Capítulo Onze
Helpless, Hindered, Hero
(Impotente, Impedido, Herói)
Sirius apareceu na frente de uma pequena cerca de pedra e ajeitou a capa de viagem. Fumaça saía da chaminé e luz dourada saía pelas janelas da casa. Sirius abriu o portão de ferro e caminhou pela trilha de pedras até a porta da frente.
Bateu uma vez e ouviu barulho vir do lado de dentro, mas, um minuto depois, ninguém tinha ido abrir a porta. Sirius bateu de novo e, depois, pela terceira vez. Olhou pela janela mais próxima; a luz da cozinha estava acessa, mas não conseguia ver ninguém. Irritação subiu por seu pescoço.
— Senhor Morton, é o Auror Black — chamou. Ouviu o barulho de algo sendo arrastado e, então, um ranger, como o de uma porta ou janela sendo aberta. — Morton, abra a porta. — Um baque e a irritação de Sirius deu lugar à inquietação. — Morton!
— Socorro!
Fora tão fraco que quase fora um sussurro e Sirius achou que não teria ouvido se não fosse por sua audição canina.
— Ventus Maximus! — disse Sirius e a porta foi aberta. — Guie-me — disse e a varinha girou e apontou para o cômodo à direita; havia uma porta que levava à cozinha. Morton estava afundado em uma cadeira, o rosto pálido, e ofegante, como se houvesse corrido ou voltado de um treinamento de Quadribol particularmente vigoroso. Ele também parecia ter perdido vários quilos nas últimas duas semanas.
Morton não reagiu quando Sirius entrou; ele olhava para o nada com olhos desfocados e caídos, e Sirius não sabia se tinha sido notado. Ele caiu de lado da cadeira, e Sirius conseguiu cruzar a cozinha a tempo de impedir que ele batesse a cabeça no chão de pedra. Conseguiu deitá-lo no chão e começou a convocar feitiços não verbais de diagnóstico. Verbalmente, abriu o Auxiliar e, apesar de não conseguir falar com Hemsley, conseguiu falar com Brown. Achava que nunca ficara tão feliz em ouvir a voz do Recruta.
— Bl...
— Não fale, ouça. Estou na casa do Morton; uma casa de pedra grande, fica entre o cemitério Lockswood e River Avon, em Bath. Morton não está bem. — Sirius olhou para a lista de diagnósticos que começava a aparecer no ar à sua frente. — Ele está com sangramento interno na base do cérebro; fim do crânio, começo do pescoço... — Morton começou a se debater e a se engasgar nos braços de Sirius. — Eu preciso que você e Hemsley venham pra cá agora — disse com urgência. — E tragam um Curandeiro. — Não havia como transportar Morton nesse estado; ele provavelmente morreria.
Acenou a varinha para conjurar um feitiço que engrossava o sangue; não engrossaria o bastante para bloquear as artérias, mas causaria coágulos pequenos que, esperava, parariam o sangramento. Era a única coisa que sabia poder ajudar e nem era para ser usado em ferimentos internos; o cérebro era complicado até para Curandeiros experientes, e as habilidades de cura de Sirius se limitavam a ossos quebrados, músculos distendidos, cortes e mordidas. A coisa mais perto com que já tinha lidado tinha sido uma garganta torcida, mas pudera ver o que estava fazendo e contara com a ajuda de Ditamno.
— Accio Ditamno — disse, mas nada aconteceu, nem mesmo um barulho nos armários ao redor. Sirius usou um feitiço que funcionava como uma poção de reposição de sangue, mas que não chegava nem perto de ser tão poderoso, e esperou que isso ajudasse em alguma coisa.
Onde você está, Hemsley?, pensou, desesperado.
De repente, os olhos de Morton se focaram nos de Sirius. Ele ergueu a mão, presumidamente para segurar Sirius, mas errou por vários centímetros.
— Por favor, não deixe que ele... — Ele se interrompeu ao engasgar. Sirius jogou o Auxiliar no chão.
