reflexo, os olhos verdes de Wally começaram a abrir, bem lentamente, e eu vi como eram verdadeiramente verdes. Nem na escuridão que estávamos ou nessa meia-luz eles tinham qualquer outro brilho, qualquer outra tonalidade. Sempre o mesmo verde de maçã verde. Um verde divertido – isto é, se estivéssemos numa situação de diversão.
-Finalmente acordou. – ele bocejou, sorrindo. Eu recuei um pouco e senti o calor aumentar. Estava um metro do fogo e aquilo era muito bom – Pensei que fosse continuar desmaiada... – ele disse receoso e eu estranhei.
-Em algum momento eu teria que sentir fome. – ironizei. Porém, sinto que Wally não sacou de primeira porque ele sorriu abertamente para mim.
-Sinto muito, gatinha, mas não tem comida alguma nesse buraco de toupeira. – ele coçou as costelas e espreguiçou-se, agora olhando bem para mim – Ué? Você ficou me vendo dormir?
Eu senti o rubor vindo a mim agora – que droga! Nem assim consigo odiar aquela fogueira!
Virei o rosto e mudei de assunto: - Como raios você construiu uma fogueira? – apesar da minha escolha de palavras, eu não estava falando com veneno e farpas na língua. Eu estava muito fraca pra ser malvada hoje.
-Eu peguei lixo da minha mochila e juntei ali. Algumas folhas e coisas do tipo. Só foi difícil fazer a faísca pegar. – ele se esticou pro meu lado e aqueceu as mãos cuja luva deixava os dedos amostra com a minha.
-Você podia ter usado o meu casaco. – admiti, relutante, olhando para minha ferida.
-Eu podia. – ele respondeu olhando para o fogo e eu mirei aquele olhos distantes. Ele virou pra mim e sentiu que eu estava questionando suas ações. Eu vi um vermelhão formar embaixo das sardas laranjas – Er... Mas eu sou um cavalheiro e você estava terrivelmente machucada! Eu nem pensei duas vezes. Aliás, assim que você ficar boa, me devolve o meu casaco! – ele falou e achei muita graça naquela forma envergonhada dele.
Vazia um bom tempo – ou pelo menos era essa a sensação – que eu não via o Cabeça de Cenoura envergonhado. Eu comecei a rir, muito. Apesar da dor, eu ria e ria. Chorei de rir, ele ficou me perguntando o porque que eu estava gargalhando, mas eu não conseguia me explicar.
Ele foi ficando mais e mais vermelho e eu já estava me deitando pra trás de tanto rir até que eu notei um brilho diferente em seus olhos e um sorriso se formando nos seus lábios.
-Somos dois ferrados, dentro de um buraco, numa arena mortal, e você é tão cavalheiro que me pede o casaco de volta depois que eu melhorar... – compartilhei o meu pensamento e ele sorriu e riu um pouco mais, me dando corda – É claro que eu não vou te devolver, seu panaca! Vê se toma rumo.
-Por que não, oras?! – ele questionou, rindo debochado – Até parece que a Deusa não vai usufruir de seus poderes pra se curar.
-Se eu tivesse tais poderes. – admiti e Wally me bateu com seu ombro.
-Artemis, você vai ficar boa. – ele falou com tal convicção que eu tive de olhá-lo sério naqueles orbes esmeraldas só pra ter certeza.
Sim. Ele estava falando muito sério.
-Como eu vou ficar boa? – disse começando a ficar inconformada com a esperança ridícula e ofensiva do ruivo mala sem alça – Será que você não vê que eu vou morrer?!
-Não aqui dentro. – ele falou sem rir e sem franzir as sobrancelhas. Eu que fiz a cara feia – Não se depender de mim. – não gostei.
Se depender dele?! De novo isso?! Por que é que as pessoas cismam em me deixar viva como se isso fosse bom?! Não é! Não aqui dentro, com masoquistas e loucos, sem falar em assassinos treinados pra te fazer morrer da forma mais dolorida possível, pois dá audiência?!
Por que é que Cameron e Wally e Gar e Megan estavam fazendo de tudo pra que eu ficasse viva quando eu faria muito melhor a eles morta e enterrada a sete palmos?! Por que é que Wally não me deixaria morrer?!
QUE ÓDIO!
-Mas o que...
-ROAR!
