Ao subir o último degrau e entrar na bela torre de Astronomia me deparei com Malfoy escorado na sacada, olhando o terreno. Ele usava calças jeans escuras e uma camisa preta com as mangas enroladas até o cotovelo. Apoiava as mãos na borda da sacada e parecia com os pensamentos longe, tão longe que não percebeu quando entrei silenciosamente na sala e estiquei o braço com o pergaminho à frente dele.
Ele primeiro olhou o pergaminho e depois virou o olhar para mim.
Realmente, ele estava com uma aparência doentia, com os olhos opacos e até mesmo parecia mais magro.
Ele pegou o pergaminho e abriu-o.
- Então foi Zabini? – disse ainda olhando para o pergaminho.
Apenas concordei com a cabeça. E nesse silêncio ficamos durante alguns segundos.
- Obrigado. – disse Malfoy. Forcei um sorriso.
Mas não saiu forçado. Pela primeira vez em meses meu sorriso saiu espontaneamente.
E eu sabia por quê. Porque eu olhava nos olhos da pessoa da qual eu fugi durante tanto tempo. Meu coração morria de saudade, e deixei mostrar um pouco de toda a felicidade que eu sentia naquele sorriso.
Ele voltou a se escorar no parapeito e olhar para o terreno.
- Porque ainda não fugiu? – perguntou Malfoy.
- Fugir?
- Foi o que fez da última vez. E vem fazendo desde então.
Engoli a seco. Era verdade.
- Não vou fugir. Não mais, porque eu descobri que eu não consigo fugir. De que adianta fugir de você se...se você me persegue em meus sonhos, em meus pensamentos?
Ele tornou a me olhar.
- Está fazendo isso porque Zabini pediu?
- Não vou mentir, estou. Mas quando conversei com ele, ele me abriu os olhos pro quão mal estou fazendo a mim mesma negando esse sentimento.
- Não existe mais sentimento. – disse Malfoy.
- O que?! – disse incrédula. Não podia estar ouvindo aquilo.
- Não existe sentimento algum. Quando você saiu correndo de mim naquela noite fiz questão de tentar tirar você da minha cabeça.
- E conseguiu?
Ele não respondeu.
- Então é assim que a história acaba? – perguntei com lágrimas nos olhos.
- Sim.
Essa foi a gota d'água. Tudo que eu estava tentando controlar dentro de mim saiu em forma de lágrimas.
Não podia acreditar que tudo aquilo havia terminado daquele jeito.
Cada pedaço de mim queria gritar até meus pulmões ficarem sem ar.
Mas eu me controlei.
Me virei de costas, fechei meus punhos e comecei a andar em direção a escada.
Descia cada degrau pensando no que Malfoy havia me dito, e cada vez que eu ouvia sua voz ecoar em meus ouvidos era como se uma pequena faca entrasse em meu coração.
Terminei de descer a escadaria e me escorei na parede mais próxima. Minha cabeça doía de tanto chorar e eu chorava de tanto que doía. Doía. Muito.
- Gina? – disse uma voz conhecida, uma voz que eu tinha saudade há muito tempo.
- Harry!!! – exclamei antes de pular no pescoço dele o abraçando.
- Estava chorando? – perguntou Rony.
- Ah Rony! Que saudade eu senti de vocês!
- Não me respondeu, Gina...estava chorando?
- Eu..eu estava...é que eu tava preocupada com vocês e...daí bateu a saudade...e daí já viu né. – disse secando as lágrimas com a costa da mão.
- Sentimos muitas saudades também! – disse Hermione
- Mas voltaram...conseguiram o que queriam?
- Estamos no caminho certo. Mas só voltamos para pegar o resto de nossas coisas.
- Dessa vez, vamos ter de ir embora de vez.
Meu mundo pareceu desabar sobre minha cabeça pela segunda vez naquele mesmo dia, naqueles mesmos dez minutos.
- Vão...embora? – disse tentando absorver a informação.
- Vamos.
Respirava pesadamente, tentando decidir alguma coisa.
Mas eles não me deram tempo para isso.
Harry veio até mim, pegou minha cintura, levantou meu rosto e me deu um beijo que faria qualquer menina esquecer da vida.
Quando ele se separou de mim, disse olhando nos meus olhos:
- Dessa vez você vai conosco, querendo ou não.
- Está bem, só me dêem tempo para arrumar minhas coisas e me despedir dos meus amigos. – disse com a voz baixa.
- Vamos..vamos em um lugar antes, nos encontre nos jardins quando estiver pronta.
- Está bem.
Eles começaram a andar pelo corredor em direção à sala de McGonagall e ao virarem à esquerda eu me vi sozinha no corredor, exatamente como antes.
Merlim!
Eu ia mesmo fugir, deixar tudo pra trás.
Deixar Malfoy.
Malfoy!
Será que eu devia simplesmente ir embora?
Malfoy o fizera comigo...saíra sem dar satisfação, sem nem ao menos avisar...
Tudo bem que estávamos afastados...
Mas fingir que nada nunca acontecera?
Olhei para a escadaria que eu tinha acabado de descer.
Nunca conseguiria ir embora em paz se eu não fizesse o que eu tinha de fazer.
Então subi decidida a escadaria mais uma vez.
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Dessa vez fiz questão de fazer bastante barulho ao bater a porta em minhas costas, o que fez Malfoy se sobressaltar e se virar.
- O que pensa que está fazendo? Quer me fazer ter um ataque cardíaco?
- Estou aqui pra me despedir. – disse sem rodeios.
Malfoy me olhou com uma expressão de dúvida e cruzou os braços na frente do corpo.
- Se despedir?
- É. Vou embora. Vou sair do castelo e tentar ajudar Harry e os outros com o que quer que estejam fazendo.
Ele não falou nada, só me olhava nos olhos, daquele jeito que ele sempre fazia. Aquele jeito que me deixava inteiramente encabulada.
- Achei que devia saber. – disse antes de me virar para sair.
Para deixar Malfoy para trás, talvez para sempre.