— Ele? Quem? — perguntou Sirius, apertando o pulso de Morton. Quando não teve resposta, segurou a mão dele e a apertou. A pouca cor que havia no rosto de Morton sumiu. — Morton! Morton, consegue me ouvir? — Por um momento, Sirius achou que ele houvesse morrido.
— Sua culpa — gaguejou Morton sem abrir os olhos. — Você fez isso, Black... — Sirius ficou surpreso por seu nome ter sido usado; não tivera certeza que Morton sabia quem ele era. — Você me matou, você não viu, não ajudou. — Sirius segurou Morton quando ele teve outra convulsão e estava tão ocupado tentando se garantir de que o outro bruxo não se machucasse, que não teve tempo de se mexer quando o jantar de Morton decidiu reaparecer sobre suas vestes. — Você... — A voz de Morton sumiu quando ele ficou inconsciente.
— Rennervate — disse Sirius várias vezes. Nada aconteceu. Usou dois feitiços em rápida sucessão; um para manter Morton respirando e outro para manter seu coração batendo e, então, sentou-se ao lado dele, impotente, esperando, até que Hemsley entrou com Brown e o Curandeiro Leatherby, que foi direto até Morton, a varinha já cortando o ar. Sirius se levantou e saiu do caminho.
— Ele está...
— Ainda vivo — disse Sirius. Hemsley assentiu. Brown olhava para a marca de vômito nas vestes de Sirius com nojo, e para Morton, que se torcia, com medo. — Há alguma coisa que eu possa fazer para... — Interrompeu-se e Brown perdeu o ar quando Morton ficou parado. Ficaram em silêncio por um momento. Leatherby continuou a acenar a varinha, antes de abaixar a mão e colocar os dedos no pescoço de Morton.
— Morto — disse Leatherby, inexpressivo.
Sirius fechou os olhos e respirou fundo... Então, torceu o nariz, porque a cozinha realmente fedia à comida meio digerida e à ácido do estômago.
— Leve o corpo — disse Hemsley a Leatherby, que assentiu. — E amostras disso. — Indicou a sujeira no chão. — Se ele foi envenenado, vai aparecer nas análises. Brown, vasculhe o resto da casa. — Hemsley esperou até que Brown saísse e que Leatherby pegasse as amostras e o corpo antes de aparatar. Então, virou-se para Sirius. — O que, em nome de Merlin, você estava pensando? — suspirou.
— Você deixou bastante claro que não achava que valia a pena investigá-lo...
— Ele não...
— Ele está morto — disse Sirius. — Obviamente ele vale... valia a investigação. Não conseguia me livrar da sensação de que ele estava envolvido nisso tudo de algum modo e pensei em vir falar com ele de novo. — Hemsley apenas o olhou. — Não preciso da sua permissão para seguir uma pista.
— Pista? Seus instintos?
— As pessoas já encontraram mais coisas guiadas por menos — disse Sirius.
— E você encontrou um moribundo — disse Hemsley. — Então responda isso: ele ia morrer de qualquer jeito e você ter chegado à cena foi mera coincidência, ou ele morreu por que você o visitou?
— Você acha que eu o matei?! — rosnou Sirius.
— Não — disse Hemsley, balançando a cabeça. — Mas os outros podem achar, porque você escondeu essa visita. Scrimgeour confia em você, mas se Dawlish ficar sabendo disso, ou algum funcionário do escritório do Ministro... Eles vão te investigar, Black, sabe disso. — Sirius sabia. Só vira Fudge em algumas poucas ocasiões desde seu julgamento, e o homem normalmente animado tinha sido bastante frio. Dawlish tinha liderado a campanha Anti-Auror-Black depois do teste dos Recrutas no natal (ele reclamara longamente a Scrimgeour e até começara um abaixo-assinado) e, enquanto Crouch não parecia se importar muito, as poucas vezes que Sirius estivera na companhia da outra Subsecretária de Fudge (aquela tal de Umbridge), ela cheirara a medo e ódio... E essa, Sirius sabia, nunca era uma boa combinação. — Só estou dizendo para tomar cuidado.