Eu arregalei os olhos e Wally também. Assim que nós olhamos atrás da fogueira, a uns poucos metros longe dela, havia uma criatura bizarra completamente estranha para qualquer ser lá da superfície – ou fora da arena.
Sua cabeça era de um leão, pomposo e bonito, com um pelo que brilhava vermelho na luz da fogueira. E ele rosnava alto e claro, mas entre seus dentes havia uma língua de cobra, sem falar que pingava veneno de seus caninos enormes e seus olhos não era como os de felinos, mas como os de repteis. Nas patas do leão havia longas garras incrustadas a escamas barulhentas que ecoavam os passos pelas paredes de pedras úmida. Sua calda com o chocalho insiste da abominável cobra e, só pra não falar que era do tamanho de um animal comum, aquele leão/cobra tinha quase dois metros e meio de altura e eu nem tinha me tocado o quão alto era o teto daquela caverna dos infernos.
Os orbes amarelos vibrantes do leão me encararam fixamente e quando ele saltou pra dar o bote, esguio como uma cobra, Wally me carregou pro outro lado da caverna. Nossas mochilas no lado onde o animal estava e a fogueira estava se dispersando.
-Mas que merda é essa?! – Wally perguntou quando paramos encostados na parede oposta ao bicho gigante que se virava pra nos atacar – E como é que ele surgiu aqui?!
-Manipuladores, oras! – eu respondi e Wally trincou os dentes.
-Aqueles malditos de uma figa!
-Nossa, cowboy, cuidado com a língua. Essa sua maledicência vai te colocar em sérios apuros. – o incomodei e Wally teve tempo o suficiente de me encarar e ver o ar de zombaria em meus olhos.
-Não é Maria, mas é cheia da graça, né, Artemis? – eu o mandei olhar pra criatura, pois ela estava nos encarando – Isso é uma quimera e nós estamos completamente ferrados, Artemis!
-A não ser que queira ser comida de quimera, te aconselho e me soltar e sair correndo daqui... – sugeri e ele me olhou ofendido – O que?!
-Depois de tudo aquilo que eu te disse, depois de ter te segurado enquanto você chorava e depois de ter ficado de olho em você enquanto você estava desmaiada por minha causa, você realmente acha que eu vou te deixar aqui pra despistar esse animal?! Que tipo de pessoa você acha que eu sou?!
-Um completo idiota por ter salvado mais um adversário seu pra te deixar mais longe de seus pais e de sua casa segura na Zona Oito! – eu o lembrei, deixando-o irritado. Além disso, ele não tem que ficar espalhando por aí tudo o que fez por mim!
Ele me soltou e arfou as narinas, pegando o óculos dele e colocando sobre seus olhos enquanto eu me apoiava na parede. Por um instante o bicho ficava se esgueirando no canto tentando se aproximar de nós. Eu ouvi sua língua sibilar alguns instantes, mas eu estava morta de qualquer forma.
Meu único objetivo era irritar Wally para que ele me deixasse sozinha ali, por pior que fosse a minha morte. Pelo menos seria mais rápida do que ter dor até o fim – não que a quimera venenosa fosse me dar mais serenidade e paz até eu morrer, mas vocês me entenderam!
Ele pegou o dedo sem luva e apontou no meu nariz, me tirando do sério.
-Você é a pessoa mais irritante do mundo, sabia disso?! Mais burra!
-Acho que somos dois! – rebati.
Num segundo ele saiu correndo e eu permaneci parada ali.
Aí eu não entendi mais nada.
Claro que eu queria que ele tivesse ido embora; que ele tivesse me deixado pra morrer, pra que nada mais fosse me impedir de encontrar com Jade; pra que eu pudesse, finalmente, ter paz depois de todos esses anos miseráveis.
Eu devia estar saltitando por ter a chance que eu queria pra que minha vida escorregasse por entre os meus dedos.
Quando eu vi a quimera pisando lentamente na minha direção, eu não me entendia mais.
Eu tremia e meu medo daquele bicho horrendo estava me deixando louca. Como raios eu estava com medo agora?! Por que?! Por que eu estava chorando, por que eu estava olhando para os lados como se alguém fosse surgir do nada e me salvar?! Por que eu estava procurando por esperança quando eu tinha mandado a do Wally embora cinco segundos atrás.
Foi tão rápido, tudo aconteceu tão rápido que eu não tive nem tempo de me preparar, de me despedir do idiota de cabelo ruivo.
Como assim eu não ia ver mais o estúpido Roy ou minha sombra, Zatanna? Ou Babs ou Dick?! Ou não ver mais o leal Kaldur ou a adorável Megan?! A solitária Megan, sem Gar?! Ou até mesmo o olhar gélido do garoto do Zona Doze?!
De repente, o choque foi maior quando eu percebi que Wally não estava ali pra me salvar e eu desabei ao chão, como se tudo que eu acreditasse tivesse ido água abaixo.
Ele, realmente, tinha me abandonado e eu via a quimera rindo de mim com aqueles dentes pingando em puro veneno, aqueles olhos que pararam de brilhar assim que sua pata grossa apagou os últimos resquícios da fogueira que Wally fizera pra nos aquecer. E eu estava lá, chorando, desolada e abandonada, o mesmo sentimento que tive quando Jade tinha sido morta bem na minha frente.
Assim que tudo ficou escuro eu senti o suspiro da minha vida saindo de mim quando o bafo da criatura estava a centímetros da minha cara. Eu vou morrer e vou morrer arrependida, chocada e inconformada com o mundo. Inconformada por eu ter tantas expectativas em uma pessoa que me deu todas e as tirou quando eu a manipulei para tal. A culpa era toda minha e, no final, eu não conseguia parar de chorar e me chamar de idiota.
Eu sou uma idiota!
-IDIOTA! – eu gritei pra mim ou para que Wally escutasse, mas ele já deveria estar a milhas dali.
A criatura rugiu e quando ela ia me atacar, eu fui puxada para o lado com tanta força que eu jurava ter deslocado o meu ombro.
Eu ouvi a criatura gemer de dor por bater o focinho na parede e toda a caverna balançou. Eu não sei onde eu estava, mas estava longe dela. Quando senti estava sendo abraçada por braços que estavam tão quentes por terem corrido que eu me esqueci que ele tinha esse calor humano depois de olhar sua cara pálida na meia luz da fogueira momentos atrás.
Minha respiração estava ofegante do meu choro desesperado de arrependimento que eu não sabia se o coração que batia mais forte era o meu ou era o dele. Eu levei minhas mãos até a lateral de seus braços e cravei as minhas unhas nele só pra ter certeza de que era o mesmo idiota que tinha me abandonado ali – ou pra ter certeza de que aquilo não passava de uma ilusão pra me manter viva, meu subconsciente arrependido me fazendo continuar viva por instinto animal.
Eu o senti gemer rapidamente e baixo enquanto a fera continuava a bater a cabeça no canto atrás de mim, tremendo tudo. Eu ergui a minha face e vi o brilho vermelho dos óculos de proteção. Ele estava me vendo bem, aquele desgraçado!
-Seu...
-Idiota. – ele me completou e eu cravei ainda mais as unhas nele – Eu sei. Talvez mais idiota por ter voltado. – continuei aprofundando as unhas nele – Mas... – ele gemeu de novo – Eu ouvi você chorar...
-E voltou por remorso, é?! Babaca! – reclamei e o bicho ficou tão irritado que começou a dar cabeçadas no teto, fazendo poeira cair sobre nós. Wally me empurrou para a parede e a gente ficou ali esperando o teto desabar, já que o animal tinha se esquecido de nós.
-Eu nem tinha ido pra começo de conversa, Miss Simpatia das Unhas Afiadas! – eu senti sangue escorrer entre os meus dedos – Dá pra parar com isso?!
-Aonde você foi?!
-Eu fui procurar alguma coisa pra bater nesse bicho aí, mas não achei nada no meio do caminho! Daí eu voltei e me lembrei das mochilas, mas quando eu cheguei você tava chorando e gritando no chão e o bicho no seu nariz! Eu não pensei duas vezes e te puxei! Foi isso! – eu estreitei meus olhos para deixar bem claro pro idiota que eu estava querendo olhá-lo nos orbes esmeraldinos – Eu nunca tive a intenção de te deixar pra trás!
-E por que não?!
-Porque eu sou um completo idiota, Artemis! Você mesma disse isso! – eu estava tão inconformada que nada mais fazia sentido e tudo o que ele dizia era só pra me provocar – Só um completo idiota volta, arrisca a vida por uma louca que fura os braços dele!