— Não era segredo — disse, frustrado. — Eu decidi vir aqui num impulso. Ninguém sabia — Hemsley abriu a boca, e Sirius fez um sinal para que ele a fechasse —, claro, mas eu teria preenchido um relatório pela manhã. Não era pra ser grande coisa. Era só uma visita, na qual eu não ia encontrar nada e passaria o resto da noite me dizendo que estou trabalhando demais e ficando paranoico. — Hemsley bufou, zombeteiro, antes de suspirar.
— Só que não está ficando.
— Ainda não — suspirou Sirius, olhando para o lugar onde Morton estivera. — Meio que queria que estivesse. — Ficaram em silêncio por um momento; Hemsley parecia perturbado e Sirius sentia demais (tristeza, cansaço, preocupação, estresse, solidão) para sentir qualquer coisa.
— Faça uma lista — disse Hemsley por fim — dos traços mágicos da região e qualquer feitiço identificável que tenha sido erguido nas últimas vinte e quatro horas. Eu faço a procura manual. — Pulou a bagunça que estava no chão para ir até a janela da cozinha, que estava entreaberta, e começou a correr a varinha pelo peitoril.
Sirius suspirou, sacou a varinha e começou a trabalhar.
Ficaram na casa de Morton por mais algumas horas, vasculhando a casa de todas as maneiras — mágica, não-mágica, canina — que conheciam. Os Morton, parecia, eram pessoas muito normais, e não encontraram nenhuma evidência de qualquer coisa sinistra ou sequer suspeita, além do óbvio: o próprio Morton.
Sirius foi embora um pouco depois da meia-noite e foi direto para o escritório, querendo encontrar Scrimgeour e informá-lo do que tinha acontecido; costumava ser melhor tirar esse tipo de coisa do caminho o mais rápido possível e o homem mais velho estaria pelo escritório, porque ele estava ensinando os Recrutas até meia-noite e, depois, teria uma reunião com Moody, Robards e Dawlish — os três Aurores mais antigos — até uma da manhã, como sempre fazia às quintas-feiras à noite.
Sirius era o único no elevador que o levou ao Nível Dois, o provavelmente era para o melhor, e quando chegou em seu cubículo, tirou a capa, vestes e camiseta, que estavam úmidas e cobertas pelo vômito de Morton, conjurou uma mala e as guardou. Então, usou a varinha para mandá-la para Grimmauld. Lidaria com elas quando chegasse em casa, ou Monstro o faria. Suas calças, felizmente, estavam limpas.
Usou alguns feitiços de limpeza para se livrar do cheiro, antes de começar a fuçar em sua mesa, procurando por algo que pudesse transfigurar em uma camiseta nova. Escolheu um pedaço de pergaminho e tentava decidir qual feitiço usar quando Marlene entrou.
— Oh! — disse ela. — Desculpe, eu só...
— O quê? — perguntou ele, cauteloso. — Nunca viu um umbigo antes? — Marlene revirou os olhos.
— Sabe que já vi — disse. Mordeu o lábio. — Entreouvi Brown falando com Gelder. — Gelder era o Curandeiro da Mente que aconselhava os Aurores e Recrutas quando eles precisavam. — Parece que você teve um dia difícil.
— Pode-se dizer que sim — suspirou Sirius. — Um homem está morto e ele disse que foi minha culpa... que eu não vi... seja lá o que isso signifique.
— Se vai começar a se lamentar...
— Não vou me lamentar — garantiu a ela. — Eu pensei bastante nisso pela última hora e não consigo pensar em nada que fiz de diferente... E isso meio que piora tudo, porque eu estava impotente. Sabe o que quero dizer? — Marlene o olhou com tristeza e deu um passo para perto, para que pudesse colocar a mão no braço dele. — É pior quando não é época de guerra — continuou ele. — Você não espera esse tipo de coisa. E só... digo, me culpar foi a última coisa coerente que ele disse antes de morrer. Eu não sei se ele só é um idiota e quer que eu me sinta mal, ou se ele realmente estava tentando me dizer algo. E Hemsley está certo... Se as pessoas erradas ficarem sabendo disso, então vou ser investigado e estarei suspenso até ter sido inocentado e sem Harry e Moony em casa, eu não teria o que fazer. — Marlene ficou em silêncio, e Sirius a olhou. Ela desviou os olhos de sua clavícula e encontrou seus olhos. — É agora que você diz algo reconfortante.