-Seu idiota! – eu berrei de novo e soltei o braço dele apertando a faixa afrouxando na minha barriga – Você vai fazer meu machucado sangrar de novo! – eu o alertei, tentando enxergar o bicho, mas tudo depois disso foi num pulo só.
Quando eu me voltei pra trás pra tentar enxergar o bicho, o ouvi rugir e bater a cabeça no teto de novo e um barulho de rachadura trincado ecoou pelo salão. Eu não sabia se ficava aliviada ou se saía correndo pra me proteger dos pedaços de terra, de novo – porque os manipuladores tinham adquirido uma alegria doentia em me soterrar. Porém, quando uma pedra enorme caiu no chão e espalhou poeira e luz para todos os lados até mesmo a quimera aproveitou daquilo pra procurar pela presa dela, porque eu e Wally não fizemos nenhum esforço pra sairmos correndo dali – pelo menos eu não, pois estava presa pelo babaca do maior idiota do mundo!
A luz que vinha de fora era aquela luz pálida de uma manha nublado, mas raios de sol de qualquer forma estava invadindo a caverna. A quimera estava tomada pela raiva e pulou em nossa, direção. Wally me agarrou e começamos a correr, no meu ritmo, pelas paredes da caverna agora iluminada. Tudo em tons marrons de terra e poeira. Porém, quando o bicho tentava cortar caminho pra nos abordar, ele pulou pelo pedaço onde a luz do dia tocava e começou a se contorcer e gemer, mancando pro lado, correndo pro escuro como o diabo da cruz. Eu e Wally nos entreolhamos, confusos, mas decidimos aproveitar a oportunidade pra nos jogarmos no alcance da luz.
Porém, quando estávamos quase nela, a quimera voltou aos seus sentidos, completamente possuída de raiva e empinou, novamente, dando uma última batida no teto.
Isso foi o estopim pro teto desabar.
Quando me dei conta, Wally tinha me empurrada pra cima da pedra que já tinha caído e ele tinha sumido entre os destroços do desabamento. Eu não conseguia ver nada em frente à poeira e mal consegui escutar o que ele disse. A quimera rugia sozinha enquanto era esmagada por pedras pontudas e eu tampei meus olhos por causa da fumaça.
Eu tossi, tentando achar o cabeça de cenoura, dificuldade de enxergar na luz do dia era imensurável. Como é que eu ia tirar o Wally dali?! Só eu?!
Quando a poeira baixou eu estava em pé na parte mais baixa do desabamento. Eu não sabia o quão fundo aquilo era até olhar pra cima e ver raízes de árvores tombadas nas extremidades da cratera que a caverna tinha formado quando ela fora soterrada. Tentei esfregar a poeira dos meus olhos, mas só piorei a situação pelas minhas mãos estarem tão imundas quanto minhas vistas.
Voltei-me para o lado de Wally, gritando por ele e tossindo, tentando acordá-lo ao achar algum resquício dele. Qualquer um!
Ele não me respondia e eu senti uma agonia tomar conta do meu coração. Uma dor horrível. Eu me ajoelhei sobre as pilhas de pedras, tentando tirar as maiores pra achar Wally, nenhum sinal dele. Eu tinha que achar ele!
Eu tenho que achar ele, de qualquer forma! Ele me salvou tantas vezes que eu não tenho nem a capacidade de contar! Isso é um absurdo!
Eu não ia viver numa divida que não pudesse pagar a ele. Eu preciso salvar ele! Preciso!
E aí desespero me alcançou quando eu não conseguia erguer uma pedra sequer por causa do meu machucado na barriga, porque estava doendo e sangrando. Eu comecei a chorar, de novo; Pelo menos aquelas lágrimas ingratas estavam lavando a poeira da minha cara e eu poderia enxergar melhor.
-...LY! – eu ouviu alguma coisa e respirei fundo, tentando me concentrar – WALLY! – uma voz bem longe gritava. Alguém estava procurando por ele e eu precisava dessa pessoa, fosse quem fosse!
Só podia ser amigo dele, só podia!
-WALLY! – e quando o tom foi se aproximando eu descobri de quem era a voz e fiquei aliviada, sentindo as lágrimas insistentes continuarem a descer pelas minhas bochechas – WALLY! – várias vozes então.
Ao olhar pra extremidade da cratera eu vi Dick e ele me viu, arregalando os olhos e dando sinal para os outros que estavam na missão de resgate ao aliado deles.