— Nunca fui boa nisso — disse secamente e voltou a olhar para sua... não sua clavícula, percebeu, mas para a tatuagem logo abaixo.
— É meu número de prisioneiro — disse desnecessariamente. Ela apenas assentiu e correu um dedo pela tatuagem. Sirius estremeceu, e Marlene torceu a boca. — Tinha essa matéria no Profeta há alguns meses sobre colocarem mais tatuagem obrigatórias para os prisioneiros, mas eu saí só com essa, então...
— É estranho vê-la aí — disse, traçando-a mais uma vez, antes de abaixar o braço. Uma boa parte do estresse de Sirius sumiu, e ele observou Marlene com interesse. — Desconhecida.
— Não tem que ser — disse Sirius, dando uma piscadela. Marlene não inventou uma desculpa para ir embora, como ele meio esperara que ela fizesse, tampouco se virou e saiu correndo, nem respondeu com sarcasmo. Ela apenas o olhou.
— Talvez não — respondeu e ele podia jurar que sua voz tremeu. Sentiu seu rosto se contorcer em uma expressão chocada antes que pudesse evitar, e ela deu um sorrisinho afetado. Mas seus olhos não perderam a intensidade, e Sirius não se atrevia a desviar o olhar.
Esticou a mão na direção da cintura dela, para ver até onde ela estava disposta a ir. Ela não recuou, entretanto, e sua mão encontrou as vestes e, então, ela inclinou um pouco a cabeça, os olhos ainda nos dele. Era um gesto conhecido, e o estômago de Sirius se apertou de um jeito bastante agradável. Ele baixou a cabeça...
E, pela segunda vez em dez minutos, alguém entrou sem ser anunciado.
— Santo Merlin em um Hipogrifo! — Sirius e Marlene se afastaram num sobressalto para ver Dora parada com as mãos sobre os olhos. Seu cabelo estava branco pelo choque, mas sua pele estava rosada com a vergonha. — Merda. Desculpe, eu vou...
— Não, está tudo bem. Já estava indo embora — disse Marlene. Sirius tentou encontrar seus olhos, mas ela continuou olhando para a frente.
— Que diabos foi isso? — perguntou Dora.
— Isso — disse Sirius, sentando-se em sua mesa com um gemido — foi a prova de que parentes não têm a menor noção de tempo, não importa a idade deles. — Transfigurou o pergaminho em uma camiseta e a passou pela cabeça. — O que você quer?
Sirius achou que sua expressão mal-humorada silenciou qualquer pergunta que ela pudesse ter — ou, pelo menos, a convenceu a não querer fazê-las nesse momento —, porque ela pegou um pedaço de pergaminho.
— Remus mandou uma coruja, isso aqui é pra você — disse alegremente. — Eu ia esperar até amanhã, mas sua luz estava acessa, então achei melhor entregar agora mesmo.
Sirius decidiu que ia socar Remus na próxima vez que o visse.
-x-
Os Weasley Um e Dois, Draco refletiu, estiveram certos quando falaram a Weasley que as vassouras da escola não eram nada demais. A de Longbottom tentara sequestrá-lo tão logo montaram, mas Draco — que, infelizmente, acabara ao lado dele na fila — o tirou da vassoura antes mesmo que ele estivesse flutuando na altura dos ombros dos outros. Longbottom caiu na grama, assustado, mas bem.
— O quê? — disse Draco, enquanto todos os olhavam, e Longbottom se levantou, envergonhado. — Se ele não me chutasse o rosto ao tentar não perder o equilíbrio — essa tinha sido uma verdadeira possibilidade, na opinião de Draco —, ele teria caído em cima de mim. — Os Sonserinos pareciam pensativos, mas alguns sorriram, e Draco relaxou.