Eu não percebi o quanto estava aliviada ou o quanto eu agradecia a alguma pessoa, não sei se era a Deus ou se era a Jade, a alguém, por te-los feito chegar a nós naquele instante. Dick estava ao meu lado, me segurando e me perguntando o que estava acontecendo e seu estava bem, pois eu estava sangrando.
-Wally está ali embaixo. – eu apontei pra direção dele e Dick viu as lágrimas nos meus olhos cansados.
-Ta. – ele notou o que eu estava tentando fazer até agora. Não sei se ele descobriu tudo, mas sei que ele se importa bastante com o cabeça de cenoura, pois foi capaz de engolir em seco ao ver o tamanho das pedras que esmagavam o Wally – CONNER! KALDUR! – eu o vi me olhando novamente – Artemis, você precisa de cuidados! Você está pingando sangue!
Eu olhei para as minhas feridas e vi o rastro ao meu redor, o sangue escorrendo debaixo e sobre o casaco de Wally.
-Não to nem aí, Dick! Me ajuda a tirar ele daí! – eu o avisei, andando até Wally, mas o baixinho me segurou e eu não consegui me agüentar em pé.
Meu joelho ralou na pedra e eu senti dor, mas eu estava mais preocupada com o ruivo idiota que me jogara na pedra pra não ser esmagada pelas outras e está no meu lugar, soterrado.
Kaldur apareceu do lado de Dick e me viu, primeiramente desconfiado de mim.
-O que houve aqui? – ele olhou sério para Dick e viu o menino se debruçando sobre o lugar onde Wally estava.
-A Artemis estava tentando tirar o Wally daqui. – e Kaldur me examinou pra ter certeza de que não era eu quem tinha causado aquilo tudo.
-Robin, tem certeza? – eu estava desesperada.
Ele estava aqui, podendo ajudar um aliado machucado e correndo um risco enorme, mas estava desconfiando ainda de mim?! Será que Kaldur não tirou nenhum segundo pra olhar na minha cara e lembrar aquela garota seca do treinamento?! Aquela garota que viu o inferno e não tinha forma nenhuma de chorar antes?! E agora eu...
Bem... Pensando melhor, Kaldur também viu o inferno quando Tula fora morta na frente dele. Eu não sou privilegiada. Ele só está fazendo o que eu faria se o caso fosse Megan ou Gar.
-Sim! Eu tenho certeza! Wally está aqui embaixo, Kaldur! Ele está sendo esmagado por essas pedras e a Artemis está sangrando até a morte aqui! Não deixamos ninguém na mão, lembra?! – eu me voltei para Dick que estava sozinho tentando empurrar aquela pedra que eu toquei, manchada de sangue.
Kaldur assentiu e logo mais o garoto da Zona Doze estava escorregando as pedras até estar perto de nós três. Eu comecei a me arrastar até Dick para ajudá-lo a erguer a pedra, mas Kaldur veio a mim e me ergueu, fazendo o Conner me pegar.
-Você salta com ela lá pra cima depois volta aqui pra ajudar o Robin, okay? – o moreno de olhos gélidos afirmou e pela primeira vez eu senti a força daquele moleque em mim.
Eu parecia um ursinho de pelúcia nos braços dele. Ele saltou e eu senti um frio na minha barriga – quer dizer, não senti, pois aquela altura eu não estava sentindo mais nada na minha barriga. Eu tinha perdido tanto sangue que eu ainda não tinha entendido como não tinha perdido os sentidos, mas melhor. Assim eu não preciso que as pessoas me expliquem tudo o que aconteceu todas às vezes.
Eu pude ver quase toda a Arena daquele salto e quando aterrissamos eu não senti nem o impacto, só como se o garoto da Doze tivesse dado um passo simples. Ele me deitou na grama e estralou os dedos na minha cara quando eu estava fechando meus olhos.
-Kaldur vai te levar daqui. Não durma ou você não vai mais acordar. – ele me alertou e eu me choquei pela voz tão rigorosa e formosa dele. Até nisso ele era perfeito.
Ele ficou me olhando e eu olhando-o enquanto ele voltava pra cratera. Assim que ele desceu, Kaldur apareceu e caminhou até mim, olhar desconfiado ainda.
-Eu prometi ao Robin que iríamos cuidar de você, mas assim que dermos um jeito, você não será tratada como nossa aliada. Temos coisas a tratar antes de confiarmos em você. – eu engoli em seco com aquele olhar prateado dele. Ele tinha perdido o casaco e eu vi guelras em seu pescoço negro. Ele tinha se tornado uma pessoa tão fria em tão pouco tempo – Artemis! – eu voltei aos seus olhos prateados sérios e suas sobrancelhas loiras e franzidas – Você entendeu o que eu lhe disse?! – eu assenti exausta – Muito bem. – ele me tomou em seus braços e caminhou lentamente comigo – Além disso, é bom mesmo que Wally esteja ali embaixo e é bom que ele esteja bem, ou eu juro que você não verá mais a luz do dia.
Eu arfei minhas narinas e fiz questão de que ele estivesse olhando pra mim no momento em que eu fosse respondê-lo. Assim que seus olhos cruzaram o caminho dos meus eu abri a minha boca: - Não se engane, Kaldur. Eu fiquei um bom tempo sem ver a luz do dia e se não fosse por Wally eu nem estaria falando agora, ou estaria aqui. Então, não venha com essa de que não vai me deixar ver a luz do dia. Se eu a tenho é por causa dele e não é você, com toda sua pompa e desconfiança que vai tirar de mim esse fardo.
Ele ficou me encarando por um longo tempo, mas depois perdeu pra mim e eu tinha mais um motivo pra ficar acordada aquele meio termo: descobrir o esconderijo dos aliados do Wally.
Acho que Kaldur caminhou comigo por uns bons vinte minutos até alcançarmos um bosque com árvores enormes de troncos largos o suficiente pra se construir um apartamento dentro deles. E, como se eu tivesse adivinhando, sobre as raízes daquele lugar, havia fogueira, cabanas e até mesmo um lugar onde eles depositavam sacolas – imagino eu coisas que ganhavam de seus patrocinadores ou achavam por aí.
Kaldur desceu comigo por ali e eu vi uma face que eu estava quase louca de tão preocupada. Aquelas sardas destacadas na cara verde da ruivinha mais carinhosa que eu conhecera em toda a minha vida – os olhos tristes, apesar de tudo.
Quando Megan me viu, surgindo do nada como ela tem costume, sendo levada para uma cabana ela chamou por meu nome e seguiu Kaldur. Dentro da cabana havia uma porção de remédios e bandagens, além de um saco de dormir estendido sobre um tronco carvalho que cheirava, abrindo todos os buracos entupidos do meu corpo.
Kaldur me largou sobre ele e sentou-se num tronco menor ao lado, desatando o nó que Wally tinha feito na minha barriga. Meu corpo todo estava dormente e tudo ao meu redor estava perdendo o brilho.
-Megan, deixa ela acordada. – Kaldur mandou.
-Mas, Kaldur... – Megan flutuou mais perto de nós.
-A deixa acordada agora! Eu tenho perguntas ela não vai descansar até que Conner e Robin tragam Wally até nós.
Megan assentiu lentamente e receosamente, vindo até mim e passando a mão na minha cabeça suja, lágrimas no canto de seus olhos âmbares que tinham recuperado algum brilho depois de me verem.
-Isso vai doer um pouquinho, ta? – ela acarinhou minhas sobrancelhas e eu tentei sorrir pra ela.
-Eu já to acostumada à dor. – admiti e ela fez uma careta chorosa, fechando os olhos e abrindo-os com aquele brilho verde alienígena.
Uma pressão invadiu a minha cabeça e por alguns instantes eu senti meus neurônios sendo separados por aquilo. Um estupro mental praticamente. Depois ela foi colocando tudo em seu lugar até que ela me levou pra algum lugar na minha mente, um lugar onde tudo era deserto e iluminado pela luz do luar no céu; um lugar onde Jade estava assando um lagarto e me chamava pra jantar.
Eu estava usando um macacão jeans desbotado e uma blusa branca rasgada por baixo, galochas amarelas e eu senti um curativo na minha bochecha. Eu não parecia ter oito anos, mas eu usava as mesmas roupas daquela minha idade e Jade estava tão novinha. Eu comecei a chorar e eu ouvi um soluçar nas minhas costas. Quando eu me virei, lá estava Megan tomando as dores alheias como de costume.
-Onde estamos? – eu perguntei, limpando as lágrimas dos meus olhos por estar numa lembrança tão boa.