— Dez pontos para a Grifinória — disse Madame Hooch em voz baixa, e os Sonserinos gemeram. Draco suspirou. — Agora, quem pode me dizer qual foi o problema do senhor Longbottom? — Granger, previsivelmente, foi a primeira a levantar a mão.
— Obrigado — disse Neville num tom tímido, enquanto Granger dizia algo sobre a magia das vassouras sentirem as emoções de quem ia voar (era uma citação direta de Quadribol Através dos Séculos).
— Cale a boca, Longbottom — disse Draco e Longbottom ficou em silêncio com um guincho. Draco não sabia como se desculpar por tê-lo chamado de traidor de sangue na semana anterior (não era algo que tinha feito antes), mas achou que ajudá-lo era um bom começo.
Madame Hooch pegou uma nova vassoura para Longbottom e, dessa vez, toda a turma tomou o ar. Flutuaram com os pés a trinta centímetros do chão, e Draco olhou ao redor com interesse. Tracey, Granger, Thomas e Longbottom tremiam horrivelmente, e a habilidade do resto da turma — inclusive Draco — variava entre eles, e Potter, que estava tão estável que era como se estivesse sentado em um dos bancos do Salão Principal.
Madame Hooch passou um pouco de tempo com cada um deles — alguns, como ele, Potter, Weasley, Hydrus, Daphne, Gregory e Finnegan só ganharam uma ou duas frases —, enquanto outros receberam vários minutos de conselhos e correções. Era bastante satisfatório, na opinião de Draco, ver que Granger não era a melhor em tudo.
Ao terminar isso, Madame Hooch permitiu que eles flutuassem até a altura das janelas do segundo andar do castelo. Ela colocou um feitiço amortecedor no gramado antes de se juntar a eles no ar.
— O jeito mais rápido de aprender — gritou ela (estavam todos espalhados, e Draco achou ser melhor assim; não queria ficar perto dos novatos até ter certeza de que eles sabiam desviar) — é voando. — Ela acenou a varinha e vários percursos, traçados por uma magia laranja, apareceram. Ela explicou e depois demonstrou cada percurso; havia três percursos com duas linhas ao lado de cada um (para que pudessem praticar o voo em linha reta ou apostar corrida com um amigo), vários quadrados (para praticar as curvas), um percurso que parecia uma onda (para praticar a mudança de altura), cinco espirais (para praticar a curva e a subida ao mesmo tempo) e, por fim, uma série de aros para os alunos mais avançados usarem, os quais combinavam várias habilidades.
A turma se espalhou; Hydrus e Weasley foram direto para os aros, enquanto Tracey e Granger foram para as linhas (muito incerta e lentamente) e Theodore, Morton e Brown foram para as espirais. Draco estava satisfeito em apenas observar a todos — pessoas eram interessantes —, mas foi até os quadrados, onde Patil e Daphne aborreciam uma a outra. Potter tinha acabado com Longbottom e o guiava pelo percurso parecido com uma onda, mas Potter logo foi para as espirais.
— Cuidado! — Draco ergueu os olhos a tempo de ver Weasley fazer uma curva brusca quando Hydrus passou por ele em alta velocidade, antes de parar.
— Com medo, Weasley? — Draco procurou por madame Hooch, mas ela ajudava Tracey e não notara a comoção.
— Só do seu péssimo senso de voo — retorquiu Weasley. Patil começou a rir, Daphne ergueu uma sobrancelha, e Longbottom tirou sua atenção da onda. Hydrus corou furiosamente.
— Ora, seu...
Draco não sabia de onde Potter tinha saído, mas ele estava ao lado de Weasley em um instante.
— Cuidado, Malfoy. — Draco o ouviu dizer. — Seus amigos não estão aqui para te proteger. — Encararam-se por alguns momentos, antes de Hydrus passar por Weasley, empurrando-o. Weasley, entretanto, era maior que Hydrus, que cambaleou um pouco, antes de conseguir ficar na vassoura. Draco o observou se juntar a Vincent e Gregory.
— Viu a cara dele? — riu Weasley. Potter sorriu.
Draco observou a expressão determinada de Longbottom quando ele mandava a vassoura voar mais alto do que tinha ido até então; ele claramente queria se juntar aos outros dois e rir de Hydrus. Então, ele parou e os nós de seus dedos ficaram brancos. Draco sabia o que ia acontecer antes que acontecesse. A vassoura de Longbottom tremeu e subiu em alta velocidade. Longbottom urrou e se segurou na vassoura como se sua vida dependesse disso, enquanto ia cada vez mais alto.
— Madame Hooch! — gritou Draco, enquanto Potter e Weasley voam para as laterais; Longbottom os separara e continuara subindo. Potter gritou algo para Longbottom, mas Draco não o ouviu, tampouco a resposta de Longbottom. Potter voou atrás dele, ainda falando, mas incapaz de se aproximar, porque a vassoura girava e Longbottom se debatia. Os Sonserinos riam, mas Draco não achava engraçado; havia feitiços de amortecimento, certamente, mas eles tinham um limite. Longbottom podia se machucar seriamente.
— Madame Hooch! — disse Finnegan, alarmado, finalmente chamando a atenção dela. Longbottom estava bem acima deles, na altura da torre mais baixa do castelo, mas ainda subindo. Potter estava ao lado dele, tentando segurar a vassoura.
— Potter — gritou madame Hooch, voando até eles —, se afaste antes que se machuque! — A vassoura de Longbottom se sacudiu de um jeito particularmente violento e, então, ele caiu, indo em direção ao chão. Potter inclinou a vassoura no mergulho mais difícil que Draco já vira fora do Quadribol profissional.
— Mas que... — Draco ouviu Blaise murmurar. Granger soltou um som horrorizado, e Madame Hooch xingou de um jeito impressionante (o pai a faria ser demitida se ficasse sabendo) e voou ainda mais rápido, sacando a varinha.
— Arresto Momentum! — gritou ela, e Longbottom perdeu velocidade, mas continuou a cair. Draco conseguiu ver seu rosto brevemente; ele estava horrorizado. Potter saiu do mergulho a poucos centímetros do chão e começou a ir em direção a Longbottom dessa vez. Eles iam colidir, Draco tinha certeza.
— Ventus. — Draco ouviu Potter dizer e, por um momento, Longbottom subiu. Potter estava emparelhado com ele (ele tinha ido para o lado) e sua mão se fechou nas costas das vestes de Longbottom. O feitiço de Potter perdeu a força, e Longbottom caiu mais alguns centímetros, levando Potter com ele. A varinha de Potter caiu na grama e seu rosto se contorceu numa careta quando pararam abruptamente, mais uma vez no nível do segundo andar do castelo.
Madame Hooch os alcançou e ajudou Longbottom a subir em sua vassoura, antes de assoprar o apito. Potter tinha empalidecido, mas Weasley estava ao lado dele em um instante, então Draco achou que ele ficaria bem.
— Todos para o chão — disse ela, rouca. — Acabamos por hoje. Quero que guardem suas vassouras no armário e, aí, estão dispensados. Senhor Weasley, me ajude com esses dois.
Potter passou sua vassoura para Granger com a mão esquerda; o braço direito estava numa posição estranha na lateral de seu corpo.
— Eu pego — disse Draco, pegando a vassoura de Weasley quando ele tentou entregá-la a Granger. Ela já segurava duas. Weasley assentiu e foi embora com Madame Hooch, Potter (que parecia ter algum tipo de luxação ou deslocação) e Longbottom, que claramente precisava de algo para o choque.
Os alunos do primeiro ano guardaram as vassouras em silêncio e fizeram seu caminho pelo gramado. Hydrus, como esperado, Draco pensou, foi o primeiro a quebrar o silêncio. Ele se abaixou e pegou algo do gramado, antes de erguer para que todos vissem.