-Nas suas memórias. – ela se aproximou de mim, acariciando minha bochecha machucado que não doía nada – Desculpa por estar xeretando no seu passado. Eu sei o quanto você sente saudades de sua irmã. – ela olhou pra baixo, deixando várias lágrimas descerem pelo rosto dela. Por algum motivo, eu as senti molharem o meu rosto.
-Você consegue fazer isso? – eu estava chocada demais pra ficar brava naquele instante. Ela assentiu cabisbaixa – Você é demais. – ela negou com a cabeça e me viu, chorosa.
-Se eu fosse demais eu tinha salvado o Gar... – e ela desabou de tanto chorar, eu a abracei ali, na minha memória.
Eu não sabia o que dizer, mas eu chorei junto dela, muito, porque vê-la daquela forma era como ver a minha mãe abrir os olhos pela primeira vez depois do acidente na usina. Nós – eu, Jade, papai, até mesmo mamãe – sabíamos que ela estava bem e que ela viveria, mas só de saber que ela não voltaria a andar e não seria mais a mesma coisa que era ao abrir os olhos antes nos deixara com tamanha dor no coração.
Aquilo seria a mesma coisa. Não importa todas as vezes que eu fosse olhar a Megan a partir de agora: eu seria sempre a memória da morte de Gar pra ela e ela seria sempre a péssima lembrança da morte dele pra mim. Infelizmente.
-Não foi você, Megan. Não foi você a culpada. – eu a alertei, mas não adiantava. Era a mesma coisa que as pessoas deveriam estar dizendo para a Bette lá em casa quando qualquer coisa ruim acontecia a mim.
Bette, do jeito que ela era, não iria dar a mínima.
-Mas a morte dele não foi em vão! Ele não morreu sem o propósito dele! – eu a lembrei e ela me olhou espantada, como se eu não tivesse prestado atenção ao desabafo religioso dela – Lembra? Todos temos nossa missão? – ela assentiu e eu tentei passar por cima do ensinamento dela pro nosso bem – Ele está bem, Megan! Ele está bem! Ele cumpriu a missão dele e eu nunca fui tão feliz depois que a Jade morreu o quanto eu fui feliz com você e ele! – eu admiti, chorosa e ela voltou a chorar, mas menos arrependida.
Agora era só choradeira, porque nós duas estávamos tristes demais para podermos parar para pensar em qualquer outra coisa.
E depois que as duas bobas paramos de chorar, olhamos uma para a outra e rimos da nossa cara de choro. Por mais que na minha cabeça, nós ainda podíamos ter marcas de tristeza. Ela podia ficar bonitinha rapidinho, mas eu teria que usar vários pacotes de gelo pra aliviar o inchaço dos meus olhos.
Ela parou por um instante e eu estranhei essa reação dela. Daí ela voltou, do nada e falou apressada:
-Eles chegaram! Eles acharam Wally!
Dessa vez foi a minha vez de sentir o joelho vacilar e ir ao chão.
Megan saiu da minha mente e nós voltamos para o mundo real, sem mais dor absurda de cabeça. Quando notei Kaldur estava terminando de suturar a minha barriga com alguma coisa e Robin estava do lado de fora da barraca, conversando com o garoto da Doze.
-O nome dele é Conner. – Megan me disse, lendo meus pensamentos como de costume e quando eu voltei meus orbes pra ela vi um sorriso genuíno e as lágrimas que molharam meu rosto – Não se preocupe. Tudo vai ficar bem. Ele está bem. – se não fosse pela perda dos sentidos depois da perda do sangue eu estaria corando, mas tudo bem. A gente esquece esse pequeno fator.
-Onde Wally está? – perguntei a Kaldur, tentando me mexer. Ele pôs a lateral da mão com a agulha sobre meu tórax, me empurrando pro saco e parando o meu movimento. Seus olhos encontraram os meus e eu prendi seu gesto.
-Wally está na outra barraca, Babs está cuidando dele. – eu arregalei meus olhos.
-Ele está machucado?! – tentei me mexer de novo, mas Megan segurou minha cabeça e Kaldur me empurrou pra trás novamente.
-Não. Só está ralado das pedras. Ele apagou agora no caminho do acampamento, falando que você não o deixava dormir porque não parava de gritar e chamar por ele. – eu vi um breve sorriso nos lábios dele – Ele já tomou as vitaminas dele e a Babs está enfaixando os machucados nele e tentando costurar umas unhadas nos braços dele. – ele arqueou uma de suas sobrancelhas – Foi você, por acaso?
-Não me lembro disso. – voltei a olhar Megan e ela começou a rir.
Kaldur achou aquilo estranho e sabia que tinha sido eu, obviamente. Mas deixou passar.
-Pronto. Você pode dormir agora, Artemis. Depois nós conversamos. – Kaldur me alertou assim que colocou bandagens decentes e apertadas, com cheiro de remédio na minha barriga – Eu só vou enfaixar o seu braço e colocar outro curativo no seu tornozelo porque ele ta inchado. Depois nós fazemos o interrogatório.
Eu engoli em seco e senti minha garganta arder.
Megan me trouxe água e falou que ia me lavar quando eu acordasse.
Eu só sei que fazia muito tempo que eu não dormia por vontade própria, com segurança de que eu estaria bem quando eu fosse acordar – bom, pelo menos com curativos eu estaria.
Megan desvirtuou meus pensamentos para quando eu era bebe e ouvia a minha mãe cantar uma cantiga de ninar vietnamita pra eu dormir.
Nos meus sonhos eu vi uma equipe de super-heróis salvando pessoas num passado bem distante, com roupas de malhas e caras cobertas por máscaras. Cada um com a sua particularidade e eu sabia quem era – ou melhor, éramos. Éramos aquelas pessoas daquela acampamento e, no final do meu sonho, ou até onde eu me lembro, vi Gar sentar numa árvore, meio-menino e meio-macaco, sorrindo pra nós e acenando para Tula se juntar a ele da lagoa onde nadava.
Foi um sonho muito bom. Muito bom mesmo.
Continuam no jogo:
Zona 1 – Klarion Bleak - Klarion e Zatanna Zatara - Zatanna
Zona 2 – Cameron Mahkent – Icicle Jr. e Crystal Frost – Killer Frost
Zona 3 – Jinx
Zona 4 – Tommy Terror e Tuppence Terror
Zona 5 – Billy Batson – Captain Marvel e Cassie Sandsmark – Moça Maravilha
Zona 6 – Kaldur Ahm - Aqualad
Zona 7 – Roy Harper – Arqueiro Vermelho e Artemis Crock
Zona 8 – Wally West – Kid Flash e Jesse Chambers – Jesse Quick
Zona 9 – Dick Grayson – Robin e Barbara Gordon – Batgirl
Zona 11 – Megan Morse – Miss Marte
Zona 12 – Conner Kent – Superboy e Kara Kent – Supergirl
Bem... Como Gar tinha falecido, achei que esse capítulo precisava, realmente, ser cheio de sentimentos reprimidos pela Artemis que estavam fartos e resolveram se manifestar - vou culpar o clima de manifestação durante a copa. Vou dizer também que game of thrones tem culpa no tempão que eu levei pra atualizar a fic, mas eu também estava terminando o semestre na faculdade e vou admitir que estou de DP em uma matéria.
Bem, eu estou muito chateada e eu fiz aquele negócio de fic atualizada e comentada e é postada sempre sem atrasos, mas eu realmente fiquei sem eira nem beira quando eu vi minha média final e vi que não tinha alcançado ela. Faculdade é dificil, não deixem pra garantir a nota na ultima da hora, pessoas. Sejam esforçadas ou vão ficar tão mal quanto eu.
Enfim, além de não ter tempo, eu não tinha inspiração e acabei adiando. Hoje eu escrevi mais de três quartos dessa fic, e, acreditem, eu estava bem inspirada.
Artemis apagou varias vezes e eu acho que ela ficou presa na caverna com Wally uns dois pra três dias, visto que tantos eventos aconteceram.
O próximo capítulo vai ser complicado, mas eu não vou dar previsão pra poste. Só fiquem acompanhando. Dessa vez, como estou de férias, assim espero, que não vai demorar um mês - talvez uma semana - no máximo. Quero aproveitar pra adiantá-la antes de voltar as aulas.
Além disso, eu tenho um projeto de enviar uma história minha pro Japão pra virar mangaká! ^.^ Por isso eu também demorei. E talvez eu demore para postar por causa disso.
Bom, eu só queria me desculpar mesmo. Com certeza nos veremos essa semana ainda, então, beijos e até o proximo capítulo!
p.s.: desculpem a cara de pau, mas deem review!