— Olha só o que Potter deixou para trás — disse Hydrus lentamente, acenando a varinha. Ela soltou fagulhas. — Ele não vai ter sorte nas aulas sem ela.
— Devolva — ralhou Granger, erguendo a mão. Vários Grifinórios soltaram sons raivosos, e Blaise, Draco notou, parecia desconfortável.
— Não — disse Hydrus. — Acho que não. Acho que vou... — Draco revirou os olhos e tirou a varinha da mão de seu irmão. Hydrus se virou para ele, sorrindo. — Parece que Draco tem uma ideia. O que vamos fazer com ela, irmão? — Pansy, Nadia e Daphne riram.
— Eu vou devolver a Potter — disse Draco, passando por ele e indo em direção ao castelo.
— Está brincando, né? — rosnou Hydrus. Draco o ignorou. — Draco?!
-x-
— Vim visitar Potter.
Harry sentiu pena de Madame Pomfrey, de verdade; já tinha sido visitado por Moony e pela professora McGonagall, um garoto chamado Oliver Wood e tinha conversado com Padfoot pelo espelho, que Ron tinha ido buscar, antes de ficar consigo pelo resto do tempo. Mas sua pena deu lugar a curiosidade; por que Draco estava o visitando?
— Avise-o que ele pode ir embora quando estiver pronto — disse ela com irritação, antes de ir para seu consultório.
— Malfoy — disse Ron quando Draco se aproximou.
— Weasley. Potter. Isso é seu. — Harry olhou para a varinha conhecida na mão de Draco, surpreso. Apalpou os bolsos e, certamente, estavam vazios. — Ela caiu durante seu ato de heroísmo — disse lentamente.
— Obrigado — disse Harry, aceitando-a.
— Está machucado? — perguntou Draco depois de uma pausa desconfortável. Ele parecia preocupado.
— Madame Pomfrey me curou em dez segundos — contou Harry, encolhendo o ombro recém curado. — Estou bem; ela só queria que eu descansasse, mas eu a ouvi dizer que posso ir embora, então é o que vou fazer. — Saiu da cama, vestiu o suéter e as vestes do uniforme e guardou o espelho no bolso. Olhou para o relógio e sorriu; era a hora do jantar e estava faminto.
— Posso me sentar com vocês? — perguntou Draco abruptamente ao passarem pelo escritório de McGonagall no primeiro andar. Harry o olhou, confuso. Draco fez uma careta, antes de franzir o cenho. — Eu sei que fiz algumas coisas maldosas nas últimas semanas — disse, defensivo —, mas eu ajudei Longbottom hoje e devolvi sua varinha, então o mínimo que pode fazer é não me forçar a me sentar com Hydrus, porque ele vai estar furi...
— Não precisa pedir — disse Harry, interrompendo-o. Draco piscou, e Ron parecia querer rir. — Se quiser se sentar conosco, é mais do que bem-vindo.
— Oh — disse Draco, baixinho. — Obrigado. — Hermione estava sentada com Percy quando chegaram e ela se levantou num pulo.
— Oh, Harry! — disse. Harry segurou seu braço e a forçou a se sentar antes que mais alguém os olhasse. Ron se sentou do outro lado deles, com Draco, que, ansioso, evitava olhar para os Sonserinos. — Eu estava tão...
— Hermione — disse ele —, se acalme; estou bem.
— Pegou sua varinha? — perguntou ela abruptamente.
— Sim, Draco a devolveu — disse. Hermione pareceu surpresa e envergonhada. Draco fez uma careta para ela, e Harry e Ron riram. — Eu...
— Aqui está ele! — disse George.
— O homem do momento...
— Está mais para do século — corrigiu George.
— Wood nos contou — disse Fred, abaixando a voz.
— Bem-vindo ao time, Potter.
— Não existem segredos em Hogwarts, né? — perguntou Harry, sorrindo.
— Bem, conseguimos pensar em alguns — disse Fred. — Mas não seriam segredos se te contássemos.
— Time? — perguntou Hermione. Ron a olhou, sorrindo.
— Conheça o mais jovem jogador de Quadribol do século.
Continua.
